26.6.10

Asas de pedra verde


Anacamptis morio subsp. picta (Loisel.) P. Jacquet & Scappaticci [sinónimos: Orchis picta Loisel., Orchis morio subsp. picta (Loisel.) K. Richt.]

O epíteto picta (ornada) ajusta-se a tantas orquídeas que uma alteração na designação da das fotos até seria bem-vinda. Mas a substituição por morio (bobo, gracejador) só pode dever-se a desígnio insólito: entendem os taxonomistas que estas plantas, quando em flor, enganam os menos lestos a quem elas parecem pedras no caminho. Elaborado, sem dúvida. Até há pouco pertencia ao género Orchis, pela semelhança com a O. mascula, mas estudos genéticos recentes confirmam que as aparências iludem e que ela está de facto mais próxima da Anacamptis pyramidalis e da A. laxiflora.

Não é orquídea abundante por cá, embora em alguns prados com pouca vegetação, não perturbados pela agricultura, se possam encontrar muitos exemplares juntos, como nos aconteceu perto de São Salvador do Mundo. O seu número tem vindo a decrescer drasticamente nos últimos cinquenta anos em locais onde os antigos pastos permanentes desapareceram para darem lugar a terrenos arados e fertilizados quimicamente, processos que beneficiam outras herbáceas mais competitivas. Como é lenta a colonizar sítios novos, não é exagero vê-la em risco de extinção, e talvez não baste a protecção escrita em directivas ambientais.

Predominantemente europeia, embora haja registo dela no norte de África e no Médio Oriente, pode durar duas dezenas de anos, com florações anuais; há contudo quem assegure que ela é monocárpica. Algumas referências distinguem três variedades: alba, de flores brancas; bartlettii, de flores minúsculas; e churchillii, a mais alta.

É pequenina (não mais de 15 cm em geral), de folhas não manchadas, meia dúzia delas basais e que emergem no início do Inverno, desaparecendo em Junho mal termine a floração, e mais duas ou três a abraçar o caule. As flores exibem alguma variação na cor dominante (violeta, púrpura, rosa ou branco), mas a haste angulosa da inflorescência é sempre púrpura e elas não dispensam o capuz feito por uma sépala e duas pétalas com o interior riscado de verde (que justifica o nome inglês green-winged orchid). O labelo - área central clara manchada de violeta - curva-se para trás, formando uma saia de três lóbulos com bainha crenada. O conjunto é rematado por um esporão robusto e túmido na extremidade livre.

Sem néctar, são polinizadas por abelhas que acordam do período de hibernação, no início da Primavera, atraídas por flores de cores fulgurantes e esquecidas do logro do ano anterior. São as flores mais baixas da inflorescência aquelas a que primeiro acedem, interrompendo amuadas o processo quando se apercebem da fraude. Por isso, uns dias invernosos em Maio favorecem estas orquídeas: quebrada a rotina, as abelhas têm de reaprender as rotas de bem respigar quando o tempo reaquece. Cada fruto contém cerca de 4000 sementes mas, se o negócio das flores corre mal, esta planta reproduz-se vegetativamente por tubérculos adicionais.

1 comentário :

Anónimo disse...

Lástima! Então essas lindas miudinhas despistadoras de cientistas, abelhas e caminhantes menos lestos estão a correr risco de extinção? Ê vida!!!

Angélica Alves