12.7.09

Buganvílias

Bougainvillea-Braga-0607
Em cima- uma das buganvílias do Santuário do Bom Jesus do Monte, em Braga
Em baixo- exemplar de cor pouco comum, na Rua Vieira Portuense,em Lisboa
Bougainvillea Bougainvillea
Fotos © manueladlramos

O nome desta viçosa trepadeira deve-se ao explorador e naturalista francês Philibert Commerson (1727-1773) > que, em 1766, embarca -com a sua companheira Jeanne Barret disfarçada de criado- na viagem de circum-navegação de Louis Antoine de Bougainville > .

Sobre Commerson, o modo como partilhava as novíssimas plantas que ia encontrando e o baptismo da buganvília, Lucille Alorge > e Olivier Ikor escrevem o seguinte no livro La fabuleuse odyssée des plantes (2003):
«Toute l'humanité du personnage, sa générosité, son désir fervent de faire partager aux autres sa passion pour sa science se lisent dans la manière, on pourrait dire "dans le style", de Commerson herborisant. De ses récoltes il fait systématiquement plusieurs parts de chaque plante. jusqu'à vingt, afin de les distribuer non seulement au Jardin du Roi, mais aussi à tous les grands herbiers européens. Ces plantes il ne les nomme pas au hasard des hommages obligés à faire aux membres de l'expédition, aux ministres ou à ses amis, mais en cherchant des correspndences poétiques ou amusantes entre le végétal découvert et la personnalité de son dédicataire. Ainsi cet arbrisseau sarmenteux grimpant, à feuilles persistantes découvert aux environs de Rio qui pousse à plusieurs mètres de haut et de large pour éclater en une masse de fleurs d'un violet délicat ou d'un intense carmin ne pouvait que convenir aux caractère chaleureux mais tenace, plein de panache mais aussi de finesse du chef de l'éxpédition. Commerson, par ce trait de génie, avait lié dans un même destin le marin des Lumières et la plus lumineuse des plantes ornamentales, la bougainvillée (Bougainvillea spectabilis). Bougainville ne s'y trompa pas et quand, de retour en France, on lui demanda quelle trace il voulait laisser dans l'Histoire, il répondit joyeusement: "Eh bien! Je mets l'espoir de ma renommée dans une fleur."» (p.355)

11.7.09

Sanganho


Cistus psilosepalus Sweet

Os arbustos do género Cistus deveriam ser obrigatórios em qualquer jardim no continente português: sendo plantas nativas, estão perfeitamente adaptadas ao nosso clima, não exigindo cuidados especiais e aguentando-se bem com pouca rega; além do mais, são bonitos e têm floração vistosa. Enquanto não for promulgada a lei que consagre essa obrigatoriedade e proíba os relvados-com-palmeiras característicos das «vivendas» dos subúrbios (já se fizeram leis mais descabidas), o modo de encontrar os Cistus é passear por aqueles pedaços de território ainda livres de construções. São plantas tenazes, que persistem mesmo em lugares onde a natureza foi reduzida à caricatura, como os eucaliptais. Não surpreende, por isso, que sejam abundantes na Serra de Valongo.

As duas espécies de Cistus dominantes na Serra de Valongo são o sanganho (C. psilosepalus), de que acima exibimos fotos, e o sanganho-manso (C. salviifolius), duas plantas que facilmente se confundem, e que aliás costumam hibridar entre si. Ambas atingem uma altura máxima de um metro, e dão flores brancas com um diâmetro de 3 a 5 cm. Ao contrário de outras congéneres suas também de flores brancas (como o C. ladanifer e o C. monspeliensis), estas duas plantas não são pegajosas. As épocas de floração do C. psilosepalus e do C. salviifolius coincidem em parte, mas a do primeiro prolonga-se até mais tarde: quando tirei as fotos, no final de Junho, já o segundo perdera todas as flores. A distinção entre as duas espécies faz-se mais facilmente pelas folhas: as do sanganho são sésseis (ou seja, não têm pecíolo, agarrando-se directamente aos ramos) e alongadas (o termo técnico é oblongas); as do sanganho-manso dispõem já de um curto pecíolo e têm uma forma mais arredondada (dita ovada). [Estas características da folhagem do C. salviifolius podem ser conferidas nesta página.]

Ambas as espécies têm ampla distribuição nacional, mas o C. psilosepalus, a acreditar na Flora Digital de Portugal, está ausente do Algarve e do interior alentejano. Encontrei-o também no Sabugal, ainda em flor, atapetando o terreno à volta dos veneráveis castanheiros. Globalmente, o C. psilosepalus é um exclusivo ibérico; o C. salviifolius, mais viajado, está presente em toda a bacia mediterrânica, da França à Turquia e de Marrocos a Israel.

10.7.09

Petúnia-da-Patagónia


Petunia patagonica (Speg.) Millán

.....Et j'ai perdu tous mes paris
.....Il n'y a plus que la Patagonie, la Patagonie qui convienne à mon immense tristesse

.....Blaise Cendrars (Prose du Transsibérien et de la petite Jehanne de France, 1913)

9.7.09

Tudo corre pelo melhor no melhor dos mundos possíveis

[Este texto, aqui em versão retocada, apareceu há dois dias no blogue A Baixa do Porto, em resposta a dois textos lá surgidos que defendiam, com argumentos sui generis, as obras de remodelação da Escola Secundária Filipa de Vilhena (e o abate de árvores por elas provocado) e a prevista requalificação do Pavilhão Rosa Mota (e a consequente destruição do lago e da esplanada dos jardins do Palácio de Cristal).]

Quem se bate por utopias pode ser perigoso; mas os anti-utopistas, ou discípulos de Pangloss (cuja filosofia se encontra resumida no título), são deprimentes. Os leitores da Baixa do Porto foram há pouco brindados com dois textos impregnados dessa filosofia ultra-optimista: o de Manuela Monteiro e o de José Paulo Andrade. E que nos dizem esses textos? Que certas obras realizadas no Porto foram excelentes, por duas razões óbvias: as obras foram de facto feitas, e por isso a sua existência é boa e indiscutível (tudo quanto foi feito e existe é bom e indiscutível); e o nosso mundo, com o estilo de vida que tanto prezamos, seria inimaginável sem elas. Donde se deduz que os que se opuseram a tais obras não passavam de velhos do Restelo (ou, pior ainda, de velhos da horta) incapazes de acertar o passo com as mudanças do mundo.

Cândido aprendeu à própria custa que a filosofia do seu mestre Pangloss tinha sérias limitações. Não desejo que estes novos discípulos do mestre passem por infortúnios semelhantes, mas gostava de contrapor, a esse entusiasmo obreirista, um outro modo de ver as coisas. E, de passagem, aproveito para corrigir o excesso de ligeireza de algumas afirmações nesses textos.

Manuela Monteiro dá três exemplos de coisas boas que felizmente não foram travadas pela ortodoxia paralisante. Abstenho-me de discutir o caso do Museu Gulbenkian, por desconhecer os pormenores da história, mas os outros dois casos são de bradar aos céus (um deles, o da horta de Serralves, destruída para se construir o Museu de Arte Contemporânea, também foi referido por José Paulo Andrade). A Manuela Monteiro acha mesmo que o Jardim do Marquês ficou muito melhor depois de construída a estação de metro no subsolo? Olhe que a minha opinião (e a de muitas outras pessoas) é bastante diferente, como pode conferir aqui. Mas a sua opinião é tão taxativa, e tão radicalmente oposta à minha, que me parece perda de tempo discutirmos o assunto.


Jardim de aromáticas - Serralves - Agosto de 2006 (em fundo um pinheiro-manso)

A propósito da horta de Serralves, José Paulo Andrade cita um parágrafo de quem na altura se opôs à construção do museu:

«Quando um museu de arte moderna destrói a horta de Serralves, destruindo assim a unidade de uma das últimas quintas de recreio do Porto (fazendo perder sentido ao todo que lá existia) o edifício pode ser a oitava maravilha do mundo e criar um espaço magnífico, admita-se em tese que seja melhor até que o relevo cultural de uma das últimas quintas de recreio do Porto, mas será sempre sobre um acto de destruição patrimonial que se terá erguido o novo património.»

José Paulo Andrade conclui, triunfante, que o museu é hoje uma realidade indiscutível, e que já ninguém chora a perda da horta. Mas o que me parece igualmente indiscutível é que a destruição do património para o qual o parágrafo alertava se concretizou, e que a unidade patrimonial da Quinta de Serralves foi destruída. Hoje a horta não existe, nem existe nada de semelhante (o jardim de aromáticas, apresentado na altura como uma compensação pela perda da horta, é de facto outra coisa, e em todo o caso está praticamente ao abandono). Claro, dirá José Paulo Andrade, mas existe o museu, que é coisa muito melhor do que a horta e muito mais visitada.

Estes casos parecem reduzir-se ao mesmo princípio: se queremos progresso (mais cultura, melhor mobilidade, escolas com melhores condições), temos de sacrificar outros valores menores (como sejam a horta, o jardim, as árvores). Acontece que esses valores menores só são assim considerados porque os poderes que nos governam, e a própria mentalidade nacional, não os valorizam devidamente. Os dilemas apresentados (ou museu ou horta; ou jardim ou metro; ou árvores ou escolas) só o são porque as alternativas nunca chegam a ser seriamente estudadas. E não são estudadas porque no outro prato da balança estão coisas que, no entender do senso comum, valem pouco mais que um chavo.

Um exemplo de âmbito mais geral para ilustrar isso mesmo. Lendo os jornais, folheando revistas, ouvindo opiniões e entrevistas dos agentes culturais, depressa ficamos a saber que o ministro da Cultura é um desastre, como aliás já tinha sido a sua antecessora. Que eu saiba, porém, nem este ministro nem a sua antecessora têm tido como objectivo central da sua política a destruição sistemática dos museus e de todo o património cultural do país. Aquele ministro que de facto é um coveiro do património que lhe cabe gerir é o actual ministro do Ambiente, certamente o pior ministro (juntando todos os ministérios de todos os governos) de que há memória desde o fim do PREC. No entanto, tal ministro não é um escândalo público e os jornais não se enchem de artigos de opinião a denunciá-lo. Porquê? Porque a conservação da natureza não é importante, ao passo que a cultura já é.

Admito que as pessoas até gostem de jardins, parques e árvores. Têm é dificuldade em conceber que tais coisas tenham um valor próprio que possa sobrepor-se a outros valores. As árvores e os jardins, entendem elas, podem ser a cereja em cima do bolo, e tanto melhor se o bolo for um edifício desenhado por Siza Vieira ou uma estação de metro por Souto Moura. O que faz falta é entender que as árvores, a horta e os jardins podem constituir, por si só, o bolo e a cereja.


Esplanada do Palácio de Cristal - Julho de 2009 (castanheiro-da-Índia à esquerda e liquidâmbar à direita)

Adenda. José Paulo Andrade escreve que o Palácio é um «pequeno jardim local, actualmente não muito utilizado». Isso não é verdade: os jardins do Palácio são os mais frequentados da cidade (muito mais do que os de Serralves, onde à semana pouca gente vai). Além dos muitos turistas e utentes habituais, quase diariamente há visitas de escolas. Muita gente vai para a esplanada, muitos outros participam em sessões de ioga, muitos pais levam as crianças ao parque infantil, e é comum os lugares de estudo na biblioteca estarem todos ocupados. Não é para servir melhor estes muitos utilizadores do jardim que a Câmara quer destruir o lago e acabar com a esplanada.

[Se o leitor quiser manter-se a par desta discussão, é à Baixa do Porto que se deve dirigir. Recomendo ainda a leitura deste comentário de José Rui Fernandes ao texto de Manuela Monteiro.]

8.7.09

Vide-branca


Clematis campaniflora Brot.

O género Clematis aceita resignado ambientes semi-desérticos ou de floresta quente, mas redobra de viço em climas frios e quando tem uma treliça onde se enrolar. A China abriga a maior colecção, a Nova Zelândia ganha no número das de folha caduca. As clematites são presença comum nas colinas argilosas, de textura macia, dos caminhos dos peregrinos para Canterbury, florindo em época de peregrinação e recebendo por isso a designação traveller´s joy. Do tempo em que algumas espécies foram usadas como condimento, de efeito semelhante à pimenta (Piper nigrum) mas mais barato, vem-lhes o nome pepper vines.

Uma classificação recente identificou quase 300 espécies de clematites na Europa, Ásia e América do Norte; não admira por isso que, para arrumar as ciência, os taxinomistas tenham subdividido o género em subgéneros, secções e prateleiras. Apesar disso, a maioria das variedades que vemos em jardins são cultivares hortícolas obtidos a partir do subgénero Flammula, por cruzamento das espécies C. patens, C. lanuginosa e C. viticella. Exibem flores gigantes (12-15cm de diâmetro), cores inusitadas e nomes de fantasia. Enchem de júbilo ditosos possuidores de varandas e sócios da azafamada International Clematis Society.

Avistámos a vide-branca das fotos (trepadeira de folha caduca, semi-lenhosa, com folhas trifoliadas e flores solitárias muito perfumadas, em forma de sino e com pétalas com cerca de 2cm de diâmetro) numa das margens do Tua abraçada a uma rocha, e notoriamente a cabecear de sono. Naturalmente desaparecerá mal se construa a almejada e prometida barragem.

Esta clematite pequenina é espontânea em Portugal e no sul de Espanha. Na maioria das bases de dados de botânica chamam-lhe Portuguese clematis. Convirá notar que a família Ranunculaceae é quase cosmopolita mas se concentra no hemisfério norte, e que o género Clematis tem escassa representação na América do Sul, Brasil e Bahia incluídos. Tratemos portanto com desvelo a nossa clematite, não vá ela decidir mudar de nacio... hã?... está bem, não digo mais nada.

7.7.09

Negrilho sem saída


Ulmus minor Mill. - Carvalhos, Vila Nova de Gaia

Este magnífico negrilho faz aqui uma entrada de leão na nossa já abundante lista dos espécimes vegetais (árvores ou arbustos) encurralados pelo progresso. Por «progresso» deve entender-se a imparável progressão do asfalto, que se vem expandindo tentacularmente por todo o território nacional. (Esta ressalva, admito-o, é pleonástica e pedante, pois o vocábulo em causa há muito que para nós não significa outra coisa.)

Na verdade, viver encurralado não é destino assim tão ingrato. O negrilho está no centro de um triângulo arrelvado, num cruzamento de onde parte uma rua sem saída, cortada abruptamente pelos separadores da auto-estrada. O local é o nó dos Carvalhos da A1: quem, vindo dessa freguesia de Vila Nova de Gaia, acede à auto-estrada para se dirigir ao Porto, pode ver a árvore à sua direita, no meio de prédios e casas em desalinho, pouco antes da bifurcação onde tem de optar por uma das pontes sobre o Douro (Freixo ou Arrábida). Não é crível que o nó dos Carvalhos seja remodelado nos próximos anos, ou que alguma nova auto-estrada vá irromper pelo local. A pobre rua amputada onde mora o negrilho nunca terá forças para crescer e se virar contra ele. É pois de supor que a árvore ultrapassou com garbo a ameaça rodoviária que sobre ela chegou a pesar - e que a usou mesmo em proveito próprio, ganhando uma visibilidade como nunca teve e chegando mesmo (ó apogeu da fama!) ao estrelato no Dias com Árvores.

A ameaça maior que o negrilho enfrenta, como todos os da sua espécie e de espécies congéneres (género Ulmus), é a grafiose, que tem dizimado estas árvores pelo mundo inteiro. Agora que restam vivas poucas árvores adultas, talvez a intensidade da praga se tenha atenuado. Vinte e três anos depois de desaparecido o negrilho da Cordoaria, morto o negrilho de S. Martinho de Anta, mortas também as grandes árvores que existiam em Aveiro, o negrilho dos Carvalhos acaba por fazer figura de monumental. Oxalá dure muitos anos.

(Espontâneo na metade norte de Portugal, o Ulmus minor é a espécie do seu género mais comum no nosso país. Os ulmeiros distinguem-se por as folhas serem claramente assimétricas na base; as do negrilho exibem forma ovada-lanceolada, ápice pronunciado e margens grosseiramente dentadas - veja foto aqui.)

6.7.09

Elogio da espera



Toda espera é um pequeno exílio do desejo. A espera supõe paciência, e eis aí um ato exclusivamente humano.
Luiz Antonio de Assis Brasil, Ensaios íntimos e imperfeitos (2008)


É um prado esquinado e florido, rasgado por um carril de caminho de ferro, projecto de Eva Barcala Pérez e José Manuel Mouriño Lorenzo para o Festival de Jardins de Ponte de Lima. As cores fortes mas em plantas minúsculas (como as linárias), e a ausência de movimento, desenham de modo rigoroso uma pausa: um momento consciente de vagar que estranhamos, nós que ocupamos com afã todos os minutos da nossa vida.

Este jardim dá corpo ao conceito de terceira paisagem de Gilles Clément: um espaço indeciso, desprovido de função, ao qual se torna difícil atribuir um nome. Encontra-se em orlas de bosques, ao longo de estradas e rios, nos recantos mais esquecidos da cultura, lá onde as máquinas não conseguem chegar. Tirando partido da falta de decisão humana, as herbáceas nestes domínios crescem desempoeiradas, de malas prontas para o despejo.

Sem querer, esta designação empurra, com alguma aleivosia, este tipo de jardim para o «terceiro mundo». Alusão certeira: para os paisagistas defensores do valor dos jardins que lhes vem dos «equipamentos» e das «instalações», da área construída e não da biodiversidade e sustentabilidade, este é um espaço subdesenvolvido, não capitalista (o 1º mundo) nem socialista industrializado (o 2º). E talvez só desta terceira paisagem se possa genuinamente esperar o não-alinhamento e uma união que transforme o modo de (vi)ver a Terra.

4.7.09

Carqueja


Pterospartum tridentatum (L.) Willk.

A maioria das plantas que, chegando a Primavera, forram de amarelo as nossas serras são leguminosas (família Fabaceae) pertencentes à subfamília Papilionoideae: tojos, giestas, pascoinhas, carqueja. O que unifica esta diversidade botânica, além da afinidade cromática, é o formato característico da flor, com uma pétala superior destacada, chamada estandarte, que exibe um vinco central por vezes bem marcado, e duas pétalas adjacentes a essa (as asas) abraçando as duas pétalas inferiores - as quais, fundidas, formam a quilha.

(Nada como passar da teoria à prática. Se o leitor clicar na etiqueta Fabaceae mais abaixo, encontra muitas flores, nem todas amarelas, que obedecem a esta descrição - trevos, favas, tremoceiros, etc -, mas também encontra algumas que dela divergem. Acontece que as outras subfamílias das leguminosas - Mimosoideae, que inclui as temíveis acácias, e Caesalpinioideae, que engloba, por exemplo, os géneros Ceratonia (alfarrobeira), Caesalpinia e Bauhinia - dão flores de morfologia bem distinta. Tirando a alfarrobeira, essas duas subfamílias não têm, suponho, representantes na flora espontânea portuguesa.)

Embora, visto ao longe, o tapete amarelo da carqueja (Pterospartum tridentatum) se possa confundir com o do tojo (género Ulex), as duas plantas são de facto muito diferentes. A carqueja não tem espinhos, e os seus ramos encontram-se envolvidos por duas membranas verdes e paralelas, que se substituem às folhas na função fotossintética; as folhas propriamente ditas são insignificantes e por vezes estão mesmo ausentes.

Garantem os livros que a carqueja (que é uma espécie essencialmente ibérica, embora haja notícia dela também em Marrocos) é uma planta útil na nossa culinária tradicional: os ramos floridos seriam usados em pratos de arroz e de caça, e as flores secas serviriam para infusões. Isto, suponho, no tempo em que o povo ia à serra e conhecia as plantas. Duvido que em Valongo, onde tirei as fotos, haja muita gente que reconheça a carqueja ou saiba os seus usos. É por isso reconfortante saber que se celebra uma Festa da Carqueja na freguesia da Malcata, no Sabugal. Quando a serra por lá foi florestada com pinheiros, e perdeu uso agrícola e pastoril, as pessoas deixaram de a frequentar. Tempos depois, alguém alvitrou que seria bom, nem que fosse uma só vez em cada ano, por altura da carqueja em flor, regressar à serra para retomar o convívio interrompido. De companheira diária, a serra passou a ser uma amiga distante que se visita de tempos a tempos com grande cerimónia. Mas pelo menos nem ela nem a carqueja ficaram esquecidas.

3.7.09

Falso pau-Brasil


Caesalpinia spinosa (Mol.) Kuntze

Caro leitor,

Como vai? Já em férias? Nós andamos enredados em caesalpinias, assunto espinhoso - e olhe que não é apenas porque algumas destas espécies têm tronco aculeado. As fotos que aqui lhe mandamos, e que fará o favor de analisar quando lhe sobrar tempo dos seus preciosos afazeres, são de mais um arbusto deste género que mora no Jardim Botânico do Porto e que, quem diria, conseguimos identificar correctamente.

Estará o leitor já de semblante desconfiado, mas, descanse, desta vez não há placa no Jardim a etiquetar a planta, não há risco de tombo. Observámos demoradamente o tronco (rugoso, cinzento, com espinhos de barriga gordinha), as folhas (alternas e bipinadas, como é característico no género Caesalpinia), os folíolos (sendo os secundários opostos, glabros e com base assimétrica), as inflorescências espiciformes, as flores a abotoar e as já abertas (com a sépala maior, canoa com um bordo de dentinhos-de-crocodilo, a envolver completamente os estames), os frutos do ano passado (vagens de cor de tijolo, já maduras) e até, pasme amável leitor, vimos as sementes à lupa, uns berlindes achatados de casca enrugada e cor castanho-cinza. Depois compulsámos bibliografia fiável e concluimos: trata-se de um exemplar de Caesalpinia spinosa. Assim, munidos de ciência e olho vivo, não há erro que nos deslustre.

O falso pau-Brasil, ou tara, é originário do Peru, mas vegeta com agrado noutros países da América Central e do Sul. É planta produtora de taninos e, diz-se, a infusão dos frutos é aconselhada em casos de amigdalite e excesso de mau colestrol.

Leitor atento, ainda aí está? Já não demoramos. Queremos deixar-lhe o desafio de identificar a outra espécie de Caesalpinia que julgámos, por aceitar ingenuamente como indubitável tudo o que os jardins botânicos nos contam, ser o pau-Brasil. É exercício meramente académico porque os «jardineiros» do Jardim Botânico do Porto reduziram, com uma poda histórica, um arbusto de 2m de altura e cerca de 3 de diâmetro de copa a um toco esquálido de 20cm que uma folhagem rala tenta a custo recobrir. Tão cedo não produzirá sementes que nos permitam decifrar o nome e a origem desta planta. Naturalmente, a placa que a identifica foi zelosamente renovada, mantendo-se contudo bem visível, talvez por apego à história ou o usual desvelo pela ignorância atrevida, a inscrição errada.

Conhece o viajado leitor outro jardim botânico que assim (des)cuide do seu acervo? Que detore as plantas para melhor as armazenar, e saiba tão pouco de taxinomia? Nós também não.

Com os melhores cumprimentos para si e para a família,

(assinatura ilegível)

2.7.09

Palácio de Cristal - lago

Palácio de Cristal -  lago  - 2004/01

Porto Palácio de Cristal lago 0401 Porto Palácio de Cristal lago 0401

Palácio de Cristal -  lago  - 2000/11
Fotos antigas (Inverno 2004 e Outono 2000)
Carregar nas fotos para ver outras do mesmo espaço.

Notas:
1- Intervenção no Palácio de Cristal: Campo Aberto quer explicações da CMP
2- Recebido por mail: marcação de encontro no café Ceuta, amanhã dia 3, pelas 18.30 para se trocarem impressões sobre as projectadas obras de "requalificação" desta zona dos jardins do Palácio.
3- Petição on-line

Há vida depois do fogo


Carvalhos-negrais (Quercus pyrenaica) mas também, à esquerda, um jovem castanheiro

A excursão de sexta-feira aos castanheiros monumentais do Sabugal permitiu-nos ter uma ideia, necessariamente incompleta, da paisagem do concelho. O percurso foi em grande parte por estradões de terra batida que nem devem constar dos mapas; e, como não anotei os lugares por onde passámos, dificilmente conseguirei reencontrá-los quando lá regressar. E trata-se de um concelho vasto: 827 km^2 - vinte vezes maior do que o Porto.

Este território da Beira raiana, que visitei agora pela primeira vez, é completamente diferente daquela outra Beira que se estende entre Viseu, Guarda e Coimbra. Os eucaliptos estão ausentes, as acácias pouco se vêem e, embora haja alguns pinhais, eles estão longe de ser dominantes. A ausência desta competição (que em geral é avassaladora) permite a existência de algo que julgava já extinto em Portugal: extensas matas de carvalhos surgidas por regeneração natural. Não se trata do carvalho-alvarinho (Quercus robur) com que estamos familiarizados na faixa noroeste do país, mas sim do carvalho-negral (Quercus pyrenaica), que se distingue facilmente pelas suas folhas penugentas, aveludadas ao tacto. Nenhum dos carvalhais de Q. robur que conheço em Portugal tem um futuro tão promissor como estas matas de carvalho-negral no território raiano. Matas tão exuberantes que permitiriam, sem o menor risco de esgotamento, a exploração florestal para produção de madeira.



Que não haja eucaliptos e sejam poucos os pinheiros não garante que os incêndios não aconteçam, embora lhes modere a intensidade. Pelo contrário, eles devem até ser frequentes, pois a maioria das matas que avistámos era formada por árvores muito jovens. Visitámos uma área recém-ardida (foto acima, mostrando um carvalho que sobreviveu ao fogo) onde se viam rebentos de carvalho a despontar da terra enegrecida. Quase não há barreiras para o fogo: em vez de campos de cultivo ou pastagens a separar as matas, predominam os giestais, também eles facilmente combustíveis. Como em quase todo o país rural, são estas as marcas deixadas no território pela depauperação populacional, pelo abandono dos campos e pela diminuição da pastorícia.

Nem o fogo nem os carvalhos vão desaparecer da região. O problema é que o ciclo de vida dos carvalhais parece ser muito curto (talvez uns 10 ou 20 anos), o que, além de trazer evidentes prejuízos ambientais, significa um grande desperdício económico. Há vida no Sabugal, mas tudo pode arder de um momento para o outro. A boa notícia é que a vida não acaba aí.

1.7.09

Flor-canhota


Scaevola aemula R. Br.

.....cómo reirían
.....los puntos cardinales
.....si fueran cinco

.....Mario Benedetti

30.6.09

Novos vizinhos

A coluna de atalhos aí à esquerda tem levado algumas podas, sobretudo para remoção dos ramos mortos, mas os que ficam ainda compõem floresta tão densa que o leitor talvez nem repare nos novos vizinhos que, uma vez por outra, aqui vão chegando. Eis três deles que bem merecem assídua visita:

  • Peregrino - por Bernardino Guimarães, cronista do Jornal de Notícias e consultor editorial do programa televisivo Biosfera, um blogue muito informado sobre todos os assuntos do ambiente.
  • Das plantas e das pessoas - os profissionais da botânica saem finalmente da toca, e os amadores como nós só têm a ganhar com isso.
  • Sintra, acerca de - mostra a Sintra que os visitantes ocasionais desconhecem, reaviva memórias, desperta saudades, e ainda tem tempo para olhar em volta e falar do urbanismo que (não) temos.

A culpa é das ovelhas

O momento mais pungente - ou pelo menos aquele que mais fundo me tocou - do seminário Árvores Monumentais: Importância e Conservação, que decorreu no Sabugal na quinta e sexta passadas (25 e 26 de Junho), aconteceu exactamente no final da palestra de Ted Green. Foi quando...

(Eis que a voz da consciência me interrompe em tom alarmado: «O quê?! Não me digas que vais falar daquilo! Francamente, não esperava isso de ti!»)

(Ignoro tanto quanto possível a interrupção e prossigo o meu relato.)

... foi quando o orador perguntou se alguém da audiência podia emprestar dois casacos, um para ele e outro para Jill Butler. É que já há dias que os dois, desprovidos de agasalhos eficazes, rapavam em Portugal um frio para o qual ninguém os tinha alertado. Na manhã seguinte, durante a excursão aos castanheiros monumentais, continuavam ambos de manga curta. O dia esteve sempre prazenteiro, o sol nunca se fez rogado, e os casacos não fizeram falta nenhuma, mas será que alguém lhos chegou a emprestar? Prefiro não saber. Seria terrível que ruíssem na mesma altura duas das certezas que mais arreigadas tinha: a primeira, que os povos do norte da Europa (e em particular os britânicos) são imunes ao frio; a segunda, que ninguém excede os portugueses em hospitalidade.



Castanheiro (Castanea sativa) - Sabugal

São às centenas os anos que os velhos castanheiros do Sabugal transportam às costas. Alguns soçobram a tamanho peso e acabam por secar; outros há que suportam copas mais ou menos frondosas; e há ainda aqueles que, como quem usa peruca, disfarçam a decrepitude com cabeleiras de folhagem que afinal não lhes pertencem. É o caso do castanheiro acima: o tronco principal está morto, e dele não brota sequer uma folha; no entanto, os rebentos emitidos pelas raízes (chamados pôlas ou ladrões) conseguiram formar troncos secundários que agora prolongam a vida da árvore, fornecendo-lhe a copa verde que ela de outro modo não teria.

Por isso, como explica Ted Green, devem manter-se as ovelhas e outros animais de pastagem afastados destas árvores: as pôlas são um seguro de vida destes monumentos vegetais, e não são para cortar nem para comer. (É só por isso que as ovelhas são más. De resto, Ted Green é um ardente defensor de uma agricultura que combine, no mesmo espaço, a presença das árvores com o cultivo dos campos e o pastoreio.)

(Aqui chegado, é melhor o leitor ir espreitar à Quinta do Sargaçal para um relato mais circunstanciado do seminário e do passeio. O castanheiro-que-por-pôlas-valerosas-se-vai-da-lei-da-morte-libertando também lá aparece, mas a verdade é que, apesar de termos visto muitos castanheiros, poucos como este tinham tanto que contar e se puseram tão a jeito para a foto.)



(Para mostrar alguma coisa que o José Rui Fernandes não tenha ainda mostrado, termino com uma foto do rio que atravessa a cidade do Sabugal: o Côa, aqui marginado por amieiros e choupos.)

29.6.09

Pau-Brasil



Caesalpinia sp.

A espécie echinata do género Caesalpinia* é nativa da América Central e do Sul, preferindo lugares secos do interior da floresta atlântica. É abundante no este do Brasil (e ali carinhosamente chamada pau-Brasil), particularmente no sul da Bahia, mas está em perigo de extinção no seu habitat natural. A folhagem é perene e aromática, sendo as folhas bipinadas, com folíolos de formato rombóide de ponta achatada. As flores, muito populares entre as abelhas e importante fonte de néctar para borboletas e colibris, têm 5 sépalas desiguais que, apesar disso, formam um cálice funcional pois uma delas envolve quase completamente as outras. Das 5 pétalas destaca-se a posterior pintalgada de vermelho e de menor tamanho. O tronco é espinhoso (o que o epíteto echinata realça), mas os espinhos são moles, como se feitos de cortiça. A madeira é pesada, dura, compacta, muito resistente, de textura fina, com alburno cinzento pouco espesso e diferenciado do cerne rosado. Outrora usada intensamente na construção naval e para extracção da brasileína (um corante retirado do lenho e ingrediente da tinta de escrever), serve actualmente para o fabrico de arcos de violino.

Julgámos tê-la visto no Jardim Botânico do Porto, onde um exemplar de Caesalpinia, o que as fotos documentam, está identificado como tal. Mas a Lúcia alertou-nos para o erro nesta placa: o pau-Brasil tem os folíolos alternados e a pétala manchada de vermelho é mais vistosa. Na sua opinião, o exemplar das fotos é da espécie C. spinosa.

* nome que homenageia Andrea Cesalpini (1524/25-1603), naturalista italiano, autor da obra De Plantis

27.6.09

Escola do olhar

A arte, que preparou o chão para o idoso e curvou a abóbada celeste para o cristão, é agora desperdiçada em latas e pulseiras. Estes tempos são piores do que se pensa.
Johann W. Goethe



As fotos mostram outro jardim do Festival de Ponte de Lima, que as autoras (Carla Correia e Vera Elvas) intitularam Pintando (n)o jardim. Combinam-se nele, com certa irreverência mas sentido fascínio, a ideia e a forma de um bocado de mundo dividido por cores. A rota sugerida leva-nos até canteiros com molhos de Achillea filipendulina, Osteospermum sp., Salvia splendens, Tagetes patula, Verbena "Temari Blue".

O material não convencional nesta fusão é o lençol que, estendido como roupa limpa mas maculado de tinta, assinala os torrões onde as plantas parecem ter sido obrigadas a respeitar certa paleta de tons. Estas telas perfiladas estão em posição que lhes permite, com suave brisa, receber o visitante com uma discreta vénia, e, levantadas por vento impetuoso, formar um tecto que duplica o chão. São manuais que nos ensinam a ver, que encurtam a distância entre o mapa e o lugar.

Pintura e a paisagem têm neste jardim a mesma idade, mas reparamos na insignificância do traço da primeira pelo contraste com a autenticidade da segunda. Os salpicos nos panos evocam vagueações entre montanhas, em atmosfera rarefeita, ali onde o horizonte é vasto mas a lonjura torna a natureza indistinta. Ao contrário da paisagem, o quadro cabe em casa mas dele ouvem-se sons, não acordes.

26.6.09

Sono branco


Papaver somniferum subesp. setigerum

Continuamos com a revisão em branco da matéria dada. Sim, porque já antes explicámos as papoilas com algum detalhe; e, com o vigor que nos pareceu ajustado às circunstâncias, até denunciámos os efeitos da papoila-do-ópio na perturbação da ordem pública. Regressa agora a papoila-do-ópio, mas vestida de um branco que só não é inocente porque as manchas arroxeadas na base das pétalas nos fazem desconfiar de intenções menos puras.

A subespécie setigerum da Papaver somniferum está referenciada como espontânea em Portugal; um dos seus nomes comuns (segundo o Portugal Botânico de A a Z) é justamente papoila-branca. No entanto, as populações com flores brancas parecem ser mais abundantes nos Açores do que no Continente; por cá predominam as de flor cor-de-rosa. As papoilas das fotos foram avistadas há duas semanas na Serra dos Candeeiros, em local que a consciência cívica nos proíbe de revelar. (Bem sabemos como os nossos leitores têm sempre um comportamento responsável, e não é a pensar neles que adoptamos tal secretismo; mas com isto da internet nunca se sabe quem vem cá espreitar.)