18.2.06

Camélias e pássaros


Foto: pva 0602 - Mathotiana rubra, mãe de Augusto L.G.P.

«Linda, a camélia da manhã. Puríssima. Eu entrava no horto quando era miúda e sim, lembro-me das camélias por serem das minhas flores preferidas, ainda não tinham nome de "Lavinia" ou "Margaret". Por isso é que hoje ao vê-las aqui, é como folhear um album de gente conhecida e amiga. Acho que, na verdade, as conheço bem. E por saber que não "cheiravam a nada", cheirava-as todas. Chamavam Japoneiras às árvores; eu também era bastante virada a Oriente pelo que nelas até o nome me atraía! Ali era, então, o horto, em frente ao Museu. A casa existe (é linda por dentro), ficou emparedada pelo "Cristal qualquer coisa". Ao fundo desse CC sentei-me algumas vezes, de coração partido, a olhar para os melros e as poucas árvores que aí restam. Os quintais vizinhos, também. Como fazem as lojas ou os cafés tão escuros quando há pátios e trepadeiras nos velhos jardins! Como se fecham, com tanto sol e ar e céu e mar! A pêra que ainda hoje é o logotipo do horto, estava na parede do lado do Carregal e dizia "Plantai as nossas sementes e colhereis melhores frutos", talvez... Eu gostava muito daquele anúncio, uma pêra grande. Assustava-me um pouco o imperativo - Plantai; tomai e comei; Olhai - parecia-me um pouco como o dedo ameaçador de Deus no catecismo (eu só gostava daquele Jesus que expulsava os vendilhões do templo, esse é que me dava gozo). Iamos lá, ao horto, eu e o Senhor Juvandes (incrível como me lembrei deste nome) quando havia alguma "festa" no Museu - seria isso? Não sei bem, sei que um jardim e plantas e árvores e bolbos e flores eram o meu encantamento, sempre. Pois, o Senhor Luís J era o porteiro do Museu Soares dos Reis. Eu morava perto e era pequena, levava-me com ele para brincar nos jardins. Ao fundo, tenho a certeza de que havia vacas a pastar. Um pórtico em pedra, árvores enormes. Gárgulas, miosótis (forget-me-not) e musgo macio. Escadinhas com heras. Pedras trabalhadas abandonadas pelos canteiros. Leões nas fontes e nenúfares rosados. O rei D.Afonso Henriques estava no átrio, estátua imponente (para mim) com a sua cota e espada. Tirando o D. Dinis que lavravra e fazia poesia, esse era o rei que de quem eu gostava antes de o aprender na Escola. Eu andava pelo museu e pelos jardins, livre com uma abelha. Todas aquelas estátuas, muitos quadros, instrumentos musicais, faianças, vestuário antigo bordado, em tudo isso eu podia mexer porque eu era "a menina bem comportada". Quando pedi, há um ano ou dois, a um segurança, para me deixar ver o jardim lá atrás, fiquei chocada. Não explico porquê. Foi mais um arranjo modernaço.

Não há sítio de romance. (Romances só nos Centros Comerciais, nas Praças da Alimentação, com árvores e comida plástica). Isto é o que te queria contar da camélia, do horto e do museu. Há um pássaro que aparece, fugidio, nos prédios das traseiras. Não é pomba, nem pardal, nem gaivota, nem rola, nem melro. É um pássaro esbelto, saltitante, com duas manchas brancas nas asas. Vai, determinado, a um sítio. Num segundo pousa e no outro voa. Quando voa para baixo, o pátio, faz uma curva graciosa. Quando abre as asas e foge como uma seta vêem-se manchas côr de laranja. Algums homens são como alguns pássaros. São coisas que eu às vezes cogito - há tempos que não escrevo esta palavra... mas é uma coisa que faço muitas vezes: não só pensar, cogitar, que me parece mais completo e controverso.»


Carta de E.P. (16/II/2006)

1 comentário :

Maria Mônica disse...

Fiquei facinada com estas camelias,
Mas moro no Brasil e venho a muito tempo tentando cultivar camelias, gostaria de saber como posso comprar este livro: O Mundo da Camélia - Livro Pois acredito que deva ter informações sobre o cultivo desta maravilhosa planta, Espero encontrar alguem que possa me dar esta informação. desde já agradeço a atenção
Mônica
monika238@yahoo.com.br