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31/03/2007

Cancioneiro popular- negrilho

Nesta rua hai negrilhos,
Onde hai negrilhos hai sombra:
Bem puderas tu, menina
Sair comigo à ronda.
(Concelho de Bragança)

in VASCONCELOS, José Leite de - Cancioneiro Popular Português. Coimbra : Universidade, 1975.

01/05/2006

Hoje é o dia das "Maias"

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«O dia das "Maias" é o primeiro de Maio, que desde tempos imemoriais se comemora em Portugal e assume diversas formas celebrativas de Norte a Sul. No Minho, Douro Litoral e Beira Litoral (seguindo a lição de Ernesto Veiga de Oliveira- quem mais completamente estabeleceu o painel maiático, reolhendo maieiticamente contribuições parcelares anteriores - in "Comércio do Porto", de 13 de Maio e 24 de Junho de 1958) , a essência festejante está na aposição de giestas (por antonomásia "maias"), às vezes de outras flores, nas janelas, nas frestas ou aldrabas das portas, nos currais, em cancelas, nos próprios animais, nas lojas de artífices, e em camionetes, locomotivas, passagens de nível, barcos e traineiras, ostentando rapazes e raparigas, com as orelhas floridas, os seus melhores trajos.
Em Trás-os-Montes, além de se enfeitarem as portas das casas com flores de giestas, as raparigas adornam um menino que dizem representar o "Maio-moço" e passeiam-no pelas ruas com grande ruído alegre, cantando e bailando em volta dele (Abade de Baçal). Na Beira-Alta e na Beira-Baixa (embora nesta apareça excepcionalmente um boneco de palha) são também rapazes ataviados de giestas quem personifica o "o Maio", retouceiro e sátiro, centralizando o peditório cerimonial em dinheiro ou castanhas.
Na Estremadura, a "Maia" é uma rapariguinha adereçada com flores que percorre as ruas da povoação acolitada pelas companheiras. Nas províncias do Sul a pessoalização também é normalmente feminina. Assim no Alentejo, com particular incidência em Beja. Aqui as "Maias" são meninas que vestem de branco e enfeitam com flores, pondo-lhes na cabeça um coroa de mais flores, e sentando-as em cadeiras, à esquina de alguma rua, nalgum largo ou junto à porta de sua casa. Em seu trono enfeitado de rosas se aquietam algumas horas, enquanto companheiras mais crescidas, com pequenas bandejas na mão, pedem a quem passa: "-Meu senhor, um tostãozinho para a 'maia'!"; ou "Um tostão para a Maia- que não tem saia!" (Manuel Joquim Delgado).
No Algarve, em quase todas as casas é costume arranjar-se um grande boneco de palha de centeio, farelos e trapos, que depois vestem de branco e cercam de flores. É a "maia" colocada à vista de quem passa, e em volta da qual se fazem bailes e descantes (Reis Dâmaso)» José Quitério, "As Maias" in "Manjares Rituais em Portugal", cap. III do LIVRO DE BEM COMER (Assírio & Alvim, 1987)
Enquanto que o hábito de se colocarem giestas amarelas às portas, varandas, etc. não se perdeu, assim como perdura o costume de se fazerem bonecos de palha, será que ainda se encontram rapazes e raparigas, meninos e meninas enfeitados tal como estes textos antigos relatam?
Todavia no 1º de Maio não há só esta tradição ligada aos ramalhetes de maias e aos "maios", a bonecada satírica; também se verificam práticas de "manjares rituais", como por exemplo o costume de se comerem castanhas com o objectivo de conjurar o "Maio", o "Burro" ou o "Carrapato": «Como diz Ernesto Veiga de Oliveira, na faixa ocidental atlântica do país, do Minho ao Tejo, não há nenhuma prática alimentar específica deste dia. Em Trás -os-Montes e nas Beiras Altas e Baixas já o caso muda de figura. Em Bragança, informa o Abade de Baçal que se comem castanhas, para "evitar mordos do burro". Em Rio de Onor - é Jorge Dias que o escreve- no 1º de Maio é costume toda a gente comer castanhas, dizem eles que é para se livrarem das maleitas. (...) em Vouzela as castanhas secas ou piladas chamam-se Maias (...) e em Tabuaço anda pelas ruas, no 1º de Maio, um rapaz muito enfeitado a gritar com uma voz muito prolongada: "-Castanhas ao Maio!..."» (id.)
Anterior: "As Maias " por José Leite de Vasconcelos

Ver:
"Sítio concebido para reunir informação sobre os Maios."

20/02/2006

Carvalhos e carvalhas, carvalheiros e carvalheiras

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«Ou pela idade , ou pela copa, ou pelo vigor, distingue-se, sobretudo no Norte e na Beira, carvalho de carvalha, carvalheira, e trave: carvalha é a planta já velha (cf. sobreira, supra), que se desenvolve amplamente em contraste com carvalho, que sobe muito.
Uma vez perguntando eu a um aldeão de Trás-os-Montes em que é que o carvalho se distingue da carvalha, ele repondeu-me por gestos, como um inglês: o carvalho...(e ergueu o braço direito e a mão para o ar); a carvalha.... (e estendeu os dois braços, cada um para o seu lado).

Carvalho em Felgueiras parece que é o carvalho que em parte se corta, e depois rebenta viçosamente: cf. em Braga o Campo das Carvalheiras, que uma vereação arboricida mandou derrubar, não deixando sequer um árvore para documentação viva do onomástico.
Trave designa em Felgueiras o carvalho, quando, em plena vegetação, se torna apto para a construções: e é talvez a esse especial sentido que se ligam os nomes de terra Travassos e Travaçós, que estudei nos Ópusculos, III, 397.
No Cadaval (Peral), em vez de carvalho, dizem carvalheiro; é curioso notar que Brotero, II, 332, citando carvalheiro remete para carvalho.
No Alto-Alentejo, carvalheira designa os rebentos do carvalho em volta do tronco, e os carvalhinhos nascidos perto do carvalho onde cai a lande. »
José Leite de Vasconcelos, Etnografia portuguesa: tentame de sistematização. Lisboa : IN-CM, 1958-1988, vol. II, p.66 (Ler parágrafos anteriores transcritos aqui a propósito do Carvalhal de Tibães)

E em Beijós como será?
O que distinguirá nessa freguesia de Carregal do Sal os carvalhos das carvalhas?
Conseguirão salvar-se as últimas carvalhas do Parque Arnaldo de Castro da rolagem que mutilou já 11 árvores soberbas? Pelo menos foi lançado um SOS . Terá resposta? Ou será o património (neste caso arbóreo) mais uma vez vítima da prepotência, insensibilidade e incultura?
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17/11/2005

Carvalhal no Outono- Tibães

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Quercus robur na cerca do Mosteiro deTibães - Novembro 2003

«No idioma usual e moderno "mata de carvalhos" diz-se carvalhal, e às vezes souto; mas no Minho usa-se em algumas terras devesa, como lá tenho ouvido, e já no foral de Pedroso (Gaia), de 1271, se lê: "nulllus homo amputett quercum in nulla defessa(m)" (Leges , p. 724); na mesma província do Minho ouvi carvalheira (Melgaço, V. N. da Cerveira) por "souto de carvalhos", e diz-se também, ou deve-se ter dito, carvalhal, que é corrente na toponímia minhota. Em Seia, a par de carvalhal, diz-se moita, como sinónimo. (...)»
José Leite de Vasconcelos, Etnografia portuguesa: tentame de sistematização. Lisboa : IN-CM, 1958-1988, vol. II, p.66

12/11/2005

Cancioneiro popular -castanheiro

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A folha do castinheiro
Rendilhada como a renda...
Diga-me, ó minha menina,
P'ra quem anda de encomenda?
(S. Tomé de Covelas, c. de Baião) II-339

Prometi-te uma castanha,
Se a der o castinheiro;
Prometi-te de ser tua,
Não vindo outro primeiro.
(Lajeosa do Mondego, c. de Celorico da Beira) II-367

(in José Leite de Vasconcelos, Cancioneiro Popular Português. Coimbra : Universidade, 1975)

24/10/2005

Crença popular - noz

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«É crença popular que na noz não se pode deitar feitiço, porque a casca está em cruz.»

(José Leite de Vasconcelos, Etnografia portuguesa: tentame de sistematização. Lisboa : IN-CM, 1958-1988, vol.III, p.304)

01/05/2005

"As Maias"

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Todos os anos no "último de Abril" as pessoas continuam a fazer questão de arranjar o seu ramalhete de giestas amarelas para colocarem nas portas ou janelas e assim cumprirem a tradição: apanhadas, compradas ou dadas "as maias" não podem faltar e devem colocar-se antes da meia noite.
"Para que haja fartura", "para espantar o carrapato", " contra o mau olhado" , "contra as bruxas"... Tudo isto ouvi eu ontem quando fazia a ronda no bairro, manhã de sábado e de sol, puxando a conversa. No prédio, a vizinha, tinha-me prevenido:"Já lá tenho para si também, se quiser!"

É da Beira-Alta a quadra que José Leite de Vasconcelos trancreve nos seus apontamentos sobre os costumes tradicionais ligados ao 1º de Maio, mas também por cá se poderia pois cantar:
«A flor da giesta ......................................A flor da cana
Quem a tem logo a empresta ......................Quem a tem logo a apanha.»


Giesta- Cytisus ssp.

Escreve Leite de Vasconcelos:
«(...) As Maias propriamente ditas constam de duas partes: o enramalhamento das portas e o Maio-moço. Tratemo-las em separado.
1- No primeiro de Maio, no Douro, Beira-Alta, Minho, etc. enfeitam-se as portas das casas com ramos de giestas amarelas, chamadas Maias, que aqui no Porto são vendidas pelas ruas no último de Abril.

O povo dá estes costumes duas explicações, conforme eu disse num folhetim inserto n a Vanguarda, nº20 de 1880 (...): a) Quando a Virgem foi para o Egipto deixou pelo caminho muitos ramos de giesta para não se enganar na volta; b) Quando Jesus Cristo nasceu, os judeus procuraram-no para o matarem, e, como soubessem que ele estava numa casa, colocaram-lhe à porta um ramo de giesta, afim de no dia seguinte o prenderem. Nesse dia, porém, todas as casas da povoação apareceram marcadas, e os judeus não puderam dar com ele.
Em Vermoil, o costume sofre uma modificação: as cortes de gado são enfeitadas com ramos de carvalho, ao que chamam "maiar o gado". (Junho de 1882) »

In As maias: costumes populares portuguezes: carta ao illustre folklorista hispanhol o Sr. D. F. Rodrigues Maria, José Leite de Vasconcelos.- Barcelos: [s.n.], 1882. - Extr. do "Tirocinio"

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Cytisus ssp.
Ontem, as "maias" que se vendiam pela cidade eram desta espécie que creio ser Cytisus scoparius, a mais comum entre nós, as giestas-bravas ou giestas-das-vassouras.
(scoparius, em latim significa justamente "em forma de vassoura" ou "que serve para fazer vassouras")
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16/04/2005

Cancioneiro popular - Amoreira

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Fiz a cama na 'moreira
E o travesseiro na 'mora;
Coitadinha da menina
Que de rico se namora!


Chamais à moreira triste,
Assim vós vos enganais;
A moreira cria seda
Com que vós vos asseais.
(Baião)

VASCONCELOS, José Leite de - Cancioneiro Popular Português. Coord. e introd. de Mª Arminda Z. Nunes. Coimbra : Universidade, 1975.
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08/11/2004

Castanhas - Cancioneiro popular

Castinheiro, dá castanhas,
Castinheiro, dá só uma,
Para dar ao meu amor,
Qu'inda não comeu nenhuma.
(Baião, Guarda) II-188

Minha vida são castanhas,
meu desenfado boletas;
Hei-de arranjar um rapaz
Da terra das castanhetas.
(Envendos, c. de Mação) II-319

VASCONCELOS, José Leite de - Cancioneiro Popular Português. Coord. e intr. de Mª Arminda Zaluar Nunes. Coimbra : Univ., 1975

17/09/2004

"A azinheira e o sobreiro"

Conversávamos nós sobre bolotas e boletas quando nos assaltou a seguinte dúvida: diz-se sobreiro ou sobreira? Em que diferem, se for esse o caso? A juntar aos esclarecimentos enviados, aqui ficam mais uns parágrafos da Etnografia Portuguesa em que José Leite de Vasconcelos menciona essa diferença:
«Possue a nossa terra inúmeros bosques de azinheiras, sobreiros, castanheiros, carvalhos, pinheiros, alfarrobeiras, amendoeiras, aveleiras, nogueiras, oliveiras.
A azinheira e o sobreiro predominam no Alentejo como região mais seca; a primeira prefere os terrenos cálcarios, os sobreiros os graníticos. Há também azinheiras no Algarve, na Beira-Baixa (C. Branco), e nos terrenos xistentos dos concelhos de Bragança, Mogadouro, Moncorvo e Macedo, como até certo ponto o provam as designações locativas Izeda (iliceta) e Ligares (arc. Iligares: de ilex*); a sobreira domina igualmente no Sul do Tejo, e nos distritos de Lisboa, Santarém e Castelo-Branco. A toponímia prova, porém, que as mesmas árvores aparecem noutros territórios, já formando matas, já disseminadas: há Azinhal na Guarda, Azinheira em Leiria; sobreda na Beira Marítima e na Alta, Sobredo e Sobrosa no Alto-Minho, Sobrido no Baixo-Minho, Sobreira no Baixo-Douro, Sobreiral em várias províncias.
Propriamente, pelo menos no Alto-Alentejo, sobreira é um sobreiro corpulento e já decrépito; um sobreiro muito novo é um chaparro, d'onde veio para o onomástico Chaparral, e também Chaparralinho, e Chaparrinho, tudo no Sul. 1 (A um campónio do Alto-Alentejo ouvi a propósito a seguinte observação: "Os sobreiros mingúam, os chaparros crescem. Tal qual como na vida do homem. " )
No distrito de Bragança como me informa o Revº F. M. Alves, dá-se o nome de sardão à Quercus ilex, à qual também chamam carrasco. »
J. L. de Vasconcelos in Etnografia portuguesa. Lisboa : I N-C M, 1958-1988. Vol. II, pp. 6o e 61

*ilex de Quercus ilex, designação científica da azinheira; Quercus suber é a do sobreiro.
Biografia do autor aqui.

A propósito de bolotas

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A propósito de bolotas, não esqueçam os criadores de suínos que estamos no mês mais indicado para a sua colheita, como já foi aqui lembrado.
Para os outros, os menos familiarizados com as ditas, transcreve-se a seguir um texto bastante instrutivo:
«O fruto da sobreira chama-se lande (popularmente landre, alandia) e daí se formou Landal, Landeiro, Landeira: as landes servem de alimentação aos porcos nos montados alentejanos; só em certos casos as comem as pessoas.
O fruto da azinheira, que é doce ou amargo, chama-se bolota ou boléta (Alentejo), e, se serve igualmente para os porcos, entra também, quando é doce, na alimentação da gente (comem boléta no Alentejo, do mesmo modo que nos terrenos de castanha os respectivos povos comem estas)
(...) o fruto (do carvalho) destinado a engorda de porcos, chama-se (analogamente ao do sobreiro e da azinheira) lande ou landre, bolota ou boleta, conforme as localidades, (apresenta-se) inserido numa cúpula (d'onde veio para a família o nome de cupulíferas*).»
* Actualmente "Fagáceas"
José Leite de Vasconcelos in Etnografia portuguesa: tentame de sistematização. Lisboa : Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1958-1988. Vol.II,p. 61

Quem nunca viu uma bolota poderá aqui admirar aquelas que devem ser as mais belas (fotos de) bolotas da bolotosfera, perdão, da blogosfera.
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12/07/2004

Figueira - Cancioneiro Popular

Da figueira nasce o figo,
Do figo nasce a ciência;
No bom pano cai a nódoa,
Caíu em mim: paciência.
(Faro)

Mais valia ser figueira,
Enxertada num valado,
Que rapariga solteira
Empregada num soldado.
(Mexilhoeira Grande)

Nunca vi figueira negra
Dar figos pela raiz.
Nunca vi rapaz solteiro
Cumprir as falas que diz.
(Espiche)

Muito fumo, pouca chama
Faz a raiz da figueira:
Vens cantar com presunção,
Daqui não levas bandeira!
(Castro Verde)

in VASCONCELOS, José Leite de - Cancioneiro Popular Português.Coimbra : Universidade (Acta Universitatis Conimbrigensis, 1975.