22/07/2013

O velho, o farol e o lótus

Lotus azoricus P. W. Ball


Ninguém diria, ao contemplar os tapetes prateados que este Lotus estende generosamente na ravina do Farol de Gonçalo Velho, em Santa Maria, que estamos perante um dos mais raros endemismos açorianos. Presença confirmada nas Flores, Pico, São Jorge, São Miguel e Santa Maria, só aqui, no extremo sudeste da ilha mais oriental do arquipélago, é possível observá-lo com vagar, sem que sejam necessários feitos de escalada ou outras proezas atléticas. No resto da ilha já a história muda, pois a maior parte do contigente sobrante migrou para um dos ilhéus adjacentes. Tal preferência por espaços exíguos e desabitados é repetida nas Flores, onde a única população conhecida do Lotus azoricus partilha um ilhéu com um exército de aves que, defendendo aguerridamente as suas crias, defendem também a vulnerável planta da agressão humana.

Há três outros Lotus, endémicos do arquipélago da Madeira, que muito se assemelham ao Lotus açoriano no porte rasteiro, na textura acetinada e na aparência das flores cor-de-vinho: são eles o L. argyrodes, L. loweanus e L. macranthus. Como a flora madeirense sempre foi mais conhecida e estudada do que a açoriana, não espanta que, antes de se reconhecer a sua singularidade (o que só acontecu em 1968), o L. azoricus tenha sido confundido com um ou outro dos seus primos madeirenses, recaindo a escolha sobre o L. macranthus. Folheando o livro Flora Endémica da Madeira (1.ª edição, 2000), de Roberto Jardim & David Francisco, ficamos porém a estranhar que não tenha sido eleito o L. argyrodes, réplica muito mais convincente do endemismo açoriano.

O Lotus azoricus, que vive em falésias costeiras em altitudes inferiores a 80 metros, é uma planta perene, com base lenhosa persistente e hastes muito ramificadas com um máximo de 60 cm de comprimento. As flores, que surgem nos meses de Primavera logo a partir de Março, apresentam pedúnculo curto e têm 2 a 3 cm de diâmetro, e as vagens medem uns 6 cm. A abundantíssima população do farol garante, por si só, que a espécie não corre perigo de extinção a menos de desastre cataclísmico. Seria bom, porém, controlar o ímpeto de espécies invasoras como a piteira (Agave americana) e o chorão (Carpobrotus edulis), que roubam espaço ao lótus e a outros emblemáticos endemismos açorianos como a Azorina vidalii e a Spergularia azorica.

Farol de Gonçalo Velho, Santa Maria, Açores

18/07/2013

Flor de túnica

Petrorhagia saxifraga (L.) Link


A designação Petrorhagia, formada pelos termos gregos petros (pedra) e rhagas (fissura), indica que as plantas deste género apreciam os habitats rochosos e os solos secos. Não revela que a planta das fotos gosta de substrato ácido e da beira da água, mas todos os exemplares que conhecemos se encavalitam nos penedos xistosos das encostas do rio Douro, muito perto do leito, junto às barragens da Bemposta (em Mogadouro) e de Bagaúste (na Régua).

Saxifraga diz exactamente o mesmo que Petrorhagia mas em latim. Como seria uma desatenção, falha que é rara entre taxonomistas, usar um binómio com uma repetição ao nomear uma planta, o mais certo é que o epíteto saxifraga que se une a Petrorhagia na identificação desta planta queira sublinhar a parecença das suas flores com algumas do género Saxifraga. Porque as flores têm um hábito que lembra o dos cravos, Lineu chamou-lhe, em 1743, Dianthus saxifragus. Mas o género Dianthus foi mais tarde subdividido, e a designação da planta hoje aceite é a que Johann Heinrich Friedrich Link (1767-1851) lhe deu em 1831.

É uma herbácea perene de folhas lineares, serrilhadas e ásperas, com numerosas hastes finas de até 50 cm de altura, no cimo das quais surgem flores solitárias de cálice turbinado, pétalas brancas ou rosadas com cerca de 4.5-10 mm de diâmetro e uma indentação no ápice. É nativa do centro e sul da Europa e sudoeste da Ásia; em Portugal só há registo da sua presença na bacia do Douro.


barragem de Bagaúste, Peso da Régua

15/07/2013

O feto do señor Pozo


Stegnogramma pozoi (Lag.) K. Iwats.



A planura sem acidentes da metade ocidental, um quase deserto de pastagens secas, é interrompida abruptamente, na outra metade, pelo relevo brusco por onde uma floresta subtropical se desenrola até perto do mar. Dois climas para uma só pequena ilha, a de Santa Maria, a menos convencional e mais misteriosa de todo o arquipélago. Não há lagoas de encher o olho, mas a névoa do Pico Alto e as falésias da Maia e de São Lourenço nada perdem em comparação com os cenários das restantes ilhas açorianas. E o amador de botânica não pode ignorar que à originalidade duplex do relevo e do clima corresponde igual singularidade florística, e que tem aqui ao fácil alcance da objectiva várias plantas que no resto do arquipélago são raras ou inexistentes.

Não é de nenhuma delas que tratamos neste fascículo. Muito pelo contrário: o feto-de-Pozo (descoberto no início do séc. XIX, na costa cantábrica, por um José del Pozo, médico e botânico espanhol) ocorre noutras cinco ilhas açorianas (São Miguel, Terceira, Pico, Faial e Flores), e é provável que a população de Santa Maria seja das mais escassas. Não que tenha sido difícil encontrá-lo no Pico Alto, sob um bosque de criptomérias, a uns 500 m de altitude, num local por onde passa um dos cinco percursos pedestres recomendados na ilha. Nas imediações ocorrem ainda duas espécies de feto-filme (Hymenophyllum tunbrigense e Trichomanes speciosum) e o feto-do-cabelinho (Culcita macrocarpa). Uma tal concentração de raridades entusiasma e confunde no mesmo grau, pois até há poucos anos julgava-se (e escrevia-se) que nenhuma dessas quatro espécies existia em Santa Maria. Quem quiser confirmar a asserção que consulte o vol. 1 (de 1971) da Nova Flora de Portugal, de Franco, e o Catálogo das Plantas Vasculares dos Açores, livro póstumo (de 1966) de Ruy Telles Palhinha, revisto e preparado por A. R. Pinto da Silva.

Entretidos por áfricas e orientes de um império em vias de se desmoronar, os botânicos portugueses esqueceram-se, até aos anos 80 do século passado, de que tinham nos Açores nove ilhas por descobrir. Antes dessa data, e tirando o contributo de Palhinha, tudo quanto se sabia da flora açoriana era trabalho de botânicos estrangeiros: Hochstetter pai e filho, M. A. Seubert e H. C. Watson, todos em meados do séc. XIX; W. Trelease, no final do mesmo século; G. C. Druce e T. G. Tutin, na primeira metade do século XX. Em nenhuma das ilhas as explorações botânicas foram exaustivas, e ilhas mais periféricas como Santa Maria, Graciosa, São Jorge, Flores e Corvo ficaram muitas vezes fora do roteiro. Sem um trabalho de campo abrangente e metódico, ficou um retrato muito lacunar da flora açoriana que persistiu quase até aos dias de hoje, e que ainda não está totalmente ultrapassado. Quando se fizer um levantamento florístico completo da Graciosa e de São Jorge há-de por certo constatar-se, como constatou Hanno Schäfer em 2003 em três outras ilhas (Flores, Faial e Santa Maria), que algumas plantas da flora açoriana aí supostamente ausentes sempre existiram em tais ilhas, só que ninguém tinha ido verificar.

O Stegnogramma pozoi tem uma distribuição semi-cosmoplita: Açores, Madeira, norte de Espanha, sudoeste de França, África tropical e austral, Índia, China, Coreia e Japão. É um feto rizomatoso com folhas muitas vezes pendentes, de 20 a 60 cm de comprimento, triangulares e estreitas, cobertas em ambas as faces por pêlos esbranquiçados.


Santa Maria, Açores

12/07/2013

Amarelos

Barreiro da Faneca, Santa Maria, Açores
Vista do céu, a ilha açoriana de Santa Maria parece ter duas metades: a da direita verdinha e nublosa como a vizinha São Miguel, com prados a perder de vista junto ao mar; e a da esquerda, plana, árida, quase desértica, cor de trigo seco — e é esta que, como um aviso, recebe o visitante que ali chega de avião. A beira-mar é um amontoado de calhaus cinzentos na base de escarpas muito altas e, com raras excepções como a praia Formosa a sul, quase sem areal. Uma vez dentro da ilha, os contrastes acentuam-se. Num lugar onde a maior distância em linha recta ronda os 17 quilómetros, há montanhas cobertas de vinhas, florestas muito húmidas de criptomérias onde moram fetos raros e orquídeas, pastos verdinhos salpicados de vacas brancas que, rodeadas de filhotes, nos olham com hostilidade, um pico escondido pelas nuvens, falésias com uma vegetação notável que parece sobreviver apenas de espuma e pedra, e, no norte, uma paisagem marciana com sedimentos cor-de-cobre de origem vulcânica, mais recentes do que o resto da ilha, onde nenhuma planta quis ainda entrar e nos sentimos fora da Terra.

Maia, Santa Maria, Açores
Passada esta impressão bizarra, começamos a dar atenção aos taludes. Junto a uma cachoeira de dimensões bíblicas, notámos uns pontinhos dourados e, mais longe, sob os salpicos da água, umas manchas amarelas que pareciam de planta suculenta. Dias depois, já a reconhecíamos em muitos muros musgosos e fendas de rochas noutros locais da ilha. É uma erva anual que atinge os 15 cm de altura, de folhas moles, pecioladas, penugentas e flores em cimeira frouxa com pétalas amarelas brilhantes. Só ocorre na Madeira e em Santa Maria.

Aichryson villosum (Aiton) Webb & Berthel. Aichryson santamariensis M. Moura, Carine & M. Seq.


Nota. No final de 2015, esta espécie mudou de nome graças ao artigo Aichryson santamariensis (Crassulaceae): a new species endemic to Santa Maria in the Azores (Phytotaxa 234(1), Novembro de 2015)

As plantas do género Aichrysum são habitantes naturais da floresta laurissilva, apreciando o solo que ela nutre. Na ilha da Madeira há mais duas espécies, endemismos madeirenses pouco frequentes: o A. divaricatum (Ait.) Praeger, com cerca de 60 cm, folhas e caules avermelhados mas flores igualmente amarelas, que se pode encontrar em escarpas rochosas e em troncos de árvores; e o A. dumosum (Lowe) Praeger, extremamente raro, que só existe no sul da Madeira, de flores amarelas com nervura média avermelhada. Em bosques e locais rochosos sombrios da serra de Sintra e de Colares, e, tanto quanto se sabe, só ali, naturalizou-se uma outra espécie, o A. laxum, endemismo das Canárias com pétalas de cor amarelo-pálido.

08/07/2013

Gigantes na sombra

Diplazium caudatum (Cav.) Jermy



Todas as plantas fotossintéticas precisam de luz, mas algumas toleram mal a exposição directa ao sol. Por isso se refugiam em bosques densos, abrigadas pelas copas entrelaçadas de árvores sempre-verdes, ou se escondem em ravinas estreitas que os raios de luz são incapazes de devassar. Nesses lugares umbrosos, onde reina a humidade, nem a passagem da noite para o dia nem o correr dos meses parecem trazer grandes oscilações de temperatura. Dir-se-ia que essas plantas receosas de sol deveriam definhar como donzelas condenadas à clausura num convento; ou que, mesmo gozando de relativa saúde no modo de vida que adoptaram, nunca seriam plantas de porte considerável.

A todas estas ruminações do senso comum fornece o Diplazium caudatum um vigoroso contra-exemplo. Deste feto açoriano, que também existe na Andalúzia (Algeciras) e nos arquipélagos da Madeira, Canárias e Cabo Verde, se pode dizer que quanto mais cerrada for a penumbra melhor ele se sente. No entanto, com as suas frondes que podem ultrapassar 1,5 m de comprimento, ele pertence com inteiro mérito à primeira divisão dos fetos macaronésicos, onde emparelha com gigantes como a Woodwardia radicans e a Culcita macrocarpa.

Integrando a família do feto-fêmea, já se chamou Tectaria caudata, Allantodia umbrosa, Aspidium umbrosum e Athyrium umbrosum. Além do tamanho, outros detalhes o distinguem do feto-fêmea: possui um rizoma rastejante, e por isso as suas folhas não estão agrupadas em tufos; as pinas e a generalidade das pínulas (divisões primárias e secundárias da folha) têm um remate longo e estreito, em jeito de cauda; e a parte inferior do pecíolo é de um negro brilhante (a do feto-fêmea é amarelada ou de um castanho avermelhado).

Habitante dos bosques açorianos primordiais, que quase desapareceram do arquipélago, o Diplazium caudatum soube adaptar-se aos novos tempos e é hoje residente habitual das plantações de criptomérias e das florestas de incenso (Pittosporum undulatum). Só não consegue competir com as avassaladoras conteiras ou rocas-de-velha (Hedychium gardnerianum) que monopolizaram largas extensões de sub-bosque da floresta açoriana. É um feto que está presente em todas as ilhas, sobretudo a altitudes entre os 150 e os 600 metros, mas é mais frequente nas Flores, Faial e Santa Maria.

05/07/2013

Cravinho no caminho

Velezia rigida Loefl. ex L.


Na primeira vez que subimos ao monte Calábria, perto dos rios Douro e Côa, ela ainda não estava lá. Ou estaria, mas, depois de uma caminhada entre vinhas e prados pedregosos e ralos, havia tanto para descobrir e sobrava tão pouco fôlego que não demos por nada. Na segunda visita, com mais calor e secura, e os caminhos mais estreitos pelo avanço da vegetação rasteira que sabe aproveitar a ausência de pisoteio, a subida custou ainda mais mas o vagar compensou. Notámos uns caules rígidos e erectos, com umas folhitas lineares de uns 2 cm de comprimento, encimados por pintinhas cor-de-rosa. Julgámos tratar-se de cravos de cálice longo, debilitados pela falta de água, mas a foto da flor (bastante aumentada, ela não mede mais do que uns 6 milímetros de diâmetro) revelou-nos a sombra de uma flor dentro de outra, e os cravos não costumam ser assim.

Apesar de ter uma distribuição ampla em Portugal (só não há registo dela a sul e no noroeste), onde aprecia bordos de caminhos, matagais rasteiros e terrenos cultivados, não tem nome vernáculo. É anual e bastante viajada, nativa do sul da Europa e parte da região mediterrânica, e floresce entre Maio e Junho. O nome do género é uma homenagem ao boticário e naturalista espanhol Cristóbal Velez (1710-1753), discípulo e colaborador de dois botânicos espanhóis famosos, Juan Minuart (1693–1768) e José Quer y Martinez (1695-1764).

O género Velezia contém actualmente nove espécies das quais apenas duas (a V. rigida L., a única que ocorre na Península Ibérica, e a V. quadridentata Sibth. & Sm.) têm nome assente e não controverso. São ambas miúdas e bonitas; onde existem, convém pisar o chão ao de leve.

Monte Calábria, Almendra, Vila Nova de Foz Côa

01/07/2013

Erva dos bálsamos

Dittrichia graveolens (L.) Greuter


Há quem julgue que as flores silvestres aparecem apenas na Primavera. Só pode ser quem nunca repara nelas, ou quem as considera um adereço sem importância na paisagem. Porque mesmo quem assim pense, ou quem sem pensar dê por essa ideia alojada na cabeça, seria capaz, se a isso fosse desafiado, de encontrar por esses campos fora muitas plantas floridas em qualquer época do ano. Descartar as ideias equivocadas de que somos feitos é empreitada de monta, e só valerá a pena tentar tal esforço higiénico em assuntos importantes. É porém compreensível que um assunto para nós tão importante como as plantas silvestres não o seja em igual medida para toda a gente.

Deve reconhecer-se que, à nossa latitude, é entre Abril e Junho que a vegetação espontânea apresenta um colorido mais intenso e variado, por ser essa a época de floração escolhida pela maioria das plantas. Mas logo em Janeiro e Fevereiro há coisas imperdíveis, como os narcisos e o lírio-azul-de-Inverno, e mesmo quando o sufoco do Verão nos amolece os sentidos há plantas que nos interpelam carregadas de flores. Contudo, por a nossa disponibilidade já não ser a mesma, as plantas que se mostram fora da época alta têm menos gente a reparar nelas. E que dizer daquelas que à floração tardia juntam um défice de beleza e um gosto por habitats degradados? Só mesmo por coleccionismo botânico, como aquele que aqui praticamos, irá alguém assinalar-lhes a existência.

É essa a sina da Dittrichia graveolens, uma não muito atraente planta ruderal da família das asteráceas que floresce entre Julho e Setembro. O número de observações da espécie registadas no portal Flora-On estará ainda longe de reflectir a sua real distribuição no nosso país. Se o povo chegou a dar-lhe nome (erva-dos-bálsamos) não é por tê-la achado bonita, mas antes útil: trata-se de uma planta fortemente aromática, rescendente a cânfora, de que se preparam infusões com reconhecidas propriedades sudoríficas. E ficamos a saber que ao nariz sensível dos franceses repugna o cheiro a cânfora, pois a planta recebeu em terras gauleses o nome de inule fétide.

A Dittrichia graveolens, planta anual, muito glandulosa, com 25 a 50 cm de altura, nativa da Península Ibérica e de toda a bacia mediterrânica, é uma das duas ou três espécies de um género que, por mão do botânico W. R. Greuter, se emancipou em 1973 do género Inula. Muito mais abundante é a sua congénere D. viscosa (ínula-peganhenta), planta perene, lenhosa, de folhas largas, que nos últimos anos se tem vindo a expandir a bom ritmo por terrenos baldios de todo o país.

28/06/2013

Arroz tetrâmero

Sedum andegavense (DC.) Desv.


A juntar àquele que há dias aqui trouxemos, este é o condimento que faltava para completarmos a salada de arrozes com travo nordestino. É também uma planta suculenta, anual, baixinha (de 4 a 6 cm de altura) e discreta, moradora de sítios áridos e rochosos e de bermas de caminhos, e que floresce na Primavera. Destaca-se entre as suas congéneres, quase todos elas adeptas indefectíveis do número cinco, por ser uma defensora incondicional do quatro: cada uma das suas flores tem quatro sépalas, quatro pétalas e quatro estames. Em linguagem semi-erudita, polvilhada de grego, dizemos que as flores do S. andegavense são tetrâmeras, enquanto que as dos outros arrozes são, em geral, pentâmeras; ou que o nosso Sedum pratica o tetramerismo, por dissidência com a seita maioritária dos seguidores do pentamerismo.

Distribuído quase de norte a sul do território continental português, o S. andegavense parece contudo evitar regiões costeiras (com excepção das Berlengas), preferindo refugiar-se no interior do país. Adaptado a climas quentes e secos, é nativo da Península Ibérica e da metade oeste da bacia mediterrânica, incluindo Itália, França, Córsega, Sardenha, Marrocos e Argélia. Embora Lineu e outros patriarcas da taxonomia botânica se tenham por vezes equivocado na origem geográfica das plantas ao atribuir-lhes epítetos que evocam locais, desta vez a palavra andegavense informa correctamente que a primeira descrição publicada da planta (como Crassula andegavense, em 1815, por Augustin Pyrame de Candolle) foi baseada em exemplares colhidos perto da cidade francesa de Angers.

25/06/2013

Goivo pardo

Matthiola fruticulosa (Loefl. ex L.) Maire


As plantas do género Matthiola são fáceis de identificar. As folhas e os caules são penugentos, e as flores, entre o rosa e o roxo, têm quatro pétalas, como é regra na família Cruciferae, de margens muito enrugadas e por vezes reflexas. A das fotos, com flores de cor púrpura quando frescas, de matiz misturado entre o violeta e o amarelo pouco depois, esconde-se bem nos matos rasteiros de solo arenoso em cujas orlas ela gosta de vegetar. Não fosse ser abundante, talvez não déssemos por ela; é moderamente alta (cerca de 40 cm; fruticulosa significa precisamente que é um arbusto pequeno), de hastes ramificadas providas de glândulas amarelas.

Mas há uma diferença relevante entre as várias espécies do género: algumas são anuais, outras perenes (como a M. fruticulosa) e outras ainda bienais. Admitindo como certo que uma etiqueta genérica une plantas com um ancestral comum, por que razão há espécies próximas com ciclos de vida tão distintos? Não pode ser só da ecologia: a M. tricuspidata e a M. sinuata ocorrem ambas em solos arenosos do litoral, e a primeira é anual enquanto a segunda é tendencialmente perene. Talvez as espécies saibam jogar com a sua capacidade de migrar de um registo anual para um perene, ou vice-versa, correspondendo o bienal a um período de transição. Imaginamos uma planta de beira-mar a colonizar com sucesso um habitat igualmente seco e pedregoso mas mais estável, o que lhe permite ganhar porte e aspirar a uma vida mais longa. E admitimos que uma mudança no clima possa ser culpada pelo abalo provocado numa espécie amiga do gelo de outrora e que nos dias de hoje, mais quentes, não resiste a mais do que uma floração. Sobram contudo dúvidas neste devaneio. Se nos parece que uma planta perene está mais bem adaptada e tem mais chances de se disseminar, também se pode legitimamente discutir esta hipotética vantagem, afirmando que ser capaz de programar uma data fixa para o fim é um avanço, ou uma rebeldia, a que poucas espécies se conseguiram alçar.

A Flora Iberica distingue duas subspécies de M. fruticulosa: a M. fruticulosa subsp. fruticulosa, das fotos, que já se chamou M. tristis e é nativa do sul da Europa, norte de África e oeste da Ásia (Chipre e noroeste da Turquia), onde parece mostrar alguma preferência por calcários; e a M. fruticulosa subsp. valesiaca, dos Alpes e Pirenéus, que não consta existir em Portugal.

21/06/2013

Amarela de Bemposta

Ononis natrix L.


É verdade que as palavras explicam, mas também ajudam a confundir aquilo que os olhos não confundiriam. Descrições de coisas diferentes usam quase as mesmas palavras, ou distinguem-nas usando outras que não entendemos; na falta de uma ilustração, dificilmente ficamos aptos a reconhecê-las. Como explicar a diferença entre um burro e um cavalo a quem nunca viu nenhum deles? Pela razão entre o diâmetro da testa e o comprimento das orelhas? É bom que depois no campo os bichos se deixem estar quietos para as necessárias medições, e que não apareça nenhuma mula para nos baralhar a sapiência livresca. Os biólogos gostam, para sua recreação, de elaborar chaves dicotómicas que levariam sem hesitações à identificação segura das espécies analisadas. Essa redução do contínuo da realidade a uns quantos caracteres claramente distinguíveis tem quase tanto de idealização como aqueles exercícios de física elementar em que todos os corpos são esferas perfeitas formadas por material homogéneo. E, além das variações com que a natureza recusa conformar-se às leis humanas, até os profissionais se podem enganar quando decifram tais chaves, lendo numa certa descrição aquilo que o autor não quis lá pôr.

Quem consultar a Nova Flora de Portugal (vol. 1, 1971), de João do Amaral Franco, fica a saber que no nosso país a Ononis natrix estaria representada pelas subespécies ramosissima e hispanica. Há porém, de tempos a tempos, oscilações de opinião que fazem com que uma subespécie seja autonomizada como espécie ou, inversamente, uma espécie seja despromovida a subespécie ou variedade. E nem todos os especialistas se sentem obrigados a acatar as mudanças, de modo que os leigos ficam com todo um cardápio de nomes para usar a seu gosto. No que toca à planta de hoje, a Flora Ibérica reconhece as duas espécies Ononis natrix e Ononis ramosissima, não considerando quaisquer subespécies. Estranhamente, a O. natrix subsp. hispanica de Franco corresponde à O. ramosissima da Flora Ibérica, e a O. natrix subsp. ramosissima à O. natrix. Parece seguro concluir que as descrições originais dessas espécies (devidas a Lineu e a Desfontaines, e ambas da segunda metade do século XVIII) não foram lidas do mesmo modo por Franco e por Juan Antonio Devesa, autor da revisão do género Ononis na Flora Ibérica.

Pondo de parte as tricas nomenclaturais, a jóina-dos-matos (Ononis natrix) tem um aspecto bem diferente da sua prima jóina-das-areias (Ononis ramosissima): é mais avantajada, tem os cachos de flores mais erectos, as corolas são maiores, com o verso do estandarte marcado por traços vermelhos mais carregados, e as folhas têm folíolos mais compridos e estreitos. Divergência há também nas opções ecológicas, com a Ononis ramosissima, em obediência ao seu nome vernáculo, a preferir as areias litorais, e a O. natrix a penetrar no interior do país pelos vales do Douro e do Tejo. Some-se a isto que a O. ramosissima forma em geral populações abundantes, muito olorosas, cobrindo grandes extensões de areal, e que da O. natrix só encontrámos, até hoje, uns poucos indivíduos dispersos, incapazes de perfumar o ar à sua volta.