14/03/2023

Ramalhete de estreleiras (II)

O que é uma espécie? Tradicionalmente, define-se como um conjunto de indivíduos capazes de se reproduzirem entre si, gerando novos indivíduos também eles férteis e sexualmente compatíveis com os das gerações anteriores. Esta visão funcional de espécie esbarra em diversos obstáculos: há espécies (apomíticas ou autogâmicas) em que a reprodução não requer fecundação por outro indíviduo, sendo cada um capaz de se reproduzir sem intervenção de qualquer parceiro; e há espécies que, distinguindo-se uma da outra de forma clara tanto morfológica como geneticamente, não têm quaisquer barreiras reprodutivas entre si, produzindo em geral híbridos férteis. No que toca a plantas, este segundo caso costuma ocorrer em géneros onde proliferam espécies morfologicamente próximas e com áreas de distribuição parcialmente sobrepostas. Os sucessivos cruzamentos e recruzamentos entre duas ou mais espécies podem levar ao aparecimento de formas intermédias reprodutivamente estáveis — que tanto podem ser consideradas espécies novas como ser usadas (coisa que a dada altura os botânicos gostavam muito de fazer) para argumentar que as tais duas ou mais espécies constituem afinal uma única espécie altamente variável.

Nas Canárias, a hibridação pode ter jogado um papel não menos importante do que a adaptação a habitats diferenciados na diversificação de um género tão rico em espécies como o Argyranthemum. Sendo certo que, em cada ilha, as diferentes espécies hibridam entre si com grande à-vontade, se adoptássemos a definição funcional de espécie (juntando-lhe, aqui e ali, o argumento das "formas intermédias") chegaríamos ao resultado absurdo de, no máximo, haver uma espécie de Argyranthemum por ilha — quando, na verdade, só em Tenerife existem mais de dez. Assim, para reflectir toda esta óbvia diversidade, houve que dar primazia, na circunscrição de espécies e subespécies, aos critérios morfológicos. Mas, agora que a genética permite reconstruir a árvore genealógica de cada ser vivo, "espécie" passou a ser o conjunto (mais ou menos homogéneo, e formado por indivíduos sexualmente compatíveis) de todos os descendentes de um certo antepassado comum. De facto, todas as categorias taxonómicas (ordem, classe, género, espécie, subespécie, variedade) devem, idealmente, subordinar-se à genealogia: cada uma delas deve reunir todos os descendentes, e só os descendentes, de um mesmo antepassado. Houve assim que reorganizar, à luz da filogenia, toda a antiga árvore taxonómica, e o género Argyranthemum não poderia ficar imune à mudança. A tarefa ainda não está concluída, mas já se pode afirmar com segurança (veja-se Oliver W. White et al., 2020) que não houve exagero no número de espécies e subespécies descritas nas Canárias pelos métodos tradicionais: às diferenças morfológicas observadas correspondem reais diferenças genéticas. Mas certas entidades taxonómicas que pareciam próximas, tendo sido por isso descritas como subespécies de uma mesma espécie, revelaram ser evolutivamente afastadas. O mais provável, portanto, é que esta modernização taxonómica resulte num aumento do número de espécies de Argyranthemum reconhecidas no arquipélago.

Argyranthemum gracile Sch. Bip.


Da árvore filogenética apresentada no artigo de O. W. White et al. deduz-se, por exemplo, que as subespécies de Argyranthemum frutescens, agora em número de sete, não se podem manter como tal, a menos que duas espécies actualmente reconhecidas (A. gracile e A. vincentii, ambas ilustrando o texto de hoje) sejam também despromovidas a subespécies de Argyranthemum frutescens. E uma espécie com nove subespécies morfologicamente tão díspares é quase um contra-senso: a taxonomia tem como missão reconhecer as diferenças entre organismos e classificá-los em conformidade, e é preguiça indesculpável declarar que são iguais coisas obviamente diferentes.

Tanto o Argyranthemum gracile (em cima) como o Argyranthemum vincentii (em baixo) são endémicos de Tenerife e singularizam-se, face a outros congéneres seus, pelas folhas com segmentos lineares estreitos e compridos. No entranto, as folhas do primeiro parecem um garfo com apenas três dentes (2.ª foto acima), enquanto que as do segundo são bipinadas ou tripinadas, sempre divididas em numerosos segmentos (penúltima foto abaixo). O Argyranthemum vincentii é o mais robusto dos dois — por vezes aproxima-se dos 2 m de altura — e apresenta as folhas aglomeradas na parte terminal dos ramos, formando uma silhueta muito característica (1.ª e 2.ª fotos abaixo). Na ecologia, as duas espécies têm preferências algo similares: ambas moram em barrancos no sul de Tenerife, mas o Argyranthemum gracile prefere o sudoeste da ilha — tanto assim que o nosso encontro com ele se deu no Barranco del Infierno, acima da vila de Adeje. O Argyranthemum vincentii, por seu turno, apareceu-nos em local um pouco menos inóspito, no Barranco de Badajoz, em Güímar, indicando talvez uma apetência por habitats menos secos.

Uma curiosidade: apesar de o nome ser usado, desde há vários anos (pelo menos desde 2016), em guias e portais sobre a flora das Canárias, o nome Argyranthemum vincentii não parece ter sido ainda formalmente publicado. Talvez os autores aguardem que alguém ponha ordem no género Argyranthemum (desenredando, em particular, o emaranhado novelo de subespécies do Argyranthemum frutescens) antes de avançarem para a publicação.

Argyranthemum vincentii Santos & Feria

07/03/2023

Nova linária do Sul

Na maioria das Floras, as espécies estão organizadas por ordem alfabética dentro dos respectivos géneros e famílias. Esta opção editorial serve sobretudo quem, face a uma planta que desconhece, já possui indícios sobre qual a família ou o género a que a planta pertence, faltando-lhe apenas identificar o epíteto específico. Todavia, há guias ilustrados que agrupam as plantas pela coloração das flores. Em tais livros, as margens das folhas são elas mesmas coloridas, servindo quase como índice remissivo. Mas como é que se identifica a cor de uma flor? Em inúmeros exemplos a tarefa é simples porque a coloração é homogénea. Veja-se o caso da Linaria spartea, em que não há dúvidas de que as flores são amarelas, ou o da Linaria aeruginea em que são obviamente vermelhas. Mas se agora considerarmos a Linaria pedunculata ou a Linaria tursica que cor devemos entender como dominante, o roxo do esporão ou o amarelo do labelo? E as flores da Linaria argillicola, da cor do fogo, em que cor primária se enquadram?

Por razões que desconhecemos, cada espécie do género Linaria tem uma assinatura de cor que a distingue das demais, ainda que se notem padrões comuns às várias espécies (como os veios mais escuros nos esporões). Mas nem sempre esta distinção é inequívoca. Durante anos, no sudeste algarvio, muitos julgaram ver a Linaria amethystea subsp. amethystea (espécie de distribuição ampla em Portugal e sujeita a alguma variabilidade morfológica, como se confirma aqui), quando de facto se tratava de uma outra espécie, que coabita no sudoeste da Península Ibérica com a anterior mas que, até há poucos dias, não tinha nome. Trata-se afinal de um endemismo das províncias de Huelva e Sevilha, em Espanha, e do sudeste de Portugal. Um artigo publicado no fim de Fevereiro (de que podem ler um resumo nesta página) elabora uma comparação entre esta nova linária e três outras morfologicamente próximas, baptizando-a como Linaria pseudamethystea.

Linaria pseudamethystea Blanca, R. Carmona, Cueto & J. Fuentes
Linaria amethystea (Lam.) Hoffmanns. & Link subsp. amethystea
Enquanto se aguarda por um estudo genético da Linaria pseudamethystea que esclareça a sua genealogia, notemos como as diferenças morfológicas são convincentes. É uma espécie anual glabra de inflorescências lassas, em cujas flores o lábio inferior está enfeitado por um reticulado de cor azul-violeta. A L. amethystea subsp. amethystea, pelo contrário, tem indumento glanduloso nos pedicelos e cálices das flores, e o padrão de manchas roxas no lábio inferior é mais esparso e ponteado.

E só agora é que se reparou nisso?, pergunta o leitor indignado. Na verdade, plantas desta nova linária foram colhidas pela primeira vez em Castro Marim, no ano de 1847, por Frederich Welwitsch (naturalista austríaco que entre 1853 e 1860 realizou uma viagem notável de exploração botânica a Angola), e bem mais recentemente, em 2022, pelo botânico português João Farminhão, que depositou exemplares no herbário da Universidade de Lisboa (LISU); entre essas datas outros exemplares foram sendo depositados em diversos herbários nacionais, sempre com a identificação errada. Tanto o austríaco como o português notaram bem as diferenças desta linária com a L. amethystea subsp. amethystea, mas a descrição formal da nova espécie acabou por ser publicada por botânicos espanhóis trabalhando nas universidades de Granada e de Almería. Afinal, a botânica desconhece fronteiras e, apesar da sua distribuição restrita, esta linária ocorre nos dois países vizinhos.



Para completar a história deste equívoco sobre linárias, permita, caro leitor, que lhe confessemos que também nós já tinhamos encontrado esta recém-descrita linária. Em Fevereiro de 2015, num passeio nas margens da ribeira da Foupana, deparámo-nos com uma linária que suspeitámos não ser apenas uma variação da L. amethystea subsp. amethystea. Não sendo botânicos e desconfiando até das nossas dúvidas, guardámos as fotos dessa planta na pasta das espécies por identificar. Sabemos agora que podemos chamar-lhe L. pseudamethystea, e assim o mundo está mais bem arrumado.

27/02/2023

Ramalhete de estreleiras (I)

Que fazer com a mercadoria acumulada em armazém, já coberta de pó, que nenhum cliente mostra interesse em comprar? Anunciar descontos, três pelo preço de um, oportunidade única a não perder? Ou até gabar a raridade do produto, coisa antiga como hoje já não se fabrica? (Agora vem tudo da China.) O que temos, na verdade, são flores: flores fotografadas, que não murcham nem perdem a cor, imunes ao pó e à passagem do tempo, sempre na moda porque nunca estiveram na moda. O preço que por elas cobramos é imune à inflação, e exprime-se pelo mesmo número em todas as moedas conhecidas (mesmo as já fora de circulação): zero euros, zero escudos, zero dólares ou zero xelins. Ainda assim, não queremos distribuí-las ao desbarato. Vamo-las dispondo cuidadosamente na montra, não muitas de cada vez, dando-lhes espaço e tempo para serem apreciadas com vagar. Bastará uma semana para que alguém se interesse por elas?

Começamos a época de saldos (chamemos-lhes assim) com um ramalhete de três malmequeres arbustivos do género Argyranthemum, todos endémicos de Tenerife. Das 24 espécies de Argyranthemum actualmente aceites, três vivem na Madeira, uma nas Selvagens e vinte nas Canárias. A espécie mais comum na Madeira, A. pinnatifidum, é conhecida popularmente como estreleira, e esse parece-nos um bom nome para aplicar indistintamente a todas as espécies do género. Estrelas-de-prata também não estaria mal, até porque Argyranthemum, que vem do grego antigo, significa "flores de prata". A ilha mais abonada em estreleiras é Tenerife, com dez espécies (subindo o número para catorze se contarmos subespécies), seguida da Grã-Canária com cinco (nove se incluirmos subespécies), de La Palma com quatro, de La Gomera e El Hierro com três cada, e finalmente de Lanzarote e Fuerteventura com uma espécie por ilha. A maioria das espécies são exclusivas de uma só das ilhas, mas há espécies partilhadas por diversas ilhas, embora por vezes com diferentes subespécies em diferentes ilhas. Um bom exemplo é o A. frutescens, que ocorre em todas as ilhas do arquipélago excepto Fuertventura, e de que se contam sete subespécies, quatro delas endémicas de uma ilha só e três com distribuições mais alargadas. Os habitats ocupados pelas diferentes espécies são dos mais diversos, desde a laurissilva húmida até aos pinhais de Pinus canariensis, desde a costa até aos cumes mais elevados, desde barrancos pouco acessíveis até às bermas das estradas mais movimentadas.

Argyranthemum broussonetii (Pers.) Humphries


Planta robusta, capaz de chegar aos 1,2 m de altura, com folhas grandes e atraentes, duas a três vezes divididas, o Argyranthemum broussonetii (em cima) vive em Tenerife, em lugares umbrosos da laurissilva de Anaga e, mais escassamente, do vale de La Orotova. Até 2021 considerava-se que a espécie estaria também representada em La Gomera por uma subespécie própria (A. broussonetii subsp. gomerensis), mas estudos genéticos e morfológicos (ver artigo) mostraram que as duas putativas subespécies eram evolutivamente afastadas, devendo em vez disso a planta de La Gomera ser tratada como subespécie da endémica A. callichrysum. Com floração prolongando-se entre Fevereiro e Julho, este novel endemismo tenerifenho, bem adaptado a climas frescos, parece feito de encomenda para jardins de regiões temperadas.

Argyranthemum tenerifae Humphries


Sem sairmos de Tenerife, damos um salto à montanha do Teide para admirarmos o Argyranthemum tenerifae ou estreleira-dos-cumes (fotos em cima), que vive a pleno sol nas extensões pedregosas aos pés do grande vulcão. Numa típica adaptação ao habitat inóspito, exibe uma forma compacta e arredondada, e também na folhagem se diferencia radicalmente da sua prima da laurissilva. Quem não gostaria de as ter lado a lado no mesmo jardim? Desejo impossível, pois a casa que convém a uma é inabitável para a outra. E ainda há a suspeita de que, como sucede à maioria das plantas de alta montanha com distribuição restrita, o Argyranthemum tenerifae seja avesso à domesticação e impossível de cultivar em jardins.

Argyranthemum adauctum subsp. dugouri (Bolle) Humphries


Eis mais uma estreleira de Tenerife, aqui incluída para aviso e instrução dos nossos leitores. É que, vivendo ela também no Teide, o observador desprevenido pode confundi-la com a estreleira-dos-cumes. Do Argyranthemum adauctum estão descritas sete subespécies nas várias ilhas do arquipélago, e a subsp. dugouri (nas fotos) é uma das duas que são endémicas de Tenerife. Vive sobretudo em pinhais, mas em certos pontos da montanha do Teide os bosques de Pinus canariensis ascendem a altitudes superiores a 2000 metros, e é na orla desses bosques que se podem dar os encontros imediatos entre a estreleira-dos-cumes e a estreleira-dos-pinhais. Contudo, esta última distingue-se sem dificuldade pela indumentação das folhas e das hastes (é muito mais hirsuta do que a sua congénere), pela forma das folhas, e mesmo pelo aspecto geral (tem hastes erectas, pouco densas, contrastande com o aspecto compacto da estreleira-dos-cumes).

Temos mais estreleiras em armazém para despachar — e a seu tempo, depois de lhes puxarmos o lustro para brilharem como novas, aqui as traremos para tentar despertar o desejo de quem nos vier espreitar a montra. Não desdenhe o leitor delas por lhe parecerem antiquadas ou por estar habituado a desconfiar dos produtos de ocasião. Dentro da gama em que nos especializámos, são produtos excelentes, e não encontra melhor nem mais barato nas lojas da concorrência.

21/02/2023

Simetria sem espelho

A Astronomia é a única ciência que tem lugar cativo nas páginas de divulgação científica dos jornais portugueses, a par de uma ou outra notícia mais desenvolvida quando damos uma voltinha por Marte. Entende-se a preferência: todos queremos estar informados de que é feita a matéria escura que parece preencher quase todo o universo, e ser os primeiros a saber mal se descubra um planeta não demasiado longínquo idêntico à Terra. Um tal planeta nem precisa de ser novo, por estrear. Muitos até preferem que seja habitado, crentes de que isso o tornará mais acolhedor, com o conforto de uma casa, um céu azul, água da chuva e uma paisagem que nos alegre a memória. Sabemos, porém, que é improvável que alguma vez se encontre um tal lugar. Não faltam por aí rochas, átomos, energia e força gravítica para fabricar mundos como o nosso, mas são tantas as possibilidades que é muito difícil repetir um formato no universo. Só não nos sentimos sozinhos na Terra, tolhidos de medo e tédio, porque os cientistas ainda não desistiram de procurar.

Atente, agora, caro leitor, no caso de uma semente ou uma planta que, sem a nossa imaginação, aporte a uma ilha onde não há nada reconhecível, nenhuma semelhança apaziguadora com o seu habitat de origem. Não sofre por isso, nem fantasia com monstros, perigos e Solaris. Os seus genes ordenam-lhe apenas que vá e se multiplique. E ela chega, descansa, e toma nota do solo, da água disponível, do lado onde o Sol nasce, de quem a poderá polinizar, trincar as folhas, fazer sombra. E, em não mais do que dois ou três milhões de anos, temos mais uma espécie novinha em folha.

Ora vejamos o exemplo do género Hypericum, cosmopolita, com cerca de 500 espécies e 35 representantes na Península Ibérica. Tem nas ilhas Canárias (e na Macaronésia) várias espécies endémicas notáveis. Há-as de porte arbustivo, outras herbáceas, com ou sem glândulas escuras nas folhas, sépalas e pétalas. Mas todas exibem flores amarelas de estames proeminentes, dispostas em inflorescências vistosas no topo dos ramos. Algumas espécies continentais têm flores brancas ou rosadas, mas a tendência é de as acomodar no género Triadenum.

A espécie que vos mostramos hoje é um endemismo da Grã-Canária, Tenerife e La Gomera. Distingue-se das demais espécies das Canárias essenciamente pelas folhas. Estas são ovadas, quase glabras, com margens glandulosas (que rescendem a uma substância que afasta os predadores), e nascem em pares opostos a abraçar o caule. O traço distintivo é a folhagem decussada: as folhas dispõem-se em andares muito próximos entre si, estando cada par de folhas rodado de 90 graus relativamente ao que está abaixo, formando os dois pares uma cruz e evitando esconder o sol uns aos outros. As fotos são de Maio, de exemplares do barranco de Añavingo e do barranco de Herques, em Tenerife.

Hypericum reflexum L. f.

12/02/2023

Mato mourisco

Suaeda vermiculata J. F. Gmel. [= Suaeda mollis (Desf.) Delile]


As plantas do género Suaeda são pequenos arbustos ou herbáceas anuais, com folhas carnudas mais ou menos cilíndricas, que vivem em solos arenosos ou argilosos, muitas vezes em locais alagadiços e com alto teor de sal. É por isso curioso saber que Suaeda vem do árabe — é de facto o nome que nessa língua se dá à Suaeda vera, a espécie mais comum do género na região mediterrânica — e significa insossa. Apesar de frequentarem habitats semelhantes, as diversas espécies de Suaeda não acumulam sal como fazem as salicórnias e sarcocórnias, e portanto não têm vocação para tempero culinário.

Mas as Suaedas são mais versáteis do que as salicórnias e aparentadas: não são exclusivas de sapais e estuários, e por vezes vivem longe do mar, dispensando o sal mas não a areia. A proximidade da água, salgada ou doce, não parece ser determinante para espécies que se adaptaram a climas desérticos como o de Fuerteventura, nas Canárias, ou o de Marrocos, no quadrante noroeste do continente africano. Um exemplo é dado pela Suaeda vermiculata, acima ilustrada, que se distribui por quatro das ilhas Canárias (Fuerteventura, Lanzarote, Tenerife e Grã-Canária) e ainda por Cabo Verde e pelo norte de África. Conhecida no arquipélago espanhol como matomoro brusquillo, é um arbusto rasteiro, glabro, com folhas glaucas frequentemente tingidas de vermelho, de uns 5 mm de comprimento, apresentando a face superior plana ou ligeiramente côncava; as suas flores são axilares, reunidas em grupos de duas ou três, e exibem anteras de um amarelo vivo.

São cinco as espécies de Suaeda presentes nas Canárias, todas elas ocorrendo em Fuerteventura, a mais árida das ilhas e também a que, com as suas dunas a perder de vista, tem maior extensão de habitat favorável. Pela coloração das flores e das folhas, a Suaeda vermiculata distingue-se bem de quase todas as suas congéneres no arquipélago, mas não da Suaeda ifniensis — que, em todo o caso, aparenta ter folhas mais estreitas e compridas e estames não tão vistosos.

Na berma de estrada em Fuerteventura onde captámos as fotos, a secura do solo argiloso parecia corroborar o desdém da Suaeda vermiculata pela água. Contudo, uma ligeira depressão no terreno, indicadora da passagem de maquinaria pesada, terá permitido a acumulação de humidade e talvez criado algum efémero charco. Sinais de água não havia, mas as plantas têm sensores mais apurados do que os nossos e estavam à espreita de uma oportunidade. E, além da Suaeda, preparada para sobreviver à mais impenitente secura, algumas plantas anuais, entre elas uns muito apelativos goivos, aproveitavam a inesperada benesse para germinar e florir fora da época prevista.

06/02/2023

Folhado rijo

Há uns anos, uma notícia surpreendeu cientistas e vigilantes da natureza: durante a estação seca, num período particularmente quente, centenas de antílopes no sul de África foram envenenados por árvores do género Acacia. Depois de vários meses sem chuva, estas plantas desesperavam para manter alguma folhagem, e havia que impedir a herbivoria. O mecanismo de defesa incluiu então duas etapas, a cumprir em não mais de meia hora: a emissão de um alerta (com etileno) pelas plantas com folhas já danificadas, avisando sobre a presença de predadores; e a produção extra e imediata de tanino pelas árvores notificadas, tornando as folhas mais amargas. O objectivo deste processo não era matar os animais, para quem essas árvores sempre foram a fonte principal de alimento. O sabor desagradável das folhas deveria repeli-los e levá-los a procurar alimento noutras paragens, evitando desse modo que dizimassem as plantas. Infelizmente, sem alternativa num local tão árido, os bichos comeram as folhas tóxicas — e os botânicos descobriram que afinal as plantas, sempre tão silenciosas, comunicam entre si.

Esta é uma instância dramática de adaptação da folhagem ao habitat, mas há outras mais fáceis de reconhecer e menos perigosas. Se as folhas são coriáceas e pequenas, de textura rija ou mesmo espinhosa, é bastante provável que a espécie esteja exposta a um clima quente e seco, ou muito frio. Pelo contrário, as folhas grandes e mais frágeis, que parecem depender de bastante água e sombra, são mais comuns em plantas de bosque, com temperaturas amenas e chuva frequente. Nas florestas tropicais, onde a humidade é elevada, há longos períodos com temperaturas muito altas e a acção dos herbívoros pode ser debilitante, é fácil encontrar plantas com folhas enormes mas duras, rugosas e indigestas, com margens recurvadas e veios centrais vincados para que o excesso de água escorra facilmente, e venação pinada para que a seiva nutra devidamente as folhas grandes.

Na região mediterrânica, origem de muitas das espécies da flora da ilhas Canárias, o clima é quente e seco no Verão, mas ameno e húmido no Inverno. Não peca nem pelos destemperos do clima oceânico, muito chuvoso e dado a ventanias (o das ilhas açorianas), nem pelos ardores do clima semi-árido do norte de África (e o de várias ilhas das Canárias). Algumas das espécies que dali migraram para a Macaronésia mantiveram o porte arbustivo, ou até se esticaram para árvores, mas as folhas tornaram-se mais pequenas, ou mais rijas, ou mais espinhosas. É o caso do género Viburnum.

Viburnum rigidum Vent. [= Viburnum rugosum Pers.]


As espécies do género Viburnum que ocorrem em Portugal (V. tinus, V. opulus e V. lantana) gostam de orlas de bosques sombrios, da proximidade de cursos de água e de solos férteis. Têm folhas verdes, largas e mais ou menos lustrosas, que se dispõem horizontalmente de modo a maximizarem o benefício do calor e da luz. O Viburnum rigidum, endemismo do arquipélago das Canárias (que ocorre em El Hierro, La Palma, La Gomera, Tenerife e Gran Canaria) parece ser morfologicamente próximo do V. tinus. Em particular, a folhagem é igualmente perene, embora o porte seja mais alto, atingindo os 7 m de altura. Pode encontrar-se em bosques de laurissilva, mas é frequente em barrancos pedregosos e quentes, onde os ribeiros há muito desapareceram e raramente chove. Em resposta a este tipo exigente de habitat, ou a solo pobre em alguns nutrientes, a folhagem tornou-se mais tolerante à falta de água e pouco atraente para os herbívoros. As folhas do V. rigidum são longas (10-20 cm) mas têm textura coriácea e áspera, penugem densa em ambas as faces e ao longo das nervuras, margens inteiras e ápice agudo.



As fotos são de exemplares de um pinhal em Arafo (Tenerife). As umbelas densas de flores brancas (que desabotoam entre Fevereiro a Maio) são semelhantes às do V. tinus, mas mais vistosas. Pelo contrário, os frutos carnudos, escuros quando maduros, copiam o padrão do género na região mediterrânica.

27/01/2023

Mostarda dos taludes

Descurainia preauxiana (Webb) O. E. Schulz


As ilhas são fábricas prodigiosas de diversidade. Vinda do continente mais próximo na forma de semente, instala-se uma planta numa ilha; e, na mesma altura ou uns tempos mais tarde, a mesma planta chega a outras ilhas do mesmo arquipélago. Deixemos as plantas em sossego umas centenas de milhares de anos, sem contacto entre si nem com os antepassados continentais, e no fim observemos os resultados. Não só as plantas se fizeram radicalmente diferentes daquilo que eram à época da migração, como, dependendo da ilha, essa divergência tomou aspectos bem diferenciados. Consideremos, por exemplo, o género Descurainia, integrado na família das couves e das mostardas. Apesar de o género se espalhar pela América do Norte e do Sul, pela Europa e pela Ásia, o seu único representante na Europa (e, de raspão, no norte de África) é a Descurainia sophia, ou erva-de-santa-Sofia, nativa de quase todas as regiões temperadas do hemisfério norte. É portanto de admitir que as espécies de Descurainia existentes nas Canárias — que totalizam sete, tantas quantas as principais ilhas do arquipálago — sejam descendentes dessa única espécie europeia. O arquipélago das Canárias, com uma superfície total que é 1400 vezes menor do que a da Europa, produziu sete vezes mais espécies do género Descurainia — que optaram, todas elas, por ser arbustos perenes, em contraste com a D. sophia e demais espécies do género, que por regra são herbáceas anuais. É de presumir que a amenidade do clima insular, sem grandes variações ao longo do ano, tenha induzido essa maior longevidade: não havendo estações do ano tão adversas que a vida se torne impossível, não se justifica que os organismos abdiquem de viver em certos períodos do ano.

A repartição das espécies de Descurainia entre as ilhas das Canárias é desigual: Tenerife conta com três espécies endémicas (entre elas a D. bourgeana, que vive nos picos do Teide), Grã-Canária com duas, La Palma com outra, e há uma última espécie (primeira em abundância), que é a D. millefolia, partilhada por Tenerife, La Palma e La Gomera. A planta que hoje ilustra o texto é a Descurainia preauxiana, da Grã-Canária, bastante comum na zona central montanhosa da ilha, e com declarada preferência por taludes de estrada convenientemente pedregosos. As folhas pinadas, com lóbulos lineares e dispostas em rosetas nas extremidades dos ramos, permitem uma identificação inequívoca, pelo menos na época de floração da planta — a qual, apesar de certas fontes asseverarem decorrer de Março a Maio, é de facto mais prolongada, como comprovam estas fotos tiradas no final de Dezembro de 2019.

20/01/2023

Arrudas de cheiro

O uso de perfumes é uma gentileza dos outros para connosco que raramente agradecemos. Talvez por isso a perda do olfacto com a covid pareceu a tantos tão incómoda, a par do silêncio súbito nas ruas vazias de povo obediente. É mais ou menos consensual o que é uma fragância aprazível (mesmo sem sabermos o preço), e temos muitas palavras para descrever os cheiros de que gostamos e os que nos desagradam. Entre as plantas, contudo, o odor é a mensagem. E essa comunicação, essencial à sua sobrevivência, não é feita para agradar aos nossos narizes. Tem como função repelir predadores ou seduzir polinizadores, na esperança de que que essa informação volátil fique nas respectivas memórias. O que interessa à planta é que o aroma exalado pelas suas folhas, ou flores, a sinalize, e sirva como aviso ou chamamento. Os aromas mais doces costumam atrair abelhas e borboletas, que precisam de néctar, formigas e outros bicharocos esfomeados; os aromas salgados parecem ser especialmente apreciados por moscas, que por vezes procuram apenas um abrigo seguro e saudável para as suas crias.

Em inúmeros casos, beneficiamos duplamente dessa química, como quando aromatizamos a comida. Noutras instâncias, porém, o odor é tão ruim que o estômago se revolta, e nos perguntamos se haverá algum insecto que aprecie tal cheiro, ou se o alerta emitido pela planta não estará a ser desproporcionado. É o que acontece com as espécies do género Ruta, parentes das aromáticas laranjeiras. São herbáceas perenes, por vezes de base lenhosa, com folhagem glabra, glauca ou cinzenta, e inflorescências densas de flores com 4 pétalas cor-de-enxofre e margens ciliadas. As folhas, salpicadas de glândulas, exalam um cheiro intenso e acre se pressionadas. Apostaríamos que isso é truque para afastar quem as queira trincar, mas surpreendentemente há plantas cujas inflorescências cheiram ainda pior e mantêm um séquito de insectos obstinados na sua vizinhança.

As arrudas endémicas das ilhas Canárias têm também um odor penetrante, embora distinto do das continentais. A Ruta pinnata, endemismo das ilhas de Tenerife e La Palma, é um arbusto alto (1,5 a 2 metros) com folhagem rala e folhas imparipinadas, de um verde pálido, compostas por 7 folíolos ovados e crenados. As flores são parecidas com as das arrudas ibéricas, mas as 4 pétalas (ou 5, no centro da inflorescência) pareceram-nos menos fimbriadas.

Ruta pinnata L. f.


Nas Canárias há registo de mais dois endemismos no género Ruta: a Ruta microcarpa, de La Gomera, uma espécie rara, de pequeno porte (não mais de 80 cm de altura), com folhagem muito ramificada; e a Ruta oreojasme, da Grã-Canária, parecida com a anterior mas arbustiva. Partilham o gosto por habitats secos, em falésias e ladeiras rochosas. Alguns estudos indicam que estes endemismos são o produto de um único evento de colonização, em La Gomera, por uma espécie de origem africana, ocorrido há pelo menos 2,6 milhões de anos. Desta ilha, o género ter-se-á dispersado para a Grã-Canária (a ilha mais antiga) e Tenerife, e desta para La Palma, num processo de radiação e especiação típico de um arquipélago como as Canárias.

Curiosamente, algumas espécies de Ruta tiveram uso medicinal e são hoje usadas em refrigerantes, comidas e até perfumes — uma ciência de aromas e sabores que nos é desconhecida.

13/01/2023

Maria José & José Maria

Lotus glinoides Delile


Ensina o dicionário que uma escada é uma «série de degraus», e esclarece a mesma obra que um degrau é «cada uma das partes de uma escada». Está assim fechado o círculo: temos um par de palavras, degrau e escada, em que cada uma é definida em função da outra, e quem não souber o significado de nenhuma delas não tirará qualquer ensinamento útil da consulta do dicionário. Para que a comunicação entre humanos seja possível, é necessário estarmos de acordo quanto ao significado das palavras usadas — e, quando desconhecemos alguma, procurarmos saber como ela se define à custa de outras que já conhecemos. No entanto, este processo de explicar conceitos complexos decompondo-os noutros mais simples tem alguma vez que parar. Deve existir um núcleo de palavras ou de conceitos que, por serem de entendimento generalizado, não precisam de ser (ou não podem ser) dissecados ou definidos à custa de outros. Constituem as chamadas noções primitivas, sem as quais a linguagem se pulverizaria numa névoa destituída de significado. No caso da escada e do degrau, qual será a noção primitiva?

A taxonomia botânica funciona muito por comparação: são frequentes, nos nomes científicos das plantas, os epítetos que se referem à semelhança com outras plantas. É como explicar uma planta relacionando-a com outra possivelmente mais bem conhecida pela comunidade botânica ou pelo público em geral. Consideremos, por exemplo, a leguminosa ilustrada nas fotos: o nome Lotus glinoides indica que esta planta tem aparência semelhante às do género Glinus, incluído na família das Cariofiláceas. No intuito de perceber melhor a comparação, atentemos na única espécie do género Glinus na flora europeia. Chama-se Glinus lotoides, e o epíteto é inequívoco: diz-nos que a planta é parecida com as do género Lotus. Ora nenhum Lotus se pode assemelhar mais a ela do que o Lotus glinoides, que proclama essa mesma semelhança no seu bilhete de identidade. Eis-nos perante novo círculo perfeito: o Lotus glinoides é explicado pelo Glinus lotoides que é explicado pelo Lotus glinoides. Qual dos dois constituirá a noção primitiva? Enfim, uma boa amostra do sentido de humor dos botânicos — ou talvez do gosto (muito anterior a Bertrand Russell e a Kurt Gödel) pelos paradoxos da linguagem e do raciocínio lógico.

Do ponto de vista estritamente botânico, contrapor estas plantas uma à outra é pouco ou nada elucidativo: tanto nas flores como nas folhas (simples num caso, trifoliadas no outro) nada há que as aproxime; morfológica e evolutivamente, não podiam estar mais distantes. É portanto mais instrutivo comparar o Lotus glinoides com os seus congéneres, notando que ele se singulariza pelas flores rosadas num género maioritariamente de flores amarelas. Presente em quase todas as ilhas Canárias mas mais frequente em Fuerteventura e Lanzarote, e com presença assinalada também em Cabo Verde, norte de África, Médio Oriente e Paquistão, o cuernecillo rosado é uma planta rasteira, verde-glauca, acetinada, com flores pequenas (de uns 7 mm de comprimento), apreciadora de locais secos e pedregosos, tendencialmente desérticos. Encontrámo-lo nos campos de lava do Parque Nacional de Timanfaya, em Lazarote, contrariando o negrume dominante com as suas breves pinceladas de verde e rosa.