21/11/2011

Eis o macho

Dryopteris filix-mas (L.) Schott


- Este é o meu marido. Não sei se já se conhecem, suponho que não.

Fingindo tratar-se de um encontro imprevisto, embora de facto (sem ele o saber) estivesse tudo combinado desde a semana anterior, a senhora Athryium filix-femina, num roçagar de frondes sopradas pela brisa, conduziu-me à presença do feto robusto a quem estava ligada por um improvável matrimónio.

- Como vai? O meu nome é Dryopteris filix-mas. Eu e a Athyrium nem parece que formamos um casal, pois não? Mas nenhum taxonomista moderno tem poder para separar o que o grande Lineu uniu.

Retribuí o cumprimento e disse algumas banalidades. Depressa porém me afastei, perturbado pela ideia de que afinal já antes tinha encontrado o senhor D. filix-mas e receando cometer algum deslize. Não fora ele que eu vira entre as fragas da serra, bem longe do aconchego do lar conjugal? E já antes não me aparecera ele numa espécie de acampamento hippie para grandes fetos nos umbrosos bosques do Gerês? Há uma tácita solidariedade masculina que seria imperdoável quebrar, e a nenhum homem cabe denunciar as escapadelas de outro.

Concluí depois que a minha comoção fora injustificada. Dentro do género Dryopteris os traços de família podem ser tão vincados que a distinção entre espécies não se faz sem observação minuciosa. É perfeitamente perdoável counfundir, como eu fizera, o feto-macho Dryopteris filix-mas com dois dos seus irmãos gémeos: o falso-feto-macho (Dryopteris affinis) e o feto-macho-de-altas-montanhas (Dryopteris oreades). Machismo à farta que tentaremos desenredar parcialmente.

O D. filix-mas e o D. affinis são fetos de grande tamanho: os exemplares adultos que vegetam em solos ricos em húmus têm frondes com mais de um metro de comprimento, agrupadas em elegantes penachos. O D. filix-mas, contudo, tem hastes e ráquis muito menos escamosas, e as suas pínulas (segmentos de última ordem das frondes) são, ao contrário das do D. affinis, arredondadas e nitidamente dentadas a toda a volta. Ecologicamente também há diferenças: além de frequentar bosques, o D. filix-mas pode aparecer (como sucede na serra de Estrela) em lugares pedregosos, e por vezes chega mesmo a despontar em fendas de muros. Em Portugal dá-se também uma distinção geográfica: ainda que ambos surjam sobretudo na metade norte do país, o D. filix-mas é muito escasso a baixa altitude, e só é fácil encontrá-lo nos maciços montanhosos do interior; o D. affinis, por seu turno, é comum nos bosques nortenhos, mesmo nos que estão perto do litoral.

19/11/2011

Quermesse com flores da serra



Data e hora
sábado, 26 de Novembro de 2011, 15h00
Local
sede da Campo Aberto, à rua de Santa Catarina,
730-2.º, no Porto

(perto do cruzamento com Gonçalo Cristóvão)
****
venda e leilão de
produtos artesanais e do comércio justo
****
às 16h00
palestra ilustrada
sobre a flora da serra da Estrela

18/11/2011

Queria ser Queria

Arenaria querioides Pourr. ex Willk.
Há quem não goste de doces, nem se tente por um chocolatinho a meio da tarde, e que nas festas se agarre aos pratinhos de azeitonas ou aos de polvo avinagrado. Entre as plantas também se encontram extravagâncias de paladar, e esta é, nesse particular, um mau garfo. É calcífuga e não se dá a altitudes inferiores a 700 m, por isso restringe-se a clareiras de matos e ladeiras de montanha com solo pedregoso rico em sílica. Apesar da baixa estatura, é perene e por vezes lenhosa. Os caules são penugentos e nota-se que a folhagem é densa, de folhas rígidas que se unem na base, com uma nervura média e margens esbranquiçadas.

Este ano quase não a víamos florida porque só a avistámos em Julho. Em Maio próximo, as inflorescências estarão mais vistosas, com flores de cinco pétalas acetinadas a encimar hastes acastanhadas de uns quinze centímetros. Trata-se de um endemismo ibérico que ocorre apenas no noroeste e no centro da Península. Há registo de variações morfológicas: na serra da Estrela, Brotero e Coutinho assinalaram a existência de populações do que parece ser uma subespécie de menor altitude, mais rasteira e de flores solitárias.

O epiteto querioides significa "semelhante a Queria" — talvez Queria hispanica, hoje em dia sinónimo de Minuartia hamata. Por essa e por outras arrumações taxonómicas, o género Queria já não tem representantes na flora europeia. Lineu utilizou-o para homenagear o botânico espanhol José Quer y Martínez (1695–1764), cujas viagens e colheitas de plantas e sementes estiveram na origem do espólio do Real Jardín Botánico de Madrid. A correspondência com Lineu terá sido suscitada pela Flora Espanhola que Quer escreveu e Casimiro Gomez Ortega (1741–1818) terminou de publicar.

17/11/2011

Flor Ásia Douro

Commelina communis L.
Como na pintura ou escultura, há flores que cumprem melhor o papel de modelo que posa para o artista e o inspira. As várias peças da flor-de-um-dia, apesar da curta duração, podem bem servir de motivo em aulas de botânica para alunos que apreciam desafios. Além de duas pétalas azuis (tom próximo do índigo), cuja forma justifica outro nome comum para esta planta (flor-pé-de-pato), há uma pétala menor, branca e quase escondida cuja função é um mistério. Salientes, em cima, estão três estames vistosos, de pontas amarelas em cruz. Logo abaixo, muito perto do estilete curvado, há mais três estames longos. O conjunto encaixa-se num invólucro nervado e verde, uma folha modificada em barcarola que é uma bráctea grande situada na base da inflorescência (como as espatas dos jarros). Além disso, a inflorescência contém em geral dois grupos de flores: o inferior, feito de flores hermafroditas e mais escondido na espata; e o superior, só com flores masculinas. São de Verão ou Outono e, com as folhas, fazem lembrar algumas plantas do género Tradescantia, que pertence também à família Commelinaceae (o nome Commelina, escolhido por Lineu em 1753, refere-se a dois irmãos naturalistas holandeses, Jan e Caspar Commelijn).

As flores não têm néctar nem perfume. Desvendar a sua relação com os polinizadores é, portanto, o desafio que se coloca ao estudante. Para a planta é importante que as visitas dos insectos aconteçam com frequência; para os atrair lá estão as pétalas azuis grandes e os três estames superiores que, apesar de estéreis, sendo garbosos e coloridos fazem acreditar em mírificas ofertas. Para evitar que o insecto se vá sem mais conversa, os estames inferiores laterais, que são funcionais, avisam que há mais pólen ao dispôr. Mas, aí chegando, não convém que o insecto se limite a recolher esse pólen. Como se força uma abelha a tocar o estigma deixando lá o pólen que traz de outras flores? Chamando a atenção do bicho: a flor acena-lhe com um lenço branco e luzidio (a pétala pequena), diminui a exuberância das anteras dos estames laterais (que são acastanhadas) e coloca um sexto estame ao centro com uma ponta amarela brilhante e quase colado ao estilete. Estes sinais orientam o polinizador para o ponto certo onde a fertilização deve ocorrer.

Estas flores têm uso em medicina chinesa, com fama de antipiréticas, febrífugas e antitússicas. As pétalas azuis produzem um pigmento japonês famoso para quimonos e pinturas em madeira. A folhagem não escapa à gulodice dos antílopes.

Trata-se de uma planta anual, de prados, pomares, bordos de florestas, lugares de solo fértil com sombra e bastante humidade. É baixa (não mais que 30 cm de altura) mas tem fôlego bastante, porque se dissemina também vegetativamente enraizando os nós dos caules, para competir com outras espécies — e pode tornar-se invasora nefasta em alguns habitats. E onde a vimos? Junto à foz do rio Corgo, na Régua, perto do lugar onde a última (e já desaparecida?) população portuguesa de Marsilea quadrifolia deveria estar a salvo.

16/11/2011

Alcachofra silvestre

Cynara humilis L.


Nomes vulgares: alcachofra-branca, alcachofra-brava, alcachofra-de-São-João
Ecologia: terrenos incultos, prados e pousios, em lugares secos
Distribuição global: Península Ibérica e norte de África (Argélia e Marrocos)
Distribuição em Portugal: centro e sul do território continental
Época de floração: Maio a Agosto
Data e local das fotos: Julho de 2008, Fórnea (foto 1); Junho de 2010, Alvados (restantes fotos)
Informações adicionais: as alcachofras cultivadas pertencem à espécie Cynara cardunculus, que tem folhas mais largas e menos espinhentas; ambas as espécies podem ser usadas como coagulantes na produção de queijo

15/11/2011

Proibido esquecer

Myosotis ramosissima Rochel


Regressamos a medo a um género que já nos causou não poucos embaraços. Só nos Açores a história foi outra: quando vimos o Myosotis maritima, depois de um sobe e desce de alpinista amador em rochedos de lava negra, sabíamos muito bem o que estávamos a ver. Mas no continente a dúvida e os Myosotis são companheiros inseparáveis.

Chamamos Myosotis ramosissima à planta no escaparate porque não temos outro nome que mais bem lhe encaixe, apesar de ela divergir em pequenos aspectos da descrição usual dessa espécie: tem um hábito semi-prostrado quando devia tê-lo erecto, os cálices das flores são mais peludos do que deveriam ser, e os pedúnculos que as sustentam parecem-nos demasiado curtos. Os restante caracteres observáveis (o formato das folhas, a pequenez das flores, a aparência hirsuta, as hastes ramificadas na base) já obedecem porém ao manual, e dão-nos alguma confiança de que a identificação esteja correcta.

O não-me-esqueças-super-ramificado é uma planta anual com hastes até 40 cm (em geral bastante menores), folhas de 1 a 4 cm de comprimento, e flores de 2 a 3 mm de diâmetro. O contraste de tamanho entre as flores liliputianas e as folhas bem desenvolvidas é aliás uma das singularidades da espécie. Amplamente distribuída na Europa, Ásia e norte de África, no nosso país aparece de norte a sul em habitats variados (sítios secos ou temporariamente encharcados, areias marítimas), florescendo nos meses de Primavera.

14/11/2011

Eis a fêmea

Athyrium filix-femina (L.) Roth


A insistência de Lineu em classificar as plantas de acordo com as suas peculiaridades sexuais causou na época algum escândalo. Não um escândalo de encher primeiras páginas, pois no século XVIII os jornais ainda estavam por inventar. Em vez de deflagrar em declarações públicas incendiárias, o escândalo ter-se-á resumido ao repúdio, por parte de muitos dos seus contemporâneos, de um método de classificação que no mínimo lhes parecia brejeiro. Mas o tempo lá fez o seu trabalho, e as ideias atrevidas de Lineu acabaram por tornar-se quase consensuais. É pela morfologia da flor que se reconhece a genealogia da planta, e a flor no mundo vegetal quer dizer sexo: há masculino e feminino, há sedução (dos polinizadores), há fecundação; não falta nenhum ingrediente escabroso.

O método de Lineu claudica face às plantas que não exibem orgãos de reprodução sexual. Os fetos, como sabemos, não querem saber de promiscuidades. Limitam-se a produzir esporos que dão origem a umas plantitas efémeras (chamadas gametófitos ou protalos) às quais cabe o acto procriador. A essas plantas que escondem (cripto) o casamento (gama) chamou Lineu criptogâmicas. Com todo esse secretismo, não espanta que o patriarca dos taxonomistas, no seu Species Plantarum, se visse em dificuldades para estabelecer relações de parentesco realistas entre os diversos fetos. O resultado é que muitas plantas que hoje reconhecemos como díspares se viram agrupadas em géneros que funcionavam, na prática, como posta restante. E, de todos os géneros de conveniência, nenhum foi mais amplo e indefinido do que o género Polypodium — que incluía não só o feto-fêmea acima retratado (a que Lineu chamou Polypodium filix-femina) como muitos outros posteriormente transferidos para uma multiplicidade de novos géneros: Dryopteris, Polystichum, Cystopteris, Cheilanthes, Davallia, Grammitis, etc. Das 70 espécies que Lineu enfiou no saco dos Polypodium, só 13 se mantiveram lá até hoje.

Filix-femina significa literalmente "feto-fêmea"; na próxima semana iremos conhecer o feto-macho que Lineu idealizou para completar o casal. Um casamento perfeitamente platónico e estéril, baseado numa diferenciação sexual que o próprio Lineu reconheceria como fantasiosa. Mas — diriam os seus detractores — o homem só pensava nessas poucas-vergonhas. Os dois fetos (macho e fêmea) fazem alguma vida em comum, por preferirem ambos habitats húmidos e sombrios; e, sendo os dois de grande tamanho (com frondes que podem ultrapassar 1 m de comprimento), a fêmea tem uma folhagem de textura mais delicada, com um recorte mais mimoso e enfeitado.

O Athyrium filix-femina é um verdadeiro caso de expansão global sem a ajuda de exércitos ou das novas tecnologias: é nativo em quase todo o hemisfério norte e, nas Américas, ainda dá uma saltadinha até ao sul. Em Portugal, e sobretudo na metade norte do país, é frequente encontrá-lo à beira-rio e noutros locais com humidade permanente.

11/11/2011

Agenda

Omphalodes linifolia (L.) Moench
  1. Endemismo do noroeste da Península Ibérica, ocorre na metade norte do território continental português. É herbácea perene, rizomatosa, que pode chegar aos 65 cm de altura. Tem uma roseta basal de folhas com mais de 10 cm de comprimento. A floração dá-se entre Abril e Setembro e a corola tubular das flores é azul com cinco pregas claras. É frequente em matos e solos cultivados, mas pede sítios sombrios e húmidos.
  2. Omphalodes linifolia (L.) Moench
  3. Planta anual do sudoeste da Europa (França e Península Ibérica), é rara em Portugal, onde se restringe a meia dúzia de locais no centro e sul. Parece gostar de clareiras de bosques, terrenos incultos com solo arenoso e zonas pedregosas. As folhas da roseta basal não crescem, em geral, mais de 5 cm, mas a planta atinge os 50 cm de altura. Floresce entre Abril e Junho, e a inflorescência terminal é rala. As flores não têm brácteas e as corolas, com cinco pregas, são por regra brancas (mas podem ser azuis).
  4. Endemismo português, do litoral centro: encontra-se pontualmente numa faixa que se estende de Cascais ao Cabo da Roca, embora se julgue que noutros tempos surgisse em todo o litoral, da Estremadura à Galiza. Desenvolve-se nas arribas e areais marítimos, e floresce entre Abril e Maio. É uma erva anual quase rasteira (mede cerca de 15 cm), glauca, com flores bracteadas que têm corolas com as mesmas cinco pregas e um matiz azul pálido. (Não esquecer de ver em 2012, está em risco de extinção.)

10/11/2011

A nadar em seco

Delphinium pentagynum Lam.
Esta espécie é vivaz e natural do centro e sul da Península Ibérica, e do norte de África. Dá-se melhor em clareiras de bosques, terrenos em pousio e margens de riachos com solos bem drenados. A haste floral atinge os 70 cm de altura; tem na base uma roseta de folhas caducas, palmadas, muito divididas e com pecíolo longo, e outras mais acima, esparsas e alternadas. A floração decorre entre Maio e Agosto, mas a data certa depende do habitat.

Seria necessário desmembrar estas flores (de cerca de 25 mm de largura em azul violeta) para se ver que têm quatro pétalas e cinco sépalas (que parecem pétalas, com cerca de 12 mm de diâmetro), uma das quais, a do topo, termina numa espora. As duas pétalas de cima produzem néctar e esticam-se até ao bordo da espora para nela o depositarem. Os insectos beneficiados por este formato são, naturalmente, os que têm língua comprida e afiada, e são estes de facto (além dos colibris, onde os há) os polinizadores mais habituais das plantas deste género.

Estas esporas chamam a atenção apesar de curtas por terem a ponta arrebitada para cima. Como cálice para néctar parece uma postura imprudente, o pitéu pode entornar-se. Mas o mais certo é que isso traga vantagem à planta, que corresponda a um estratagema para garantir uma polinização mais bem sucedida. Na verdade, desse modo os polinizadores têm de forçar o acesso ao néctar, e com isso roçar o corpo nas estruturas com o pólen (amarelo, logo à entrada) que é sua missão colectar e disseminar. Além disso, neste género é frequente que a distribuição de néctar pelas flores não seja equitativa, e que as populações organizem um esquema de recompensa. Funciona do seguinte modo: a maioria das flores não tem néctar (logo a inclinação da espora é irrelevante) e umas poucas têm muito néctar, estando quase ausentes flores com quantidades intermédias de néctar. E, portanto, como numa venda de rifas, os insectos têm maiores hipóteses de recompensa se visitarem mais flores à procura daquelas onde se concentra o alimento. Contudo, a parcimónia na distribuição da recompensa poderia levá-los a desistir demasiado cedo. Determinar a proporção ideal de flores com (muito) néctar entre as muitas flores vazias de modo a maximizar o número de visitas por insecto (e portanto optimizar a eficiência da polinização) é um problema matemático complicado de que estas plantas parecem ter descoberto a solução.

09/11/2011

No meio do caminho, um cardo

Centaurea calcitrapa L.


Nomes vulgares: cardo-estrelado, red star-thistle
Ecologia: planta ruderal, pode surgir em bermas de caminhos ou em terrenos cultivados ou incultos
Distribuição global: sul da Europa, norte de África e Médio Oriente; naturalizada nos EUA e em vários países do norte e centro da Europa
Distribuição em Portugal: quase todo o continente, mas menos frequente no litoral sudoeste e no interior norte; presente na Madeira, supõe-se que como planta introduzida
Época de floração: Julho e Agosto
Data e local das fotos: Agosto de 2011, Minde (concelho de Alcanena)
Informações adicionais: as brácteas, depois de secas, funcionam como espinhos que protegem a planta de predadores — o que pode torná-la invasora em alguns habitats

08/11/2011

Alecrim aos muros

Phagnalon saxatile (L.) Cass.

Se mesmo nas paisagens que julgamos intocadas o revestimento vegetal foi moldado pela acção humana, como pode na cidade, onde nenhuma parcela de terra ficou por devassar, sobrar alguma amostra de vegetação espontânea? A resposta é que essa vegetação existe, mas teve de se adaptar à transformação do habitat. Há plantas que fizeram com tamanho sucesso a transição para o mundo artificial por nós criado que já não parecem capazes de sobreviver em espaços naturais — do mesmo modo que um gato doméstico já não está apto para a vida na selva. Um exemplo flagrante é dado pela Cymbalaria muralis: onde estava ela antes de existirem muros, aldeias e cidades?

O alecrim-das-paredes (Phagnalon saxatile) não é um exemplo tão extremo de domesticação: pode viver nos velhos muros da cidade (como acontece no Porto), mas também surge em terrenos pedregosos e fendas de rochas longe das aglomerações urbanas. E aí até tem a esperança de vida reforçada, pois na cidade volta e meia vêm "limpar" os muros e lá se vai o alecrim. As plantas das fotos, antigas moradoras da rua da Restauração, foram também vítimas desse conceito paranóico de higiene pública que persegue tudo quanto não é artificial.

Antes que alguém lhe queira dar uso culinário, convém ressalvar que o Phagnalon saxatile não tem qualidades aromáticas dignas de nota, nem está ligado por qualquer parentesco ao verdadeiro alecrim (Rosmarinus officinalis). Como aliás é óbvio pela comparação das flores, as duas plantas pertencem a famílias botânicas muito afastadas (o Phagnalon é uma composta, o Rosmarinus uma labiada), e as semelhanças que exibem (o carácter lenhoso, a forma das folhas, a ramificação) são apenas superficiais.

O alecrim-das-paredes, que apresenta hastes erectas e tem um aspecto geral lanudo, é um arbusto com não mais que 50 cm de altura. As folhas são lineares, verdes por cima, brancas e aveludadas por baixo, e têm 3 a 4 cm de comprimento. Floresce de Abril a Julho, e é vulgar em quase todo o nosso território continental. Globalmente, a sua área de distribuição abrange o centro e oeste da bacia mediterrânica, estendendo-se ainda aos arquipélagos atlânticos da Madeira e das Canárias.

07/11/2011

Feijão-verme

Scorpiurus vermiculatus L.
Há quem tenha tentado disfarçar dando-lhe nomes inocentes como cornilhão-esponjoso ou cornilhão-grosso, mas a verdade é que Lineu parece ter querido suscitar a nossa repulsa ao baptizar esta planta. E repulsa em dose dupla: o nome genérico Scorpiurus evoca a cauda do escorpião; o epíteto vermiculatus alude à semelhança com os vermes. Tudo isto é fantasia, claro está: a planta não morde, nem rasteja de forma repugnante na nossa direcção. De facto, quem a observa em flor dificilmente entende o motivo de tais comparações, ambas suscitadas pela forma contorcida ou eriçada das vagens. A cauda de escorpião será mais evidente noutras espécies do género (como o S. sulcatus), mas, no que ao verme diz respeito, o S. vermiculatus faz inteira justiça (como aqui se pode ver) à escolha de Lineu.

As plantas do género Scorpiurus, de que há três espécies espontâneas no nosso país (já antes falámos do S. muricatus), são peculiares entre as leguminosas por terem folhas simples (ou seja, não divididas em folíolos). O S. vermiculatus distingue-se dos seus congéneres por ser hirsuto (o S. muricatus é quase glabro) e, sobretudo, pela coloração das flores, amarelas no centro e alaranjadas no bordo. É uma planta mediterrânica anual, frequente no centro e sul de Portugal, que floresce na Primavera e surge em bosques, em pastagens, e em terrenos baldios ou cultivados. Tem caules mais ou menos prostrados, pouco ramificados, que não ultrapassam os 40 cm de comprimento; as folhas medem de 5 a 10 cm, e as flores, solitárias ou em conjuntos de duas ou três, surgem nas extremidades de longos pedúnculos nascidos das axilas das folhas.

04/11/2011

O Mondego não passa aqui

Arenaria conimbricensis Brot.


A identificação das plantas com flor é, como sublinhou Lineu, mais expedita, mau grado os sinais contraditórios que algumas flores nos dão. As flores das fotos poderiam confundir-se com as de certas saxifragas, não fosse o centro delas (e de outras do mesmo género) negar enfaticamente tal parentesco. Nem sequer pertencem à mesma família botânica. Trata-se de um endemismo da Península Ibérica (C, NE e SW), presente no centro e sul de Portugal, de dimensões reduzidas (parece maior porque os caules são erectos, mas não costuma crescer acima dos 15 cm) e vida breve (é anual). Foi descrita por Brotero em 1800, e o nome alude a Coimbra.

Encontrámo-la no mês de Maio em Sicó e, pouco depois, na serra da Boa Viagem, em companhia de narcisos tardios (Narcissus bulbocodium L.) e muitas orquídeas. Como outras espécies de Arenaria, aprecia lugares secos, e nas encostas pedregosas destes dois montes há vento que baste para garantir este habitat.

Em algumas montanhas do extremo nordeste espanhol, e só ali, ocorre o que se crê ser uma outra versão desta Arenaria, bienal ou perene, de maior porte, com folhas maiores e de um verde mais vivo (viridis), que prefere sítios frescos e com sombra. De momento, e até que se estude melhor, propõem-se duas subespécies, a que vimos (A. conimbricensis subsp. conimbricensis) e a espanhola A. conimbricensis subsp. viridis.

03/11/2011

Vamos às malvas

Malva tournefortiana L.
Ensina o dicionário da Porto Editora que "mandar às malvas" é o mesmo que "mandar bugiar", numa curiosa opção de esclarecer o significado de uma expressão popular recorrendo a outra expressão popular. Talvez na norma culta da língua não haja qualquer expressão equivalente. Dito de outro modo: quem use no seu falar de um vocabulário e sintaxe impecáveis, servidos por uma voz modulada nas harmonias da pronúncia padrão, nunca poderá mandar ninguém às malvas. Ou bugiar. Faltam-lhe palavras para isso. O mundo da gente educada, em Portugal, deve ser um fastio sem remissão.

As malvas têm outra conotação mais sinistra: "ir às malvas" é também "ir para o cemitério" ou "morrer". Expressão apropriada à nossa sorte pós-troika, mas que reflecte com igual acerto o destino do vale onde, em Junho de 2010, as imagens foram captadas. As margens do rio Tua, onde viviam as malvas e muitas mais plantas e árvores, vão desaparecer afogadas pela barragem. O ria Tua vai às malvas, e com ele toda a biodiversidade que se acolhia nas suas margens. Era uma vez.

Sobra um parágrafo para as minudências botânicas. Das seis espécies de Malva que são espontâneas em Portugal, a M. tournefortiana, que floresce no Verão e no final da Primavera, é talvez a mais elegante e a que tem flores mais vistosas. A afirmação só não é taxativa porque há uma outra espécie, a M. hispanica, que muito se lhe assemelha: ambas atingem 60 a 90 cm de altura e têm flores de um rosa pálido com 3 ou mais centímetros de diâmetro. Distinguem-se sobretudo pelas folhas (profundamente recortadas as da M. tournefortiana, arredondadas as da M. hispanica) e pelo cálice das flores (muito mais curtos na M. tournefortiana). Quanto à distribuição, a M. tournefortiana faz o pleno das províncias nortenhas, rareando no sul; a M. hispanica tem o comportamento inverso, e no centro do país não é incomum encontrá-las juntas.

02/11/2011

Erva de Salamanca

Mantisalca salmantica (L.) Briq. & Cavill.


Nomes vulgares: mantissalca-de-Salamanca, pan de pastor (em castelhano), dagger flower (nos EUA)
Ecologia: planta ruderal, ocupa terrenos secos e pedregosos, de preferência (mas não exclusivamente) básicos
Distribuição global: Península Ibérica e quase toda a região mediterrânica; introduzida e ocasionalmente naturalizada na costa sudoeste dos EUA e nalguns países do norte e centro da Europa (Alemanha, Bélgica, antiga Checoslováquia, Grã-Bretanha e Suíça)
Distribuição em Portugal: centro e sul do território continental e bacia do alto Douro; naturalizada no arquipélago da Madeira
Época de floração: Maio a Setembro
Data e local das fotos: Junho de 2010, Alvados, serra dos Candeeiros
Informações adicionais: planta com roseta de folhas basais e caules muito esguios que podem exceder um metro de altura; o epíteto salmantica refere-se a Salamanca, e deu origem, por permutação de sílabas, ao nome genérico Mantisalca

01/11/2011

Dedaleira de primeira

Digitalis thapsi L.


Os dedais de flor não a distinguem da Digitalis purpurea L., embora os das fotos sejam de um tom de rosa mais claro com laivos cor-de-groselha e nasçam amarelos. A folhagem arrosetada e os caules ajudam mais na identificação: são revestidos por um indumento amarelo e pegajoso, feito de pêlos e glândulas — e talvez daí lhe venham os nomes comuns abeloura-amarelada e pegajo. Os cálices e as corolas são também externamente pubescentes, e toda a planta exibe uma ar macio e peludinho.

É um endemismo do oeste da Península Ibérica (os ingleses chamam-lhe Spanish peaks), preferindo encostas pedregosas e pousios nas montanhas do centro e centro oeste. Em Portugal é mais frequente no norte e centro, mas, segundo a Flora Ibérica, também é vista pelos Algarves. Não surgindo imprevistos, floresce entre Maio e Agosto. Podem ler no nosso vizinho mais informação sobre ela.

Está registado um híbrido entre a D. thapsis e a D. purpurea, a que os botânicos espanhóis chamam D. purpurea nothosubsp. carpetana (Rivas, 1925) e que os botânicos portugueses, que o avistaram no norte do país, designam por D. minor (Coutinho, 1906). O epíteto thapsi é problemático. Lê-se na maioria das referências que deriva do nome de algum lugar no norte de África, e nós acreditamos, claro; mas neste caso alude provavelmente ao tomento amarelo que recobre a planta e que terá lembrado a Lineu (que a baptizou) a Thapsia villosa em flor.