17.2.10

Cabeleira postiça



Polypodium interjectum Shivas

Sabemos que o Inverno é para cumprir quando as árvores largam a cabeleira verde. Tivéssemos nós, como elas, a paciência de esperar sem perder a compostura, e o mundo seria um lugar mais calmo. Há porém um fenómeno que nos faz duvidar do bom senso de algumas árvores, sobretudo das que já levam muitas décadas de existência. Não é que elas, como se se envergonhassem da nudez, se recobrem esparsamente com uma verdura postiça?

Nem é preciso ir ao Jardim Botânico de Coimbra para ver tal coisa, embora as tílias da famosa avenida sejam particularmente susceptíveis a esta caquéctica forma de vaidade. Se o leitor está numa sala que dá para uma rua com árvores, chegue-se aí num instante à janela. Ou então, quando mais logo for passear o cão, esteja atento à árvore onde ele escolhe aliviar-se. Porque são muitas as árvores em cujas ramadas uma folhagem rala, mas indubitavelmente verde, faz companhia ao musgo.

Essa folhagem que a árvore toma de empréstimo pertence a um feto do género Polypodium. Três espécies de difícil distinção entre si são comuns em Portugal. Não juramos que o Polypodium interjectum, acima ilustrado, que por vezes apresenta as extremidades das pinas arredondadas em vez de pontiagudas, e tem soros de forma elíptica ou oval, seja o mesmo que resolveu empoleirar-se na tília aí em baixo. Mas esta distinção é de pouca importância: todos os nossos polipódios têm morfologia semelhante e partilham o mesmo gosto de cavalgar nas árvores. Não são plantas parasitas, mas apenas epífitas, tal como as orquídeas dos trópicos. Acontece-lhes também viverem agarradas a rochas, muros, telhados ou beirais.

O Polypodium interjectum leva em português os nomes de feto-doce ou fentelho. As suas frondes, de que em cima vemos a frente lisa e o verso salpicado de esporângios, atingem os 40 cm de comprimento. É um feto que se encontra espalhado por boa parte da Europa.


Tilia x europaea L. - Jardim Botânico de Coimbra

1 comentário :

Maria da Luz Borges disse...

Estes também são meus velhos conhecidos, pois desde menina que eles fazem de palmeiras no presépio e aqui por Sintra encontram-se a cada esquina.
Luz