21/06/2016

Pescando em seco



Euphorbia piscatoria Aiton



Quase todas as plantas do género Euphorbia que são espontâneas em Portugal continental e no arquipélago dos Açores são herbáceas vivazes. Uma excepção é a Euphorbia pedroi, um endemismo arbustivo das escarpas e fissuras de rocha do Cabo Espichel que deixa cair as folhas no Verão. Nas ilhas da Madeira, Porto Santo e Desertas, em penhascos do litoral e até em altitudes mais elevadas no interior da Madeira e nos picos do Porto Santo, há uma outra espécie arbustiva que também se despe de folhagem nos meses mais quentes do ano, que é um endemismo destas ilhas e que colocámos hoje na montra.

A Euphorbia piscatoria é um arbusto suculento e glabro, muito ramificado, de copa arredondada e folhas linear-lanceoladas, com ápice agudo e margens amareladas, que se aglomeram nas extremidades dos ramos. Floresce entre Janeiro e Agosto e pode atingir quase dois metros de altura. Não sabemos se, além da proximidade morfológica e de preferência de habitat entre a Euphorbia piscatoria e a Euphorbia pedroi, ou entre aquela e as eufórbias arbustivas das ilhas Canárias e de Marrocos, há indícios de uma origem comum, africana ou mediterrânica, para estas grandes eufórbias das falésias litorais do arquipélago da Madeira e do continente português.

Bastante frequente no Porto Santo, recebeu o epíteto piscatoria em alusão ao uso do látex destas plantas para atordoar os peixes em covas de rocha à beira-mar, enchidas de água e peixe pela maré alta e esvaziadas da água à chegada da maré baixa. Desse modo, a pesca seria facilitada, embora não saibamos se isso afectaria a qualidade do pescado. Esta prática foi entretanto abandonada, o que talvez justifique a dificuldade em encontrar peixe fresco nos restaurantes do Porto Santo. A planta é conhecida em língua inglesa como fish-stunning spurge; em português chamam-lhe figeira-do-inferno.

A descrição da espécie é do botânico escocês William Aiton (1731-1793), que a menciona, em 1789, no catálogo (Hortus Kewensis) das plantas cultivadas nos Kew Gardens, de que foi director por trinta anos. Não consta que tenha estado na Madeira, mas terá decerto recebido muitas amostras botânicas dos inúmeros naturalistas britânicos que visitaram o arquipélago ou nele viveram ao longo do século dezoito.


Pico do Castelo, Porto Santo

17/06/2016

A importância de ser endémica


Aichryson villosum (Aiton) Webb & Berthel.


Quando se fala da flora das ilhas, são as espécies endémicas que atraem as maiores atenções e concentram os mais desvelados esforços de conservação. Daí também terem sido os endemismos do Porto Santo que primeiro quisemos aqui mostrar. Esse foco prioritário nos endemismos não deve porém fazer-nos esquecer o resto. Em primeiro lugar, porque as plantas endémicas não sobrevivem sozinhas: os habitats que ocupam acolhem muitas outras plantas nativas, e é impossível proteger umas ignorando outras. Preservar o equilíbrio ecológico que sustenta as plantas endémicas obriga-nos a cuidar das plantas indígenas como um todo, sejam elas ou não endémicas. Se uma planta indígena desaparece de uma ilha, é a biodiversidade local que fica empobrecida. E as alterações de habitat que conduzem a tal extinção (ou resultam dela) não deixarão, a prazo, de ameaçar igualmente as espécies endémicas.

Outra razão forte para não desdenhar das plantas nativas que não são tidas como endémicas é que esse estatuto pode sofrer alteração. O isolamento próprio da condição insular (passe a redundância) faz com que as populações da mesma espécie instaladas em diferentes ilhas acabem por se diferenciar — e chega um momento em que as diferenças são tantas que não é razoável declarar que são ainda da mesma espécie. Essa evolução não se passa à nossa escala temporal, podendo levar centenas de milhares de anos. Assim, as mudanças de estatuto (de nativa para endémica) devem-se, não a uma evolução súbita das populações estudadas, mas a comparações mais atentas, à maior facilidade em realizar estudos genéticos, e (por vezes) a divergências de opinião entre peritos.

Outra questão, esta quase de índole semântica, é a escala a que se usa o termo "endémica". Há os endemismos de uma ilha só, os que surgem em várias ilhas do mesmo arquipélago, e ainda os que se estendem por dois ou mais arquipélagos. Por vezes os arquipélagos formam uma unidade geográfica indiscutível, outras vezes nem por isso. Pode argumentar-se que os Açores não são um mas três arquipélagos, e que foram as vicissitudes da história humana que criaram uma unidade algo artificial.

Mas não há convenções geo-políticas que possam desvalorizar o facto de uma planta ser exlusiva de uma pequena ilha: há-de ser sempre só dessa ilha, e só do arquipélago a que a ilha pertence, seja qual for o nome que se lhe dê. Em 2015, a ilha de Santa Maria viu reconhecido um novo endemismo, Aichryson santamariensis, antes chamado Aichryson villosum. No artigo em que fundamentam a promoção, os autores (Mónica Moura, Mark A. Carine, Miguel Menezes de Sequeira) assinalam, além das diferenças genéticas, importantes diferenças morfológicas entre a "nova" espécie e a espécie madeirense com que antes tinha sido confundida (e que, fotografada em Porto Santo, aparece nas imagens aí em cima). A mais notória é que a versão madeirense é muito mais peluda (vilosa, justamente) e com pêlos muito mais compridos do que a versão de Santa Maria. Distinguem-se também na forma das folhas (as do A. santamariensis têm o ápice ligeiramente crenado) e dos cálices. Nem sempre óbvia é a diferença de tamanho, mas o Aichryson villosum é tendencialmente maior do que o Aichryson santamariensis, com inflorescências mais abundantes.

De resto, ambas estas crassuláceas são plantas anuais de lugares pedregosos, vivendo tanto a pleno sol como em lugares sombrios. Com a separação, também a Madeira ganhou um "novo" endemismo, o terceiro do género Aichryson no arquipélago, e o único que ocorre na ilha do Porto Santo.



Porto Santo: campo de golfe e parque eólico vistos do Pico de Ana Ferreira

10/06/2016

Avenca redonda

Adiantum reniforme L.
Os tufos de folhas arredondadas a espreitar nas fendas das rochas pareciam, à distância, pertencer a alguma violeta silvestre como as que há no continente. Mas no Porto Santo essas plantas não existem (nem sequer a Viola riviniana, que é comum no continente e na Madeira), e em qualquer caso as violetas costumam crescer no chão e não em taludes rochosos. A culpa de haver apenas folhas e não flores não era da época tardia. Tratava-se de um feto, uma planta que, como é sabido, foi inventada antes de as flores existirem. A estrutura reprodutiva da planta dispensa os bons ofícios dos insectos e demais intermediários, e resume-se aos esporângios que, agrupados em soros, sublinham a traço grosso, pelo avesso, o contorno das folhas.

A disposição dos soros, resguardados ou não por uma membrana protectora (indúsio), é um dado crucial para a correcta identificação dos fetos. O facto de este feto do Porto Santo ter folhas inteiras pode sugerir um parentesco com outros que tenham igual peculiaridade, como o Aspenium hemionitis ou o Asplenium scolopendrium. Contudo, os soros marginais (3.ª foto) mostram que não se trata de um Asplenium, género em que os soros são lineares e ocupam quase todo o verso da fronde (veja-se o Asplenium hemionitis). A estrutura dos soros é em tudo semelhante à da avenca comum (Adiantum capillus-veneris), e daí Lineu ter concluido que estes fetos superficialmente tão diferentes eram de facto primos, arrumando-os por isso no mesmo género Adiantum. Ganhámos assim uma avenca de folhas redondas e grandes (uns 5 cm de diâmetro, com um pecíolo fino e longo que pode atingir os 30 cm), em total contraste com o rendilhado da avenca convencional.

É tradicional considerar os fetos como plantas primitivas, com origem em épocas (o "tempo dos dinossauros") em que a paisagem vegetal do planeta era inimaginavelmente diferente da que é hoje. No entanto, ter uma linhagem antiquíssima não é o mesmo que ser muito antigo. Os fetos e aparentados deixaram de dominar a Terra, mas os que sobreviveram não pararam de evoluir, e as espécies hoje existentes poderão, em grande parte, não ser mais antigas do que a generalidade das plantas com flor. Como poderia ser de outra maneira quando um arquipélago jovem como os Açores tem nada menos que cinco fetos endémicos?

Há fortes indícios, contudo, de que a avenca-redonda (ou feto-redondo, como alguns lhe chamam) é uma relíquia genuína. O seu habitat de eleição são as rochas sombrias e húmidas como as do topo do Pico Branco, único local do Porto Santo onde está assinalada. Na Madeira é bem mais comum, e nas Canárias só está ausente da ilha de Fuerteventura. O que faz soar o alerta é a sua distribuição global: não existe na Europa, nem no Mediterrâneo, nem na África ocidental. Reaparece, em várias versões (entre elas uma hirsuta, Adiantum reniforme var. asarifolium), em alguns pontos da costa leste do continente africano, estendendo-se a Madagáscar e às ilhas Maurícia e Reunião. Novo salto de sete ou oito mil quilómetros, e volta a surgir (agora como Adiantum reniforme var. sinensis) no centro da China, entre as províncias de Sichuan e Hubei. Tamanhas lacunas fazem supor que, antes da última era glaciar, o Adiantum reniforme gozava de uma distribuição quase planetária. Ainda que o isolamento das populações possa ter levado ao aparecimento de formas regionais distintas, este feto é um improvável sobrevivente de outras eras e merece inteiramente o título de fóssil vivo.

06/06/2016

Solidão em flor


Scrophularia lowei Dalgaard


Mesmo a um olhar pouco treinado não escapa o parentesco da planta das fotos, quando em floração, com as do género Scrophularia, de que a Península Ibérica é uma região bem provida, contando com o maior número de espécies na Europa, metade das quais são endémicas. As flores são pequenas mas proeminentes e muito procuradas por abelhas por serem generosas em néctar. Nota-se um cálice robusto e uma corola bilabiada de tom violeta, púrpura ou vermelho alaranjado, parecendo que o lábio superior bífido forma as orelhas do rato Mickey.

Este endemismo do arquipélago da Madeira é uma planta pequena (de meio a um metro de altura) com talos glandulosos e folhas ovadas, glabras, de margens duplamente serradas. As flores diminutas nascem em cimeiras axilares (como é frequente no género) bem seguras por cálices de pé longo. A corola é tubular e bilabiada, mas distingue-se bem das outras do arquipélago e das peninsulares pela conjunção de dois pormenores: as flores são brancas com manchas púrpura; as anteras são vermelho-púrpura.

Esta herbácea é anual e ocorre em locais rochosos de baixa altitude na ilha da Madeira, em alguns picos e ilhéus do Porto Santo e nas Desertas. Mas parece ser muito rara no Porto Santo: nas nossas andanças, só vimos este exemplar, numa encosta do Pico do Castelo. Talvez lhe falte um polinizador eficiente ou tenha uma capacidade reduzida de adaptação aos vários estragos que se vão fazendo no seu habitat. Há indícios de que, na companhia de outros endemismos, se estará a refugiar nos ilhéus de Porto Santo, o que pode ser uma boa notícia. O Porto Santo tem seis ilhéus (da Cal, o maior e com antigas minas de calcário; das Cenouras; de Cima, onde a S. lowei é abundante; de Fora; de Ferro; da Fonte da Areia), todos desabitados e protegidos pelo Plano Director Municipal do Porto Santo, além de estarem de algum modo salvaguardados pela inscrição na Rede Natura 2000 e no Parque Natural da Madeira. Tivesse igualmente o continente umas tantas ilhas onde guardar em segurança amostras de toda a sua flora...

03/06/2016

Flora endémica do Porto Santo: Lotus loweanus



Lotus loweanus Webb & Berthel.



Todas as fontes consultadas — e que foram, por ordem cronológica inversa, Flora Endémica da Madeira de Roberto Jardim & David Francisco (2000), Flora of Madeira de J. R. Press & M. J. Short (1994), e A Manual Flora of Madeira de Richard Thomas Lowe (1868) — informam que este endemismo porto-santense é comum, um pouco por toda a ilha, em dunas, falésias costeiras e encostas pedregosas até uns 150 m de altitude. Os 130 anos que medeiam entre o mais antigo e o mais recente desses livros pareciam ser garantia de que o Lotus loweanus ultrapassara quase incólume o mais destrutivo dos séculos. No entanto, só o encontrámos na última manhã da nossa estadia, e para isso tivemos que percorrer, no sudoeste da ilha, os 2 Km de areal entre a Ponta da Calheta e o Cabeço da Ponta. Talvez a dificuldade se deva à nossa inépcia, mas há a possibilidade de o Lotus loweanus estar a ser vítima do surto de construções turísticas ao longo da praia e, sem que ninguém dê oficialmente por isso, em lugar de ser comum se vá tornando raro e ameaçado. E não é tranquilizador que nesta página se diga que ele apenas existe nos ilhéus do Porto Santo: se esperarmos uns anos e nada se fizer, talvez essa informação falsa se converta em verdadeira.

Há uma linhagem de Lotus macaronésios em que este do Porto Santo (popularmente chamado de cabeleira-de-coquinho) claramente se insere, e de que também faz parte o açoriano Lotus azoricus. Três outros representantes da mesma estirpe, que a seu tempo aqui mostraremos, vivem na ilha, seja na costa (caso de um deles) ou nos picos (os outros dois). São plantas perenes, acetinadas, rasteiras, formando vastos tapetes, com flores geralmente solitárias e de cor escura. O Lotus loweanus singulariza-se por ter uma base lenhosa bem desenvolvida, com as plantas mais idosas a assemelharem-se a arbustos liliputianos (comprove na 1.ª foto). As folhas, como é típico nos Lotus, são formadas por cinco folíolos que, neste caso, são estreitos e têm um vinco longitudinal bem evidente. As flores, não sendo embora das mais pequenas do género (têm de 1 a 1,5 cm de diâmetro), são pouco conspícuas por causa da sua cor escura e por estarem quase sufocadas pelo cálice. Apesar da modéstia da floração, que apenas decorre entre Março e Junho, esta cabeleira-do-coquinho, como testemunham as fotos acima, é muito decorativa graças à sua arquitectura geral e à folhagem glauca com reflexos prateados.


Ponta da Calheta, ilha do Porto Santo

30/05/2016

Flora endémica do Porto Santo: Saxifraga portosanctana



Sabíamos que este endemismo de Porto Santo vive apenas em fissuras de escarpas rochosas nos picos mais altos da ilha. Planeámos começar por procurá-lo no Pico do Facho, o mais alto mas também um dos mais difíceis de escalar. Quase no topo, num nicho sombrio, surgiu a primeira população, com muitos indivíduos prontos a florir mas sem uma única flor aberta. Além disso, a rocha estava longe de mais para que alguma fotografia pudesse revelar os pormenores das folhas. Descemos desiludidos, a pensar que teríamos de repetir o esforço, sem a certeza de virmos a obter boas fotos nos poucos dias que nos restavam de visita à ilha. Contornámos então a base da escarpa, onde um caminho ladeia uma torre de controlo aéreo e há um habitat, protegido por uma plantação de ciprestes (Cupressus macrocarpa), que o nevoeiro e a neblina que vêm do mar raramente abandonam. Depois de detectarmos vários pés da orquídea Gennaria diphylla (já sem flor) e um manto de Sibthorpia peregrina (ainda sem flor), encontrámos um talude não florestado, com muita urze (Erica scoparia subsp. maderincola) e ventania. E ali estavam felizes inúmeros coxins de S. portosanctana em plena floração.



Saxifraga portosanctana Boiss.


Esta é uma herbácea perene e completamente glabra, com umas poucas glândulas nos pecíolos e pedicelos. As folhas são carnudas e flabeladas, de base acunheada, geralmente com três lobos, de cor verde intenso, por vezes com tonalidades avermelhadas. As flores reúnem-se em cimeiras axilares e as pétalas brancas são longas e estreitas, maiores do que as sépalas. Conhecem-se umas seis populações na ilha, todas potencialmente sujeitas a alguns riscos graves: a erosão das rochas e o deslizamento de terras; a recolha de espécimes por coleccionadores ou colectores; a competição com espécies exóticas invasoras.

Num artigo de 1987 intitulado The genus Saxifraga L. in the Madeiran Archipelago, publicado na revista Bocagiana do Museu Municipal do Funchal, os botânicos D.A. Webb e J.R. Press compararam as saxifragas endémicas do arquipélago da Madeira, reafirmando o carácter específico da S. portosanctana (que tinha sido descrita em 1856 por Pierre Edmond Boissier) essencialmente pelo seu aspecto glabro e por ter inflorescências axilares. Comentam ainda que, apesar de ser nativa de paragens tão a sul, se mostrou muito resistente em Dublin, para onde foi levada e cultivada fora de estufa, tendo suportado temperaturas negativas. O que, segundo os autores, sugere que descende de uma espécie europeia (uma das que com ela tem maiores afinidades é a cantábrica S. trifurcata). Haverá, decerto, botânicos portugueses interessados em desvendar a genealogia deste endemismo de Porto Santo, desde que não lhes faltem apoios laboratoriais e acesso a testes genéticos decisivos.

27/05/2016

Flora endémica do Porto Santo: Vicia costae


Vicia costae A. Hansen


Há plantas que podem tirar um período sabático de vários anos antes de regressarem ao activo. Em lugares sujeitos a secas periódicas, ficam as sementes adormecidas à espera de um bom ano de chuva. Quando ela vem, é tempo de agarrar a vida e renovar o banco de sementes para enfrentar nova travessia do deserto.

No Porto Santo, a chuva este ano tem sido pouca, e escolheu cair toda na semana da nossa visita. O resultado é que não pudemos observar a Vicia ferreirensis, nem ficámos para ver se a chuva ainda foi a tempo de a despertar. Essa ervilhaca, que é endémica de um ou dois picos do Porto Santo (fotos aqui e aqui), só aparece em anos de grande pluviosidade. Podem passar-se anos sem que ninguém a veja: não está extinta, está apenas à espera. Eis o que o padre José Gonçalves da Costa, um estudioso da flora do arquipélago da Madeira e o primeiro a notar o fenómeno, escreveu sobre o assunto em 1946 no Boletim do Museu Municipal do Funchal:

«Parece que as sementes destas espécies têm a propriedade de conservarem a força germinativa durante diversos anos e a prudência de não germinarem em anos de estiagem, em que pereceriam à seca, germinando somente nos anos de chuvas abundantes. Esta tendência para a ombrometria fá-las germinar apenas nos anos em que as águas das chuvas penetraram profundamente no subsolo e há a humidade necessária assegurada para o seu desenvolvimento e frutificação. Esta propriedade ombrométrica torna-as sobremodo cientificamente interessantes! A Vicia portosanctana Menezes [= Vicia ferreirensis Goyder], que descobri na encosta sul do pico da Ana Ferreira em Abril de 1923, ano em que fiz no Porto Santo a minha primeira pesquisa botânica para coleccionar plantas para o herbário do Seminário, parece poder considerar-se, neste ponto, uma espécie típica; porquanto em Março e Abril de 1939, procurei-a cuidadosamente no referido local onde a tinha descobrido, mas não vi o mínimo vestígio dela, de maneira que a reputei extinta. Nos mesmos meses de 1940, depois de chuvas abundantes, observei-a lá em grandes e verdejantes tufos, a fazer latada sobre os moledos ou enleada na Crambe fruticosa L. f. e na Euphorbia piscatoria Ait. "Figueira do inferno".»

Privados de ver a Vicia ferreirensis, foi nosso prémio de consolação encontrarmos noutros picos (Pico Branco, Pico do Facho, Pico do Castelo) a segunda ervilhaca anual que é endémica da ilha, e cujo nome (Vicia costae) homenageia justamente o padre Costa, que foi quem primeiro a descreveu. Gozando de uma distribuição mais ampla, embora sempre exígua dada a dimensão da ilha, esta Vicia costae não será, em anos secos, tão absentista como a sua congénere, até porque, nos pontos mais altos da ilha, a condensação atmosférica compensa a falta de chuva. O padre Costa chamou-lhe Vicia atlantica, mas esse nome foi considerado inválido por ter sido anteriormente atribuído a uma espécie africana. O nome hoje aceite foi proposto em 1974 pelo botânico dinamarquês Alfred Hansen, que exprimiu então a convicção de que a Vicia costae (como lhe chamou) era "sem dúvida uma espécie bem definida e autónoma, relacionada com a Vicia benghalensis".

Comparando as fotos acima com as do Flora-On, o leitor poderá constatar que, na forma e cor das flores e no indumento do cálice, a V. costae e a V. benghalensis são de facto próximas uma da outra. As diferenças, porém, são ainda mais notórias do que as semelhanças: a V. costae tem em geral duas flores por haste, muito raramente três ou mais, enquanto que a V. benghalensis costuma ter cachos de dez ou mais flores. E, ao passo que na V. costae os dentes inferiores do cálice têm metade do comprimento do tubo da flor, na V. benghalensis esses dentes são tão ou mais compridos do que o tubo.

Estar com estas minudências é como explicar, com entediante detalhe, porque é que um cão e um gato, tão diferentes aos olhos de quem vê, são também diferentes à "luz da ciência". Mas o exercício justifica-se quando, em nome de uma ciência que ignora o senso comum, alguém nos quer fazer acreditar que cão e gato são animais da mesma espécie. Dessa arrogância foi culpada a (de resto notabilíssima) Flora of Madeira de J. R. Press & M. J. Short, publicada em 1994, ao considerar a V. costae como sinónimo de V. benghalensis. Nessa obra, a descrição da V. benghalensis (que, embora rara, de facto ocorre na ilha da Madeira) foi suficientemente alterada em relação ao que é usual para abranger também a V. costae. É um facto que, se definirmos intervalos de variação suficientemente amplos, conseguimos meter tudo no mesmo saco — mas, num caso como este, era impossível não notar como as duas espécies artificialmente unificadas caíam sempre em extremos opostos de tais intervalos.

A proposta, felizmente, não fez escola, e hoje em dia (veja-se por exemplo aqui e aqui) ninguém considera que V. costae seja sinónimo de V. benghalensis.


O Pico do Facho, com 516 m de altitude, é o ponto mais elevado do Porto Santo

24/05/2016

Flora endémica do Porto Santo: Echium portosanctensis



Echium portosanctensis J. A. Carvalho, Pontes, Batista-Marques & R. Jardim



Responsáveis por uma vasta mancha roxa que enfeita agora os nossos prados e terrenos baldios, as plantas do género Echium são vulgares no nosso território e resistentes a muitos dos riscos a que estão sujeitos nestes habitats. Não são especialmente bonitas, com excepção do raríssimo E. boissieri, mas em conjunto garantem uma nota colorida nos campos e são fonte importante de alimento para as abelhas.

As espécies que existem no arquipélago da Madeira destacam-se das continentais pelo porte arbustivo e pelas inflorescências cilíndricas exuberantes. Sabe-se hoje que essas espécies de Echium derivam de uma herbácea do continente europeu, conclusão fundamentada num estudo genético conduzido, em 1996, por Böhle e colaboradores. E, de facto, a um olhar desatento, as plantas de Porto Santo talvez pareçam todas iguais, e semelhantes ao endemismo madeirense E. nervosum (foto em baixo). Porém, anos antes, já havia sido notado, em obras sobre a flora da Madeira, que alguns espécimes em Porto Santo se distinguiam pela corolas branco-rosadas, com estames de cor carmim e anteras azuis, e um anel branco (que surge na 4ª foto) no topo da inflorescência, que é mais pequena que a do E. nervosum. E, decerto, também terão reparado em diferenças na forma e textura das folhas, e no tipo de pêlos que as protegem.

Foi o bastante para que uns quarenta anos depois, em 2010, alguns botânicos quisessem pôr fim às dúvidas e, após minuciosa comparação morfológica, publicassem um artigo (no Anales del Jardín Botánico de Madrid, Vol. 67 (2) : 87-96) que atesta a existência de três espécies endémicas do género Echium no arquipélago da Madeira: E. candicans, planta de montanha e de que só há registo acima dos 800 metros na ilha da Madeira; E. nervosumon, das ilhas da Madeira, Desertas e Porto Santo; e E. portosanctensis, da ilha de Porto Santo, com flores campanuladas (não em funil, como as outras espécies continentais e madeirenses) e com um matiz de azul escuro na base de cada corola (ausente nas outras espécies). Os autores estão seguros sobre o valor adaptativo de todos estes pormenores distintivos ao ambiente rochoso e, por vezes, muito seco de Porto Santo, com intenso vento e maresia. E apresentam uma chave clara para mais facilmente identificarmos cada uma das espécies.

Depois de termos visto o E. nervosum plantado em jardins e bermas de estrada em vários locais da ilha, foi o E. portosanctensis que procurámos na subida ao Pico Branco, montanha com cerca de 450 metros de altura máxima e um percurso assinalado até ao topo, protegido aqui e ali por uma balaustrada firme de madeira. A flora interessante está nas encostas mais ou menos escarpadas que ladeiam o caminho e, confirmámos, o Echium portosanctensis acompanha-nos esparsamente durante quase toda a subida. A distribuição conhecida do E. portosanctensis restringe-se a este pico e ao Pico da Gandaia, com um total de cerca de mil indivíduos. Não surpreende que conste da lista vermelha internacional de espécies em risco.


Pico Branco, ilha do Porto Santo