16.4.10

Cornilhão


Scorpiurus muricatus L.

Há plantas que só existem para nos confundirem, fazendo com que as nossas laboriosas mnemónicas de reconhecimento falhem sem apelo. As leguminosas cultivadas ou espontâneas - trevos, favas, tremoceiros, luzernas e tantas mais - têm, em regra, folhas compostas por três ou muitos folíolos, e costumam servir de alimento seja para o gado (frescas ou na forma de forragem), seja para o homem. Acontece que o cornilhão é uma carta fora do baralho: não se come (embora seja inofensivo e, diz-se, se possa juntar a saladas à laia de enfeite) e as suas folhas são simples. Terá algum valor ornamental, mas não consta que tenha conquistado lugar ao sol em jardins requintados. Em suma, não existe para nos comprazer nem para nos ser útil. Estamos já longe dos tempos em que a Bíblia, interpretada literalmente, nos explicava que toda a criação estava ao nosso serviço e nos exortava a dominar a Terra. As palavras ainda lá estão, mas os exegetas lêem-nas hoje de modo diferente. Ou deveriam lê-las, pois a lição antiga já mostrou o que vale como receita para o desastre. Eis o que nos ensina uma humilde planta anual que não nos pede licença para existir.

Dito isto, se o cornilhão estiver em flor, coisa que sucede de Abril a Junho, a sua filiação nas leguminosas (família Fabaceae) é denunciada pelas típicas flores, que são diminutas (7 a 9 mm de diâmetro) e surgem em cachos de duas ou três no topo de um pedúnculo esguio, mais alto do que as folhas. Outra marca distintiva é o fruto: sendo reconhecivelmente uma vagem, aparece enrolado, marcado por sulcos longitudinais e coberto por espinhos ou inchaços, fazendo lembrar uma lagarta.

O Scorpiurus muricatus distribui-se por toda a Europa mediterrânica, da Península Ibérica à Turquia. O seu parente mais próximo, e de facto o seu único congénere, é o Scorpiurus vermiculatus, que ocorre também em Portugal. Conhecido igualmente como cornilhão, exibe um aspecto geral semelhante, mas distingue-se pelo pecíolo das folhas, mais alongado, e por ter flores solitárias.

3 comentários :

Carolina disse...

Muito interessanrte.

filipe brito disse...

Parabéns pelo blog.
Sugeria que activasse o bloco para seguidores para ser mais fácil acompanhar os posts.

Paulo Araújo disse...

Obrigado pela simpatia.

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