23/06/2015

O veneno que se cuide

Em Outubro de 2013 falámos aqui do Vincetoxicum nigrum, uma planta de flores minúsculas com um tom incomum de vermelho. Nessa altura, especulámos sobre a possibilidade de encontrar plantas da outra espécie de Vincetoxicum que ocorre em Portugal, o V. hirundinaria. Como sugere o nome, é igualmente útil como antídoto para o veneno de cobras, sendo conhecida popularmente como erva-contraveneno; o epíteto hirundinaria (de hirundinis, andorinha em latim) recorda que os frutos desta planta parecem a cauda daqueles passarinhos em voo (e, em inglês, a designação comum da planta é precisamente swallow-wort).

Efectivamente, em Junho do ano seguinte encontrámos, no Gerês, junto ao rio Maceiras, uma planta solitária desta espécie, pequenina e sem flores. Magra recompensa para quem esperou tanto. Contudo, no mesmo local havia vários exemplares floridos de Thymelaea broteriana, além de Laserpitium eliasii, e a desilusão amainou. Ficou-nos a vontade de regressar este ano para procurar de novo, mas melhor, o segundo Vincetoxicum.


rio Minho em Monção
Mas, afinal, não foi preciso. Como sabem, temos ido passear às pesqueiras do rio Minho, seja para rever o Allium scorzonerifolium, a Spirea hypericifolia, a Veronica montana ou a Nymphoides peltata, seja para explorar mais algumas das formações rochosas que guarnecem as margens do rio. E, no topo de uma delas, a encher as fendas, encontrámos esta magnífica população de V. hirundinaria em flor.



Vincetoxicum hirundinaria subsp. lusitanicum Markgr.


É uma herbácea perene que, ao contrário do V. nigrum que aprecia nichos ensombrados, precisa de luminosidade e de solo relativamente seco. É quase glabra e as flores, que nascem no fim da Primavera ou já no Verão, surgem em cachos de 5 a 12 nas axilas das folhas ou no topo dos caules. Os frutos (penúltima foto), com uns 5 centímetros de comprimento, são fusos que terminam num pico (os chamados pimientos-do-monte); e, quando secos, abrem-se longitudinalmente para libertar as sementes que esvoaçam com a ajuda de um penacho.

É nativa da Europa e Ásia, mas as Floras europeias aludem a várias subespécies, destacando diferenças na cor das flores (mais ou menos verdes ou brancas) e no comprimento dos pedúnculos. As plantas que ocorrem no norte de Espanha e noroeste de Portugal correspondem, em alguns desses textos, à subespécie lusitanicum; tal distinção, porém, não foi acolhida pelos autores do capítulo correspondente na Flora Ibérica.

20/06/2015

Encontro das águas (3.ª parte)


Schoenus nigricans L.


Ao contrário das espécies que figuraram nos capítulos anteriores da série, as ciperáceas de hoje são polivalentes, não vivendo exclusivamente à beira-mar nem tendo preferência declarada por águas salobras. A primeira delas nem sequer exige muita água: a sua presença pode simplesmente assinalar locais onde, na época das chuvas, se formam charcos que secam com a estiagem. Nos pinhais litorais do centro oeste, entre Mira e Figueira da Foz, é frequente vê-la ocupar depressões dunares e orlas de pequenas lagoas. De seu nome Schoenus nigricans (o que pode traduzir-se por junco-negro), é uma herbácea rizomatosa com caules até uns 80 cm de altura, folhas exclusivamente basais, quase cilíndricas por causa das margens enroladas, e inflorescências compactas formadas por cinco ou mais espiguetas de um castanho negrusco, envoltas por duas brácteas, uma delas muito comprida. Nas fotos acima, tiradas em meados de Março, as flores só deixam ver a sua faceta feminina, mas elas são bissexuais, contendo cada uma três estames e três estigmas. À semelhança do que acontece com outras ciperáceas, é uma planta muito viajada, cidadã de muitos países e continentes, desde a Austrália à América do Norte, passando pela Europa, Ásia e África.


Eleocharis palustris (L.) Roem. & Schult.
Não menos viajada é esta outra ciperácea, que compensa a falta de passaporte australiano por uma mais ampla cobertura do continente euro-asiático. O nome Eleocharis dá em português qualquer coisa como encanto-dos-pântanos e, não sendo o encanto visível aos olhos de todos, é um bom exemplo de como gostos não se discutem. Ou de como eles, discutindo-se (afinal que fazem os críticos de arte ou de literatura senão tentar moldá-los?), podem ser radicalmente intransmissíveis. O nosso povo, em qualquer caso, não se deixou seduzir pela planta, pois ao invés de lhe reconhecer o encanto resolveu castigá-la com o nome junco-marreco.

Não adianta explicar pela enésima vez ao dito povo que uma ciperácea não é um junco, pois é na língua comum, com as suas lacunas e os seus absurdos, que nos temos de entender. Seja, então. O junco-marreco, como todos os seus congéneres (são cinco as espécies de Eleocharis espontâneas em Portugal), não possui verdadeiras folhas, mas apenas umas bainhas que abraçam a base dos caules cilíndricos, cada um deles rematado por uma espigueta solitária. Distingue-se (com dificuldade) dos seus congéneres pelas hastes mais altas (em geral até 60 cm, mas podem atingir os 100 cm), pelas espiguetas mais compridas, com maior número de flores, e pelo carácter rizomatoso que lhe permite ocupar grandes extensões de terrenos alagados e justifica o nome creeping spike-rush que lhe foi dado pelos anglo-saxónicos. As flores são bissexuais, e a foto deixa já entrever as suas partes masculinas (estames com anteras) e femininas (estigmas).

A julgar pelo mapa de distribuição no portal Flora On, o junco-marreco faz o pleno do nosso território continental, e aliás estende-se com igual abundância pela Europa fora. Qualquer lagoa ou charco é para ele um habitat propício. Na foto em baixo, captada numa clareira do maior sobreiral de Trás-os-Montes, temos um exemplo (encantador?) dos lugares de que gosta.


charcos temporários em Romeu, Mirandela

16/06/2015

Valéria & Valério



Valeriana dioica L.


Nas espécies dióicas há indivíduos masculinos, cujas flores têm estames e produzem pólen, e femininos, os que dão sementes. Esta estratégia reprodutiva, que impede a endogamia, serve apenas para a fertilização cruzada. Todavia, é precisamente este o modo de reprodução que favorece a diversidade genética, que promove a combinações de traços mais bem adaptados à competição e sobrevivência da espécie numa dada ecologia, e que melhor distribui o esforço que as plantas têm de despender para se disseminarem. Por exemplo, sendo o custo de produzir sementes elevado para as plantas femininas, em algumas espécies dióicas cabe às masculinas a tarefa de atrair mais polinizadores. Para isso, são mais altas, a floração ocorre mais cedo e com flores mais vistosas e perfumadas (lembrando as artes de sedução de alguns pássaros que Darwin estudou). Contudo, seja por tais flores grandes ensombrarem as componentes verdes e a planta, sem a fotossíntese necessária, enfraquecer, seja porque a folhagem avantajada aguça o apetite dos predadores herbívoros (assim se poupando as plantas femininas), as plantas masculinas têm um ciclo de vida mais curto. Noutras espécies, porém, sobretudo as lenhosas (como as araucárias, os teixos, os salgueiros, os freixos, os choupos, as amoreiras, as ginkgo, os azevinhos ou os juníperos), as flores masculinas são pequenas, ou mesmo inconspícuas, a polinização está muitas vezes a cargo de polinizadores generalistas ou do vento, e são as plantas masculinas que têm de garantir, com boas raízes para a eficiente extracção de azoto do solo, a vitalidade das novas gerações. Nestes casos, cabe às plantas femininas, com flores maiores, a produção de nutrientes suficientes para as sementes.

Estranhamente, apesar desta útil divisão de tarefas na maternidade e das vantagens enunciadas, as espécies com flores hermafroditas e as espécies monóicas (com flores masculinas e femininas distintas mas convivendo na mesma planta) são mais frequentes, representando em conjunto mais de 90% das espécies conhecidas. É que a reprodução de plantas dióicas exige a proximidade dos dois sexos e, se a polinização for feita por insectos, que eles sejam igualmente atraídos por ambos. Uma mudança genética persistente nas plantas masculinas tem de ser compatível com o genótipo, ou com o interesse evolutivo, das femininas, ou não podem mais acasalar. Pelo contrário, a fertilização em espécies sem diferenciação sexual está garantida, uma vez que o pólen e o estigma estão disponíveis na mesma planta; mas, apesar de os clones ajudarem a manter os efectivos de uma população se a polinização cruzada não for bem sucedida, a insistência na auto-fertilização comporta riscos a longo prazo face aos mecanismos selectivos. É também por a balança de benefícios e prejuízos de um ou outro sistema reprodutivo estar demasiado equilibrada que as espécies dióicas investem em diferenças morfológicas ou fisiológicas que permitam diversificar as recompensas aos polinizadores. Por exemplo, em alguns habitats muito chuvosos, as plantas masculinas e as femininas têm flores drasticamente diferentes para que uma das estirpes ofereça ao polinizador vários nichos para depositar as suas larvas-bebés, além de néctar para os alimentar, enquanto a outra, sem néctar, tem uma forma que funciona como abrigo da chuva.

Em geral, e ao contrário do que acontece nos animais, só após a floração podemos com um mero olhar ter a certeza do sexo da planta numa espécie dióica. Mas nem sempre a morfologia das flores masculinas é notoriamente distinta da das masculinas, pois podem ambas ter as estruturas reprodutivas dos dois sexos (embora só uma delas funcione em cada flor, como quando as flores femininas têm, além do estigma, estames estéreis). Por indicação de Paulo Alves, vimos esta Valeriana no Alto Minho, na margem de um riacho junto a um bosque de solo bem irrigado. Havia que procurar plantas masculinas e femininas vizinhas, e seria necessário realçar as diferenças. Comparemo-las pelas fotos. Ambas são plantas frágeis, embora perenes, com hastes florais de cerca de meio metro de altura e inflorescências atraentes. As folhas são opostas, tendo as basais um pé longo. As flores são brancas, algumas levemente rosadas, as masculinas de uns 5 milímetros de diâmetro, as femininas com cerca de metade desse tamanho. Nas masculinas (última foto) notam-se as anteras com o pólen; nas femininas (penúltima foto) nota-se ao centro o estigma. Como é usual em plantas dióicas, a Valeriana dioica também tem um plano B: dissemina-se por multiplicação vegetativa, largando pedaços de rizoma que se espalham eficientemente pelo solo.

13/06/2015

Casa na aldeia


Scrophularia herminii Hoffmanns. & Link


Já aqui comentámos o caso singular da Scrophularia grandiflora, um endemismo de Coimbra e arredores que prospera em ambientes ruderalizados como terrenos baldios e bermas de estrada. Ao contrário de outras espécies de distribuição restrita a que o progresso roubou espaço vital, a Scrophularia grandiflora parece ter adivinhado o que aí vinha, adaptando as suas preferências ecológicas em conformidade. A única estranheza é que, estando tão bem equipada para este novo mundo suburbano de estradas em profusão, não tenha conseguido expandir-se para lá da sua terra natal. Mas ainda vai a tempo.

Quem talvez já tenha perdido a boleia do século XXI é a sua congénere Scrophularia herminii, que por viver dos dois lados da fronteira luso-espanhola teve que se contentar com o título de endemismo ibérico. Apesar disso, é listada no Anexo V da Directiva Habitats, integrando assim o clube selecto das espécies legalmente protegidas no nosso país. Uma dificuldade quando se pretende proteger alguma coisa é saber onde ela mora e conseguir reconhecê-la. A S. herminii é muito semelhante à S. scorodonia, bastante vulgar no norte e centro do país em ambientes nitrófilos frescos. Ambas as espécies têm caules ramificados e podem atingir os 1,7 m de altura, mas apresentam diferenças subtis na folhagem (compare a foto aí em cima com a desta página), na indumentação (a S. herminii tem pêlos glandulosos ao longo de todo o caule, a S. scorodonia só os tem nas inflorescências) e sobretudo nas flores: as da S. scorodonia têm o cálice peludo, as da S. herminii têm-no glabro (5.ª foto acima).

Resolvido o problema do reconhecimento, falta saber onde encontrar a Scrophularia herminii. Também gosta dos ambientes a que nós chamamos nitrófilos, onde a actividade humana exacerbou a presença de nutrientes no solo, mas prefere ares de montanha e é rara abaixo dos 500 m de altitude. As tradicionais aldeias serranas do norte do país parecem ter sido feitas de encomenda para lhe servirem de morada. Enquanto pessoas, bichos e plantas puderem viver em equilíbrio em aldeias como Porto Cova, em Arcos de Valdevez, onde as pedras dos muros florescem não menos do que os campos cultivados e não há brigadas de limpeza a aspergir herbicida pelos cantos — enquanto tudo assim se mantiver, a S. herminii irá sobrevivendo alegremente. Mas o progresso destrutivo é imparável, e Porto Cova, tal como a vizinha aldeia de Sistelo, tem o seu modo de vida ameaçado pela prevista construção de uma mini-hídrica no rio Vez, que corre no fundo do vale para o qual descem socalcos moldados pelo trabalho de muitas gerações. Continua a fazer escola a frase, dita à vista do rio Tua, «agora o que falta aqui é cimento», apesar de quem a proferiu se ter mudado contra a sua vontade para Évora. Mesmo que os promotores garantam ser este «o projecto de uma hídrica mais ecológico que já se fez em Portugal», com um muro de apenas dois metros de altura revestido com «pedra da região», é por certo muito mais ecológico não construir uma albufeira que nenhum dos habitantes de Sistelo ou Porto Cova deseja e que, além de deturpar a paisagem, irá inviabilizar, pelo desvio da água, o cultivo dos prados de lima que preenchem os socalcos. A curto prazo, os agricultores que ainda resistem ver-se-ão forçados a abandonar uma prática quase milenar, e as aldeias ainda mais se esvaziarão — para proveito e por ordem de uns senhores de Lisboa, paus-mandados de multinacionais sem rosto.


Porto Cova, Arcos de Valdevez

06/06/2015

Encontro das águas (2.ª parte)


Juncus maritimus Lam.

Entre os enigmas da língua portuguesa que mais confundem os aprendizes de naturalista avulta o sapal. Quem nunca pensou no assunto dirá prontamente que se trata de um «espaço dedicado à criação de sapos»; ou, se for um pouco mais sofisticado, um «habitat húmido ou encharcado onde se instalam colónias de sapos e de outros anfíbios». Uma reflexão mais prolongada não tardará a pôr em dúvida estas improvisadas definições. Mesmo aqueles que tenham dificuldade em distinguir entre sapos e rãs saberão que são as segundas e não tanto os primeiros que têm o hábito de viver em locais alagados. Assim, se insistirmos em caracterizar pela presença de algum batráquio aquela zona lodosa dos estuários dominada por uma vegetação halófila especializada, então deveríamos em rigor chamar-lhe ranal (ou talvez ranário) e não sapal. Mas a dúvida sistemática de novo se faz ouvir: há rãs por todo o lado, coaxando os seus cantares onde quer que haja água, e não apenas nesse lugares do litoral que apressadamente rebaptizámos como ranais. Dir-se-ia até que, se os compararmos com os comuns charcos de água doce, os sapais ou ranais não albergam, proporcionalmente à sua área, um contigente muito expressivo de tais bichos. Talvez seja melhor encolher os ombros e admitir que o nosso idioma tem razões que a razão desconhece. Ainda há nele, para nosso apaziguamento, zonas de luz onde a lógica e a semântica não estão de relações cortadas. Um juncal, por exemplo, é mesmo um lugar onde há muitos juncos, e dessa verdade fazemos prova neste texto.

O rio Coura desagua tão perto do mar, num ponto onde o rio Minho está já tão inchado de água salgada, que não será moralmente correcto defini-lo como um afluente. Aí onde se dá o encontro de três águas (dois rios e um oceano) estende-se um juncal que não é só feito de juncos, mas onde os legítimos juncos estão amplamente representados. Particularmente numerosos são os Juncus maritimus, que não são os únicos a viver em estuários mas se distinguem pela inflorescência unilateral disposta em espigas erectas (no Juncus effusus, frequente em habitats diversos e não apenas à beira-mar, as flores agrupam-se em panículas). Fotografadas precocemente, as flores do nosso junco marítimo ainda estavam a desenvolver-se, mantendo-se pudicamente fechadas. O leitor pode no entanto observar nesta foto que as flores dos juncos, embora desprovidas de pétalas de cores garridas, são bastante convencionais, com ovário, estigmas e estames bem diferenciados. Nesse aspecto — mas não nas folhas estreitas, quase lineares — os juncos demarcam-se claramente das gramíneas com que amiúde são confundidos.

Cosmopolita, como tantas vezes sucede com plantas que vivem com um pé na água, o Juncus maritimus marca presença em quase toda a costa portuguesa do Minho ao Algarve. As suas viagens por mar entre os continentes permitiram-lhe estabelecer-se também em algumas ilhas. Nos Açores, por falta de habitat conveniente, é muito raro, mas ainda assim está registado na Terceira (paul do Belo Jardim, à Praia da Vitória), em São Jorge (Fajã dos Cubres) e no Pico (juncal da baía do Castelete, nas Lajes do Pico).


Lajes do Pico: juncal com Juncus maritimus, Juncus acutus e Solidago azorica (cubres)


Lajes do Pico

02/06/2015

Campainhas portuguesas


Narcissus lusitanicus Dorda & Fern. Casas [= Narcissus triandrus subsp. lusitanicus (Dorda & Fern. Casas) Barra]


A Flora Ibérica publicou em Dezembro de 2013 uma revisão do género Narcissus, com três endemismos portugueses, vários espanhóis e alguns ibéricos. Os autores reconhecem a dificuldade em arrumar a casa de um género muito usado em horticultura e, por isso, com inúmeros cultivares cuja relação com as espécies silvestres é por vezes problemática. Que características na chave proposta ajudam a identificar os narcisos? Naturalmente, começamos pelas flores, mas a secção e nervuras das folhas ou a época de floração também servem para decidir. Sobrando dúvidas, há ainda as sementes.

Pois bem, a forma da corola e as tépalas reflexas sugerem sem grandes hesitações que os narcisos das fotos são da espécie N. triandrus. Sendo essencialmente ibérica (com algumas populações em França), a Flora Ibérica reconhece-lhe duas subespécies, a típica (N. triandrus subsp. triandrus), que ocorre no norte e noroeste da Península Ibérica, em geral com duas (às vezes mais) folhas de secção trapezoidal, com duas quilhas na face inferior bem vincadas, e cujas flores exibem tépalas longas, a cobrir o tubo; e a subespécie do sul (N. triandrus subsp. pallidulus), com uma folha cilíndrica, estriada mas sem quilhas, e flores de tépalas curtas. Não surpreendentemente, na fronteira destas duas metades da Península, observam-se plantas com características intermédias. As plantas cujas flores são de cor amarelo intenso, como as que vemos nestas fotos, foram colocadas na subespécie... pallidulus. Os autores da revisão também se aperceberam da designação bizarra, e para não serem acusados de desvalorizarem diferenças, justificam-se: são os aspectos foliares e biométricos que sugerem esta opção.

As populações de N. triandrus que observámos em Proença-a-Nova e em Oleiros, na Beira Baixa, com corola e haste diminutas e flores (com raras excepções) solitárias, configuram, segundo vários autores, uma terceira subespécie, o N. triandrus subsp. lusitanicus (Dorda & Fern. Casas) Barra, ou mesmo uma espécie autónoma, descrita como Narcissus lusitanicus em 1989. Essa independência, altamente plausível para quem já pôde observar as plantas, é validada pela Euro+Med Plantbase, que reúne e avalia a informação actualizada das floras europeias.


Oleiros — serra do Moradal

30/05/2015

Encontro das águas (1.ª parte)


Bolboschoenus maritimus (L.) Palla


Como criaturas terrestres, incapazes de sobreviver debaixo de água sem equipamento apropriado por mais que dois ou três minutos, a nossa atracção pelo mar talvez seja explicada pela inveja. Afinal, os bichos e plantas do mar têm à sua disposição um mundo muito mais vasto do que o nosso. E assim passamos as nossas férias, de olhos postos na grandeza inacessível do oceano, ignorando os mistérios banais da terra firme nas nossas costas. Recusamos o que nos é natural em favor daquilo que não podemos alcançar, e ficamos encravados na fronteira entre dois mundos, mais limitados nos nossos movimentos do que todas as descomplexadas criaturas do mar e da terra.

Embora, por certo, sejamos únicos no modo voluntário como a ele nos submetemos, não estamos sozinhos nesse aperto. Iniciamos aqui uma curta (e intermitente) série sobre as plantas que vivem no encontro das águas, naquela fronteira movediça onde a água doce dos rios que terminam o seu curso é temperada pelo sal das marés. Essas areias lodosas, ricas em nutrientes, são bem diferentes das areias limpas e enxutas que os veraneantes gostam de pisar com os pés descalços; se atraem gente, são pescadores à cata de marisco. A vegetação cerrada e algo agressiva, dominada por aquilo a que, sem grande precisão, chamamos juncos, não sobressai pelo colorido, ainda que possa haver excepções. Aos juncos e afins, o vento basta-lhes como polinizador, por isso não há flores recheadas com néctar, e os insectos que se entretenham noutras paragens.

É quase inevitável que o nosso primeiro «junco», fotografado no (chamemos-lhe assim) juncal da foz do Coura, em Caminha, não o seja de verdade. Contudo, se traduzirmos do grego o nome genérico Bolboschoenus, obtemos qualquer coisa como junco-bolboso, o que se explica por a planta apresentar rizomas intumescidos semelhantes a bolbos. Em contraste com as flores claramente individualizadas dos legítmos juncos, o Bolboschoenus tem as flores (ou florículos) dispostos em espigueta: são as estruturas sésseis, de formato elipsoidal e de um tom castanho carregado, que se podem observar na terceira foto aí em cima. Herbácea vivaz que por vezes ultrapassa 1 m de altura e que floresce desde a Primavera até ao Outono, o junco-bolboso está presente em regiões temperadas de todos os continentes e em boa parte do litoral da Península Ibérica. Acontece-lhe por vezes optar por uma dieta sem sal, seguindo então por algum rio acima até se instalar longe da costa. As suas ligações familiares, se o afastam dos juncos, aproximam-no dos cárices (género Carex) de que há tempos aqui falámos.

26/05/2015

Cegonha na praia


Erodium cicutarium (L.) L'Hér. subsp. bipinnatum (Cav.) Tourlet


Depois de termos encontrado os bicos-de-cegonha (ou, mais correctamente, bicos-de-garça) em quintais e jardins, ou em espaços que foram essas coisas noutras épocas, o leitor já a sonhar com férias de Verão ficará talvez contente em saber que também na praia se encontram dessas plantas. Enfim, não exactamente as mesmas plantas, mas uma versão delas adaptada às difíceis condições de vida nas dunas. Tão difíceis, aliás, que quando apertam os calores de Agosto e se abrem os guarda-sóis dos veraneantes já este Erodium cicutarium, como planta anual que é, desapareceu de vista, tendo entretanto assegurado descendência pela abundante produção de sementes.

A forma dunar do E. circutarium é uma planta rasteira, glandulosa, com pétalas arredondadas e quase brancas. Se nos afastarmos da costa podemos ver, tanto em calcários como em lugares xistosos ou graníticos, diversas formas da mesma espécie, mas em geral mais altas, com pétalas cor-de-rosa alongadas e assimétricas, às vezes maculadas na base. É provável que o nome Erodium cicutarium seja apenas uma maneira preguiçosa de arrumar um agregado de espécies afins que não há pachorra para deslindar. Essa suspeita é reforçada pela existência de grandes variações genéticas dentro da espécie: há plantas diplóides (com 20 cromossomas), outras tetraplóides (40 cromossomas) e ainda outras hexaplóides (60); para agravar a confusão, também se encontram plantas com números cromossómicos estranhos como 36, 42, 48 e 54. Talvez o conceito tradicional de espécie não seja adequado para lidar com um caso destes, mas parece-nos pouco satisfatória a solução, a que os botânicos chegaram recentemente, de decretar que as diversas subespécies do E. cicutarium (incluindo a subsp. bipinnatum) não têm valor taxonómico. Mesmo que estejam ligados por formas intermédias, os extremos do intervalo de variação são claramente distinguíveis. Esta moda de amalgamar coisas díspares sob um único nome pode tornar a taxonomia botânica mais simples, mas não a torna mais útil nem mais interessante.

Uma ou várias versões do E. cicutarium (espécie que, no seu sentido lato, é originária da Europa, Ásia e norte de África) atravessaram o Atlântico e, cumprindo de modo fulgurante o sonho americano, prosperaram e multiplicaram-se no país de acolhimento a ponto de merecerem o estatuto de ervas daninhas impossíveis de erradicar. A ideia de que «se não podes vencê-los, deves comê-los» não será remédio universal para semelhantes casos de infestação; mas, como se ensina nesta página, é útil para lidar com os bicos-de-garça. E ficamos a saber que o E. moschatum, embora mais amargo do que o E. cicutarium, também é comestível. A cautela a ter é que estas plantas, aconselhadas para saladas e temperos, são mais tenras e saborosas quando ainda não floriram, mas nessa fase podem confundir-se com certas umbelíferas mortalmente venenosas.

23/05/2015

Agrião fogueteiro


Barbarea verna (Mill.) Asch.


Descobrimo-la na praia fluvial de Friestas, Valença, mais recuada do que as ervas rasteiras que se aventuram a molhar as raízes na maré alta. Chovia bastante, e ali estacámos num grande pasmo diante do rio Minho. Nenhum de nós se lembrou de orar a santa Bárbara — enfim, as tradições já não se honram como outrora. A calma perante a tempestade, todavia, permitiu-nos reparar nesta crucífera formosa, com flores de um amarelo-limão muito apelativo, que o João Lourenço reconheceu de imediato. E, curiosamente, é uma Barbarea, género cuja designação homenageia (dizem) precisamente aquela santa, que tem notoriedade entre os que protegem contra relâmpagos e temporais, e é também padroeira de mineiros e artilheiros.

As plantas deste género (a partir da B. vulgaris) ganharam um tal nome pelo alívio que concedem em caso de queimadura. Há, porém, uma outra virtude que lhes é atribuída hoje em dia. Elas são uma preciosa ajuda no controle biológico das pragas de insectos em campos de cultivo porque criam naturalmente uma armadilha eficiente: os bicharocos são atraídos por estas plantas e nelas depositam, confiadamente, as suas larvas; mas estas morrem cedo por causa das substâncias químicas que as plantas entretanto produzem quando estimuladas por tais visitas. Eh pá, obrigadinha.

A B. verna, de floração temporã e bienal, é nativa do sudoeste da Europa e está presente de norte a sul do nosso território (com algumas lacunas pelo meio: falta no Alentejo e na Beira interior). Aprecia lugares húmidos com alguma sombra e solo arenoso. A Flora Ibérica publicou uma chave básica para distinguir esta da B. intermedia (erva-de-xestre) e da B. vulgaris (erva-de-santa-Bárbara), de que destacamos, porque pode notar esses detalhes nas fotos, os frutos longos, arqueados para cima e ligeiramente comprimidos.

A B. verna é conhecida, entre nós, como agrião-da-horta (em inglês também lhe chamam early yellow rocket), e pode consumir-se em saladas ou sopas, em substituição, por exemplo, do agrião ou dos espinafres.

19/05/2015

Rio obeso


Chamaesyce canescens (L.) Prokh. subsp. canescens [= Euphorbia chamaesyce L.]


Deslizando pela IC5 entre Alfândega da Fé e Mougadouro, os montes parecem-nos agora mais atarracados e os vales menos profundos, efeito do rio Sabor que começou a inchar doentiamente quando no final de 2014 as comportas da barragem foram fechadas. A alteração brutal da paisagem, o afogamento do vale, o arranque de centenas de milhares de árvores e o desaparecimento de habitats mediterrânicos únicos não podem ser descritos como melhorias, nem (santa ingenuidade!) como o preço a pagar por finalmente haver água à farta numa região onde ela costumava ser escassa. A água que ali está represada serve apenas para produzir energia eléctrica: nunca chegará à torneira de ninguém nem irá regar campos ou pomares ressequidos. Passada a euforia da construção, em que algumas centenas de operários poderão ter animado a economia local, o Nordeste Transmontano não tirará qualquer benefício desta forma destrutiva de progresso. Muito pelo contrário: albufeiras obesas e eutrofizadas há muitas pelo país fora; rios como o Sabor só havia um. Aqueles que procuram lugares genuínos e bem preservados terão menos motivos para visitar Trás-os-Montes. E, como quem espeta mais um prego no caixão, a mesma tragédia com os mesmos protagonistas prossegue inexorável no também transmontano vale do Tua.

Face ao corte de zimbros e azinheiras, à obliteração das mais importantes populações portugueses de buxo silvestre, e ao desaparecimento de herbáceas raras como a Mentha cervina e a Bufonia macropetala, a perda por afogamento da planta que hoje ocupa o escaparate talvez não justifique muitas lágrimas. Pende sobre ela a suspeita antiga (reproduzida na Flora Ibérica) de não ser europeia de puro sangue, mas antes um «arqueófito» originário da Anatólia e do Irão. Como quase todas as suas congéneres, algumas delas (como a C. serpens e a C. maculata) frequentadoras de fendas de calçadas urbanas, a Chamaesyce canescens prefere solos pisoteados, no seu caso com um certo grau de humidade — lamacentos é talvez a palavra certa. O leito de cheia de um rio como o Sabor é, por comparação, um lugar de prestígio onde ela, longe de prever que um lago desabaria sobre a sua cabeça, teve a ousadia e a imprudência de se instalar.

A suspeita de que a C. canescens tenha origem exótica não foi ainda confirmada e talvez nunca venha a sê-lo, fazendo lembrar aqueles processos judiciais que se arrastam anos a fio até que prescrevam sem serem levados a julgamento. Nessa altura o arguido declara que foi reconhecida a sua inocência, mas o público em geral fica a pensar outra coisa. Contudo, se a C. canescens for mesmo nativa do nosso território, como é bem possível que seja, então a sua presença por cá tornou-se tão esporádica (quatro registos apenas no portal Flora On) que, se tal publicação existisse, a espécie teria lugar garantido no Livro Vermelho da Flora Vascular Portuguesa.

O género Chamaesyce aparenta estar bem caracterizado morfologicamente: são ervas rasteiras, anuais, de folhas assimétricas na base, com inflorescências como as das eufórbias, mas axilares em vez de terminais e sem ramificação dicotómica. Contudo, estudos genéticos recentes vieram questionar a sua independência, optando agora muitos autores por incluí-lo no género Euphorbia. Um verdadeiro regresso ao passado, pois Lineu, o pai da taxonomia moderna, baptizou esta planta em 1753 no seu Species Plantarum como Euphorbia chamaesyce.

16/05/2015

Amarelo das estradas


Verbascum sinuatum L.


A acreditar nos palpites etimológicos que se podem respigar aqui e ali, a palavra latina Verbascum, que já na antiguidade designava estas plantas altaneiras e de vistosa floração amarela, seria uma corruptela de barbascum. Não será pois muito disparatado traduzi-la por erva-barbuda. Essa propensão para a pilosidade, por vezes tão abundante que a planta se vê forçada a largá-la sob a forma de flocos, é menos evidente neste V. sinuatum do que por exemplo no V. pulverulentum. Ainda assim, a erva-barbuda-ondulada (nome comum acabado de inventar, sem esperança de que outros o adoptem) é assaz provida de agasalho para não desmerecer tal designação. Se fôssemos pedantes, traduziríamos sinuatum por sinusoidal, mas, como se vê pela foto, o termo é uma descrição apropriada da folhagem basal de uma planta que, como quase todas as suas congéneres, tem um ciclo de vida bienal. No primeiro ano, só aparece a inconfundível roseta basal; e, paradoxalmente, é mais fácil reconhecê-la nessa fase do que no seu segundo e último ano de vida, altura em que desenvolve uma inflorescência ampla e algo desgrenhada. Os verbascos são bonitos, e prestam um inestimável serviço público ao ajardinarem voluntariamente bermas de estrada e outros lugares desprezados, mas são todos muito parecidos e dar-lhes o nome correcto exige observação paciente. Contudo, se o leitor pousar os olhos neste quadro, a sua tarefa fica muito facilitada. Há-de notar que os verbascos se diferenciam por terem inflorescência simples ou ramificada, pelo maior ou menor comprimento dos pedúnculos, pela penugem dos estames, pela disposição mais ou menos densa das flores ao longo do caule. Assim, o Verbascum sinuatum, além de ter um porte bem mais modesto do que o V. pulverulentum, e de se distinguir deste igualmente pela folhagem, também se singulariza pela penugem lilás que cobre os estames. A forma das folhas caulinares (3.ª foto em cima) pode, se necessário, ajudar a dissipar dúvidas.

João do Amaral Franco, no vol. 2 da sua Nova Flora de Portugal, informa que o V. sinuatum é uma planta vulgar, presumindo-se que esteja presente em todo o território continental português. A Flora Ibérica corrobora a ideia, listando-a para todas as nossas províncias. Os registos no portal Flora-On sugerem porém que a sua presença a norte do Douro é muito esporádica; e que em Portugal ela ocorre com maior frequência nos afloramentos calcários, não tendo embora uma preferência declarada por tais substratos. Globalmente, a sua área de distribuição abrange toda a bacia mediterrânica.