24.3.10

Nacionalismo vegetal



Carduus platypus Lange

Será que as plantas reconhecem as fronteiras entre estados? Para os botânicos amadores incapazes de interpretar com acerto uma chave de identificação inçada de termos abstrusos, era bom que a resposta fosse sim. Tomemos o exemplo deste cardo, fotografado no concelho raiano do Sabugal. Como foi encontrado em território português, deverá tratar-se do Carduus platypus, uma planta que ocorre nos dois países ibéricos. Se tivéssemos deparado com ele em Ciudad Rodrigo, que em linha recta fica a menos de 60 km do Sabugal, já haveria dúvidas acerca da sua identidade. Nesse caso poderia ser antes o Carduus granatensis, o qual, sendo praticamente igual ao outro, é um exclusivo do país vizinho. Mas a pergunta impõe-se: estarão as plantas impedidas de cruzar fronteiras? Fica a dúvida a roer-nos nesta era em que, mesmo para os humanos, as fronteiras intra-europeias (tirando as dos aeroportos) passaram a ser uma abstracção: edifícios alfandegários abandonados, sem filas de quilómetros nem guardas fiscais a vasculharem bagageiras. Ainda há poucas semanas, numa visita à Portela do Homem, no Gerês, pusemos o pé do outro lado e não notámos qualquer diferença. Por que haveria então uma planta de respeitar essa linha arbitrária que já nenhuma força policial controla?

Mas voltemos ao cardo e tratemos de o situar entre os seus semelhantes. O nome genérico Carduus não engana, mas há muitos cardos que não são Carduus. Alguns até são muito parecidos, como os que foram arrumados nos géneros Cirsium e Onopordum. De Carduus legítimos há cerca de 90 espécies na Europa, Ásia e África; umas 45 são europeias, e 10 delas ocorrem em Portugal.

O C. platypus, robusta herbácea bienal que pode atingir um metro de altura, destaca-se entre os seus congéneres portugueses por exibir as maiores inflorescências, com cerca de 5 cm de diâmetro. Além disso, as suas brácteas são recurvadas e muito longas, quase lineares, com as pontas aguçadas tingidas de roxo. As suas hastes, e também as suas folhas jovens, surgem recobertas por uma penugem esbranquiçada, mas as folhas ficam glabras ao envelhecer. Frequenta terrenos cultivados ou ruderais, sobretudo aqueles que foram sujeitos a perturbações recentes. No Sabugal vicejava alegremente num bosque recém-ardido, e é bem conhecida a predilecção dos Carduus pelos entulhos de fresca data.

3 comentários :

1 Espectador SC disse...

Muito Boa Tarde,

Aproveito a minha regular visita ao seu espaço para informar a abertura de um novo blog dedicado exclusivamente ao debate de temas falados no programa de televisão Sociedade Civil. Como espectador, este meu novo espaço visa expressar as minhas opiniões sobre o assunto falado no dia. Aproveito a minha passagem pelo seu blog para divulgar, para que todos visitem e que sigam este blog. Serão todos bem vindos, bem como a colocação de links está em aberto. Se a colocação for feita neste seu espaço, colocarei também no meu, basta informar.

http://umespectador.blogspot.com/

Boa continuação e espero que apareçam.

Maria da Luz Borges disse...

mais um velho conhecido e que há, em grande abundancia, junto ao nosso Jardim de infância.
Neste momento estou cheia de curiosidade para descobrir se é este o cardo marmeleiro e quais são as suas propriedades... Bom esperando um dia conseguir descobrir a resposta
Luz

Maria da Luz Borges disse...

Bom, agora que li o post todo percebi que não falamos do mesmo cardo... Os que vivem ao pé do nosso JI são mais pequenos em tamanhoa ediametro das flores. mas também já me cruzei com este, penso eu...
Luz