26/07/2011

A cavalo nas dunas

Centaurium chloodes (Brot.) Samp.


"If I eat one of these cakes", she thought, "it's sure to make some change in my size"... So she swallowed one... and was delighted to find that she began shrinking directly.
Lewis Carroll, Alice's Adventures in Wonderland (1865)

Este centauro é o mais pequenino que conhecemos. A razão está na fraca dieta, pois resigna-se ao que as areias em dunas ou depressões húmidas do litoral lhe fornecem, o que é quase nada temperado com sal e muito vento. Foi difícil encontrá-lo por ser tão diminuto (as folhas basais medem cerca de 5 mm) e, sobretudo, de floração tão efémera: numa semana, amareleceu o coxim de cor verde-relva (isto é, chloodes) formado pelas folhas sésseis, oblongas, carnudas e brilhantes (e que lhe valeu os madrigais confertum e caespitosa), e desapareceram as flores róseas que, apesar de medirem apenas um centímetro de diâmetro, nos permitiram detectar a planta. Uma vida apressada esta (como a da maioria das espécies do género Centaurium; uma excepção é o C. scilloides, que é uma planta vivaz), mas que basta para disseminar as sementes e garante o disfarce atempado no areal, antes que por ali circulem os veraneantes ou o tempo ameno se esgote.

É um endemismo do sudoeste europeu, que é como quem diz das dunas e falésias da costa atlântica francesa (onde, segundo o Guide de la flore des dunes littorales, coord. Jean Favennec, Office National des Forêts, de 1998, está praticamente extinta e é agora espécie protegida) e do litoral norte e noroeste da Península Ibérica. Todos os registos alertam para uma distribuição restrita e para as populações escassas, e por isso consta da lista de plantas vasculares com maior valor para a conservação. Por cá, ocorre da Beira Litoral ao Minho, mas a sua presença é pontual, palavra fiel ao indicar, por exemplo, os cerca de 12 metros quadrados com uns trinta exemplares desta planta no cordão dunar do Mindelo, um talhão destacado da Paisagem Protegida do Litoral de Vila do Conde. Em Espanha, são oito os registos no sistema Anthos, todos no litoral norte.

Esta planta foi primeiro descrita por Avelar Brotero (Fl. Lusit. 1: 276, 1804), que lhe chamou Gentiana chloodes. A inclusão dela no género Centaurium deve-se a Gonçalo Sampaio (Herb. Port.: 106, 1913). Por esta ligação a gente e terra lusas, em alguma bibliografia é referida como centauro menor português.

2 comentários :

Carlos M. Silva disse...

Olá Maria

Numa ida mais, solitária,aos caminhos que saem do Forte do Paçô, e já quando percorria um pequeno prado junto ao mar (e aonde tenho ido com frequência) e me preparava para vir embora, fotografei o que logo identifiquei como Centaurium; num acesso lateral a esse percurso já lá tinha visto e voltei a ver o C. maritimum e por isso logo vi que o outro também o era; agora, consultado o Flora On ..e por que apenas vi um registo vosso, constatei que é este! Centaurium chloodes!

Abraço
Carlos M. Silva

Paulo Araújo disse...

Olá, Carlos.

Curiosamente, ainda ontem andámos por esses caminhos entre o Forte de Paçô e Montedor. É o lugar mais bonito e mais bem conservado de todo o litoral minhoto. Mas, exactamente junto ao forte, o que nós vimos foi o Centaurium scilloides, que é igualmente raro (pelo menos no litoral). Se aparecesse também o C. chloodes era mesmo um jackpot. Não te importas de enviar as tuas fotos para o endereço do costume, só para tirarmos dúvidas?

Obrigado e um abraço,
Paulo