27.5.10

Abelha sem noivo


Ophrys apifera Huds.

Se tiver tempo, comece o caro leitor por reparar na bráctea verde atrás de cada flor e nas três sépalas largas cor-de-rosa (podem ser mais claras, ou lilás) com um veio central esverdeado. Atente agora no corpinho que elas envolvem: o labelo globular aveludado, embelezado por um corpete (há os que ali só distinguem a letra H) e um apêndice amarelo na ponta (em geral escondido, virado para baixo da flor, mas já o vimos espetado, parecia um triângulo amarelo); o estigma com uma banda alaranjada, moldado em taça, e dois lóbulos penugentos que parecem asas. Para completar a imitação, note os pseudo-olhos que, com as duas pétalas-antena acastanhadas e minúsculas, lhe conferem um honesto porte (fera) de abelha (api).

Esguia (cerca de 20 cm de altura, mas já a vimos mais alta), é relativamente fácil de encontrar (em particular por coelhos malandros que lhe trincam as folhas e as hastes) em prados soalheiros da Europa, região mediterrânica e Médio Oriente. Prefere solo alcalino, bem drenado e pobre em nutrientes, que mantenha apenas uma vegetação escassa, mas, em anos recentes, tem colonizado áreas relvadas, torrões arados e bosques sombreados (Rúben, era esta a orquídea que viu no seu bosque). As folhas aparecem em Setembro-Novembro, a floração decorre de Maio a Junho e cada exemplar dura, em média, uns seis anos. A organização Plantlife, empenhada na conservação de fungos e plantas silvestres raras no Reino Unido, escolheu-a para emblema-flor do condado de Bedfordshire.

O formato desta flor sugere que ela evoluiu no sentido de atrair zangões como polinizadores. Mas, talvez entediada com tais artimanhas, a planta decidiu abandonar esta estratégia de sedução, e hoje quase todas os exemplares se auto-polinizam. A autogamia permite-lhes produzir, sem depender de segundos ou terceiros, quantidades copiosas de sementes (6 a 10 mil por cada cápsula), sem dúvida a razão da sua distribuição ampla. Como se vê na última foto, mal a flor abre, as polinias amarelas cheias de pólen, seguras por caudículos delgados e invulgarmente longos, são libertadas pelas anteras e baloiçam suspensas sobre a cavidade estigmática viscosa à espera que uma brisa as sopre para dentro dela. A propagação vegetativa, observada em plantas cultivadas, parece ser um mecanismo de último recurso.

4 comentários :

Francisco Clamote disse...

Ora ainda bem que ela se governa sozinha. Sinal de que a imitação não leva os "noivos" ao engano ?

cirandeira disse...

Lindo o seu blog. Adorei!
Gosto demais de árvores, de plantas, de Natureza, enfim...
Voltarei com mais calma, quando tiver um tempinho...

Maria Carvalho disse...

Francisco: Leva ao engano, sim, mas rareiam os noivos.

cirandeira: Seja bem-vinda, cirande por aqui à vontade.

saikoi disse...

boas,
parabéns por este belo espaço,para mim esta orquidea é uma das mais bonitas que temos por cá,este ano até no relvado do jardim do predio apareceram uns quantos exemplares.
o que a natureza faz :-)
cumpts...