8.10.04

São Francisco e a árvore sua irmã


Foto: pva 0410 - Parque das Termas de Vizela

G. K. Chesterton, na sua biografia de São Francisco de Assis, explica que o santo não era, no sentido vulgar da expressão, um amante da natureza: em vez de um encantamento panteísta pela natureza no seu conjunto, ele amava separadamente cada pássaro, cada árvore, cada insecto; para ele a natureza não era um cenário indiferenciado, mas antes um teatro frenético onde, em lances dramáticos, cada ser vivo fazia ressaltar a sua personalidade.

«The hermit might love nature as a background. Now for St. Francis nothing was ever in the background. (...) He saw everything as dramatic, distinct from its setting, not all of a piece like a picture but in action like a play. A bird went by him like an arrow; something with a story and a purpose, though it was a purpose of life and not a purpose of death. (...) In a word, we talk about a man who cannot see the wood for the trees. St. Francis was a man who did not want to see the wood for the trees. He wanted to see each tree as a separate and almost a sacred thing, being a child of God and therefore a brother or sister of man.» (G. K. Chesterton, St. Francis of Assisi, 1923)

Para São Francisco a sua irmã árvore era um maior hino à glória do Criador do que uma sumptuosa catedral. Por isso consigo imaginá-lo a conversar com cada uma das tílias desta alameda no Parque de Vizela, seguindo com os olhos as folhas secas que o Outuno incipiente vai fazendo tombar. E imagino também o seu desgosto ao deparar, ainda em Vizela, com outras tílias menos felizes, amputadas para não taparem a fachada da igreja: diria o santo que nem os homens de Deus são imunes à vaidade de preferirem obra humana à criação divina. Quem ordenou essas podas talvez seja indiferente mesmo à natureza como cenário, pois só um sentido estético embotado pode achar que um tal agrupamento de árvores grotescas tem efeito ornamental. Mas esses pobres destroços testemunham, pior do que a indiferença, a perversão egoísta do sadismo.

2 comentários :

Anónimo disse...

E que "sumptuosa catedral" criam as tílias da sua bela foto!

Anónimo disse...

"que um tal agrupamento de árvores grotescas tem efeito ornamental"

Leia-se:
"árvores grotescamente adulteradas"
não é?