11/10/2014

Quatro irmãs portuguesas


Cleonia lusitanica (L.) L.


Segundo a Flora Ibérica, o nome vernáculo desta herbácea anual de floração efémera é o supreendente «cuatro hermanas portuguesas». A referência a quatro irmãs entende-se: a inflorescência tem um arranjo em pelourinho com quatro flores em redor, numa posição simétrica que lembra, por exemplo, a configuração da estátua que homenageia as quatro irmãs Guedes à entrada do Quinta da Aveleda. Memórias de outros tempos, em que as famílias eram numerosas. Mas o rigor do «portuguesas» deixa-nos perplexos. Tudo indica que se trata de um acrescento de cientistas influenciados pelo epíteto lusitanica que Lineu escolheu, tanto na primeira edição do Species Plantarum, em 1753 (em que a designou Prunella lusitanica), como na segunda, de 1763, em que corrigiu a mão, optando por Cleonia lusitanica (por isso o nome científico termina com a dupla menção a Lineu, (L.) L.). Pior só se alguém afirmasse que o povo a trata por cliónia. Mas não, não há qualquer menção de um nome vernáculo em português, e, de facto, em castelhano ela tem outra designação mais plausível: cañamillo, algo como cana-de-painço ou cana-de-milho-miúdo, decerto aludindo à postura erecta dos talos, ao formato da haste floral e às brácteas das inflorescências.

As flores não deixam dúvidas: esta planta, que em geral se fica pelos 20 a 30 cm de altura, pertence à família Lamiaceae e ao seu ramo mais vistoso, aquele que no início do Verão exibe corolas violáceas, com um matiz mais claro, ou mesmo branco, no interior. (Informa a Flora Ibérica que, em Málaga, há uma população onde ocorrem espécimes de flores amarelas.) Gosta de prados em clareiras de matos abertos, matagais ou azinhais, sobre solo calcário. Vimos os exemplares das fotos em Pombal, na companhia de algumas centenas mais que formavam um extensa manta lilás numa ladeira de terra argilosa, avermelhada e seca, entremeada com rochas e calhaus. Dias depois, reencontrámos a planta nas margas do Horst de Cantanhede.

De acordo com a Plant List, o género Cleonia inclui esta única espécie C. lusitanica, que é nativa do centro e sul da Península Ibérica e do norte de África.

07/10/2014

Rio das ervas sem nome


Carex elata All.


Todas as nossas experiências sensoriais — o que vemos, cheiramos, ouvimos, saboreamos, tocamos — podem, acreditamos nós, ser traduzidas por palavras. Há quem leve tão longe essa crença que ache mais enriquecedor ler um relato sobre um certo lugar, em especial se o autor tiver firme reputação na bolsa de valores da cultura, do que visitá-lo com os sentidos bem abertos. Pablo Neruda chamou Confesso que Vivi ao seu livro autobiográfico. Se algum desses leitores fervorosos publicar uma autobiografia honesta, há-de intitulá-la Confesso que Li.

Essa vida em segunda mão, mediada pelas palavras dos outros, tem vários inconvenientes. O primeiro é que, se não tivermos experiência directa dos objectos ou seres que as palavras descrevem, as imagens mentais que formamos ou são lacunares ou têm fraca semelhança com aquilo que é descrito. Um pinheiro é diferente de um carvalho, um pinhal é diferente de um carvalhal, não há uma coisa indiferenciada e uniforme que se chame «floresta», há sim muitas florestas, cada uma com os seus cheiros e jogos de luz. Mas, se só tivermos uma noção vaga de floresta como uma formação mais ou menos extensa de árvores anónimas, então é o mesmo cenário que nos vem à cabeça quer estejamos a ler sobre os bosques da Noruega ou sobre a mata atlântica do Brasil. As descrições cuidadosas dos mais finos escritores deixam apenas um reflexo baço e irreconhecível no espelho do nosso cérebro.

Essas limitações do leitor podem, no entanto, ser em parte ultrapassadas se houver humildade em reconhecê-las. Passando do receptor ao emissor, um outro problema que afecta a transmissão de experiências através das palavras é a incompletude do nosso léxico. Em suma, não há palavras para tudo. Quem muito palavrosamente tentar descrever um perfume inédito, saberá que quem o ouve não fica habilitado a reconhecer tal perfume e muito menos a recriá-lo: em vez de palavras, fazem falta tubos de ensaio e fórmulas químicas. E há insuficiências que são próprias de determinadas línguas, reflectindo vivências ancestrais em que certas coisas, por não terem importância assinalável, era como se não existissem.

As quase 50 espécies de Carex que ocorrem em Portugal não existem na nossa língua: não há qualquer palavra em português para as designar. Outras línguas europeias são isentas dessa lacuna: os nomes «sedge» (em inglês) e «laîches» (em francês) indicam quaisquer plantas do género Carex, em geral bastante frequentes em zonas húmidas ou inundadas, mas não exclusivas desses habitats. Quem quiser traduzir para português um texto de um autor anglo-saxónico ou francófono que fale destas plantas não o pode fazer sem erro ou sem perda de informação. Se usar junco ou junça comete um erro, pois essas plantas, embora ocupem habitats semelhantes, são diferentes das Carex e, no caso dos juncos, nem pertencem à mesma família botânica. Em alternativa, pode usar um nome generalista e impreciso (como «erva» ou «capim») ou, como último recurso, não tentar sequer dar um nome a tais plantas (traduzindo por exemplo «sedge fen» por «brejo»).

Ficamos então sem palavras para descrever com rigor, e em português de lei, um rio como há muitos na metade norte do país, com o leito pontuado por grandes tufos de verdura compostos por hastes e folhas elegantemente arqueadas. Uma tal descrição impressionista poderá satisfazer alguns, mas não aqueles que prezam uma informação exacta. Assim, a planta ilustrada nas fotos tem o nome científico de Carex elata, em inglês é conhecida como tufted sedge, e os tufos por ela formados podem ultrapassar um metro de altura. Se ao habitat ribeirinho adicionarmos o aspecto geral e as espigas das inflorescências, visíveis de Março a Maio, é de admitir que a identificação da planta não ofereça dificuldades de maior. Não é esse o caso da maioria das espécies do género Carex, em que a distinção pode depender de diferenças subtis na forma dos frutos. De facto, o género Carex é tão intrincado que o seu estudo mereceu um nome à parte dentro do universo da botânica: trata-se da caricologia. Contrariando as suposições fáceis, um caricólogo não colecciona caricas nem compila estatísticas sobre campeonatos de sameirinha, mas dedica-se, em vez disso, ao estudo e classificação das Carex.

Faremos uma breve (e trapalhona) introdução à caricologia num dos próximos fascículos.


Parada de Pinhão, Sabrosa

04/10/2014

Estrelas de haver


Nave de Haver
Cerca de oito quilómetros a sul de Vilar Formoso, Nave de Haver é um recanto no interior do país estranhamente plano e arenoso, não longe da ribeira de Tourões que desagua ali perto no rio Águeda. O espanto acentua-se quando avistamos uns morros cor de argila, umas formas de aluvião que parecem ter sido desenhadas por chuva intensa. O topónimo soa-nos bizarro até entendermos que nave significa, neste contexto, um lugar plano entre montanhas e que o de Haver é decerto uma variante oral de Daver, que alude a uma várzea junto a um rio. Cruzamo-nos com algum gado e cães de guarda que ladram enervados por ver gente: actualmente não moram no lugar mais do que 400 pessoas. Diz-se que por lá prossegue a exploração de volfrâmio por processo artesanal e que, estando tão perto de Espanha e sendo tão despovoado, é ainda propício ao contrabando.

É para a zona ondulada, e as famosas arcoses, que nos dirigimos em Maio. Mas a planície junto à estrada está arroxeada por tantas flores de Linaria incarnata e há lá tantas plantas que nunca vimos que a viagem se vai alongando em paragens. Quando chegamos finalmente aos arenitos, encontramos uma duna gigante feita de cascalho grosseiro e escorregadio, um enorme rochedo desfeito e depois sedimentado onde se notam veios de quartzo, xisto, granito e argila. E tudo o resto parece ter encolhido, até os carvalhos, como se ali o mundo fosse ainda jovem. No fundo dos aluviões há regatos estreitos e, dispersas, lagoas pouco fundas de margens recheadas de plantas preciosas e outras que não identificámos.


Quercus pyrenaica Willd.
No início de Setembro retornámos, desta vez para explorar essas "dunas" solidificadas, e aí ver uma pequena população desta asterácea rara que Miguel Porto e Ana Júlia Pereira encontraram meses antes e para a qual nos haviam alertado.


Aster aragonensis Asso


Como floresce no Verão, quando quase tudo o resto já perdeu a cor, pensámos que não teríamos dificuldade em avistá-la, mas é planta tão delgada, de inflorescências em corimbo tão frouxo e, quando a vimos, de folhas secas e hastes de cor tão próxima da do solo, que quase nos passou despercebida. (Curiosamente, Brotero designou-a Aster fugax, aludindo desse modo à maturação rápida da planta.) Foram as lígulas violáceas, que contrastam com o amarelo das pétalas num arranjo admirável, que nos ajudaram a descobri-la. A estrela miúda, como a designam em castelhano, é um endemismo ibérico de que em Portugal só se conhecem núcleos nos arenitos de Nave de Haver, em afloramentos ultrabásicos, xistos verdes e leitos de cheia de Bragança e Vinhais, em fendas de rocha xistosa na serra do Açor e num urzal na Serra da Carregueira. Na Catalunha, consta do Livro Vermelho (das plantas endémicas ameaçadas) como espécie vulnerável.

Lemos que Ignacio Jordán de Asso y del Rio (1742-1814), naturalista espanhol que nomeou esta planta, foi autor de um inventário quase exaustivo da flora e fauna de Aragão.

30/09/2014

Caldeira do Faial



O visitante que quiser descer à caldeira do Faial não o pode fazer sem autorização, e terá que ser acompanhado por um guia pago. O trilho não é especialmente perigoso nem apresenta obstáculos inultrapassáveis, e está suficientemente calcorreado para dissipar quaisquer dúvidas sobre o caminho a seguir. Quem for ágil que baste e tiver experiência de caminhadas na natureza poucas dificuldades teria em chegar sozinho ao fundo da caldeira, mesmo naqueles dias em que o nevoeiro pudesse momentaneamente perturbar o sentido de orientação. Não foi pois a preocupação pela segurança dos visitantes que levou o Parque Natural do Faial a impor estas restrições de acesso, mas antes a crença de que uma sobrecarga de visitantes e o possível comportamente desregrado de alguns deles poderiam danificar aquele que é o mais precioso reduto de vegetação natural de toda a ilha.

Se em teoria este argumento é convincente, já a prática deixa algo a desejar. Definir um limite diário, semanal ou mesmo mensal de visitantes numa área ambientalmente sensível e sujeita a grande pressão turística é um procedimento adequado e necessário. Mas obrigar cada potencial visitante, ou grupo de visitantes, a pagar os serviços de um guia, quando tais serviços poderiam em muitos casos ser dispensados, é restringir o usufruto da natureza a quem tenha (bastante) dinheiro para isso. E é também um exemplo curioso, embora em pequeníssima escala, de como o Estado se empenha em criar e alimentar um negócio exclusivamente privado e em boa parte supérfluo.

Como acontece em várias outras áreas protegidas tanto nos Açores como em Portugal continental, parece vigorar a ideia de que para salvaguardar os valores naturais de uma certa área basta declarar que o acesso a ela é interdito ou condicionado. Livre de intrusos indesejáveis, a natureza saberá reconstituir-se sem ajuda, regressando à forma primordial que era a sua antes da chegada do bicho homem: isso a que os burocratas do ambiente chamam wilderness. Talvez a gestão pelo abandono seja adequada na caldeira de Santa Bárbara e noutros lugares da ilha Terceira onde o revestimento vegetal pode sem exagero ser descrito como floresta virgem, mas não o é na caldeira do Faial nem em qualquer outro lugar nominalmente protegido da mesma ilha.

Até há trinta ou quarenta anos, o interior da caldeira era usado intensamente para pastoreio de cabras, ovelhas e até de vacas. Nas vertentes mais suaves, a vegetação arbórea está por isso bastante reduzida. O fim do pastoreio vai ditando o adensamento do coberto vegetal, mas a presença de elementos espúrios como as hortênsias (Hydrangea macrophylla), rocas-da-velha (Hedychium gardnerianum) e silvas (Rubus ulmifolius) inviabiliza a regeneração da floresta original. É causa de desgosto e de perplexidade que nem aqui, num local que deveria funcionar como símbolo da conservação da natureza no arquipélago, tenha sido feito qualquer esforço para erradicar as hortênsias. E o fundo da caldeira, antes coberto por um lago que ficou muito diminuído por altura da erupção dos Capelinhos, ameaça agora transformar-se num silvado contínuo.

A importância da caldeira do Faial explica-se de modo simples: nas suas vertentes, que vencem um desnível superior a 300 metros, e também ao longo do seu perímetro, que tem cerca de 7 Km de extensão, encontra-se uma representação quase completa da flora nativa açoriana, com as excepções óbvias daquelas espécies que vivem exclusivamente a baixas altitudes e de outras que não existem no grupo central no arquipélago. Para além dos habituais juníperos, azevinhos, folhados, loureiros, mirtilos e urzes, das multidões de fetos e de musgos, e das grandes asteráceas de floração estival como o patalugo e a leituga, pudemos ver trovisco-macho em abundância e ainda reencontrámos, para grande regozijo nosso, a raríssima alfacinha (Lactuca watsoniana) que só conhecíamos da ilha Terceira.


Ilex perado Aiton subsp. azorica (Loes.) Tutin


Eis uma boa ocasião para remediar uma grave lacuna: apesar de referirmos muitas vezes o azevinho açoriano, nunca aqui o mostrámos, talvez por nunca lhe termos fotografado as bagas maduras, já pintadas de vermelho. Tendo a espera ultrapassado os limites do razoável, contentar-nos-emos com as bagas verdes, e como bónus juntamos uma imagem das flores, que são brancas, pequenas e discretas, mas revelam-se compatíveis com o calendário das nossas estadias nos Açores. O azevinho açoriano, endémico do arquipélago e componente essencial das florestas húmidas de altitude, é uma árvore perenifólia, de copa larga, que pode ultrapassar os cinco metros de altura. Nas zonas de maior humidade, em que as nuvens só se ausentam a custo e por períodos muito curtos, os azevinhos rivalizam com os juníperos na quantidade e qualidade da flora epífita de musgos e fetos a que dão acolhimento. Um dos inquilinos habituais dessas árvores é a língua-de-vaca, um feto endémico dos Açores e da Madeira.


Pico: floresta de junípero (à esquerda), loureiro (ao centro) e azevinho (à direita)

27/09/2014

Lembrando o não-me-esqueças


Myosotis azorica H. C. Watson


Poucas vezes nos referimos aqui aos miosótis, aquelas plantas mimosas de flores azuis, brancas ou amarelas, e folhas cor de alface que lembram orelhitas de rato. É que há muitas espécies parecidas que ocupam habitats semelhantes, e que mal se distinguem; logo o risco de errar na etiquetagem é elevado, apesar da chave detalhada que os redatores da Flora Ibérica prepararam. Porém, o das fotos de hoje, que é endémico dos Açores, não deixa dúvidas: como é muito raro, havendo registo de populações apenas nas ilhas das Flores e Corvo, dificilmente nos deparamos com o problema de o identificar; além disso, tem um porte e folhagem invulgares, muito diferentes dos demais.

Trata-se de uma herbácea perene de montanha, que ocorre em crateras, taludes próximos de cascatas e rochas húmidas entre os 400 e os 600 metros de altitude. Como podem notar nas fotos, é erecta, com as folhas basais em patamares horizontais, as superiores patentes, e uma inflorescência densa no topo da planta, formando uma umbela de flores azuis escuras (cor de indigo; infelizmente as plantas foram fotografadas num dia quente de Agosto, em fim de floração, por isso não mostram bem este detalhe).

Este não é o único miosótis endémico dos Açores: o Myosotis maritima também só existe nessas ilhas. Floresce mais cedo (em geral, até Junho), é muito ramoso mas tem folhas e flores menores do que o M. azorica, e aprecia as reentrâncias das falésias, as rochas costeiras até 50 metros de altitude e a maresia. Ocorre em todas as ilhas e a designação foi-lhe atribuída por Hochstetter (pai) em 1840. Quatro anos depois, H. C. Watson publicou uma descrição do M. azorica, com uma ilustração, na Curtis's Botanical Magazine (página 4122), notando como é diferente das espécies europeias. Para quem já teve o privilégio de observar os dois miosótis açorianos, eles não se confundem, até porque não têm a mesma ecologia. Estranha-se, portanto, que nas páginas da Plant List, portal da responsabilidade dos Kew Gardens, se afirme que Myosotis maritima é sinónimo de Myosotis azorica. Sugerimos que contactem o Jardim Botânico do Faial, onde há exemplares das duas plantas, venturosamente a florir e a frutificar. E, quem sabe, haverá sementes para partilhar.


Myosotis azorica H. C. Watson (fotografado na ilha das Flores)

23/09/2014

Ao sol no basalto


Cheilanthes guanchica Bolle


Os anglo-saxónicos chamam lip fern aos fetos do género Cheilanthes, o que etimologicamente se justifica notando que esta palavra de origem grega é composta por cheilos (= lábio) e anthos (= flor). Até os mais distraídos sabem que os fetos não dão flor, mas neste contexto o termo faz referência aos esporos, que são o modo que estas plantas ditas primitivas têm de se reproduzir. Os esporos aparecem resguardados por uma dobra na margem das pínulas que, podemos concedê-lo, são algo semelhantes a lábios humanos. E tal como há lábios grossos ou finos, uns mais rectilíneos e outros mais arredondados, também nos Cheilanthes essa parte da anatomia (ou, mais propriamente, da morfologia) varia consideravelmente, permitindo distinguir espécies que de outro modo se confundiriam. Verdade seja dita que, no trato entre humanos, o expediente de reconhecer as pessoas apenas pelos lábios causaria estranheza. Na verdade, o que as pessoas têm de mais individual (o código genético, a impressão digital) não é usado no quotidiano para nos reconhecermos uns aos outros. As caras são facilmente falsificáveis pela habilidade de um cirurgião plástico ou, muito mais prosaicamente, pelo talento de um actor. Se alguma espécie mais avançada fizesse da nossa objecto de estudo, certamente não se deixaria guiar pelas caras ao catalogar os espécimes estudados.

É então pelos lábios, neste caso algo ressequidos pela estiagem que acontece em Agosto mesmo nas ilhas (as fotos são do Pico), que podemos identificar com segurança este feto como Cheilanthes guanchica, diferente dos seus congéneres que costumamos encontrar em habitats rochosos de diversa natureza (granítica, xistosa, calcária) no continente português. Tal diferença entende-se melhor comparando a terceira foto de hoje com as da última coluna desta página. Os lábios têm uma membrana branca e transparente que os prolonga: chama-se pseudo-indúsio. No C. guanchica o pseudo-indúsio é alongado e praticamente contínuo; no C. maderensis ele é fragmentado em pequenos segmentos; no C. acrosticha é fimbriado; e no C. tinaei ele quase não existe. Só com vista muito apurada, ou com o auxílio de lupa ou de macro-fotografia, é que este receituário se pode usar na prática. E só na presença de frondes férteis, frescas e bem desenvolvidas ele se revela inequívoco. Por isso a melhor altura para destrinçar estes fetos, e para os observar em boas condições, é entre o final do Inverno e o início da Primavera. Ainda que tenham a fama de gostar de sol e de procurar os lugares mais secos e expostos, o certo é que as frondes estiolam e desaparecem durante os meses secos e quentes — podendo no entanto algumas delas reverdecer com o regresso das chuvas.

O Cheilanthes guanchica, que terá origem no cruzamento de dois dos seus congéneres (C. maderensis e C. pulchella, este último endémico das Canárias), é um feto com frondes de 8 a 15 cm de comprimento, dispostas em tufos, que nos Açores surge, e muito raramente, no Pico e em São Jorge, preferindo altitudes baixas e fendas de muros ou rochas basálticas com boa exposição solar. Parece ser a única espécie de Cheilanthes que ocorre no arquipélago, pois as referências à presença do C. maderensis (que já se chamou C. pterioides) dever-se-ão a erros de identificação. Foi originalmente descrito, em 1859, a partir de exemplares colhidos em Tenerife, pelo botânico alemão Carl August Bolle (1821-1909), aludindo o epíteto guanchica aos Guanches, povo que ocupava as Canárias antes da conquista do arquipélago pelos castelhanos. Também há notícia do C. guanchica na Madeira, no norte de África (Marrocos, Argélia e Tunísia), na Grécia, em algumas ilhas do Mediterrâneo (Córsega, Sicília), no sul de Espanha e, em Portugal continental, nas serras de Monchique e de Sintra. Seria um feito assinalável, a merecer recompensa, que o leitor encontrasse o feto nalgum desses lugares e nos enviasse um comprovativo da descoberta.

20/09/2014

Ginja perdida no mato


Prunus lusitanica L. subsp. azorica (Mouill.) Franco



Lembra-se do azereiro? Esse mesmo: uma árvore de folha perene, floração vistosa e perfumada, que, apesar de nativa em Portugal, é rara nos nossos jardins, e que Lineu descreveu em 1753 a partir de exemplares portugueses. As populações de azereiro concentram-se em bosques sombrios e húmidos, margens de cursos de água, carvalhais e loureirais. Vimo-lo nas serras do Gerês, Estrela, Açor e Marão, e Amaral Franco refere-o também em Alvéolos, Buçaco, Pampilhosa e Sintra. Nos Açores, onde lhe chamam ginjeira-do-mato, esta árvore procurou, e encontrou facilmente, o mesmo tipo de habitat em ravinas, crateras de rocha vulcânica e nas margens de ribeiros, fazendo também parte da floresta laurissilva mais bem preservada, a altitudes que rondam os 600 metros. Já terá sido numerosa, mas a desflorestação para aumentar a área de pastoreio ou de uso agrícola, e a invasão de espécies exóticas, colocaram-na quase à beira da extinção: restam nove populações escassas, e apenas em seis das ilhas açorianas. Junte-se a estas ameaças o facto de apenas duas espécies de aves endémicas, o pombo torcaz dos Açores (Columba palumbus azorica) e o melro-preto (Turdus merula azorensis), serem capazes de comer as ginjas inteiras e ajudar à sua dispersão, e entende-se por que está a ginjeira-do-mato no topo de uma lista de cem plantas nativas a exigir há muito medidas de conservação eficientes.

A ilha de São Miguel conta com o maior contingente desta planta, que aliás se crê ser imprescindível para a sobrevivência do priôlo (Pyrrhula murina), um passarinho que é endémico desta ilha. No Faial só conseguimos vê-la no Jardim Botânico, havendo contudo registos de uns poucos indivíduos na parte ocidental da ilha. No Pico encontrámos algumas ginjeiras isoladas, nitidamente ameaçadas pelo incenso. E nas Flores a população da espécie reduz-se a um único indivíduo. Mas, afinal, por que é tão importante esta contagem? Porque o azereiro dos Açores não é o mesmo que ocorre no continente.

De facto, em 1964, Amaral Franco compilou as diferenças morfológicas mais notórias, propondo então que o azereiro açoriano se designasse Prunus lusitanica subsp. azorica, reservando o nome P. lusitanica subsp. lusitanica para a versão continental. No essencial, resumem-se a isto: a ginjeira não é tão alta como o azereiro; as folhas dela são elípticas, as dele são lanceoladas; as hastes florais da ginjeira têm muito menos flores, embora as corolas sejam maiores; as bagas açorianas são também um pouco mais gordas e redondas, nascendo com um pé ligeiramente mais longo. Repare aqui nestes detalhes, comparando essas imagens com as fotos que lhe trazemos da ginja-do-mato. Naturalmente, estas peculiaridades de forma e tamanho não bastam hoje aos botânicos para aceitarem distinções taxonómicas. E, recentemente, foi feito um estudo da diferenciação genética entre as plantas açorianas, e entre elas e as versões continental e madeirense (Population genetic structure and conservation of the Azorean tree Prunus azorica, de O. Moreira et al., Plant Syst. Evol., 2013). As conclusões apoiam claramente a distinção da subespécie que Franco propôs, mas não a autonomia numa nova espécie (Prunus azorica) como sugeriram Rivas-Martinez et al. em 2002 (Vascular plant communities of Spain and Portugal: addenda to the syntaxonomical checklist of 2001. Part II. Itinera Geobotanica).


Pico: estrada para a lagoa do Paul

16/09/2014

A prima da América


Cinzas do vulcão dos Capelinhos
Quem visitar os Açores numa corrida contra-relógio, por ter comprado um daqueles pacotes turísticos de cinco-ilhas-sete-noites, tem de ser criterioso na escolha do que vai visitar em cada ilha. No Faial há-de querer espreitar a grande cratera, visitar a baía da Horta e, num salto à outra ponta da ilha, admirar o negrume lunar do vulcão dos Capelinhos, ou do que resta dele. Sem desfazer dos méritos dessa escolha, propomos-lhe um programa alternativo, que tem a vantagem de servir mesmo para aqueles dias (que são quase todos) em que o nevoeiro e a chuva tornam a paisagem do interior da ilha em coisa que só existe na imaginação. Se insistir em visitar os Capelinhos, saiba que só poderá subir ao farol pagando os 10 euros da entrada no centro de interpretação, que por esse preço há-de querer não apenas contar-lhe tudo sobre o vulcão que celebrizou o local mas fazer de si um verdadeiro perito em vulcanologia. Se não está interessado na lição ou não tem tempo para ela, fique-se — e já não é pouco — com a imagem do farol contra as falésias cor de carvão, despidas por enquanto mas com a vegetação pioneira de tamarizes, faias, urzes e algumas herbáceas a posicionar-se para uma conquista que levará séculos.

Se tivéssemos apenas um dia para visitar o Faial, um dia que condensasse o melhor e o mais proveitoso dos seis dias muito bem preenchidos que lá passámos, então os dois lugares obrigatórios seriam a cidade da Horta (incluindo a praia de Porto Pim) e o Jardim Botânico do Faial. A seguir a Angra de Heroísmo, a Horta é a cidade mais bonita dos Açores, comovente pelos seus aristocráticos sonhos de frustradas grandezas, com grandes armazéns que são só fachada e avenidas amplas que terminam logo depois de começarem. É no Porto Pim, uma baía resguardada por uma península e um monte que é também um vulcão adormecido, que se encontra uma das duas praias do Faial, se por praia entendermos um areal à beira-mar. O monte que se ergue logo atrás é hoje, graças à erosão dos milénios, quase todo formado por areia, e essa crista dunar é nos Açores um habitat raríssimo, permitindo que lá se instalem plantas que quase não existem no resto do arquipélago. Uma delas, que nos Açores só ocorre no Porto Pim e algures na Terceira, é o narciso-das-areias (Pancratium maritimum), tão comum nas praias do continente. Outra raridade é a grafonola, e uma terceira é a Cakile edentula, que hoje ocupa o escaparate.

Foi no Jardim Botânico do Faial que travámos conhecimento com estas últimas plantas, dois dias antes de as reencontrarmos no Porto Pim. Este é o melhor jardim botânico português da actualidade, por ter assumido plenamente que a sua função é estudar, proteger e divulgar a flora da região em que se insere, em vez de reunir uma colecção arbitrária de espécies exóticas. É uma missão educativa do mais alto valor, pois a genuína flora dos Açores, tão obliterada pela omnipresença de pastagens, hortênsias e criptomérias, permanece invisível aos olhos de quase todos os visitantes. Quem percorra os canteiros do jardim, seja qual for a altura do ano, há-de encantar-se com os maciços cor-de-rosa da Scabiosa nitens, um dos mais bonitos e esquivos endemismos açorianos. Árvores, arbustos e herbáceas dispõem-se ordenadamente em recantos que recriam habitats naturais desde as florestas húmidas de altitude até às zonas costeiras. É aí que regressamos a Porto Pim, pois uma pequena duna artifical em local soalheiro alberga amostras das especialidades dessa praia.


Cakile edentula (Bigel.) Hook.


A Cakile edentula não é muito diferente da sua congénere Cakile maritima, que encontramos em toda a costa portuguesa do Minho ao Algarve. Além de terem as mesmas preferências de habitat, ambas são plantas anuais, glabras, de folhas suculentas, com porte prostrado ou ascendente, que raro ultrapassam os 50 cm de altura. Diferenciam-se pelas flores (as da C. edentula são menores), pelo formato dos frutos, e sobretudo pelas folhas. O epíteto edentula, que significa desdentado em latim, alude precisamente às folhas de margens quase inteiras, em contraste com as folhas muito recortadas da C. maritima.

A C. maritima, que é uma espécie europeia, não ocorre nos Açores; a sua substituta C. edentula distribui-se pela América do Norte e pela Islândia e é tida por vários autores como exótica no arquipélago. À luz dos critérios que expusémos na semana passada, esse veredicto parece-nos mal fundamentado e injusto. De facto, a C. edentula é conhecida no Faial desde 1842 — ou seja, desde que se começou a estudar a flora das ilhas. O habitat que ocupa é aquele que por índole lhe convém, e não levanta qualquer suspeita de ter sido indevidamente alterado. Ao invés de boa parte das espécies que se naturalizaram nas últimas décadas, não se tem expandido no arquipélago, muito pelo contrário: fora do Porto Pim só existe na praia da Ribeira Grande, em São Miguel. Ao não ser reconhecida como nativa, havendo fortes probabilidades de o ser, há o risco de que não tenha a protecção que o seu grau de raridade no arquipélago claramente justifica.


Porto Pim visto da estrada do Monte da Guia

13/09/2014

As grafonolas do Porto Pim


Faial: praia do Porto Pim

O cronista Gaspar Frutuoso (1522-1591) faz menção ao Porto Pim no sexto livro das suas Saudades da Terra por ser então o melhor porto das ilhas, excepto quando o vento sudoeste o fustigava. De facto, é uma enseada larga de areia escura, em costa rasa, a formar uma praia extensa como não é frequente encontrar nos Açores. Confirmámos como é batida por ventania, que levanta a areia fina e incomodaria os apreciadores de praia se acaso por lá estivesse algum. No topo do morro que emoldura o porto resta algum do património imóvel da família Dabney na Horta; por perto está uma antiga fábrica, hoje felizmente só museu, de produtos baleeiros e, mais adiante, um centro de interpretação para os turistas aprenderem o que é, e como vive, uma baleia. Ao contrário das praias de pedra viva, ou biscoito, em cujos interstícios encontramos muitas plantas (azorinas, camarinhas, lótus, cubres, miosótis, eufórbias, fetos, etc.) e inúmeros ninhos, as areias de Porto Pim são quase um deserto. Com atenção, porém, descobrimos que mora ali uma planta rara, a que os ingleses chamam beach morning-glory.



Ipomoea imperati (Vahl) Griseb.


Lembra certa trepadeira roxa que é invasora no continente e ilhas, pertence ao mesmo género e tem origem na América trópical e talvez na região mediterrânica. Aprecia sítios expostos junto ao mar, tem hábito rastejante e dá-se bem nas dunas primárias. Poderia confundir-se com a prima Calystegia soldanella, mas a distinção entre elas é fácil até pelas folhas. A grafonola açoriana tem flores em geral solitárias, com duas brácteas sésseis no pecíolo de cada flor, que a mantêm erecta, um cálice de cinco sépalas e uma corola branca tubular, com um centro amarelo ou manchado de púrpura. Abrem ao nascer do sol e murcham na tarde do mesmo dia.

A primeira citação desta espécie nos Açores é de Watson (1843-44) e o registo é precisamente do Porto Pim. Em 1932, Tutin e Warburg encontram-na na ilha do Pico, num só local próximo da Madalena e, em 1973, Hansen e Pinto da Silva referem duas outras localizações, desta vez na ilha Terceira. Para esta escassez há muitas conjecturas. Primeiro, as raízes podem afastar-se até 2 metros do centro da planta mas não são muito profundas, por isso não sobrevivem a temporais que movimentem demasiado as areias na costa; além disso, apesar da proximidade ao mar, esta é uma planta terrestre cujas sementes têm pouca viabilidade se ficarem submersas por um período longo; finalmente, parece que os insectos polinizadores, que utilizam a corola como plataforma de pouso e têm de se empinar, de costas, para lamber o néctar no fundo do cálice, receiam os perigos de uma tal exposição e preferem as grafonolas de cores escuras que lhes dão melhor camuflagem. Se juntarmos a isto o facto de esta planta não se auto-fertilizar, e o infortúnio de as plantas novas não vingarem junto das adultas, entendemos como é pequena a produção de sementes e ineficiente a sua dissseminação. Resta acrescentar que também é rara na Madeira (foi anunciada em 2002 uma população numa praia de Porto Santo) e que, ao que se sabe, ocorre num só local em Cabo Verde.

O nome imperati refere-se ao boticário italiano Ferrante Imperato (1550-1625), viajante incansável e autor de uma Historia Naturale.

09/09/2014

Migrações & metamorfoses


Pellaea viridis (Forssk.) Prantl


Antes de os humanos baralharem tudo, primeiro com as viagens de barco e mais tarde com as de avião, as ilhas eram universos fechados onde as leis da evolução se cumpriam sem interferências externas. Os organismos vivos que o acaso forçara a uma existência tão confinada tinham de se adaptar para sobreviver, e como resultado desse processo surgiam organismos diferentes de quaisquer outros que existissem no resto do planeta. A evolução, como é evidente, também ensaiou as suas habilidades nas grandes massas continentais, mas aí não houve obstáculos geográficos de monta à disseminação das espécies. Existem endemismos continentais de distribuição restrita (temos alguns em Portugal), mas são poucos e, por regra, são parentes próximos de espécies com distribuição mais ampla. Nas ilhas o número de espécies endémicas é percentualmente muito maior, e é mais marcada a diferença em relação às espécies de outras paragens. A Azorina vidalii, que deveria ser símbolo dos Açores em vez da malfadada hortênsia, não se parece com mais nada neste mundo.

Considera-se que uma espécie pertence à flora nativa de uma região se ela (ou alguma sua antepassada) chegou lá por meios naturais: as sementes ou esporos responsáveis pela colonização original foram trazidos pelo vento ou pelas marés, ou foram transportados pelos pássaros. Quando a introdução é feita, mesmo que involutariamente, pelo homem, já a espécie é classificada como exótica. Dito de outro modo, o homem não se considera parte da natureza. De facto, a civilização humana tem sido construída, e de um modo acelerado nos últimos dois séculos, à custa da destruição ou adulteração do mundo natural. Os Açores de modo nenhum escaparam a essa sina, apesar de serem habitados há menos de seiscentos anos. Sabemos, pelas amostras que nos ficaram de herança, como era a floresta nativa das ilhas, composta por juníperos, azevinhos, loureiros, sanguinhos, paus-brancos e faias-da-terra. Sabemos que as criptomérias, as hortênsias, as conteiras e os incensos foram importados do oriente. Mas nem sempre a destrinça entre o exótico e o nativo se faz de modo tão seguro. Compreensivelmente, as preocupações imediatas dos primeiros habitantes não incluíam a elaboração de uma lista exaustiva do revestimento vegetal das ilhas — se bem que o cronista Gaspar Frutuoso tenha feito, século e meio mais tarde, nos volumes das suas Saudades da Terra (1586-1590), um esforço notável mas não sistemático nesse sentido. Quando, no século XIX, os primeiros botânicos visitaram as ilhas já as transformações tinham sido grandes, e em vários casos já seria difícil decidir se uma dada espécie era nativa ou introduzida. Hoje em dia há técnicas para dar respostas mais seguras a essa pergunta: se uma planta deixou vestígios fósseis, por exemplo, não restam dúvidas sobre a sua presença ancestral nas ilhas. Na ausência de tais provas taxativas, a dúvida permanece. Se o habitat da planta parece relativamente intocado, se a planta nunca foi comercializada por não ter interesse ornamental ou económico, se não está associada a práticas agrícolas (como acontece com certas infestantes de campos cultivados), então é razoável supor que não é exótica. No caso açoriano, um atestado adicional de não-exotismo, ainda que algo incerto, é a planta ter sido referida pelos botânicos oitocentistas ou, melhor ainda, por Gaspar Frutuoso.

Devemos admitir que, aplicando tais critérios à Pellaea viridis, o tribunal botânico, reunido para lavrar sentença, está fortemente inclinado a considerar que nos Açores ela é culpada de exotismo. Só em 1937 ela foi pela primeira vez detectada numa das ilhas, mais exactamente no Faial, e desde então foi vista também em São Miguel, Terceira e Pico. Não sendo moradora das labirínticas florestas de nuvens, mas sim dos lugares desbravados e humanizados do litoral das ilhas, é pouco provável que, se já existisse no arquipélago, a sua presença escapasse aos Hochstetter, Watson, Drouet e Trelease, todos eles pioneiros do estudo da flora açoriana nos idos de oitocentos. E é sabido que ela é estimada por jardineiros e coleccionadores, e que já se naturalizou em lugares distantes como a Austrália e o Hawai. Nas alegações da defesa, algo débeis e pro forma, é lembrado que a área de distribuição natural deste feto abrange boa parte da África, incluindo Madagáscar e o arquipélago de Cabo Verde, além da Índia e de algumas ilhas do Pacífico. Não deverá admitir-se que quem já tanto viajou sem ajuda não teria dificuldades em dar o pequeno salto de 2200 Km entre Cabo Verde e os Açores? Acha bem, meritíssimo senhor juiz — e o advogado de defesa tenta, num último esforço, jogar a cartada emocional —, que se negue a cidadania açoriana a uma das mais elegantes e fotogénicas plantas das nossas ilhas sem haver provas irrefutáveis da prática de exotismo por parte da ré?

O juiz reconhece a fotogenia, mas não a considera como circunstância atenunante, e não muda o teor da sentença condenatória. Sente, porém, um discreto contentamento por ter tido oportunidade de fotografar a Pallaea viridis, ré neste processo, na berma da estrada que liga Cachorro a Lajido, na ilha do Pico. O dossier judicial, ilustrado com as fotos, ficou muito bonito. Agora é só esperar que a sentença transite em julgado.


litoral do Pico entre Cachorro e Lajido