17/11/2015

Trifásia


Euphrasia alpina Lam.


Euphrasia minima Jacq. ex DC.


Euphrasia stricta J. P. Wolff ex J. F. Lehm.
O consolo-da-vista pode revelar-se uma frustração para um botânico que queira ser escrupuloso. Não sendo nós profissionais da matéria, e não tendo por isso qualquer reputação a defender, é com resignação que acolhemos estas ervitas para uma sempre refrescante lição de humildade. Depois de termos visto duas Euphrasias no Pico Tres Mares, quis a sorte (ou o azar, conforme a perspectiva) que no dia seguinte, numa das paragens da interminável viagem de regresso, pudéssemos juntar uma terceira Euphrasia à colecção. Já em casa, com as fotos transferidas para o computador, ao abalançarmo-nos na tarefa de dar nome às plantas retratadas, eis que as Euphrasias teimavam em não se deixar identificar. Como não as poderíamos trazer a público sem o resguardo de um nome, acabámos por lhes colar as etiquetas que pareciam assentar-lhes menos mal. Fica o leitor prevenido de que o grau de incerteza é elevado. Só no caso da Euphrasia minima, que se singulariza pelas flores amarelas mas também as dá brancas, é que apostaríamos mais do que um chavo na nossa escolha.

A que se deve tanta hesitação? Das 200 a 300 espécies de Euphrasia que o revisor do género na Flora Iberica (vol. XIII, 2009) admite existirem no mundo inteiro, apenas nove, segundo ele, ocorrem na Península Ibérica. Quase todas têm distribuição tendencialmente nortenha, e todas, a acreditar no portal Anthos, alcançam a Cantábria. Se a geografia não nos ajuda a restringir as escolhas, devemos reconhecer, contudo, que nove é um número manejável. A dificuldade está em que o conceito de espécie não foi feito para lidar com as Euphrasias: a hibridação é frequente, e em resultado da autogamia ou das diferentes condições ecológicas duas populações alegadamente da mesma espécie podem ter aspectos bem diferentes, seja no tamanho e grau de ramificação das plantas, seja na cor das flores. Dependendo das variações climatéricas, certas características morfológicas podem alterar-se de ano para ano dentro da mesma população. Em resultado de tudo isto, foram descritas dezenas de micro-espécies que hoje são tidas como simples ecótipos, e raramente dois especialistas exprimiram idêntica opinião quanto à circunscrição das espécies ou à sua efectiva existência.

Como é regra no género a que pertencem, as Euphrasias ibéricas são plantas hemiparasitas, embora possam uma vez por outra sobreviver sem hospedeiro. Em contraste com as suas congéneres açorianas, são pequenas herbáceas anuais, de flores diminutas, com uma predilecção por habitats de montanha. A Euphrasia minima, erecta e pouco ramificada, com uns 15 a 30 cm de altura e flores de uns 4 ou 5 mm de diâmetro, pode passar despercebida entre os matos rasteiros onde costuma resguardar-se. As outras duas espécies aqui fotografadas não são muito mais avantajadas. A que identificámos como E. alpina apresenta abundante ramificação e flores claramente maiores do que as das outras duas espécies; diverge porém das formas típicas de E. alpina pela cor das flores (que deveriam ser rosadas) e pela forma das folhas, que a aproximam mais da E. salisburgensis. Esta última, porém, tem flores pequenas e prefere solos básicos. Finalmente, a nossa terceira espécie, a hipotética Euphrasia stricta, foi por nós assim baptizada por causa do recorte das folhas e porque, tendo-nos aparecido numa berma de estrada, a sabemos frequente na Cantábria. Trata-se de um taxón algo indefinido, quiçá albergando várias espécies distintas, o que, para nossa tranquilidade, dificulta um desmentido categórico da identificação proposta.

Em Portugal continental só estão assinaladas duas espécies de Euphrasia (E. hirtella e E. minima), ambas raríssimas e ambas apenas em Trás-os-Montes, mas alguém com apreço pela nossa língua resolveu que elas deveriam ter nome em português e chamou-lhes consolo-da-vista. Apesar de ele nunca ter andado nas bocas do povo, gostamos do nome, que ecoa ao vernáculo noutras línguas (eyebright em inglês, augentrost em alemão) e recorda o antigo uso destas plantas no tratamento de problemas oculares.

14/11/2015

Estender a manta


Alchemilla xanthochlora Rothm.




Alchemilla alpina L.
Basta um olhar de relance pelos jornais para notarmos como a língua portuguesa tem sido contaminada por anglicismos ou neologismos semânticos um pouco insólitos. Há que reconhecer que o português não parece ter a mesma facilidade que o inglês em construir palavras curtas com um significado exacto (como email, internet, google, slogan, stress). Mas não se perdoa o uso intensivo de estrangeirismos havendo vocabulário equivalente em português que, por ignorância ou falta de brio como utentes da língua portuguesa, muitos desprezam ou tratam mal. Ora vejam-se os casos de "phones" em vez de "auscultadores"; "hoodie" em vez de "capuz"; "printar" em vez de "imprimir"; "saite" em vez de "sítio"; "antecipar" em vez de "prever"; "deletar" em vez de "apagar"; "resiliente" em vez de "resistente"; "eventualmente" em vez de "por fim", "assumir" em vez de "supor", "mapa" em vez de "função". Dirão que tamanha quantidade de palavras ou significados novos é um enriquecimento da língua, tal como para alguns a introdução de flora exótica o é do nosso património natural. Pois sim, mas todos os acrescentos recentes são como os mencionados acima e, portanto, não se trata de vocábulos originais. De facto, não nos lembramos de ver nascer recentemente uma palavra nova na língua portuguesa (excluindo desta categoria os híbridos notáveis de Mia Couto), nem sabemos bem como isso ocorre. Ainda que a hipótese soe improvável, seria prodigioso que a linguagem criasse realidade ainda não estreada.

A brevidade telegráfica a que aludimos não é indispensável nas expressões vernaculares com que designamos plantas e bichos, e não nos parece faltar talento para as inventar. Para o género Alchemilla, há registo de vários nomes curiosos, como erva-estrelada, pata-de-leão e pata-de-urso; em inglês, por falta de leões e ursos, chamam-lhe lady's mantle. Estas herbáceas são parentes das rosas, cerejeiras, morangueiros, macieiras, pereiras, etc., na família Rosaceae, mas não têm como estas espécies flores vistosas. Ervas perenes, sobrevivem com um rizoma aos rigores do Inverno, além de resistirem bem à humidade elevada e ao ar rarefeito das montanhas. Na Primavera, exibem folhas de longos pecíolos, palmadas como leques e divididas, notando-se nas margens uns dentinhos ou alguma penugem. As flores, essencialmente de Verão, são minúsculas, esverdeadas e sem pétalas, e agrupam-se em inflorescências terminais bem destacadas da folhagem. Há decerto polinizadores atraídos por esta configuração floral, mas a maioria das espécies de Alchemilla não se reproduz sexualmente, optando pela apomixia (isto é, o fruto desenvolve-se sem que haja fecundação, apenas a partir do óvulo ou de uma célula vegetativa). Não surpreende, por isso, que convivam no mesmo habitat espécies distintas de que não se conhecem híbridos, como estas duas vizinhas que vimos na Cantábria.

O género Alchemilla não é raro na Península Ibérica (onde há registo de 84 espécies) nem na Europa e Ásia (onde esse número ascende a cerca de 300), e até há algumas espécies tropicais neste género, nativas de montanhas altas do sul de África e da América do Sul. Mas a sua preferência por regiões montanhosas e muito frias exclui quase todo o território português, bafejado por clima ameno e com influência mediterrânica. Sobra o topo da serra da Estrela, claro, onde se conhece uma espécie de Alchemilla que vive em fendas de rochas acima dos 1700 metros, mas que nunca vimos.

10/11/2015

Espadas rombudas


Iris latifolia (Mill.) Voss [= Xiphion latifolium Mill.]


Foram exactamente dois, e separados por centena e meia de quilómetros, os lírios que avistámos na nossa viagem à Cantábria. O primeiro, equilibrado numa ladeira íngreme junto a uma ribeira, não oferecia condições de segurança para ser fotografado; o segundo, que nos apareceu já nas Astúrias entre duas das inúmeras curvas de uma estrada de montanha, ainda mais nos atrasou o almoço pelo qual os estômagos há muito clamavam. Dirá o leitor bem intencionado mas distraído que valeu a pena a paragem, pois pelas bandas de cá o lírio-do-Gerês não costuma oferecer-se aos preguiçosos que não se afastam das estradas. Mas não se tratava do lírio-do-Gerês, nem nós esperaríamos encontrá-lo tão longe da serra que lhe serve de berço. Observe o leitor atentamente as fotos no escaparate e diga se este lírio não lhe parece algo anafado, com a flor quase sufocada por um intumescido colarinho de brácteas. Compare-o depois com o genuíno e inimitável lírio-do-Gerês e não deixe de dar a merecida palmada na testa por tão facilmente se deixar iludir. Entre a elegância de um e o ar atarracado do outro não há confusão possível. Contudo, por deformação profissional, os botânicos não se contentam com aquilo que salta à vista, e tudo têm que traduzir por palavras esdrúxulas e números rigorosos. Descodificada a gíria, os leigos podem anotar estas diferenças adicionais entre as duas espécies: as flores do lírio-da-Cantábria são maiores, com cerca de uma vez e meia o tamanho das do lírio-de-Gerês, e, ao contrário destas, não exibem uma penugem amarela na face superior das tépalas externas; finalmente, fazendo jus ao epíteto latifolia, o lírio-da-Cantábria tem folhas duas vezes mais largas, ainda que também filiformes.

As flores dos lírios são das mais vistosas e complexas do reino vegetal. Aquilo que pode parecer um muito simétrico arranjo de três flores é na verdade uma única flor, que é formada por três tépalas externas, três tépalas internas fazendo de penachos, e três estiletes petalóides, cada um deles cobrindo um estame e parte de uma tépala externa. O modo como o estilete se cola à tépala ajuda, por exemplo, a diferenciar o I. xiphium destes seus dois congéneres mais nortenhos.

O lírio-da-Cantábria, a que poderíamos também chamar lírio-dos-Pirenéus se tivéssemos ido assim tão longe, vive em matos, prados húmidos e clareiras de bosques nas montanhas do extremo norte da Península Ibérica. Avança até à Galiza mas fica longe da fronteira com Portugal, e abdica de ser um endemismo ibérico ao surgir também nos Pirenéus franceses. A sua floração, algo tardia, decorre entre Junho e Agosto.

07/11/2015

Floricos nas alturas


Erigeron alpinus L.


A impermeabilização das cidades é notícia quando chove muito, a água não tem por onde escoar e as ruas se transformam em rios impetuosos. Não, a culpa não é de Deus: como saberá quem nele acredita, o mundo não foi criado assim com tanto cimento e asfalto. Contudo, descontando as borrascas ocasionais que perturbam a tranquila artificialidade da nossa existência, este habitat urbano feito por nós e à nossa medida até nos convém. O mesmo não dirão as árvores ou, em geral, as plantas que precisem de uma camada de solo para se desenvolverem. No entanto, as plantas têm uma capacidade de adaptação extraordinária, e onde não há solo há muros de pedra velha que o tempo desgastou. Há árvores que conseguem crescer (embora pouco) nesses nichos ecológicos, juntando-se aos fetos e a herbáceas especializadas como o alecrim-das-paredes, as ruínas, os alfinetes e o samacalo-peludo. Um guia de campo intitulado Flora dos Muros e Paredões da Cidade do Porto poderia ser mais útil e formativo do que muitos que por aí se publicam. Outra planta de menção obrigatória nesse guia seria o Erigeron karvinskianus, um malmequer de origem mexicana a que vulgarmente chamamos floricos, e que dá flores variando entre o branco, o rosa e o lilás.

Já foi maior a nossa simpatia pelos floricos. Se se limitasse aos muros das cidades ou aos caminhos nitrificados das aldeias, nada teríamos contra o E. karvinskianus, mas em certas ilhas açorianas (São Jorge, Faial, Graciosa) ele tem assumido um comportamento invasor, competindo com a ameaçada vegetação nativa. É interessante saber, porém, que o género Erigeron não é exclusivo do novo mundo, e está também representado no lado de cá do Atlântico por meia dúzia de espécies nativas, uma das quais (E. acris), embora muito rara no nosso país, até faz parte da flora portuguesa. Mais bonita, com capítulos mais vistosos, é a margarida que hoje apresentamos, moradora de prados alpinos, distribuída pelas cadeias montanhosas de grande parte da Europa e mesmo da Península Ibérica, mas ausente de Portugal e da Galiza.

Os géneros Erigeron e Aster, este último representado em Portugal por três espécies indígenas e duas naturalizadas, são bastante próximos um do outro: ambos têm folhas inteiras e apresentam capítulos brancos ou violáceos, cada um deles formado por flores liguladas femininas e por flores tubulares bissexuais. Contudo, os Aster portugueses são glabros e têm folhas pecioladas, enquanto que o Erigeron alpinus é hirsuto e as suas folhas caulinares são sésseis, quase amplexicaules. O tamanho não fornece um diagnóstico fiável: o E. alpinus é pequeno, ficando-se entre os 5 e 30 cm de altura, mas o Aster aragonensis é também uma planta diminuta.

Como muitas plantas de montanha, o Erigeron alpinus floresce no Verão, entre Julho e Agosto. Estando a temporada ainda no início, não nos foi fácil na primeira semana de Julho avistá-lo no topo do Pico Tres Mares, mas é provável que ele seja frequente nessa e noutras montanhas da Cantábria.

03/11/2015

Semprevivas na Cantábria


Sempervivum vicentei Pau


Hoje, mais uma vez, é uma planta da Cantábria que está na montra, e estamos ainda longe de esgotar o rol de espécies em flor que lá vimos no Verão passado. Julgar-se-á que a nossa estadia foi longa, mas não, não houve tempo para isso. Andámos pouco mais de um dia num bosque e num pico a grande altura, e foi o bastante para encontrarmos sem esforço uma mão-cheia de novidades que só conhecíamos em fotos. Os astronautas da missão Apollo 11 estiveram quase o mesmo tempo na Lua, ou a levitar junto a ela, e não viram tanto.

O género Sempervivum é uma dupla novidade porque não ocorre em Portugal, ainda que em Espanha se conheçam umas seis espécies, com flores que parecem versões gigantes das do Sedum. O S. vicentei é um endemismo espanhol, das montanhas da metade norte da Península Ibérica. Pareceu-nos muito abundante nas fissuras de rochas expostas ao frio, a evitar a sombra de plantas vizinhas, em locais onde quase todas as herbáceas nascem agasalhadas por uma lanugem muito conveniente. Notem como as folhas carnudas, ciliadas, glaucas mas com pontas púrpura como narizes vermelhos no ar gelado, se dispõem em rosetas basais densas que seguram bem a planta na pedra, e cobrem como telhas as hastes florais. O nome do género, optimista ao aludir à eternidade, refere-se ao facto de serem herbáceas perenes, de folha persistente, traços que até são comuns a muitos outros géneros da família Crassulaceae.

Para quem se anime a programar um passeio botânico à Cantábria ou às Astúrias, aqui ficam duas informações: do Porto até lá, não há portagens nas autovias espanholas, muito em contraste com o que se passa deste lado da fronteira; se viajar no fim da Primavera, conseguirá ver flores de inúmeras outras espécies (de Saxifraga, Euphrasia, Campanula, Globularia, Pinguicula, Primula, Hepatica, Helleborus, etc., etc.) que a meio do Verão já só nos mostraram as folhas.

31/10/2015

Flor de cuco


Lychnis flos-cuculi L.
Apesar de muita gente confundir as duas coisas como fazendo parte da mesma ruralidade bucólica e mitificada, e por causa disso termos tido há uns anos uma ministra que acumulava as duas pastas, a verdade é que natureza e agricultura são conceitos frequentemente antagónicos. A desmatação de terrenos para cultivos ou pastagens não cessou de transformar o mundo natural desde que a recolecção, a caça e a pesca deixaram de ser suficientes para sustentar a humanidade. Na Europa que recebemos de herança são poucos ou nenhuns os espaços que escaparam incólumes à influência humana. Mas, entre a floresta virgem que não temos e as monoculturas que se estendem por muitos quilómetros quadrados, entre a natureza "pura" e a sua absoluta ausência, há vários estádios intermédios em que a natureza pode estar viva, ainda que moldada às nossas necessidades. Há habitats artificiais, como os lameiros no norte do país e os montados de sobreiros e azinheiras no sul, que são refúgio de muitas plantas especializadas, e que só continuarão a sê-lo enquanto se mantiverem as práticas tradicionais que lhes deram origem. Essa simbiose precária entre agricultura e natureza vai-se quebrando com a mecanização, com as culturas intensivas, com o uso imoderado de químicos. As maiores ameaças actuais a muitas das espécies da nossa flora são a expansão e intensificação das explorações agrícolas, quando desacompanhadas (como tem sido a norma) por medidas de protecção da biodiversidade.

A realidade, porém, não é uniforme de norte a sul de Portugal: no Alentejo multiplicam-se os olivais intensivos, e no Douro os montes são rapados à escovinha para o plantio de vinhedos; mas também se tem assistido, em muitos pontos do interior norte e centro do país, ao abandono progressivo de campos agrícolas e de pomares, e ao notável ressurgimento de algumas espécies vegetais outrora tidas como raras. A terra fria transmontana é talvez o ponto do país onde esta recuperação em contraciclo da biodiversidade é mais evidente. Um exemplo é dado pela quase desaparecida flor-de-cuco (Lychnis flos-cuculi), uma planta que a agricultura moderna e a drenagem de terrenos húmidos têm feito recuar por toda a Europa. Não é grande surpresa que os dois únicos registos da espécie no portal Flora-On sejam transmontanos, apesar de a Flora Ibérica não indicar a sua presença nessa província, mas apenas na Beira Alta, Beira Litoral e Estremadura.

Não fomos nós os autores desses registos, e de facto nunca vimos a flor-de-cuco do lado de cá da fronteira. Os poucos e tardios exemplares que encontrámos na Cantábria em Julho já quase não tinham flores, e nem puderam ser fotografados com vagar porque uns cães ameaçadores nos forçaram a regressar ao carro. Convém precisar que as flores têm em geral cinco pétalas (não quatro como mostra a segunda foto), e que cada pétala, dividida em quatro segmentos desiguais, parece por si só uma flor completa. O conjunto é assaz confuso, o que talvez explique o nome de ragged-robin que os anglo-saxónicos dão a esta herbácea vivaz. As flores do (seja então) pisco-maltrapilho, que se agrupam em cimeiras de 5 a 8 e têm uns 4 a 5 cm de diâmetro, surgem em hastes finas, ramificadas, algo viscosas, que podem atingir 70 ou mais centímetros de altura.

27/10/2015

Flores de perdição


Aconitum vulparia Rchb


Na viagem de volta da Cantábria, a estrada pareceu-nos perigosamente estreita, de tal modo que os inúmeros carros de turistas que por ali transitavam eram obrigados a dispor-se em fila ordeira. Era afinal uma impressão falsa, criada pelos rochedos gigantes, desfiladeiros temerosos e naves de arrepiar numa cordilheira montanhosa quase inacessível. Os exemplares desta planta, altos de uns 2 metros, com folhas palmadas muito divididas e inflorescências erectas ramificadas, estavam junto a um ribeiro em cujas margens pedregosas a gotejar se viam dezenas de exemplares de Pinguicula grandiflora. Reconhecemos o capuz das flores, mas a perdição-dos-lobos (wolfbane, monkshood, devil's helmet, queen of all poisons ou blue rocket) que conhecíamos da literatura (não a portuguesa: são raros os escritores nacionais que sabem os nomes e as características das plantas, ou que lhes concedem um protagonismo que vai além de matéria para cenário) tem flores roxas. Esse é o Aconitum napellus, o único que ocorre em Portugal, contando de momento no portal Flora-On com um só registo da subespécie lusitanicum algures num bosque em Trás-os Montes.

Sabendo quão peçonhentas são algumas das espécies deste género (incluindo a das fotos), não arriscámos sequer tocar numa flor. Mas podem analisar connosco alguns pormenores, ver aqui um corte em detalhe e comparar, no Flora-On, estas com outras flores complicadas da família Ranunculaceae (como as de Aquilegia ou Nigella, em contraste com as mais simples, do género Ranunculus). Cada flor tem cinco sépalas, duas laterais largas e achatadas, duas mais estreitas à frente e uma a formar um capuchinho. Dentro dele, estão duas pétalas com um pé alto e um esporão onde se guarda o néctar, indicando que os insectos polinizadores devem ter línguas finas e longas. Espreitando para o interior da flor, vê-se uma câmara com um molho de estames na base.

As plantas do género Aconitum são vivazes e há cerca de 150 espécies no hemisfério norte, cinco das quais se abrigaram na Península Ibérica. O A. vulparia é nativo da Europa e do norte de África; curiosamente, o epíteto específico refere-se a raposas, não a lobos. Algumas espécies inofensivas e de floração outonal, como o A. carmichaelii, são frequentes em jardins (não portugueses, claro). As tóxicas continuam, contudo, a ser as mais apreciadas, seja para facilitar a vitória dos heróis da mitologia, suprimir os rivais em narrativas de reis, princesas e bruxas, eliminar inimigos em histórias de detectives, caçar grandes presas à lança ou simplesmente como sugestão literária de veneno.

24/10/2015

Cabaceira de outros picos



Adenostyles alliariae subsp. pyrenaica (Lange) P. Fourn.


Vistas ao longe, com uns olhos que a idade vai desgastando, as inflorescências e as folhas desta asterácea de porte avantajado (pode superar 1 metro de altura) trazem-nos à memória a Pericallis malvifolia, uma sedutora planta açoriana conhecida no arquipélago como malvavisco ou cabaceira. A afinidade das folhas e do porte geral é inegável mas, quando nos aproximamos, a indistinta mancha lilás das flores resolve-se nas suas componentes, e verificamos que os capítulos desta cabaceira alpina pouco têm a ver com os da espécie insular, que afinal não é sua sósia. Os capítulos da Pericallis são do tipo "malmequer", com os florículos centrais muito diferentes dos periféricos que dão as "pétalas", ao passo que os capítulos da Adenostyles, destituídos de "pétalas", são formados apenas por florículos tubulares. Porém, como não temos nome mais aceitável para lhe dar, e aliás em castelhano até a tratam por calabacera, continuaremos a chamar-lhe cabaceira. A alternativa seria inspirar-nos no epíteto alliariae, alusivo à semelhança das suas folhas com as da erva-alheira (Alliaria petiolata), e dar-lhe um nome insultuoso como falsa-erva-alheira.

Quanto mais alta é a montanha mais tardia é a Primavera. É em Julho e Agosto, quando nas planícies a cor dos prados desfalece com a estiagem, que as plantas alpinas florescem profusamente numa urgência de agarrar o breve intervalo em que a neve e o frio dão tréguas. No início de Julho, data da nossa visita à Cantábria, a floração da cabaceira era ainda incipiente e as plantas estavam pouco desenvolvidas; muito mais vistoso teria sido o espectáculo umas três ou quatro semanas mais tarde.

Distribuída pelas montanhas do oeste da Europa, em ladeiras pedregosas ou no sopé de penhascos, em lugares abertos ou algo sombrios, e vegetando tanto em substratos calcários como siliciosos, a Adenostyles alliariae é uma planta vivaz que passa boa parte da sua vida enterrada na neve. Há contudo alguma controvérsia sobre o nome correcto das plantas que fotografámos: dependendo dos autores consultados, na Península Ibérica ocorre apenas a Adenostyles alliariae, dividida em duas subespécies, ou ocorre ainda a Adenostyles alpina, caso em que as plantas cantábricas se deveriam chamar Adenostyles alpina subsp. pyrenaica. Aguardemos pelo volume correspondente da Flora Ibérica para tirar o assunto a limpo.

20/10/2015

Uma flor para Rapunzel


Phyteuma hemisphaericum L.


Gostamos de tecer à volta das plantas histórias que dêm testemunho da sua convivência com os homens. Podem ser lendas, contos de fadas ou tradições de origem incerta, mas o importante é sentirmos que, muito antes de nós, outras vidas se cruzaram com essas plantas e foram influenciadas por elas. Às vezes, porém, esta vontade de humanizar as plantas, sobretudo as que não têm uma utilidade óbvia, esbarra em incertezas inultrapassáveis. Os nomes populares das plantas são, em regra, caóticos: dependendo da região em que é usado, o mesmo nome pode designar plantas muito diferentes (veja-se a persistente confusão entre o Rhododendron ponticum e o Nerium oleander, ambos conhecidos como loendros); além disso, a mesma planta pode ter diversíssimos nomes. Há ainda os nomes que são esquecidos à medida que o conhecimento tradicional das plantas se vai perdendo, e outros que subsistem vagamente sem que se saiba ao certo que plantas teriam sido por eles designadas. Por exemplo, dizem certas fontes que o topónimo "Carregal" resultaria de "carrega", que seria uma gramínea própria de lugares alagadiços, mas hoje em dia não parece haver em Portugal nenhuma planta que seja conhecida por esse nome.

Contam os irmãos Grimm que Rapunzel, a rapariga de longos cabelos aprisionada numa torre, devia o nome à planta que a sua mãe comeu avidamente quando estava grávida, e pela qual pagou o preço de entregar a filha à bruxa logo após o nascimento. Rapunzel seria o nome dado localmente a alguma variedade de Phyteuma, mas é improvável que se tratasse da planta alpina que hoje apresentamos, pois ela, pela sua pequenez e estreiteza de folhas, pouco teria que se comesse. Na verdade, é até plausível que a planta que saciou a fome à mãe de Rapunzel não fosse uma Phyteuma, mas sim uma outra campanulácea, a Campanula rapunculus, planta comprovadamente comestível usada em tempos como substituta do rabanete.

Uma recolha de contos tradicionais não é um tratado de botânica (nem sequer de etnobotânica), e não devemos censurar os irmãos Grimm pela falta de notas de rodapé que resolvessem semelhantes dilemas. Poderiam tê-lo feito, pois viveram depois de Lineu, quando as plantas europeias mais comuns dispunham já de nomes científicos de aceitação universal. Os dois nomes em jogo neste caso (Campanula e Phyteuma) até são da lavra de Lineu, ou pelo menos foram por ele legalizados, já que "Campanula" foi antes usado por Tournefort (1656–1708). Quanto a "Phyteuma", Lineu parece ter sido o primeiro a usá-lo para estas plantas, muito diferentes daquelas (do género Reseda) que tinham o mesmo nome na antiga Grécia. Nem sempre as escolhas taxonómicas de Lineu obedeceram a uma lógica inatacável.

Dispersa por prados e fissuras de rochas nas mais altas montanhas da Europa ocidental, desde os Alpes aos Pirenéus e à Cantábria, esta herbácea de uns 10 a 20 cm de altura só floresce no Verão. É uma das cinco espécies do género Phyteuma na Península Ibérica, todas elas (tanto quanto se sabe) ausentes do nosso país. A inflorescência globosa, reunindo uma dúzia de pequenas flores, é típica do género: cada flor é tubular e as pétalas começam a descolar por baixo, deixando entrever os estames; o estilete, rematado por três estigmas, fica a sobressair do "tubo" (penúltima foto). Enquanto estão fechadas, as flores assemelham-se a um molho de garras afiadas, mas depois as inflorescências assumem um aspecto desgrenhado, como se fossem taças de esparguete azul.

17/10/2015

Estrela maior


Abiada, Cantábria — bosque ribeirinho de Fagus sylvatica
Imagine o leitor que segue por um trilho numa floresta atapetado de folhas e com solo esbranquiçado que parece calcário, a saltitar para não se molhar nos regatos que se atravessam no caminho — e lhe aparece esta planta. Que nome lhe daria? Dir-se-ia que as folhas são de uma Anemone gigante, mas o porte erecto e as inflorescências lembram os do género Eryngium. Não concorda? Ora repare nas brácteas duras, coloridas de verde ou púrpura e com um ápice aguçado, a formar uma taça que envolve as flores. É certo que, embora quase sempre presente nas umbelíferas, este tipo de invólucro nem sempre está tão desenvolvido como nos cardos, mas as flores das asteráceas não são assim. Bem, confiemos na intuição e avancemos: está encontrada a família, Apiaceae. E temos um candidato a género; a confirmar-se, falta descobrir a espécie.


Astrantia major L.


Uma busca rápida num guia de plantas das Astúrias mostra, mais uma vez, como as aparências podem iludir os amadores. Trata-se de uma umbelífera, sem dúvida, mas não do género Eryngium. A designação Astrantia foi proposta por Lineu e esta espécie, por ser uma herbácea alta (acima dos 40 cm de altura), com umbelas que, ao longe, parecem grandes malmequeres (cada uma com 30 a 50 flores minúsculas, de uns 3 a 4 mm de diâmetro), é a Astrantia major. A menos robusta, que prefere substratos silíceos acima dos 1800 m de altitude e não vive nas montanhas cantábricas que visitámos, ficou com o nome Astrantia minor. São ambas espécies nativas do centro e sul da Europa, de prados de montanha, clareiras de bosque ou locais rochosos. O género Astrantia integra ainda umas oito espécies adicionais na Europa e no oeste da Ásia, todas de habitats montanhosos, mas nenhuma delas se estabeleceu em Portugal.

O nome Astrantia, que deriva do termo grego ástron (estrela) parece querer dizer que esta planta é obviamente uma margarida. Afinal não fomos os únicos enganados ao primeiro olhar pela sua aparência.

13/10/2015

Cabrinha de Sichuan



Onychium japonicum (Thunb.) Kunze



Este feto asiático, que encontrámos numa berma de estrada na ilha do Pico, poderia ter vindo de Sichuan, uma das províncias da China central, mas também de muitos outros lugares e países do extremo oriente, como o Japão, Coreia, Taiwan, Tailândia, Vietname, Nepal, Índia, Paquistão e Filipinas. Os horticultores ocidentais comercializam-no com o nome de Sichuan lace, pois as suas frondes muito recortadas e de textura delicada são comparáveis à mais fina renda. Iguais encómios têm merecido alguns fetos do género Davallia: no Brasil, a Davallia fejeensis (que não é portuguesa nem europeia) tem sido chamada de renda-portuguesa. O que temos à mão em Portugal continental e na Madeira é a Davallia canariensis, que apelidamos de cabrinha por causa do rizoma alongado, coberto de escamas arruivadas, que faz lembrar as patas desse bicho. Embora o Onychium japonicum tenha um rizoma curto que não suscita tal comparação, parece-nos desculpável chamar-lhe cabrinha-de-Sichuan. Até porque já houve gente muito qualificada que a confundiu com a verdadeira cabrinha, e que vai daí anunciou ao mundo que a Davallia canariensis é espontânea nos Açores. Os erros de gente qualificada podem ter uma longevidade assombrosa, já que os desmentidos, para produzirem efeito, terão de vir de gente não menos qualificada. Foi em 1899 que Michel Gandoger (que já referimos a propósito do folhado açoriano), no artigo Plantes nouvelles pour les îles Açores, proclamou que, ao contrário do que Trelease (em Botanical observations on the Azores, 1897) afirmara, a Davallia canariensis existia realmente no arquipélago. Quem tinha razão, segundo Gandoger, era Drouet, que defendera isso mesmo em 1866, no seu Catalogue de la flore des îles Açores. Eis o que escreveu Gandoger:
Davallia canariensis Sm. — Cette Fougère, indiquée aux Açores par Drouet, Cat., p. 213, en a été exclue par Trelease, Bot. azor., p. 170, qui dit: «Evidently an error, the specimens perhaps from Madeira.» Mais M. Carreiro vient de l'y retrouver, au Pico do Salomão. Cependant les échantillons des Açores ne cadrent pas exactement avec ceux que je possède d'une quinzaine de localités des Canaries, de Madère, de Portugal et d'Éspagne. La plante des Açores devra être dénommée (...)

... e a essa peculiar forma açoriana da cabrinha deu Gandoger o nome de Davallia canariensis var. azorica. Na descrição em latim, Gandoger chama a atenção para a disposição linear dos esporângios, bem diferente da que a Davallia costuma apresentar. De facto, o feto colhido em São Miguel que Gandoger descreveu como um novo táxon não era senão o Onychium japonicum — comparem-se os seus esporângios com os da D. canariensis. Os estudiosos da flora açoriana não se deixaram enganar pelo erro — nem Palhinha nem Franco incluem a D. canariensis na lista de espécies do arquipélago — mas, na falta de um desmentido formal escrito na mesma língua por botânicos igualmente reputados, persiste ainda hoje, em obras de referência francesas (por exemplo no livro, de resto excelente, Les fougères et plantes alliées de France et d´Europe occidentale, de Rémy Prelli, publicado em 2000), a ideia de que a D. canariensis existe nos Açores. Embora, curiosamente, nunca se faça menção da var. azorica.

O Onychium japonicum, que está naturalizado nos Açores há mais de um século, tem-se comportado com louvável comedimento. Mantém-se nas mesmas três ilhas em que foi assinalado — São Miguel, Pico e Faial — e pelo menos nas duas últimas continua a ser muito raro. A razão talvez seja a fraca produção de esporos, já que não conseguimos detectá-los nas plantas que examinámos.

Uma outra confusão rodeia o nome Onychium japonicum, pois esse binómio tanto parece aplicar-se ao feto que apresentámos como a uma certa orquídea também asiática cujo nome actual é Dendrobium moniliforme. Um dos princípios basilares da taxonomia botânica é que o mesmo nome não pode designar duas espécies diferentes. Este caso viola tal princípio de forma agravada: Onychium tanto parece ser nome de um género de fetos como de um género de orquídeas. O que sucedeu foi que em 1825 o holandês Carl Ludwig Blume (1796-1862) baptizou um género de orquídeas com o nome Onychium, ignorando que o mesmo nome já tinha sido atribuído em 1820 pelo alemão Georg Friedrich Kaulfuss (1786–1830) a um género de fetos. Por força da regra da prioridade, o uso do nome Onychium para designar orquídeas é ilegal, e portanto Onychium japonicum é a designação válida de um feto e não de uma orquídea. Mas este estranho caso do feto e da orquídea homónimos ilustra ainda a conveniência de usar nomes botânicos completos, que incluam os respectivos autores: Onychium japonicum (Thunb.) Kunze já é diferente de Onychium japonicum Blume, e só a primeira combinação é válida.


Açores: Pico com São Jorge ao fundo