09/12/2011

Verbena & Irmã

Verbena supina L.


Lying in bed would be an altogether perfect and supreme experience if only one had a coloured pencil long enough to draw on the ceiling.
G.K. Chesterton, Tremendous Trifles (1909)

Há uma palavra que descreve o movimento de rotação da mão quando se coloca a palma para cima. É a mesma que se usa para mencionar a posição em que se está deitado de costas, a olhar o tecto: supinação. Deriva do latim supinus que também significa notável (como em supina violinista) ou excessivo (burrice supina). Para esta planta, o epíteto sublinha o modo prostrado como dispõe a ramagem, lançando nós que se enraízam e assim a fazem ganhar terreno.

O latim fornece aos taxonomistas múltiplos sinóninos da pequenez ou do hábito rasteiro que poderiam ter sido usados: procumbens (que, contudo, em rigor, pressupõe uma inclinação para a frente), humilis ou minor, que aludem ao tamanho, pois esta é a verbena mais pequenina que conhecemos. Porém não serviria pusilla (de que derivou pusilânime, de alma pequena) pois esta herbácea, que curiosamente consegue optar por um ciclo de vida anual ou perene, não é assim tão minúscula (mede de 5 a 40 cm).

Encontrámos este exemplar na franja ribatejana das serras de Aire e Cendeeiros, num terreno calcário arenoso onde se forma uma lagoa temporária. Este é o habitat que aprecia, mas também se encontra em prados húmidos desde que o solo seja rico em azoto. Floresce de Maio a Dezembro e foi pela inflorescência que a relacionámos com a V. bonariensis. É nativa do centro e sul da Europa, África, Ásia e ilhas Canárias. Na Península Ibérica restringe-se ao norte e metade sul. Em Portugal só há registo dela no Alto Alentejo, na Beira Baixa e no Ribatejo.

O género Verbena abriga mais de duas centenas de espécies, mas tem na Península Ibérica apenas cinco representantes, dos quais só dois são espontâneos, a V. supina e a V. officinalis L. Foi porém reconhecida uma variedade de folhagem glabra, a V. supina var. glabrescens Cout. (1939), e outra com os caules erectos, a V. supina f. erecta Moldenke (1964).

Verbena officinalis L.
Verbena é a designação antiga das plantas colhidas em lugares sagrados ou usadas em cerimónias religiosas, embaixadas, oferendas aos deuses ou como protecção contra vampiros e bruxas. Por essa herança, também se chamou, em vários tempos e lugares, lágrimas-de-Ísis, erva-sagrada ou cruz-do-diabo (devil's bane).

08/12/2011

O sol nos Apeninos


Helianthemum apenninum (L.) Mill.


Mesmo quem nada entenda de flores dificilmente confundirá este arbusto rasteiro com um girassol. No entanto, essas duas plantas tão díspares comungam uma preferência pelo astro-rei que se traduz nos nomes científicos Helianthus (para o girassol) e Helianthemum. Mais do que parecidas, estas duas palavras são sinónimas: ambas nos dizem que as flores das plantas em causa gostam de se virar para o sol. Essa preferência, no caso do Helianthemum, é denunciada pela primeira foto aí em cima, em que as flores surgem alinhadas com um aprumo quase militar. A única falha é que nem todas elas compareceram à parada: há muitas ainda fechadas nos seus botões. É que, como sucede com todas as cistáceas, cada flor, depois de aberta, dura poucas horas, e ao fim da tarde deixa já tombar as pétalas. Porque é preciso assegurar o expediente do dia seguinte, não podem abrir todas as flores de uma só vez.

Aquilo que distingue os vários géneros arbustivos da família Cistaceae (os mais importantes são Cistus, Halimium e Helianthemum, que entre si abarcam 25 espécies da flora portuguesa) são detalhes dos cálices e dos frutos difíceis de observar a olho nu. Há truques que facilitam a identificação: as espécies de flores cor-de-rosa só podem ser Cistus; as de flores amarelas são Halimium ou Helianthemum; os Halimium e os Cistus costumam ser bastante maiores do que os Helianthemum; os Helianthemum escasseiam na metade norte do país. Mas, além de padecer de limitações geográficas, o receituário deixa de fora as plantas de flor branca, que são as mais numerosas e podem pertencer a qualquer um dos três géneros.

O Helianthemum apenninum, que costuma vegetar em lugares pedregosos, é um arbusto muito ramificado com não mais que 30 cm de altura; as folhas têm até 2 cm de comprimento, e as flores (que podem ser amarelas ou, como nas fotos, brancas com centro amarelo) têm de 1,5 a 2 cm de diâmetro. Floresce durante um longo período, de Março a Agosto, e a sua distribuição no nosso país é descontínua e pontual: ocorre em Trás-os-Montes, na Estremadura (serras de Montejunto, Candeeeiros e Arrábida) e no Baixo Alentejo.

07/12/2011

Taça armadilhada

Dipsacus fullonum L.


Nomes vulgares: cardo-penteador; wild teasel
Ecologia: solos húmidos e nitrificados, em valetas, margens de regatos, prados-juncais, etc.
Distribuição global: Europa, norte de África e sudoeste da Ásia; naturalizado na América do Norte
Distribuição em Portugal: sobretudo no norte (Minho, Trás-os-Montes, Beira Alta e Beira Baixa), mas também no Ribatejo
Época de floração: Julho-Agosto
Data e local das fotos: Agosto de 2008, Devon, Inglaterra (foto 1); Agosto de 2010, Corrubedo, Galiza (restantes fotos)
Informações adicionais: herbácea bienal que floresce no seu segundo ano de vida, lançando então uma haste espinhosa que pode ultrapassar 1,5 m de altura; as suas sementes são muito procuradas por pássaros, mas a planta é perigosa para os insectos, que correm o risco de se afogar na água acumulada nas «taças» formadas por cada par de folhas (com proveito para a planta, que parece ser carnívora)

06/12/2011

Flor de cera

Cerinthe gymnandra Gasp.


1. Panículas de flores pendentes, de cinco pétalas coladas em tubo, protegidas por grandes brácteas e apoiadas em sépalas desiguais.

2. Folhas glaucas, sésseis e glabras mas de margens ciliadas a rodear o caule.

Tudo lembra a Cerinthe major, a erva-raposa, e já houve quem as visse como variedades de uma mesma espécie. A saber: C. major var. purpurascens Boiss. a de corola purpúrea com base amarela coberta de gotas de néctar; e C. major var. gymnandra (Gasp.) Rouy a de corola amarela ou branca, com o rebordo amarelo e uma banda violácea na base.

São ambas anuais com floração primaveril, de distribuição mediterrânica e ibérica, apreciadoras de solos ricos em azoto; ruderal a primeira, de prados e terrenos baldios, preferindo a segunda locais secos, dunas e rochedos litorais (segundo Amaral Franco). Mas há pelo menos uma razão para as separar mais na divisão taxonómica.

Se tivéssemos a crueldade de abrir uma flor, veríamos cinco estames escuros e curtos, presos a meio do cálice e sem estruturas a revestir-lhes as bases como noutras boragináceas; um estilete que ultrapassa a corola (é a ponta clara a espreitar em cada flor); e anteras pontiagudas, reunidas em apertada escolta à volta do estilete. A diferença morfológica mais notória, além da coloração das flores, está nestas estruturas masculinas: nas flores da C. gymnandra (que julgamos ter origem no grego gymnos, desnudo, e andros, homem), as anteras estão menos bem protegidas. A outra distinção faz-se pelo fruto, umas nozes pardas (na C. major) ou marmóreas (na C. gymnandra) que são maiores na C. major.

Por cá, estas duas espécies frequentam quase as mesmas seis províncias, sendo Trás-os-Montes, onde não há registo da C. major, aquela mais a norte onde a C. gymnandra (que é rara no nordeste da Península) ocorre. Em Espanha há notícia de mais duas plantas do género, a perene C. glabra Mill., com uma só população ibérica conhecida, e a naturalizada C. minor L. subsp. auriculata. Nada mau num planeta onde só se conhecem mais três.

05/12/2011

Junco abrasivo

Equisetum hyemale L.

É a terceira vez que o género Equisetum, único representante vivo de uma das mais primitivas linhagens de plantas vasculares, é convocado para a primeira página do blogue. Ao contrário do que sucedeu nos casos anteriores (carregue na etiqueta Equisetaceae aí em baixo para conferir), as plantas de hoje não têm origem espontânea; e, de facto, pertencem a uma espécie que não é nativa em território português, embora o seja no norte de Espanha e em grande parte do hemisfério norte. O Equisetum hyemale — que é persistente no Inverno e, além disso, se distingue do E. arvense e do E. telmateia por ter hastes não ramificadas e de apenas um tipo (as férteis não são diferentes das estéreis) — é ocasionalmente cultivado em jardins, o que pode ser uma grande imprudência. Espalhando-se através de rizomas, não tardará a assenhorear-se de todos os canteiros. E, conforme testemunha a segunda foto aí em cima, onde o vemos a romper o asfalto da estrada, mesmo um muro pode não ser suficiente para conter o seu avanço. A planta também se pode disseminar pelos esporos que provêm dos cones (ou estróbilos) situados no topo das hastes (1.ª e 4.ª fotos), mas a reprodução vegetativa é claramente predominante.

O nome junco-abrasivo, acabado de inventar, é tradução apressada de scouring rush, uma das designações inglesas, a par de rough horsetail, para o Equisetum hyemale. É algo enganador, pois o Equisetum não é junco nem aparentado, mas a qualificação de abrasivo é apropriada. Os caules da planta, depois de secos, podem ser usados como esfregão para limpar panelas ou lixa para polir madeiras. Também há registo de usos culinários, principalmente no Japão, desta e de outras plantas do género, mas é preciso cautela pois elas são algo venenosas.

02/12/2011

Viver do alheio

Limodorum trabutianum Batt.

Quase inteiramente violácea, com floração de Verão e um caule estriado de mais de meio metro de altura, esta orquídea seria fácil de detectar se não fosse tão rara. Culpa dela, que opta regularmente pela auto-polinização (há mesmo registo de floração e frutificação subterrâneas) e é dependente da dieta que lhe servem os fungos que revestem o rizoma curto de raízes grossas. Como no L. abortivum (L.) Swartz, as folhas são caulinares, dispostas em hélice e reduzidas a escamas, e a planta pode decidir desaparecer por longos períodos depois de um ano pouco chuvoso ou se a vegetação vizinha se adensa. Ocasionalmente surgem exemplares mais verdes, resultado talvez de variações na luminosidade ou no substrato do habitat. É espontânea em lugares sombrios de solo calcário no oeste da região mediterrânica e sudoeste da Europa, mas ausente do noroeste peninsular.

As duas espécies do género Limodorum diferem pela haste, que no L. trabutianum é esverdeada (supomos que por conter um resto de clorofila), pelo labelo, que nesta espécie não é contraído na base e por isso quase não se distingue das outras pétalas, e pelo esporão, que aqui é rudimentar e mede de 0.5 a 3 mm em vez dos 25 mm com muito néctar do L. abortivum.

O nome da espécie homenageia Louis Charles Trabut (1853-1929), botânico francês com uma obra extensa sobre a flora da Argélia e da Tunísia.

01/12/2011

Debaixo dos pinheiros

Monotropa hypopitys L.
O género Monotropa contém duas espécies perenes, a M. uniflora L. (Indian's pipe) e a M. hypopitys L. (Dutchman's pipe), originalmente da família Monotropaceae mas agora colocadas na família Ericacea, onde coabitam com plantas com que parecem ter reduzido parentesco, como os rododendros. Contudo, a flor das monotropas (única no caso da M. uniflora, em cacho terminal na M. hypopitys), com quatro ou cinco pétalas, é de facto semelhante às dos medronheiros, urzes e mirtilos. Quando nasce, no fim da Primavera, mantém a corola voltada para baixo para que alguma chuva que caia não dilua o néctar que está na base das pétalas, ou comprometa a facilidade do pólen em se colar aos insectos. No Verão levanta-a ligeiramente, não vá a excessiva cautela deixá-la sem visitas. Finalmente em Setembro, quando polinizada, ergue a corola para que murchem convenientemente as componentes que não fazem falta ao fruto, uma cápsula com aberturas laterais por onde as sementes aladas se escapam. [Esta época de floração varia com a região; as plantas com flores mais tardias tendem a ser menos glabras e avermelhadas.]

Monotropa significa uma volta, aludindo à posição unilateral das flores. Hypopitys deriva do termos gregos hypo (abaixo) e pitys (pinheiro), em referência ao habitat sombrio que é natural para esta herbácea — que também ocorre em matas caducifólias húmidas, com outras coníferas ou faias, e até em algumas dunas. Na Península Ibérica prefere a metade mais fria; por cá, vê-se cada vez menos nas montanhas do norte e centro (o primeiro exemplar que vimos vive na mata da Margaraça). É espontânea, embora em geral rara, em boa parte das regiões temperadas do hemisfério norte.

Vivendo assim em condições extremas de falta de luminosidade, e não exibindo folhas verdes (as folhas são as escamas transparentes de aspecto ceroso que abraçam o caule), desconfia-se que se alimente da matéria em decomposição que abunda nas florestas densas ricas em humidade. Engano nosso, esta não é uma planta saprófita. Na verdade tem um rizoma carnudo que se reveste de fungos cuidadosamente seleccionados, e são estes que lhe fornecem alimento. O negócio funciona do seguinte modo. As árvores sintetizam açúcares nas folhas, com luz, clorofila e dióxido de carbono, e enviam-no para toda a planta, incluindo as raízes. Aqui os fungos retiram uma porção, que dividem com a Monotropa, pagando à árvore em nutrientes minerais, especialmente fósforo, e ajudando-a a absorver água. O negócio é proveitoso para o fungo e para a árvore, mas também para a oportunista Monotropa, que talvez tenha aprendido/ensinado a esta orquídea, com a qual é frequentemente confundida, uma tal estratégia barata de alimentação. Não é porém clara a razão para os dois parceiros, árvore e fungo, cooperarem no sustento destas parasitas.

30/11/2011

A última da tribo

Cheirolophus sempervirens L. (Pomel)
Nomes vulgares: lavapé, viomal
Ecologia: clareiras de pinhais e de outras matas perenifólias, margens de cursos de água, taludes rochosos
Distribuição global: nativa da Penínula Ibérica (Portugal e Espanha) e talvez de Itália; introduzida em França
Distribuição em Portugal: centro e sul da faixa litoral no continente
Época de floração: Maio a Agosto
Data e local das fotos: Julho de 2008, Fórnea (foto 2); Julho de 2010, Mata Nacional das Dunas de Quiaios (fotos 1 e 3)
Informações adicionais: planta perene, algo pubescente, de base lenhosa, com caules até 1,5 m de altura, folhas alternadas simples e lanceoladas; capaz de formar moitas em sítios húmidos
Adenda: com esta planta completamos a série de sete fichas semanais que dedicámos à tribo Cardueae da família Asteraceae. Embora nem todos as plantas da tribo sejam espinhentas (a de hoje não é), ela inclui muitas das plantas vulgarmente conhecidas como cardos. As suas inflorescências não exibem as «pétalas» características de outras asteráceaas, pois são apenas constituídas por longos florículos tubulares.

29/11/2011

Imposturas vegetais

Marsilea hirsuta R. Br. [= Marsilea azorica Launert & Paiva]
Quanto mais alto se sobe, maior é a queda: eis um dito que se aplica a usurpadores ou vigaristas apeados no auge da carreira, mas que parece inapropriado quando se fala de plantas ou de bichos. No entanto, plantas e bichos também podem cair em desgraça. Na Austrália, coelhos e gatos, que tanta gente acarinha como animais de estimação, são alvo de impiedosas campanhas de extermínio por se terem reproduzido descontroladamente em ambientes naturais. E, aqui ou na Austrália ou em muitas outras paragens, são inúmeras as plantas introduzidas como ornamentais que se transformaram em pragas de impossível erradicação. Com a consciência gradual dos estragos que as espécies exóticas, animais ou vegetais, podem causar, a nossa escala de valores alterou-se: a «beleza» das mimosas (Acacia dealbata) não nos deve impedir de reconhecê-las como árvores daninhas e indesejáveis no nosso país.

Nada disto nos preparou para a revelação de que a Marsilea azorica, um raríssimo endemismo açoriano de que se conhecia uma única população em todo o arquipélago (na Terceira), é afinal uma planta exótica e potencialmente invasora. De seu verdadeiro nome Marsilea hirsuta, é originária da Austrália e terá chegado à Terceira por via dos EUA, onde, no estado da Florida, se tem vindo a comportar como colonizadora agressiva de ecossistemas aquáticos. Foram os botânicos Hanno Schaefer, Mark A. Carine e Fred J. Rumsey, em artigo científico acabado de publicar (disponível aqui), que desmascararam a pretensa Marsilea «azorica».

É verdade que a singularidade da distribuição deste feto, encontrado nos Açores pela primeira vez em 1971 e descrito como uma nova espécie, endémica do arquipélago, em 1983, tinha já suscitado a estranheza de alguns botânicos. Vale a pena reproduzir o comentário que Carlos Aguiar aqui deixou em Dezembro de 2010: A distribuição desta planta nos Açores é surpreendente: uma lagoa na berma de uma estrada movimentada, na ilha Terceira. Não me surpreenderia que um dia alguém descobrisse que se trata de um neófito de origem neotropical.

Apesar das dúvidas em surdina, a Marsilea «azorica» sempre recebeu as maiores honrarias. Foi incluída na lista vermelha da IUCN com o estatuto de espécie em perigo crítico; e, no livro Flora Vascular dos Açores — Prioridades em Conservação, de Luís Silva et al. (edição Amigos dos Açores, 2009), aparece em primeiro lugar entre 90 espécies, como aquela cuja conservação é mais prioritária.

Tudo galardões de que a australiana Marsilea hirsuta não tardará a ser despojada. Contudo, ficam ainda muitos genuínos endemismos açorianos de que importa cuidar. O mais ameaçado é talvez o Myosotis azorica, em vias de extinção nas Flores (o Corvo é a única outra ilha onde ele ocorre) por causa dos rebanhos de cabras devoradoras que os serviços da Secretaria Regional do Ambiente se recusam a controlar.

Deparia petersenii (Kunze) M. Kato [= Diplazium allorgei Tardieu]
Vem a propósito deslindar uma história algo semelhante envolvendo outro feto colectado nos Açores. Em Dezembro de 1938, foi publicado, na revista Notulae Systematicae (vol. VII, fasc. 3), um artigo de Tardieu-Blot com o título «Sur un Diplazium des Açores» [clique no título para ler o artigo], descrevendo uma nova espécie a que a autora chamou Diplazium allorgei. A confusão, de acordo com Schaefer e seus co-autores, só seria desfeita quatro décadas mais tarde (em 1975 ou 1977), quando W. A. Sledge revelou, na Fern Gazette, que o hipotético endemismo açoriano era indistinguível da asiática Deparia petersenii.

A história, contudo, não se passou exactamente assim. Nada indica que alguma vez alguém tenha considerado esse feto como endémico dos Açores. A própria Tardieu-Blot considerava-o como possivelmente introduzido, embora não soubesse de onde ele teria vindo. Mais: Tardieu-Blot reconhecia que o seu feto e o Diplazium petersenii (nome que então se dava à Deparia petersenii) eram muito semelhantes, mas entendia haver diferenças suficientes para definir uma nova espécie.

Em 1943, Rui Teles Palhinha (1871-1957) publica, no Boletim da Sociedade Broteriana (vol. 17), uma lista dos «Pteridófitos do arquipélago dos Açores» [clique no título]. Entre os fetos por ele considerados como «subespontâneos ou fugidos de cultura» encontra-se o Diplazium petersenii, «da China, Índia e Java»; não há menção ao Diplazium allorgei. No seu livro póstumo Catálogo das plantas vasculares dos Açores, de 1966, Palhinha parece ter mudado de opinião: faz desaparecer o Diplazium petersenii para o substituir pelo Diplazium allorgei, deixando porém a hipótese de este ser de origem asiática ou sul-americana.

Acontece que, de facto, Palhinha não mudou de opinião. As páginas sobre pteridófitos no livro póstumo não foram escritas por ele mas sim pelo editor A. R. Pinto da Silva, o qual, conforme esclarece o prefácio, se baseou no artigo de 1943 de Palhinha e num outro de 1961 de Pierre Dansereau. Havendo, como há neste caso, discrepâncias entre o livro póstumo e o artigo de 1943, a opinião de Palhinha é a que está no artigo e não a do livro. É pois plausível afirmar que W. A. Sledge, em 1975 ou 1977, não revelou nada que em 1943 Palhinha não soubesse já.

Como nota final, assinale-se que João do Amaral Franco, no vol. 1 (de 1971) da Nova Flora de Portugal, adopta o nome Diplazium allorgei. Mas considera-o uma espécie introduzida de origem sul-americana — o que, embora não seja correcto, se explica pela circunstância de o feto estar igualmente naturalizado no Brasil.

Em conclusão: o Diplazium allorgei nunca foi seriamente considerado como um endemismo açoriano, e desde sempre foi conhecida a possível sinonímia entre Diplazium allorgei e Diplazium petersenii (= Deparia petersenii). Afinal a história nem sempre se repete.

28/11/2011

Falta-lhe ser completo

Pteris incompleta Cav.
O fotógrafo admite a sua inépcia: este feto era um entre muitos dos seus iguais, mas a falta de discernimento fez com que de outros mais elegantes não ficasse registo. A profusão de fetos na ilha das Flores exige um olhar treinado e minucioso para conseguir destrinçá-los, senão até um feto de personalidade tão vincada como este acaba por perder-se na multidão.

Um troço da estrada que liga Santa Cruz ao interior da ilha é peculiar por ter piso de cimento e ser tão íngreme que subi-lo a pé sem pausas garante ao involuntário atleta os mínimos olímpicos na disciplina de escalada. Quem não almeje grandes feitos aceitará o convite das criptomérias para recuperar o fôlego à sua sombra, e avançará com alívio pela vereda de declive zero que se embrenha pelo bosque. Apesar de ser esta uma conífera originária da Ásia, há muitos fetos, quase todos autóctones, a forrar o chão. É questão de desembaciar os óculos para que a névoa não atenue o brilho das frondes. As da Pteris incompleta, pela cor, pelo avantajado do tamanho (1,5 m de comprimento) e pelo recorte das pinas, podem ao longe confundir-se com as da Woodwardia radicans, feto muito comum em toda a ilha. De perto as diferenças tornam-se óbvias: as pínulas (= segmentos de última ordem) da W. radicans são pontiagudas, as da P. incompleta são arredondadas e denticuladas (3.ª foto); e uma singularidade da P. incompleta é que, em cada fronde, as duas pinas basais são mais divididas do que as restantes, com três pínulas de cada lado a serem substituídas por segmentos compostos. Se o fotógrafo tivesse espreitado o verso das frondes, teria ainda constatado como os esporângios se dispõem linearmente, protegidos pela margem dobrada das pínulas, tal como sucede na Pteris vittata.

Açores, Madeira, Canárias e Cabo Verde compõem uma região biogeográfica excessivamente diversificada a que se convencionou chamar Macaronésia. São poucos os traços comuns a todos esses arquipélagos. A Pteris incompleta não é um deles porque falha em Cabo Verde, mas faz o pleno dos arquipélagos restantes. A sua presença residual tanto no continente africano (Tânger) como no europeu (Algeciras e serra de Sintra) poderia dever-se ao comércio hortícola e à utilização ocasional em jardinagem; no entanto, a opinião que tem prevalecido é que essas populações são de origem natural, relíquias do período pré-glaciar. Outros fetos que hoje se concentram nas ilhas mas mantiveram delegações no continente são a W. radicans, o Trichomanes speciosum, a Culcita macrocarpa e o Asplenium hemionitis.

Pteris incompleta Cav.

25/11/2011

Albaida

Dorycnopsis gerardi (L.) Boiss.
O nome é difícil de pronunciar mas a mensagem é útil: estas plantas pareceram a Pierre Edmond Boissier semelhantes às do género Dorycnium, enquanto a Lineu, que lhes chamou Anthyllis gerardi, lembraram as deste outro grupo. Boissier manteve o epíteto específico, gerardi, que Lineu escolheu em homenagem ao naturalista inglês John Gerard (1545-1612), autor do famoso Great Herball (1597), que informa, por exemplo, qual o veneno usado por Julieta (a do Romeu) para se fingir de morta.

Na verdade, a um olho leigo, as espécies Dorycnopsis gerardi (a única espécie deste género na Península Ibérica, nativa de Portugal, Espanha, Marrocos, sul de França e algumas ilhas italianas) e Anthyllis onobrychioides Cav. (endemismo do sudeste de Espanha) parecem diferir em pouco mais do que na cor das flores. Para resolver este imbróglio taxionómico, de preferência sem diminuir o número de endemismos espanhóis, alguns botânicos decidiram analisar material genético de D. gerardi, proveniente de populações portuguesas, espanholas e italianas, e compará-lo com registos idênticos de várias espécies de Anthyllis e de D. abyssinica (da Etiópia).

Entre várias outras conclusões relevantes, estabeleceram que os géneros Dorycnopsis e Anthyllis não estão geneticamente próximos: a ostensiva semelhança morfológica entre a A. onobrychioides e a D. gerardi talvez se deva a adaptações a um habitat com iguais exigências, mas isso terá de ser esclarecido noutra ocasião.

Esta planta é perene, vive em pastagens ou em matos, mas também aprecia areais e a proximidade de cursos de água. Encontrámo-la junto às margens (muito degradadas) do rio Alva, em Barril do Alva. Chega aos dois metros de altura e pode apresentar uma cepa lenhosa de onde saem numerosos talos. A inflorescência, de Maio a Julho, contém 12 a 30 flores de formato típico (quilha e estandarte) entre as leguminosas.

24/11/2011

Chica flor

Malva parviflora L.


Já choveu o bastante para que em Bragança, nos próximos meses, a água não falte. No resto do país, mesmo antes das chuvas de Novembro, o nível das barragens não chegou a ser motivo de preocupação. O ano que vem promete colheitas fartas. Mas, como somos uma sociedade evoluída, a nossa prosperidade nada tem a ver com a produção de alimentos, ou mesmo com qualquer outro tipo de produção. Quem dera que houvesse bananeiras, como há nas ilhas afortunadas, para nos deixarmos ficar à sua sombra num descanso apaziguado, sabendo que nada depende de nós.

Há ainda porém algum atavismo que nos alegra quando a chuva cai. Dissolve-se a ansiedade miudinha que nos roía depois de tantas semanas sem pinga de água. Semanas em que a visão de uma planta florescendo na estiagem nos alimentava uma esperança fútil. Como esta malva a romper de uma terra porosa que, mesmo com chuva persistente, nunca retém água por muito tempo.

O epíteto parviflora não é um comentário à inteligência das flores; antes nos informa, com muito acerto, de como elas são pequenas. Com um diâmetro de 5 a 10 mm, as flores da Malva parviflora são, por larga margem, as mais diminutas de entre todas as espécies de Malva espontâneas na Península Ibérica. A única outra espécie com morfologia semelhante, a Malva neglecta, tem flores igualmente axilares, mas consideravelmente maiores (até 2,5 cm) e dotadas de pedúnculos alongados (as da Malva parviflora são quase sésseis). Ressalve-se ainda que a Malva parviflora, podendo embora apresentar-se prostrada como a planta da foto, tem hastes geralmente erectas ou ascendentes, ao contrário da Malva neglecta. Ambas as plantas são algo ruderais e preferem solos nitrificados; mas, para minimizar confusões, têm em Portugal uma distribuição quase disjunta: a M. neglecta é exclusivamente nortenha (Beira Alta, Minho e Trás-os-Montes) e a M. parviflora, embora surja também em Trás-os-Montes (ou, mais precisamente, no Alto Douro), é mais comum no centro e sul do território (Alentejo, Algarve, Estremadura, Ribatejo e Beira Baixa).

23/11/2011

Das vinhas e pomares

Cirsium arvense (L.) Scop.


Nomes vulgares: cardo-das-vinhas; creeping thistle
Ecologia: terrenos incultos ou cultivados, por vezes infestante de vinhas, pomares e campos de cereais
Distribuição global: nativo da Europa e do norte da Ásia; introduzido acidentalmente na América do Norte e do Sul, Austrália, Nova Zelândia e África
Distribuição em Portugal: quase todo o território continental, embora não seja muito comum; naturalizado mas raro nos Açores (Flores e Graciosa)
Época de floração: Junho a Setembro
Data e local das fotos: Setembro de 2011, aldeia do Vale, Pombal
Informações adicionais: herbácea perene com longos rizomas que podem dar origem a colónias populosas; as partes aéreas chegam a ultrapassar um metro de altura; singular entre as suas congéneres por ser uma planta dióica (as plantas das fotos são masculinas)

22/11/2011

Águas passadas

Baldellia repens subsp. cavanillesii (J. A. Molina, A. Galán, J. M Pizarro & Sardinero) Talavera


Segundo Amaral Franco e Rocha Afonso (Nova Flora de Portugal, vol. III), ocorrem em território português duas espécies de Baldellia, que se distinguem pelas folhas: a B. alpestris, endemismo ibérico, tem-nas elípticas; as da B. ranunculoides, nativa da Europa, norte de África e Macaronésia, são lanceoladas. Porém, a Flora Ibérica é de opinião diferente: as plantas do género Baldellia identificam-se por outros detalhes que não apenas as folhas e, para começo de conversa, por cá não há B. ranunculoides, que na Península se fica por terras de Espanha. O que temos, além da B. alpestris, são duas subespécies de B. repens (uma terceira subespécie, B. repens subsp. baetica, é um endemismo espanhol de distribuição restrita).

A razão desta destrinça está nos escapos das flores e nos frutos. Com paciência, tempo e atenção, há que observar as folhas, depois esperar pelas flores e pelos frutos (que são poliaquénios) e entretanto reparar que:
  1. Na B. repens, as anteras são maiores (mais ou menos um milímetro), o fruto ovóide é mais pequeno (com cerca de 20 aquénios), e cada aquénio (visto ao microscópio) exibe umas pequenas protuberâncias filiformes na superfície. Além disso, nota-se a produção de estolhos radicantes de onde nascem rosetas de folhas e flores axilares. Mesmo as hastes de flores lançam ramificações folhosas que se enraízam e dão origem a novas plantas, cumprindo um plano de disseminação vegetativa.
  2. Na B. ranunculoides, o fruto é fusiforme, tem em geral mais de 30 aquénios, e não há as tais protuberâncias. Esta espécie também lança estolhos e nós que se enraízam, mas sem a presença de folhas.
Com tanta minúcia, ganhámos, em troca da espécie perdida, duas subespécies de B. repens: a B. repens subsp. repens, que se restringe ao Algarve e ao Baixo Alentejo, e tem um fruto mais papiloso do que a outra, a B. repens subsp. cavanillesii. Esta ocorre em quase todas as províncias, as folhas medem 8 a 25 cm, o pedúnculo cerca de 15 cm e as três pétalas rosadas (raramente brancas) têm dimensões que rondam os 7 mm x 10 mm e um centro amarelo onde se juntam seis estames.

As nossas três baldélias são plantas perenes, armazenando reservas num «tuberobolbo» agasalhado por folhas velhas. E são ripícolas, de margens de lagoas, turfeiras e represas, de preferência com substrato ácido. Por isso estão ameaçadas pelas práticas, tão frequentes em Portugal, que levam à destruição ou degradação dos lugares húmidos. Os poucos exemplares que encontrámos nos canais que desaguam na lagoa de Paramos são forte indício de que este risco não é mera opinião.