29/03/2016

Dança das ervilhas


Pisum sativum L.


A ervilheira, cujas vagens contêm filas de sementes esféricas muito leves, é uma planta anual que aprecia o frio e que entrou tardiamente, depois de muitos outros vegetais, na cozinha europeia. Entretanto, teve outros usos pois há mais de dois séculos que as ervilhas colaboram com a ciência. Depois de, pela mão experimentada de Mendel, terem sugerido as leis gerais da genética, ajudam agora os biólogos a entender como é que as plantas comunicam entre si e de que modo conseguem processar a informação que lhes chega do ambiente.

Neste âmbito, a discussão (e a controvérsia) centra(m)-se nas questões seguintes: os neurónios, que as plantas não têm, constituem uma solução muito engenhosa para guardar e gerir informação; mas haverá outras? As plantas têm consciência do que as rodeia, ainda que por mecanismos distintos dos dos animais? O problema é complicado porque temos, naturalmente, uma visão antropomórfica do mundo. Parece-nos que, sem um cérebro que pense, memorize, aprenda, comunique, interaja, se emocione, tenha consciência de si e dos outros, e saiba coordenar tudo isto, não se é inteligente. Repare-se que, se em vez da palavra «plantas» usarmos «computadores», estas perguntas não são novas (e as respostas resumem-se a: um computador pode ser capaz de muitas tarefas complicadas, mas não tem consciência de que as realiza nem sente satisfação por isso).

A combinação de qualidades que usámos para definir ser inteligente é discutível mas, se devidamente adaptadas ao mundo vegetal, talvez haja indícios de algumas delas entre as plantas. Nestas, aos nossos ouvidos silenciosas, que precisam de se defender, de ter sempre à mão água e nutrientes, e de um meio eficiente e controlável que transporte o pólen entre duas flores impedidas de se tocar, reconhecemos sinais de uma notável adaptação aos habitats e aos polinizadores. E vêmo-las capazes de inúmeras decisões (em que direcção crescer, quantas folhas novas devem nascer neste ramo, quando florir, como encontrar água, quando abrir os frutos e largar as sementes, etc.) que são demasiado difíceis de realizar quase em simultâneo sem algum grau de inteligência.

Mas, afinal, que provas nos apresentam os cientistas de que as plantas são capazes de comportamentos inteligentes? É aqui que intervêm as trepadeiras, como as que dão ervilhas. Elas usam gavinhas para se segurar enquanto ascendem em busca de luz e espaço. Para isso, precisam de saber localizar lugares onde se possam agarrar, mas não têm olhos para identificar postes. Contudo, neste vídeo, podemos observar como as plantas orientam a gavinha para um poste, revelando uma percepção do ambiente com que não contávamos. Além disso, repare-se como, mal uma das trepadeiras se enrola no pau, a outra planta pressente-o e, vencida, procura alternativas. Como foi possível transmitir essa informação de uma planta a outra? Que órgãos as fazem tão sensíveis a tantos estímulos? O aparato sensorial das plantas contém versões dos nossos cinco sentidos (sentem diferenças químicas no ar, na água ou no solo; reagem de modo distinto a diferentes comprimentos de onda da luz; as gavinhas sabem quando encontram um objecto em que se enrolar; e, acredite-se ou não, em alguns testes parecem saber interpretar sons), mas é muito mais completo e minucioso. Os cientistas estão convencidos de que se trata de uma comunicação química ou por sinais eléctricos, que podem ser emitidos por toda a planta. Além disso, as experiências destes neurobiólogos parecem indicar que as plantas memorizam informação, e com essa aprendizagem são capazes de resolver problemas que ponham em causa a sua sobrevivência (como se conta neste documentário).

A teoria mais bem aceite é a de que as células de cada planta funcionam como colónias de formigas ou abelhas, em que um número muito grande de indivíduos, cada um deles sem inteligência digna de nota, trabalha eficientemente em grupo, tal qual uma rede de ligações optimizada. De resto, toda a planta é feita de módulos, alguns descartáveis sem qualquer risco, e cada um coopera, seja a comunicar, a evitar ameaças ou a disseminar-se. Ora, tal como na Internet, para conseguir isto não é preciso um cérebro; basta estar vivo e pertencer a uma estrutura com tarefas bem distribuídas e devidamente coordenadas.

Mas os cientistas são teimosos, e animam-se precisamente com os desafios mais difíceis. Inspirados pela obra The power of movement in plants, de Charles Darwin, têm procurado nas plantas uma estrutura análoga a um cérebro. E, de facto, localizaram em cada raiz uma região muito mais bem oxigenada que as demais e sem a qual, embora cresça, a raiz perde a habilidade de seleccionar a direcção privilegiada em água, nutrientes e solo. É um pedaço minúsculo de raiz perto da ponta, enterrado para reduzir o risco de ser comido ou destruído, mas multiplique-se esse bocadinho pelo número de raízes e teremos, não um cérebro, mas um conjunto de células que funciona como um gigantesco sistema nervoso central, cuidadosamente empenhado na sobrevivência da planta e da espécie. Talvez o leitor aprecie ouvir mais detalhes nesta palestra (que dura cerca de 15 minutos e pode ser acompanhada por legendas em português se escolher essa língua em «Subtitles»), com o testemunho de um desses cientistas.

23/03/2016

Agulhetas


Erodium botrys (Cav.) Bertol.
Embora pouca gente tenha consciência disso, o mistério dos bicos-de-cegonha é pelo menos tão aliciante como o das girafas. Por que razão os frutos dos gerânios e aparentados são tão desmesuradamente compridos, fazendo lembrar agulhas ou os bicos de certas aves? É certo que são agulhas de ponta mole, pouco aguçadas, e por isso não funcionam como defesa contra os herbívoros. Porém, à semelhança do que sucede com as vagens de certas leguminosas, os frutos, ao secarem, abrem de forma violenta, arremessando as sementes para longe. No caso dos Erodium, essas sementes têm uma longa cauda que, além de funcionar como mola, se entrega, quando depara com alguma humidade, a um contorcionismo frenético, tentando perfurar o solo como se de um parafuso se tratasse (vídeo). Uma semente que aprendeu a ser semeadora, abrindo um buraco para nele se enfiar... Quem disse que as plantas não têm inteligência? Que processo evolutivo pôde dar origem a um mecanismo destes? No fim de contas, talvez o pescoço da girafa seja mais fácil de explicar.

Plantas oportunistas e desprestigiadas, frequentadoras de relvados, de jardins ao abandono e de bermas de caminhos, mas também de prados naturais, os Erodium dão flores bonitas que ganham em ser vistas ao perto mas valem igualmente pelo conjunto. O E. botrys distingue-se pelas flores comparativamente grandes e de formato campanulado, com as pétalas sobrepondo-se umas às outras (no E. moschatum e no E. cicutarium as pétalas são mais estreitas e estão bem separadas), mas é pelos frutos que ele mais se destaca entre os congéneres. São 13 cm bem medidos desde o cálice até à ponta do bico, o que quase duplica a melhor marca da concorrência. Longbeak stork's bill, um dos nomes que os anglo-saxónicos lhe dão, é um justo reconhecimento da sua valia atlética.

Nativo da região mediterrânica e naturalizado nos EUA, Austrália e Nova Zelândia, o Erodium botrys, ainda que seja pouco frequente no Minho e Douro Litoral, surge em quase todo o território continental e também no arquipélago da Madeira. O seu calendário oficial de floração vai de Março a Junho, mas, como acontece com muitas outras plantas ruderais, não desperdiça nenhuma ocasião, mesmo fora da época, para aparecer e cuidar da vida.

19/03/2016

Analfabetismo ambiental

(Clique para ver em tamanho grande numa nova janela)

A nefasta peça de propaganda acima reproduzida foi publicada anteontem, dia 17 de Março de 2016, no suplemento Se7e da revista Visão. Por ela ficamos a saber, nós os continentais, que, se quisermos ter em casa uma amostra da genuína flora açoriana, devemos dirigir-nos ao viveiro mais próximo para comprar uma hortênsia — uma planta que, segunda a mesma revista, faz «parte da paisagem natural de todas as ilhas dos Açores». É de bradar aos céus. Todos os que vivem nos Açores ou visitam o arquipélago deveriam já saber que a Hydrangea macrophylla não só não é açoriana como é uma invasora capaz de causar os maiores estragos às plantas indígenas. Acontece que essa necessária pedagogia, por muito empenhada que seja, é permanentemente boicotada por uma indústria turística que promove uma imagem estereotipada dos Açores, vendendo paisagens humanizadas com pastagens, vacas e hortênsias como se de natureza em estado puro se tratasse. Não era contudo de esperar, de uma revista como a Visão, que publica anualmente uma edição verde sobre boas práticas ambientais, tamanho grau de iliteracia. Por isso escrevi à revista a carta que a seguir transcrevo:

«No suplemento Se7e da Visão de 17/III/2016, as jornalistas Florbela Alves e Susana Lopes Faustino, ao apresentarem as hortênsias como representantes da flora açoriana e "parte da paisagem natural de todas as ilhas dos Açores", cometem um erro de palmatória capaz de descredibilizar todo o trabalho de sensibilização ambiental em que a Visão se tem regularmente empenhado.

A hortênsia (nome popular da Hydrangea macrophylla) é uma planta originária do Japão, e é tão açoriana como o eucalipto é português. Foi introduzida em Portugal e em muitos outros países ocidentais em meados do século XIX como planta de jardim. Nos Açores ganhou popularidade não tanto pelas qualidades ornamentais mas por ser imbatível na formação das sebes impenetráveis que dividem as pastagens e marginam estradas e caminhos. O azul das hortênsias sublinhando o traçado sinuoso das estradas encantou os visitantes e, com o crescimento do turismo, acabou por se tornar símbolo dos Açores. Um símbolo equivocado e perigoso de que o arquipélago deveria ser capaz de se libertar sem que o turismo sofra com isso. Em Viana do Castelo, afinal, também deixou de se fazer (e ainda bem!) a Festa da Mimosa, e não consta que a capital do Alto Minho sofra hoje com falta de visitantes.

Bastaria a circunstância de a hortênsia não ser açoriana para ser estranho elegê-la como símbolo do arquipélago. Há muitas plantas genuinamente açorianas, e não menos bonitas, que cumpririam essa função com muito mais propriedade. Entre elas avulta a endémica vidália (Azorina vidalii), uma planta que dá flores que fazem lembrar sinos e não se parece com nenhuma outra deste mundo. Mas, além de não fazer parte da "paisagem natural" das ilhas, tratando-se em vez disso de um acrescento postiço, a hortênsia contribui activamente para a degradação dessa mesma paisagem, pondo em risco alguns dos últimos redutos da vegetação nativa ao invadir caldeiras, linhas de água e florestas naturais. A rocha dos Bordões na ilha das Flores e a Caldeira da ilha do Faial, ambas pintadas de alto a baixo no Verão com o azul das hortênsias, fornecem prova assustadora da perigosidade deste arbusto para a flora endémica do arquipélago.

O turista comum, mal informado ou desinformado, enche os olhos com o azul das hortênsias e não quer saber de mais nada. Está no seu direito. Mas um jornalista tem obrigação de saber um mínimo sobre aquilo que escreve, pois a sua função não é disseminar a ignorância mas sim informar quem o lê. Há nos Açores quem se preocupe com a educação ambiental das gerações mais novas (e também das mais velhas), ensinando-as a conhecer o genuíno e tão ameaçado património natural do arquipélago. Ao publicar este pedaço de desinformação, a Visão torpedeia o trabalho dos educadores e dá força à ignorância.»

17/03/2016

Salsa-brava

O leitor vai hoje acompanhar-nos num percurso pelo rio Mente, na fronteira de Chaves com Vinhais. É Verão e o rio atravessa-se bem a pé, a água mal cobre os calcanhares. São pouco mais de seis passos largos, o riacho vai ali quase enxuto, mas as pedras limosas do leito obrigam-nos a caminhar com cautela. No lado de Chaves, a limpeza da margem foi tão metódica que quase não sobra vegetação; em contrapartida, ali se banham e petiscam animadamente muitos flavienses no seu descanso de Agosto. Regressemos, por isso, à margem de Vinhais, onde a vegetação é exuberante e nos reserva inúmeras surpresas.

No leito de cheia, que é também orla de um bosque, está esta herbácea perene:



Peucedanum gallicum Latourr.


O que acha que é? Pela inflorescência, não há dúvida de que pertence à família Umbelliferae (para alguns Apiaceae). A folhagem lembra a do Peucedanum lancifolium, embora as deste sejam em geral menos divididas. E, portanto, ousamos afirmar que também o género está encontrado: Peucedanum. E a espécie? Ainda antes de ler a chave da Flora Ibérica ou a do primeiro volume da Nova Flora de Portugal, notemos que a umbela da terceira foto é densa, airosa e simétrica, como um guarda-chuva sem defeito. Pelo contrário, a do outro Peucedanum que conhecemos de prados húmidos e sombrios, o P. lancifolioum, é mais rala e deselegante, com os raios (os pés das flores, quais varas de guarda-chuva) encavalitados e de tamanhos distintos. Há ainda dois outros pormenores que indicam que o Peucedanum que hoje aqui mostramos não é o P. lancifolium: as bractéolas (brácteas na base das umbélulas — veja na última foto) são muito longas e finas, em contraste com as do P. lancifolium; e as brácteas involucrais (na base da umbela), que aqui quase não se vêem nas fotos porque são caducas, persistem na maturação dos frutos do P. lancifolium.

São poucos indícios, é certo, e por cá há registo de cinco espécies de Peucedanum, mas a ecologia ou o tipo de solo que requerem não são idênticos. Confrontadas as tais chaves das Floras, concluímos que se trata do Peucedanum gallicum (que já foi P. parisiense), nativo do noroeste da Península Ibérica e de França.

Antes de arrumar a máquina fotográfica na mochila e de subir a encosta até à estrada, reparemos que as pétalas (em detalhe na quarta foto) lembram porta-guardanapos (aqueles utensílios de mesa em forma de anel, hoje quase esquecidos, usados para colocar guardanapos individuais de pano) cujo tom rosado resiste caprichosamente nos frutos.

12/03/2016

Salada de espinhos



Onopordum acanthium L.


Há frutos e verduras que, tradicionalmente, só eram comidos pelos bichos, até que alguns citadinos tocados pela nostalgia do campo descobriram que também podem comê-los com gosto. As bolotas da azinheira doce (Quercus rotundifolia) são, ao que dizem os convertidos, tão saborosas como as castanhas, não se justificando, alegam eles, que tal acepipe seja reservado aos porcos. E são inúmeras as ervas espontâneas (como a chicória, a beldroega e as urtigas) que, usadas em sopas ou saladas, são um condimento pelo menos tão agradável como as couves e alfaces cultivadas em hortas. Mesmo alguns cardos de porte avantajado podem (como nos ensina o João Gomes) servir de refeição, embora apenas quando as folhas são ainda tenras.

O aspecto agressivo do cardo que hoje trazemos ao escaparate desencoraja qualquer apetite; e, de facto, embora tenha aplicações medicinais, não consta que ele seja normalmente usado na dieta humana. O nome Onopordum diz-nos porém que é comido pelos burros, seja porque lhes agrada, seja por não terem nada mais palatável em que pôr o dente. Não é impossível que, em Portugal, a dieta asinina obedeça ainda a essa tradição: os burros já são poucos, mas em Trás-os-Montes ainda se vão vendo, e é também no nordeste do país que se concentra a distribuição nacional deste cardo. Que, de resto, é nativo de quase toda a Europa (a excepção é a Escandinávia) desde a Península Ibérica até à Rússia, e está naturalizado — e até assinalado como invasor — nos EUA, Austrália e Nova Zelândia.

O cardo-dos-burros é, noutras paragens, conhecido como cotton thistle graças à lanugem branca que recobre folhas e caules. Com um ciclo de vida bienal, desenvolve uma roseta basal de folhas no primeiro ano e floresce no segundo, produzindo então uma quantidade assombrosa de sementes (diz-se que até 40000 por indivíduo). Atinge os dois metros de altura, as hastes estão guarnecidas por membranas espinhentas, e as folhas caulinares, que são decurrentes, têm os dentes também rematados por compridos espinhos. Os capítulos florais, que têm uns 3 a 5 cm de diâmetro, apresentam forma achatada e, entre Maio e Julho, surgem solitários ou em grupos de 2 ou 3 na extremidade das hastes.

Como tantos outros cardos, o Onopordum acanthium prefere lugares perturbados como bermas de estrada e terrenos baldios. É algo surpreendente que uma espécie tão prolífera e de ecologia tão pouco exigente se mantenha confinada a uma área restrita do nosso território.

09/03/2016

Pseudocenoura de Sicó


Orlaya daucoides (L.) Greuter


As umbelíferas com inflorescências como as da cenoura (Daucus carota) são difíceis de destrinçar, e esse problema não deve ser só nosso. Decerto também os polinizadores se apercebem de que as umbelas são semelhantes, e hesitam na planta a escolher. A menos que o néctar (que, quando provámos, sabia a água com açúcar) tenha variações de sabor, aroma e nutrientes que os insectos detectem, ajudando-os a seleccionar as flores que mais apreciam. Na eventual falta destes pormenores que sinalizem as flores mais apetecíveis, e de cuja existência não conhecemos qualquer prova, há ainda as espécies que, além de investirem numa inflorescência repleta de flores, a aumentam alterando as pétalas das flores externas para que fiquem mais vistosas.

É precisamente esse o estratagema da planta que está hoje na montra, fotografada num bosque de azinheiras e carvalhos em Sicó: exibe airosas pétalas bilobadas no bordo da umbela, como orelhas de cachorro, que nenhum polinizador minimamente atento deixará de avistar, mesmo de longe. Trata-se da única espécie do género Orlaya nativa em Portugal, apesar de em Espanha ocorrer outra, a O. grandiflora. O nome do género homenageia Ivan Semenovych Orlay (1771-1829), médico e botânico ucraniano.

É uma planta anual, de distribuição ampla na região mediterrânica e na Ásia, que se distingue bem de alguns parentes pela folhagem. Sugerimos ao leitor que observe os talos estriados e as umbelas terminais, recheadas de flores masculinas além de umas poucas hermafroditas. (Pode tentar localizá-las na 3ª foto — onde também se vê emboscada uma ameaçadora aranha-caranguejo, Thomisus onustus — ou nesta imagem.) Os frutos têm uma forma bizarra, lembrando espigas verdes com ganchos no lugar dos grãos de milho.

Sicó

05/03/2016

Por entre as pedras do chão


Gymnostyles stolonifera (Brot.) Tutin [= Soliva stolonifera (Brot.) Sweet]
A calçada portuguesa, esse perigo para quem usa saltos altos, não é (ou não era) a única coisa que distingue (ou distinguia) as nossas cidades das demais urbes europeias. As ervas que crescem entre as pedras do chão, sobrevivendo ao pisoteio e à aplicação periódica de herbicidas, também podem ser peculiarmente nossas, contando, de modo discreto, uma parte da nossa história.

Pelo hábito rastejante e preferência por lugares ruderalizadas, a herbácea anual retratada nas imagens tem tudo para ser ignorada mesmo por quem tem o costume de botanizar. As suas folhas pinatífidas, de uns 2 cm de comprimento, estão divididas em dois ou três pares de segmentos laterais, fazendo lembrar as folhas de algumas pequenas crucíferas como a Teesdalia e a Hornungia. Trata-se contudo de uma asterácea, e os seus capítulos, que são sésseis e têm uns 5 mm de diâmetro, assemelham-se a minúsculas bolas de algodão. Vive entre as pedras de caminhos rurais ou urbanos, e também em solos secos e revolvidos. Como é próprio de quem preza a invisibilidade, é uma planta pouco vista, mas está presente em Portugal continental, Açores e Madeira.

Que tem ela a ver com a história de Portugal? Para começar, quem primeiro a descreveu, sob o nome de Hippia stolonifera, foi o maior botânico português, Félix de Avelar Brotero (1744–1828), na obra Phytographia Lusitaniae Selectior (disponível para consulta na biblioteca digital da Universidade de Coimbra — veja aqui). Brotero aponta a sua semelhança com a Hippia minuta, espécie baptizada por Lineu filho hoje conhecida como Cotula mexicana, e informa que a Hippia stolonifera é inodora e insípida, não tem usos conhecidos, e ocorre sobretudo nos arredores de Lisboa e de Coimbra. No Jardim Botânico de Coimbra, diz-nos ele, a planta está espalhada por todo o lado.

O habitat preponderantemente citadino que Brotero assinala sugere que a (agora chamada) Gymnostyles stolonifera tem origem exótica, e de facto ela é proveniente da América do Sul. No entanto, tratando-se de uma planta inteiramente destituída de valor económico ou de qualidades ornamentais, a sua importação para esta banda do Atlântico só pode ter sido involuntária. Misturados com a carga valiosa dos navios que nos chegavam das Américas, muitos passageiros clandestinos, e entre eles as sementes desta planta, tiveram oportunidade de aqui se instalar; e, como os navios faziam escala nas ilhas, também elas foram contaminadas. É essa a história que nos conta uma planta insignificante.

02/03/2016

Arroio com flores


Alisma lanceolatum With.


Efemerófito: é este, segundo a Flora Ibérica, o possível estatuto da Alisma gramineum na Península Ibérica, uma vez que, depois de recolhida para herbário em arrozais de Coruche, no Ribatejo, e na serra de Vicor, em Zaragoza, ninguém mais a avistou nestes locais. Sendo planta vivaz, decerto terá sido a má conservação dos habitats com muita humidade, como ela exige, que a terá erradicado da flora peninsular. Mas este facto, em si preocupante, tem a vantagem de reduzir a duas espécies (Alisma plantago-aquatica ou Alisma lanceolatum) o problema de identificação da planta das fotos.

Recorremos primeiro às imagens da Flora-On, mas julgamos que a vitrine da Alisma mostra a A. plantago-aquatica. Consultámos então a chave da Nova Flora de Portugal (vol. III, fasc. 1), de Amaral Franco e Rocha Afonso: para além das diferenças no genótipo, de verificação difícil mas segura, a distinção entre as duas espécies faz-se através da morfologia das folhas e das faces dos aquénios. Como não vimos frutos, prestámos atenção apenas às flores e às folhas. Em ambas as espécies, as flores de três pétalas são pequeninas, hermafroditas e dispostas no cimo de escapos; os seis estames rodeiam uma coroa central de muitos carpelos unidos. Contudo, na A. plantago-aquatica, a mais frequente por cá em margens de rios e lagoas, as flores têm em geral pétalas brancas; e, mais importante, as folhas são ovadas (como as do Plantago major), subcordadas ou truncadas na base, e com uma razão comprimento/largura menor do que três. Em contraste, na A. lanceolatum, as flores são em geral lilacíneas e as folhas (como informa o epíteto específico) são lanceoladas, acunheadas na base e com um quociente comprimento/largura maior do que três. Arriscando, concluímos face a estes dados que a planta das fotos, fotografada num regato em Matosinhos, é da espécie A. lanceolatum. Fica a sugestão, a quem possa, de verificar os dados genéticos para não restarem dúvidas.

Não há registo de nomes vernáculos em português para a A. lanceolatum, embora esta espécie ocorra em várias províncias do país, de norte a sul. Por gentileza, a A. plantago-aquatica bem lhe poderia emprestar algum dos vários que tem, como alface-dos-arrozais, colhereira, pão-de-rã, orelha de mula ou erva-couveira.

27/02/2016

Super-agrião


Rorippa pyrenaica (All.) Rchb.


Em terrenos baldios, pousios, bermas de estrada, às vezes em hortas, as crucíferas de flor amarela são, em cada ano, os arautos da Primavera. Rabanetes, mostardas, saramagos, couves e agriões atropelam-se para nos dar a boa nova de que os dias sombrios, curtos e descoloridos vão ficando para trás. Boa altura para trazer ao escarapate um membro deste grupo, ressalvando-se contudo que o agrião-dos-Pirenéus (tradução apressada de Rorippa pyrenaica), por ser raro e de floração tardia (só a partir de Maio), não participa no esforço colectivo de pintar de amarelo as paisagens neste final de Fevereiro.

Dentro do género Rorippa, ou pelo menos se a compararmos com outras espécies que por cá conhecemos, a R. pyrenaica, com os seus 70 cm de altura, destaca-se pelo porte erecto e pela floração abundante. Apesar de o seu nome fazer referência aos Pirenéus, ela não é exclusiva dessa cadeia montanhosa e encontra-se, por vezes a altitudes modestas, em boa parte da Europa mediterrânica, desde a Península Ibérica até aos Balcãs. Preferindo lugares abrigados e húmidos, em orlas de bosque ou junto a cursos de água, está referenciada em quatro províncias portuguesas, mas ultimamente, de acordo com o portal Flora-On, só tem sido vista em Trás-os-Montes. Na única vez em que a encontrámos, em Vimioso, perto do rio Angueira, tivemos de nos contentar com um exemplar solitário para a sessão fotográfica. Ainda assim, talvez por não exigir habitats tão encharcados, teve ela melhor sorte do que a Rorippa amphibia, que deveria existir na Beira Litoral e no Ribatejo mas poderá ter sido erradicada pela proliferação de barragens. Sorte idêntica parece reservada à Rorippa palustris se alguma vez se construir uma barragem no rio Minho.

O modo mais fiável de reconhecer a Rorippa pyrenaica é pelas folhas caulinares (ver 3.ª foto), que estão divididas em segmentos quase lineares, têm um par de aurículas na base, e apresentam pêlos dispersos ao longo do eixo. Como tira-teimas, e caso estejam presentes, convém atentar nas silíquas — que são curtas e engrossadas, bem diferentes das da Barbarea verna e das de outras crucíferas com as quais poderia ser confundida.

24/02/2016

Solaris



Potamogeton perfoliatus L.



Nas primeiras imagens do filme Solaris, de Andrei Tarkovsky, a câmara mostra-nos em pormenor um lago junto a uma casa com janelas amplas, cores luminosas e decoração esmerada. Servem para que guardemos inúmeros detalhes na memória, lembranças a que mais tarde o oceano inteligente do planeta Solaris acederá, construindo com elas uma linguagem com que tenta comunicar com os humanos. Um aspecto em que a câmara se demora é a vegetação submersa no lago, plantas que se adaptaram à vida dentro da água num processo que, imaginamos no fim do filme, uma das personagens terá de dominar.

Deixando, a custo, o filme de lado, procurámos saber como sobrevive uma planta dentro de água. A ciência parece convencida de que as plantas aquáticas de maior porte descendem de vegetação terrestre que entretanto colonizou o habitat marinho ou fluvial. Mas como conseguem elas não apodrecer com a humidade excessiva? O que lhes permite resistir intactas à água mole que fura a pedra dura? Como se realiza a fotossíntese, tendo em conta a pior exposição à luz e a menor concentração de oxigénio e dióxido de carbono num meio aquoso? E, havendo marés, não precisam elas de saber funcionar também como seres terrestres, tal qual as baleias? O que se segue é apenas um resumo sobre mecanismos de adaptação à vida submersa, alguns dos quais o leitor poderá confirmar na planta das fotos.

Não lhes convém ter raízes ou caules demasiado rígidos, ou quebrariam com uma ondulação mais forte. Obviamente, não precisam deles para absorver, reter e conservar água, como sucede às plantas terrestres. De facto, estes são sobretudo âncoras (nem sempre necessárias pois, ao contrário do ar, a água permite que as plantas se sustenham sem esforço) que retiram oxigénio da água. Os talos são flexíveis, por vezes com nós que se fixam no fundo, mas frequentemente ocos ou com câmaras de ar para melhor flutuarem; neles a planta guarda a sua reserva privada de oxigénio, uma função semelhante à da estrutura análoga das plantas terrestres onde elas conservam nutrientes e água. E há a solução dos narizes exteriores, claro.

As folhas são finas, planas, por vezes largas ou longas para se manterem estáveis sem resistência às ondas, e realizarem a fotossíntese com eficiência. O pigmento verde está em geral concentrado na face superior, a que recebe luz, e há vários modos de fotossintetizar, nem todos eles inteiramente compreendidos. Em algumas espécies, as folhas parecem ter textura de borracha, e são decerto difíceis de rasgar. Além disso são sésseis, de modo que a sua ligação aos ramos é mais firme. E, sobretudo, são à prova de água: não têm, como as plantas terrestres, tecido protector ou poros com um sistema rigoroso de abertura que, em plantas em terra, são essenciais para reduzir a perda de água, seja pelo calor ou por outro factor ambiental; e a face superior das folhas está coberta com uma camada cerosa que repele a água, caso precisem de emergir, e mantém os poros livres para a transferência de oxigénio e dióxido de carbono, ou para selectivamente expelir certos iões e manter o equilíbrio químico das células.

Com as flores todo o cuidado é pouco, e elas nascem em hastes, ou espigas, que se erguem acima da água. A fertilização, na ausência de polinizadores, exige astúcia e alguma sorte — e há espécies que, em vez de largar o pólen ao acaso na água, na esperança de que atinja o estigma de alguma flor feminina, formam, com as pétalas das flores masculinas, pequenos botes que deslizam à bolina até colidirem com a haste feminina.

Por cautela, às vezes as sementes germinam ainda ligadas à planta-mãe, para depois, quando soltas, terem maior viabilidade. Disseminadas as sementes, pela água e ar, ou garantida a reprodução vegetativa através de pedaços da planta capazes de formar clones, ela hiberna ou morre, garantindo com os restos da folhagem ou dos rizomas fibrosos um substrato rico no fundo de lago, que assim se eleva, ajudando os rebentos a sobreviver e permitindo a formação de colónias mais ou menos densas.

As plantas das fotos são do rio Minho, algures entre Monção e Melgaço — talvez o último local do nosso país onde esta espécie (uma das que vemos no filme de Tarkovsky) ainda resiste. Por trás do areal da primeira imagem esconde-se um pequeno lago com uma população mimosa de Nymphoides peltata.

20/02/2016

Vassoura 1.0


Erica scoparia L.


Hoje a tecnologia renova-se todos os dias, e quem não se esforça por acompanhar as novidades transforma-se rapidamente num exilado de outras eras. Porém, nem sempre foi assim. É causa do maior espanto como puderam os nossos antepassados usar durante tantos séculos (ou milénios) o mesmo modelo básico de vassoura: um punhado de galhos secos mas flexíveis atados na ponta de um pau. Custa a crer, mas é verdade: não havia substituições periódicas de vassouras perfeitamente funcionais por modelos recém-lançados que faziam exactamente o mesmo; as vassouras só iam servir de lenha quando ficavam carecas, e as suas substitutas eram cópia exacta do que elas tinham sido quando novas.

Travão a fundo na dissertação, pois alguém nos avisa que as vassouras não evoluíram assim tanto: tirando o ter-se substituído a madeira pelo plástico (e ainda as há com cabo de madeira), a arquitectura geral da vassoura mantém-se inalterável desde sempre e assim há-de ser até à consumação dos séculos. A criatividade humana, seduzida pelo aspirador, deixou de se preocupar com a vassoura. E mesmo o aspirador, ao que nos dizem, dá sinais de estagnação no que toca ao design e ao princípio geral de funcionamento. Tanto assim é que há quem tenha desistido de trocar de aspirador todos os anos.

Desde a vassoura primordial até à vassoura contemporânea passámos da versão 1.0 para a versão 1.1, coisa que, no actual frenesim de inovação tecnológica, não deveria levar mais que uma semana. Mas essa falta de evolução permite-nos alegar que o fabrico artesanal de vassouras, usando justamente a urze-das-vassouras como matéria-prima, é assunto que não perdeu actualidade.

Deixando as instruções de montagem da vassoura para gente mais versada nessa arte, focamo-nos na questão de reconhecer a Erica scoparia. O epíteto scoparia é derivado de scopae, designação latina para vassoura, e outras plantas que partilham o mesmo epíteto (como o Cytisus scoparius) têm igual vocação para varrer. Quanto à urze-das-vassouras, o seu porte avantajado (excede frequentemente os 2 m de altura e pode chegar aos 4 m) e as suas folhas lineares, dispostas em verticilos de 3 ou 4, não permitem distingui-la de imediato de outras urzes de grande tamanho como a Erica arborea (urze-branca) e a E. lusitanica. Pelas flores, que são muito pequenas (até 2,5 mm de diâmetro) e esverdeadas, a distinção é óbvia, mas infelizmente o período de floração é curto, umas poucas semanas entre Abril e Maio. Com as flores já secas ou transformadas em frutos, é útil saber que elas se dispõem de forma muito densa e compacta (ver foto), o que não sucede com outras urzes de porte comparável. E há outra diferença que exige um olhar mais minucioso: a E. scoparia tem hastes glabras ou com poucos pêlos, enquanto que tanto a E. arborea como a E. lusitanica as têm densamente tomentosas.

É consolador para gente como nós que um gigante como Lineu também tenha cometido deslizes. A descrição no Species Plantarum (1753) da Erica scoparia assenta que nem uma luva, não ao arbusto que hoje é conhecido por esse nome, mas à... Erica arborea, que Lineu descreve (separadamente) na mesma obra e até na mesma página. Terá havido algum extravio ou má etiquetagem do material que Lineu recebeu dos seus colectores. Lineu apercebeu-se do erro e acabou por guardar no seu herbário uma amostra de E. scoparia com a etiqueta correcta, mas a descrição equivocada nunca foi corrigida. Se as leis que regem a taxonomia botânica tivessem sido cumpridas à risca, E. scoparia seria sinónimo de E. arborea, e a urze-das-vassouras teria que adoptar outro nome científico — por exemplo (e estes nomes existem mesmo) Erica absinthioides e Erica fucata. Valeu a tradição, pois o nome Erica scoparia já era usado antes de Lineu.

A terminar, diga-se que duas urzes endémicas dos nossos arquipélagos atlânticos, a E. azorica nos Açores e a E. platycodon subsp. maderincola na Madeira, são parentes muito próximas da E. scoparia — da qual, na opinião de alguns, não passariam de subespécies. Têm no entanto flores avermelhadas, o que, por a floração durar pouco, nunca pudemos confirmar ao vivo.

16/02/2016

O cravo dos cravos


Dianthus armeria L.
Algumas herbáceas hesitam entre um regime anual ou um ciclo bianual se o habitat tem poucos recursos ou é de elevado risco. O ano extra que por vezes se concedem serve para poupar as sementes que, desconfiam elas, não germinariam naquele ano em boas condições. Esta estratégia permite-lhes resistir em solos com poucos nutrientes, aguentar climas agrestes ou sujeitos a longos períodos de seca, e perdurar em locais improváveis. O cravo das fotos é um exemplo desse esforço de sobrevivência em condições extremas, nem sempre bem sucedido. As plantas do género Dianthus que ocorrem em Portugal, país rico em cravos silvestres, alguns deles endémicos, necessitam de boa exposição solar e, por isso, é frequente encontrarmos grandes populações deles em escarpas, taludes de estrada, dunas, clareiras de matos, afloramentos rochosos em leitos de cheia ou zonas pedregosas de montanha. Mas a espécie D. armeria é mais exigente, e requer prados e terrenos baldios ou em pousio na orla de bosques, com substrato arenoso ou argiloso. Além disso, tende para a indolência, e só algum distúrbio do solo no Inverno parece encorajar a germinação das sementes. Não surpreende, por isso, que os registos desta espécie em Portugal estejam confinados a meia dúzia de sítios no nordeste (embora a Flora Ibérica o assinale também na Beira Baixa) e sempre com número reduzido de indivíduos. A mesma redução de efectivos é notória em Inglaterra, Escócia e Irlanda, onde as populações decresceram para níveis alarmantes após a conversão de muitos prados em terrenos arados, florestados ou impermeabilizados — mas onde, por certo, recuperará através do zelo louvável de ecologistas, botânicos e amadores que costumamos testemunhar em outras ocasiões.

Vimos estes exemplares em Campo de Víboras, num dia de Julho quente e com muita luz, a conviver com zelhas, peónias e orquídeas. O mais alto media cerca de 60 cm, sem requebros nem a formar moitas como é comum noutras espécies de Dianthus; notavam-se-lhe bem as folhas opostas (duas por nó) e penugentas, e as rosetas basais de cor verde nítido em vez do tom glauco mais frequente na folhagem deste género. Havia poucas flores (têm cerca de 15 milímetros de diâmetro), que não são perfumadas mas são muito vistosas pelo rosa purpurino das pétalas maculado de sardas. Podem ver na última foto que elas se agrupam em cimeiras justas como vassouras, protegendo-se com enormes brácteas.

O nome vernáculo em inglês é Deptford pink, atribuído em 1633 pelo naturalista Thomas Johnson que, neste local perto de Londres, o confundiu o Dianthus deltoides. Em português não se conhece designação comum; o título acima refere-se apenas ao facto de os epítetos Dianthus e Armeria significarem ambos cravo.

13/02/2016

Giesta dos espinhos



Genista hystrix Lange


Para compensar a pouca atenção que damos aos verdadeiros tojos, assunto espinhoso em muitos sentidos, aqui vai um falso tojo menos eriçado e traiçoeiro, mas capaz também de picadas agressivas. Cada haste da Genista hystrix é rematada por um forte espinho, parecendo que isso lhe basta como defesa, pois de resto a planta é desprovida de acúleos. Essa relativa mansidão, assim como o porte erecto, permitem diferenciá-la, na ausência de flores e de folhas, do Echinospartum ibericum, uma leguminosa bastante mais espinhenta que forma característicos almofadões em zonas pedregosas de montanha. Havendo flores, a diferença entre as duas espécies é óbvia: as do E. ibericum são menores e têm um cálice muito mais lanudo.

A Genista hystrix, cujo epíteto é o nome grego para ouriço-cacheiro, é um arbusto que não costuma ultrapassar um metro do altura. Em cada estação de crescimento, flores e folhas só aparecem nos ramos novos, que têm uma textura acetinada; os ramos velhos são glabros e grossos, profundamente marcados por 10 a 12 estrias. É um endemismo do NW peninsular, que vive perto de rios em locais rochosos de média altitude, em geral longe da costa. Escasseia no Minho e na Galiza, mas vai-se vendo em Trás-os-Montes ao longo das bacias dos maiores afluentes do Douro. As fotos que ilustram o texto foram porém captadas nas margens do rio Minho, algures nas pesqueiras de Melgaço, onde a G. hystrix surge na companhia de muitas outras plantas improváveis que ali se instalaram por engano — engano esse que nos serve de desculpa para lhe termos dado, inicialmente, o nome errado. Foi o João Lourenço, que de tojos verdadeiros ou falsos percebe muito mais do que nós, quem nos apontou o lapso.

Quando não temos a prudência de estudar uma chave de identificação, deixando-nos guiar pelas primeiras impressões, a geografia, que neste caso confundiu, pode de facto dar uma ajuda. Fica então o leitor prevenido de que, se estiver no Alentejo ou no Algarve passeando pelas margens pedregosas de algum rio, e lhe parecer reconhecer a Genista hystrix, então o que está a ver é de facto outra coisa, a Genista polyanthos, que se distingue por caracteres demasiado subtis para serem aqui explicados. Estas duas Genistas gémeas, ambas endémicas da Península Ibérica, uma do norte e outra do sul, têm distribuições praticamente disjuntas, embora com alguns pontos de contacto na Extremadura espanhola.