19/09/2011

Licopódio-dos-brejos

Lycopodiella inundata (L.) Holub


Até à chegada da troika, a construção das auto-estradas parecia imparável, e mesmo depois não terá abrandado muito. Estas coisas têm a sua inércia, tanto maior quanto mais veloz e mais pesado for o veículo em movimento, e meter travões a fundo não garante paragem imediata. E é natural que, tendo nós vivido um processo de modernização galopante, as plantas mais primitivas estejam condenadas ao desaparecimento.

(O escriba considera avisado abrir um parênteses para ressalvar que a teoria atrás exposta não passa de um desabafo fantasioso: tem muito pouco de empírico e nada de científico. Fechar parênteses.)

A subdivisão Lycopodiophyta do reino vegetal, que abrange as plantas a que os anglo-saxónicos chamam clubmosses ou spikemosses, é uma das mais primitivas que existem. Semelhantes às primeiras plantas vasculares de que dão testemunho os registos fósseis, reproduzem-se por esporos tal como fazem os fetos. Mas — apesar da etiqueta que por comodidade colocamos aí em baixo — não são propriamente fetos, e de facto precederam-nos em mais de 50 milhões de anos. Apresentam uma morfologia característica: caules mais ou menos ramificados, erectos ou prostrados, cobertos por folhas diminutas e pontiagudas. Os esporângios acumulam-se no ápice dos caules, e por vezes (como é o caso da Lycopodiella inundata) estão totalmente ocultos pela folhagem. Os exemplos já aqui exibidos dessa classe de plantas incluem a açoriana Huperzia dentata, a valonguense Lycopodiella cernua, e ainda duas espécies de Selaginella, uma continental e outra insular.

Com excepção da Selaginella, todas estas plantas são escassíssimas em Portugal continental, e terão lugar de honra no sempre adiado Livro Vermelho da Flora Vascular Ameaçada. A Lycopodiella inundata, que vive em sítios húmidos ou turfosos, está restrita a uns poucos lugares no Alto Minho, incluindo dois ou três na metade ocidental do PNPG, em altitudes entre os 700 e 900 metros. A acreditar em Franco & Rocha Afonso (Distribuição das Pteridófitas e Gimnospérmicas em Portugal, 1982), a espécie existiria também em Valongo ou nos arredores, mas tal informação não é confirmada por nenhum registo recente. Segura é a sua ocorrência nos Açores e, fora de Portugal, nas zonas temperadas ou frias do hemisfério norte, desde a Europa até à Ásia e à América. Na Grã-Bretanha, e especialmente no sul, é presença assídua em charnecas húmidas.

O licopódio-dos-brejos é formado por caules rastejantes que raramente ultrapassam os 20 cm de comprimento e vão fincando raízes no solo à medida que avançam. A parte terminal desses caules é a única coisa que sobra da planta durante o Inverno. Esporadicamente, entre Abril e Setembro, emergem as hastes férteis, as que contêm os esporângios para a propagação da espécie: são erectas, curtas (até 5 cm de altura) e estão, tal como os caules, cobertas por folhas (ou micrófilos) de cerca de 5 mm de comprimento, dispostas em espiral.

16/09/2011

Segredos do souto


Epipactis fageticola (C. E. Hermos.) Devillers-Tersch. & Devillers
Daniel Tyteca já a tinha avistado em Vinhais, no interior do Parque Natural de Montesinho, e publicado a descoberta em 1999, como uma nova espécie para a flora portuguesa. Identificou-a como Epipactis phyllanthes G.E. SM., e é assim que João do Amaral Franco & Maria da Luz da Rocha Afonso a referenciam, em 2003, no fascículo III do volume III da Nova Flora de Portugal. Porém, um trabalho de investigação publicado em 2001 por Gévaudan, Lewin & Delforge (no n.º 82 da revista Naturalistes Belges) mudou todas as populações portuguesas conhecidas de E. phyllanthes (e quase todas as peninsulares) para a espécie E. fageticola, justificando a transferência com detalhes morfológicos e genéticos. Numa visita recente a Portugal, Tyteca proferiu uma palestra no âmbito das actividades da Associação de Orquídeas Silvestres — Portugal, tendo então referido a existência da planta também na Beira Litoral e na Beira Alta. Mas nós não sabíamos de nada disto e, por isso, foi grande a emoção de observar, quase em primeira mão, uma orquídea tão rara em Portugal.

Aconteceu no dia em que fomos à serra da Estrela ver a Campanula herminii. Depois de admirarmos os «cântaros» e de muitas pausas para fotografar, os nossos companheiros de passeio propuseram que procurássemos uma população de Epipactis no Souto do Concelho, em Manteigas, local onde abundam faias, castanheiros e lariços. Havia indicação precisa do lugar onde procurar, mas, tratando-se de orquídeas de porte diminuto, que pedem sombra e solos humedecidos, um pequeno desvio nas coordenadas registadas pelo GPS poderia frustrar a busca. Ah, mas nós estávamos bem acompanhados. E não hesitámos em desabar encosta abaixo, rompendo pela mata, quando o Francisco Areias nos chamou jubilosamente: tinha encontrado, junto a uma linha de água, uns dezasseis exemplares de Epipactis. As flores eram estranhas: verdes, de hábito pendente, com um lábio branco saliente, cordiforme, parecido com as pétalas, além de uma bolinha amarela a resguardar o pólen. Tratava-se, sem dúvida, da E. fageticola. Não fossem os mosquitos (ou seriam polinizadores?) a banquetearem-se à nossa custa, e suspeito que só depois de o sol se pôr, pelo receio infantil que o Capuchinho Vermelho nos ensinou, teríamos deixado aquele lugar sombrio que de repente se tornara tão admirável. Duas semanas depois ficámos a saber não serem estas as plantas que o Alexandre Silva (CISE) mencionara à Luísa e ao Joaquim; essas são de outra espécie, E. helleborine — além destas espécies, em Portugal só existem mais duas, a E. tremolsii e a E. lusitanica (que talvez não passe de uma subespécie ou variedade da anterior).

Segundo P. Delforge (Orchids of Europe, North Africa and the Middle East, 2006), a E. fageticola ocorre em França, Espanha, Suíça e Portugal, sendo extremamente rara na Península Ibérica. Apesar de, como é comum no género Epipactis, optar frequentemente pela auto-polinização e muitas flores nem se darem ao trabalho de desabotoar — ainda que a presença de pequenos nectários indique que elas não desistiram de tentar a polinização cruzada.

15/09/2011

Erva-loira na estrada descendente


Senecio pyrenaicus subsp. caespitosus (Brot.) Franco


Sem que nada façam para merecer tal tratamento, as plantas também podem cair em desgraça. Um endemismo de uma área restrita como a Serra da Estrela tem direito a ser citado em relatórios, a ser celebrado em resumos de maravilhas para turista ler, a ilustrar com a sua foto brochuras e folhetos de promoção. Mas depois os botânicos, sempre insatisfeitos com o status quo, mudam de opinião e decidem que tal endemismo afinal não o é, pois ocorre em vários outros lugares ou países. Atendendo a algumas subtis diferenças, quando muito tratar-se-á de uma subespécie endémica. Vendo melhor, as diferenças estão dentro do intervalo normal de variação da espécie, e por isso nem sequer configuram uma variedade, quanto mais uma subespécie. E assim, de degrau em degrau, vê-se o endemismo apeado do trono e condenado à inexistência. A planta em si continua a existir, não perdeu beleza nem utilidade; o nome é que é outro, e por isso já não a vemos com os mesmos olhos. Vá lá o ingénuo do Shakespeare (por interposta Julieta) alegar que «A rose by any other name would smell as sweet». Poderá o cheiro ser o mesmo, mas a verdade é que o nosso nariz mudou irremediavelmente.

Exemplo de despromoção foi a que sofreu a Silene elegans: há vinte ou trinta anos era uma das jóias botânicas da Serra da Estrela, um endemismo exclusivo ainda mais raro do que a Silene foetida subsp. foetida; agora que se passou a chamar Silene ciliata, e se sabe que ocorre igualmente em Espanha, já ninguém quer saber dela.

E é bem possível que a história se repita com a planta de hoje, uma erva-loira (nome que assenta bem a várias espécies de Senecio) que em Portugal só existe na Serra da Estrela. É uma moça modesta, sem nada desses ares de exclusividade que a sua condição de rara a poderiam levar a assumir. Gosta até de se postar à beira da estrada para ver o trânsito desfilar.

Foi no primeiro volume da Flora Lusitanica, em 1804, que Félix de Avelar Brotero fez o primeiro registo oficial desta planta; chamou-lhe então Senecio caespitosus. Passou-se mais de um século e meio, a serra foi rasgada por estradas, vieram hordas de turistas atraídos pelo engodo da neve, mas nada perturbava o sentimento de pertença da planta: ela era da serra e só da serra; não queria saber de outros países ou cordilheiras. O primeiro golpe foi desferido por João do Amaral Franco no 2.º vol. (de 1984) da Nova Flora de Portugal: o S. caespitosus ficava a ser apenas uma subespécie do S. pyrenaicus, espécie que ocorre também em Espanha e na França. Ainda assim, tratava-se, de acordo com o mesmo autor, de uma subespécie exclusiva da Serra da Estrela. Talvez essa réstia de glória se perca quando a Flora Ibérica fizer sair o volume das asteráceas: de facto, as particularidades morfológicas assinaladas por Franco (recorte da folhagem, diâmetro dos capítulos florais) não parecem ser suficientemente diferenciadoras; e à vista desarmada esta hipotética subespécie não se distingue das outras.

Por certo o leitor ficou, como nós, ansioso por conhecer o desfecho desta história. Uma Flora, coisa árida escrita na linguagem cifrada dos especialistas, pode ser uma leitura emocionante.

14/09/2011

Campainhas nos cântaros

Campanula herminii Hoffmanns. & Link


Nome vulgar: nenhum registado
Ecologia e distribuição: pastagens, urzais, ocasionalmente em fissuras de rochas, em altitudes superiores a 600 m, nas cadeias montanhosas (sobretudo) do norte e centro da Península Ibérica (ainda que também ocorra em Almería e em Granada)
Distribuição em Portugal: Serra da Estrela e (segundo a Flora Ibérica) Trás-os-Montes
Época de floração: Junho a Setembro
Data e local das fotos: Julho de 2011, entre o Cântaro Magro e o Cântaro Gordo
Informações adicionais: as plantas da Serra da Estrela têm em geral caules mais curtos (10 a 20 cm de altura) do que o máximo (60 cm) citado pela Flora Ibérica

13/09/2011

A fonte no monte

Montia fontana L.


As folhas, carnudas, espatuladas e sésseis, e a ramagem prostrada, por vezes rubra, a formar um matinho denso: tudo faz lembrar a prima beldroega (Portulaca oleracea L.). Também esta planta é (no início da Primavera) tenrinha e comestível, com um sabor que lembra o do agrião. O nome comum em inglês, miner's lettuce, alude precisamente ao seu consumo em saladas por mineiros da Califórnia no século XIX. Porém, ao contrário das flores vistosas da Portulaca, as da marujinha são inconspícuas (2-3 mm), com pétalas desiguais, como se moldadas em gesso por artesão atabalhoado com pulsão para miniaturista. Por isso, a outra designação inglesa, blinks, ajusta-se-lhe melhor.

É uma herbácea ripícola, da beira de fontes, nascentes ou margens de regatos e até locais periodicamente inundados, mas que prefere água corrente. É anual ou bienal e a floração ocorre entre Abril e Outubro. Encontrámo-la no Covão d'Ametade, a revestir um talude irrigado por um cachão de água; as folhas, com uns 5 mm de comprimento, estavam longe do máximo descrito para esta espécie, fixado em 2 cm.

O género Montia (designação que homenageia o naturalista italiano Giuseppe Monti (1682-1760)) tem estado em processo de reorganização, mas ainda subsistem dúvidas. As actuais etiquetas dependem sobretudo da textura da casca das sementes (em geral, três por cada fruto, reniformes e negras). A culpa é da grande variabilidade morfológica que as espécies deste género exibem, uma canseira para os taxonomistas mas que as ajuda a adaptarem-se a novos habitats. Com essa estratégia, estão a tornar-se cosmopolitas, depois de terem sido consideradas pontuais em vários ambientes. Algumas Floras entendem hoje que as plantas do género Montia que ocorrem em Portugal pertencem a duas das três subespécies registadas de Montia fontana (a subsp. amporitana, mais comum, ou a subespécie chondrosperma, com menor exigência de água) ou à espécie Montia perfoliata (Willd.) Howell, a beldoega-de-Inverno, norte-americana de origem, citada por Franco como subespontânea na serra de S. Mamede. Segundo o mesmo autor, a planta da foto (que já se chamou Montia lusitanica Samp.) só é rara no sul do país.

12/09/2011

Feto quebra-ossos


Dryopteris oreades Fomin


Ler os comentários dos leitores nas versões on-line dos nossos jornais valia por um tratado de psicologia social: era um mergulho a frio num mundo de pequenos e grandes rancores e de má-língua desenfreada. Já não é tanto assim desde que mandaram vir a vassoura. O resultado é que a porcaria já não entra; ou, se entra, não tarda a ser varrida. "Moderação de comentários" é como se chama a operação higiénica. Para ouvirmos bocas do mesmo quilate temos que regressar aos cafés ou aos transportes públicos.

As notícias de acidentes na montanha — envolvendo quedas ou gente que se perde — suscitavam (e ainda suscitam, posto que em linguagem menos escabrosa) uma reacção automática unânime: estes tipos da cidade metem-se por onde não conhecem e depois dá nisto; causam transtornos e perdas de tempo às equipas de socorro por pura irresponsabilidade; deviam era levar uma multa bem pesada para ver se aprendem. É curioso como os acidentes de automóvel, muito mais comuns e muito mais mortíferos, não provocam reacções semelhantes.

Sem fazer a apologia da imprudência, convém lembrar que sair dos caminhos assinalados é essencial para que os lugares se tornem parte de nós. Só assim os mapas mentais por que nos orientamos assumem contornos mais nítidos; só assim as descobertas (de um recanto, de uma planta, de uma paisagem) ganham o sabor de vitórias pessoais. Há truques que se aprendem para prevenir transtornos, há aparelhos que ajudam os nossos fracos sentidos. Mas é preciso ultrapassar o temor e desobedecer ao dedo em riste dos que nos querem domesticar.

Vem isto a despropósito do Dryopteris oreades, um feto que encontrámos na serra da Estrela num local de acesso problemático: uma fenda de rocha junto a uma plataforma de um ou dois metros de diâmetro, debruçada a pique sobre uma escarpa. Descer para a plataforma não era difícil nem particularmente arriscado; subir de volta custava mais, mas lá se conseguiu. O fotográfo não quer posar como herói, pois já houve quem cometesse feitos muito mais arrepiantes. Consta até que existe uma actividade humana (proibida na serra da Estrela desde que entrou em vigor o último plano de ordenamento) que se chama "escalada".

E essa desobediência à lei e ao bom senso foi ao menos por uma boa causa? Certamente que sim, prezado leitor: em Portugal, o Dryopteris oreades (ou feto-macho-de-altas-montanhas, como portentosamente lhe chamam Franco & Rocha Afonso) só existe, e em escassíssimo número, nos pontos mais altos das serras do Gerês e da Estrela. E os lugares onde mora são todos assim ou piores.

Deve admitir-se, contudo, que este feto tem fortes semelhanças com outros seus congéneres bastante mais comuns, como seja o D. affinis. Mas os habitats são completamente diferentes, já que o D. affinis mora em bosques caducifólios húmidos, sobre solos ricos; e o feto montanhês, mais pequeno, tem frondes esguias que não costumam ultrapassar os 60 cm de comprimento, quando as do outro chegam a atingir metro e meio. Outras diferenças: o D. oreades perde a folhagem no Inverno (período em que, em qualquer caso, estaria sepultado sob a neve), tem a ráquis muito menos escamosa, e exibe apenas de um a três soros (= agrupamentos de esporângios) no verso de cada pínula (no D. affinis esse número varia em regra entre 6 e 8).

Com um contingente lusitano tão depauperado, é bom saber que o D. oreades não é assim tão raro por essa Europa fora, embora se fique sempre por zonas pedregosas de montanha. Na Grã-Bretanha, ilha pouco afamada pelo acidentado do relevo, é mesmo tido como abundante em certas zonas.

09/09/2011

Tramazeira


Sorbus aucuparia L.


Em tempos, lemos no Jornal de Horticultura Prática que Alfredo Allen propôs à Câmara do Porto que usasse laranjeiras na jardinagem pública e na ornamentação das ruas. Sugestão sábia pois estas são árvores de porte pequeno, que não tiram sombra a nenhuma janela nem destroem o piso por engrossarem as raízes; e, a juntar a essa postura recatada, ainda têm floração aromática e frutos comestíveis. A ideia não foi acolhida e ainda hoje os nossos paisagistas preferem confinar plátanos a caldeiras que competem com os peões em passeios de dois metros de largura, e são detorados regularmente para que não cresçam como é seu saudável costume.

Na serra da Estrela, porém, alguém levou ideia análoga adiante, plantando fiadas de tramazeiras ao longo das estradas, a somar às que crescem espontâneas pelas matas. São árvores de tamanho médio (raramente superam os 10 metros de altura), adaptadas à altitude e resistentes ao frio, de folha caduca e portanto não filtrando a parca luz no Inverno. As flores, que começam a aparecer no fim da Primavera, dispõem-se em ramalhetes chamativos e muito perfumados, e os frutos, de cor escarlate e sabor ácido, são consumidos em compotas, ou transformados em licor ou em vinagre (por serem ricos em vitamina C e taninos). A madeira é clara, levemente rosada, de textura fina mas dura, e por isso utilizada em fusos, rolamentos e pás de moinhos. Além destas virtudes, a sorveira-brava ainda atrai tordos e melros; esperemos que seja mais vezes a sorveira-dos-passarinhos do que a sorveira-dos-passarinheiros (do latim aucupor).

Ocorre na Ásia, Europa, norte de África, Islândia e Gronelândia. Na Península aparece sobretudo na metade norte, estando declarada como vulnerável ou ameaçada em algumas regiões espanholas. Em Portugal, e apenas no norte e centro, prefere bosques ou sítios expostos acima dos 1000 metros de altitude, colonizando mesmo lugares rochosos e alcantilados. A Nova Flora de Portugal regista-o nas serras do Gerês, Cabreira, Larouco, Montesinho, Roboredo e Estrela, mas a lista está incompleta.

Distingue-se da maioria das outras espécies de Sorbus no nosso território por ter folhas compostas e imparipinuladas (com 5 a 7 pares de folíolos de margem serrada e mais um na ponta); a folhagem pode confundir-se com a da S. domestica L., espécie da região mediterrânica, usada por vezes como ornamental, que dá frutos maiores, castanhos quando maduros.

08/09/2011

Prata da serra

Paronychia polygonifolia (Vill.) DC.


Será de bom grado que a serra da Estrela nos revela os seus segredos? A pergunta impõe-se face à existência de uma estrada asfaltada, larga e confortável, que nos leva bem até ao cume, rasgando zonas de uma riqueza natural que quase não tem paralelo no nosso país. As raridades botânicas nunca estão a mais de trezentos ou quatrocentos metros da estrada, e às vezes chegam-se mesmo à berma. No Gerês, por contraste, as paisagens mais impressionantes ficam bem afastadas de qualquer rodovia; é preciso fazer uma aprendizagem do território e penar por trilhos acidentados, tantas vezes sem sinalização, antes de vermos o primeiro lírio (Iris boissieri). A Estrela, apesar do recorte apocalíptico dos seus cântaros, perdeu mistério com a democratização do acesso.

Esta versão montanheira da erva-prata (Paronychia argentea, comum no litoral), de seu nome Paronychia polygonifolia, fornece um bom exemplo da caça ao tesouro que perde metade da graça porque o tesouro, afinal, não estava escondido. Só não perde a graça toda porque não deixa por isso de ser um tesouro. Trata-se de uma planta prostrada, de flores minúsculas, que vive em rochas e cascalheiras graníticas no sul da Europa (da Península Ibérica até à Grécia) e no norte de Marrocos. As suas preferências de altitude ditaram que em Portugal ela só se tenha instalado nos patamares superiores da serra da Estrela. Toca então de preparar uma expedição de mochila às costas a que talvez não deva faltar equipamento de escalada. Mas pára-se o carro e eis que vemos a planta a forrar os interstíticios das rochas que ladeiam a estrada. Tudo simples e burocrático, como se visitássemos um jardim botânico com tudo etiquetado; não há aventura, não há esforço, não há o frisson da descoberta.

O nome erva-prata, que não será descabido aplicar a todas as espécies do género Paronychia (em Portugal há três), justifica-se pelas brácteas alvacentas que são a parte mais vistosa da inflorescência. Aliás, um modo fácil de distinguir entre a P. argentea e a P. polygonifolia é que, nesta última, as brácteas são mais pequenas e não ocultam as flores. Outra diferença é que as folhas da P. polygonifolia são menores e mais densamente distribuídas ao longo do caule.

O nome inglês para a Paronychia é nailwort, ou erva-das-unhas. Essa conexão com os nossos dedos está consagrada no próprio nome científico: paroníquia é como se chama a doença, causada por uma bactérica, que provoca uma inflamação da pele junto às unhas. Mas isso não significa que a planta alguma vez tenha sido usada para curar a doença, pois o nome, que foi adoptado pelo botânico Philip Miller (1691–1771) mas já vem dos gregos, pode ter sido por eles aplicado a alguma outra planta.

07/09/2011

Coro de assobios


Silene ciliata Pourr. [= Silene elegans Link ex Brot.]


Nome vulgar: herba fetgera (em castelhano)
Ecologia e distribuição: fissuras de rochas e pastagens, em altitudes superiores a 1100 m, no norte e centro da Península Ibérica e no sul de França
Distribuição em Portugal: zonas mais elevadas da Serra da Estrela
Época de floração: Julho a Agosto
Data e local das fotos: Agosto de 2011, Nossa Senhora da Estrela
Informações adicionais: na sua forma típica (que não ocorre em Portugal), a Silene ciliata é uma planta com caules até 30 cm, e com folhas basais e caulinares bem formadas; as plantas da Serra da Estrela são mais pequenas, têm menor número de flores por haste, e as folhas nos caules (quando as há) estão reduzidas a brácteas; por isso esta forma da planta (que também existe na Serra de Gredos, em Espanha) era considerada uma espécie distinta, com o nome Silene elegans; atendendo à existência de plantas intermédias entre as duas formas, a Flora Ibérica decidiu abolir a Silene elegans como espécie autónoma, nem sequer lhe outorgando o estatuto de subespécie

06/09/2011

O único assobio que

Silene foetida Link subsp. foetida


Em algumas famílias, para que as crianças não conheçam a inveja pelo presente alheio, dão-se prendas a todos os miúdos no aniversário de cada um. Igual gentileza têm certas plantas connosco: para que Espanha não seja a única depositária de quase todos os endemismos ibéricos interessantes, há espécies que se dividem em duas subespécies, cada uma só ocorrendo de um dos lados da fronteira. Exemplifiquemos.

A Silene acutifolia Link ex Rohrb., planta perene que encontrámos nas serras do Gerês, Aboboreira e Estrela, é, como contámos, um endemismo luso-galaico que escolhe as fissuras das rochas graníticas para habitar, entre os 700 e os 1800 metros. As pétalas são púrpura ou rosadas e pouco indentadas, ligeiramente reflexas. As folhas apiculadas formam uma roseta basal e algumas, poucas, distribuem-se pelos talos que se ramificam dando-lhe um ar cespitoso. A esta espécie chamou Amaral Franco, na Nova Flora de Portugal (1971), Silene foetida Sprengel. Confuso?

Compreede-se o engano porque a verdadeira Silene foetida Link (a que Franco chamou S. macrorhiza Lacaita) é muito parecida com a S. acutifolia, embora prefira solos mais xistosos em taludes pedregosos mais ou menos humedecidos, a altitudes superiores a 1800 metros. É também planta vivaz, de folhas ovadas, arredondadas na base e densamente pubescentes, mas sem roseta basal e com os caules prostrados. O cálice é um pouco maior e as pétalas mais indentadas têm um matiz rosa mais claro, por vezes quase branco; além disso, as hastes florais são mais pegajosas — mas as glândulas não lançam nenhum odor desagradável como o calunioso epíteto insinua. É um endemismo do noroeste da Península Ibérica que em Portugal só ocorre na serra da Estrela.

Porém a história tem uma adenda. Segundo a Flora Ibérica, distinguem-se duas subespécies de Silene foetida: a Silene foetida Link subsp. foetida, a tal que só se encontra na serra da Estrela; e a Silene foetida subsp. gayana Talavera, também perene, de folhagem cerrada, um pouco lenhosa, com pétalas maiores e, quanto ao visco, a meio caminho entre a S. acutifolia e a subespécie anterior. É planta só espanhola, de lugares rochosos das montanhas do noroeste, entre os 1600 e os 2000 metros.

Naturalmente os botânicos sabem de várias razões, evolutivas ou obra do acaso, para que duas espécies tão semelhantes (S. acutifolia e S. foetida subesp. foetida) se tenham tornado autónomas, embora coabitem na serra da Estrela; e poderão dar-nos outras tantas explicações para que existam duas versões quase idênticas de Silene foetida, uma para nós e outra para eles. Ou talvez a natureza, tal como a interpretam os autores da Flora Ibérica, se preocupe também em evitar birras entre os dois vizinhos peninsulares.

05/09/2011

Goivo dourado

Erysimum merxmuelleri Polatschek


A Flora Ibérica enumera 21 espécies indígenas de Erysimum na Península; se contarmos com subespécies, o número sobe para 23. Dir-se-ia que a natureza, por vezes, se entretém a recombinar espécies com um afinco digno dos melhores jardineiros-viveiristas. Da riqueza botânica que tal impulso criador produziu, pouco coube a este rectângulo ocidental, pois só três das espécies têm presença confirmada no nosso país: o duriense Erysimum linifolium; o Erysimum lagascae, uma espécie escassamente vista por cá que se distingue da anterior pelas folhas mais largas; e, por fim, o Erysimum merxmuelleri, o goivo dourado da Serra da Estrela, com uma área de distribuição que se estende pela cordilheira central ibérica até Gredos.

As hastes elegantes, de 50 a 60 cm de altura; as folhas inteiras, simples, com veio central bem vincado; as flores grandes e vistosas, com 2 a 3 cm de diâmetro — tudo isso ajuda a não confundir o Erysimum merxmuelleri com outras crucíferas de flores amarelas. Por ausência de espécies semelhantes, a identificação é para nós tarefa simples. Já os espanhóis têm que se haver com seis espécies (ou micro-espécies) de Erysimum de flores amarelas que são pequenas variações umas das outras, e com mais umas tantas análogas que resistem a deixar-se catalogar. A outra face da fartura é a confusão; pobreza é simplicidade. Temos pouca coisa, mas sabemos o que temos.

Ou não? Devemos admitir que a selecção das fotos ilustrativas foi norteada pela preocupação de não mostrar como as folhas de algumas plantas fugiam ao figurino estabelecido para o E. merxmuelleri: as margens, em vez de serem inteiras, estavam marcadas com três ou quatro pares de dentes. Tal constatação causou-nos alguns calafrios. E se se tratar de outra espécie? Qualquer dia vai por aqui a mesma trapalhada que reina em terras de Espanha. O mais sensato é ocultar a descoberta.

Uma leitura mais atenta da Flora Ibérica devolveu-nos a tranquilidade. É que, dentro do sexteto de micro-espécies de que o E. merxmuelleri faz parte (e que é liderado pelo E. nevadense), são admitidos os dois tipos de folha, com ou sem dentes, embora a forma desdentada seja a mais comum. Nada a temer, portanto, destes dentes que não mordem.

02/09/2011

Almofada de espinhos


Echinospartum ibericum Rivas Mart., Sánchez Mata & Sancho


O topo agreste das montanhas, de ar impoluto, comporta, tal como os areais junto ao mar, alguns sobressaltos de que as plantas se acautelam crescendo pouco ou adoptando um hábito rasteiro que as poupa à destruição por ventanias e nevões. Sem essa precaução, não poderíamos apreciar a forma almofadada deste arbusto (ou touceira) que, em altitudes mais baixas, chega aos 2 metros de altura e perde a redondez suave dos coxins.

Como os ramos estriados e decussados são espinhosos (outro modo de se acomodar ao ambiente adverso), a planta lembra um ouriço-cacheiro (o termo grego echinos significa ouriço), que é amarelo e branco em Junho e Julho; daí que os espanhóis a conheçam por erizo. Mais difícil é desvendar a origem da designação portuguesa, caldoneira, pois os dicionários não a esclarecem. Spartum refere-se às giestas usadas para fazer vassouras ou cordame, leguminosas como esta planta, que aliás já houve quem confundisse com a Genista lusitanica L.

Segundo a Flora Ibérica, na Península ocorrem cinco espécies do género Echinospartum, das quais apenas uma é espontânea em Portugal, havendo registos da sua presença nos cumes das serras da metade norte do país. É um endemismo ibérico de distribuição restrita ao centro e norte da Península Ibérica, entre os 700 e os 2200 metros, que resiste bem ao frio e à neve. Pelo que observámos, prefere lugares pedregosos secos e expostos, como ladeiras erodidas ou patamares com solo ácido pouco profundo. As folhas minúsculas (4-9 mm de comprimento) são opostas, lineares, compostas por três folíolos, com pecíolo curto, estípulas compridas (são os tais espinhos) e face inferior acetinada. As flores nascem em fascículos terminais; o cálice é campanulado e tem dois lóbulos sedosos e muito penugentos; na corola amarela, o dorso do estandarte e da quilha também se agasalham com uma camada rala de lã. A vagem é encimada por um espinho e contém poucas sementes, mas estas não perdem a viabilidade se transportadas por uma correnteza, colonizando assim facilmente o sopé das encostas.

É espécie protegida em (algumas regiões de) Espanha.

01/09/2011

Estrela da serra


Saxifraga stellaris L.
Quando o Joaquim nos mostrou esta planta, agarrada a uma rocha ressumante já perto do cume da Serra da Estrela, saudámo-la como quem reencontra uma velha conhecida. Com que então por aqui? Já não nos víamos desde a última ida a Pitões. Ainda a florir? Pois, a 1900 metros de altitude há sempre atrasos. Então passe muito bem.

E afinal estávamos enganados. Comportámo-nos como alguém que encontra um conhecido na rua e, depois de meter conversa, conclui que afinal não conhece tal pessoa e foi iludido por uma semelhança fortuita. Como as plantas não têm a capacidade de nos embaraçar, em vez de um pedido de desculpas e de uma despedida envergonhada, optámos por regressar ao local uma semana mais tarde.

Em resumo, a planta que vimos na Serra da Estrela, apesar da vincada parecença com a Saxifraga lepismigena, pertence a outra espécie, de seu nome Saxifraga stellaris. E a diferença, ao contrário do que por vezes sucede em taxonomia botânica, não se reduz ao nome ou a pormenores morfológicos só visíveis à lupa. Ora vejamos. A S. stellaris tem as folhas glabras, formando uma roseta compacta e bem definida; a S. lepismigena tem folhas com pêlos claramente visíveis, agrupadas de forma solta. E há as flores: na S. stellaris as cinco pétalas são mais ou menos iguais, mas na S. lepismigena duas das pétalas, além de terem forma diferente, não são manchadas de amarelo como as outras três.

No que as duas espécies se equiparam é no valor conservacionista. A Saxifraga lepismigena é um endemismo do noroeste peninsular com exigências ecológicas peculiares, e como tal uma preciosidade a proteger. A Saxifraga stellaris, que prefere lugares montanhosos onde a neve se demora boa parte do ano, tem uma distribuição muito mais vasta (Europa incluindo Grã-Bretanha e Islândia, mas também Gronelândia e América do Norte), mas em Portugal só existe na Serra da Estrela, acima dos 1700 m de altitude.