22.8.17

Águas entubadas



Bolboschoenus glaucus (Lam.) S. G. Sm.




Desde os humildes regatos aos grandes rios, os cursos de água assumem os mais variados tamanhos, mas todos eles porfiam por alcançar o mar. Alguns fazem-no directamente, outros entregam-se como afluentes aos que já romperam caminho para a costa. Com o crescimento das cidades, as ribeiras de pequeno caudal que as atravessavam foram sendo entubadas, por serem incompatíveis com o cimento e o asfalto ininterruptos sobre os quais nos habituámos a fazer a nossa vida. Uma vez escondidas dos nossos olhos, podiam ainda, ignominiosamente, ser convertidas em esgotos. Os lugares onde as águas, finalmente a descoberto, chegavam ao mar (ou a um rio que, pela sua dimensão, não pudesse ser ocultado) tornavam-se então focos de sujidade e de cheiros pestilentos. Porque a espécie humana sente uma repugnância paradoxal pela porcaria que ela própria produz, não é essa a vizinhança preferida de quem vai à praia para banhos de sol ou de mar. A solução era prolongar o entubamento pelo mar fora, fazendo com que a água choca saísse a umas centenas de metros da praia.

Felizmente muito mudou nas últimas décadas, e essa é uma conquista civilizacional que merece ser celebrada. Em Gaia e em Matosinhos, muitas ribeiras foram despoluídas e (parcialmente) desentubadas, desaguando agora no areal sem incómodo para os veraneantes e sem lhes pôr a saúde em risco. É até didáctico: às crianças que se entretêm a fazer castelos de areia podem agora os pais mostrar um rio em miniatura chegando à foz. Entre a flora dunar beneficiada por esta melhoria conta-se a Honckenya peploides, que vive em areias de beira-mar mas precisa de molhar as raízes em água doce. Em Matosinhos não é invulgar encontrá-la debruçada nestes ribeiritos que meandram preguiçosamente pelo areal. A sul do Douro ela rareia, e há dois ou três anos que não conseguimos detectá-la nos pontos do litoral gaiense onde costumava existir. Oxalá reapareça. Em compensação, na Aguda, onde um curso de água recém-libertado forma um pequeno charco na areia, surgiu uma população, concentrada mas numerosa, de uma das ciperáceas mais raras do país, o Bolboschoenus glaucus. Trata-se de uma planta com caules com cerca de 1 m de altura, de secção triangular, encimados por espiguetas dispostas em fascículos longamente pedunculados; no seu congénere B. maritimus, bastante mais comum em Portugal, todas ou quase todas as espiguetas são sésseis. As duas espécies vivem sempre com um pé na água, mas o Bolboschoenus glaucus é exclusivo de águas doces e o B. maritimus (que existe com abundância, por exemplo, na lagoa de Paramos) dá-se bem em águas salobras.

Se as plantas se conformassem com o que os estudiosos escrevem sobre elas, o Bolboschoenus glaucus nunca apareceria em Gaia, pois a Flora Iberica apenas reporta a sua ocorrência no centro e sul do país. Mas, para uma espécie cuja área de distribuição natural vai da Europa até à Índia, não custará muito transpor as curtas distâncias dentro deste nosso ocidental rectângulo.

8.8.17

Flor das lampreias



Hieracium umbellatum L.



Na verdade, as lampreias que sobem o rio Minho e ficam presas nas redes armadas nas pesqueiras nunca olham para estas flores. Não porque sejam pouco dadas à contemplação, ou porque os desesperados esforços para se libertarem da armadilha não lhes permitam essa disponibilidade mental. Afinal que sabemos nós do que vai na cabeça dos bichos que matamos para comer? O desencontro entre a lampreia e este (chamemos-lhe assim) dente-de-leão é ditado pelo desfasamento temporal. É entre Fevereiro e Abril que a lampreia sobe o rio Minho para acabar nas mesas dos restaurantes a 35 euros a meia dose; e é de Julho a Setembro, quando o caudal baixa e as pedras à beira-rio escaldam ao sol, que o Hieracium umbellatum se entrega à tarefa de florir. Seria a mais tardia das plantas que enfeitam muros e rochas das pesqueiras, não fosse, em algumas lagoas e charcos, a florida companhia da Nymphoides peltata.

Uma outra asterácea de grandes capítulos amarelos, a Inula salicina, compartilha com o Hieracium umbellatum este habitat semi-natural em que os muros parecem, como as rochas, ter saído das mãos do Criador. Começa a florir dois meses antes, e diferencia-se pelas brácteas involucrais mais desenvolvidas e pelo disco central formado por florículos tubulares -- em contraste, os capítulos do Hieracium umbellatum são formados apenas por florículos ligulados (fotos 4 e 5 acima). As duas asteráceas que a lampreia nunca pôde ver também não são vistas por muita gente. A maioria das pesqueiras são pouco acessíveis, e quase ninguém as frequenta passada a faina da lampreia. Nas pesqueiras de Monção e Melgaço tanto uma como outra são fáceis de encontrar, mas de resto, a fazer fé no portal Flora-On, só aparecem em pouquíssimos lugares do Minho e de Trás-os-Montes. A sua preferência por afloramentos rochosos no leito dos grandes rios -- o tipo de habitat que o criminoso programa nacional de barragens tem vindo sistematicamente a afogar -- não lhes augura longo futuro.

Hieracium vem do nome grego para o falcão, ecoando a crença de que esta ave se alimentava da planta para tornar a vista mais apurada (como antes se dizia às crianças que as cenouras fazem os olhos bonitos). Assim se explica que os anglo-saxónicos chamem hawkweed às plantas do género. A outra coisa que sobre elas convém saber é que têm uma taxonomia terrivelmente enredada. A hibridação, a poliploidia e a apomixia (capacidade de produzir sementes férteis sem fecundação) fazem com que o número de espécies descritas, muitas delas pouco se distinguindo umas das outras, se situe, só na Europa, entre 5000 e 10000. Nenhuma flora que tentasse descrever todas estas espécies teria qualquer utilidade prática, de modo que os especialistas se puseram de acordo em destacar um certo número de espécies principais, suficientemente disseminadas, que se foram combinando para dar origem a todas as outras. Na Península Ibérica supõe-se que essas espécies principais não sejam mais que 26, contando-se entre elas o Hieracium umbellatum. O formato das folhas, a disposição dos capítulos em umbelas (i.e., elevando-se todos mais ou menos à mesma altura - confira aqui ou aqui) e a ecologia permitem-nos supor, com alguma confiança, que foi essa a espécie que encontrámos nas pesqueiras. Certeza, porém, é coisa que não está ao nosso alcance.

1.8.17

Lindas azedas

As folhas trifoliadas lembram as de um trevo, mas pela flor, com cinco pétalas venadas de lilás, percebe-se que não é do género Trifolium. Esta espécie de Oxalis, que Lineu descreveu em 1753, é comum em bosques antigos e sombrios da Europa e Ásia. Por cá, só se conhecem registos dela em regiões mais elevadas do Minho onde ainda sobram alguns carvalhais não perturbados. As fotos são de plantas da Cantábria, que aí convivem com o visco dos druidas e muitas outras herbáceas famosas.


Oxalis acetosella L.



As flores das aleluias são tacinhas com cerca de 2 centímetros de diâmetro que nascem entre Março e Junho, logo que a camada de neve começa a diminuir mas antes que as densas copas das árvores impeçam a luz de se infiltrar através da ramagem. Os pedúnculos das flores são altos e organizam-se com as folhas num arranjo interessante. Durante o dia, os folíolos formam um leque aberto e plano, num esforço conjunto para reduzir a sombra que cada folha pode causar nas restantes e, desse modo, garantirem a captação de toda a luz disponível. Para isso, as nervuras das folhas são ramificadas, permitindo à planta tê-las mais largas. Sobressaem, então, dessa mesa de folhas as flores brancas e pequeninas. Pelo contrário, à noite ou quando chove, os folíolos dobram-se (note-se a nervura central vincada em cada folíolo, o que facilita o origami) e, enquando agasalham a base da planta, impedem que o frio intenso, o vento forte ou a água em excesso os estraguem. Depois da floração, amarelecem e a planta hiberna, vivendo dos nutrientes que guardou no rizoma até à Primavera seguinte.

Admitindo que a maior parte dos detalhes morfológicos das plantas são de algum modo favoráveis às respectivas espécies, perguntamo-nos por que razão as folhas de algumas espécies são divididas em folíolos e que benefício retiram da coloração vistosa no Outono (em geral, tons de vermelho, laranja ou amarelo), precisamente quando estão prestes a cair.

O mais certo é que as tonalidades outonais sejam apenas resultado da interrupção da fotossíntese e da produção de clorofila, numa época do ano em que há cada vez menos horas de sol e a planta não pode despender a energia que uma folhagem vasta exige. Além disso, uma tal pigmentação também deve ser resultado de a planta sugar das folhas todos os nutrientes que ainda lhes restam antes de as soltar. Sim, tudo isso determina o tom de verde menos viçoso das folhas envelhecidas. Mas quanto a colorirem de vermelho ou púrpura folhas que estão à beira de morrer, isso parece a alguns botânicos exigir esforço. Sendo assim, a planta deveria retirar daí algum proveito. Mas qual? Há especialistas que afirmam que a cor está associada a substâncias anti-oxidantes, que protegem a base da planta e aumentam a eficiência com que absorve nutrientes durante o período invernal de dormência. Mas, dizem, para isso resultar, é essencial que tais folhas não sejam comidas pelo gado ou outros animais, nem se arruinem por servir de ninho para os ovos de insectos. A cor funciona, por isso, como um alerta de perigo, que dissuade possíveis predadores. Há outros cientistas, porém, que afirmam o contrário: em vez de tentar afastar, a cor forte chama a atenção de pássaros e outros bichos, que assim reparam nos frutos inconspícuos que caem com as folhas, os comem e disseminam. Controvérsia à parte, algumas destas vantagens decerto se aplicam a plantas que, como a O. acetosella, formam tapetes de folhas tenras, têm frutos pequeninos e vivem em habitats de solo rico mas com pouca luz.

Quanto à forma das folhas, em particular a opção por dividi-las ou enfeitar-lhes as margens, há decerto também vantagens a assinalar. O mais provável é que resultem de adaptações ao habitat, seja para as folhas não se destruirem com o vento, seja para reduzirem a perda de água, ou ainda para optimizarem a exposição solar. As folhas de plantas de bosques sombrios, como a O. acetosella, tendem a ser maiores mas mais finas, e a divisão em folíolos confere-lhes uma resistência que talvez não tivessem se fossem inteiras. Neste capítulo, a vulgar relva de estádio é das plantas mais especializadas e bem sucedidas: para fazer face ao cortes persistentes, as folhas são estreitas e longas, com textura rugosa e margens cortantes, e o crescimento centra-se não na ponta mas na base da folha. É como se crescêssemos apenas junto aos pés.

25.7.17

O voo do Corvo



Informações inúteis

Como ir. De avião pela SATA, ou de barco desde as Flores usando a lancha Ariel ou um semi-rígido. Os horários da SATA são flexíveis: o passageiro deve chegar com a antecedência regulamentar ao aeroporto, mas a transportadora exerce invariavelmente o seu direito de anunciar atrasos de última hora. No entanto, os atrasos das diversas ligações costumam encaixar na perfeição uns com os outros. Se uma das escalas for nas Flores, então nos melhores dias pode ser brindado com a mais paradoxal das surpresas, que é a chegada ao destino antes da hora da partida. Como é possível? O voo entre as Flores e o Corvo (ou vice-versa) dura cinco minutos; e, se já tiverem embarcado todos os passageiros, não há motivo para o avião não descolar de imediato. No nosso caso, com um total de seis passageiros que, para equilibrar o peso, se sentaram todos na parte de trás do avião, mais o comissário de bordo na outra ponta a despachar as instruções de segurança, levantámos voo oito minutos antes da hora marcada. Das ligações por mar, quem quiser ver golfinhos e saltar como eles sobre as ondas, com grandes borrifos de água salgada, deve escolher os fogosos semi-rígidos. Para os menos arrojados, recomenda-se a lancha Ariel da Atlânticoline, que costuma cancelar as ligações quando o mar está agitado e, nas festas das Flores ou do Corvo (ininterruptas em Julho e Agosto), só tem lugar para os previdentes que compram passagem com semanas ou meses de antecedência.

Onde comer. Quem faz turismo gastronómico não tem no Corvo um destino de eleição. Entre as nossas duas visitas à ilha, a primeira em Junho de 2016 e a segunda em Julho de 2017, há contudo novidades substanciais a reportar. Em 2016 havia dois restaurantes: o Caldeirão, junto ao aeroporto, e o Traineira, junto ao porto; ou, em rigor, já que distam 250 metros um do outro, os dois junto ao aeroporto mas o segundo mais encostado ao porto. Tendo jurado nunca servir peixe fresco aos clientes, pois quase tudo o que é pescado na ilha é vendido para o continente ou para as outras ilhas, tinham ainda assim pratos aceitáveis, com o Caldeirão esmerando-se um pouco mais e o Traineira monopolizando a clientela operária (há sempre no Corvo dezenas de trabalhadores vindos para obras do Governo regional). O duopólio permitia-nos diversificar as refeições, almoçando no Traineira e jantando no Caldeirão, ou almoçando no Caldeirão e jantando no Traineira. Nos dias em que algum deles fechava, íamos duas vezes ao que estivesse aberto, aproveitando a segunda ocasião para degustar o outro prato do dia. Se dispensássemos o luxo sibarita de uma segunda refeição completa no mesmo dia, podíamos ir ao BBC (Bar dos Bombeiros do Corvo, um must da noite corvina) para nos regalarmos com uma tosta mista (podia ser francesinha, se quiséssemos) regada com um néctar de pêssego ou de laranja (apesar de ter muitas e variadas bebidas alcoólicas, o BBC trata com igual afabilidade os que preferem bebidas não inebriantes). Por último, havia a opção ascética de, com pão, fruta e outros géneros adquiridos no comércio local (uma mercearia, duas lojas generalistas e uma padaria), improvisar um jantar ligeiro na sala de estar do hotel. De 2016 para 2017, BBC, mercearia, lojas e padaria (aberta só de manhã de segunda a sábado) mantiveram-se iguais a si próprias, mas um dos restaurantes deixou de funcionar como tal. Era isso mesmo que esperávamos, pois em 2016 soubéramos que os então concessionários do Caldeirão se iriam embora no final do Verão. Afinal o Caldeirão reabriu com nova gerência, e foi o Traineira que deixou de ser restaurante por ter perdido a cozinheira. Mantém-se aberto, mas servindo apenas sopas, sandes e bebidas. À porta, onde dizia Horário do restaurante diz agora Horário do; as horas de abertura e os dias de descanso são os mesmos. Esta oferta depauperada ainda mais se reduziu no fim-de-semana de 8 e 9 de Julho, quando todos os estabelecimentos de comes-e-bebes estiveram fechados: o Caldeirão o dia todo, o Traineira e o BBC a partir do meio da tarde. O motivo eram as festas da ilha, onde algumas barracas vendiam refeições: para garantir a afluência de clientes, toda a ilha se pôs de acordo em não lhes deixar alternativa. Mas a canja de galinha e a morcela com inhame até estavam boas.

Transportes. Na ilha há três ou quatro táxis; todos acorrem de pronto à chamada e fazem a volta à ilha cobrando 10 euros por pessoa. Quem for poupado e não quiser deslocar-se a pé facilmente arranja boleia numa carrinha de caixa aberta. Apesar de serem muitos os carros no Corvo, a ponto de os habitantes se terem desabituado de andar a pé mesmo em distâncias curtíssimas, não é possível alugar carros na ilha.



Agora a sério

Os parágrafos anteriores são o nosso contributo para moderar a afluência turística ao Corvo. Há lugares que foram feitos para o silêncio e combinam mal com multidões. Mas quem nos leu até aqui, e esteja disposto a despojar-se de alguns dos seus hábitos de vida urbana, merece saber que o Corvo é um lugar extraordinário. Não para visitar a correr, como fazem os que chegam de barco por umas horas, sobem de táxi à grande cratera, tiram umas fotos e já está, mas para ficar alguns dias, dando tempo a que os sentidos se ajustem e se possa entender como uma ilha de 6 Km de comprimento por 4 Km de largura, com 430 habitantes, também é um mundo. As refeições não serão um luxo, mas o alojamento não tem que ser espartano. O Hotel Comodoro (ou Guest House Comodoro), único da ilha, é mais acolhedor, confortável e asseado do que muitos hotéis cheios de estrelas. Não tendo a ilha, com excepção da fábrica de queijos, indústria que se veja ou uma economia de serviços, cada habitante cumpre muitos papéis: um taxista é também pescador e cultiva os seus legumes no quintal; muitos têm afazeres diurnos mas ao fim da tarde sobem às pastagens para ordenhar as vacas; e o dono do hotel pode ser presidente da câmara.

E quanto à natureza? Numa paisagem dominada por pastagens, de onde a manta arbórea original há muito foi extirpada, a maioria das árvores e arbustos refugiam-se em sebes ou em linhas de água temporárias. Os bosques de cedro-do-mato (Juniperus brevifolia) que cobrem grandes extensões da vizinha ilha das Flores estão quase totalmente ausentes do Corvo, sobrando, como últimas amostras significativas, um povoamento de algumas centenas de árvores adultas no Morro da Fonte e um outro, de menor expressão, no troço final do ribeiro da Cancela do Pico, perto do farol. Contudo, são frequentes pela ilha os exemplares isolados de cedro-de-mato, alguns de provecta idade. Ao contrário do que sucede nas restantes ilhas, a conteira (Hedychium gardneranum) não é um problema no Corvo e parece, aliás, ter sido completamente eliminada. O galardão de infestante mais nociva ficou para a hortênsia (Hydrangea macrophylla), que invade ribeiros de forma sufocante e ameaça ocupar de alto a baixo as vertentes do Caldeirão, lugar onde se concentra um número apreciável de endemismos botânicos. Apesar disso, o Caldeirão do Corvo é, sem favor, a mais fotogénica cratera vulcânica do arquipélago e, mesmo com o pastoreio intensivo de gado bovino, guarda habitats preciosos tanto no bordo como nas lagoas e turfeiras que lhe preenchem o fundo. Dado que o coberto vegetal ralo não representa obstáculo à nossa passagem, é fácil descer ao fundo, vencendo um desnível de 150 metros, e caminhar em redor das lagoas, com a necessária cautela não vão os pés afundar-se no terreno pantanoso. As muitas vacas que vamos cumprimentando são pacíficas e estão habituadas às visitas. Estas lagoas têm boas populações de Isoetes azorica, um raríssimo feto aquático que é também um endemismo açoriano, e que no início de Julho, tendo já largado os esporos, deixa ver as suas folhas como longos cabelos verdes e flutuantes. Outras raridades aquáticas igualmente discretas que aqui se fazem comuns são a Littorella uniflora e a Elatine hexandra, acompanhadas por Eleocharis palustris, Potamogeton polygonifolius e Juncus effusus. Nas valas que escoam a água das encostas para as lagoas aparecem grandes fetos (Osmunda regalis, Woodwardia radicans), escoltados aqui e ali por indivíduos dispersos de Vaccinium cylindraceum, Juniperus brevifolia e Ilex perado subsp. azorica.


Isoetes azorica Milde




Myosotis azorica H. C. Watson

Por muito interessante que fosse o fundo do Caldeirão, era no seu bordo que devíamos procurar o tesouro que o mau tempo de Junho de 2016 não nos permitiu alcançar, obrigando ao nosso regresso um ano mais tarde. Conforme comprovativo fotográfico acima, a persistência foi recompensada. Sem batota e sem ajuda, seis anos depois de iniciarmos a busca na ilha das Flores, encontrámos finalmente a Myosotis azorica na natureza. Todos os nossos encontros anteriores com este endemismo das Flores e do Corvo, devorado até à beira da extinção por cabras assilvestradas, tinham sido com plantas cultivadas. Desta vez, vimos umas trinta plantas em flor, duas que pudemos tocar e as restantes em lugares vertiginosamente inacessíveis. Por perto residiam outros dois endemismos destas ilhas, a Veronica dabneyi e a Euphrasia azorica, a segunda muito abundante no bordo da Caldeirão.


Festuca francoi à esquerda e Deschampsia foliosa à direita

Nem só de plantas floridas vive o ecossistema hiper-húmido e quase sempre ventoso do Caldeirão. Mesmo no bordo há muitas zonas turfosas, dominadas por Sphagum, e nos afloramentos rochosos várias gramíneas endémicas abanam as espigas ao vento. As dominantes são a Festuca francoi e, de menor tamanho e com folhas mais curtas, a Deschampsia foliosa. Vê-las lado a lado, como na foto em cima, é a melhor maneira de aprender a distingui-las.


Deschampsia foliosa Hack.

18.7.17

Novos embudes


Oenanthe lachenalii C. C. Gmel.




Quando os ribeiros emagrecem por falta de chuva é que os embudes engordam. Embude é nome vernáculo para uma das umbelíferas mais comuns em Portugal continental, a Oenanthe crocata, omnipresente em pequenos, médios e grandes cursos de água, e aventurando-se até em lugares de onde a humidade há muito se evaporou. Talvez a sua abundância se deva não apenas à grande produção de sementes mas também à toxicidade que os herbívoros, com um instinto desconcertante, aprenderam a evitar. Contudo, outros embudes do nosso território, como esta Oenanthe lachenalii, não souberam usar o veneno como arma de expansão, pelo que a sua escassez se explicaria por uma frutificação menos prolífera ou por uma menor versatilidade ecológica. A desfavor da segunda hipótese joga o facto de a O. lachenalii nada se importar com a salinidade da água, dando-se igualmente bem em água doce ou nas águas salobras de rias e estuários. A preferência por substratos arenosos acaba por limitar as suas escolhas de habitat, mas, apesar de esparsamente distribuída pelo país, não está de modo nenhum confinada ao litoral, como se vê pelo mapa de distribuição no portal Flora-On. Um dos nomes populares que a imaginação dos botânicos lhe atribuiu, bruco-de-Salvaterra, dá conta da sua existência nas margens alagadiços do Tejo, o que o dito mapa corrobora, embora obrigue a planta a saltar o rio de Salvaterra (na margem sul) para a Azambuja (na margem norte). Deverá o povo corrigir-lhe o nome para bruco-da-Azambuja? As plantas das fotos vivem não em Portugal mas na lagoa costeira de Vixán, um dos poucos lugares da Galiza onde a espécie está assinalada. Não sendo os galegos menos conhecedores da distribuição das raridades botânicas do que os portugueses, é de supor que lhe chamem bruco-de-Vixán.

A O. lachenalii distingue-se sem dificuldade da O. crocata por ser uma planta de menor porte (é raro ultrapassar os 80 cm de altura), por ter uma umbela mais compacta, e por apresentar folhas de lóbulos mais estreitos e compridos. Há porém duas outras espécies em Portugal (e em grande parte da Europa) com idênticas preferências de habitat que com ela se podem confundir: trata-se da Oenanthe fistulosa (que tem as folhas muito menos recortadas - veja-se aqui) e da Oenanthe globulosa (com inflorescências ainda mais compactas e menor número de frutos em cada umbélula - confira-se aqui). Encontrar qualquer uma das três espécies é um feito só ao alcance de quem esteja disposto a calçar galochas e não receie chafurdar em terrenos lodosos.

12.7.17

Cantábria em Porto Santo

A ilha de Porto Santo, parte de uma cadeia montanhosa submarina muito antiga, terá emergido há uns 8 milhões de anos. Relativamente plana (o Pico do Facho com 516 metros é o local mais elevado) e de clima muito seco, tem habitats que parecem pedaços de deserto. Entretanto, terá sido colonizada por espécies que se lançaram à descoberta a partir do que são hoje a Europa e a África. Traçar a história da migração destas plantas não é talvez tema de investigação que receba grande incentivo financeiro, e não conhecemos informação científica publicada sobre ela. Mas no caso particular da Saxifraga portosanctana, os botânicos Webb e Press, quando sobre ela escreveram em 1987, sugeriram que descenderia de alguma saxifraga europeia, notando as semelhanças na morfologia das flores e das folhas com a Saxifraga cuneata e com a Saxifraga trifurcata. Estas espécies ocorrem em rochedos calcários das montanhas do norte de Espanha e, em Maio, fomos visitar uma delas à Cantábria.



Saxifraga trifurcata Schrad.



Comparando as flores e as folhas da S. portosanctana com as da S. trifurcata, acredita-se que uma é um esboço da outra, que não é fortuita a parecença entre as rosetas basais, o verde da folhagem, os segmentos em garfo das folhas coriáceas, as inflorescências erectas, as pétalas brancas imbrincadas e longas.

As praias de areia fininha de origem calcária de Porto Santo poderão ter sido uma tentação para o parente europeu, mas as mudanças de latitude e clima obrigaram-no a adaptações drásticas. Nas montanhas das Astúrias, a planta, que é perene, está sujeita a geadas, chuva impenitente e meio ano de neve, tirando proveito de todo o calor solar que por sorte lhe caiba e não tolerando a sombra.



Com este perfil, não se esperaria que os exemplares migrados conseguissem sobreviver meses seguidos sob sol intenso. Refugiaram-se, portanto, nos locais da ilha mais frescos e sombrios, sobretudo em fissuras de penhascos permanentemente velados por neblina dos pontos mais altos da ilha. Tiveram ainda de abdicar da ementa puramente calcária que apreciavam na Europa, mas mantiveram a preferência por solos pobres e secos. E cumprem, como o seu antepassado, a tradição de florir entre Maio e Julho. Como muitos emigrantes, é através destes pequenos detalhes que se sentem próximos das suas origens.

4.7.17

Regresso ao fojo das surpresas



Dryopteris guanchica Gibby & Jermy



Tal como muita gente, este feto tem os seus progenitores na Madeira, mas abandonou a ilha natal para tentar a vida no continente. Só que o fez muito antes de as ilhas atlânticas serem habitadas, e até antes de existir a espécie humana. Um estudo genético permitiu concluir que a Dryopteris guanchica, que existe apenas na Península Ibérica (Galiza, noroeste de Portugal e serra de Sintra) e nas Canárias (Tenerife, La Gomera e El Hierro), é uma espécie tetraplóide que resultou do cruzamento de duas espécies diplóides, a D. aemula (presente nos Açores, Madeira e Canárias e no extremo norte de Espanha, mas não em Portugal continental) e a D. maderensis (exclusivamente madeirense). O acasalamento ter-se-á dado na Madeira, a menos que a D. maderensis tenha tido, noutras eras, uma distribuição mais ampla. Não é impossível, por exemplo, que tenha existido em La Gomera, a única das ilhas Canárias onde hoje se encontram tanto a D. aemula como a D. guanchica. Certo é que a D. guanchica, tenha ela o seu berço na Madeira ou nas Canárias, conseguiu instalar-se no norte da Península Ibérica partindo de ilhas que, geograficamente, são mais africanas do que europeias.

Descrita apenas em 1977, por Mary Gibby e A. C. Jermy, a partir de exemplares colhidos em La Gomera e em Tenerife, a Dryopteris guanchica deve o seu epíteto aos Guanches, antigos habitantes das Canárias subjugados pela colonização espanhola. Até então tinha sido confundida com a D. dilatata, um feto europeu, típico de bosques sombrios, cuja presença nas Canárias é duvidosa. Logo após ter sido descrita a nova espécie, uma revisão de espécimes depositados no herbário de Coimbra permitiu concluir que a D. guanchica já havia sido encontrada em Portugal, na serra de Sintra, em 1839. Em Maio de 1976, Gibby e Jermy, numa visita à serra, confirmaram que ela ainda lá vicejava na companhia da D. dilatata. Pouco depois, foi descoberta no norte de Espanha e no noroeste de Portugal, de modo que em 1982 Franco & Rocha Afonso, no livro Distribuição de Pteridófitos e Gimnospérmicas em Portugal, puderam dar um panorama quase completo da sua presença no nosso país. Os maiores contingentes vivem nas serras xistosas à volta do Porto e em especial nos fojos de Valongo, onde beneficiam de um ensombramento e de uma frescura impossíveis de encontrar nos vastos eucaliptais em redor, e engrossam uma notável colecção de fetos reliquiais que inclui a Culcita macrocarpa e o Trichomanes speciosum.

A história ensina-nos que destrinçar a D. guanchica da D. dilatata não é tarefa para principiantes, e em Portugal, onde as duas coexistem e ocupam habitats semelhantes (embora a primeira seja muito mais rara), é preciso especial cautela. As chaves dicotómicas costumam exagerar pequenas diferenças, postulando uma separação nítida quando às vezes existe uma continuidade de caracteres. Em todo o caso, as pinas basais da D. guanchica, em que as duas pínulas viradas para baixo mais próximas da ráquis são muito maiores do que as que estão viradas para cima (ver penúltima foto), são claramente mais assimétricas do que as da D. dilatata. Outras diferenças são menos óbvias: a D. guanchica é em geral mais pequena, tem as pínulas ligeiramente pecíoladas, e os dentes das pínulas são salientes, meio curvados para a frente (o efeito é visível na 3.ª foto desta página).

28.6.17

Globos de ouro

As sépalas, quando existem, são a parte mais externa da flor, que a agasalha, protege dos predadores e até pode servir de pires para que o pólen não se desperdice. São componentes estéreis, que nascem antes dos outros orgãos da flor, num arranjo em que, sobrepondo-se, cobrem completamente o botão que se está a gerar. Como as pétalas, são folhas modificadas, e não são raras as que contêm espinhos, penugem irritante ou glândulas com produtos tóxicos para desencorajar quem queira estragar a flor em formação. Unidas, criam um cálice que torna mais robusta e estável a ponta da haste onde a flor aberta se apoia. Depois de as flores serem fecundadas, as sépalas costumam secar e cair; todavia, se necessário, endurecem e mantêm-se vigilantes, agora em defesa do fruto e das sementes. São em geral verdes como as folhas, mas tal como acontece com a nossa roupa, podem ficar maiores do que o resto da flor, ou até serem a parte da flor que tem a cor mais vistosa e, por isso, recebe a função adicional de atrair os polinizadores. É o que se passa, por exemplo, com as tulipas, os malmequeres-dos-brejos e as flores globosas, a lembrar tangerinas, que hoje vos mostramos.


Trollius europaeus L.



Têm cerca de 5 cm de diâmetro e são solitárias, nascendo entre Maio e Julho no topo de um talo erecto que pode chegar aos 70 cm. Na base, as folhas redondas mas muito divididas ajudam a identificar a família (Ranunculaceae) desta planta. Cada flor exibe uma dezena de sépalas amarelas que se curvam para esconder um feixe de outras tantas pétalas fininhas, sem graça mas com nectários apetitosos, e numerosos estames. Há decerto um momento em que estão ligeiramente abertas, mas não tivemos sorte em presenciá-lo; contudo, pode ver mais pormenores aqui, ou nesta ilustração da espécie T. chinensis. O nome do género, Trollius, que Lineu adoptou quando o descreveu em 1753, deriva da designação suíça trollblume (flor redonda) para esta planta.

Trata-se de uma herbácea perene de prados permanentemente húmidos e bosques frescos, margens de riachos e zonas turfosas de montanha. É venenosa para o gado que, meticulosamente, a ignora. Há populações magníficas de T. europaeus na Europa mais fria, mas na Pensínsula Ibérica só há registos dela na metade norte. Estes exemplares são da orla de um riacho em Somiedo, algures a caminho da reserva dos ursos pardos.