21.3.10

Aos desarvorados


Ginkgo biloba L. - árvore nascida de semente em 1754 - Kew Gardens

Em Espanha, aqui há uns anos, estava em andamento o projecto de cortar as árvores que ladeiam as estradas, com o objectivo de diminuir o número de acidentes graves na circulação automóvel. Um sujeito, em vez de ir bater no tronco, voaria até ao campo e com isso, certamente, muita vida seria poupada. Foi por diante o projecto? Não sei. Só sei que me pareceu uma ideia tonta, talvez porque ainda não morri contra uma árvore...

Não deixar as árvores «virem» à estrada que resolve, afinal de contas? Haverá outras maneiras menos selvagens de poupar vidas: aperfeiçoar a mecânica dos carros, melhorar (ou açaimar) os cérebros dos condutores, etc.

Hoje, que é o Dia da Árvore, pensemos nas árvores que foram sacrificadas pela nossa colectiva e sôfrega tontaria. Qual de nós não terá uma querida ausente sob a forma de uma árvore que lhe acena de muito longe no tempo? Do recanto de jardim em que havia aquela árvore, lembras-te? Caducada a folha daqueloutra, recordas-te do fino desenho invernal que os teus olhos dela recortavam contra a lividez do céu? Pois olha, olha: agora, no lugar dessa árvore, desencaixotaram um novo prédio. Conta-lhe as janelas, dá pasto melancólico aos teus tristes olhos de citadino encarcerado. Tens candeeiros. Que queres mais?

A Primavera já está a acender as suas árvores. Põe qualquer coisa como uma flor em qualquer coisa como uma lapela e sai de assobio para a rua. Sê atrevido - e levanta, nem que seja só em imaginação, a tua própria árvore, nos sítios mais inesperados. E principalmente que ela atravanque tudo, suspenda a lufa-lufa dos negócios, se oponha, escandalosa, aos frenéticos automobilistas e os obrigue a fazer grandes desvios, para não baterem nela e nela acabarem por apodrecer encaixotados, como pobres mortais que são!


Alexandre O'Neill, Já cá não está quem falou (Assírio & Alvim, 2008)

6 comentários :

Rosa disse...

Bom dia, esta Gingko tira-me do sério, faz-me sonhar que as minhas 20 Gingkos semeados há três anos e que ainda não atravancam coisa nenhuma, um dia (lá para o ano 2263 se as contas estão bem feitas) poderão atravancar em grande estilo.

Paulo Araújo disse...

Nós temos ali num vaso umas sementes de Ginkgo (da Ginkgo das Virtudes, não duma qualquer) à espera de germinar. Uma já pôs a cabeça de fora há umas seis semanas, e neste momento tem cinco folhas. A outra esperou por hoje para se mostrar e é apenas um alfinete verde a sair da terra. Mas escolheu bem o dia.

James disse...

Ola, Primeiro queria agradecer o magnifico blog que tenho aconpanhado desde algumas semanas...e depois agradecer este post em particular. Acho magnifica a Gingko de kew Gardens, o meu interesse vai para jardins em Paticular e ha uns dois anos deram-me uma Gingko que veio do Jardim Botanico de Lisboa, cidade onde vivo, a qual plantei em casa da Minha mãe em Alenquer, é uma casa de campo e estranhamente apercebi-me das poucas arvores que tinha, e rapidamente decidi plantar a pequena Ginkgo ali. passado todo este tempo a minha arvore apenas cresceu um pouco mais, o que me parece um pouco decepcionante...sera que são arvores de crescimento muito lento? E que outras arvores mais apressadas devo plantar. o meu pai quando era vivo apenas plantou arvores de fruto (e muito bem) mas lembro-me perfeitamente de terem sido cortadas muitas arvores selvagens perto do rio e de uma ribeira que passa ao lado do nosso terreno. Havia tambem um pomar maior mas foi arrancado qdo ainda era pequeno para dar lugar a uma vinha. Para alem de terem sido cortadas muitas ravores á beira da estrada na minha aldeia e em mts outras do Concelho, de tal forma que me parece haver uma verdadeira fobia pelas arvores em Portugal,sera que isto é verdade?? Talvêz exagere, ou talvês seja por razões economicas que as arvores tenhão sido cortadas para dar lugar aos campos de cultivo. mas o que é certo é que cada vez menos arvores em Portugal, e o culpado não são so os incendios...é o Homem comun, ou o Homem menos comum como os autarcas locais que me parecem ser regra geral gente de muito pouca visão! De maneira, que sendo assim decidi começar pela minha pequena quinta e plantar o maximos de arvores possiveis...excuindo de certos os eucaliptos e as infestantes acacias que estão por todo o lado, quero plantar as que for possivel mantendo as Hortas e as zonas de agricultura. Ah claro que a minha mae quer manter o seu pequeno jardim, que aliás é pequeno mas mto interesante! mais uma vez bem haja pelo blog!

Ruben Silva disse...

Parabéns James pela tua iniciativa.
Se quiseres dá uma olhadela ao site que estou a construir: www.florestar.net É sobre as árvores nativas de Portugal. Ainda só refere algumas espécies, mas pode ser que te ajude a escolher.

peço desculpa a publicidade ;)

James disse...

Ruben acabei de dar uma vista de Olhos pelo seu novo site e penso que sera de grande utilidade, assim que começara ficar mais completo. Mais uma vez parabéns. Pois eu como gosto de penheiros vou tentar adquirir um pinheiro bravo que gostaria de plantar perto do jardim...penso que crescerá mais rapido que a Gingko. Essa coitada é que continua pequenina...as gerações vindouras é que se vão aproveitar dela, não é justo! lol.
Jaime

Graça Gomes disse...

A "minha" tília foi derrubada.

Depois de várias investidas frustradas, conseguiram deitá-la ao chão. Já antes a tinham decepado, cortando-lhe dois imponentes ramos.

E em toda esta história destaca-se este gigante de tronco grosso e braços levantados ao céu que, heroicamente, resistiu, enquanto teve forças, às investidas do tempo e do homem.

Suportou os rigores de muitos invernos e os verões escaldantes queimaram-lhe as folhas. O luar, branco inundou-a de luz, tantas vezes, e tornou mais brilhantes as folhas prateadas a que a tília dava vida.

Olho para o tronco retalhado, espalhado pelo chão, e vem-me à memória o meu pai e um madeireiro interessado na compra, já lá vão uns anos, --dou-lhe cem contos pela árvore. Mas o meu pai respondeu, ofendido e determinado: nem por mil contos a venderia!

Porque a nossa tília sempre acompanhou, do alto da sua ramagem e dos muitos, muitos anos, a minha família, durante cinco gerações. Viveu as nossas alegrias e chorou, connosco, quando a desgraça nos bateu à porta.

Plantada pelo meu bisavô, Francisco Bernardo Pimenttel, num lugar alto, donde avistava todo o casario, assistiu ao desenrolar das vidas desta gente e ao nascer do sol nos "Outeiros".

Olho para o chão, novamente. Ali está o tronco retalhado, cheio de seiva, e as memórias são brutalmente dolorosas:

Ali está de novo o meu pai, a organizar a lenha para o Inverno, debaixo da tília, que o protegia e lhe ouvia os queixumes. E como eles conversavam nessas tardes de Primavera e Outono...

... Nem por mil contos a venderia!

Ela era parte da nossa família, era nossa. Durante mais, muito mais de um século foi tratada e acarinhada.

Era com muito cuidado que lhe tirávamos meia dúzia de flores para o chá.

Olho para o chão, mais uma vez, onde ela continua desfeita, retalhada, vencida pelo homem.

As recordações atingem-me como raios fulminantes e eu não consigo libertar-me delas.

Oiço a sª Amélia Lavrador, a sª Amélia da Praça, dizer: Quando a tília está em flor, a Praça fica com um cheiro que até dá gosto.

A Primavera está cá. Desta vez, na Praça, não vão sentir aquele cheirinho de flor de tília, e ela, a tília, jamais verá aparecer o sol nos Outeiros. O meu pai, já há muitos anos, que não procura o abrigo dos seus ramos para preparar a lenha para o Inverno.

E ela está vencida, derrotada, retalhada, espalhada pelo chão.

Antes de tombar, dizem, elevou uma prece aos céus, pedindo um sono suave e tranquilo para aqueles que foram a sua família e que acompanhou, de ramos curvados, à última morada.


(isto aconteceu no dia 21 de Março de 2010)
Graça Gomes