27/03/2012

Margarida farrusca



Há uma crónica do escritor e médico duriense João de Araújo Correia (1899-1985) em que ele censura as senhoras finas suas conterrâneas por não admitirem o vinho do Porto à mesa, preferindo-lhe os licores importados de França. Causa desgosto ao cronista que tais famílias desprezem a produção que faz a fama e o carácter da terra onde vivem e de que, directa ou indirectamente, depende a sua própria prosperidade.

Se do vinho saltarmos para o azeite, facilmente enumeramos uma mão-cheia de razões patrióticas, paisagísticas e até ambientais para nunca deixarmos de usar com abundância o líquido dourado. A elas se acrescentam razões de saúde e de paladar: não há comparação possível entre um bom azeite e as mixórdias genericamente chamadas "óleos alimentares". Portugal é um país de olivais que tomam diversas qualidades quando descemos de norte para sul. Há os olivais à beira-Douro, no Pocinho, que se estendem como a terra prometida à janela do comboio depois de atravessarmos túneis e penedos medonhos. Nos Candeeiros e em Sicó, são os olivais que ocupam as planícies entre os assomos pedregosos de calcário. Quem quer que se passeie pelo país terá o seu olival favorito gravado na memória; e, para que a lista fique menos lacunar, fará o leitor a fineza de evocar o seu e acrescentá-lo mentalmente a este texto.



O aumento do consumo do azeite traz porém um inconveniente, que é a substituição dos olivais tradicionais pelos de produção intensiva. Um olival tradicional é dos melhores mostruários da nossa flora espontânea; os olivais modernos de alta produção são desertos plantados com oliveiras. E os olivais de modelo antigo são mais bonitos, motivo adicional para ilustrarmos com eles esta conversa.

Chamaemelum fuscatum (Brot.) Vasc.


Em chegando o mês de Março, ou até ainda em Fevereiro, há um malmequer que se especializa em pintar de branco a manta dos olivais; é ele o Chamaemelum fuscatum. Dizem certas fontes que o povo lhe chama margaça-de-Inverno ou margaça-fusca; mas, para isso ser crível, o dito povo deveria ser capaz de analisar detalhes morfológicos subtis para distinguir este malmequer de outros muito semelhantes que aparecem nos mesmos habitats, como o Anthemis arvensis. O assunto foi já sobejamente explicado pelos nossos vizinhos, e por isso nos dispensamos de reproduzir a lição. Acrescentamos um detalhe: o Chamaemelum fuscatum também se diferencia do Anthemis arvensis pelas brácteas involucrais debruadas a negro, visíveis na foto da esquerda aí em cima. Embora, como ensina Carlos Aguiar, o epíteto fuscatum diga respeito a um pormenor só visível quando se faz a autópsia da inflorescência, não é grande disparate relacioná-lo com o cálice farruscado desta ervinha pré-primaveril a que decidimos chamar margarida-farrusca.

20/03/2012

O que é um pseudonarciso?

Narcissus pseudonarcissus subsp. nobilis (Haw.) A. Fern.


– Podemos entrar no seu lameiro para ver aquelas flores?
– Para ver o quê? As ovelhas?...
– Não, não, as flores.
– Não é meu, façam favor.

A Península Ibérica é abonada em narcisos, sobretudo as regiões mais frias ou de montanha. As maiores populações conhecidas no país de Narcissus pseudonarcissus, espécie do sudoeste da Europa, estão precisamente na serra da Estrela e na serra Amarela, aqui em zona de reserva integral. Mas ele também surge em altitudes baixas, no Minho, embora esteja dependente de uma gestão tradicional dos lameiros que está em risco de se perder.

O abandono da agricultura, substituída pela secção de verduras dos supermercados, poderia beneficiá-lo por poupar o solo e os bolbos, mas na verdade as terras em pousio tendem a encher-se de ervas que competem com excessiva valentia. Contudo, a tendência para, em vez de legumes, plantar forragem para o gado, que ali se alimenta em regime de self-service, trouxe novas esperanças aos narcisos. Nos poucos locais onde ainda há populações deste narciso, prados e regatos de água fresca, houve a oportuna iniciativa de negociar com os proprietários um acordo que incentiva o pastoreio, para que o gado segue estes campos com firmeza (deixando os narcisos intactos por lhe serem indigestos), e os impede de mobilizar agressivamente o solo e de utilizar herbicidas ou pesticidas. O resultado desta gestão minuciosa são as centenas ou milhares de tufos de folhas lineares, de secção trapezoidal, azuladas e erectas, encimados por elegantes trombetas amarelas com bordo crenulado, base protegida por uma bráctea, a recender a mel e aformoseadas por um colar de seis tépalas ligeiramente retorcidas. Lembram as do N. asturiensis, mas em versão de maior porte e com flores mais avantajadas.

Vimo-los primeiro em Póvoa de Lanhoso, tendo para isso de usar galochas nos pastos regados por fartos ribeirinhos e saltar algumas cercas com que a propriedade privada, legitimamente incomodada com a curiosidade alheia, se protege, e previne a colheita ilegal de bolbos. Num ano mais chuvoso formariam mantos extensos de flores (com as tépalas brancas, que algumas Floras designam N. pseudonarcissus subsp. nobilis), o que indicia que a preservação do habitat está a ser bem sucedida. Seguindo uma indicação do Carlos Silva, a quem agradecemos, fomos depois à serra d'Arga, um sistema montanhoso relativamente baixo (não sobe além dos 900 metros) e invulgarmente perto do mar. A vegetação é rala e o lugar rochoso e granítico, mas deve chover ali bastante porque nos planaltos predominam as turfeiras. Por ali, são os cavalos selvagens que fazem a manutenção das margens dos ribeiros, criando um refúgio propício à disseminação das plantas mais frágeis. Encontrámos Drosera rotundifolia, Pinguicula lusitanica, Anemone trifolia, Viola palustris, N. bulbocodium, Scilla monophyllos. E muitos exemplares deste narciso, mas desta vez com as flores completamente amarelas (que as mesmas Floras denominam N. pseudonarcissus subsp. portensis) e um perfume igualmente doce (embora não saibamos quantificar esta afirmação).

Narcissus pseudonarcissus subsp. nobilis (Haw.) A. Fern. / Narcissus pseudonarcissus subsp. portensis (Pugsley) A. Fern.
A rotina que nos impacienta no Inverno, à espera de que as plantas acordem, não nos permitiu sossegar enquanto não fomos ver aquela que pode ser a terceira maior população deste narciso. Está em Paredes de Coura, mas não no lugar onde ocorre o N. cyclamineus. Preferiu instalar-se mais acima, num recanto frio entre currais e pastos de feno húmidos, cruzados por um riacho de caudal escasso. Numa das populações, em exemplares que distavam não mais de dez centímetros entre si, encontrámos plantas com flores de tépalas brancas, outras com tépalas divididas entre branco e amarelo (este tom mais próximo da base da corola) e outras de colar inteiramente amarelo. O que parece dar alguma razão à revisão taxonómica que a Flora Ibérica iniciou nesta espécie. Segundo os seus autores, a espécie N. pseudonarcissus abrigaria quatro subspécies e, ignorando-se as variações de cor nas flores e outras diferenciações morfológicas menores, as plantas minhotas arrumar-se-iam todas numa designação única, N. pseudonarcissus subsp. portensis. Este é um endemismo do norte da Península Ibérica que em Portugal se concentra na Beira Alta, Trás-os-Montes e Minho — mas de que, por cá, se conhecem poucas populações.

Narcissus pseudonarcissus subsp. portensis (Pugsley) A. Fern.
Um relatório de 2010 sobre a biodiversidade em Vila Nova de Gaia inclui uma referência a este narciso, presume-se que baseada em observações antigas. Curiosamente, o epíteto portensis foi atribuído por H. W. Pugsley em 1933, referindo-se a exemplares colhidos perto do Porto. A Flora Ibérica (ainda em rascunho, a corrigir), que desconhece a presença do N. cyclamineus em Paredes de Coura, mantém que o N. pseudonarcissus subsp. portensis ainda ocorre no Douro Litoral.

Mais a sul, na Estremadura, Beira Baixa e Ribatejo, há registo de outra subespécie, N. pseudonarcissus subsp. pseudonarcissus, que não se restringe à Península Ibérica e que se suspeita ter sido introduzida em terras lusas. A diferença mais notória com a anterior está na relação de tamanhos das peças da flor e no habitat preferido: ambas gostam de prados, mas esta suporta melhor torrões mais pedregosos e até alguma secura.

28/02/2012

Portal da felicidade



Na avenida do Boavista, no Porto, mesmo à frente do Hospital Militar, um condutor imobilizado no trânsito pode aproveitar a espera para esticar o braço e colher uma laranja. Infelizmente, o trânsito citadino não induz ao relaxamento, e os condutores não têm o hábito de descolar os olhos dos semafóros para inspeccionar as árvores que desfilam no separador central da via. É pena. Mesmo que a laranja não seja comestível (quantas toxinas terá ela na sua composição?), o acto de colher a fruta da árvore recupera a nossa primordial e quase esquecida ligação às coisas vivas da terra. As laranjeiras não estão ali para enfeite nem para nos dar sombra. São laranjeiras pedagógicas. Encerram uma lição.

O automobilista é atingido, como São Paulo na estrada de Damasco, por uma revelação que o atordoa; só não cai porque está sentado e pôs cinto de segurança. Quando foi a última vez que se viu diante de uma galinha não depenada nem embalada em celofane? Sabe vagamente que as macieiras dão flores perfumadas, mas não se lembra de alguma vez as ter visto ou cheirado. E as margaridas e as papoilas, que pecados são os dele para estar impedido de ir ao campo admirá-las?

Há que mudar de vida, diz ele para consigo. Nada de muito radical, trata-se apenas de abrir um ou dois furos para respirar no manto de artificialidade que nos sufoca. Não é da Felicidade com F maiúsculo que vamos à procura, mas de algumas felicidades modestas e portáteis com assinalável efeito cumulativo.

Ajuda saber dar nome às plantas, pois quando elas saem do anonimato a paisagem ganha profundidade e ressonância. Nomeá-las pela primeira vez é inaugurar uma relação de amizade que se fortalece a cada reencontro. Ao dar-nos a conhecer os nomes das plantas (e as suas relações de parentesco, e os lugares onde vivem), o portal Flora-On, criado pela Sociedade Portuguesa de Botânica, multiplica a probabilidade de encontros felizes. Por isso o Flora-On é também o portal da felicidade.

Nota. Este texto é inspirado na intervenção de Carlos Aguiar aquando da sessão de apresentação do Flora-On, que decorreu na tarde de 25 de Fevereiro, no Museu Nacional de História Natural, à rua da Escola Politécnica, em Lisboa.

17/01/2012

Negro como calcário

Portugal é um país achatado, com poucas montanhas e mal repartidas. Quase todo o território se situa abaixo dos 400 metros de altitude, com orlas recentes de grandes areais sem escarpas ou com elevações pouco acima do nível do mar. O norte é antigo, da chamada zona geológica centro-ibérica, com uma história tectónica de difícil destrinça e onde predominam o granito, o xisto e o quartzo. Aqui ocorre naturalmente a flora que aprecia solos ácidos. Mas há excepções, como as formações de rochas ultrabásicas do nordeste ou os raros afloramentos de calcário no Marão.

Fomos à procura deles, com a grata lembrança da flora calcícola das serras de Aire e Candeeiros. Habituados a calcorrear o Maciço Calcário Estremenho à procura de orquídeas, deveríamos ser capazes de achar umas pedras brancas a destoar nos montes se o nevoeiro não nos viesse atrapalhar a tarefa. O destino era Campanhó, no miolo do Marão, lugar de várias pedreiras desactivadas e não longe de antigas explorações mineiras de estanho e volfrâmio. Para lá chegar, houve que enfrentar as estradas de mau piso que foram apoio destas actividades. O primeiro sinal de que estávamos perto foi dado pela abundância de Ceterach officinarum, um feto que gosta de fissuras nas rochas e muros velhos e que, sendo em geral indiferente à natureza do solo, mostra no nosso país uma preferência nítida por substratos calcários. Outra evidência surgiu logo depois com os inúmeros exemplares de Helleborus foetidus, planta também de terrenos calcários, comum precisamente nas serras de Aire e Candeeiros. Mas onde estariam os mármores rosa eivados de pérola ou o chão avermelhado como o da Fórnea? Demorámos alguns minutos a perceber que tínhamos chegado: aquelas pedras gigantescas com a textura homogénea do carvão, de cor cinza e toque macio, eram bolhas de calcário no meio do xisto.

Campanhó (Mondim de Basto)
A confirmação não se fez esperar: ali estavam, meio escondidos pelas silvas, vários tufos de Asplenium ruta-muraria, um feto escasso no sul da Europa, muito sensível à poluição amosférica e que, em Portugal, se concentra numa área restrita do centro-oeste calcário.

Asplenium ruta-muraria L.

No livro Distribuição de pteridófitos e gimnospérmicas em Portugal (1982), Franco e Rocha Afonso, a propósito deste feto, assinalam com bolinhas negras uns poucos lugares no Marão. Bolinhas que, na realidade, crescem para se transformarem em maciços calcários da mesma cor, a que voltaremos na época das orquídeas.

09/01/2012

Língua-de-cobra

Reserva Ornitológica de Mindelo (Vila do Conde)
A protecção da natureza, em Portugal, nunca foi uma prioridade, mesmo quando o ambiente fazia parte de uma agenda política que a crise remeteu para segundo plano. O "ambiente" pode ser muita coisa, e de todas as suas possíveis acepções os nossos governos têm preferido aquelas que envolvam obra que se veja. É assim que, em nome das "energias renováveis", se destroem rios e se plantam ventoinhas por tudo quanto é cume; e é também assim que, na gestão de áreas ditas protegidas, se esbanja em desproporcionados centros de interpretação o dinheiro que não há para vigilantes da natureza ou para acções de conservação no terreno. Por isso "área protegida", em Portugal, pouco mais significa que um espaço onde vigoram certas restrições à construção de edifícios ou ao uso do solo. Quanto ao resto, a natureza lá saberá tomar conta de si, desde que as agressões não sejam muitas.

Consta dos anais que a Reserva Ornitológica de Mindelo (ROM), criada em 1957 por iniciativa de Santos Júnior, professor na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP), foi a primeira área oficialmente protegida em Portugal. Situada no concelho de Vila do Conde, logo a sul do rio Ave, e repartida entre as freguesias da Árvore e do Mindelo, ocupava 554 hectares de dunas, charcos e pinhais. Ainda que legalmente a ROM nunca tenha sido abolida, a expansão urbanística roubou-lhe boa parte da área e a Universidade do Porto deixou de a usar para trabalhos de campo. Houve extracção de areia nas dunas, secaram muitos dos charcos, a ribeira foi poluída, depositaram-se entulhos, chegaram veraneantes e veículos todo-o-terreno, a vegetação infestante de chorões, acácias e canas instalou-se e expandiu-se. Mas o ambíguo estatuto de protecção conseguiu evitar o mais sério dos atentados: o coração da antiga reserva, entre as dunas primárias e os hectares de pinhal, foi poupado às construções. Em toda a linha de costa entre Ovar e a foz do Cávado não sobrou outro pedaço de natureza com uma riqueza ecológica comparável.

Foi para proteger tal riqueza que, em Outubro de 2009, por decisão unânime da Assembleia Metropolitana do Porto, foi oficialmente criada a Paisagem Protegida Regional do Litoral de Vila do Conde, que se estende por 380 hectares entre a foz do rio Onda, em Labruge, e a foz do rio Ave, na sede do concelho. O quinhão maior da nova área protegida, com cerca de 266 hectares, é o que resta dos 554 hectares da antiga ROM.

E que foi feito nos 27 meses decorridos desde essa feliz data? Burocraticamente, nada: não há orgãos de gestão, não há plano de ordenamento, não há sequer placas de informação para visitantes. E no terreno também nada se nota, como se a remoção do lixo, o controlo da vegetação infestante e o impedimento da circulação de veículos motorizados dependessem de aturados estudos e da benção de doutas comissões.

Ophioglossum lusitanicum L.


Neste compasso de espera a vida vai seguindo o seu curso, e a velha Reserva Ornitológica de Mindelo ainda guarda algumas surpresas para os naturalistas que a percorram de olhos bem abertos. No leito ou nas margens dos frágeis charcos temporários sobrevivem plantas que, na região do Porto, são preciosas relíquias de outras épocas: Spiranthes aestivalis, Centaurium chloodes, Samolus valerandi. Lista a que agora se acrescenta o Ophioglossum lusitanicum, um estranho feto que recebe no vernáculo o nome de língua-de-cobra-menor e que andava desaparecido do litoral nortenho. A última colheita para o herbário da FCUP data de 1912 e foi feita no lugar da Boa Nova (Leça da Palmeira). As populações por nós agora encontradas situam-se bem mais a norte, numa área onde a planta nunca havia sido detectada. Aliás, o relatório de 2007 que serviu de base à criação da paisagem protegida (texto integral — PDF) não inclui o Ophioglossum lusitanicum na listagem, que se quis completa, da flora local. (E também não inclui várias outras espécies de muito mais fácil observação, como o Samolus valerandi, o Asplenium marinum, a Vicia lutea e a Serapias parviflora.)

Morfologicamente, a língua-de-cobra-menor é a versão miniatural da (que outra coisa haveria de ser?) língua-de-cobra-maior. O tamanho exíguo da planta é aliás uma das peculiaridades que dificultam a sua detecção: as folhas, que são carnudas e surgem sozinhas ou em grupos de duas ou três, têm o pecíolo quase todo subterrâneo e ficam-se pelos 2 a 4 cm de comprimento; a haste com os esporângios (por vezes ausente) pode duplicar a altura da planta, mas raramente ultrapassa os 6 cm. Só podemos ter esperança de a ver quando a vegetação circundante é muito rala. Para dificultar ainda mais a observação, o aparecimento da planta à superfície é efémero e decorre numa época (de Outubro a Março) em que a maioria dos botânicos está recolhida na toca.

O habitat desta língua-de-cobra são os locais arenosos ou de solo magro dotados de alguma humidade e cobertos por musgos. A planta evita locais muito expostos ao vento ou ao sol, e nas dunas agradece a protecção que algum pinheiro ou sargaço lhe possa proporcionar. Na Reserva Ornitológica do Mindelo descobrimos duas populações de 20 a 30 indivíduos cada, ambas ameaçadas pelo avanço dos chorões. Apesar de ser uma planta com ampla distribuição europeia, é escassa em Portugal, e no norte do país está em risco de desaparecer de vez. Quem se preocupa com a biodiversidade não quererá que isso aconteça. Fica o alerta para quem vier a gerir a Paisagem Protegida Regional do Litoral de Vila do Conde.

31/12/2011

Se não nos virmos

Frecha da Mizarela (Arouca)
O ano que começa logo à noite com o estralejar de fogos-de-artifício, e que, se se conformar aos nossos desejos, há-de ser do melhor para todos os nossos leitores — esse ano, dizíamos, promete ser rico em dias, já que 2012 é bissexto. Noutros aspectos não será tão rico. Este blogue, por exemplo, vai ser menos prolífico: andámos a esbanjar plantas e impõe-se um racionamento antes que o filão se esgote. Não vamos embora, pois já prometemos isso uma vez e não deu resultado, mas vamos ser mais comedidos. Deixaremos o campo em pousio, só o vindo amanhar ocasionalmente para não perdermos o jeito com a enxada.

30/12/2011

Champanhe sem borbulhas

Orchis champagneuxii Barn.
[Anacamptis morio subsp. champagneuxii (Barn.) Camus]
The coil of rope which is necessary to hold in the hand, before and whilst raising a bell, always puzzles a learner.

Charles A. W. Troyte, Change-Ringing (1869)

29/12/2011

Rosa Maria

Helianthemum marifolium (L.) Mill.
Os ingleses chamam rock roses às plantas da família Cistaceae, que nós tratamos por esteva, estevinha, estevão, sargaço, sargaça ou sargacinha. Por serem plantas nativas do nosso território, e não das ilhas britâncias, os nomes que lhes damos deveriam gozar de primazia. Sucede que a nomenclatura popular é altamente confusa, chamando a mesma coisa a plantas muito diferentes ou, pelo avesso, atribuindo nomes díspares a plantas claramente aparentadas. Quem poderia adivinhar, só pelos nomes, que a esteva e o sargaço são plantas da mesma família? Ou quem diria que o sargacinho (Lithodora prostrata) e a sargacinha (Halimium calycinum ) nada têm a ver um com o outro?

Rock rose tem pois a vantagem da simplicidade e da transparência: sabemos de imediato de que tipo de planta estamos a falar, e ainda ficamos com a ideia — em geral correcta, apesar de admitir excepções — de que ela prefere terrenos secos e pedregosos. Para quem quiser compor um jardim de plantas xerófilas, com cascalho e blocos de pedra (ou seja, aquilo a que os anglo-saxónicos chamam rock garden), as rock roses são a escolha óbvia para fazer companhia às suculentas. Pena é que o conceito e as próprias plantas que lhe dariam forma sejam quase ignorados em jardins portugueses.

A rosa-das-rochas que hoje nos visita tem um epíteto misterioso: marifolium. É pois, na opinião de Lineu, uma rosa com folhas de Maria, ou mais simplesmente uma Rosa Maria. Desde quando Maria é vegetal? Um mergulho nos poeirentos arquivos da taxonomia botânica revela-nos a existência de uma Maria-antonia orientalis Parl., leguminosa baptizada em 1844 de que entretanto se perdeu o rasto. Mas a Maria de Lineu terá que ser outra, pois a descrição original do Helianthemum marifolium (como Cistus marifolius) é de 1753.

O Helianthemum marifolium é um arbusto peludo, muito ramificado e de caules prostrados, que atinge um máximo de 30 cm de altura mas em regra é bem mais rasteiro; as suas folhas têm de 3 a 15 mm de comprimento, e as flores de 10 a 15 mm de diâmetro. Distribui-se pela Península Ibérica, sul de França, Baleares e norte de África, e em Portugal ocorre apenas na serra da Arrábida e no litoral algarvio.

Adenda. Uma leitora perspicaz sugeriu que marifolium não remete a Maria nenhuma, mas sim ao Teucrium marum, arbusto mediterrânico muito atraente para gatos que vive em França, Itália, Sardenha e Córsega.

A cervina também mora aqui

Ribeira do Espírito Santo, Miramar, Gaia / Asplenium scolopendrium L.
Agora que está prestes a cair a última folha do calendário de 2011, é altura de encerrarmos oficialmente o Grande Concurso Dias com Árvores, que decorreu sem interrupções, embora com uma actividade algo letárgica, desde o passado dia 10 de Janeiro. O objectivo era descobrir, em algum concelho do Grande Porto, um dos mais notáveis fetos da nossa flora, a língua-cervina (Asplenium scolopendrium). Quem encontrasse a planta na natureza e nos reportasse a descoberta seria contemplado com um ou mais livros. Inicialmente o concurso abrangia apenas os concelhos de Espinho, Gaia, Porto, Matosinhos, Maia, Gondomar e Valongo, mas optámos por alargá-lo a Ovar e a Estarreja para que o rol dos premiados não ficasse vazio. Balanço do concurso? Graças a Rui Soares, nosso único vencedor, encaramos hoje com optimismo moderado a situação da língua-cervina no noroeste do país. As populações de Ovar e Estarreja são vigorosas e abundantes, e também há bons núcleos em Vale de Cambra e em Macieira de Cambra, o principal deles igualmente descoberto por Rui Soares. Como todas as plantas que vivem junto a linhas de água, a língua-cervina corre risco de erradicação sumária no âmbito de requalificações ou limpezas abrutalhadas de margens de rios e de ribeiras. Mas há sempre a esperança de que algum rio escape à fúria higienizante, ou de que alguma planta sobreviva quando as margens são rapadas à escovinha.

Da nossa lista inicial, Gaia foi o único concelho que não ficou em branco; mas, como não nos podemos premiar a nós próprios (apesar de o regulamento ser omisso a esse respeito), a descoberta não tem relevância para o concurso. A solitária língua-cervina gaiense foi a única e milagrosa sobrevivente da limpeza sem critério das margens da ribeira do Espírito Santo, em Miramar. Aparenta saúde débil, mas se a deixarem sossegada por uns anos talvez revigore e se multiplique.

28/12/2011

Favas contadas

Orobanche foetida Poir.
Nome vulgar: erva-toira-denegrida
Ecologia: parasita de diversas plantas leguminosas, vive em matos, pastagens, zonas arenosas e lugares ruderalizados
Distribuição global: Península Ibérica, ilhas Baleares e norte de África (Argélia, Marrocos, Tunísia e Líbia)
Distribuição em Portugal: ainda que não seja comum, ocorre em todas as províncias do continente
Época de floração: Abril-Junho
Data e local das fotos: Maio de 2011, serra da Boa Viagem (Quiaios, Figueira da Foz)
Informações adicionais: planta com hastes robustas que podem ultrapassar os 70 cm de altura; semelhante à Orobanche sanguinea C. Presl. que, embora mais rara, também ocorre em Portugal

27/12/2011

Salsa-para-cavalos

Smyrnium olusatrum L.


Ouro, incenso e mirra — a lista de oferendas é sempre recitada por esta ordem. Primeiro o ouro, marca de realeza e poder; segue-se-lhe o incenso perfumado e espiritual, de plantas do gênero Boswellia; e só depois a mirra. Engano nosso, ao julgarmos que é a prenda de menor valor: esta resina fragrante, extraída de árvores do género Commiphora, tem propriedades balsâmicas, anti-sépticas e anti-bacterianas; é por isso o símbolo da imortalidade.

Smyrnium perfoliatum L.
As umbelíferas das fotos, a que os ingleses chamam alexanders (em alusão a Alexandria), não têm a mesma fama, embora o S. olusatrum também se sirva em infusões aromáticas (e se tenha cultivado como verdura de Inverno), o S. perfoliatum tenha uso ornamental por causa das folhas douradas na Primavera, e o nome Smyrnium se refira explicitamente ao aroma a mirra das sementes. Que são ovóides, rugosas e escuras quando maduras no caso da primeira planta (olusatrum deriva do latim olus, erva, e ater, negro), e pardas as do S. perfoliatum. Este distingue-se do anterior por ter menor porte e pelas folhas caulinares não divididas ou menos recortadas; contudo, as duas espécies têm-nas sésseis e de aurículas grandes, de base cordiforme e adunada, parecendo que o caule as atravessa. Pelo contrário, as folhas basais são divididas e de pecíolo longo, tão diferentes que, quando as vimos, julgámos que fossem de outra planta que por ali se tinha esgueirado.

São herbáceas bienais, com hastes florais que podem atingir os 2 metros de altura. As flores hermafroditas, sem sépalas, de cinco pétalas amarelas com cerca de 1 mm de diâmetro, dispõem-se em umbelas compostas (como um guarda-chuva cujos raios terminassem em sombrinhas menores) de 8 a 20 umbélulas, mas em cada uma cerca de metade das flores abortam. A raiz parece um nabinho comprido. Apreciam sombra, lugares frescos, relvados húmidos e solos ricos em azoto.

O género Smyrnium abriga sete espécies, cinco da Europa (das quais só duas ocorrem na Península Ibérica) e as outras da Ásia e África. São mais abundantes na metade sul do país. O S. olusatrum é espontâneo no oeste e sul da Europa, Macaronésia e norte de África; o S. perfoliatum é calcícola, nativo do centro e sul da Europa e região mediterrânica e, parece, mais raro por cá.

26/12/2011

Mercúrio na cidade

Mercurialis ambigua L. f.
A natureza na cidade é uma história de guerrilha e de infiltrações, de recuos e de avanços. Em países como o nosso, onde se tenta à força excluir o convívio entre o que é artificial e o que é espontâneo, não é em jardins e parques que cidade e natureza se reconciliam. A tira de relva enfeitada com magras árvores onde os cães levam os donos a passear é muito mais postiça do que um muro velho forrado de verdura. É na cidade roída pelo tempo, e não nos tristes jardins geométricos, que o naturalista citadino com mais proveito emprega o seu labor.

Para ilustrar cabalmente esse preceito, nada melhor que a mercurial ou erva-mercúrio (Mercurialis ambigua). Trata-se de uma erva com grande tradição na medicina popular, usada como purgante, vermífuga e diurética; é espontânea no nosso país, chegando a ser abundante em zonas nitrificadas e húmidas; e também no Porto se pode encontrar, mas nunca em jardins. Basta, porém, uma incursão às vielas e escadarias de Miragaia, da Sé ou da Vitória para a vermos despontar ocasionalmente entre tufos de erva-das-paredes (Parietaria judaica), fetos e cimbalárias.

As plantas do género Mercurialis são, por regra, dióicas: há indivíduos de cada um dos sexos, masculino ou feminino, com funções claramente atribuídas na missão de perpetuar a espécie. A Mercurialis ambigua, contudo, veio pôr em causa a ordem estabelecida ao optar por um modelo sexual caótico e fracturante. Ao masculino e feminino acrescentou um terceiro sexo, o das plantas hermafroditas, que combinam flores dos dois tipos. De resto, nem a M. ambigua nem qualquer uma das suas congéres exibem floração vistosa: as flores, além de minúsculas, não têm pétalas, reduzindo-se ao cálice esverdeado e a dezena e meia de estames (as masculinas) ou a dois estiletes (as femininas). As flores masculinas dispõem-se em glomérulos de 8 a 10 unidades ao longo de espigas, tal como se observa nas fotos; as femininas são menos numerosas, e juntam-se em grupos de duas ou três nas axilas das folhas. O fotógrafo, por inadvertência, não registou flores femininas nem indivíduos hermafroditas. Remediar o lapso dá-lhe bom pretexto para revisitar os becos esquecidos da cidade.

24/12/2011

De braços abertos

Orchis langei K. Richt.
....Se Deus existe, tem afinal uma educação
....tão francesa e tão de guardanapo de linho
....que nenhuma acção Dele
....se torna aqui em baixo visível
....– tal a delicadeza.
....Mas se alguém tem poder,
....para quê ser delicado?


....Gonçalo M. Tavares, Uma Viagem à Índia (Caminho, 2010)

23/12/2011

Frio Olimpo



Dizia-me hoje alguém que lhe parecia que eu exagerava as virtudes do transmontano. Respondi-lhe que talvez. E acrescentei:
— À semelhança dos Gregos, pinto deuses, a ver se ao menos consigo ter homens...


Miguel Torga, Diário (D. Quixote, 2010)

22/12/2011

Margaridetas

Valerianella discoidea (L.) Loisel.

Valerianella locusta (L.) Laterr

São como as valerianas, mas com talos ramificados e fascículos de flores muito mais pequenas (1-2 mm de diâmetro), como sublinha o diminutivo latino ella. Apesar de as flores, com a forma tubular da corola, parecerem ser adaptadas a borboletas, plantas anuais de dimensões tão reduzidas têm fraca chance de serem polinizadas. Por isso é escasso o investimento nas flores, que não têm perfume nem néctar e se auto-fecundam, e reduzida a produção de pólen. Uma planta condenada. Ou não?

Na verdade, estas herbáceas concentraram-se no essencial: uma produção suficiente de frutos, sem desperdícios nem excedentes, e um processo eficiente de a escoar. O polimorfismo dos frutos é o maior encanto das valerianelas. Os frutos são nozes com três cavidades desiguais, uma delas com uma semente e as outras duas ocas ou recheadas de um material esponjoso como cortiça, talvez para protecção ou alimento da semente. Mas eles podem ser mais ou menos hirsutos, com ganchos mais ou menos aduncos, com um maior ou menor desenvolvimento das cavidades estéreis, com ou sem membranas aladas, etc, etc, características importantes que resultam da adaptação ao habitat — que pode ser uma escarpa rochosa, um terreno cultivado ou um muro velho — e, sobretudo, aos dispersores das sementes. As variações em cada espécie podem ocorrer numa mesma população e até numa mesma planta. O que naturalmente complica a tarefa de arrumação taxonómica se baseada na morfologia do fruto. Os apêndices dentados que se notam nas fotos são parte dos cálices que rodeiam as corolas (azuladas ou rosadas, com cinco lóbulos) e persistem nos frutos.

O género tem cerca de 50 espécies nas regiões temperadas da Europa e da Ásia, mais de trinta nativas da Turquia. Na Península Ibérica há registo de doze, cerca de metade das quais ocorrem em Portugal. A V. locusta é comestível e até popular em saladas suíças: é a nossa alface-de-cordeirinho (ou, como nos informou Carlos Aguiar, canónigos) e a nüsslisalad deles, com um sabor acentuado a avelã.