09/05/2015

Barril de flores


Euphorbia terracina L.


Três meses decorridos sobre a nossa viagem ao Algarve, e folheado o álbum de fotos até à última página, está na hora de nos despedirmos. A última planta da série algarvia (nada inferior às suas antecessoras, convém ressalvar) empurra-nos já para outras latitudes. Anda longe de ser exclusiva das praias do sul, embora nos últimos anos pouco tenha sido vista a norte do Tejo. Dada a profusão de eufórbias que já por aqui desfilaram, não será ofensa dizer que esta de média dimensão (uns 40 cm de altura, por vezes bastante mais) não é das mais distintivas, apresentado vincadas semelhanças com a E. serrata e a E. segetalis. Da primeira distingue-se pela forma das folhas e pelos apêndices lineares dos nectários; da segunda pelo aspecto geral prostrado e muito ramificado, pelo serrilhado das folhas e das brácteas, e pela textura lisa das cápsulas (as da E. segetalis são rugosas). Em Portugal, a Euphorbia terracina ocorre (ou ocorria) do Minho ao Algarve em dunas e pinhais costeiros, mas noutros pontos da sua distribuição circum-mediterrânica afasta-se até 100 Km da costa. Vimo-la em maior profusão na ilha de Tavira, tanto na duna secundária como à sombra das casuarinas que ladeiam a miniatural linha férrea do Barril. Exibia uma floração ainda incipiente, e com a época mais adiantada teria sido possível apreciar melhor a arquitectura dicotómica da sua inflorescência.

É este lamento recorrente de termos chegado antes de inaugurada a festa das flores que, quem sabe, nos fará regressar ao Algarve em época mais propícia, porém já não em 2015 nem talvez a tempo de reportar no blogue o que por lá descobrirmos. Houve dois ou três mistérios botânicos que ficaram por desvendar, e como não somos egoístas damos ao leitor oportunidade de se debruçar sobre um deles. No cabo de São Vicente, nos interstícios das pedras calcárias que forram o chão a poucos metros das arribas, vimos uma Silene algo semelhante à vulgar S. littorea das dunas litorais. No entanto, e apesar de não vislumbrarmos outra candidata plausível entre as quarenta espécies do género descritas para Portugal, as diferenças na folhagem, no hábito e até no recorte das pétalas sugerem que esta silene vicentina não é a Silene littorea. Eis as fotos para o leitor entendido dizer de sua justiça.


06/05/2015

O café de que o rei gostava


Astragalus boeticus L.


O perfil agrícola que Portugal teve, e que começou a alterar-se há quatro décadas, tornou-se um capítulo do passado que se evita reler. Tal impressão desagradável não se refere, evidentemente, aos grandes produtores de fruta, cortiça, azeite ou vinho, que continuam a existir e a quem nunca faltaram incentivos e mérito. O que não deixou saudades foi a parte do país pobre, ignorante e acanhado, à mercê das intempéries, que se limitava a amanhar batatas e couves para se alimentar. Mas até as boas revoluções comportam enganos e, no nosso caso, houve um detalhe que nos escapou: julgou-se que, para além dos camponeses sem recursos e dos latifundiários bem sucedidos, não havia mais nada a ter em conta na nossa agricultura tradicional. Esqueceram-se dos poucos que praticavam uma lavoura informada, ainda que em pequena escala, que tirava bom partido das plantas, aromáticas e não só, cujo cultivo beneficiava o país com saúde, produtos agrícolas originais e comprazimento à mesa. Anos volvidos, resignados à comida insípida, vemos essas plantas servirem a gastronomia de luxo, orientada por chefes de cozinha que souberam aliar-se às fines herbes para obter mais sabor dos alimentos.

Vem este arrazoado a propósito de um artigo sobre a planta que aqui trazemos publicado em 2014 na revista Genetic Resources and Crop Evolution, incluído na secção dedicada a «neglected and underutilized crops». Ali se descrevem plantas cujo cultivo é hoje mal aproveitado, sobretudo se comparado com o seu sucesso como alimento noutras épocas. E este legume é bom exemplo disso. Conhecido como Swedish coffee por ter servido, no séculos XVIII e XIX, para produzir um substituto do café que os reis suecos de então (entre eles Gustavo III e o seu filho Gustavo IV) muito apreciavam, foi consumido em quase toda a Europa durante períodos em que as colheitas de café foram escassas ou ele esteve proibido*. Gradualmente, contudo, essa prática foi abandonada e a bebida de Astragalus boeticus foi substituída pelo sucedâneo de café obtido das raízes da cenoura ou da chicória, de preço semelhante mas, dizem os entendidos, de menor qualidade. Para os autores do artigo (que leva o título de Swedish coffee (Astragalus boeticus L.), a neglected coffee substitute with a past and a potential future), está na altura de relançar o cultivo e o consumo deste Astragalus, com benefícios antioxidantes comprovados e cujas vagens (de secção triangular e com um pequeno gancho na ponta) são também comestíveis. Para os que são intolerantes à cafeína, esta poderia tornar-se uma alternativa bem-vinda.

Como quase todas as leguminosas, esta planta é capaz de, em associação com bactérias apropriadas, fixar azoto do ar e assim reduzir a necessidade de fertilizantes. Talvez por isso, é pouco exigente quanto ao solo e à rega, embora se dê melhor em terreno arenoso e em locais com boa exposição solar. A favor do seu uso como substituto do café estão a ausência de um período obrigatório de dormência das sementes e o carácter indeiscente das vagens (não se abrem espontaneamente quando maduras e, por isso, não libertam descuidadamente as sementes). Além disso, floresce no início da Primavera e dá frutos no Verão, permitindo uma colheita antes dos rigores do Outono-Inverno.

É uma herbácea anual nativa da região mediterrânica, Médio Oriente e Macaronésia. Por cá, há poucos registos dela e situam-se quase todos no sul do país. Tal como no caso do Astragalus tragacanta, não são as flores, esbranquiçadas e agrupadas em cachos penugentos, a parte que nos parece mais bonita nesta planta. É a folhagem que chama a atenção, com as longas folhas imparipinadas, ciliadas e de um verde intenso.
*Proibido? É verdade: por ser importado e essa despesa ter demasiado impacto na balança comercial; por ser estimulante controverso, e ser preciso um papa para inocentá-lo; por estar associado a lugares de reuniões políticas ou religiosas potencialmente subversivas. A permissão para o seu consumo pelas mulheres chegou mais tarde, a par de outros direitos, como testemunha a Coffee Cantata, de Bach.

02/05/2015

Mercúrio no pinhal


Mercurialis elliptica Poir.


A biodiversidade vegetal de um lugar mede-se pelo número de espécies que nele se encontram, mas usar este parâmetro no seu sentido estrito, desligado de outras considerações, pode conduzir a resultados estranhos. Chegaríamos por exemplo à conclusão de que a civilização humana, em lugar de depauperar a biodiversidade, tem muitas vezes o efeito aparente de a reforçar. Uma encosta xistosa revestida de tojos, urzes, giestas e carqueja, como há muitas no norte de Portugal, ostenta menor variedade de plantas do que os canteiros desmazelados que é costume encontrar nas nossas cidades. E não me refiro às plantas que os jardineiros municipais (se é que eles ainda existem) lá puseram, mas àquelas que se instalaram pelos seus próprios meios. Também os taludes das estradas, habitats artificiais por excelência, podem concentrar uma diversidade vegetal muito superior à de certos bosques que nos parecem bem conservados.

O fenómeno dos lugares alterados com uma vegetação rica deve-se, em primeiro lugar, à abundância de nutrientes como azoto, potássio e fósforo. Esse enriquecimento do solo é muitas vezes acidental, resultando do pisoteio ou da deposição de dejectos, enquanto que outras vezes (como sucede em campos abandonados ou em pousio) é consequência directa da actividade agrícola. Não é surpresa que sejam muitas e muito diversas as plantas atraídas ao banquete. Contudo, estas plantas oportunistas, além de serem dotadas de um apetite invejável, devem ser capazes de crescer, florir e lançar semente num curto lapso de tempo, pois tais lugares humanizados são palco de frequentes perturbações. As plantas sem essas qualidades de adaptação acabam por desaparecer dos lugares ruderalizados. Assim, o que vemos num relvado, no talude de uma estrada suburbana ou na orla de um campo de cultivo pode ser um rico elenco de espécies vegetais, mas são quase sempre as mesmas e nem sequer faria grande diferença se estivéssemos noutro país da Europa ou até em alguma ilha dos Açores. Um incremento da biodiversidade local, com dezenas de espécies em poucos metros quadrados, traduz-se na verdade por uma homogeneização e um empobrecimento globais.

Todos os amadores de plantas têm presente este dicotomia, valorizando muito mais as espécies distintivas dos habitats naturais (que podem ou não ser raras) do que aquelas todo-o-terreno que frequentam assiduamente os habitats artificializados. Contudo, para mostrar que as coisas nunca são a preto e branco, há plantas de distribuição restrita (os tais preciosos endemismos) que de facto preferem fazer a casa em lugares degradados. O exemplo mais paradigmático é a Scrophularia grandiflora, uma planta ruderal (há que dar nome aos bois) que é endémica de Coimbra e arredores.

Não estou certo de que a Mercurialis elliptica encaixe nesta categoria paradoxal dos endemismos ruderais. O género Mercurialis inclui indiscutíveis espécies ruderais como a vulgaríssima M. ambigua, e as fontes consultadas (Nova Flora de Portugal e Flora Ibérica) concordam em atribuir à M. eliptica idêntica preferência por habitats adulterados. Contudo, na nossa visita ao Algarve vimos a M. eliptica num único local, no pinhal do Vale do Garrão, longe dos caminhos mais calcorreados pelos veraneantes, a poucos metros do tomilho-carnudo e de outras especialidades da flora algarvia. É injusto a M. eliptica ser acusada de ruderal sem que o mesmo vício seja imputado às suas companheiras. Menos controversa é a constatação de que ela tem uma distribuição global muito restrita, ficando-se pelo sul da Penínunsula Ibérica e por Marrocos, e de que a sua presença em Portugal, a julgar pelo número de registos no portal Flora On, é cada vez mais esporádica.

A terminar, eis alguns detalhes morfológicos. A Mercurialis elliptica, que tem base lenhosa e forma pequenas moitas de uns 50 a 60 cm de altura, distingue-se das suas congéneres por ser inteiramente glabra (a M. ambigua, por exemplo, tem as margens das folhas ciliadas) e por ter folhas coriáceas, com margens distintamente crenadas.

28/04/2015

Tomateiro do diabo


Solanum linnaeanum Hepper & P.-M.L. Jaeger


A planta das fotos trouxe-nos à lembrança um curto filme de animação que vimos há uns anos. O enredo é uma alegoria sobre a criação: duas nuvens têm a tarefa de gerar, moldando com mãos de nuvem pedaços da própria nuvem, as crias dos animais da Terra. Um par de cegonhas encarrega-se depois de fazer a entrega, sem engano, dos filhotes às respectivas mães. Uma das nuvens, habilidosa e maternal, faz amorosos bebés de gato, tigre, leão, urso e de outros tantos bichinhos fofos, aformoseando orelhas e patinhas com óbvio talento de design. A outra, rabugenta e um pouco estouvada mas artesã igualmente ágil, fabrica com afinco crias de cobra, jacaré, salamandra, aranha, escorpião, animais que nos amedrontam ou em que não vemos encanto especial nas formas e modos dos recém-nascidos. Naturalmente, a cegonha que colabora com a segunda nuvem não está satisfeita com a sua sorte e tenta mudar de emprego. A nuvem chove de raiva mas lá consegue chegar a um acordo: promete tentar fabricar bichinhos mais adoráveis; e o compromisso cumpre-se com um pequenino ouriço-cacheiro, lindo apesar de espinhoso.

Curiosamente, com as plantas, a nossa afeição tende mais para as já amadurecidas, de preferência a florir, ou para as árvores frondosas. Os rebentos parecem-nos ter, em geral, pouca graça, e há até quem os regue em demasia para ver se crescem mais depressa. Mas, se existissem nuvens-oleiros a gerar as plantas, esta de hoje seria criada por uma das ranzinzas. O aspecto geral é o do género Solanum. Vejam-se as flores: as cinco pétalas roxas unidas quase até ao meio que, quando ainda fechadas, formam um balão, abrem-se como flores-estrela tendo ao centro uma coluna amarela de estames a rodear um estilete. Mas a fisionomia crispada da folhagem e a profusão de espinhos causam uma impressão desagradável que nem os frutos jovens, semelhantes a fabulosas bolas de cristal, ajudam a aliviar.

Trata-se de uma espécie exótica, nativa da África do Sul, Moçambique e Zimbabwe, de que, por cá, só se conhecem registos no litoral sul e sudoeste, e sempre em locais ruderalizados. Talvez seja a espécie a que Lineu chamou Solanum sodomeum, e é conhecida em algumas referências inglesas como apple of Sodom. Na dúvida, foi rebaptizada, homenageando-se Lineu, o seu provável primeiro descritor.

25/04/2015

Bagas de sândalo


Osyris lanceolata Hochst. & Steud.
Ao contrário do que acontece com banqueiros e outros especuladores, o parasitismo entre plantas não é muito propício à ostentação. As plantas parasitas são, na sua maioria, pequenas herbáceas com um período de floração curto, ditado apenas pela necessidade de perpetuar a espécie. No resto do ano elas remetem-se a uma invisibilidade que condiz melhor com a sua índole oportunista.

Esta regra geral está, no entanto, sujeita a numerosas excepções que também têm o seu paralelo entre os humanos. Quem testemunha o estilo de vida de um milionário julga que ele terá trabalhado para acumular riqueza; e quem vê árvores ou arbustos pujantes acha que eles, através da fotossíntese, se alimentaram sozinhos para atingir tais dimensões. No entanto, há árvores e arbustos parasitas ou, pelo menos, hemiparasitas. O prefixo hemi, que significa metade, indica que o vegetal em causa, além de sugar várias das plantas que lhe estão próximas, dispõe de folhas verdes e é por isso capaz de realizar alguma fotossíntese. As duas fontes de alimentação, a própria e a roubada, contribuem para a dieta em proporções muito variáveis, havendo plantas hemiparasitas que, em percentagem, são quase totalmente parasitas, e outras que, em caso de necessidade, podem sustentar-se sem ajuda (um pouco como quem perde a fortuna num investimento azarado e descobre, com surpresa, que pode trabalhar para ganhar a vida).

Este Osyris lanceolata — a que, apesar de ser também nativo de Portugal, chamamos sândalo-africano por se encontrar amplamente distribuído no quadrante sudeste desse continente — é um arbusto hemiparasita muito ramificado e de consideráveis dimensões, que amiúde excede os 2 metros de altura. Não sabemos de que grau de parasitismo é culpado: certamente menos do que o seu primo afastado Arceuthobium azoricum (espigos-de-cedro), mas talvez mais do que a extraordinária árvore-de-Natal australiana (Nuytsia floribunda), capaz no estádio adulto de sobreviver mesmo quando toda a vegetação à sua volta é extirpada.

Componente comum dos matos mediterrânicos algarvios, mais frequente perto da costa, o Osyris lanceolata substitui, no sul do país, o seu congénere O. alba, que ocorre no resto do território e tem preferência por lugares mais húmidos e abrigados. Os dois sândalos distinguem-se pela envergadura, com o O. lanceolata a vencer o O. alba em quase todos os parâmetros: na altura (o O. alba raramente ultrapassa 1 metro), no tamanho das folhas (as do O. alba são estreitas, quase lineares, e têm metade do comprimento das do O. lanceolata) e no tamanho dos frutos (os do O. alba são distintamente menores).

O nome sândalo evoca a famosa madeira perfumada originária da Índia, e pode parecer um despropósito usá-lo para designar um simples arbusto. Mas o sândalo-da-Índia (Santalum album) e o sândalo-africano (Osyris lanceolata), além de pertencerem à mesma família botânica, partilham muitas das propriedades aromáticas, tantas que o último é tradicionalmente usado em África para produzir óleo de sândalo.

21/04/2015

Tomilho das areias


Thymus carnosus Boiss.


O suiço Pierre Edmond Boissier (1810-1885) é dos autores botânicos que mais assiduamente nos visita, embora o faça discretamente, usando a abreviatura Boiss. em vez do nome completo. Há duas semanas, porém, ao falarmos desta linária miniatural, nomeámo-lo por extenso. Agora que repetimos a dose convém recordar aos distraídos que o icónico lírio-do-Gerês recebeu o nome de Iris boissieri em homenagem a Edmond Boissier.

Pelo que pudemos respigar em livros e páginas da Internet, Boissier não parece ter alguma vez assumido qualquer cargo oficial ou académico. A fortuna familiar permitiu-lhe dedicar a vida às expedições botânicas e à escrita e edição dos livros em que descrevia as plantas descobertas por si e pelos seus colaboradores. Com uma vincada predilecção pelo Mediterrâneo e pelo sul da Europa, grande parte das 6000 espécies que lhe são creditadas foram colhidas em Espanha ou em Portugal. Desse grupo faz parte o tomilho de hoje, baptizado no tomo II do seu Voyage botanique dans le midi de l'Espagne pendant l'anné 1837. Boissier sublinha que este Thymus carnosus, já anteriormente assinalado nas praias de Setúbal mas atribuído então a uma outra espécie, se singulariza, entre outras coisas, pela consistência carnuda das suas folhas.

Habitante de dunas e de pinhais litorais, este pequeno arbusto, que exibe hastes erectas de não mais que 40 cm de altura e folhas com margens muito enroladas, ocorre apenas na Península Ibérica, e só a oeste do estreito de Gibraltar. A presença na província de Huelva desqualifica-o, por escassa margem, como endemismo lusitano, mas é na costa portuguesa desde a Arrábida até Vila Real de Santo António que se encontra o grosso das suas populações. Fazendo parte da pequena lista de plantas legalmente protegidas em Portugal, a sua inclusão nos anexos da Directivas Habitats é plenamente justificada, embora raramente lhe assegure a protecção que merece. A sua (cada vez mais esporádica) presença nas praias do Algarve nunca fez refrear a construção de hotéis ou de aldeamentos turísticos, nem motivou o impedimento de acesso dos veraneantes a algum areal mais vulnerável.

Vimos o tomilho-carnudo na ilha de Tavira, perto da praia do Barril, e também no Vale do Garrão, num dos fragmentos de pinhal que os espampanantes bairros de vivendas com palmeiras ainda não engoliram. Era aí que um pequeno arbusto, enchendo-se de brios por saber que morava num dos metros quadrados de areia mais caros do país, fazia desabrochar, adiantando-se ao calendário, as duas ou três primeiras flores da temporada.


Vale do Garrão

18/04/2015

Suspiros com folhas de arruda


Pycnocomon rutifolium (Vahl) Hoffmanns. & Link


Guardámos o último dia da nossa estadia no Algarve, em Fevereiro, para visitar o Alvor, lugar que evoca o acordo assinado, em Janeiro de 1975, por Portugal e pelos movimentos de libertação de Angola. Chovia bastante e o ar impregnado de maresia saturava o ambiente, relembrando-nos que ali há outra ria, a de Alvor. Mais uma vez não é bem uma ria mas um pequeno rio, que reúne as águas de quatro ribeiras que nascem na serra de Monchique e que desaguam num estuário largo onde coabitam dunas cinzentas, praias, sapais salgados, terrenos agrícolas, mato natural e pinhal. Este é um habitat classificado como Sítio de Importância Comunitária, galardão que se espera suficiente para que seja devidamente conservado.

Parecia, junto ao caminho para a praia, que alguém fizera dispor inúmeros coxins verdes, de folhas muito divididas, com antenas espetadas, uma ou outra encimada por capítulos de flores brancas. Já nos tínhamos cruzado com estas plantas na Ponta da Areia, em Vila Real de Santo António, mas nessa altura circulávamos num passadiço alto que não permitiu fotografá-las em pormenor. Desafortunadamente, a chuva forte obrigou-nos a abreviar o passeio na praia mas, com dois guarda-chuvas tentando proteger fotógrafo e objectiva, foi possível registar estas flores de Inverno. Parece que a floração da planta atinge o auge no fim da Primavera; suspeitamos que, por essa altura, estes herbáceas altas de folhagem basal densa quase ocultarão a areia com o seu lençol de flores brancas.

O género Pycnocomon contém uma espécie da região mediterrânica (P. rutifolium, cuja distribuição conhecida em Portugal pode ser vista aqui), e um endemismo da Península Ibérica, Pycnocomon intermedium, de flores arroxeadas, que também aprecia solos arenosos, sejam do litoral ou do interior. O leitor pode comparar, nestas fotos sem salpicos de chuva, aspectos morfológicos das folhas, flores e frutos das duas espécies, e obter na mesma página mais informações sobre as suas preferências ecológicas.

14/04/2015

Decifrar os lábios


Cheilanthes maderensis Lowe


São motivo de justificado espanto o zelo e a perspicácia com que os botânicos, esses mexeriqueiros, investigam a vida amorosa dos fetos. Um leigo até apostaria que o assunto é vazio, já que (julga ele saber) é pelas flores que as plantas se amam e se reproduzem, e os fetos nem flores têm. Mas também algum historiador ingénuo poderia pensar que, por força do celibato, nada haveria a contar da vida carnal do clero católico, e afinal foram muitos os filhos de pais incógnitos gerados no silêncio dos mosteiros e das casas paroquiais.

A promiscuidade vegetal tem aspectos interessantes, em particular entre as pteridófitas. Quando se cruzam duas espécies distintas, o mais provável é que o híbrido resultante seja estéril, já que os cromossomas do "pai" e da "mãe" são incompatíveis e não conseguem formar pares perfeitos. Um modo de fintar a esterilidade é, em vez de tentar o emparelhamento, duplicar o número cromossómico, juntando todos os cromossomas dos dois progenitores. O filhote dessa relação é chamado de poliplóide (triplóide, tetraplóide, pentaplóide e assim por diante, dependendo de quantas cadeias de cromossomas herdou); e, tal como sucede com os híbridos, exibe caracteres morfológicos intermédios entre as duas espécies. Trata-se, contudo, de uma nova espécie, capaz de se multiplicar por reprodução sexuada. Ainda que muito raramente um acasalamento interespecífico resulte em poliploidia, calcula-se que ela seja responsável por mais de metade das espécies vegetais existentes à face da Terra. O mecanismo darwinista de evolução e adaptação graduais não é pois o único a actuar na diferenciação das espécies.

Das cinco espécies de Cheilanthes existentes na Península Ibérica (e em Portugal), duas delas (C. hispanica e C. maderensis) são diplóides, significando isto que se situam na base da árvore genealógica. Destas duas e dos seus parceiros de ocasião descendem as restantes três espécies, todas elas tetraplóides: C. guanchica, C. acrostica e C. tinaei. O facto de os poliplóides guardarem a informação genética completa dos seus antepassados imediatos permite identificá-los mesmo em casos de paradeiro incerto. Assim, o que hoje aqui trazemos é o retrato de uma família algo disfuncional, em que se vêem a mãe (C. maderensis, em cima) e o filho (C. guanchica, em baixo) mas falta o pai (C. pulchella), que ultimamente só tem sido visto nas ilhas Canárias. Se a genética fornece provas inequívocas deste parentesco, aquilo que nos é dado observar (com a ajuda da lupa ou de fotos muito ampliadas) torna-o ainda mais plausível: tanto na forma das pínulas como na dos pseudo-indúsios (que no C. maderensis são fragmentados e no C. pulchella revestem continuamente as margens), o C. guanchica é a média aritmética perfeita dos seus progenitores.

Todos os Cheilanthes gostam de lugares secos, vivendo em fendas de rochas ou de muros com maior ou menor exposição solar. Não sendo o apreço pelo sol ou o grau de secura do habitat um dado fiável para diferenciar as espécies, é porém útil saber que o C. acrostica prefere rochas calcárias (sendo por isso o único dos cinco que ocorre nos afloramentos calcários do Centro Oeste, desde Sicó até à Arrábida), que o C. guanchica também gosta de substratos básicos, e que os restantes três se refugiam em rochas siliciosas ou (no caso do C. hispanica) em quartzitos. Sendo o C. hispanica de fácil identificação pela cor ferruginosa do verso das frondes, resta-nos o problema real de distinguir o C. maderensis do C. tinaei. Além do que está explicado nesta página, é de assinalar a presença de pêlos glandulares só no C. tinaei, e de algumas páleas (ou pequenas escamas) ao longo da ráquis do C. maderensis (3.ª foto acima).

O regresso do C. guanchica aqui ao escaparate justifica-se não só para compor este retrato de família, mas também para celebrar o nosso reencontro, na serra do Monchique (Algarve), com um feto que antes apenas víramos na ilha do Pico (Açores).



Cheilanthes guanchica Bolle (fotografado em Monchique, Algarve)

11/04/2015

Sementes que cantam


Ilha de Tavira: comboio da praia do Barril

Planeámos uma visita à ilha de Tavira em pleno Inverno para a conhecer sem o rebuliço da época balnear e ali ver algumas das plantas do areal que preferem florir durante a época fria. Chegados ao aldeamento de Pedras d'el Rei, cruzámos uma ponte estreita e bastante curvada, e embarcámos num vagão com bancos de escola primária, puxado por uma máquina a vapor de brinquedo, que nos levou, sem ruído nem pressa (a distância era curta: apenas 1 Km), até à praia do Barril. Apeados perto do mar, deparámo-nos com várias casas de apoio a veraneantes e com uma longa fiada de casuarinas (Allocasuarina torulosa) — árvores essas que, sem dúvida, garantem abençoada frescura nos meses quentes, mas não condizem com a paisagem que esperávamos encontrar num habitat prioritário do Parque Natural da ria Formosa.

Durante a viagem de comboio notámos, entre a vegetação predominantemente rasteira, uns arbustos de ramagem ondulante pejada de flores brancas.



Retama monosperma (L.) Boiss.


Reconhecêmo-los porque já havíamos visto no Alentejo um arbusto aparentado (Retama sphaerocarpa) que dá flores amarelas durante a Primavera-Verão, e cujos frutos, que têm a casca dura e a semente solta (raramente é mais do que uma) a chocalhar lá dentro, soam como minúsculas cabaças de percussão.

A retama (vassoura em espanhol) que vimos na praia do Barril, e de que se conhecem numerosas populações em dunas secundárias ou em pinhais costeiros do litoral centro e sul do país, é hoje em dia mais fácil de avistar porque tem sido utilizada na revegetação dos taludes e separadores das auto-estradas. Junto ao mar, ela sabe proteger-se do vento e da maresia: os talos novos são penugentos e as flores também se agasalham com basto pêlo; além disso, os galhos sem espinhos são maleáveis e abanam sem quebrar (por isso, fazem-se com eles vassouras afamadas). Nas estradas terá de resistir aos herbicidas e às roçadelas frequentes que por certo deformarão o porte de tamargueira que lhe é característico.

O género Retama, que já se chamou Lygos (termo grego que alude aos talos flexíveis) e talvez venha a integrar-se no género Genista, abriga apenas duas espécies espontâneas na Península Ibérica. A de flores brancas é conhecida como piorno-branco e (quem sabe, também entre os ingleses que frequentam o Algarve) como bridal veil broom.

06/04/2015

Pequenas, amarelas e breves


Linaria munbyana Boiss. & Reut.

Do Algarve a Marrocos ou à Argélia é um pequeno salto, que as plantas deram muito antes do homem e das divisões geopolíticas por ele criadas. Embora discreta e pouco vista, quem sabe se por culpa da floração precoce, a linária de hoje fornece mais um exemplo desses laços transmediterrânicos. Completada a primeira dezena da nossa série de plantas algarvias, verificamos que, com excepção dos dois endemismos vicentinos, todas elas marcam presença tanto a norte como a sul do mar Mediterrâneo. E a Linaria munbyana faz ainda parte, com a Aristolochia baetica e a Phlomis purpurea, do clube mais selecto das plantas que são exclusivas dos quatro países mais ocidentais da bacia mediterrânica: Espanha, Portugal, Marrocos e Argélia. É tentador perguntar se essas plantas euro-africanas são mais de cá ou de lá: tiveram origem na Península Ibérica e daqui passaram para o norte de África, ou foi ao contrário? Talvez a pergunta seja irrespondível ou mesmo disparatada, pois os mares e os continentes não tiveram sempre a configuração que hoje apresentam. Mas, no que toca ao seu reconhecimento taxonómico, a Linaria munbyana é mais magrebina do que ibérica, pois foi a partir de exemplares colhidos na Argélia, perto da cidade costeira de Orã, que o suiço Pierre Edmond Boissier (1810-1885) e o francês Georges François Reuter (1805-1872) primeiramente descreveram a espécie na obra Pugillus plantarum novarum Africae borealis Hispaniaeque australis (Genebra, 1852) — título que em português dá Um punhado de novas plantas do norte de África e do sul do Espanha. O nome que lhe atribuíram, dedicado a Giles Munby (1813–1876), botânico inglês formado em Edimburgo e em Paris, dá testemunho da crescente presença europeia num país que tinha sido anexado pela França em 1830: Munby viveu e trabalhou na Argélia de 1839 a 1860, enriquecendo o conhecimento da flora local com centenas de novas espécies.

As fotos não enganam, e esta é uma daquelas linárias que só admitem viver nas dunas da beira-mar. Do Tejo para norte esse grupo parece ter um único representante, mas se descermos pela costa alentejana a diversidade vai aumentando, e são pelo menos quatro as linárias dunares que enfeitam a costa algarvia. De todas elas, a Linaria munbyana — atingindo 2 a 6 cm de altura, com flores de 1 cm ou menos de diâmetro, e floração de Fevereiro a Março — é certamente a menos vistosa e a que menos vezes é observada. Como planta anual que é, tem a sorte de cumprir todo o seu breve ciclo de vida antes de as praias onde vive serem tomadas de assalto pelos veraneantes. A sua fortuna pode, contudo, oscilar bastante, com as populações a variarem de uns anos para os outros entre muitas centenas e poucas dezenas de indivíduos. A acreditar no que pudemos ver, 2015 terá sido um bom ano para ela.

02/04/2015

O lince e a sequóia

Imagine-se que, depois de toda a comoção e efervescência mediática com o retorno do lince-ibérico a Portugal, é chegado o momento de soltar na natureza os primeiros linces criados em cativeiro. Com muitos jornalistas, fotógrafos, operadores de câmara, políticos e biólogos a postos para a ocasião, eis que os bichos que saem das jaulas de transporte, algo sobressaltados por tanta gente à sua volta, são simples gatos domésticos e não os desejados linces. Contudo, não se ouve qualquer reparo. Talvez apenas ao ministro pareça que alguma coisa nas orelhas dos felinos agora postos em liberdade (e que rapidamente desaparecem de vista) não bate certo com as fotos que consultou à socapa na Internet antes de vir para a cerimónia. O ministro, porém, acha prudente calar-se: não lhe cabe pôr em dúvida a competência dos técnicos especializados que ajudaram a criar os alegados linces, e que agora se quedam emocionados vendo-os ir à sua vida. Quanto aos jornalistas, estão ali para propagar a boa nova e não para fazer perguntas impertinentes. E assim acontece: televisões, redes sociais, imprensa escrita — toda a comunicação social, mostrando imagens dos gatinhos, garante que os linces estão de volta a Portugal. Como de costume, há um ou outro São Tomé empedernido que duvida até do que vê, mas felizmente ninguém leva a sério esses poucos incréus que tentam refutar a notícia chamando a atenção para o pormenor das orelhas.

Se um tal episódio de ignorância e credulidade colectivas é manifestamente improvável quando se trata de animais (embora seja comum a confusão entre lobos e cães assilvestrados), já o mesmo não sucede com as árvores. De facto, a história que a Câmara do Porto engendrou à volta do abate e substituição da sequóia-gigante do Jardim do Carregal teve um desfecho não menos burlesco do que a história imaginária do lince-que-afinal-era-gato. Nem sequer faltaram jornalistas para amplificar o dislate. Jornalistas que, quando para ele alertados, responderam com o silêncio que as pessoas de bem reservam aos interlocutores inconvenientes.

A Câmara Municipal do Porto (CMP) não trata as árvores com especial carinho, sendo bem mais lesta a abatê-las (por razões que nem sempre se entendem) do que a substituí-las. As tílias que há três ou quatro anos foram cortadas à frente dos jardins do Palácio de Cristal nunca foram substituídas. Pelo contrário, encheram-se as caldeiras com paralelipípedos. Noutros locais da cidade onde se fez o mesmo (e foram muitos) usou-se cimento ou alcatrão, mas o resultado foi idêntico: desapareceram não só a árvore mas o próprio lugar da árvore. E o modo como a CMP lida com as suas árvores em nada se alterou com a mudança do poder político.

Mas houve uma coisa que mudou. Se ao vereador faltam força política, competência ou vontade para melhorar os serviços sob a sua tutela, já lhe sobra argúcia para entender que, muito mais do que fazer as coisas bem, importa noticiá-las bem. Entre nós, o desvelo encenado pela árvore ou pela natureza, mesmo sendo oco (coisa que nenhum jornalista se dá ao trabalho de averiguar), garante sempre boa imprensa. Em vez de se plantarem as árvores que fazem falta nas ruas que a CMP se encarregou de despir, o vereador determina que será plantada uma só árvore, mas essa árvore e os eventos criados a propósito dela hão-de ser notícia do maior destaque.

E as coisas pareciam correr a preceito. A morte da sequóia-gigante (Sequioadendron giganteum) do Jardim do Carregal e a sua longamente anunciada substituição renderam, só no jornal Público, nada menos que quatro notícias ao longo de 15 meses (1, 2, 3, 4). Era o vereador a lamentar a perda de uma árvore classificada (coisa que ela nunca foi), era a promessa de que seria substituída por outra da mesma espécie, era o painel com a foto da falecida em contra-luz, era a colaboração dos alunos de Belas Artes.

O leitor por certo já adivinhou o desfecho da história. No meio de tanta festa e animação cultural à volta da árvore, ninguém se lembrou de olhar para ela com olhos de ver. No lugar da anunciada Sequoiadendron giganteum (sequóia-gigante), o que mora no Jardim do Carregal desde 19 de Março é mais um exemplar de Sequoia sempervirens (sequóia-sempre-verde). A segunda destas espécies, ao contrário da primeira, é frequente nos jardins do Porto e de outras cidades portuguesas. No próprio Jardim do Carregal há mais uns vinte exemplares de sequóia-sempre-verde, alguns deles a meia dúzia de metros do exemplar agora plantado.

As duas sequóias têm folhagens muito diferentes, e não é preciso ser-se um fino conhecedor de árvores para as distinguir. Isso mesmo é ilustrado pelas fotos que se seguem, tiradas esta semana nos jardins do Carregal e da Cordoaria (é no último que vegeta uma das duas únicas sequóias-gigantes do Porto; a outra está no Parque de Serralves).


Sequoia sempervirens (D. Don) Endl. — plantada em 19 de Março de 2015 no Jardim do Carregal


Sequoiadendron giganteum (Lindl.) J. Buchholz — fotografada no Jardim da Cordoaria

31/03/2015

Candeias de veludo


Phlomis purpurea L.


Há algum tempo comprámos uma lupa pequena para levar no bolso durante os nossos passeios pelo campo. Veio numa caixinha que se desdobra e, desse modo, nos permite segurar a lupa sem tocar no vidro. É frequente usá-la, por exemplo, para identificar as espécies de Cheilanthes, cuja destrinça é tarefa delicada. Bem, esse é o uso sério da lupa. Nos intervalos, ela deixa-nos entrever um mundo de coisas minúsculas que não sabíamos que existiam e que raramente investigamos.

Veja-se, por exemplo, o aspecto sedoso da planta das fotos. Quando tocamos e espiamos à lupa o veludo que recobre quase totalmente as folhas, os caules e os capuchos das flores, notamos que ele é feito de pêlos estrelados e rijos. Esta herbácea alta, de floração primaveril, habita essencialmente o sul do país (Algarve, Baixo Alentejo e Beira Litoral; e, mais geralmente, é nativa do terço sul da Península Ibérica e do noroeste de África), onde as temperaturas são amenas quase todo o ano. Não se exclui, porém, a necessidade de algum agasalho das flores nos dias mais frios e sobretudo de muita sombra que refresque no Verão. E, à semelhança das pesadas roupas de quem vive no deserto, um indumento denso é um mecanismo hábil para controlar a temperatura e a perda de água por evaporação.

Mas será só por isso que tantas plantas são hirsutas e têm pêlos aparentemente tão agressivos? Decerto uma camada desta penugem também garante protecção das partes mais frágeis e vitais da planta (folhas e flores, hastes das inflorescências) contra insectos que, se tentam andar sobre ela ou dar-lhe uma dentada, tropeçam na malha de pêlos, ficam de patas presas, picam-se, escorregam em glândulas com goma tóxica ou têm de mastigar uma lã crespa e espinhosa. Alguns insectos acabam por aprender a lidar com estes entraves, e há os que sabem caminhar na planta devagar e em segurança, ou os que têm tromba longa para debicar a planta sem terem de penetrar até à seiva pelo arame farpado. E não será apenas para afastar perigos que as plantas se cobrem de pêlos: quando já há frutos, os pêlos estão também mais secos e fácilmente se agarram a quem passa, garantindo desse modo uma dispersão mais eficiente para novos habitats.

Em Fevereiro, é muito improvável que a marioila esteja em flor. Contudo, no Barrocal algarvio, em orlas de matos ou lugares soalheiros com solo básico, as populações desta Phlomis são tantas e tão abundantes que a probabilidade de encontrar pelo menos uma haste florida é já significativa. E cá está ela: as fotos mostram as folhas decussadas de nervuras salientes; os andares de cerca de oito flores em cada verticilastro a rodear o caule (de que a penugem esconde a secção quadrada); o cálice de brácteas imbrincadas; o lábio superior da flor (com cerca de 13 mm) protegendo a entrada; e o lábio inferior largo e quase horizontal, a oferecer uma pista de aterragem confortável aos polinizadores.

O nome da planta, do grego chama, alude ao aspecto das hastes florais que lembram as torcidas das lamparinas (acesas, diríamos, no caso da Phlomis lychnitis). Não sabemos se, de facto, terá tido este uso, como alega a Flora Ibérica, mas alguns estudos recentes de cientistas espanhóis confirmam a relevância de um outro uso tradicional da Phlomis purpurea: ela contém substâncias com efeito anti-inflamatório bastante eficiente contra problemas intestinais. Bom seria que um tal benefício não se ficasse pelas cobaias de laboratório.

28/03/2015

Estrela do mar


Asteriscus maritimus (L.) Less.


As falésias do Barlavento algarvio, vistas de cima como só aos pássaros é dado ver, aparecem entre Abril e Maio delineadas com o traço amarelo-vivo das estrelas-do-mar em floração. Pelo menos é assim que nós, que não somos pássaros, as imaginamos; mesmo que o fôssemos, a nossa rota migratória teria cruzado demasiado cedo os céus do Algarve. São tantas as estrelas-do-mar que em qualquer altura do ano há sempre alguma flor que desrespeita o calendário. E não o faz por engano, mas sim obedecendo à prática comercial em que se dá a ler de graça o primeiro capítulo de uma obra, e quem quiser saber a continuação que compre o livro. Aqui trata-se igualmente de capítulos, pois é esse o nome técnico das inflorescências dos malmequeres e demais asteráceas. Vimos inúmeras plantas sem capítulos, vimos capítulos já secos da temporada anterior, e vimos, nas arribas do cabo de São Vicente, com o coração aos pulos, o primeiro, segundo e terceiro capítulos da grande saga de centenas de milhares de capítulos que se prepara para a Primavera de 2015. Fôssemos nós mais abonados de tempo, o engodo teria funcionado na perfeição e o regresso estaria marcado para breve. Ao contrário do que muitas vezes sucede com os livros, não nos sentiríamos enganados, pois o desenvolvimento da história não iria trair, muito pelo contrário, o fulgor dos capítulos preliminares.

Não sendo a zoologia o nosso assunto habitual, o leitor terá notado que não usamos estrela-do-mar para designar um bicho marinho, mas sim a planta que aparece ilustrada nas fotos. Dado ser pequeno o risco de confusão, não é inédito animais e plantas terem iguais nomes vernáculos: um exemplo é dado pelas anémonas, que tanto podem ser do mar como do bosque. A tradução à letra do nome latino Asteriscus maritimus seria estrelinha-do-mar, mas preferimos dispensar o diminutivo. Certo é que este Asteriscus merece designação mais bonita do que o pampilho-marítimo registado em certas obras de referência, e que o nome estrella de mar é já usado em castelhano e em catalão.

Endémica da metade oeste da bacia mediterrânica, a estrela-do-mar é uma planta perene, de base lenhosa, formando as almofadas típicas das plantas que crescem em lugares muito castigados pelo vento, como são as arribas onde costuma fixar-se. A reacção ao ambiente agreste não a levou, contudo, a armar-se de espinhos como fez a sua colega vicentina, igualmente almofadada mas imprópria para nela recostarmos a cabeça. As suas folhas, agrupadas em atraentes rosetas, têm um aspecto acetinado, e os capítulos, que são de um amarelo vivo e surgem em grande profusão, têm cerca de 4 cm de diâmetro.

Homenagem merecida foi a que Chris Thorogood e Simon Hiscock prestaram à estrela-do-mar ao colocá-la na capa do seu livro Field Guide to the Wild Flowers of the Algarve (Kew Publishing, 2014). É uma escolha muito atraente, predispondo-nos de imediato a gostar de um livro que, não sendo isento de defeitos (algumas omissões sérias, meia dúzia de erros de identificação, fraca discriminação entre autóctones e exóticas), está bem ilustrado e bem escrito, com verbetes justos que realmente permitem reconhecer as espécies descritas.


costa algarvia perto de Ferragudo