12.1.05

Companhia da canela



E, se buscando vais mercadoria
Que produz o aurífero Levante,
Canela, cravo, ardente especiaria
Ou droga salutífera e prestante;
Ou se queres luzente pedraria,
O rubi fino, o rígido diamante,
Daqui levarás tudo tão sobejo,
Com que faças o fim a teu desejo.
Camões, Lusíadas - Canto II - 4

Esta é a flor do craveiro-da-Índia. É pequenina, não maior que um polegar, de quatro pétalas, mas a árvore fica alvacenta de tantos bigodinhos brancos. A profusão de estames revela a família desta árvore, a mesma dos eucaliptos e dos metrosíderos: trata-se de uma Myrtaceae de origem asiática, de nome científico Syzygium aromaticum. Tem folha perene, com cerca de 8 cm de comprimento, verde claro brilhante, mole e notoriamente ondulada, com pecíolo longo e ponta acentuada; o tronco é cinzento e fissurado.

Os frutos parecem grandes gotas de vinho tinto. São comestíveis mas é o cálice seco da flor, o cravinho (do latim clavus), nome que alude à semelhança da forma com um prego, que é famoso pelo seu perfume. É uma especiaria requintada, de aroma doce como incenso e sabor forte que sobressai nas misturas para temperos picantes; usa-se em doces mas também para aromatizar tabaco, café, arroz e pão.



O craveiro-da-Índia é uma espécie endémica das ilhas Molucas, na Indonésia, plantado hoje extensivamente nas ilhas de Zanzibar, Pemba e Madagascar, no oceano Índico, para produção do cravinho: diz-se que o seu perfume se sente no mar por quem se aproxima destas ilhas.

O exemplar que conhecemos está na Quinta de Sto. Inácio, em Vila Nova de Gaia. Tem mais de 10 metros de altura e uma copa graciosa, com uma distribuição densa de ramos; mora num recanto junto ao jardim de aromas, onde sobressai entre sebes de camélias plantadas por Francisco Van Zeller no princípio do século XIX.

Fotos: pva 0411

7 comentários :

Anónimo disse...

Obrigada por todas as coisas bonitas que vão partilhando connosco diariamente!

asa disse...

Nao e' tambem o cravinho usado pelos dentistas?

Lembro-me de varias fatidicas visitas a dentistas em que ficava com um gosto a cravinho no dente. E acho que li algures que e'/foi realmente usado em medicina dentaria.

asa disse...

Esqueci-me de dizer que tanto o texto como as fotografias "sabem" a cerejas comidas nas arvores.

Maria Carvalho disse...

O cravinho-da-Índia contém uma substância analgésica (o eugenol; o craveiro-da-Índia já se chamou Eugenia caryophyllis) que é útil em anestesias locais, as mais frequentes em tratamentos dentários. Ainda há quem o use por preferir métodos mais naturais de cuidar da saúde.

António Viriato disse...

Sempre a Camões havemos de voltar, para nele buscarmos o alento esmorecido :
...............
...............
Leva pimenta ardente, que comprara;
A seca flor de Banda não ficou;
A noz e o negro cravo que faz clara*
A nova ilha Maluco, co'a canela
Com que Ceilão é rica, ilustre e bela.
IX, 14.
* aqui clara parece significar célebre, famosa.

Este extracto de estrofe tireio-o de um pequeno mas muito interessante livro do Conde de Ficalho intitulado «Flora d'Os Lusíadas», acrescido, na edição que tenho comigo, de um prefácio de Ramalho Ortigão, que nele exalta este dito Vencido da Vida.
Eis como à sombra frondosa da «árvore» de Camões todos encontram seu encanto e seu prazer ...

Maria Carvalho disse...

Obrigada pelo ensinamento e encanto adicionais que aqui nos deixou.

Manuel Anastácio disse...

Note-se que a especiaria seca não é constituída apenas pelo cálice da flor mas pelo botão floral completo antes de florir.