

Notholaena marantae (L.) Desv. [= Cheilanthes marantae (L.) Domin]

Daqui de cima avista-se o rio Sabor. Gostaríamos de dizer que a paisagem permanece intocada, mutável apenas em obediência às estações: o caudal do rio, que já vimos diminuído, é agora farto, os salgueiros com um pé na água ainda não deram folhas novas. Mas muitos quilómetros a sul cresce a barragem que vai domesticar o ímpeto das águas, e logo aqui abaixo, na margem esquerda, abre-se um aterro como uma grande ferida cor de terra. É possível enquadrar a foto mentirosa para mostrar que nada mudou. Sabemos porém que não é verdade, e desistimos do gesto fútil.
O remédio está em adoptar a atitude de defesa que é necessária noutros pontos do país, mas aqui julgaríamos dispensável. Viemos para ver plantas, coisas pequenas, rentes ao chão, que exigem apenas um olhar de curto alcance; não para olharmos em volta com a voracidade de quem chega a território estrangeiro. E o feto com que marcámos encontro encabeça há longo tempo a nossa lista de plantas-a-ver. No ano passado, confiantes na nossa estrelinha, vagueámos pela margem direita do Sabor em busca dos afloramentos ultrabásicos que o fiel
Alyssum serpyllifolium não deixaria de assinalar, mas da
Notholaena marantae nem sinais. Este ano, para não repetirmos a excursão mal sucedida, pedimos ajuda a quem sabe, que nos indicou uma localização na margem oposta. Parece óbvio, não é? Se não é de um lado do rio, é do outro. Mas, na impossibilidade de atravessar o rio a salto, uma distância de poucas centenas de metros converte-se num desvio de dezena e meia de quilómetros, boa parte deles por trepidantes estradas de terra batida. Sem a certeza do prémio no final, é pouco provável que alguma vez aqui viéssemos, por muito que nos seduzissem as encostas revestidas de sobreiros.
À hora e no local previstos, deparámos com a
Notholaena marantae, feto que em Portugal continental é exclusivo dos ultrabásicos transmontanos, embora noutros pontos da sua distribuição (que inclui a região mediterrânica, a Macaronésia e os Himalaias) possa ocupar rochas vulcânicas e substratos mais ácidos. A excitação do encontro foi algo atenuada por serem poucas as folhas em bom estado: quase todas se apresentavam encarquilhadas, e só uma ou outra folha nova começava a desenrolar-se [foto 4]; um mês depois o panorama seria bem mais alegre. Em comum com outros fetos xerófilos, as folhas da
Notholaena marantae ficam engelhadas em períodos de seca prolongada, mas basta um regresso da chuva para reverdecerem. Não duram, contudo, mais que um ano, e as plantas que vimos aprontavam-se ainda para a renovação anual do vestuário.
Meia dúzia de frondes hirtas, com pínulas lisas e de contorno arredondado, pintadas de um verde glauco, davam, aqui e ali, bom testemunho da beleza elegante deste feto. No auge da Primavera elas deverão mostrar-se em formação cerrada, quase militar. Têm de 20 a 30 cm de altura, e exibem um pecíolo longo, pontuado por escamas brancas; na face inferior, iguais escamas deixam entrever os esporângios [foto 5]. É esse revestimento escamoso fazendo as vezes do indúsio que explica o nome do género, derivado das palavras gregas
nothos (= falsa) e
chlaina (= manta); em floras antigas era usada a forma
Nothochlaena. O epíteto
marantae atribuído por Lineu vem de Bartolomeo Maranta, médico e botânico veneziano do século XVI que primeiro descreveu a espécie.