15/02/2022

Madama de risco



Juraríamos que o deserto, seco, muito quente e sem uma brisa, é um ambiente hostil para qualquer planta ou bicho. Até aprendermos que há inúmeras espécies muito bem adaptadas a esse tipo de habitat, e que até nem querem outro. O nosso olhar, habituado a outro clima e a outras plantas, imagina as do deserto angustiadas de calor e sede, à beira da morte por desidratação. Coitadinhas, dizemos, de folhas com um tom verde baço a denunciar a fraqueza, inchadas e cheias de espinhos. E mal se aguentam, as infelizes, empoleiradas perigosamente nos penhascos.

Mas estamos enganados. O carácter suculento das folhas, aliado a raízes longas e bem espalhadas, mas pouco profundas, é um estratagema muito eficiente de captação e reserva de água, das breves chuvas ou da humidade nocturna, absorvida rapidamente antes que o solo seque sob o calor intenso. Naturalmente, o armazenamento de água nas folhas requer protecção dessas reservas, e um renque de espinhos bem colocado inibe qualquer animal sequioso; e, claro, viver numa escarpa de difícil acesso garante que se é menos incomodado. Finalmente, o verde acinzentado das folhas não é palidez de morte, mas uma boa opção para manter as plantas frescas, porque essa cor clara reflecte melhor o calor da luz.

Em épocas de menor humidade, as plantas destes habitats áridos largam a maioria das folhas, no que poupam água, ou adoptam um regime anual, apostando na produção rápida de sementes em vez de mais anos de vida. Outras há, porém, que se mantêm perenes e tolerantes à secura, mas estas têm folhas finas, organizadas em rosetas para gerirem bem a sombra, e cobertas por uma substância resinosa (mas translúcida, para não impedir a fotosíntese) que as protege de infecções e minimiza a perda de água por evaporação. Algumas accionam ainda um sistema engenhoso de abertura e fecho dos poros que, não impedindo a entrada de dióxido de carbono durante a noite, reduz a perda de água por transpiração durante o dia.

Allagopappus canariensis (Willd.) Greuter


Esta asterácea, endemismo das Canárias, ilustra bem a descrição anterior. Ocorre em La Gomera, Gran Canaria e Tenerife. Como se tivessem sido um dia excelentes alunas no deserto, as plantas desta espécie mantêm-se rentes ao chão até que os dias se tornem mais frios e a humidade persista. Depois, com vagar, vão dispondo talo acima as rosetas de folhas resinosas e, no topo, durante a Primavera, corimbos planos e densos de capítulos amarelos sem lígulas. O género, também endémico das Canárias, abriga outra espécie (Allagopappus viscosissimus), de que só se conhecem registos na Gran Canaria, com folhas ainda mais finas e margens inteiras mas perfil idêntico.

06/02/2022

Erva raposeira

Reseda barrelieri Bertol. ex Müll. Arg.


Para quem vem do centro da Península em direcção ao norte, as montanhas calcárias de Palência anunciam, em modo suave, que estamos a chegar à Cordilheira Cantábrica, deixando para trás as estradas rectilíneas que cruzam planaltos infindáveis. A montanha palentina pode ser vista como um aperitivo modesto para quem vai em busca de paisagens de cortar o fôlego, e anseia por afastar-se de lugares muito marcados pela presença humana. Aqui, os rios correm pachorrentos por declives imperceptíveis, as povoações esparsas são entremeadas por extensos campos de cultivo geometricamente parcelados, e há zonas industriais e pedreiras activas nos arredores de pequenas cidades como Aguilar de Campoo. Mesmo assim, quem percorre as margens do rio Pisuerga em Villaescusa de las Torres, ou ascende aos afloramentos calcários sobranceiros à aldeia, se não encontra "natureza em estado puro" (esse mito romântico tão ao gosto de quem escreve para viajantes de sofá), pelo menos mergulha numa paisagem ordenada onde o que é espontâneo e genuíno na natureza ocupa lugar central.

À lista de preciosidades botânicas de Villaescusa de que já demos notícia (Saxifraga cuneata, Arenaria grandiflora, Telephium imperati, Lactuca perennis e Berberis vulgaris), juntamos agora uma reseda com preferência por substratos calcícolas ou margosos que tem a distinção de ser um endemismo ibérico e que, em espanhol, é conhecida como hopo de zorra (rabo-de-raposa). Com hastes erectas que podem chegar a um metro de altura e floração que se estende de Março a Julho, a Reseda barrelieri (o epíteto homageia Jacques Barrelier, botânico e padre dominicano francês do séc. XVII) apresenta fortes semelhanças com congéneres suas como a R. alba e a R. suffruticosa; da primeira distingue-se pelas flores sésseis (a R. alba tem pedicelos bem desenvolvidos), e da segunda por ter folhas basais menos recortados (as da R. suffruticosa são bipinatífidas). Tanto a R. barrelieri como a R. alba estão assinaladas como espontâneas em Portugal; e ambas, infelizmente, correm o risco de desaparecer do nosso país: a R. alba, que na Lista Vermelha da Flora de Portugal [LVF] foi considerada em "perigo crítico", só era conhecida das dunas de Tróia, e já não é vista desde 2015; a R. barrelieri, tanto quanto se sabe, ainda se vai aguentando na envolvente das antigas minas de Santo Adrião, em Vimioso, mas com um efectivo populacional de poucas dezenas (a LVF considerou-a "em perigo").

Santo Adrião é o maior afloramento calcário de Trás-os-Montes e dá abrigo a algumas plantas únicas. Com o fim das actividades extractivas em 2001, é hoje um espaço natural protegido incluído na Rede Natura 2000. Será isso suficiente para a Reseda barrelieri ter futuro? Em Portugal, e como a campanha do lítio tem eloquentemente mostrado, só interessa proteger a natureza enquanto valores (económicos) mais altos não se levantam.

01/02/2022

Alfavaca de Sicó

No âmbito da elaboração da Lista Vermelha da Flora Vascular de Portugal, ficámos a saber que o Astragalus glaux ocorre em tomilhais do maciço de Sicó, em substrato calcário margoso. As plantas desta espécie perene são herbáceas pequenas, penugentas, ramificadas na base e de hábito rasteiro, por vezes com talos delgados quase lenhosos. É relativamente frequente em Espanha e na região mediterrânica, especialmente em zonas montanhosas, mas por cá os registos da sua presença são raros, restritos a alguns núcleos na Beira Litoral, Alentejo e Estremadura.

- Espera. Disseste solo margoso?...

Sim. Esta alfavaca floresce entre Março e Maio, e as inflorescências são racimos arredondados e erectos. As flores são rosadas, com estandartes estreitos mas longos, a apontar para cima, muito bem arrumadas em torno de um centro onde a floração é mais tardia.

- Solo margoso é o que não falta nas faldas da serra de Janeanes, onde vimos o Andropogon distachyos. Poderíamos ir lá em Maio, num dia em que não chova para não nos enterrarmos na argila.



E fomos. A população de Astragalus glaux que encontrámos, não exactamente em Janeanes mas mais a sul, já no concelho de Ansião, de apenas vinte plantas, tinha inúmeras flores e alguns frutos: aglomerados globosos que parecem obtidos das inflorescências por substituição de cada flor por um fruto ovóide, peludo e com um bico.

Astragalus glaux L.


Há na natureza, e entre as plantas em particular, muitas instâncias de sincronização, de que os milhares de pirilampos a piscar em sintonia são talvez o exemplo mais famoso. Os renques de jacarandás completamente floridos de roxo parecem sugerir que há um relógio que todas as plantas da mesma espécie consultam, e a que todas as flores de uma mesma planta obedecem escrupulosamente. Mas entre as herbáceas de pequeno porte a opção de gastar todas as flores em poucos dias talvez seja demasiado arriscada. O Astragalus glaux mantém flores e frutos (nada vistosos, aliás) em simultâneo, garantindo desse modo que a atenção dos insectos não enfraquece enquanto há pólen ou sementes para disseminar.

23/01/2022

Where are you from?

Ononis angustissima Lam.


Viajamos para travar conhecimento com coisas novas, mas também nos agrada reencontrar o velho em contextos novos. Quando percorremos as estradas da Grã-Canária, em momento nenhum podemos imaginar que estas montanhas esventradas por barrancos se localizam na Europa. Não é só o negrume do basalto a dar testemunho de outra geografia, mas também a vegetação dominada por plantas suculentas e adaptadas à secura a vincar a diferença. Contudo, há por vezes apontamentos de cor que nos fazem momentaneamente regressar a casa. Esta leguminosa arbustiva de flores amarelas, que enfeitava uma curva de estrada de onde se via o mar enquadrado por duas encostas pedregosas, era já nossa conhecida do vale do Douro internacional, a jusante da barragem de Bemposta. Tanto nas folhas trifoliadas e estreitas como nas sépalas compridas e no indumento glanduloso, a planta canarina parecia uma perfeita sósia da Ononis natrix, que se distribui por grande parte da Europa mediterrânica e do norte de África.

Consultadas as obras de referência, ficamos a saber que ao migrar para as Canárias a nossa velha conhecida conseguiu munir-se de documentação com indiscutível validade legal que lhe outorga nova identidade. Esquecido o passado, é tempo de a planta criar novas raízes e de se fazer à vida como legítimo endemismo canário. Quem somos nós para a denunciar? Julgámos reconhecê-la, mas enganámo-nos, desculpe a confusão. E na verdade ela é capaz de já viver nas ilhas há bastante tempo. Quantos milénios são necessários para se pertencer a um território? Porque se formos muito picuinhas, quase todos nós, humanos, somos exóticos na terra onde nascemos.

É pois com o maior gosto que exibimos no escaparate a Ononis angustissima, endémica das ilhas Canárias que se distribui por quatro ilhas: Tenerife, Grã-Canária, Lanzarote e Fuerteventura. Só temos a louvar o esmero com que, no seu agora arquipélago natal, ela se dedica à ornamentação das rodovias — isso representa, certamente, uma mais-valia para as ilhas que a acolheram. (Só uma dúvida nos inquieta: que utilidade teria ela antes de haver estradas e automóveis?) E a sua condição insular já é suficientemente antiga para lhe ter permitido alguma diversificação, sendo-lhe reconhecidas duas subespécies: a subsp. longifolia (aquela que fotografámos, presente nas quatro ilhas referidas) e a subsp. angustissima (de folíolos mais estreitos, só na Grã-Canária e em Tenerife). Claro que os maldosos (todos eles, estranhamente, exteriores ao arquipélago) ignoram toda essa evolução e não se cansam de lhe atirar o (alegado) passado à cara, continuando a chamar-lhe Ononis natrix — ou, quando muito, Ononis natrix subsp. angustissima.

16/01/2022

Trovisco das nuvens

No Verão do ano passado, os portugueses voltaram a poder sair de casa. Com um afinco invulgar, despacharam-se a planear férias e viagens, antes que regressasse a ordem de encolher a rotina. As ilhas açorianas pareceram então a muitos o lugar ideal para recordar a vida anterior à pandemia. É que a decisão de obrigar à apresentação de teste negativo à covid ou certificado de vacinação à entrada nas ilhas, além da testagem regular para os não vacinados durante a estadia, manteria baixa a incidência dos infectados com o vírus; além disso, esse esforço de contenção dos contágios não teria custos para os turistas, pois os muitos milhares de testes a realizar seriam pagos pelo governo açoriano. Descontando o uso das máscaras e do desinfectante, a vida nas ilhas prometia ser tão despreocupada como a de 2019.

A nossa visita em Agosto do ano passado à ilha do Pico, programada muitos meses antes, coincidiu por isso com um fluxo pouco usual de turistas, ávidos de actividades fora de portas e ansiosos por ignorar o boletim covid diário. Não foi, portanto, surpreendente a notícia que recebemos à chegada, a de que, nas primeiras 2 semanas de Agosto as licenças para subir ao topo da montanha estavam completamente esgotadas. Note-se o reforço do advérbio completamente, sem o qual a palavra esgotadas pareceria conter ainda a esperança de uma vaga. Nós, a quem interessavam as cotas a meio da montanha e a ampla costa, encolhemos os ombros. O assunto das subidas à montanha regressou, porém, com novo vigor ao pequeno-almoço do dia seguinte: além dos turistas, duas grossas nuvens tinham aportado à ilha e teimavam em estacionar na parte superior da montanha, mantendo-a com um nevoeiro cerrado e impedindo, nesse e nos dias seguintes, qualquer caminhada até aos 2351 metros do topo do Pico. Confiantes na natureza humana, os operadores turísticos sorriram, enquanto aconchegavam o melhor possível a resignação dos hóspedes: se não puderem ver este ano o nascer do sol no Piquinho, decerto voltarão no próximo ano — o que é bom para o negócio, bendito seja o anti-ciclone dos Açores.



Abaixo do anel de nuvens, o céu manteve-se cinzento, é certo, mas a ameaça de chuvisco só raramente se concretizou. Com os turistas amuados nos hotéis, pudemos passear como se a ilha fosse só nossa e das vacas (que, infelizmente, continuam a comer e pisotear em locais que deveriam ser de protecção integral). Num desses dias, descemos com vagar a estrada desde os 1250 metros de altitude, e foi nesse percurso que corrigimos uma impressão anterior, a de que a Daphne laureola é uma espécie rara na ilha do Pico.

Daphne laureola L.


Não só o trovisco-louro é fácil de avistar nos locais mais bem preservados da montanha acima dos mil metros, como parece apreciar a humidade que ali é excessiva, o clima frio e ventoso, o sol incerto e as crateras sombrias dos pequenos vulcões na encosta. Ao reparar com mais atenção nos arbustos arredondados de folhagem densa que esta espécie forma, apercebemo-nos de outro pormenor: esta Daphne laureola não tem exactamente a mesma morfologia da que ocorre em bosques de montanha na Europa (vimo-la na Cantábria, mas conhece-se um núcleo na serra de Sintra). Por exemplo, o hábito dos arbustos açorianos é mais baixo e ramificado (como o das plantas nos Pirenéus, identificadas em algumas Floras como Daphne laureola subsp. philippi); as folhas das plantas açorianas são mais coriáceas e pequenas, com ápice agudo, algumas curvadas como se enroladas num caracol (as da variante continental são também arrosetadas mas podem chegar aos 40 cm de comprimento e 12 cm de largura). As flores são esverdeadas (amareladas as europeias), agrupam-se em inflorescências lassas (com as flores muito juntas na versão do continente) e as pétalas também se distinguem na disposição e nervuras. Se estas diferenças são relevantes, resultado de um clima mais favorável ou têm base genética? Não se sabe. Supomos que o assunto aguarda pelo interesse de algum botânico que se disponha a um estudo mais apurado.

02/01/2022

Rabaça dos charcos

Apium inundatum (L.) Rchb. f. (= Helosciadium inundatum (L.) W. D. J. Koch)


No planalto de Miranda a chuva é escassa e, no Verão, as altas temperaturas são um castigo difícil de suportar. O arvoredo é esparso, dominado por azinheiras (Quercus rotundifolia) que aprenderam a viver com a aridez e a canícula. Alguns cursos de água cruzam preguiçosamente o planalto, quase todos temporários e de reduzido caudal. Há ainda charcos, naturais ou artificiais, que, enquanto sustêm água, são focos de vida e de diversidade. Perto de Vila Chã de Braciosa, corre um ribeiro num leito granítico claramente definido, assinalado por pequenas pontes nos locais onde cruza alguma estrada. O período em que a água flui é breve: ainda a Primavera não terminou e o que se vê é uma sucessão de charcos onde se desenvolve uma flora típica de águas estacionárias, em geral de surgimento efémero. As plantas que buscam esses instáveis habitats são, algumas delas, raras ou até únicas em Trás-os-Montes, ou mesmo no norte do país. De fácil detecção, por cobrir uma extensa área e ter um aspecto inconfundível, é o Eryngium corniculatum, um cardo-azul frequente em charcos no Alentejo e no Algarve mas raríssimo a norte do Tejo. Também da família das umbelíferas mas muito menos chamativo, com caules delgados e flores e folhas de poucos milímetros de diâmetro, é o Apium inundatum (fotos acima). Trata-se de uma planta aquática anual que sempre foi rara no nosso país e parece estar hoje restrita ao planalto mirandês e aos arrozais do baixo Mondego. Talvez por falta de material de herbário, ou simplesmente por lapso, o revisor do género Apium para a Flora Iberica (vol. X, 2003) nem considera que a espécie, cuja distribuição global abrange o norte de África e grande parte da Europa, exista em Portugal.

Em compensação, o Apium nodiflorum, conhecido popularmente por rabaça, é frequente em todo o país, em fontes, charcos e leitos de ribeira. Tem folhas pinadas muito maiores, com grande número de folíolos, e não há confusão possível entre os dois congéneres. Sucede que, em nome do rigor taxonómico, várias espécies hidrófitas do género Apium, entre elas Apium inundatum e A. nodiflorum, têm sido transferidas para o género Helosciadium, um nome bem mais problemático de memorizar. Se aceitarmos a mudança, o aipo comum (A. graveolens), que vive à beira-mar e não tem o mesmo gosto por lugares encharcados, fica a ser o único representante do género Apium na flora portuguesa. Para nos habituarmos a tão arrevesado nome, foi descrito em 2020 o Helosciadium milfontinum, endemismo da costa alentejana (o epíteto refere-se a Vila Nova de Milfontes) antes confundido com o Helosciadium repens (= Apium repens), espécie que agora se supõe não existir em Portugal.

26/12/2021

Por vir


«Por vezes o futuro parece estar mesmo ao alcance da mão, mas eis que um vento inesperado o sopra para diante. Reúnem-se então as forças que descobrimos ainda ter, com o fito de reiniciar a perseguição.»
João Paulo Borges Coelho, Museu da revolução (Editorial Caminho, 2021)

20/12/2021

A finura dos fetos



A floresta endémica açoriana é uma esponja mergulhada num caldo de nuvens. E as nuvens, em vez de serem aquelas brancas manchas etéreas num céu azul, são cinzentas, espessas, quase sólidas, carregadas de água; não precisam de se esfarelar em chuva para nos encharcarem os ossos. E, naqueles raros intervalos de bonança em que as nuvens se ausentam e o céu se torna visível, percebemos que o solo continua empapado de água e que as galochas são a única escolha sensata de calçado para quem se aventure entre o arvoredo.

Como conseguem as árvores, arbustos e herbáceas aguentar rega tão persistente? São quase anfíbias, de tal modo desenvolveram uma predilecção por meio tão aquoso. Com excepção da criptoméria — que, plantada em extensos povoamentos mono-específicos, substituiu, na maioria das ilhas, a floresta original —, são poucas as árvores exóticas que toleram tal regime hiper-húmido. No Pico, os muitos pinheiros que se plantaram na encosta noroeste da montanha estão a morrer aos poucos, dando lugar a uma floresta nativa em franca regeneração. Com o vagar paciente de quem dispõe de todo o tempo do mundo, a natureza vai corrigindo as asneiras dos homens.

Hymenophyllum wilsonii Hook.


Os cedros-do-mato (Juniperus brevifolia), azevinhos (Ilex perado subsp. azorica), urzes (Erica azorica), sanguinhos (Frangula azorica), loureiros (Laurus azorica) e troviscos-machos (Euphorbia stygiana) que compõem a floresta nativa mergulham as raízes não propriamente em solo firme mas em grandes almofadões de musgão (Sphagnum). Há muitos fetos que se acolhem no bosque, com predomínio, entre os de maior porte, da Culcita macrocarpa (feto-do-cabelinho) e de diversas espécies de Dryopteris. Mas os fetos de menor dimensão (Polypodium azoricum, Elaphoglossum semicylindricum, Trichomanes speciosum) optam, na maioria das vezes, por se empoleirarem em árvores. Muitas delas têm um revestimento de tal modo espesso de fetos e de musgos que não fica um palmo de tronco à mostra.

Nessas florestas, os fetos epífitos mais abundantes, mas menos conspícuos por causa da sua pequenez, são os do género Hymenophyllum, de que ocorrem duas espécies nos Açores: H. tunbrigense e H. wilsonii. São fetos translúcidos, com frondes de 3 a 4 cm de comprimento, muito finas, da cor da azeitona. Formam um rendilhado muito típico que, nas árvores, fica pendente dos ramos ou da base dos troncos. O H. tunbrigense é de longe o mais frequente dos dois, enquanto que o H. wilsonii tem tendência a restringir-se, em cada ilha, às altitudes mais elevadas. É raro encontrar o segundo sem que o primeiro lhe faça companhia, e por isso se torna importante saber diferenciá-los. A distinção entre eles pode fazer-se à vista desarmada, porque o H. tunbrigense tem frondes planas, com divisões relativamente largas, e o H. wilsonii tem-nas dobradas longitudinalmente (fazendo lembrar as águas de um telhado), com divisões estreitas. Para uma identificação mais segura, porém, a lupa ou a macro-fotografia são indispensáveis: a diferença crucial está nos indúsios (membrana ou cápsula que protege os esporângios), que são redondos e fimbriados no H. tunbrigense (fotos abaixos), e alongados e de margens lisas no H. wilsonii (fotos acima).

Hymenophyllum tunbrigense (L.) Sm.

13/12/2021

Belas adormecidas

As plantas que sincronizam o seu ciclo de vida com o do pastoreio ou o da agricultura tendem a depender tanto dessa ajuda como de um clima sem grandes imprevistos. Essas tarefas, quando não intensivas nem regadas a herbicida, arejam o solo, erradicam saudavelmente plantas competidoras e impõem pousios que aliviam o desgaste natural da terra. Mas com a lavoura mecanizada, que revolve os torrões com a agilidade de uma colher na sopa, e com as mudanças no clima, as plantas precisam de maior cautela. A umbelífera que vos mostramos hoje, anual e pequena (não vai além dos 40 cm de altura), tem um truque adicional para lidar com as más notícias do seu habitat. As sementes formam-se antes das colheitas mas, se o tempo não está de feição, se há indícios de que o campo está sob ameaça ou se a competição entre as novas plantas e as já adultas se torna melindrosa para a espécie, então as sementes adormecem. Isso mesmo: enquanto a humanidade se afadiga em atrasar a morte e em promover a natalidade, estas plantas dominam um relógio formidável que adia o começo da germinação, tendo até em conta o benefício que isso possa trazer às plantas-mães.

Turgenia latifolia (L.) Hoffm.


Durante o sono, as sementes mantêm-se viáveis, até que (passados por vezes muitos anos) haja sinais, anunciados sabe-se lá por que meios, de que a probabilidade de um embrião sobreviver aumentou. Enquanto dormem, podem dispersar-se, colonizando depois novos locais, o que talvez justifique a maior incidência de novas espécies entre géneros que dominam este estratagema. Curiosamente, há quem afirme que esta é uma solução para as longas viagens interplanetárias, de mudança dos habitantes da Terra para outros mundos.

As espécies que afinam o seu ciclo com a evolução do ambiente não servem para jardins, por não se vergarem à impaciência dos que anseiam pela floração exuberante em vasos e canteiros. Mas é esta habilidade que favorece, por exemplo, a produção de cereais em grande escala. O banco de sementes que assim se cria assegura que os frutos não germinam todos num mesmo outono de temporais catastróficos, evento que condenaria futuras gerações de plantas.



Há outros indícios de que a Turgenia latifolia, que aprecia olivais em solo calcário, é medrosa mas sabe proteger-se. As flores de pétalas rosadas não têm sépalas mas as umbelas nascem num ninho de ganchos macios, que mais tarde endurecem e ajudam a disseminar os frutos. Percebe-se mal que, sendo assim talentosa e de distribuição vasta pelo centro e sul da Europa, Ásia e norte de África, seja afinal tão rara em Portugal, onde só há registo de uma população, e com escasso número de exemplares.

06/12/2021

Almeirante das alturas

Crepis andryaloides Lowe


Na Madeira, algumas plantas do género Crepis, que são asteráceas de hastes ramificadas com capítulos florais semelhantes aos dos dentes-de-leão (género Taraxacum), recebem o curioso nome de almeirante. Custa convencer os dicionários e os motores de busca de que aquele "e" a seguir ao "m" não é gralha; e que, em vez de querermos saber da vida e dos feitos do popularíssimo militar que comandou a epopeia das picadelas, estamos interessados em plantas que não são especialmente vistosas nem prestigiadas (e que seria de fraco gosto relacionar com tão heróica figura).

São vários os almeirantes madeirenses, todos bastante normais dentro do género a que pertencem, e alguns até considerados por vários autores como simples subespécies da Crepis vesicaria, planta vulgar em Portugal continental, onde apenas está ausente do Minho e Douro Litoral. É o caso do almeirante acima ilustrado, habitante dos picos mais elevados da cordilheira central da Madeira: descrito em 1831 como espécie autónoma por Richard T. Lowe sob o nome de Crepis andryaloides, em 1939 seria despromovido a Crepis vesicaria subsp. andryaloides pelo americano Ernest Brown Babcock. Houvesse o reverendo Lowe considerado este endemismo madeirense como subespécie, não seria surpresa se Babcock optasse por elevá-la a espécie. Antes de os estudos moleculares virem pôr alguma disciplina nestas questões, era sempre possível invocar argumentos razoáveis em favor de uma ou de outra opção — e, se a a opção A houvesse já sido defendida por um antecessor, restaria a quem quisesse publicar nova adenda sobre o assunto defender a opção B.

Tanto nas preferências ecológicas como na morfologia, as diferenças entre C. vesicaria e C. andryaloides são tão vincadas que parece uma arbitrariedade subordinar uma à outra. Em contraste com a planta continental, a planta madeirense tem as hastes muito curtas, apresenta folhas com recorte diferente e, sobretudo, tem a parte superior — em especial os invólucros florais — densamente revestida por pêlos longos e sedosos. É aliás esse aspecto hirsuto, semelhante ao que costumam exibir as espécies do género Andryala, que explica o epíteto andryaloides.

De acordo com Press & Short (em Flora of Madeira, 1994), o almeirante-das-alturas (também há, na Madeira e no Porto Santo, vários almeirantes-de-beira-mar) é uma planta que já foi frequente na ilha mas tem vindo a rarear. Tendo nós encontrado apenas dois ou três exemplares, é bem provável que tal diagnóstico seja certeiro.