13/09/2013

Santa Bárbara quando não troveja

Serra de Santa Bárbara, ilha Terceira


A minha primeira visita à Terceira foi em Outubro de 2001, para assistir ao concerto de Tommy Flanagan no AngraJazz. Já era tarde para cancelar a viagem quando, a bordo do avião de Lisboa para as Lajes, li no Público (então distribuído gratuitamente a todos os passageiros, e não apenas aos de classe executiva) que razões de saúde tinham forçado uma alteração de programa: em vez de Tommy Flanagan, pianista dos dedos mágicos, teríamos Cedar Walton, músico com longo e estimável currículo. Iria até ao fim do mundo para ouvir Flanagan, mas dificilmente iria à Terceira só para ouvir Walton. As razões de saúde eram graves: Flanagan morreu seis semanas depois, em 16 de Novembro de 2001. Em outubros de anos sucessivos, voltei muitas vezes à Terceira e ao AngraJazz, mesmo sabendo que Tommy Flanagan nunca lá iria tocar, mesmo quando o cartaz não era dos mais promissores. O festival de Jazz era tão só o pretexto para regressar às ruas de Angra, ao jardim Duque de Terceira, à visão da baía do alto do Monte Brasil, ao sossego da Praia da Vitória. Sim, comprava bilhete para todos os concertos, então realizados nos claustros do museu e com os espectadores sentados em esplanada que fingia ser o Village Vanguard, mas com maior tinir de copos, mais conversa e menos atenção aos artistas em palco (sobretudo quando algum infeliz contrabaixista se lançava num solo). A amplificação era ensurdecedora, e esgotante o formato de concertos duplos com arrastados intervalos: o entusiasmo pela música nem sempre me segurava até ao final do segundo concerto, para lá da uma da manhã.

Depois o AngraJazz transferiu-se para o novíssimo Centro Cultural e de Congressos. Melhorou o som, havia mesas mas também lugares nas bancadas para quem preferisse a música à conversa. Até que compreendi, sem menosprezar o festival, que a ilha me bastava como motivo para a viagem, e que, interessando-me por plantas, era estúpido visitá-la apenas no mês de Outubro. É verdade que é nessa altura que a paineira (Chorisia speciosa) do jardim dos Capitães Generais começa a florir, mas também no Porto há uma paineira, embora mais rala de flores. Angra sem Jazz, ou a Terceira sem música, é diurna e sem dores de cabeça, mais apropriada à meia idade que vai chegando.




Este ano, em Agosto, eu e a Maria visitámos a Terceira juntos pela primeira vez. Das minhas visitas anteriores, em grande parte confinadas à cidade de Angra, tinham sobrado pedaços substanciais da ilha por desbravar, e muito do que vimos agora era de igual modo novidade para ambos. Uma ilha tão pequena alberga mundos muito diversos: a faixa litoral, onde as povoações se alongam num casario baixo, quase contínuo; um segundo anel formado por pastagens e plantações de criptomérias; e o núcleo central de montes vulcânicos com um revestimento cerrado de floresta nativa. O visitante de hábitos mais sedentários raramente tem um vislumbre desse terceiro estrato da paisagem insular, e mesmo a maioria dos autóctones parece ignorá-lo. De todas as ilhas açorianas, é a Terceira que guarda a maior e mais bem preservada extensão da floresta de louro e cedro que existia antes da chegada dos portugueses ao arquipélago. A conversa enganadora da "natureza em estado puro" com que se vende o "destino Açores" aos turistas, ilustrada com fotos de hortênsias e lagoas de um azul Photoshop, poderia ter nesta ilha, muito mais do que em São Miguel, um significado genuíno. Mas nem a criação do Parque Natural da Terceira, agregando as mais valiosas áreas naturais da ilha, convence os operadores turísticos a renovarem o discurso.

Não que fosse desejável ter essas áreas invadidas por multidões. A quase inacessibilidade de algumas delas é que garantiu a sua preservação; o silêncio e o isolamento seriam feridos de morte com o rodopio contínuo de turistas. Haveria que restringir os percursos e condicionar a carga de visitantes — coisas que, em parte, já foram feitas, mas não suficientemente divulgadas. A floresta de nuvens da Terceira é tão emocionante e labiríntica como uma floresta tropical. Deveria ser cartaz da ilha, tanto como Angra-património-mundial, o Algar do Carvão e as marradas dos touros.

A caldeira de Santa Bárbara, uma imensa cratera com 13 Km de diâmetro, recheada, qual matriosca, com mini-crateras no seu interior, é talvez o mais valioso pedaço de natureza em todo o arquipélago açoriano, visitável só com autorização do Parque Natural da Terceira. Embora não existam barreiras intransponíveis para quem, clandestinamente, queira descer à caldeira, a verdade é que os trilhos se vêem mal, são cheios de bifurcações enganadoras, e há muitos buracos, ocultos pela vegetação ou por almofadões de Sphagnum (musgão), em que nos podemos magoar seriamente. O nevoeiro pode baixar sem aviso de um momento para o outro, confundindo qualquer senso de orientação. Tudo para concluir que o forasteiro, além de se munir da necessária autorização, deve ter a previdência e a humildade de recorrer aos serviços de um guia.

Foi o que fizemos: a guia por quem tivemos o privilégio de ser acompanhados não poderia ser mais conhecedora nem mais atenciosa. Mas na data aprazada, se não trovejou, o dia amanheceu chuvoso e nublado como nenhum outro durante a semana em que permanecemos na ilha. O estado de encharcamento geral, com as botas convertidas em esponjas, ditou que o passeio fosse algo abreviado. A maior parte da água que se nos agarrou ao corpo provinha não da chuva mas daquela que o nevoeiro fazia condensar nas árvores e arbustos pelos quais rompíamos. Toda a serra funciona como uma grande máquina de captação e armazenamento de água. O interior da caldeira é uma turfeira quase contínua, pontuada por lagoas de margens traiçoeiras. Os cedros-do-mato (Juniperus brevifolia), reduzidos a arbustos ou árvores-anãs, têm os troncos mergulhados no mesmo Sphagnum que cobre as ravinas. Os musgos e os fetos epífitos (Hymenophyllum, Elaphoglossum semicylindricum) formam nas árvores um rendilhado profuso que não deixa sequer adivinhar a cor dos troncos. Tapetes amarelos de Tolpis azorica e de Leontodon filii proclamam, por entre a névoa, que nos Açores a Primavera acontece em Agosto. Três raridades botânicas fazem uma breve aparição: a Scabiosa nitens, a Pericallis malvifolia e o Ranunculus cortusifolius.

Angelica lignescens Reduron & Danton


E a Poderosa Angélica, magnífica como nunca a vimos nas outras ilhas, num contingente de várias centenas de exemplares, tem aqui finalmente o cenário que condiz com o seu porte. Foi para se debruçar vertiginosamente no bordo da caldeira que ela ergueu a descomunal cabeçorra, onde o adiantado da estação fizera já substituir as flores por frutos.

09/09/2013

Cotovia de poupa rosada

Ceratocapnos claviculata subsp. picta (Samp.) Lidén


Não sendo muito frequente, a cotovia-de-poupa-rosada (nome com que acabámos de baptizar a planta acima ilustrada) não é por certo a raridade que as circunstâncias que a têm rodeado podem fazer crer. Como planta anual que é, o surgimento desta delicada trepadeira é efémero. As flores e frutos que a singularizam são miniaturais, potenciando a confusão com a muito mais comum cotovia-de-poupa-branca (Ceratocapnos claviculata subsp. claviculata). Foi Gonçalo Sampaio, que lhe chamou Corydalis claviculata var. picta, quem primeiro registou a sua existência, publicando em 1935 no Boletim da Sociedade Broteriana (ser. 2, vol. 10, pág. 222) a seguinte descrição:
«Encontrei esta interessantíssima variedade em Junho de 1931, nos arredores de Vila Nova de Paiva, onde abundava entre a povoação e o rio, e onde não consegui ver um único pé da forma típica da espécie, que é aquela que aparece no Minho, no Douro inferior e noutras terras da Beira Alta. Distingue-se imediatamente esta variedade por ter as pétalas exteriores laivadas de róseo-subvioláceo e as interiores fuscas na ponta, assim como por ter os frutos pilósulos. É planta verde, não glauca.»

A justeza das observações de Sampaio foi reconhecida quando, em 1953, Franco e Pinto da Silva promoveram a nossa cotovia à categoria de subespécie (Corydalis claviculata subsp. picta), galardão confirmado em 1984 pelo botânico Magnus Lindén quando a transferiu para o género Ceratocapnos. O mesmo Lindén, escrevendo na Flora Ibérica, anotou porém que «não se conservam materiais da colheita original e, ao que parece, não voltou a ser colhida senão numa única ocasião». Ficou pois a ideia de que a planta seria muito rara ou poderia mesmo estar extinta. De facto, para quem conhece as vicissitudes da botânica portuguesa, o episódio não é tanto um sintoma da raridade da planta, mas sim da escassez dos trabalhos de prospecção botânica em território nacional. Quando finalmente, na transição para este século, os botânicos regressaram ao campo, algumas ideias distorcidas e retratos incompletos foram corrigidos. Sabe-se hoje, pelo trabalho de João Domingues de Almeida (Flora e Vegetação das Serras Beira-Durienses, Coimbra, 2009), que o C. claviculata subsp. picta está de boa saúde na Beira Alta, e não apenas em Vila Nova de Paiva; e João Honrado (Flora e Vegetação do Parque Nacional da Peneda-Gerês, Porto, 2003) assinala que a planta é «frequente em matagais de orlas de bosques, na parte oriental do Parque».

O local onde a fotografámos, em Montalegre, já se situa fora do perímetro do PNPG, embora lhe seja contíguo. Mas ainda não nos satisfaz saber pelo testemunho dos sentidos que ela existe. As diferenças já assinaladas por Sampaio em relação à forma típica são tão marcantes que se nos afigura algo arbitrário mantê-la como subespécie; é urgente tirar o assunto a limpo com um estudo moderno, baseado em material colhido de fresco. Além disso, é inacreditável que a planta seja tida como endemismo lusitano, quando em Montalegre a vimos a menos de 7 Km da fronteira galega, sem nenhum obstáculo natural assinalável de permeio. Os espanhóis, em geral tão diligentes no estudo da sua flora, parecem ter descurado este território fronteiriço.

05/09/2013

Pão & queijo (da serra)


Teesdaliopsis conferta (Lag.) Rothm.


Apesar das várias visitas que fizémos no ano passado à serra da Estrela, e de então termos visto uns tantos exemplares desta planta num dos passeios sabiamente guiados pelo CISE, houve que esperar pela Primavera deste ano para se fotografarem as flores. É por isso que só agora a colocamos esta raridade na montra: é um endemismo do noroeste da Península Ibérica e, por cá, só há registo dela na serra da Estrela, acima dos 1500 m. Em Espanha ocorre no norte, na Cordilheira Cantábrica e nos Montes de Léon.

Na nossa primeira ida à serra este ano, procurámos, guiados pela memória (e pelo GPS), o núcleo que tínhamos visto no ano anterior a uns 200 metros da estrada. E lá estavam elas, com as rosetas densas (conferta) de folhas (todas basais) glaucas e glabras, desta vez floridas e em grande número. Julgámos que, com o alargamento das estradas, esta população seria a mais próxima, mas, na verdade, a espécie parece estar a recuperar das obras e a (re)colonizar outros sítios secos e pedregosos, com substrato silicioso. E a boa notícia é que as plantas que encontrámos na berma da estrada são vigorosas e fáceis de detectar.

É, porém, possível que, quando o leitor a for ver, ela já tenha mudado de nome. A designação actualmente aceite é a que Rothmaler (1908-1962) lhe atribuiu em 1940, embora a palavra Teesdaliopsis (que alude à semelhança — opsis — com as plantas do género Teesdalia) tenha sido proposta por Willkomm (1821-1895) em 1880, e a primeira citação da planta seja do botânico espanhol Mariano Lagasca y Segura (1776-1839), que, em 1805, a designou Iberis conferta. Os anais registam outras tentativas de a baptizar: Iberis radicans Lag. ex Nyman, em 1878; Iberis glauca Lag. ex Willk. & Lange, em 1880; e, mais recentemente, em 1998, Teesdalia conferta (Lag.) O. Appel. Esta última proposta, publicada na revista Novon do Missouri Botanical Garden, merecerá, por ser tão fresca, um debate mais apurado.

Os apoiantes da nomenclatura actual enfatizam que as espécies de Teesdalia são anuais, enquanto que a planta das fotos é perene; além disso, chamam a atenção para o facto de no género Teesdalia haver dois óvulos por cada lóculo (e quatro sementes por cada fruto), enquanto que esta planta tem apenas um (logo só duas sementes por cada fruto). Mas o autor do artigo, Oliver Apple, sublinha que estas são diferenças menores face a alguns aspectos morfológicos cuja coexistência é rara na família Cruciferae e que, curiosamente, são comuns a esta planta e a uma ou a ambas as espécies do género Teesdalia. Em particular, Appel refere que as flores, agrupadas em racimos terminais, têm quatro pétalas de dois tamanhos (as externas maiores), tal como a europeia Teesdalia nudicaulis, e que os frutos são alados. Sugere, por isso, que o género Teesdalia passe a abrigar três espécies, entre elas o endemismo ibérico Teesdalia conferta.

Mas a história haveria de ter um novo episódio. Descobriu-se em 2008 (veja as páginas 1357 e 1358 da revista Taxon, volume 57, fascículo de Novembro desse ano) que, seis meses antes de Teesdalia, tinha sido proposta a designação genérica Guepinia para a mesma Iberis nudicaulis L. (agora Teesdalia nudicaulis). Ora, segundo o artigo 11.3 do ICBN (Código Internacional de Nomenclatura Botânica), isso quer dizer que Guepinia tem prioridade relativamente a Teesdalia, e deveria ser esse o nome utilizado. Mas, oh desgraça, o mesmo código contém outro artigo, o 15.2, que impede a palavra Guepinia de ser aqui usada: é que ela passou entretanto a nomear certos fungos, e a emenda seria pior que o soneto. Houve quem, como recurso desesperado, e aproveitando a deixa de Oliver Appel, sugerisse que se legitimasse o nome Teesdaliopsis para as três espécies de Teesdalia: ficaríamos assim com um nome que aludiria à parecença destas plantas... consigo mesmas. Contaram-se argumentos de um lado e de outro, duzentas citações para Teesdalia, menos de dez para Guepinia, e assim, de momento, vence Teesdalia (género que os espanhóis designam incompreensivelmente por pan y queso).

02/09/2013

Longe do paraíso

Anthericum liliago L.
Do paraíso em forma de planta já nos devia bastar a Paradisea que, entre Maio e Junho, enfeita profusamente os lameiros do Gerês. Mas a notícia da existência de uma outra versão da planta, em modelo mais compacto, com menos flores e folhas mais estreitas, e de um modo geral menos vistoso, lançou-nos na habitual busca ao mesmo tempo fútil e recompensadora. Que poderá haver de mais inútil e improdutivo do que admirar uma planta de todos os possíveis ângulos, fotografá-la e deixá-la no exacto local onde a tivermos encontrado? E que poderá haver de mais consolador, pelo que tem de afirmação de liberdade, do que ocupar o tempo com tarefas improdutivas?

Isto é a doutrina geral, cuja aplicação a casos concretos nem sempre é tão exaltante. Procurar uma planta e não a encontrar combina de modo desagradável o inútil económico com o inútil de facto, ainda mais quando a busca decorre em lugar que, na paisagem e na diversidade vegetal, pouco tem para mostrar. Não é bem esse o caso da Queimadela, em Armamar. Aqui, em vez de vinhas, são pomares de macieiras que preenchem os montes, com algumas cerejeiras e restos de antigos soutos à mistura. Há pinhais e zonas de mato mediterrânico a separar as árvores de fruto plantadas em rigoroso alinhamento. Como é habitual na região duriense, o uso de químicos é desvairado, raramente escapando a vegetação de berma de estrada. Os matos e pinhais diminuem de ano para ano com a expansão dos pomares. É tão fácil apontar o que está errado que nos espantamos quando, contas feitas no final, apuramos um saldo altamente positivo para a nossa visita. O pinhal ao fundo da ladeira afirmou-se pela fotogenia, a roselha (Cistus crispus, uma surpresa) tinha flores irresistíveis, as cerejas estavam deliciosas, havia orquídeas raras e outras nem tanto — e, longe da Paradisea, num caminho de terra gretado pelo sol, apresentou-se-nos um único Anthericum liliago com uma única flor aberta (e outro a espreitar no meio do mato). A penúria explica-se certamente pela data tardia em que visitámos o local; mas não sabemos se o atraso foi de semanas ou de anos, e se em 2014 ainda haverá alguma planta para ver.

O populoso género Anthericum, com cerca de 300 espécies maioritariamente africanas, tem no A. liliago, espécie que ocorre em grande parte da Europa (desde a Península Ibérica à Turquia e à Suécia), o seu único representante na flora portuguesa. É uma planta vivaz, que floresce entre Junho e Julho, com folhas lineares, exclusivamente basais, e um escapo de não mais que 70 cm de altura hasteando 6 a 8 flores brancas com pedúnculos bem desenvolvidos (os da Paradisea lusitanica são notoriamente mais curtos). Em Portugal é uma rara moradora de encostas rochosas e clareiras de matos na bacia do Alto Douro.

30/08/2013

Samacalo arouquense


Anarrhinum longipedicellatum R. Fern.


Uma consulta rápida ao segundo volume da Nova Flora de Portugal, de João do Amaral Franco, indica que o género Anarrhinum é, por cá, fácil de arrumar; e, para tarefas simples, cá estamos nós. Há apenas três espécies em Portugal:

1. Uma de distribuição europeia (A. bellidifolium (L.) Willd.), amplamente disseminada e com populações em geral numerosas — que, por esquecimento ou tendência indesculpável para dar prioridade às raridades, nunca aqui mostrámos.

2. Um endemismo do noroeste da Península Ibérica (A. duriminium (Brot.) Pers.), peludinho e de flores brancas, que, como refere o epíteto específico, habita terras inter Durium et Minium.

3. E, finalmente, um endemismo português (Anarrhinum longipedicellatum R.Fern.), descrito em 1959 pela botânica portuguesa Rosette Batarda Fernandes. Ao contrário das duas espécies anteriores, esta é uma raridade, com presença confirmada apenas em dois núcleos no centro do país, nas bacias dos rios Paiva e Vouga.

Com a desmatação e intensa reflorestação com eucaliptos, o inferno dos incêndios, o uso de agro-químicos e a limpeza excessiva, ou com herbicidas, das bermas de estrada, esta é mais uma planta cuja ecologia a pode condenar. Aprecia zonas rochosas e taludes, de solo xistoso e seco, com boa exposição solar, partilhando o habitat com o A. bellidifolium, e por vezes hibridando com ele. As populações que vimos, em Arouca e Castelo de Paiva, pareceram-nos, porém, em franca expansão, com centenas ou milhares de plantas altaneiras em escarpas consolidadas à beira de estradas que, afortunadamente, a crise não permitirá alargar nos próximos anos.

Precisamente por causa da convivência entre as duas espécies de Anarrhinum, foi essencial procurar a planta das fotos no fim da Primavera, quando floresce. É que são ambas glabras, com flores azuis, uma roseta basal de folhas lanceoladas de margens serradas, além de folhas caulinares menores, palmadas mas profundamente divididas em segmentos lineares com ápice agudo. É pelas flores que o A. bellidifolium se distingue do A. longipedicellatum: neste último, as flores são algo maiores e têm um pedicelo longo, de tal modo que a haste floral (de cor púrpura) parece um fio onde as flores se penduraram ao sol.

26/08/2013

Folhado nas nuvens

Viburnum treleasei Gand.


Se a névoa se tivesse arredado por uns momentos, exibir-se-ia na primeira foto, tirada no interior da ilha Terceira, uma montra perfeita da floresta endémica dos Açores. Mas chamam-lhe floresta das nuvens; e, se tudo o mais pode faltar ou ser adulterado, já as nuvens não abdicam do seu direito de comparecer, fazendo as fotos perder em nitidez o que ganham em realismo. Com maior ou menor dificuldade, nessa foto distinguem-se (clique para aumentar) o cedro-do-mato (Juniperus brevifolia), a urze (Erica azorica), o loureiro (Laurus azorica) e o folhado (Viburnum treleasei). Apesar de os nomes comuns poderem amalgamar espécies diferentes e por vezes sem qualquer parentesco, nas ilhas açorianas estas quatro designações são inequívocas e têm a vantagem de, ao contrário dos nomes científicos, não estarem sujeitas a mudanças abruptas ou a variações de gosto. O folhado, que nos Açores é um pequeno arbusto de não mais que 4 metros de altura, dá-nos um exemplo dessa instabilidade: há quem o subordine como subespécie ao folhado europeu, chamando-lhe Viburnum tinus subsp. subcordatum, ou quem prefira autonomizá-lo como espécie, e o trate por Viburnum treleasei.

Que o folhado açoriano tem, tanto no porte geral como no aspecto das inflorescências, uma grande afinidade com o V. tinus europeu é indubitável, e leva a suspeitar que os dois partilhem um antepassado próximo, ou que o primeiro seja descendente do segundo. As diferenças entre eles não são porém menos evidentes: as folhas do V. treleasei são arredondadas, brilhantes, com as margens ligeiramente reviradas para baixo; as do V. tinus são mais estreitas, de um verde mais baço, apresentando margens não recurvadas e um ápice bem definido. Quer seja considerado espécie ou subespécie, o V. treleasei tem bem seguro o seu estatuto como endemismo açoriano.

Enquanto não descemos do patamar das nuvens, algures entre os 400 e os 800 m de altitude, aproveitamos para reflectir sobre a ditadura que o latim exerceu durante séculos sobre a taxonomia botânica, e que só em 1 de Janeiro de 2012, por decisão do XVIII Congresso Internacional de Botânica, foi oficialmente abolida. Não se trata, como alguns jornalistas então disparatadamente escreveram, de fazer com que os nomes em latim (ou em algum arremedo dessa língua) deixem de ser obrigatórios, mas sim de permitir que a descrição acompanhando uma espécie acabada de baptizar (e sem a qual o nome proposto não é aceite pela comunidade científica) venha noutra língua que não o latim. Essa outra língua por enquanto é o inglês, mas talvez em menos de um século ela seja substituída pelo espanhol ou pelo chinês.

O padre e botânico francês Michel Gandoger (1850-1926) foi o primeiro a publicar o latinório de lei sobre o folhado açoriano, no artigo Plantes nouvelles pour les îles Açores (Bull. Soc. Bot. France, vol. 46, 1899). Eis uma amostra do que ele escreveu: «(...) foliis obtuse ovato-suborbiculatis, cordatis, margine revolutis, crassi, minoribus, prominule et ad angulos lanatos nervosis (...)». Não é fornecida qualquer tradução em vernáculo, por ela ser desnecessária aos leitores habituais da revista. Mas a dificuldade, para um leitor actual, leigo no assunto, que tenha o português ou qualquer outra língua românica como idioma materno, e que nunca tenha estudado latim, não é tanto o de decifrar o texto (a tradução fonética funciona sem grande dificuldade) mas o de saber o que significam os termos técnicos. A dificuldade pode não desaparecer, ou talvez até se agrave, quando o latim é vertido para inglês. Acabar com o latim é vantajoso sobretudo para os taxonomistas actuais, sem formação em línguas clássicas. Quantas vezes alguém que só deu uma ajuda no latim não terá, por essa via, conseguido fazer-se co-autor de uma nova espécie botânica?

Já em 1897 William Trelease (1857-1945) dera à estampa, no seu Botanical Observations on the Azores, uma descrição daquilo a que chamou Viburnum tinus var. subcordatum: «Characterized by its round-ovate obtuse subcordate leaves, often densely hairy in the axils beneath.» Pôr a coisa em vernáculo foi-lhe fatal: Gandoger, que escreveu a mesma coisa, mas em latim, dois anos mais tarde, ganhou-lhe prioridade — embora tenha tido a cortesia de dar à planta o nome do seu colega americano. Pois era essa a força de uma língua morta.

19/08/2013

Serpentina rosa

Este ano, não é só a sul que o Verão vai quente, à medida do desejado bronze da pele. Até as praias fluviais estão inusitadamente cheias com a algazarra dos banhistas em férias. Mantém-se, contudo, o modo peculiar de mergulhar na água gelada dos nossos rios a norte, aquela em que se dá basto uso aos gerúndios. Vai-se entrando devagarinho na água, esfregando vigorosamente os braços e saltitando para aquecer; vencido o frio à altura dos joelhos, arrisca-se um mergulho rápido e, arfando ou praguejando, dão-se corridinhas retemperadoras de volta à areia. Em meia hora de andanças anfíbias e muito riso, a conquista do riacho consuma-se.

É então que, por entre braçadas prazerosas, se pode reparar no remanso das margens e apreciar as plantas que ali parecem indiferentes a estas gradações de temperatura. No meio delas, destacam-se muitas espigas de flores cor-de-rosa com estames proeminentes, em hastes apoiadas em folhas longas que flutuam: são exemplares de Polygonum amphibium, uma herbácea perene de lagos e solo temporariamente inundado, a que os ingleses chamam amphibious bistort. Os pés em terra podem atingir os 40 cm de altura e têm folhas macias, arredondadas na base e quase sésseis; os que estão na água têm folhas mais estreitas, glabras e com longos pecíolos.

Polygonum amphibium L. — rio Tâmega, Mondim de Basto


Há cerca de um mês, uma outra espécie de Polygonum, o common bistort, também perene mas mais alta, e menos ansiosa por mergulhar na água, estava em flor num lameiro de Montalegre a cerca de 930 metros de altitude. Ouvimos falar desse lugar aqui e, este ano, tivemos o privilégio de o visitar com o João Lourenço. As folhas desta planta têm o formato lanceolado que é usual no género Polygonum, com ápice acuminado, nervura central vincada e um ligeiro enrugamento nas faces. Mas as desta espécie são quase triangulares e exibem um estreitamento repentino na base, como se tivesse acabado o material com que se faz o limbo da folha. Exceptuando as caulinares em posição mais elevada, as folhas são grandes, de página superior verde-escuro e inferior esbranquiçada; as basais têm pecíolo, que é longo e alado. Detecta-se facilmente por causa dos cachos densos de flores, em tom de rosa suave, quase branco. O epíteto bistorta alude ao rizoma torcido da planta (que não vimos, precisaríamos de desenterrar um exemplar).

Polygonum bistorta L. subsp. bistorta — Montalegre


Algumas referências inglesas a esta planta usam a designação que Sampaio lhe atribuiu em 1913, Persicaria bistorta. O que indica que talvez o seu círculo familiar, taxonomicamente falando, não esteja ainda consolidado. Os botânicos, entretanto, distinguem várias subespéces de P. bistorta, sendo a ibérica a subespécie típica, a bistorta. Nativa da Europa e parte da Ásia, comum na Europa central e frequente no norte de Espanha, o P. bistorta tem uma distribuição muito restrita em Portugal: em todo o país só se conhece a população que visitámos, embora não faltem em Montalegre muitos outros prados húmidos que parecem reproduzir o habitat que lhe é imprescindível. Estranha-se por isso que não se dissemine ou não haja registos dela noutros pontos do nosso território.

12/08/2013

Pomba em pé

Ammi seubertianum (H. C. Watson) Trel.



Embora possam ser plantas vistosas e de grande tamanho, as umbelíferas padecem de uma uniformidade que as torna indistinguíveis aos olhos da maioria dos leigos. Mesmo os naturalistas e botânicos profissionais tardam por vezes em dar-lhes a merecida atenção. A história da Angelica lignescens, uma gigantesca umbelífera açoriana confundida durante mais de um século com o Melanoselinum decipiens, um endemismo madeirense que com ela pouco se parece, é ilustrativa dos equívocos a que a taxonomia das umbelíferas está sujeita.

O género Ammi, que inclui seis espécies de plantas anuais ou bienais nativas da região mediterrânica, Macaronésia e Médio Oriente, tem boa parte do seu contingente concentrado no arquipélago açoriano. Nada menos que três espécies endémicas dos Açores foram registadas, todas elas conhecidas como pé-de-pomba: A. trifoliatum, A. hunti e A. seubertianum. As três são listadas tanto no Portal da Biodiversidade dos Açores como na Checklist da Flora de Portugal. Sucede que as duas últimas, apesar de descritas originalmente pelo mesmo H. C. Watson, são consideradas por várias fontes como uma e a mesma espécie, tendo prioridade a designação A. hunti. Hanno Schäfer, na sua tese de 2003, defende igualmente que só existem duas espécies endémicas de Ammi nos Açores, mas que elas são A. trifoliatum e A. seubertianum. A mesma opinião é seguida numa listagem de endemismos açorianos publicada em 2006 por Carlos Aguiar, J. A. Fernández Prieto e Eduardo Dias. Finalmente, J. do Amaral Franco, no vol. 1 (de 1971) da Nova Flora de Portugal, reconhece uma única espécie açoriana, a que chama A. hunti.

A opinião mais recente dos estudiosos da flora açoriana inclina-se pois para a inexistência no arquipélago de um terceiro endemismo dentro do género Ammi. De facto, mesmo que o nome A. hunti persista, talvez por equívoco, em algumas listagens, não há fotos de plantas dessa espécie e ninguém parece saber onde encontrá-la. Por contraste, e apesar da opinião em contrário de Franco, há boas fotos e descrições inequívocas do A. trifoliatum e do A. seubertianum, e as duas espécies têm distribuição bem conhecida.

O Ammi seubertianum — dedicado ao botânico alemão Moritz August Seubert (1818–1878), que nunca visitou os Açores mas foi o autor, em 1844, da pioneira Flora Azorica — é bienal, atinge de 50 cm a 1 m de altura, floresce na Primavera e início do Verão, e apresenta folíolos grossos, quase suculentos; o A. trifoliatum, também bienal, é mais alto (pode chegar aos 2 m) e tem folhas basais mais divididas, com folíolos finos. O primeiro, com uma distribuição sobretudo costeira, é comum na metade oriental de Santa Maria; tirando essa ilha, só parece existir no Pico. O segundo, mais disseminado, ocorre no interior de sete ilhas (Flores, Corvo, Faial, Pico, Terceira, São Jorge e São Miguel) a altitudes entre os 400 e os 700 metros, mas só é comum nas Flores, e no Faial está no limiar da extinção.

06/08/2013

Ilha prometida

Tolpis succulenta (Dryand.) Lowe



Talvez a ilha de Santa Maria quisesse fazer parte de outro arquipélago, ou pelo menos, pelo seu carácter híbrido, servir de transição entre os Açores e a Madeira. A fronteira entre os dois arquipélagos cortaria a ilha de norte a sul. A metade ocidental, árida e plana, irmã gémea da ilha de Porto Santo, ficaria a pertencer à Madeira; o verde impenitente da outra metade permaneceria sob administração açoriana. É verdade que a geografia resultaria algo confusa, com a metade açoriana mais perto da Madeira do que a metade madeirense, mas a tradição europeia dos enclaves e das fronteiras em ziguezague permitiria ultrapassar todas as dificuldades. E é bom assinalar que a distância entre Santa Maria e a ilha açoriana mais distante, o Corvo, é de 600 Km, não muito inferior aos 850 que medeiam entre Santa Maria e a Madeira.

Essa transferência parcial de soberania justifica-se também por razões botânicas. O Aichryson villosum é exemplo de uma planta que só é açoriana por ter posto o pé em Santa Maria, caso contrário seria um endemismo madeirense. E Santa Maria é a única ilha do arquipélago onde o Lotus azoricus é fácil de encontrar: sendo certo que se trata de um endemismo açoriano, não é menos verdade que é na Madeira e no Porto Santo que vivem os seus primos mais chegados. Até na vegetação invasora das arribas litorais, dominada pela piteira (Agave americana), Santa Maria se assemelha mais à Madeira do que às restantes ilhas açorianas.

A asterácea de hoje, de seu nome Tolpis succulenta, um endemismo açórico-madeirense, fornece mais uma achega a esta discussão. Habitante de falésias costeiras, referenciada em todas as ilhas dos Açores, sobrevive com dificuldade em todas elas, incapaz de competir com plantas mais exuberantes que ocupam o mesmo habitat. Dá-se mal em todas as ilhas, com uma excepção importante: em Santa Maria, a ilha prometida, ela vê-se por todo o lado, não já limitada à linha de costa mas penetrando pelo interior da ilha até cerca dos 500 metros de altitude. Também na Madeira, onde é conhecida como visco, é uma planta comum em escarpas rochosas, muros e taludes, desde o litoral até às montanhas do interior. A conclusão é que, tanto na Madeira como em Santa Maria, a Tolpis succulenta encontra o tipo de clima mediterrânico a que melhor se adapta, e que a sua presença em oito das nove ilhas açorianas se deve a um equívoco da natureza. A somar a tudo isto, existe a leituga (Tolpis macrorhiza), endemismo madeirense que, a menos de poucos detalhes, é uma cópia da T. succulenta.

A T. succulenta é uma planta perene, quase glabra, lenhosa na base, com caules muito ramificados e mais ou menos prostrados, dotados de látex. As folhas, que podem medir uns 10 cm de comprimento, são carnudas, elípticas ou lanceoladas, com margens inteiras ou dentadas; os capítulos florais são em geral solitários e nascem entre Junho e Setembro.

Não sendo tão vistosa como a agigantada T. azorica, a T. succulenta é ainda mais peculiar. Foi com emoção que a vimos, em Santa Maria, pintalgando de alto a baixo com um amarelo vivo as negras falésias junto ao porto.


04/08/2013

Fitogeografia


Spergularia azorica (Kindb.) Lebel



Nos verões de 1894 e de 1896, o botânico norte-americano William Trelease (1857-1945), então director do Jardim Botânico do Missouri, visitou as ilhas açorianas numa expedição que também previa a colecta de sementes ou plantas para este jardim. A localização das ilhas era suficientemente remota para que as expectativas quanto a novidades botânicas fossem elevadas. Ali encontraria um habitat isolado, pensou, como a Madeira ou os Galápagos, com um clima favorável à coexistência de vegetação de montanha (nos picos, quase sempre escondidos por nevoeiro e chuva) e de beira-mar (com plantas adaptadas às falésias, ao farelo de pedra vulcânica e às praias de calhau rolado), com alguma flora tropical à mistura.

Trelease publica em 1897 as notas desta viagem, a que junta uma listagem pormenorizada da flora que encontrou nas nove ilhas (e da que, não tendo encontrado, foi descrita pelos seus antecessores). O tom geral é de desapontamento. As ilhas eram afinal frequentemente visitadas por navios da Europa e da América do Norte, e mesmo entre as ilhas mais a ocidente (Flores e Corvo) e as mais orientais (São Miguel e Santa Maria) circulavam demasiadas embarcações para haver diferenças nas respectivas floras. Além disso, a agricultura intensiva (com as vinhas destruídas por doenças, plantava-se milho, batata e batata doce, e cultivavam-se frutos como a banana e o já famoso ananás), os pastos com forragem europeia (por a julgarem melhor do que a nativa) e a invasão da flora exótica (já então o Hedichium gardnerianum liderava as hostes invasoras) pouco espaço deixavam para a flora endémica. Segundo Trelease, esta estaria refugiada em locais de difícil acesso, a salvo de coelhos e cabras mas desse modo também inacessível aos botânicos. Havia os líquenes, é certo, e muitas novas espécies de fungos para nomear, mas não eram esses os objectos do seu estudo. Seguindo a tendência de então, Trelease parecia empenhado em confirmar a teoria de Darwin e queria estudar a adaptação das plantas europeias ou americanas ao habitat açoriano, muito ventoso, extremamente húmido e de influência marítima. Todavia, em Botanical Observations of the Azores, Trelease informa que as ilhas eram demasiado jovens para se notarem indícios da selecção natural: só em Santa Maria eram conhecidos fósseis e só lá não havia vulcões com actividade recente.

A Spergularia azorica foi uma das plantas que Trelease viu floridas, e em todas as ilhas. Começou por se chamar Lepigonum azoricum, nome que o botânico sueco Nils Conrad Kindberg (1832-1910) lhe deu em 1863. Em 1868, o francês Jacques Eugène Lebel (1801-1878) colocou-a no género Spergularia e confirmou-lhe o estatuto de endemismo açoriano. Trelease prefere designá-la Spergularia macrorhiza, seguindo o botânico inglês H. C. Watson (1804-1881), que visitou os Açores em 1840 e a nomeara oficialmente em 1868 (depois de uma outra ida às ilhas em 1865 com o entomologista Frederick du Cane Godman (1834-1919)). Trelease nota como esta planta, exposta a derrocadas e vendavais, parece em harmonia com o ambiente: talos robustos, com que se agarra às arribas; hábito prostrado e aninhado nas reentrâncias rochosas de falésias ou escoadas de lava; uma penugem densa a agasalhá-la; flores grandes (muito maiores do que nas outras plantas do mesmo género) e bem abertas, com o néctar acessível aos polinizadores; e sementes, com uma asa rudimentar, que se disseminam pelo vento.

Santa Maria, onde vimos populações abundantes desta planta, pertence hoje à lista das Zonas Especiais de Conservação (ZEC), e a Spergularia azorica é uma das espécies da flora açoriana listadas no anexo II da Directiva Habitats, na companhia da Azorina vidalii e do Lotus azoricus.