15/11/2014

Quem vê folhas não vê florações



Laserpitium eliasii Sennen & Pau subsp. thalictrifolium (Samp.) P. Monts.



A chamada sabedoria popular, repositório do senso comum mais comezinho em que vale tudo e o seu contrário, pode ter algum préstimo desde que saibamos fazer as necessárias adaptações. Assim, o provérbio glosado no título pode, se quisermos, alertar-nos para o facto de aquilo que observamos ser apenas uma parte talvez enganadora da realidade. No inocente passatempo de botanizar, esse princípio aplica-se de modo literal quando insistimos em dar nome a uma planta que se nos apresenta em estado vegetativo, sem flores ou frutos que facilitem a identificação. Nalguns casos, a possível confusão com outras espécies é reconhecida no próprio nome científico. Serve de exemplo a umbelífera de hoje, em que o epíteto thalictrifolium denuncia a semelhança da sua folhagem com a do Thalictrum. Se atentarmos no penacho dourado que é a inflorescência do mesmo Thalictrum, reconhecemos contudo que não há engano possível quando alguma das plantas está em flor.

O género Laserpitium, nome escolhido por Tournefort mas validado por Lineu, inclui 14 ou 15 espécies europeias. São plantas perenes, robustas, capazes de atingir metro e meio de altura, de caule maciço e estriado, com folhas pinadas divididas até quatro vezes. As flores são brancas, em geral com estames longos e recurvados, e os frutos apresentam quatro bandas membranáceas longitudinais de largura variável. O Laserpitium eliasii, de que estão descritas três subespécies de diferenciação nem sempre clara, é um endemismo ibérico confinado ao norte de Espanha e de Portugal; por cá só se reconhece a presença da subespécie thalictrifolium, que ocorre com alguma assiduidade no nosso único parque nacional, em carvalhais e outros bosques húmidos de montanha, mas fora dele quase nunca se vê.

A descrição original do Laserpitium eliasii foi publicada em 1907 no Boletin de la Sociedad Aragonesa de Ciencias Naturales por dois estudiosos da flora espanhola: o francês Étienne Marcellin Granier-Blanc (1861-1937) e o valenciano Carlos Pau (1857-1937). O primeiro, que foi membro da comunidade católica dos Irmãos de La Salle, adoptou o nome religioso de Frère Sennen; a sua actividade como botânico e explorador estendeu-se a França, Espanha e Marrocos.

13/11/2014

Sementes de Portugal


Cultivar no jardim as plantas que são nossas, por desde sempre partilharem connosco este rectângulo no limite ocidental da Europa, é contribuir para a reparação de uma injustiça histórica. Quando a manutenção de um jardim vistoso era uma actividade socialmente prestigiada, enchemos o país de plantas exóticas e desdenhámos daquelas que são espontâneas. Colhê-las não custava nada, e portanto não faziam prova de um gosto que só o dinheiro podia sustentar. Agora que a paisagem natural é algo que muitos desconhecem, por que não ajudar as nossas plantas a recuperar o espaço que foi delas, dando-lhe lugar de honra nos nossos canteiros? Se os estereotipados garden centers não nos ajudam, há quem se empenhe em pôr ao nosso alcance os meios (ou as sementes) para levar a cabo tão meritório propósito. Entre árvores, arbustos e herbáceas, são 180 as espécies da nossa flora representadas no catálogo de 2014-15 das Sementes de Portugal.

11/11/2014

Artemísia de verdade


Artemisia vulgaris L.


Esta é a segunda parte de uma história que começou a ser contada quando aqui falámos da Artemisia verlotiorum, alertando então para a circunstância de a Artemisia vulgaris, em Portugal, estar a ser gradualmente substituída por uma falsificação importada da China. Não falamos das plantas cultivadas para uso culinário ou medicinal, mas sim das que ocorrem espontaneamente por esse país fora, em terrenos baldios ou ruderalizados. Nada ganhamos em escondê-lo: nenhuma destas artemísias exige habitats impolutos para se instalar, e pelo contrário gosta de sítios degradados como bermas de estrada e margens de cursos de água eutrofizados. É nessa competição por um lugar de má fama que a oriental Artemisia verlotiorum se revela mais prolífera e adaptável do que a sua irmã europeia. Não é fácil inverter a tendência para favorecer quem está a perder o jogo, quando o que está em causa são habitats marginais e pouco dignos de acções de conservação.

Foi na estrada de Amarante para Mesão Frio, em lugar onde a «limpeza das bermas» não é obsessiva e permite o desenvolvimento de alguma vegetação natural, que encontrámos, no final de Agosto — época em que a floração está no auge —, esta artemísia não tão vulgar. Embora os capítulos florais da A. vulgaris sejam tão pouco vistosos como os da A. verlotiorum, as inflorescências em panículas amplas e ascendentes conferem-lhe um porte bem mais elegante. E a A. verlotiorum, além de se denunciar pelo ar pesaroso que lhe emprestam as inflorescências pendentes, também se distingue pela folhagem menos recortada e pela floração tardia, entre Outubro e Novembro.

Para quem nunca viu a Artemisia vulgaris, convém fornecer algumas medidas: os caules, que são erectos, avermelhados e pouco ou nada ramificados, têm de 1 a 2 metros de altura, as folhas têm até 20 cm de comprimento, e os minúsculos capítulos florais não ultrapassam os 5 mm de diâmetro. Planta perene, a A. vulgaris parece, entre nós, estar confinada ao norte e centro do país; globalmente, distribui-se por quase toda a Europa, e ainda pelo norte de África e pela Ásia.

08/11/2014

Ficaram as vacas


Vaccaria hispanica (Mill.) Rauschert
Esta planta, única espécie do género Vaccaria, lembra-nos um Dianthus ou uma Saponaria pelo porte alto (até um metro de altura), as flores cor-de-rosa de pétalas ovadas e o tom verde-azulado das folhas sésseis e opostas; contudo, o cálice anguloso, feito de sépalas rijas, não deixa dúvidas. A inflorescência, em geral primaveril, é notável: é formada por pedicelos erectos tendo na base duas brácteas que parecem folhas anãs e suportando duas a cinco dezenas de flores, em arranjos triplos onde uma flor um pouco mais alta que as companheiras ocupa a posição central. Pena é que a planta esteja a desaparecer: é que ela é anual e aprecia o campo, sejam searas, terrenos cultivados ou pousios, e o nosso está em grande parte envenenado por herbicidas. Com tais práticas, matam-se as pragas mas também os polinizadores, e nem todas as ervas aguentam tais quantidades de peçonha. Há umas décadas a distribuição global da planta no hemisfério norte era a que consta deste mapa; mas, pelo menos no que se refere a Portugal continental, a situação piorou bastante. Vimos este exemplar no Sabugal há uns cinco anos, mas a população era diminuta, e em visitas posteriores não a reencontrámos. Teremos de a procurar em Trás-os-Montes e no Minho porque na base de dados Anthos há registo de populações espanholas perto destas províncias.

Os nomes comuns desta herbácea (hierba de vaca, cow basil) aludem às vacas que, diz-se, as ingeriam; pela parecença com os cravos, há também quem lhe chame prairie carnation; em português não há nome registado. Lineu designou-a Saponaria vaccaria em 1753, referindo-se o epíteto latino vaccaria também aos ditos ruminantes. Em 1768, Philip Miller entendeu que seria mais apropriado identificá-la como uma espécie do género Saponaria, S. hispanica. Sete ou oito nomes depois, em 1965, ganhou o actual, resultado de um compromisso que reúne o vaccaria de Lineu com o hispanica de Miller.

04/11/2014

Delfins, esporas & passarinhos


Delphinium halteratum Sm. subsp. halteratum


É pouco provável que quem viva em Manteigas alguma vez compre castanhas, não querendo isto dizer que não goste delas ou que dispense o magusto no São Martinho. Acontece que no Souto do Concelho, provavelmente o maior bosque de castanheiros em todo o país, as castanhas, pequenas mas deliciosas, são de uma abundância pródiga, e custam só o trabalho de as colher. Quem mora longe tem contudo que levar em conta os custos e a demora da deslocação, acabando por conformar-se em pagar por uma coisa que gente mais afortunada tem de graça ao pé da porta. É esse o nosso caso, por nunca visitarmos Manteiga na época certa que é Outubro a declinar, quando caem as castanhas e as folhas amarelecem e se preparam igualmente para cair.

Durante três anos consecutivos fomos ao Souto do Concelho entre o final de Junho e o início de Julho, das duas primeiras vezes para ver orquídeas, e da terceira, em 2013, para fotografar este delfim que tínhamos visto no ano anterior mas de que por imprevidência não registáramos imagens. Aquelas flores que por vezes julgamos reconhecer revelam-se afinal outra coisa quando as estudamos melhor. Já aqui mostrámos duas espécies de Delphinium: o D. pentagynum, que tem flores grandes, de um azul escuro e arroxeado, com pétalas laterais peludas, e vive em terrenos calcários pedregosos; e o D. gracile, mais esguio, de flores menores e de uma tonalidade mais clara. Pela cor das flores e pelo recorte das folhas, o D. halteratum parece-se mais com o primeiro, mas diferencia-se pelo esporão mais comprido, claramente revirado para cima, e pela ausência de pilosidade nas pétalas. Além disso, trata-se de uma planta anual (o D. pentagynum é perene) de tendências ruderais, aparecendo junto a caminhos e em terrenos incultos, sem preferência declarada por qualquer tipo de substrato.

As plantas anuais vivem sempre no fio da navalha: em cada ano têm que produzir sementes em quantidade bastante para assegurar a existência de uma nova geração no ano seguinte. Para que os polinizadores não faltem à chamada, há que recompensar generosamente os seus serviços com o néctar armazenado nas flores. Nas espécies do género Delphinium, cada flor é composta por cinco sépalas semelhantes a pétalas, uma delas prolongando-se no esporão, e por quatro verdadeiras pétalas situadas no centro da flor, as duas superiores dispondo de glândulas nectaríferas que se acolhem dentro do esporão. Para ter acesso à recompensa, o insecto visitante terá que se roçar nas anteras e no estigma, cumprindo assim, involutariamente, a tarefa para que foi convocado.

Assinale-se, para concluir, que em Portugal estão descritas duas subespécies de Delphinium halteratum: a subespécie nominal, representada nas fotos, e a subespécie verdunense. Não se distinguem pelas preferências ecológicas, mas sim por certos detalhes morfológicos: a subsp. halteratum tem uma inflorescência mais alongada e com maior número de flores, e as suas folhas na parte superior do caule são simples, enquanto que as da subsp. verdunense são trífidas.

01/11/2014

Meia ponte para um narciso


Narcissus cavanillesii Barra & G. López


Este é um dos dois narcisos espontâneos em Portugal que floresce no Outono. A indicação das várias Floras é de que a floração decorre entre Outubro e Novembro. Por isso, no ano passado, fomos a Évora no início de Novembro para ver uma das duas únicas populações conhecidas no país. Não havia nem uma flor. Concluímos que era ainda cedo, e voltámos a fazer a longa viagem duas semanas depois. O desfecho foi idêntico. Terá desaparecido?, ouviu-se uma voz receosa. Prometemos iniciar este ano mais cedo a romaria, e descemos ao Alentejo nos primeiros dias de Outubro, logo que as chuvas intensas abrandaram. A ladeira que dá acesso ao rio Guadiana foi-nos enchendo de entusiasmo com as centenas de exemplares do perfumado Narcissus serotinus em flor e sinais animadores de que o Ophioglossum lusitanicum tem resistido bem ao pisoteio e voracidade do gado que por ali vai abocanhando a verdura. Ascendemos à ponte da Ajuda (quer dizer, à meia ponte) com a alegria inusitada de quem finalmente acertou, e tem o correspondente tesouro à espera. Pois sim. No topo da ponte havia de facto muitos pés de Narcissus cavanillesii, mas quase todos já em fruto ou com o repouso de Inverno iniciado, o que quer dizer que estavam invisíveis, reduzidos ao bolbo subterrâneo. Com boa vontade, lá se descobriram umas florinhas, e não nos restou mais do que imaginar o cenário colorido de amarelo-torrado das flores que teriam estado abertas duas semanas antes.

Cada plantinha tem cerca de 10 cm de altura (até já se chamou N. humilis), com uma flor no topo (às vezes mais) de tépalas grandes mas quase sem corola, aquela trombeta característica da maioria dos narcisos. Mas, apesar de residual, está lá como podem confirmar na última foto acima. Os estames nascem em duas camadas, curiosamente a alturas diferentes, parcialmente soldados ao cálice. As folhas, que parecem agulhas e que se notam na quarta foto, nascem em geral depois da frutificação. O fruto é a "azeitona" verde escura que domina nas fotos e as sementes são, como é usual neste género, pretas e brilhantes. O N. cavanillesii hibrida com o N. serotinus dando origem ao chamado Narcissus x alentejanus, que tem tépalas mais lânguidas e de tom amarelo menos intenso. O espíteto específico homenageia o famoso taxonomista espanhol Antonio José Cavanilles (1745-1804).

A Península Ibérica tem fama de ser o centro de diversidade dos narcisos, com cerca de 35 das 50 espécies silvestres conhecidas no mundo, 16 das quais endémicas (uma delas exclusivamente lusitana). O N. cavanillesii é nativo do sudoeste da Península Ibérica, Marrocos e Argélia. Aprecia solos secos, até áridos, mas parece depender da chuva para completar o seu ciclo de vida. No sul de Espanha surge em clareiras de bosques, prados e bordos de caminhos. Está incluído nos Anexos II e IV das Directivas Europeias sobre Habitats (92/43/EEC), e no Anexo 2 da lei espanhola que protege o património natural e a biodiversidade. Por cá está em risco de desaparecer.

Conta-se que um dos dois governos, português ou espanhol, quis certa vez reconstruir a ponte da Ajuda, e só não o fez porque deu ouvidos aos apelos dos botânicos para que se poupassem os narcisos. Se a história não foi bem assim, aqui fica o recado para o caso de alguma vez essa ameaça surgir.


Elvas: ponte da Ajuda sobre o rio Guadiana

28/10/2014

Dueto de umbelíferas

Todos sabemos como os elogios nos fazem falta. Não nos basta o mérito se os outros não reparam nele, sendo que reparar é equivalente a expressar publicamente o apreço e contribuir para que a glória não seja esquecida. Descontadas a lisonja e a ganância, o processo nem é inteiramente pernicioso: é a opinião dos outros, e a competição entre nós, que nos espevita o talento e nos estimula a inovar. As mudanças que induzimos ou criamos em inúmeros domínios são parte dessa incessante busca de qualidade. Sem elas, talvez o tédio acabasse connosco. Nisto diferimos bastante das plantas, que parecem viver num descansado tempo sem imaginação nem anseios, apenas a cumprir ordens. De resto, se mudam, é porque a natureza, esse estranho oleiro de cujas mãos queremos também fazer parte, as vai moldando aos requisitos do mundo. Claro que, sem protagonismo, não têm capacidade de controlar o guião. Mas há que reconhecer benefícios nessa opção pela irresponsabilidade. Senão vejamos o caso destas duas herbáceas.


Bupleurum lancifolium Hornem.




Bupleurum gerardi All.

O género Bupleurum é um dos que abriga maior número de espécies, cerca de 150, nativas do hemisfério norte, com uma excepção (B. mundtii, da África do Sul). Contudo, a maioria tem área de distribuição reduzida, como aliás acontece ao B. lancifolium e ao B. gerardi. São notórias as semelhanças entre estas duas espécies, em pormenores relevantes para os respectivos ciclos de vida. Ambas gostam de solo calcário, embora uma seja mais frequente em searas e terrenos incultos e a outra em sítios pedregosos. As folhas são perfoliadas e com nervuras densas e finas (daí o nome Bupleurum), o que talvez lhes permita poupar água. As inflorescências em umbelas, apostando num conjunto numeroso de flores ainda que estas tenham por isso de ser minúsculas, formam arranjos que atraem muitos polinizadores, no que constitui um exemplo engenhoso de trabalho comunitário. As flores são amarelas (a maioria das umbelíferas têm-nas brancas), cor que todos os insectos parecem apreciar, com as pétalas reviradas a expôr ao sol os potes de mel brilhante. Mas há também diferenças. E, pesando-as, provavelmente os avaliadores ousariam afirmar que a mais baixa mas de porte mais robusto (B. lancifolium), com folhagem de uma linda cor verde-alface e bractéolas grandes, é mais bonita e, numa apreciação redutora, a mais bem sucedida.

Mas por que há duas espécies em habitats tão próximos, tendo uma delas uma morfologia aparentemente tão mais vantajosa? Não há resposta que nos convença, mas é certo que as diferenças são bastantes para garantir a ambas polinizadores e nichos de solo para colonizarem com sucesso. O preço é pago em duas vias: têm uma vida curta, pois são plantas anuais; e, uma vez concedida a licença para existirem, devem assegurar farta descendência e uma dispersão eficiente. Isto não lembra o mundo populoso e bom, eternamente grato ao criador, que algumas religiões propõem como perfeito?

Há (pelo menos) dois botânicos de nome Gerard homenageados através da taxonomia. O inglês John Gerard (1545-1612) levou Lineu a criar o género Gerardia. O francês Louis Gérard (1733-1819), cuja correspondência com Lineu pode ser lida (em latim) aqui, é o referido por Carlo Allioni (1728-1804) ao nomear em 1774 o Bupleurum mais delgado. Temos a certeza deste detalhe porque, curiosamente, cabe a Allioni a prioridade nesta designação precisamente por ter citado, em vez de apenas copiar, a Flora Gallo-Provincialis de Louis Gerard ao descrever esta planta. A propósito, pelas regras de hoje, a designação correcta é Bupleurum gerardii All.

25/10/2014

Um Ammi para as ocasiões



Ammi majus L.


Apesar da tristeza monocromática que aflige os jardins públicos em Portugal, obra de uns tantos arquitectos que declararam guerra ao colorido das flores, há ainda quem se guie pela ideia antiquada de que um jardim, para ser visualmente estimulante, deve combinar todas as cores do arco-íris e mais algumas. É aqui que entra o branco, soma de todas as cores, que os ingénuos desprovidos de ciência julgam estar ausente do arco-íris só porque não se vê, quando na verdade está lá mas decomposto nas suas parcelas. A incapacidade dos nossos olhos em refazer a soma leva-nos a exigir o branco que se vê, como contraponto ao garridismo insinuante das cores do círculo cromático. E para acrescentar ao jardim um branco limpo e luminoso, com um efeito que evoca laboriosos trabalhos de renda, nada melhor do que uma umbelífera como o Ammi majus, que em Portugal é planta sem eira nem beira, infestante de cultivos e ruderal de bermas de estrada, mas noutros países é muito valorizada para ornamentar canteiros floridos.

Planta anual de floração primaveril, capaz de atingir um metro de altura, o Ammi majus, alegadamente chamado âmio-maior por um povo incapaz de a reconhecer, tem fortes semelhanças com outras umbelíferas de flores brancas, em particular com a cenoura-brava (Daucus carota). Distingue-se desta pela folhagem (compare a 5.ª foto aí em cima com as desta página), por não ser áspera ao tacto (a cenoura-brava é muito rugosa), e pelas inflorescências menos compactas. Amplamente distribuído pela bacia mediterrânica, o Ammi majus ocorre em quase todas as províncias portuguesas, sendo talvez mais frequente na faixa litoral. As plantas nas fotos moravam em Cantanhede, na orla de vinhedos e de outros campos cultivados.

Por mérito da flora açoriana, o género Ammi, que contém um total de seis espécies, é um bom amigo dos botânicos portugueses. Enquanto que os outros países europeus ou mediterrânicos se contentam com duas ou no máximo três espécies de Ammi, em Portugal ocorrem nada menos que quatro, duas delas endémicas dos Açores: A. seubertianum e A. trifoliatum.

21/10/2014

Sabor de hortelã


Mentha cervina L.
Há gestos que nos parecem insignificantes e que desaparecem sem darmos por isso. Ficamos mais pobres e nem notamos. Houve uma última vez em que alguém, no Alentejo, foi ao rio colher uns pés de erva-peixeira para temperar a caldeirada ou a açorda. Tão abundante era ela em rios, ribeiras e charcos, e agora só sobrava aquela mísera amostra. Para o ano nem isso haveria, porque entretanto a barragem começaria a encher. Se quisesse voltar a comer peixe com aquele fino travo de hortelã, teria de ir a Lisboa, às lojas de iguarias gourmet, para comprar a peso de ouro uma magra embalagem de folhas secas.

Mais a norte a história só não se repete porque, com as variações regionais de hábitos culinários, a erva-peixeira (ou hortelã-da-ribeira, outro nome pelo qual a Mentha cervina é conhecida) nunca teve, em Trás-os-Montes, o prestígio gastronómico de que gozou no Alentejo. Daí que na província nortenha as populações espontâneas de Mentha cervina não tenham estado sujeitas à colheita imoderada que, a par da destruição dos habitats, quase levou no Alentejo ao desaparecimento da espécie. Além disso, a degradação ambiental associada às práticas da agricultura intensiva, em especial a eutrofização dos cursos de água, é muito menos grave em Trás-os-Montes do que no sul do país. No que as duas regiões se equiparam é nos efeitos catastróficos da construção das barragens sobre a vegetação que, vivendo ao pé da água, nunca aprendeu a nadar. O enchimento da barragem de Alqueva destruiu talvez os últimos núcleos de erva-peixeira nas margens do Guadiana. E quando, até final do ano, a barragem do Sabor entrar em funcionamento, vão ser afogadas algumas das mais importantes populações da espécie em Trás-os-Montes: a que existe junto à ponte de Remondes (foto em baixo) e todas as outras que subsistiram até hoje nos últimos 60 Km do curso do rio antes de se juntar ao Douro.

Talvez pareça exagerado este lamento por uma simples erva aromática quando tantas outras coisas tidas como mais importantes, entre elas grandes maciços de Buxus sempervirens, para já não falar das árvores e dos campos agrícolas, se perderão com a subida do nível das águas. Mas é esta soma de perdas, pequenas ou grandes, que se chama "destruição da biodiversidade", e todas as parcelas contam no balanço dos prejuízos. Ainda sobram contigentes importantes de Mentha cervina noutras paragens transmontanas, e tão cedo ela não desaparecerá de Portugal, mas a circunstância de não ter qualquer prioridade em acções de conservação, assim como a vulnerabilidade dos seus habitats, indicam que o caminho de diminuição progressiva por ela iniciado não tem retrocesso possível. Em toda a sua área de distribuição, que abrange a Península Ibérica, o sul de França, Argélia e Marrocos, é a mesma má sina que a persegue, a ponto de ela ter sido incluída, como vulnerável, na lista vermelha da IUCN.

Nas inflorescências semelhantes a pompons e até no perfume intenso, a Mentha cervina lembra a sua congénere M. pulegium, popularmente conhecida como poejo, bastante comum de norte a sul do país e também nos Açores. As diferenças estão porém à vista: as folhas da M. cervina são muito mais estreitas, quase lineares, e as suas flores são em geral brancas, enquanto que as da M. pulegium são rosadas ou violáceas. As preferências ecológicas são também distintas: a M. cervina ocupa charcos temporários, margens inundáveis de rios ou leitos de cursos de água temporários; a M. pulegium, sem desdenhar tais lugares, consegue tolerar ambientes mais secos.


ponte de Remondes, rio Sabor

18/10/2014

Mordendo o Verão


Valoura, Vila Pouca de Aguiar
Quando, no Verão do ano passado, vimos na serra de Aire a Odontites viscosus, reparámos, como sôfregos coleccionadores, que nos faltava ver outra espécie de Odontites. Contudo, o entusiasmo arrefeceu um pouco ao constatarmos que eram escassos os registos de populações desta planta, e todos eles em locais longínquos no extremo nordeste do país. Não é que desistíssemos de a procurar, mas a esperança de algum dia a vermos reduziu-se a uma simples espera. A meio de Setembro, porém, antes de a chuva por cá se instalar de vez, fomos passear por um souto muito bonito e acolhedor perto de Vila Pouca de Aguiar. Entre castanheiros carregados de ouriços e quase prontos a largá-los, rochedos forrados de Saxifraga fragosoi, e uma ladeira pintalgada de cor-de-rosa pelos inúmeros Colchicum multiflorum, notámos um regato de beira de caminho, na margem de campos cultivados, com a vegetação exuberante própria destes torrões húmidos; e, a espreitar entre o verde, umas espigas alongadas e penugentas de flores rosa-avermelhadas, com um capuz e uns lábios fendidos como já tínhamos visto em amarelo.


Odontites vernus (Bellardi) Dumort.


Reencontrámo-la perto de Bragança, na margens do rio Penacal, de novo apenas um pequeno número de exemplares. Sendo uma planta anual semi-parasita, talvez de paladar exigente, por certo ressente-se da destruição dos nossos rios e de outros habitats onde outrora poderá ter sido abundante, seja no Minho, no Douro Litoral ou nas Beiras.

14/10/2014

Introdução à caricologia

Carex viridula Michx. subsp. cedercreutzii (Fagerstr.) B. Schmid

As ciperáceas, tal como as gramíneas, são plantas adaptadas à polinização pelo vento. Não dependendo das boas graças dos insectos e de outros bichos, não têm que os atrair nem recompensar os seus serviços, e por isso não produzem néctar nem têm flores apelativas. O género Carex é o mais populoso da família, contando com cerca de 2000 espécies, em geral perenes; dessas, cinquenta fazem parte da flora portuguesa, duas são endémicas dos Açores, e duas outras são endémicas da Madeira. A planta que ilustra este texto, e que foi fotografada na caldeira do Faial, ocorre nos Açores e na Madeira, e é tida por alguns autores como pertencendo a uma subespécie endémica da Macaronésia. O reconhecimento de tal carácter endémico não é contudo unânime, havendo quem considere que Carex viridula subsp. cedercreutzii é sinónimo de C. viridula subsp. oedocarpa, que tem uma distribuição europeia bastante ampla. Se continuarmos a desfiar o rol de sinonímias, verificamos que outra fonte assevera que esta última é o mesmo que Carex demissa, espécie que, de acordo com a Checklist da Flora de Portugal, não ocorre nos nossos arquipélagos atlânticos. Para que a confusão fique perfeita, a mesma checklist informa que nos Açores existe uma coisa chamada Carex oederi subsp. pulchella, que segundo várias autoridades não é senão a Carex viridula.

Um tal labirinto taxonómico ilustra bem as dificuldades do estudo das Carex. Numa primeira abordagem, já ficaremos satisfeitos se pudermos afirmar com segurança que uma dada planta pertence a esse género, deixando a determinação exacta da espécie para gente mais versada na matéria. Falávamos então das flores despojadas de enfeites e de atractivos, e reduzidas àquilo que é essencial para a reprodução. As flores dos Carex são unissexuais e aparecem dispostas em espigas, sendo frequentes os casos em que cada espiga é formada exclusivamente por flores de um dos sexos: nesta foto, por exemplo, vê-se uma espiga masculina encimando duas espigas femininas. No entanto, não é incomum surgirem espigas andróginas, com flores de ambos os sexos, de que é exemplo a espiga central nesta imagem, com flores masculinas no topo e femininas na base. A mesma androginia, embora menos evidente, é ilustrada pela primeira imagem acima, em que as flores femininas já se converteram em frutos. São aliás os frutos que definem o carácter distintivo do género Carex, aparecendo envolvidos por uma cápsula (chamada utrícula) com o formato aproximado de uma garrafa de Mateus Rosé ou de um cantil militar (veja a 2.ª foto em cima e também os exemplos nesta página). Atender à forma peculiar desse «cantil» — se é mais ou menos bojudo, se tem «gargalo» curto ou comprido — é essencial para a determinação correcta da espécie observada.

Além dos frutos, que só surgem com a Primavera já avançada, devemos também prestar atenção à forma e à cor das glumas. Que quer dizer esse palavrão? Trata-se da bráctea modificada que protege cada uma das flores da espiga; em regra, as glumas são acastanhadas e têm uma banda central verde. Particularmente importantes para o diagnóstico são as glumas das flores femininas, que permanecem frescas durante mais tempo (veja exemplos de glumas masculinas na 3.ª foto ao fundo da página e de glumas femininas aqui). Finalmente, há que levar em conta as provas circunstanciais: num género tão versátil como este, a ecologia é um dado importante. As espécies de sítios húmidos ou encharcados são as mais numerosas, mas também há as que vivem em lugares secos, e dentro desta categoria algumas preferem os calcários (é o caso da C. hallerana aí em baixo, fotografada no Horst de Cantanhede) e outras não dispensam os substratos ácidos.

Estas indicações gerais de pouco servem se o leitor não tiver à mão um manual onde possa conferir, para cada espécie, todos estes detalhes. O melhor livro que conhecemos sobre o assunto — o de Francis Rose, com o título Grasses, Sedges, Rushes and Ferns of the British Isles and north-western Europe, ilustrado com desenhos primorosos — não está inteiramente adaptado à nossa flora, mas apanha a larga maioria das espécies que cá ocorrem.


Carex hallerana Asso