10/11/2011

A nadar em seco

Delphinium pentagynum Lam.
Esta espécie é vivaz e natural do centro e sul da Península Ibérica, e do norte de África. Dá-se melhor em clareiras de bosques, terrenos em pousio e margens de riachos com solos bem drenados. A haste floral atinge os 70 cm de altura; tem na base uma roseta de folhas caducas, palmadas, muito divididas e com pecíolo longo, e outras mais acima, esparsas e alternadas. A floração decorre entre Maio e Agosto, mas a data certa depende do habitat.

Seria necessário desmembrar estas flores (de cerca de 25 mm de largura em azul violeta) para se ver que têm quatro pétalas e cinco sépalas (que parecem pétalas, com cerca de 12 mm de diâmetro), uma das quais, a do topo, termina numa espora. As duas pétalas de cima produzem néctar e esticam-se até ao bordo da espora para nela o depositarem. Os insectos beneficiados por este formato são, naturalmente, os que têm língua comprida e afiada, e são estes de facto (além dos colibris, onde os há) os polinizadores mais habituais das plantas deste género.

Estas esporas chamam a atenção apesar de curtas por terem a ponta arrebitada para cima. Como cálice para néctar parece uma postura imprudente, o pitéu pode entornar-se. Mas o mais certo é que isso traga vantagem à planta, que corresponda a um estratagema para garantir uma polinização mais bem sucedida. Na verdade, desse modo os polinizadores têm de forçar o acesso ao néctar, e com isso roçar o corpo nas estruturas com o pólen (amarelo, logo à entrada) que é sua missão colectar e disseminar. Além disso, neste género é frequente que a distribuição de néctar pelas flores não seja equitativa, e que as populações organizem um esquema de recompensa. Funciona do seguinte modo: a maioria das flores não tem néctar (logo a inclinação da espora é irrelevante) e umas poucas têm muito néctar, estando quase ausentes flores com quantidades intermédias de néctar. E, portanto, como numa venda de rifas, os insectos têm maiores hipóteses de recompensa se visitarem mais flores à procura daquelas onde se concentra o alimento. Contudo, a parcimónia na distribuição da recompensa poderia levá-los a desistir demasiado cedo. Determinar a proporção ideal de flores com (muito) néctar entre as muitas flores vazias de modo a maximizar o número de visitas por insecto (e portanto optimizar a eficiência da polinização) é um problema matemático complicado de que estas plantas parecem ter descoberto a solução.

09/11/2011

No meio do caminho, um cardo

Centaurea calcitrapa L.


Nomes vulgares: cardo-estrelado, red star-thistle
Ecologia: planta ruderal, pode surgir em bermas de caminhos ou em terrenos cultivados ou incultos
Distribuição global: sul da Europa, norte de África e Médio Oriente; naturalizada nos EUA e em vários países do norte e centro da Europa
Distribuição em Portugal: quase todo o continente, mas menos frequente no litoral sudoeste e no interior norte; presente na Madeira, supõe-se que como planta introduzida
Época de floração: Julho e Agosto
Data e local das fotos: Agosto de 2011, Minde (concelho de Alcanena)
Informações adicionais: as brácteas, depois de secas, funcionam como espinhos que protegem a planta de predadores — o que pode torná-la invasora em alguns habitats

08/11/2011

Alecrim aos muros

Phagnalon saxatile (L.) Cass.

Se mesmo nas paisagens que julgamos intocadas o revestimento vegetal foi moldado pela acção humana, como pode na cidade, onde nenhuma parcela de terra ficou por devassar, sobrar alguma amostra de vegetação espontânea? A resposta é que essa vegetação existe, mas teve de se adaptar à transformação do habitat. Há plantas que fizeram com tamanho sucesso a transição para o mundo artificial por nós criado que já não parecem capazes de sobreviver em espaços naturais — do mesmo modo que um gato doméstico já não está apto para a vida na selva. Um exemplo flagrante é dado pela Cymbalaria muralis: onde estava ela antes de existirem muros, aldeias e cidades?

O alecrim-das-paredes (Phagnalon saxatile) não é um exemplo tão extremo de domesticação: pode viver nos velhos muros da cidade (como acontece no Porto), mas também surge em terrenos pedregosos e fendas de rochas longe das aglomerações urbanas. E aí até tem a esperança de vida reforçada, pois na cidade volta e meia vêm "limpar" os muros e lá se vai o alecrim. As plantas das fotos, antigas moradoras da rua da Restauração, foram também vítimas desse conceito paranóico de higiene pública que persegue tudo quanto não é artificial.

Antes que alguém lhe queira dar uso culinário, convém ressalvar que o Phagnalon saxatile não tem qualidades aromáticas dignas de nota, nem está ligado por qualquer parentesco ao verdadeiro alecrim (Rosmarinus officinalis). Como aliás é óbvio pela comparação das flores, as duas plantas pertencem a famílias botânicas muito afastadas (o Phagnalon é uma composta, o Rosmarinus uma labiada), e as semelhanças que exibem (o carácter lenhoso, a forma das folhas, a ramificação) são apenas superficiais.

O alecrim-das-paredes, que apresenta hastes erectas e tem um aspecto geral lanudo, é um arbusto com não mais que 50 cm de altura. As folhas são lineares, verdes por cima, brancas e aveludadas por baixo, e têm 3 a 4 cm de comprimento. Floresce de Abril a Julho, e é vulgar em quase todo o nosso território continental. Globalmente, a sua área de distribuição abrange o centro e oeste da bacia mediterrânica, estendendo-se ainda aos arquipélagos atlânticos da Madeira e das Canárias.

07/11/2011

Feijão-verme

Scorpiurus vermiculatus L.
Há quem tenha tentado disfarçar dando-lhe nomes inocentes como cornilhão-esponjoso ou cornilhão-grosso, mas a verdade é que Lineu parece ter querido suscitar a nossa repulsa ao baptizar esta planta. E repulsa em dose dupla: o nome genérico Scorpiurus evoca a cauda do escorpião; o epíteto vermiculatus alude à semelhança com os vermes. Tudo isto é fantasia, claro está: a planta não morde, nem rasteja de forma repugnante na nossa direcção. De facto, quem a observa em flor dificilmente entende o motivo de tais comparações, ambas suscitadas pela forma contorcida ou eriçada das vagens. A cauda de escorpião será mais evidente noutras espécies do género (como o S. sulcatus), mas, no que ao verme diz respeito, o S. vermiculatus faz inteira justiça (como aqui se pode ver) à escolha de Lineu.

As plantas do género Scorpiurus, de que há três espécies espontâneas no nosso país (já antes falámos do S. muricatus), são peculiares entre as leguminosas por terem folhas simples (ou seja, não divididas em folíolos). O S. vermiculatus distingue-se dos seus congéneres por ser hirsuto (o S. muricatus é quase glabro) e, sobretudo, pela coloração das flores, amarelas no centro e alaranjadas no bordo. É uma planta mediterrânica anual, frequente no centro e sul de Portugal, que floresce na Primavera e surge em bosques, em pastagens, e em terrenos baldios ou cultivados. Tem caules mais ou menos prostrados, pouco ramificados, que não ultrapassam os 40 cm de comprimento; as folhas medem de 5 a 10 cm, e as flores, solitárias ou em conjuntos de duas ou três, surgem nas extremidades de longos pedúnculos nascidos das axilas das folhas.

04/11/2011

O Mondego não passa aqui

Arenaria conimbricensis Brot.


A identificação das plantas com flor é, como sublinhou Lineu, mais expedita, mau grado os sinais contraditórios que algumas flores nos dão. As flores das fotos poderiam confundir-se com as de certas saxifragas, não fosse o centro delas (e de outras do mesmo género) negar enfaticamente tal parentesco. Nem sequer pertencem à mesma família botânica. Trata-se de um endemismo da Península Ibérica (C, NE e SW), presente no centro e sul de Portugal, de dimensões reduzidas (parece maior porque os caules são erectos, mas não costuma crescer acima dos 15 cm) e vida breve (é anual). Foi descrita por Brotero em 1800, e o nome alude a Coimbra.

Encontrámo-la no mês de Maio em Sicó e, pouco depois, na serra da Boa Viagem, em companhia de narcisos tardios (Narcissus bulbocodium L.) e muitas orquídeas. Como outras espécies de Arenaria, aprecia lugares secos, e nas encostas pedregosas destes dois montes há vento que baste para garantir este habitat.

Em algumas montanhas do extremo nordeste espanhol, e só ali, ocorre o que se crê ser uma outra versão desta Arenaria, bienal ou perene, de maior porte, com folhas maiores e de um verde mais vivo (viridis), que prefere sítios frescos e com sombra. De momento, e até que se estude melhor, propõem-se duas subespécies, a que vimos (A. conimbricensis subsp. conimbricensis) e a espanhola A. conimbricensis subsp. viridis.

03/11/2011

Vamos às malvas

Malva tournefortiana L.
Ensina o dicionário da Porto Editora que "mandar às malvas" é o mesmo que "mandar bugiar", numa curiosa opção de esclarecer o significado de uma expressão popular recorrendo a outra expressão popular. Talvez na norma culta da língua não haja qualquer expressão equivalente. Dito de outro modo: quem use no seu falar de um vocabulário e sintaxe impecáveis, servidos por uma voz modulada nas harmonias da pronúncia padrão, nunca poderá mandar ninguém às malvas. Ou bugiar. Faltam-lhe palavras para isso. O mundo da gente educada, em Portugal, deve ser um fastio sem remissão.

As malvas têm outra conotação mais sinistra: "ir às malvas" é também "ir para o cemitério" ou "morrer". Expressão apropriada à nossa sorte pós-troika, mas que reflecte com igual acerto o destino do vale onde, em Junho de 2010, as imagens foram captadas. As margens do rio Tua, onde viviam as malvas e muitas mais plantas e árvores, vão desaparecer afogadas pela barragem. O ria Tua vai às malvas, e com ele toda a biodiversidade que se acolhia nas suas margens. Era uma vez.

Sobra um parágrafo para as minudências botânicas. Das seis espécies de Malva que são espontâneas em Portugal, a M. tournefortiana, que floresce no Verão e no final da Primavera, é talvez a mais elegante e a que tem flores mais vistosas. A afirmação só não é taxativa porque há uma outra espécie, a M. hispanica, que muito se lhe assemelha: ambas atingem 60 a 90 cm de altura e têm flores de um rosa pálido com 3 ou mais centímetros de diâmetro. Distinguem-se sobretudo pelas folhas (profundamente recortadas as da M. tournefortiana, arredondadas as da M. hispanica) e pelo cálice das flores (muito mais curtos na M. tournefortiana). Quanto à distribuição, a M. tournefortiana faz o pleno das províncias nortenhas, rareando no sul; a M. hispanica tem o comportamento inverso, e no centro do país não é incomum encontrá-las juntas.

02/11/2011

Erva de Salamanca

Mantisalca salmantica (L.) Briq. & Cavill.


Nomes vulgares: mantissalca-de-Salamanca, pan de pastor (em castelhano), dagger flower (nos EUA)
Ecologia: planta ruderal, ocupa terrenos secos e pedregosos, de preferência (mas não exclusivamente) básicos
Distribuição global: Península Ibérica e quase toda a região mediterrânica; introduzida e ocasionalmente naturalizada na costa sudoeste dos EUA e nalguns países do norte e centro da Europa (Alemanha, Bélgica, antiga Checoslováquia, Grã-Bretanha e Suíça)
Distribuição em Portugal: centro e sul do território continental e bacia do alto Douro; naturalizada no arquipélago da Madeira
Época de floração: Maio a Setembro
Data e local das fotos: Junho de 2010, Alvados, serra dos Candeeiros
Informações adicionais: planta com roseta de folhas basais e caules muito esguios que podem exceder um metro de altura; o epíteto salmantica refere-se a Salamanca, e deu origem, por permutação de sílabas, ao nome genérico Mantisalca

01/11/2011

Dedaleira de primeira

Digitalis thapsi L.


Os dedais de flor não a distinguem da Digitalis purpurea L., embora os das fotos sejam de um tom de rosa mais claro com laivos cor-de-groselha e nasçam amarelos. A folhagem arrosetada e os caules ajudam mais na identificação: são revestidos por um indumento amarelo e pegajoso, feito de pêlos e glândulas — e talvez daí lhe venham os nomes comuns abeloura-amarelada e pegajo. Os cálices e as corolas são também externamente pubescentes, e toda a planta exibe uma ar macio e peludinho.

É um endemismo do oeste da Península Ibérica (os ingleses chamam-lhe Spanish peaks), preferindo encostas pedregosas e pousios nas montanhas do centro e centro oeste. Em Portugal é mais frequente no norte e centro, mas, segundo a Flora Ibérica, também é vista pelos Algarves. Não surgindo imprevistos, floresce entre Maio e Agosto. Podem ler no nosso vizinho mais informação sobre ela.

Está registado um híbrido entre a D. thapsis e a D. purpurea, a que os botânicos espanhóis chamam D. purpurea nothosubsp. carpetana (Rivas, 1925) e que os botânicos portugueses, que o avistaram no norte do país, designam por D. minor (Coutinho, 1906). O epíteto thapsi é problemático. Lê-se na maioria das referências que deriva do nome de algum lugar no norte de África, e nós acreditamos, claro; mas neste caso alude provavelmente ao tomento amarelo que recobre a planta e que terá lembrado a Lineu (que a baptizou) a Thapsia villosa em flor.

31/10/2011

Ponta da Fajã


Ponta da Fajã, ilha das Flores: quintal abandonado com Equisetum telmateia e Colocasia esculenta (= inhame)

Mais um passo na mesma direcção e a Europa acaba. Não se apoquente o leitor: aludimos a um simples facto geográfico, não à impiedosa crise que sobre nós desabou. A ilha das Flores ainda é Europa, pelo menos politicamente (de outros pontos de vista há quem tenha dúvidas, alegando qualquer coisa sobre "placas continentais"). E daqui para oeste até às Américas não há outro pedaço desgarrado do continente europeu. A costa ocidental das Flores e a freguesia da Fajã Grande marcam um limite inultrapassável para os europeus sem passaporte.

A estrada que desce para a costa da Fajã Grande prolonga-se ainda por dois quilómetros até à Ponta da Fajã. À nossa direita desenrola-se o paredão contínuo da falésia com centenas de metros de altura, rasgada por ribeiros alegremente suicidas na pressa de encurtar caminho até ao mar. Na plataforma verdejante da fajã há casas agora só de recreio e campos de cultivo abandonados ou convertidos em pastagens. Vêem-se anúncios de casas para venda, quem sabe se ao preço da chuva, mas qualquer dia acontece um desabamento (muito por culpa do excesso da dita) e fica tudo soterrado. Talvez o cavalo magricela a pastar naquilo que foi em tempos um jardim ainda tenha agilidade para se pôr a salvo.

Equisetum telmateia Ehrh.
A juntar às omnipresentes (e daninhas) exóticas invasoras, há também plantas nativas que têm vindo a recolonizar campos abandonados. Consola ver, aqui na Ponta da Fajã, o vigor com que o Equisetum telmateia se tem espalhado, ocupando em formação cerrada quintais e linhas de água. Trata-se da versão gigante (até 2 metros de altura) do rabo-de-cavalo (Equisetum arvense). Além de ser espontânea nos Açores, é uma planta quase cosmopolita, amiga de lugares húmidos, presente na Europa, Ásia, norte de África e América do Norte.

Tal como o seu congénere, o Equisetum telmateia faz brotar hastes de dois tipos. As férteis surgem entre Março e Abril: têm menos de 50 cm de altura, não são ramificadas, apresentam uma coloração acastanhada e são encimadas pelos cones que contêm os esporângios; desaparecem depois de cumprirem o seu papel reprodutor para serem substituídas pelas hastes estéreis (as que se vêem nas fotos), que persistem até Outubro.

O Equisetum telmateia é também, em Portugal, cidadão do continente, concentrando-se sobretudo na Estremadura, Beira Litoral e Costa Vicentina. Duas espécies adicionais (E. palustris e E. ramosissimum) completam o contingente lusitano de uma família botânica que, tendo sobrevivido a 150 milhões de anos de convulsões do planeta, se aguenta por cá com dificuldade, vítima do desaparecimento ou degradação dos habitats húmidos a que se acolhia.

28/10/2011

Estrela no gramado

Stellaria graminea L.


Estas cinco fotografias parecem exibir a mesma planta, o que suscita alguma inquietação quanto ao testemunho da realidade por esta via, mesmo a quem abdica de programas de tratamento de imagem. Certo é que:
  • as flores de S. holostea (greater stitchwort) são maiores que as da S. graminea (lesser stitchwort), mas isso aqui não se nota;
  • têm preferências distintas quanto ao habitat (a primeira aprecia clareiras de bosque ou relvados, a segunda precisa de sombra e humidade, optando por prados com um regato por perto), mas essa divergência não se percebe nem no formato das folhas, em ambas semelhantes às da relva, nem na coloração dos estames;
  • os caules, ramificados, são quadrangulares nas duas espécies, mas na S. holostea as arestas são ásperas enquanto que na S. graminea parecem ter sido polidas — outro dado que as imagens são incapazes de corroborar.
Contudo, se o fotógrafo for cuidadoso, as fotos podem denunciar detalhes que de outro modo não notaríamos. Nestas, com um pouco de atenção, podemos detectar pelas flores a presença de duas plantas distintas. Nas duas inferiores, da S. holostea, que floresce entre Abril e Junho, as pétalas têm quase o dobro do tamanho das sépalas (que medem 6 a 9 mm de comprimento) e, embora bífidas, o entalhe fica-se pela metade superior da pétala. Nas três de cima, da S. graminea — que dá flores um pouco mais tarde, é mais alta e mais esguia, e tem folhas menores — as pétalas são fendidas quase até à base e o seu tamanho não difere muito do das sépalas (de 3 a 7 mm).

A S. holostea é nativa da Europa, oeste da Ásia e Norte de África; a S. graminea é euroasiática. Na Península Ibérica ocorrem essencialmente na metade norte; em Portugal, restringem-se a meia dúzia de províncias, sendo raras em algumas. Dividem o território com outras três espécies, a S. alsine, a S. media e a S. neglecta, não isolada geneticamente da S. media e, por isso, considerada por alguns autores como subespécie dela.

Stellaria holostea L.

27/10/2011

Ervilhas e ervilhacas

Vicia lutea L.
Ervilhaca é o nome por que são conhecidas as espécies silvestres do género Vicia, apesar de elas estarem mais próximas das favas (Vicia faba) do que das verdadeiras ervilhas (Pisum sativum). Mesmo que não sejam usadas para consumo humano, estas leguminosas são sumamente úteis por duas razões: ovelhas, vacas e demais herbívoros consideram-nas deliciosas; e, tal como as demais plantas da família a que pertencem, ajudam a fixar azoto no solo, funcionando como fertilizante verde e sendo por isso altamente recomendáveis para rotação de culturas.

Será mais pelas folhas do que pelas flores que a Vicia se distingue de outras leguminosas como o Lotus e o Lathyrus. Os três géneros incluem plantas de folhas compostas — mas, ao passo que as do Lotus são semelhantes às do trevo (tendo porém cinco folíolos e não três), as da Vicia e do Lathyrus são em regra rematadas por gavinhas. Tirando esse traço morfológico comum, típico das trepadeiras, os folíolos da Vicia costumam ser mais atarracados e numerosos do que os do Lathyrus. Para completar a descrição verbal, nada melhor do que comparar a Vicia acima retratada (e ainda estas outras) com alguns dos Lathyrus que já aqui desfilaram: L. latifolius, L. linifolius e L. sphaericus.

A terminar, alguns dados biográficos sobre a Vicia lutea. O nome que dela consta no registo botânico-civil é ervilhaca-amarela, referindo-se o adjectivo cromático, como aliás o epíteto lutea, ao amarelo (pálido, demasiado pálido) das suas flores. As hastes atingem 60 cm de comprimento, cada folíolo (dos quais há até 8 pares em cada folha) terá uns 2 cm, e as flores, que aparecem solitárias ou em grupos de duas ou três, têm cerca de 3 cm de diâmetro. É uma planta anual, glabra ou com pêlos esparsos, que floresce de Abril a Junho e é comum em Portugal continental e em quase toda a Europa, surgindo em locais de ecologia variada como prados, terrenos baldios e matos costeiros.

26/10/2011

Azul com espinhos

Carduncellus caeruleus (L.) K. Presl

Nomes vulgares: cardo-azul
Ecologia e distribuição: terrenos secos mas também prados, de preferência sobre calcários; em Portugal e em quase toda a bacia do Mediterrâneo
Distribuição em Portugal: como planta nativa, na Beira Litoral, Estremadura, Ribatejo, Alentejo interior e Barrocal algarvio; presente também, como planta introduzida, no arquipélago da Madeira
Época de floração: Maio a Julho
Data e local das fotos: Maio de 2010 e Maio de 2011, em São Romão, concelho de Vagos
Informações adicionais: planta vivaz, ocasionalmente ramificada, com hastes até 60 cm de altura ou um pouco mais (como era o caso das plantas fotografadas)

25/10/2011

Ruibarbo-dos-pobres

Thalictrum speciosissimum L.
Imagine um arbusto de aspecto frágil com um metro de altura, de folhagem esparsa e acinzentada como lava, encimado por vistosos penachos amarelos. Já está? Aí tem o figurino desta planta. Agora coloque bastantes exemplares na margem de um ribeirinho, rodeados por juncos e herbáceas de menor porte, e entenderá por que Lineu a designou, em 1758, por speciosissimum.

Setenta anos depois batia-se a primeira fotografia mas a divulgação científica apoiada em desenhos era, como hoje, dispendiosa. Por isso as descrições botânicas exigiam uma minúcia que as imagens a que acedemos actualmente dispensam, e as particularidades desta planta foram sendo vertidas nos vários nomes que recebeu: T. glaucum Desf. (pela cor da folhagem), T. flavum subsp. glaucum (Desf.) Batt (pelos fascículos de flores amarelas), T. costae Timb.-Lagr. ex Debeaux (porque o fruto é fatiado, tem «várias costas»). A designação aceite agora é, como mandam as regras, a primeira, de Lineu, ainda que seja a mais vaga de todas.

É uma planta vivaz, nativa da região mediterrânica oeste e Península Ibérica, ocorrendo em prados húmidos e juncais até aos 1600 metros. Sem as flores, de Primavera-Verão, com estames salientes e 4 a 5 tépalas, reunidas em densos corimbos, não é fácil dar por ela. As folhas compostas, de pecíolo longo e nervação proeminente na face inferior, com 3 a 4 dentinhos no ápice e estípulas ovais ajudariam na identificação, não fosse esta uma espécie que, no sul da Península, exibe grande variação morfológica. O melhor mesmo é irem vê-la ao Gerês.

(O ruibarbo é a poligonácea asiática Rheum officinale Baill., com uso medicinal e culinário.)

24/10/2011

Erva-loira da Boa Viagem

Senecio lusitanicus (Cout.) R. Pérez-Romero [= Senecio doronicum subsp. lusitanicus Cout.]

A serra da Boa Viagem, entre Quiaios e Figueira da Foz, é muito frequentada no Verão por famílias piquenicantes. Antes de se estenderem as toalhas e de se abrirem os cestos, e de toda a gente abancar para a refeição, há ainda que ir em romaria espreitar o miradouro da Bandeira. É de lá que se vê a serra descer abruptamente sobre a tira de areia que confronta a extensão azul do oceano. É um local de eleição para aqueles que, gostando da natureza, não se querem cansar a procurá-la. Estacionam o carro, sentam-se no muro do miradouro, respiram fundo, batem meia dúzia de fotos: está tudo visto, podem ir embora.

Quem tenha gosto em botanizar fará mal em ser tão displicente. Como noutras paragens do centro e sul do país, o solo calcário e pedregoso é promessa infalível de orquídeas à farta, mas as plantas que fazem deste um lugar ímpar são outras. Precisamente duas. A mais vistosa, no auge da floração em finais de Maio, é o lírio-amarelo-dos-montes, um endemismo ibérico que tem talvez aqui a sua maior população portuguesa. A outra, que começa a florir um mês antes, é uma erva-loira (género Senecio) que só parece existir na Boa Viagem, em Montejunto e nos arredores de Lisboa. Na capital a sua existência está por um fio, mas nas duas serras do centro-oeste do país, se não houver perturbações de monta, ela é numerosa quanto baste para ter o futuro assegurado. Isto apesar de Franco, no vol. II (de 1984) da Nova Flora de Portugal, ter afirmado que a planta é raríssima — o que, não sendo verdade, pode traduzir-se, num país onde o trabalho de campo é tão irregular, num prematuro atestado de óbito. Se Franco, na sua incontestável autoridade, escreve que algo está em risco de desaparecer, então é de esperar que, dez ou vinte anos depois, tenha mesmo desaparecido. E, se desapareceu, já não há que preocuparmo-nos com a sua conservação. Só que, sem que ninguém se dê ao trabalho de verificar, a planta continua a existir nos locais onde sempre existiu.

E a nossa erva-loira bem merece protecção, pois, embora o seu estatuto taxonómico tenha suscitado dúvidas e opiniões contraditórias, há algum consenso em que se trata de um endemismo lusitano de distribuição muito restrita. O primeiro registo é de 1913, na Flora de Portugal de António Xavier Pereira Coutinho, que lhe chamou Senecio doronicum subsp. lusitanicus. João do Amaral Franco acata a opinião de Coutinho, mas houve outros autores que consideraram o taxon como um sinónimo ou uma subespécie de Senecio lagascanus. Taxon esse que, em todo o caso, exibe claras diferenças tanto em relação ao S. lagascanus como ao S. doronicum, sobretudo na forma e na indumentação das folhas, que têm uma textura lanuda, como se tivessem sido polvilhadas com pó de talco. Muito recentemente, em 2009, um grupo de botânicos da Universidade de León encabeçado por Rafael Pérez-Romero publicou, no vol. 47 da revista Compositae Newsletter, um estudo comparativo em que conclui pela necessidade de separar as plantas portugueses numa espécie autónoma. O artigo, com o título "Senecio lusitanicus (Asteraceae, Senecioneae), a new combination for a species from Iberian Peninsula", pode ser lido aqui [PDF].

É de esperar que a subida de escalão seja ratificada pela Flora Ibérica quando for publicado o volume das asteráceas. Ficará então oficialmente estabelecido que a serra da Boa Viagem alberga uma das três únicas populações conhecidas de um precioso endemismo lusitano. Que medidas tomar para preservar tal tesouro? Talvez seja suficiente não estragar.