31.8.09

Maçã com espinhos



Datura stramonium L.

Quando a reputação é ruim, nenhuma pátria gosta de se assumir como tal. Os grandes patifes da história deveriam todos surgir de lugar incerto e por geração espontânea, para nenhuma família arcar com nome que é marca de opróbio, nem terra nenhuma ser berço de tal filho. Se as qualidades morais não são atributos das plantas mas dos usos que delas fazemos, existe ainda assim, no reino vegetal, a figura do apátrida renegado por todos. Um exemplo é a erva-do-diabo (Datura stramonium, em inglês thorn-apple): europeus e asiáticos atribuem-lhe origem americana (o que é plausível, pois quase todas as restantes espécies do género Datura são desse continente), mas os americanos rejeitam-na como nativa, chutando-a para os confins da Ásia.

E que mal fez ela ao mundo para merecer tal ostracismo? Para começar, não formando grandes populações nem podendo com justiça ser considerada invasora, aparece sem ser convidada em campos de cultivo, terrenos baldios, jardins e dunas marítimas. Um tal voluntarismo, num mundo que queremos ordenado e previsível, só é tolerado (quando o é) em plantas nativas, categoria a que a nossa Datura não pode, em lugar algum, aspirar pertencer. Acusam-na também de cheirar mal; mas isso, claro está, é medido pela bitola do nosso olfacto, a que nem toda a natureza se tem de subordinar. Acrescentam, a contragosto, que a flor até é agradavelmente perfumada, mas de imediato ressalvam que só abre à noite ou ao fim da tarde, murchando logo de seguida; por isso se justifica tê-la em fraca conta. Alertam-nos para a perigosidade da planta, toda ela venenosa: alucinogénia se ingerida em quantidades mínimas (e usada com esse fim pelos Astecas), a viagem às estrelas por ela induzida pode não ter regresso se a dose for mal calculada. É verdade, admitem, que tem usos medicinais, mas como componente de fármacos (para o tratamento da asma, por exemplo) e não tomada directamente.

Veredicto final? Deixem-na viver: a sua existência é curta (é uma planta anual) e imprevisível (as sementes podem ficar adormecidas no solo durante anos); e, embora não seja de uma beleza fulgurante, é uma planta de utilidade indiscutível (as borboletas e outros insectos gostam dela).

30.8.09

Maçãzitas

Para além de uma glicínia e de uma buganvília, no minúsculo jardim onde passo agora muitas horas dos meus dias, cresciam duas árvores: uma japoneira ainda jovem e um enorme ligustro que se erguia paredes meias com a vizinha, até aos telhados das casas. Ao fim de quase um ano de convívio e cumprindo o que desde o início lhe tinha destinado, o ligustro foi retirado, e precisamente no dia 25 de Novembro passado (data escolhida por brincadeira por causa do provérbio "À la Sainte-Catherine, tout bois prend racine"), plantámos uma pequena macieira ornamental, Malus Evereste de seu nome abreviado, carregadinha de maçãzitas vermelhas. Linda!



Os frutinhos duraram apenas até aos últimos dias de Dezembro: os melros e pardais deliciaram-se até ao fim e não deixaram que eles abrilhantassem o jardim em Janeiro e Fevereiro, como prometido. Na Primavera, a árvore encheu-se de cachos de flores, primeiro róseas e depois brancas, fazendo jus aos seus antepassados (na génese complicada deste híbrido denominado Malus PERPETU ® Evereste, encontra-se uma Malus floribunda).
Entretanto chegados que estamos ao final de Agosto, os frutos ficam de dia para dia mais coloridos, dando-se bem com as flores do solano (Solanum rantonnetii) que teima em espreitar por cima do muro.


fotos manueladlramos 0908
Em Maio passado, num artigo do jornal I lemos que este tipo de maçãzitas -tristemente designadas por moribundas "pelo povo" de acordo com o referido texto- começa a encontrar o seu lugar nas criações dos novos chefes portugueses (ver aqui também). Em língua inglesa as macieiras que produzem frutos deste calibre, incluem-se no grupo das «crab trees, crabs, wild apples, and schoolboy apples, crabapples» (fonte > ), entrando estas maçãs desde há séculos no rol da "stapple food" das populações da Europa do Norte. Este ano vou disputá-las aos melros e até já arranjei mais algumas receitas.

29.8.09

Baloneira



Asclepias physocarpa (E.Mey.) Schlechter

Coronis, daughter of Phlegyas, King of the Lapiths, Ixion's brother, lived on the shores of the Thessalian Lake Beobeis, in which she used to wash her feet. Apollo became her lover, and left a crow with snow-white feathers to guard her while he went to Delphi on business. But Coronis had long nursed a secret passion for Ischys, the Arcadian son of Elatus, and now admitted him to her couch, though already with child by Apollo. Even before the excited crow had set out for Delphi, to report the scandal and be praised for its vigilance, Apollo had divined Coronis's infidelity, and therefore cursed the crow for not having pecked out Ischys's eyes when he approached Coronis. The crow has turned black by this curse, and all its descendants have been black ever since.

[The son] was a boy, whom Apollo named Asclepius, and carried to the cave of Cheiron the Centaur, where he learned the arts of medicine. (...) Asclepius became so skilled in surgery and the use of drugs that he is revered as the founder of medicine. (...) He had the temerity to ressurect a dead man, and thus rob Hades of a subject; Hades naturally lodged a complaint on Olympus, Zeus killed Asclepius with a thunderbolt, and Apollo in revenge killed the Cyclopes.


Robert Graves, The Greek myths (The Folio Society, 1996)

Os arbustos da espécie Asclepias physocarpa, nativa do sudeste de África, têm textura herbácea, folhagem caduca e seiva leitosa. Toleram o frio e podem atingir os 2 m de altura, mas requerem solo fértil e bem irrigado. As flores, que se agrupam em cimeiras de longa haste, têm um formato bizarro: cinco sépalas pequeninas e verdes; cinco pétalas reflexas (dobradas para trás), penugentas numa das faces; estames e carpelos escondidos numa estrutura com capuchinhos e trompetes unidos numa coluna com entalhes onde as larvas de borboleta, esfomeadas ou atraídas pelo néctar, enterram as patinhas - e, sem cerimónia, a planta deposita nelas umas mochilas cheias de pólen, assegurando deste modo que os polinizadores levam carga bastante para distribuir por várias flores. Os frutos, que nascem aos pares, são esferas verde-limão com superficie pilosa (balões que já vêm com alfinetes...) contendo fiadas de sementes castanhas apetrechadas com vistosos pára-quedas feitos de fibras sedosas.

O nome do género indica que abriga plantas que têm tradicionalmente uso medicinal. A paineirinha é, contudo, quase toda tóxica; o que agrada às borboletas, que alimentam parcimoniosamente as larvas com o néctar, tornando-as não comestíveis e salvando-as da gulodice dos pássaros.

28.8.09

A natureza paga-se



Epping Forest. Riacho (Loughton Brook) rodeado por faias (Fagus sylvatica).

Desde 1878 que a Epping Forest é propriedade do município de Londres (City of London Corporation). Os objectivos estatutários da gestão da floresta são a preservação do seu aspecto natural e a sua manutenção enquanto espaço verde público - duas metas que podem ser contraditórias. Certo é que (como se explica na brochura The Official Guide to Epping Forest, Corporation of London, 1993) a noção de aspecto natural é controversa; e, em qualquer caso, não é a mesma coisa que estado natural. Se a floresta não tivesse sido usada pelo homem durante séculos, o que teríamos no seu lugar seriam bosques em grande parte impenetráveis. Com esse estado de coisas, nem os utentes humanos ficariam bem servidos, nem haveria, por estranho que pareça, igual diversidade de fauna e flora. Uma grande parte do esforço de gestão da floresta é assim, paradoxalmente, uma luta contra as forças da natureza: ora evitando que o excesso de vegetação ripícola faça secar charcos e lagos; ora permitindo a existência de clareiras para refúgio de plantas herbáceas e de répteis; ora criando condições para a regeneração natural do arvoredo. O custo desta manutenção ultrapassa os quatro milhões de libras anuais.

Claro que nem todas as actividades de recreio são permitidas na floresta. Os veículos a motor estão interditos nos caminhos florestais, só podendo circular nas (poucas) estradas. Autorizam-se equitação e ciclismo, mas com restrições. O vale do riacho (Loughton Brook) que se vê nas fotos, com o curioso leito em zigue-zague escavado em solo arenoso, foi declarado como sítio geomorfológico de importância regional; para evitar estragos, é interdito percorrê-lo de bicicleta ou a cavalo.

Talvez possamos tirar lições de tudo isto. A primeira é que a natureza (pelo menos aquela muito modificada pela presença humana) exige manutenção e gastos: com os orçamentos miserabilistas que temos (tanto do governo como das câmaras), os nossos espaços naturais só podem continuar a degradar-se. A segunda é que as proibições são para cumprir. O turismo desregrado dito de natureza, que a inexistente vigilância nunca poderá dissuadir, é outro dos nossos grandes males: autocaravanas estacionadas em arribas, percursos pedestres em parques naturais invadidos por veículos todo-o-terreno (como sucede na Serra dos Candeeiros), piqueniques que deixam um rasto de lixo e sujidade.

27.8.09

Thoreau




Se eu for viver para a montanha, a montanha sai de lá, para eu ficar absolutamente sozinho?

Desculparão a pergunta absurda, mas ao cidadão que vem da cidade ruidosa, uma montanha calada e calma, quieta e calma, paciente e calma, pode, quem sabe, ser ainda de mais se o que se quer é descanso.

Sozinho juntamente com a natureza composta pelas sete mil e quinhentas árvores de um bosque? Eis o que se poderá chamar de isolamento muito frequentado.

Sózinho só no ar, sendo pássaro, ou no caixão, sendo cadáver. De resto somos sempre incomodados pelo mundo, que desde há milénios incomoda muito.

Gonçalo M. Tavares, Biblioteca (2004)


Carpinus betulus L. - Epping Forest

26.8.09

A sombra que fica



Quercus robur L. - Paços de Ferreira

O concelho de Paços de Ferreira foi criado em 1836, resultante de uma cisão da comarca de Penafiel; em 1993, a até então vila foi promovida à categoria de cidade; em 1997, inauguraram-se os novos Paços do Concelho, ficando o anterior edifício camarário a servir de Museu Municipal. Anterior a estas datas marcantes, indiferente a todas elas, é o carvalho-alvarinho no Jardim Municipal, contíguo ao agora museu, que continua, como há cem ou duzentos anos, a fornecer sombra fresca a quem o procura nos tórridos dias de Verão. Distando o concelho apenas 25 quilómetros do Porto e da costa atlântica, o efeito temperador do oceano já lá não chega: os invernos são mais frios e os verões mais quentes do que à beira-mar.

Tirando as que existem no Jardim Municipal, onde, além deste carvalho, vegetam tílias, magnólias, lódãos e carvalhos-americanos, poucas são em Paços de Ferreira as sombras proporcionadas pelas árvores. À volta do centro, novos bairros com prédios de sete ou oito andares erguem-se nas colinas rasgadas por largas avenidas; mas não há o alívio de um jardim, e as árvores, em caldeiras minúsculas, são poucas e enfezadas. Apesar da impressão inóspita causada pela desproporção entre o verde e o betão, Paços de Ferreira parece orgulhar-se dessa cidade geométrica e recém-estreada: há restaurantes e bares da moda, assiste-se a um arremedo de vida nocturna.

De modo que, falando de árvores, o futuro em Paços de Ferreira confunde-se com o passado. Se este carvalho (classificado em 1940 e um dos primeiros no país a receber tal galardão) ainda cá estiver daqui a cinquenta anos, será dele ainda a única sombra que apetece em toda a cidade.

25.8.09

Cruz-de-Malta




Tribulus terrestris L.

Esta é a única espécie do género Tribulus, planta anual de dunas estáveis, muito penugenta, de folhas compostas e flores solitárias com cerca de meio centímetro de diâmetro. A ramagem irradia até cerca de 1 metro, enquanto se bifurca, criando uma estrutura estrelada plana que mal sobressai do areal. Mas é o fruto, que nasce cerca de uma semana depois da flor, a parte mais famosa da planta: tem cinco lóbulos, cada um com dois espinhos longos e vários outros dorsais menores (o nome latino tribulus avisa os pés deste perigo), num arranjo que faz lembrar a cruz de Malta - sendo as oito esquinas, correspondentes aos espinhos do fruto, símbolo dos vários matizes da bravura.

Este formato tem, porém, outros usos. É usado num mecanismo engenhoso para transformar movimento de rotação uniforme em intermitente. Que diabo, e isto tem interesse? Tem. Por exemplo, as máquinas de projecção de filmes precisam de parar cada fotograma em frente às lentes cerca de 1/24 segundos; esta descontinuidade no movimento obtém-se justamente com este dispositivo. Que terá sido inventado por fabricante suiço de relógios porque também serve para regular a tensão da mola em relógios de corda, processo que deve garantir que o tempo é dividido em partes iguais, num harmonioso tic-tac.

Este exemplar é do recinto de uma escola da Torreira que ainda sobrevive como destino confortável para as muitas plantas que o colonizam.

24.8.09

O charco perdido



Lost Pond, Epping Forest.
Fagus sylvatica L. (em cima); Betula pendula Roth e Cardamine pratensis L.

Os aprendizes da natureza agradecem todas as ajudas quando primeiro se aventuram num bosque, numa serra ou numa reserva natural. Surgem assim aqueles percursos recomendados onde os nossos medrosos e hesitantes passos são guiados por setas ou tracinhos coloridos. São como as rodinhas laterais de quem, criança ou já adulto, aprende a equilibrar-se numa bicicleta. E, tal como ninguém chega a ser um verdadeiro ciclista se não dispensar, a dada altura, as rodinhas extra, também não atinge um estado de verdadeira fruição da natureza quem sempre se limita aos trilhos sinalizados. Onde não há estradas nem passeios para peões também não deve haver barreiras para o inesperado. Às vezes um pequeno desvio - aquela árvore ou aquela pedra servindo-nos de referência para o caminho de regresso - proporciona uma grande descoberta: uma planta ou pássaro que nunca tínhamos visto, um lençol de água oculto pelo arvoredo.

Em Portugal muitas pessoas há que partem à descoberta da natureza sem nunca saírem dos trilhos. Ficam-se, assim, por aqueles pedaços de natureza que outros seleccionaram para elas. É verdade que os caminhos não assinalados requerem um sentido de orientação e uma familiaridade com o terreno que só gradualmente se adquirem. Mas quem se fica temerosamente pelo conhecido e repisado abdica da relação profunda com os lugares que só as escolhas ditadas pelo improviso e pelas preferências pessoais podem criar.

Nos parques, bosques ou reservas naturais de Inglaterra a regra é que os caminhos não estejam sinalizados. Quem quiser socorre-se dos seus próprios meios - mapas, bússolas, GPS, simples intuição - para definir os seus percursos. Ninguém é apaparicado: quem frequenta esses lugares tem desde logo que se emancipar. Porque a natureza (e é a natureza possível, ainda que mitigada, que buscamos) não vem equipada com setinhas ou postes, nem os outros animais da criação carecem dessas muletas.

É verdade que se vendem folhetos com percursos, mas com indicações tão escassas e por vezes tão enigmáticas que mais parecem os mapas do tesouro das histórias juvenis. E esse espírito lúdico e aventureiro é perfeitamente ajustado: podemo-nos enganar uma ou outra vez (é aliás o mais provável), mas é nesses desvios imprevistos que está grande parte da piada; e se, ultrapassados os percalços, chegarmos ao fim, sentimo-nos tão argutos como o herói numa aventura de piratas.

A Lost Pond é um dos 150 lagos ou charcos que existem espalhados pela Epping Forest e perfazem uma área total de 40 hectares. Não é visível de nenhum dos grandes caminhos que cruzam a floresta. Há um pequeno atalho, tenuemente marcado no chão, que emerge de um desses caminhos e serpenteia duas ou três centenas de metros num cerrado bosque de faias até à clareira ocupada pelo lago. Uma vez lá, dão-se dois passos na margem e o atalho parece apagar-se. Seria aquele ou o outro? Nada parece distingui-los. Felizmente, a bétula com as raízes salientes (foto em cima) ficou a assinalar o atalho correcto, e o regresso fez-se sem problemas. Houve tempo para admirar os marrecos que nadavam no seu sossego, a faia de troncos múltiplos, e uma rara planta aquática (Cardamine pratensis) que só neste esconso lago se fez achada. O isolamento e a solidão eram tão absolutos como na mais remota floresta virgem.

22.8.09

Hipericão & hiperiquinho



Hypericum androsaemum L. (em cima) / Hypericum pulchrum L.

Hypericum é um género cosmopolita de cerca de 400 espécies. E a designação de grande parte delas, como as duas das fotos, termina com a letra L. Isso significa que foram nomeadas por Carl Linnaeus (1707-1778), o botânico sueco que as descreveu na obra Species plantarum (1753). Deste registo ilustrado de biodiversidade constam quase 6000 plantas, cada uma com a sua etiqueta gerada pela combinação de duas palavras, uma que designa o género e outra que, dentro de cada género, separa os vários elementos em espécies. Por exemplo, no género Hypericum, a espécie H. androsaemum destaca-se por ter seiva avermelhada (do grego andros, homem, e haima, sangue) e o H. pulchrum por ser especialmente harmonioso (como indica o latim pulchrum, bonito).

Este sistema de nomeação não foi invenção de Lineu. Ele emulava o modo como as pessoas escolhiam os seus próprios nomes e copiava na essência as denominações vernaculares. Mas Lineu reconheceu que, para bem de um esquema unificador em linguagem e utilização, tudo o que se deve pedir a um nome é que designe, não que descreva. 'Plantago foliis ovato-lanceolatis pubescentibus spica cylindrica scapo tereti' diz muito sobre a planta, mas não se guarda na memória como Plantago media.

Mas enquanto esta proposta de sistematização foi um sucesso, o método de a executar foi demolido à nascença. Lineu sugeriu que as semelhanças entre plantas se deveriam procurar na flor, nomeadamente no número e arranjo dos estames e carpelos.

'The actual petals of a flower contribute nothing to generation', he wrote, 'serving only as the bridal bed which the great Creator has so gloriously prepared, adorned with such precious bedcurtains, and perfumed with so many sweet scents, in order that the bridegroom and the bride may therein celebrate their nuptials with the greater solemnity.' *

Este projecto foi considerado indecoroso. O bispo de Carlisle, escandalizado, expressou o seu receio de que uma tal ideia melindrasse o pudor feminino e duvidou que os alunos virtuosos entendessem as analogias de Lineu. 'Who would have thought that bluebells, lilies and onions could be up to such immorality?'

Que indicadores de semelhança se deveriam então usar ao classificar as plantas? Conviria que a ciência não se servisse de propriedades sensíveis às condições ambientais, como as baseadas na morfologia. Quando a estrutura delicada dos grãos de pólen foi revelada ao microscópio, muitos pensaram que estava encontrada a solução. Mas outros persistiram em rotular por critérios avulsos, frequentemente por aspectos químicos, ou seja, pelo uso da planta. Porém, o enorme investimento financeiro no projecto de descodificação do genoma humano permitiu que as técnicas aqui envolvidas permeassem outras áreas. E desde 1980 a equipa da Molecular Systematic Section dos Royal Botanical Gardens em Kew analisa o ADN de plantas para desenhar uma «árvore da evolução» e descobrir relações de proximidade que de outro modo seria improvável reconhecer.

Flowerig plants evolved more than 150 million years ago; in 150 million years, plants that were once closely related can take completely separate evolutionary paths and end up looking as different as, say, roses and nettles. But the DNA of those two plants, the code that's been hidden within them for millions of years, shows that they actually belong to the same big order, the fabids (it also take in cannabis, cucumber, pear, strawberry (...)). The lotus should not be sitting with the water lily, which it seems so closely to resemble, but with plane trees and South African proteas. (...)

It is a monumental shift. But Professor Chase argues it is based on incontrovertible evidence. You can't reject it just because it's not what you expect. So, in Leiden, where in 1593 Clusius went to set up a botanic garden, the old order beds are being remade to reflect the new classification. (...) In the Oxford Botanic Garden, founded in 1621 so that 'learning may be improved', the order beds, last remade in 1884 according to Bentham and Hooker's rules, are once again being dug up and rearranged. A new order has begun.» *

* The naming of names, de Anna Pavord (Bloomsbury, 2005)

21.8.09

Epping Forest



Epping Forest. Em cima: Quercus robur. Em baixo: Fagus sylvatica, Betula pendula

Londres é uma amálgama de cidades sobrepostas e contrastantes. Há os túneis da rede de metro, com as carruagens apinhadas nas horas de ponta, os tablóides gratuitos que, abandonados nos assentos, vão passando de mão em mão. Títulos de um sensacionalismo desavergonhado: professores garantem que macacos podem ser treinados para passar nos exames nacionais; máquina multibanco em supermercado fornece dinheiro grátis a clientes. Há o consumismo efervescente, tanto de turistas como de autóctones, em Oxford Street, em Picadilly, nos armazéns Harrods. Há a Madame Tussaud com as inexauríveis filas de visitantes à porta. Há os museus e galerias onde dias inteiros não chegam senão para admirar uma ínfima parte dos acervos. Há o teatro sério, de reportório, e o musical-para-toda-a-família (Os Miseráveis, O Fantasma da Ópera, Blood Brothers) que se mantém em cartaz anos a fio.

E, entremeando este labirinto urbano no limite da alucinação, há os enormes plátanos nas ruas, há os jardins e parques dos mais variados tamanhos democraticamente espalhados pelo território da metrópole. De facto, aos habitantes pouco abonados dos subúrbios cabe até um quinhão mais generoso na distribuição do verde. A Epping Forest é o maior espaço verde público da capital britânica; situada a nordeste de Londres, estende-se por 18 km no sentido norte-sul e tem uma largura máxima de 4 km. Reserva de caça real desde os alvores do segundo milénio da era cristã até meados do século dezanove, foi protegida por decreto parlamentar de 1878, onde se estipulou que a floresta permaneceria sem construções e de livre acesso para todos.

Do que a Epping Forest não se livrou foi da completa suburbanização do seu perímetro: Leyton, Wanstead, Walthamstow, Chingford e Loughton são bairros que prolongam a malha urbana londrina e completam o cerco da floresta. Locais indistinguíveis uns dos outros, feitos do mesmo tijolo vermelho ou bege, com o mesmo comércio de rua a um passo da falência, os mesmos pubs, os mesmos pindéricos shopping centres, os mesmos hipermercados (Tesco ou Sainsbury's), os mesmos bairros residenciais. Quem lá vive só é privilegiado por ter a Epping Forest à porta de casa. E, para o visitante de ocasião, é a existência desses bairros periféricos que lhe permite o conforto de chegar às franjas da floresta usando metro ou autocarro.

Apesar do seu carácter urbano, a Epping Forest não é uma floresta de brinquedo. A começar pelo tamanho: ocupa 24 km2 (2400 hectares), o que, para usar termo de comparação que se entenda, é bem mais de metade da área do concelho do Porto (que tem 42 km2). O coberto arbóreo é denso e os caminhos não estão sinalizados, o que faz com que um visitante desprevenido se perca com a maior das facilidades. Isso, porém, só seria um óbice numa floresta menos frequentada: aqui passa sempre alguém que nos põe na rota certa.

Na Epping Forest palmilhamos quilómetros e quilómetros sem ver um carro, entre carvalhos, faias, bétulas, carpas (Carpinus betulus), azevinhos e avelaneiras. Aqui e ali abrem-se clareiras, vislumbram-se lagos e charcos. Acompanha-nos o som dos pássaros, das aves aquáticas, do vento sacudindo a folhagem das árvores. Tudo isto na mesma cidade em que os peões se acotovelam nos passeios, e em que o metro e o trânsito automóvel nem por um momento descansam do seu afã nas 24 horas do dia.

20.8.09

Senhora dos prados


Filipendula vulgaris Moench

A Terra é redonda. Por isso, ao ser representada num mapa plano, a diferença de curvatura comporta imperfeições inevitáveis, com as áreas ou as formas das regiões a serem distorcidas. Cada projecção plana da esfera procura minorar estes defeitos, havendo mapas onde a proporção das áreas é respeitada (de pouco servem para a navegação, uma vez que o erro de uma baía estreita aparecer no mapa como capaz de deixar passar uma frota pode ser fatal), outros onde os ângulos estão acautelados (mas há ilhas que parecem vastos continentes), e ainda versões mistas. O mapa de Peters (1974), que no fim dos anos setenta era frequente nos écrans de televisão a fazer o fundo nos telejornais, é uma dessas imagens planas do mundo. Obtém-se enrolando um cilindro em torno da esfera e projectando cada ponto do globo (perpendicularmente ao eixo do cilindro que passa nos pólos) na folha cilíndrica (processo esse que preserva áreas); depois a folha é repuxada na direcção vertical para que o hemisfério sul, recheado de países subdesenvolvidos, surja maior e com mais destaque. O resultado é um mapa polémico. A controvérsia é de natureza política, por esta carta dar realce ao terceiro-mundo, eterno necessitado de ajuda e auto-estima, apesar deste surgir com silhueta mais alongada que a autêntica. Além disso, coisa rara, coloca o centro do mundo no Equador.

Certos géneros de plantas, como a Filipendula, parecem ter igual consciência desta linha do Equador que, embora imaginária, tem implicações reais. São seres de um só hemisfério, recusando as agruras de clima ou mudança de estações que encontrariam se arriscassem emigrar para além dessa linha. Duas das dez espécies são europeias, a F. ulmaria L. e a F. vulgaris. Um mapa-múndi em que fossem as plantas a descrever as nações haveria de ser, porém, um respeitável sarilho. Por exemplo, por causa dos nossos numerosos eucaliptos, e a deficiente protecção dos endemismos, teria de se colocar um agrafo entre este canto da Península e a Austrália, o que estragaria a versão Michelin de bolso.

Voltemos à Filipendula, que se faz tarde. Como sabemos que a da nossa foto é F. vulgaris e não F. ulmaria? São ambas herbáceas perenes; exibem estas flores de cor creme, farfalhudas em estames, dispostas em inflorescências que se elevam relativamente à folhagem. As folhas são compostas, com folíolos palmados de margens serradas, glabras na face superior, brancas algodoadas na inferior. Mas a F. ulmaria é mais alta (cerca de 120cm, enquanto a F. vulgaris não passa em geral dos 75cm), e os folíolos da F. vulgaris têm indentações tão vincadas que os fazem parecer folhas de feto (e não de ulmeiro). Além disso, a F. vulgaris é mais resistente a secas prolongadas, e prefere estar sempre ao sol.

As flores de F. ulmaria (queen-of-the-meadows) exalam uma fragrância intensa que lhes vem dos salicilatos que contêm. Para a descrever, e porque não dispomos no blogue daquelas tirinhas de papel que se raspam para sentir os aromas, apelamos à sofisticação dos leitores: é ela a do perfume Trèfle Incarnat (L. T. Piver, 1896) ou de L'Air du Temps (Nina Ricci, 1948).

Mas é a F. vulgaris (lady-of-the-meadows) que dá o nome ao género: filipendula deriva do latim filum (fio) e pendulus (pendente), aludindo a filamentos que, nesta espécie, ligam os rizomas das raízes.

19.8.09

Gengibre javanês


Hedychium horsfieldii R. Brown ex N. Wallich

.....On the other side of a mirror there's an inverse world,
.....where the insane go sane; where bones climb out of the
.....earth and recede to the first slime of love.

.....And in the evening the sun is just rising.

.....Lovers cry because they are a day younger, and soon
.....childhood robs them of their pleasure.

.....In such a world there is much sadness which, of course,
.....is joy.

......Russell Edson, Antimatter

18.8.09

Capuz-de-frade


Arisarum vulgare O. Targ. Tozz.

Para não sermos acusados de proselitismo, seja da boa ou da má doutrina, parece-nos avisado alternar o vício com a virtude. Depois da tentação pecaminosa simbolizada pela cobra, nada como as santas virtudes monásticas encarnadas num frade. E conseguimos tamanha oscilação moral sem sair da família Araceae, o que mais uma vez mostra como os extremos se tocam.

O nosso fradinho é lusitano e modesto, ao passo que a cobra era oriental e sedutora. Enverga um capuz (ou espata) de 3 cm de altura, o que o deixa a grande distância dos 15 cm da sua prima asiática; as suas folhas, embora dotadas de pecíolo longo, são rasteirinhas e diminutas. O que as duas plantas têm em comum é a disposição temporã: ambas dão por encerrada a floração no início da Primavera.

Dependendo dos autores, o género Arisarum conta com apenas duas ou três espécies, todas da Europa mediterrânica. O nosso capuz-de-frade (A. vulgare) é a única delas que parece ocorrer em Portugal, sendo mais comum no centro e sul do país. É um mistério que uma planta de vocação tão eclesiástica tenha optado por não frequentar a verde província do Minho.

17.8.09

Lírio viperino


Arisaema ringens (Thunb.) Schott

Quando em Maio último visitámos esta estufa alpina, logo o lírio-viperino (cobra lily em inglês) nos prendeu o olhar. De facto não se trata de um lírio, nem a planta é hipnótica como se crê serem as cobras; mas é venenosa, e o capuz listrado que encobre a inflorescência, de pescoço erecto e cabeça recurvada, é o retrato chapado de uma víbora emergindo do cesto ao som da flauta do seu domador.

De entre as plantas da família Araceae, a mais conhecida e usada em jardins e arranjos florais é a sul-africana Zandestechia aethiopica, a que em Portugal chamamos jarro mas que leva no Brasil o nome muito mais sugestivo de copo-de-leite. Essa planta exemplifica bem a arquitectura geral da família: cada inflorescência é constituída por uma haste carnuda (o espadiz) onde estão embutidas as minúsculas flores; rodeia o espadiz (e às vezes oculta-o) uma folha modificada chamada espata (que na foto em cima é o capuz, e no jarro é o tal copo de leite).

Há cerca de 150 espécies de Arisaema, distribuídas pela Ásia, África Oriental e América do Norte. A Arisaema ringens provém das florestas do Extremo Oriente: Japão, Coreia, China e Formosa. É uma planta tuberosa perene, tolerante ao frio, que floresce cedo na Primavera mas passa por um período de dormência no Verão e no Outono.

15.8.09

Orquídea cruciforme


Epidendrum secundum Jacq.

Segunda conversa com Santa Cecília [a padroeira dos músicos].

Nas igrejas, ao menos aqui em Angola, é comum as pessoas dirigirem-se em voz alta às imagens de Cristo, da Virgem Maria, de qualquer santo, rogando, implorando ou mesmo censurando-Os. Ninguém acha isso estranho. As imagens estão lá, afinal de contas, como uma espécie de telefone público para o além. Um telefone público só com bocal, sem auricular. As pessoas podem interrogar as imagens, mas não têm direito a escutar as respostas. Quem se dirige a Deus é devoto; quem afirma ouvir a voz de Deus é maluco. Eu não sou nem devota nem maluca. Falo contigo para fingir que não estou a falar comigo.

José Eduardo Agualusa, Barroco Tropical (Dom Quixote, 2009)

14.8.09

Segredos do ofício



Alpine House - Kew Gardens

Os nossos leitores talvez se espantem com o desfile aparentemente infindável de novas plantas aqui no blogue. Onde é que eles a encontram? Que dificuldades e perigos enfrentam para chegar aos lugares recônditos onde vicejam estas raridades? É natural e legítima a curiosidade dos leitores. Se hoje não a satisfazemos por completo, pelo menos levantamos a ponta do véu, como diziam na rádio os locutores de antanho.

Nas nossas expedições ao norte da Europa, lugar de brumas e de mares revoltos onde se radicaram estranhos povos, acontece-nos aportar à ilha da Grã-Bretanha. Nessa nação persiste até hoje uma bizarra forma de governo chamada monarquia, na qual a rainha não detém qualquer poder. Tanto a família real como os seus súbditos se dedicam apaixonadamente, nos seus tempos livres (que, no primeiro caso, correspondem aos sete dias da semana), a hobbies incompreensíveis, como o cricket e a jardinagem. Se o cricket nem é bom tentar entender, já a jardinagem - certo que por métodos arcanos só ao alcance de iniciados - produz resultados dos mais aprazíveis à vista, de que é exemplo esta assembleia de flores sob curiosa estrutura envidraçada em forma de parábola. Fica ela em local que sempre visitamos quando as nossas errâncias nos conduzem a este reino: referimo-nos aos Kew Gardens, onde alguns fanáticos transformaram o hobby da jardinagem numa ocupação profissional a tempo inteiro.

Como bem inferem os leitores do relato supra, a descoberta da rota para tais paragens não foi proeza de somenos (e estamos claramente a usar de um eufemismo); nada mais justo que a recompensa seja proporcional ao feito. Só nesta casinha de vidro (a menor e mais recente das estufas de Kew, inaugurada em 2006) são às dezenas, e sempre diferentes, as plantas que se deixam entrevistar para o Dias com Árvores. Três delas subiram ao palco nas últimas semanas (clique na etiqueta Kew Gardens mais abaixo para lhes recordar o sorriso), e muitas mais aguardam impacientes que chegue a sua vez.

O ofício de explorador não é fácil. São estes gratificantes momentos de descoberta que lhe dão sentido e grandeza.

13.8.09

Guarda-sol japonês


Sciadopitys verticillata (Thunb.) Siebold & Zucc.

A família Sciadopityaceae tem um único género, Sciadopitys, e uma única espécie, S. verticillata que, para se evitar a solidão, já esteve incluída na família Taxodiaceae. Arengas várias indicaram contudo que era prudente o isolamento taxionómico. Sciadopitys deriva dos termos gregos skiados, umbela, e pitys, pinheiro. Um nome assim usa-se na lapela como uma flor.

No início, em dias em que via passar muitos dinossauros mas estes ainda não eram famosos, esta árvore dedicou-se ao ócio de refinar as folhas. Estas são na verdade duplas mas completamente fundidas, com uma estria em cada face. Não entendemos a razão deste reforço, nem o aparente desperdício tão invulgar na natureza, mas o resultado é formoso: as agulhas espalmadas têm cerca de 12 cm de comprimento, cor verde-azeitona na face superior, mais amarelada na inferior, e agrupam-se em rosetas como as varas de um guarda-chuva (verticilos). No topo da copa os ramos são ascendentes, com os pequenos pálios terminais acentuando este efeito.

Como vegetal antigo, nunca negociou a sua sobrevivência com os insectos - que não existiam quando ela se estreou nas montanhas do centro do Japão -, nem descurou a sua autonomia. É uma árvore monóica: produz, no mesmo pé, cones masculinos e femininos, ambos primaveris; os primeiros nascem em cachos, os femininos são solitários, amadurecendo em dois anos e ganhando então uma cor acastanhada. A polinização está entregue ao vento.

Não é por ser espécie com origem tão remota que não tem uso. A madeira é resistente e flexível, e, como os pinheiros, exsude uma «resina» que serve como ingrediente de vernizes. E, claro, há o valor ornamental que os hortos sabem transformar em alto preço mas que os responsáveis pela arborização pública parecem ignorar.

12.8.09

Fraga da Pena



Antirrhinum meonanthum Hoffmanns. & Link

A cerca de quilómetro e meio da Mata da Margaraça, num desvio da estrada entre Benfeita e Pardieiros, fica a Fraga da Pena, que é a outra grande atracção da Paisagem Protegida da Serra do Açor. A avaliar pelos muitos carros estacionados à entrada do caminho, e comparando com o sossego que se vive na mata, a larga maioria dos visitantes prefere a Fraga da Pena. É que, além do cenário ser sem dúvida mais impressionante, na Fraga da Pena é possível piquenicar (e os baldes a transbordar de lixo provam que muito gente o faz), coisa que, na Mata da Margaraça, só há condições para fazer (e só é permitido) junto ao centro de atendimento.

Para quem gosta de botanizar, a mata é incomparavelmente mais rica do que a fraga, que funciona sobretudo como aperitivo. O que há na fraga é uma sucessão de quedas de água, algumas vertiginosas, que formam pequenos lagos conectados entre si pelo sulco de um ribeiro talhado no xisto. Há um moinho de água (foto em cima) e, nas ravinas por onde a água se precipita, engalanadas com líquenes e fetos, uns poucos arbustos e árvores agarram-se, em equilíbro improvável, a algum torrão musgoso de onde extraem o sustento. O acidentado percurso da água é todo ele sombreado por um arvoredo denso: carvalhos, adernos, azereiros, folhados, loureiros.

Agarrada também à pedra, fora do alcance da mão mas não da objectiva (e ainda assim com algum risco para o fotógrafo, que teve de se debruçar numa balaustrada não muito firme), uma planta clamava por atenção. Era uma parente próxima das vulgares bocas-de-lobo (Antirrhinum majus ou Antirrhinum graniticum) mas com a cor errada, pois as flores, em vez de rosadas, eram amarelas, levemente estriadas de vermelho. Os manuais consultados indicaram tratar-se de um Antirrhinum meonanthum, uma planta exclusivamente ibérica (como são a maioria das suas congéneres) que em Portugal parece ser uma raridade. Tê-la encontrado foi uma recompensa adicional por termos subido à Fraga da Pena.

P.S. Repare-se que não concluímos o texto dizendo que valeu a pena subir à fraga. Não é que isso não seja verdade, mas neste blogue rejeitamos os trocadilhos fáceis e gastos.

11.8.09

Lobélia-brava


Lobelia urens L.

Desde que me conhecera, Anna [Mahler] queria promover um encontro meu com seu jovem professor, Fritz Wotruba. (...) Quando entrei no ateliê e Anna disse meu nome, ele estava de costas para mim e não se levantou. Não retirou os dedos da argila, continuou a moldá-la. Ainda de joelhos, voltou a cabeça em minha direção e disse, numa voz profunda, encorpada: "O senhor também se ajoelha diante de seu trabalho?"

Elias Canetti, O jogo dos olhos (1985; trad. Sergio Tellaroli)

O ritual inicia-se com um aceno de cabeça e um esgar sorridente que confirma o interesse em fotografar. Segue-se uma dança em torno da planta para avaliar o miolo e as sombras. Depois de escolhida a objectiva, há que estabelecer a distância útil entre o olho que espreita e a forma que se exibe. É nesse momento que ele se ajoelha se a herbácea tem, como esta, uns 20 cm de altura e corolas de 1 cm de diâmetro - e eu espero vê-la requebrar os quadris com elegância e compor um trejeito de modelo em sessão fotográfica. Clic, e a flor, ávida por cumprir a estação, só morrerá nas explicações dos compêndios de botânica.

Porém, esta espécie de Lobelia, uma entre as duas europeias, apesar de pouco exigente quanto a nutrientes, está em perigo de extinção. Na Grã-Bretanha decorre há cerca de uma década um programa de recuperação que procura evitar perturbações demasiado agressivas no solo associadas à gestão de terrenos florestais onde esta planta se instalou.

Nas lobélias as componentes masculinas da flor desenvolvem-se antes das femininas para evitar a auto-polinização: o estilete não está receptivo quando o pólen da mesma flor já amadureceu. De facto, engenhosamente, cada antera (parte masculina, com o pólen) forma um tubo no fundo do qual nasce o estilete que empurra o pólen para o exterior até este se esgotar (levado por abelhas, ou colibris nas espécies americanas, para outros pés de flor); só então os estigmas (topo feminino do estilete) se abrem. Como consequência, a flor parece em postura invertida, rodada de 180 graus.

A designação lobélia-brava alude ao carácter silvestre mas também ao efeito tormentoso, que a palavra urens resume, que deixa nas entranhas de quem a consome: as folhas contêm um sumo acre, e a planta é tóxica, se ingerida em grandes quantidades, com efeitos semelhantes aos da nicotina. Apesar disso, em espanhol concedem-lhe um nome mais simpático, cardenala, talvez porque os lóbulos superiores lembrem os chapéus dos cardeais ou as poupas de certos pássaros (da família Upupidae, claro).