3.3.10

O pior ainda está para vir



Sedum forsterianum Sm.

Esta planta, como todas as suas congéneres, é um verdadeiro Observatório de Secas. Tem é um modo de funcionamento que é toda uma filosofia ultra-pessimista, da escola «se isto hoje está mal, nem queiram saber como vai estar amanhã». Mais do que uma condição metereológica, a seca é, para ela, um estado de espírito permanente. Não há chuva que a convença de que estão para vir dias de fartura. Aguaceiros fortes ou mesmo chuvadas diluvianas são simples manobras de diversão que não nos desviam um milímetro da rota há muito traçada: no futuro só o deserto nos espera. E ela está preparada: armazena avaramente água na sua folhagem suculenta e, abrindo só à noite os poros para respirar, minimiza as perdas por transpiração. Se as outras plantas não a quiserem ouvir, o mal é delas. Avisos não faltaram.

E, além do pessimismo contumaz, outra característica há que as plantas do género Sedum partilham com Vasco Pulido Valente. Apesar de serem usadas em saladas, elas contêm alcalóides tóxicos, os quais, além de irritações nas mucosas, podem causar cãibras e paralisias. Do mesmo modo, as crónicas de VPV, lidas ao pequeno almoço na manhã de um dia radioso, provocam irritação nervosa, negrume existencial e uma paralisante vontade de desistir. Os médicos recomendam que tanto as plantas como as crónicas, se a força do hábito não permitir excluí-las por completo da nossa dieta (o que seria o ideal), sejam consumidas em doses reduzidas, quase homeopáticas.

O Sedum forsterianum encontra-se em todo o território continental português, e em alguns outros países da Europa ocidental: Espanha, França, Grã-Bretanha, Bélgica e Alemanha. Forma tapetes rasteiros em terrenos pedregosos, e são muito peculiares as suas folhas recurvadas, cilíndricas, com as pontas marcadas de vermelho como se fossem unhas pintadas. Floresce de Abril a Julho, lançando hastes empertigadas, de cerca de 20 cm de altura, com folhagem esparsa, encimadas por abundantes cachos de flores amarelas.

6 comentários :

Gi disse...

:-D
Além de se aprender neste blog, e de se regalar os olhos com as fotos, ainda se sorri com os textos.
Bem hajam.

Grunho disse...

Vale sempre apena um bocadinho de bom humor.

Paulo Araújo disse...

Obrigado pelos simpáticos comentários. Já várias vezes pensámos em transformar o Dias com Árvores num blogue humorístico-botânico - um nicho de mercado onde a concorrência seria escassa ou mesmo nula. Mas talvez essa combinação não agradasse a muita gente. Ficamo-nos assim por uns fogachos ocasionais, só para lembrar que isto não é para levar muito a sério.

António disse...

Excelente post!
Grande ideia a do "humorístico-botânico". Que tem vindo a ser posta em prática, aqui e além. São estes os posts que mais me deliciam.
A continuar, sem dúvida.

Paulo disse...

Humorado ou mais sisudo, o DCA bate qualquer concorrência que se lhe apresente em campo.

bettips disse...

lol
por esta é que eu não esperava, um laivo de secura que não floresce fácil.
Lembrei vagamente o humor britânico, o nonsense das coisas comuns.
Mas há associações que não se evitam e divertem!
Abçs