30.11.09

Introdução à Fito-ética



Eryngium duriaei J. Gay ex Boiss.

Antes de avançarmos para a lição de hoje, convém o leitor recapitular o que aqui dissemos sobre o género Eryngium. O Eryngium duriaei é também ibérico, mas, por ser raro, nunca o nosso povo pensou em dar-lhe nome, e do seu BI não consta qualquer designação vernácula. Em Espanha há registo da sua ocorrência na parte mais ocidental dos Montes Cantábricos; em Portugal, sabe-se que existe no Gerês (Mata da Albergaria), na Serra da Freita (Frecha de Mizarela) e na Serra do Açor (Mata da Margaraça, onde vimos os exemplares acima retratados): tudo lugares bem arborizados na metade norte do país.

Um caçador de plantas só pode entusiasmar-se com um achado destes, mas não é só pela raridade que este Eryngium é um caso especial. Apesar de obedecer grosso modo ao que é prescrito para o seu género, parece atacado de pernaltismo, e o seu metro e meio de altura de caule é claramente um exagero. Também as folhas basais fogem à norma, pois são moles e não propriamente espinhentas, apesar de terem as margens dentadas.

Na vontade de subir bem alto, embora não no resto, o Eryngium duriaei quase parece sul-americano. E vem a propósito denunciar o fraco conceito em que são tidas no Brasil as espécies de Eryngium indígenas, a julgar pelo livro Plantas Daninhas do Brasil (4.ª ed., Instituto Plantarum, 2008), de Harri Lorenzi. O livro considera três das espécies brasileiras - E. elegans, E. horridum e E. pandanifolium - como indesejáveis, mas tal informação carece de ser contextualizada: são 608 as espécies «daninhas» descritas no livro, na sua maioria originárias do Brasil. De facto, o livro é dos melhores guias disponíveis para a flora espontânea brasileira. As plantas nativas tornam-se malvistas quando regressam em força após os desmatamentos para pastagens ou plantações, e este livro, ao rotular tais plantas resistentes à erradicação como daninhas, acaba por dar força a quem destrói o riquíssimo património natural do Brasil. Parece que só tem direito à vida aquilo que é semeado pelo homem para seu exclusivo proveito.

Em Portugal também há quem pense que a vegetação espontânea tem valor zero. Um caso extremo deu-se quando um presidente de câmara, justificando o abate de uma mata de sobreiros para abrir espaço a um dos tais projectos estruturantes, afirmou que as árvores não valiam nada porque ninguém, que ele soubesse, as tinha lá posto. Os sobreiros haviam brotado ao Deus dará, sem qualquer intervenção humana. Acontece que os sobreiros são, no nosso país, protegidos por lei, mas o esclarecido presidente considerou que esse protecção só abrangeria as árvores criadas em viveiro e posteriormente transferidas, com número de série e código de barras, para plantações bem ordenadas.

Por muito patusca que seja a ideia do autarca, ela não deixa de suscitar uma questão séria num campo de estudo até hoje ignorado; ignorado a tal ponto que a palavra que o designa, Fito-ética, foi agora mesmo inventada. E a questão é esta: a partir de que momento é que o sobreiro passa a ser considerado como tal e a merecer a protecção da lei? Quando é ainda bolota? Quando a bolota se rompe e o rebento está prestes a eclodir, mas ainda não o fez? Quando a haste emerge da terra e se abrem as primeiras folhas? Quando tem um mínimo de não sei quantos centímetros de altura?

Questões ponderosas, sem dúvida, a que talvez os portugueses devessem ser chamados a responder em referendo nacional. Porque afinal é a vida que está em causa.

28.11.09

Carmim ou carmesim?


Gladiolus carmineus C. H. Wright

For many cultures red is both death and life - a beautiful and terrible paradox. In our modern language of metaphors, red is anger, fire, the stormy feelings of the heart, love, the god of war and power.
Victoria Finlay, Colour (The Folio Sociey, 2009)

O carmesim é uma tonalidade de vermelho com algum azul, intermédia, digamos, entre o púrpura e o escarlate. É a cor de uma tinta extraída das fêmeas prenhes do quermes (Kermes vermilio), um insecto de países da zona mediterrânica que vive no carrasqueiro (Quercus coccifera L.) e no azevinho (Ilex aquifolium L.). Este corante terá sido usado pelos fenícios, mas foi no Império Romano que granjeou fama; e com as regras que o Papa Paulo II decretou em 1467 sobre a indumentária dos cardeais, passou a ter também significado religioso: representa um apego à fé que nem a ameaça de morte enfraquece. Felizmente surgiram entretanto corantes sintéticos idênticos, e este modo cruel de produzir vermelho caiu em desuso.

Outro pigmento de origem animal, igualmente famoso e caro, é o carmim, matiz que se confunde com o vermelho-rubi. Retira-se das fêmeas de cochinilha (Dactylopius coccus), um insecto mexicano, branquinho como algodão, que se alimenta de um cacto de frutos comestíveis, a Opuntia ficus-indica (L.) Mill.. Há provas de este corante vermelho, mais estável à luz que o carmesim, ter sido utilizado pelos Astecas e Incas. Foi depois divulgado na Europa pelos espanhóis, que guardaram ciosamente durante anos o segredo do seu fabrico. Ainda hoje se produz em plantações de Opuntia na América do Sul e ilhas Canárias.

O carmim, conhecido em linguagem técnica como Natural Red 4, é o aditivo E120 usado em cosméticos, tintas, xaropes, comprimidos, iogurtes, compotas, gelatinas, bebidas alcoólicas ou carnes fumadas.

A flor das fotos, apesar do nome, é de cor magenta.

27.11.09

Cardinho-azul


Eryngium dilatatum Lam.

Muito embora sejam arrumadas nas umbelíferas, as plantas do género Eryngium são atípicas, pois não exibem a floração em umbela característica dessa família. Em vez disso, os capítulos florais (brancos, azuis, liláses ou verdes), constituídos por florículos de estames compridos, desprovidos de pétalas, são semi-esféricos ou oblongos, e costumam estar rodeados por um anel de brácteas proeminentes. Muitas destas plantas têm folhas espinhentas, adaptadas a condições de vida agrestes, e por isso são popularmente conhecidas como cardos: é o caso tanto do cardinho-azul de hoje como do cardo-marítimo (que, nos seus melhores momentos, também se tinge levemente de azul). A maioria dos cardos, porém, pertence à família dos malmequeres (asteráceas), e a semelhança morfológica entre eles e os Eryngium é um caso paradigmático de convergência evolutiva, conforme é aqui sugestivamente ilustrado.

A distribuição das cerca de 230 espécies de Eryngium é ampla: norte de África, continente euro-asiático desde a Europa até à China, Califórnia, América do Sul; e é no novo mundo, a sul do Equador, que se concentra o maior número de espécies do género. Mas as plantas sul-americanas - altas, de folhas estreitas e compridas - diferem marcadamente das suas primas de aquém-Atlântico, quase sempre espinhentas e rasteiras. Um exemplo brasileiro é o E. pandanifolium, planta aquática que por cá conquistou lugar de honra na lista das invasores perigosas.

Os Eryngium europeus são polinizados por abelhas e borboletas, e aliás, a julgar pela azáfama de tais visitantes, devem pagar esse serviço com um néctar delicioso. O pequeno (até 40cm de altura) e esguio cardinho-azul é uma especialidade ibérica, confinado no nosso país aos terrenos secos e pedregosos, de preferência calcários, do litoral centro e sul.

26.11.09

Gladíolo de flores arrepiadas


Gladiolus undulatus L.

O género Gladiolus - do latim gladio, espada, em alusão ao formato das folhas - contém cerca de 250 espécies e muitos híbridos de jardim. Dez delas são europeias ou asiáticas, mas a maioria (163 espécies) provém da região do Cabo, na África do Sul. Os gladíolos são plantas perenes mas de folha caduca: como belas adormecidas, hibernam no Inverno, ou quando há condições adversas, alimentando-se então de cormos. Um cormo parece mas não é um bolbo; é um caule subterrâneo inchado e de textura homogénea (como uma batata), envolvido por uma película feita de folhas transformadas para o proteger, no qual há um botão de flor e, na Primavera, rebentos de folhas novas e raízes; um bolbo, pelo contrário, tem camadas carnudas de folhas dispostas como numa cebola. Para não impacientar o leitor, não distinguiremos agora estas estruturas dos tubérculos e dos rizomas.

Os gladíolos dão-se bem em socalcos rochosos, perto de pântanos ou em terreno arenoso, preferindo solos que lhes asseguram períodos de secura alternados com outros de maior irrigação. Por isso não foi surpresa encontrar um com os pés quase mergulhados na água salgada da ria de Aveiro. Vimo-lo no Verão, ou, sem a flor, não o teríamos reconhecido.

As flores do G. undulatus são bissexuais, perfumadas, de cor creme, e dispõem-se em espigas de 4 a 6 botões virados mais ou menos para o mesmo lado, num arranjo das inflorescências menos formal do que nos cultivares de horto. Cada flor tem 2 brácteas verdes e 6 tépalas onduladas e torcidas (3 a formar o cálice, as outras a corola) que se unem em tubo: a tépala dorsal é maior e arqueia-se sobre os 3 estames; há duas laterais, como asas, e três inferiores, cada uma com uma manchinha púrpura; e vê-se apenas um estilete, embora ramificado em três.

A alguns horticultores basta saber quantas flores numa espiga estão abertas ao mesmo tempo para identificar a espécie, ou cultivar, do género Gladiolus, que catalogam em três grandes grupos: Grandiflorus, Nanus e Primulinus. «Tudo é número», dizia Pitágoras (ou alguém por ele).

25.11.09

Saudade de cor incerta


Scabiosa atropurpurea L.

Foi em São Jacinto, com o Verão já a aquecer os motores, num descampado arenoso entre um pinhal e uma fiada de casas baixas, que vimos estas flores espreitarem por trás de lençóis pendurados num varal. Sabe-se que as flores silvestres, se quiserem sobreviver no incurável desmazelo do nosso território, não podem ser picuinhas: qualquer cantinho lhes serve, por pouco atraente que seja. E o habitat escolhido por estas escabiosas, sem dúvida peculiar, até conferia, no que toca ao solo arenoso, com o que se conhece da espécie. As casas, os lençóis a secar e um ou outro monte de entulho eram tão-somente extras que pouco atrapalhavam.

Para não termos de repisar matéria dada, o leitor fará o favor de reler o que há dias aqui escrevemos sobre o género Scabiosa. A S. atropurpurea, vulgar no centro e sul do país, é também cultivada como planta ornamental, como atestam os nomes comuns saudade-dos-jardins e escabiosa-dos-jardins. Pode, aliás, acontecer que algumas das populações silvestres - e mesmo a própria espécie, como sugere a Wikipedia - tenham origem hortícola. Isso ajudaria a explicar a grande variabilidade da cor das inflorescências, ilustrada em parte nas fotos em cima: podem ser roxas, cor-de-rosa, vermelho-tinto ou assumir tonalidades intermédias.

24.11.09

Vestida de figos



Ficus racemosa L.

Recato e pundonor caracterizam a cooperação entre as vespas-dos-figos e as figueiras. As inflorescências do género Ficus são receptáculos carnudos com formato de polvorinhos em cujas paredes interiores se agrupam centenas de flores sem pétalas, femininas ou masculinas. Cada uma das 800 espécies deste género é polinizada pelo seu insecto preferido, num ciclo de reprodução simbiótica de que ambas as espécies dependem para sobreviver: estes seres minúsculos acedem ao sicónio, que mais tarde dará o figo, através de um ostíolo num dos topos - tão pequeno que o insecto perde frequentemente parte das asas e antenas ao entrar -, alugando esta câmara escura como abrigo e fonte de alimento para as larvas, e pagando o serviço com pólen. Mas uma vez dentro, o insecto depende das suas larvas para sair e o ciclo se retomar; para isso, tem de escolher criteriosamente a planta e o figo onde penetrará.

De facto, as figueiras (que são plantas maioritariamente tropicais, com grande diversidade na Índia, Ásia e África) produzem figos de dois tipos: uns com flores masculinas e outros com flores femininas; só estes últimos são (nalgumas espécies) comestíveis. Se uma vespa fêmea entrar num figo masculino, encontra estruturas adaptadas para ninhos dos seus ovos e as larvas terão alimento que baste para ficarem gordinhas e desejosas da aventura seguinte: as masculinas, cegas e sem asas, gastam a vida a escavar pequenos túneis para que as femininas se libertem desta clausura e voem para outro figo carregadinhas de pólen. Contudo, se uma vespa entra num figo feminino, esgota-se em fome e cansaço porque as flores femininas têm um estilete longo que atrapalha a deposição dos ovos. Mas repare que, antes de entregar a alma ao criador, a vespa desatenta deixará ali o pólen que transporta, o que para a figueira representa um lapso providencial. Por isso os horticultores apostam na boa vizinhança entre figos masculinos cheios de vespas e femininos cheios de sementes. Boa mas ponderada porque, se num sicónio feminino entrarem demasiados insectos, ele acabará por rebentar com tantas sementes - o que é bom para o insecto, para a planta e para nós gulosos que colhemos os figos maduros da árvore, mas mau para o produtor de fruta. (Ressalve-se, porém, que muitos dos figos da figueira vulgar - Ficus carica L. - produzidos para consumo não chegam a ser polinizados.)

Está o leitor inquieto com os figos que degustou no Verão? Teriam eles, apesar de saborosos, um recheio de vespas sem juízo falecidas em aflição? Será acaso vegetariano convicto e estará neste momento a sentir-se um pecador? Não se apoquente: quando uma tal vespa descuidada morre nessa armadilha, a planta produz uma enzima que a transforma em proteína, e portanto as partes estaladiças do interior dos figos são só sementes.

A Ficus racemosa é do sul da China e do sudeste asiático até à Austrália. A folhagem é semi-caduca e as inflorescências (futuros figos) nascem, nos meses quentes, em racimos presos no tronco por pedúnculos curtos e sem folhas. Gosta de solo bem drenado em torrões soalheiros, que agracia com uma sombra generosa.

23.11.09

Que árvores são aquelas que fazem sombra no chão?


Tilia x vulgaris Hayne (tília-europeia) - Waterlow Park, Highgate, Londres

Não eram árvores, nem sei por que me lembrei delas, talvez fosse da hora. Ou da sombra, que tristes são as árvores sem sombra. Também não costumo

(não frequento áfricas, brasis, orientes)

pedir a ninguém que me diga que árvores são aquelas, bem as conheço e elas a mim. Mas não eram árvores, vamos a ver se agora conto direito. Cavalos que dão sombra colavam-se às paredes em cartazes ali aos semáforos do Campo Alegre, por certo anunciavam algum circo tão longe ainda do Natal. Achei estranha a sombra e os cavalos no mar, os cavalos-marinhos

(Hippocampus sp.)

se dão sombra ninguém a vê, os outros cavalos

(Equus ferus caballus)

não andam pelo mar a menos que voem e sejam por isso pégasos de outra estirpe, e o circo é nocturno, quando tudo é sombra ou tudo é luz artificial. Este circo que não verei

(agora também já se foi embora)

com cavalos de sombra fez-me lembrar outros circos em descampados que já não existem, e o cheiro a carne podre que sobrava de alimentar animais enjaulados. Circos que também não vi, que não sei se ainda montam a tenda em baldios de outros subúrbios, lembro-me é de ter visto uma ou duas vezes o Cardinali no Coliseu do Porto, sempre era melhor

(ou nós assim supúnhamos)

do que o circo da nossa aldeia que nem aldeia era. Havia os trapezistas e os palhaços esbofeteando-se e os leões tristes, mas do que me lembro melhor é do homem de peito de aço, um gigante careca de bigodes à Fu Manchu, que sem cambalear aparava as balas do canhão mas

(isto já sou eu a tecer romance de cordel)

todo se esboroava sob o olhar doce de Kátia, a ginasta voadora.

Tudo isto recordei ou imaginei por causa do muro do Campo Alegre que funciona como cartaz de espectáculos, diariamente renovado com camada em cima de camada de papéis pintados formato A não sei quantos. Fico a saber dos teatros e dos concertos, acompanho a carreira do Tony e do Micael quando fazem sair discos novos, e também a dos Irmãos Verdades

(com os Verdades me esganas, mas é trocadilho fácil e na verdade nunca os ouvi)

e de quem mais quiser cantar em público, tenha ou não garganta ou talento para isso. Nunca vou ver nem ouvir nada, não compro os discos, mas fica-me o ruído visual como depósito de ninharias que depois escorrem dos dedos para o teclado. Imagens postiças, em terceira mão, de vidas improváveis, como se fossem sombras ligeiras de cavalos alados sobre o mar.

21.11.09

Outono, ano sexto


Quinta de Santo Inácio

It is admitted, one may hope, that common things are never commonplace. (...) It is best perhaps to take in illustration some daily custom we have all heard despised as vulgar and trite. Take, for the sake of argument, the custom of talking about the weather. Stevenson calls it "the very nadir and scoff of good conversationalists". Now there are very deep reasons for talking about the weather, reasons that are delicate as well as deep; they lie in layer upon layer of stratified sagacity. First of all it is a gesture of primeval worship. The sky must be invoked; and to begin everything with the weather is a sort of pagan way of begining everything with prayer. (...) Then it is an expression of that elementary idea in politeness - equality. For the very word politeness is only the Greek for citizenship. (...) All good manners must obviously begin with the sharing of something in a simple style. Two men should share an umbrella; if they have not got an umbrella, they should at least share the rain, with all its rich potentialities of wit and philosophy. (...) This is the second element in the weather; its recognition of human equality in that we all have our hats under the dark blue spangled umbrella of the universe. Arising out of this is the third wholesome strain in the custom; I mean that it begins with the body and with our inevitable bodily brotherhood. All true friendliness begins with fire and food and drink and the recognition of rain or frost. (...) Each human soul has in a sense to enact for itself the gigantic humility of the Incarnation. Every man must descend into the flesh to meet mankind.

G.K. Chesterton, What's wrong with the world (1910)

20.11.09

EN 222


Populus nigra L. (choupo) - EN 222 entre a Régua e o Pinhão

Antes da invenção das auto-estradas, as estradas moldavam-se ao território em vez de o devassarem. Enrolavam-se amorosamente nas serras, abraçando-as a cada curva. As árvores, dispostas em galeria ao longo das bermas, ofereciam mistério e aconchego; e algumas delas, como os castanheiros no Outono, davam de prenda os frutos a quem passasse. Descendo para os vales, punham-se as estradas a acompanhar os meandros dos rios. Se por capricho os quisessem cruzar, faziam-no quase rasando as águas.

Hoje há túneis, viadutos e pontes altíssimas. Perfura-se aqui, nivela-se acolá, assentam-se nos vales grossos pilares como patas de uma centopeia apocalíptica. O território deixou de ser a paisagem em que nos reconhecemos para se transformar em obstáculo a ultrapassar e, se necessário, a remover. Passamos e não vemos nada. E ainda bem que não vemos, pois o tapete de asfalto (seis faixas, separador central, áreas de serviço, portagens, nós de acesso) não deixou nada de reconhecível. Claro que agora é mais fácil de chegar, mas aonde? Os lugares por onde rompem as moderníssimas estradas já não são o que eram.

A EN 222, que parte da avenida da República, em Gaia, e, duzentos quilómetros adiante, termina o seu percurso, tortuoso como o do rio que quis emular, no concelho de Vila Nova de Foz Côa, é uma dessas estradas antigas que se acrescentam à paisagem em vez de a destruírem. É verdade que o seu troço gaiense foi adulterado por sucessivos alargamentos e está visualmente poluído pela proliferação dos subúrbios e dos edifícios fabris; mas, deixando para trás Avintes, Sandim e Castelo de Paiva, vai-se revelando a vocação desta estrada a sul do Douro: o que ela quer é ver-se reflectida no rio. Ultrapassados Cinfães e o maravilhoso vale do Bestança, já o Douro se começa a ver ao fundo de encostas cobertas com vinhas ou, depois de Resende, com pomares de cerejeiras. Contudo, é só nos 23 quilómetros entre a Régua e o Pinhão, onde rio e estrada parecem gémeos, que ela cumpre a sua sina: foram 130 km para aqui chegar, e são mais 50, já longe do Douro, até ao Côa, mas é ao Douro que a estrada pertence, como se os dois nunca deixassem de correr lado a lado.

Este choupo outonal, tendo por companhia freixos, lódãos e uma ou outra oliveira assilvestrada, mora perto da foz do rio Távora. O Tedo e o Torto, outros dois pequenos rios com letra inicial T, também por aqui desaguam na margem esquerda do Douro. Do outro lado do rio, com a linha férrea fazendo contraponto à estrada, sucedem-se montes onde os socalcos das vinhas desenham as curvas de nível com rigor cartográfico. São poucos e invariavelmente brancos, de um branco encardido pelo tempo, os edifícios que se avistam: apeadeiros, armazéns, solares debruçados no rio. É uma paisagem líquida de silêncio, fechada pelos montes e pela bruma, como não há outra em Portugal.

[Texto dedicado ao inspector Jaime Ramos, que conhece bem esta estrada.]

19.11.09

Eucalipto serrano



Eucalyptus dalrympleana Maiden

Os eucaliptos, mais de 500 espécies, são maioritariamente australianos, sendo alguns, poucos, da Indonésia, Malásia, Filipinas e Nova Guiné. São aromáticos, elegantes e úteis. Adaptáveis a quase todos os solos, recrudescem com a desgraça de um incêndio. E é reconhecido, por alguns com mágoa e por outros com a satisfação do lucro, que na nossa paisagem eles têm vindo a substituir o que foi a floresta portuguesa: são árvores sedentas, vigorosas, que dominam terrenos onde quase nada mais vegeta. Esta má reputação obriga-nos a refrear o entusiasmo, mas o eucalipto das fotos, do arboreto dos Kew Gardens, merece-nos uns minutos de atenção.

Quase todos os eucalipos requerem climas temperados, mas há espécies de montanha como esta que vive na Tasmania e nos Alpes australianos, em Victoria e New South Wales, entre os 600 e os 1700m de altitude. Ali predominam os dias húmidos e frios, com geadas e queda de neve frequentes. Apesar disso, é um dos eucaliptos mais altos - pode chegar, em condições favoráveis, aos 60m de altura e aos 2m de PAP (perímetro à altura do peito). O tronco é colunar, de casca suave, cinzenta na base, amarelada mais acima, com laivos verde-azeitona ou róseos. A madeira é rosada e firme mas pouco duradoura, sem as qualidades aclamadas da do E. marginata.

Como é usual nos eucaliptos, as folhas jovens são distintas das adultas: as primeiras são opostas, redondas, sésseis e de cor verde pálida; as segundas são alternadas, lanceoladas, de margens levemente onduladas e de um tom de verde coriáceo. Os botões das flores nascem com um capuchinho pontiagudo, feito de pétalas e sépalas unidas, que cai quando os estames se desenvolvem. As flores, de Outono, reduzem-se a numerosos estames brancos e nascem agrupadas em conjuntos de 3 a 7, formando umbelas (há poucas excepções, entre os eucaliptos, a este tipo de inflorescência; um contra-exemplo, de flores solitárias, é o E. macrocarpa). Os frutos lenhosos são ovóides, parecendo sininhos.

Richard Dalrymple Hay (1861-1943) foi um zeloso administrador das florestas de New South Wales.

18.11.09

Campainhas-de-Outono


Leucojum autumnale L.

Esta é outra das flores com que se enfeita o nosso chão de Outubro. A cila-de-Outubro e as campainhas-de-Outono partilham não só o gosto por essa estação do ano, atestado pelos epítetos específicos, como uma preferência por lugares pedregosos (embora a cila, mais versátil, também se dê bem nos prados). Distribuindo-se ambas por boa parte do território nacional, é comum encontrá-las lado a lado, por exemplo na Serra dos Candeeiros ou, em Trás-os-Montes, junto à linha do Tua, nos pedaços de solo que aqui e ali se agarram às escarpas.

São onze as espécies de plantas bolbosas, todas do sul da Europa ou do norte de África, que compõem o género Leucojum; mas uma delas, a L. aestivum, ausente de Portugal, ocupa uma área mais ampla, que vai até ao Irão e ao sudoeste asiático. Nove dessas espécies, incluindo a L. autumnale, terão sido transferidas em 2004 para o género Acis; mas a mudança, sendo tão recente, não aparece ainda na maioria das obras de referência.

A L. autumnale é quase um exclusivo ibérico, ainda que ocorra também na Sardenha e na Sicília. As flores pendentes, com cerca de 1 cm de comprimento, fazem lembrar taças de champanhe invertidas; dispondo-se às duas ou três em cada haste, têm seis pétalas pontiagudas, tingidas de rosa ou vermelho na base. Os polinizadores são os poucos insectos (abelhas, sobretudo) que não largaram o serviço apesar do adiantado da época. Só depois de fazerem brotar as hastes floridas é que os bolbos aceitam que uma planta a sério também precisa de folhas; e estas, quando finalmente surgem, revelam-se semelhantes à relva.

17.11.09

Cem anos de perdão

Lembram-se da anacardiácea do Horto das Virtudes, aquela a que José Marques Loureiro (jardineiro e horticultor do século XIX que muito admiramos) dedica uma crónica e identifica como sendo uma Pistacia atlantica? Temos andado desassossegados com esta árvore. Por duas razões:

1) A bibliografia que conhecemos é unânime em afirmar que a Pistacia atlantica é uma espécie de folhagem caduca. Contudo, esta árvore das Virtudes só perde folhas, e poucas, com a ventania forte. E ainda que, longe do lugar de origem, uma planta possa ostentar fomes desconhecidas, não é de esperar que mude tão radicalmente de hábitos que se transforme em perenifólia.

2) A Pistacia atlantica é uma espécie dióica, e já vos demos conta da nossa estranheza ao verificar que o exemplar das Virtudes frutifica anualmente. Pode ser que, desafogada de afazeres, esta árvore se entretenha a criar frutos estéreis, mas é mais plausível que este seja outro traço a comprometer a identificação proposta por Marques Loureiro.

Por isso, a nossa visita ontem ao Jardim Botânico Tropical em Lisboa foi especialmente oportuna. É que há lá vários exemplares de uma outra anacardiácea, a Schinus terebinthifolius (pimenteira-do-Brasil, ou aroeira-vermelha), cuja folhagem, inflorescências e frutos têm nítida parecença com os da Pistacia atlantica mas que é de folha perene. Além disso, embora seja espécie dióica, há registo abundante de espécimes monóicos ou com flores hermafroditas (uma vantagem na competição com outras espécies que a torna, em alguns habitats, uma invasora preocupante).

Em resumo: na nossa opinião revista e melhorada, a árvore do Jardim das Virtudes é um exemplar de Schinus terebinthifolius, e cremos que este engano com mais de cem anos finalmente se desfez.

16.11.09

O chão de Outubro


Scilla autumnalis L.

Um livro que tratasse das nossas flores silvestres, organizando-as por época de floração, poderia abrir com uma Scilla e fechar com outra. No primeiro capítulo, destacando-se entre as flores temporãs que despontam logo em Fevereiro, apareceriam a Scilla monophyllos e a Scilla italica; seguir-se-ia, em Maio-Junho, mas só na metade sul do país, a vistosa Scilla peruviana; e, para encerrar o livro em tons de rosa, teríamos a outunal Scilla autumnalis, a que a Flora Digital de Portugal chama, com requinte poético, cila-de-Outubro.

(A natureza, irreprimível como é, deixa sempre algumas pontas soltas nestes arranjos demasiado simétricos. O Inverno não significa um estado letárgico generalizado da vegetação, e haverá quem aponte, com justiça, que há flores - há sempre flores - antes da primeira e depois da última cila. Mas, para fenómenos que se repetem ciclicamente, o antes e o depois são simples convenções que nos ajudam a organizar a vida, e que podemos torcer a nosso jeito.)

Embora o desfasamento temporal seja, por si só, suficiente para não confundir a S. autumnalis com as suas congéneres, não é mau registar algumas das suas peculiaridades: a haste florida mede até 20 cm e surge antes das folhas; as flores não têm brácteas; e as folhas, em tufos de quatro a oito, são lineares e retorcidas, com as margens por vezes dobradas para formar sulcos.

A cila-de-Outubro - que aliás começa a florir logo em Agosto - distribui-se por grande parte da Europa, da Península Ibérica ao Mediterrâneo e da Grã-Bretanha à Rússia.

14.11.09

Tocam sinos a rebate


Campanula rapunculus L.

.....Moi si j'étais le Bon Dieu, je crois que j'aurais des remords.

.....Patrick Bruel

13.11.09

Veneno na sopa


Solanum nigrum L.

São contraditórios os relatos sobre a toxicidade da erva-moira (Solanum nigrum), herbácea anual de origem euro-asiática que se espalhou por todos os continentes. Jorge Paiva, num informativo artigo sobre solanáceas incluído no n.º 29 (Setembro de 2009) da revista Parques e Vida Selvagem, acusa-a de matar ovelhas e de pôr vacas em estado comatoso. Sabemos que a figueira-do-inferno é bem capaz dessas e de piores proezas se ingerida inadvertidamente pelo gado; mas não nos parece que a erva-moira se lhe compare em malignidade. É certo que a planta é algo venenosa, sendo os seus frutos imaturos de especial perigosidade, mas seria preciso ingeri-la em fartas doses para correr risco de vida.

E quererá alguém, como tira-teimas, incluir a planta na sua dieta regular? A verdade é que já há quem o faça sem ser motivado por pulsões suicidas. Tanto na Índia como na Etiópia as folhas e os frutos maduros são comidos depois de cozinhados, e as crianças chegam mesmo a comer o fruto directamente da planta. As folhas são cozidas em água salgada, tal como se faz com os legumes para a sopa; e consta que, no sabor e textura, elas se assemelham a espinafres.

Para falar com franqueza, não tencionamos provar tal sopa - e desde já declinamos qualquer responsabilidade se, sugestionado pelo que escrevemos, alguém decidir experimentar a erva-moira como ingrediente culinário, com resultados desastrosos. Regressamos à objectividade botânica para enunciar algumas características da planta: alturas até 60 ou 80 cm, flores brancas de 7 a 10 mm, estreladas, pendentes, em grupos de 5 a 10; frutos lembrando tomatinhos (até 8 mm de diâmetro) que começam por ser verdes, ficando pretos quando amadurecem. É aliás a cor das bagas que mais facilmente distingue o Solanum nigrum de um seu congénere também espontâneo em Portugal: o S. villosum Mill., mais peludo e de flores igualmente brancas, mas com frutos amarelos ou cor-de-laranja depois de maduros.

12.11.09

Peregrinação ao arco-íris


Rubia peregrina L.

Ofereceram-nos há dias um tapete persa. Tem um friso geométrico largo na moldura, traços escadeados nos cantos a acentuar a simetria do rectângulo, no centro um bordado arrebicado onde um olhar leigo julga distinguir flores, e a típica franjinha longa a rematar só um dos lados. É um desenho a três cores onde dominam o preto e o famoso vermelho-da-Turquia, obtido a partir de um corante extraído das raízes da Rubia tinctorum L, herbácea da região mediterrânica naturalizada por cultivo no centro e oeste da Europa.

A paleta de vermelhos disponível desde a Antiguidade é muito variada, mas nem todas as substâncias corantes, de origem vegetal ou animal, são igualmente resistentes à lavagem ou estáveis sob efeito da luz. Lembremos, por exemplo, o quadro de J.M.W. Turner, The Fighting Téméraire (National Gallery de Londres), em que uma fragata de guerra envelhece pacificamente sob um sol igualmente moribundo, pintado com iodeto de mercúrio cujo brilho e impressão melancólica hoje só podemos imaginar. O pigmento da ruiva-dos-tintureiros (madder em inglês) é duradouro, embora uma excessiva exposição à luz o converta em castanho. Mas tem a vantagem de apresentar variantes de tonalidade do vermelho e de, quando adicionado a mordentes, criar outras cores e matizes (azuis, violeta, púrpura ou o laranja-abóbora). Contudo, os processos de fabrico desta cor e de tingimento são ainda hoje morosos, o que agrava significativamente o preço dos tapetes.

Da família Rubiaceae, com mais de dez mil espécies tropicais, há uma Rubia espontânea em Portugal, a peregrina (wild madder), menos célebre do que a R. tinctorum L. mas mais fácil de encontrar a esgueirar-se entre os nossos rochedos. É uma planta ramosa, prostrada ou escandente, lenhosa na base, com talos de secção quadrada e folhas perenes de margens espinhosas agrupadas em volutas de 4 a 6 elementos. No Verão, produz flores bege com uns 5 mm de diâmetro (as da R. tinctorum são amarelas) e pétalas pontiagudas; no Outono só há as bagas, que ficam pretas quando maduras (castanhas as da R. tinctorum).

(O nosso tapete persa é pequenino, é para o rato do computador.)

11.11.09

Pinheiro de casca rendilhada


Pinus bungeana Zucc. ex Endl.

Já se sabe que o hábito faz embotar a vista. Onde não é um eucaliptal, a floresta portuguesa é um pinhal; às vezes é as duas coisas misturadas. E pinheiros e eucaliptos não têm qualquer respeito pelo Outono, daí advindo o défice cromático de que padecemos nesta temporada. (Aviso aos impacientes: eu sei que há outras árvores e outras cores, até as vejo da minha janela, mas são claramente minoritárias.) Nessas condições de superabundância tantas vezes nociva, como aprender a gostar de pinheiros? Como ver um pinheiro na sua inteireza de árvore, ignorando que é um entre centenas de milhões? Uma possibilidade é começar por distinguir as diferentes espécies: além do esbelto pinheiro-bravo (Pinus pinaster Aiton) e do amplo pinheiro-manso (Pinus pinea L.), tão banais no nosso país, existem mais de 110 espécies de Pinus no hemisfério norte, distinguindo-se pelo tamanho, pela textura do tronco, e pelo comprimento e disposição das agulhas.

Apesar de acanhado, o Jardim Botânico do Porto ainda guarda algumas surpresas, mesmo para quem julga conhecê-lo bem. O Pinus bungeana, pequeno pinheiro de origem chinesa e uma raridade em colecções botânicas nacionais, foi um dos tesouros que só se nos revelaram depois de os caminhos do jardim terem sido redesenhados em 2007. É uma árvore de crescimento lento, em que o tronco, descascando-se em pequenos rolos, adquire um padrão marmoreado semelhante ao dos plátanos, com tons de creme, rosa e verde-acinzentado. Com um tronco tão peculiar, as agulhas são secundárias para a identificação, mas mencione-se, ainda assim, que elas são rígidas, têm 5 a 10 cm de comprimento, e vêm dispostas em grupos de três.

10.11.09

Trepadeira-da-Rússia




Fallopia baldschuanica (Regel) Holub

Quando a vimos, acabava-se o Verão no Jardim Botânico de Coimbra, ela cobria todo o muro alto que ladeia o terraço das bauínias (interdito mas que se vai franqueando) e mostrava duas novidades: 1) As flores minúsculas, de 6-8mm de diâmetro, nascem agrupadas em inflorescências ramificadas. Creio que nunca aqui falámos deste tipo de espigas, mas já as vimos em exemplares do género Rumex. 2) A espaços regulares, o caule está coberto por uma bainha membranácea de onde emergem as inflorescências (diz-se ócrea, vê-se numa das fotos) e que justifica o nome francês para esta planta, renouée.

Trepadeira vigorosa, pensámos, excelente para revestir postes de iluminação, adornar caramanchões ou emoldurar pórticos; menos apropriada num jardim botânico, mas, enfim, louvemos a biodiversidade, até porque uma tal cortina, feita de ramagem tingida de rosa e flores brancas perfumadas, era digna de aplauso. Compulsada depois alguma bibliografia, descobrimos que esta planta vivaz cresce muito depressa, podendo atingir numa estação uns 5m de altura (em inglês é por isso conhecida como mile-a-minute, e entre nós por bracilonga) e chegando aos 12m; que usa uns anzóis nos caules e folhas para trepar muros nus e alcançar zonas luminosas; e que se multiplica facilmente por fragmentos da ramagem. Foi então que nos lembrámos de uma prima dela, certamente boa conselheira, que consta da lista das 100 piores invasoras no mundo, a Fallopia japonica (Thunb.). Vendo bem, nem é preciso derrubar-se o muro do Jardim Botânico para que uma planta do leste, para mais de folhagem caduca, aceda a território proibido.

Apesar de originária da Ásia central (sul da Rússia, Sibéria, Afeganistão, Paquistão e Turquestão), é frequente na Península pois, resistente ao frio, não desdenha de um lugarzinho soalheiro e coloniza com eficiência margens de bosques, pauis, bermas de estrada, baldios e, em geral, habitats húmidos do hemisfério norte. Por cá até tem companhia local, pois, das 9 espécies do género Fallopia, uma é ibérica, a Fallopia convolvulus (L.) Á. Löve.

Já se vai embora? Espere, ainda temos para lhe passar algumas informações de bolso, o bolso fundo e meio esburacado onde se enfia a chamada cultura geral. As flores são hermafroditas (com estames e carpelos, estando a componente não usada presente mas sendo estéril), com 5 pétalas, as 3 exteriores maiores e tendo cada uma uma asa no dorso - as mesmas que se notam nos frutos alados, angulosos e de secção triangular (3ª foto). A designação Fallopia é dedicada ao médico italiano Gabriele Fallopio (1523-1562), o que deu nome às trompas. Baldschuanica deriva de Baldschuan, região no sul do Turquistão, a norte da fronteira com o Afeganistão, onde primeiro foi descrita esta espécie.

Agora sim, adeusinho.

9.11.09

Erva-do-sangue



Polygonum equisetiforme Sm.

Fiel ao género que primeiro a acolheu, esta planta não se juntou à debandada que aqui relatámos há dias: nasceu Polygonum, e Polygonum há-de ficar; não quer ser confundida com uma Persicaria, e por isso não solicitou nova identidade aos botânicos que dão despacho a tais assuntos.

Espontânea na Península Ibérica, nalguns outros países da bacia mediterrânica (Bulgária, Creta, Grécia, Turquia) e ainda nas ilhas açorianas, a P. equisetiforme tem uma distribuição esparsa, preferindo terrenos cultivados ou ruderais. O exemplar em cima foi fotografado na Murtosa, na berma da estrada que margina a Ria de Aveiro. É uma bonita planta formada por compridos ramos filiformes cravejados de minúsculas flores brancas. O fotógrafo ficou com as articulações doridas, tanto tempo se manteve agachado à espera de que o vento lhe concedesse uma pausa e a planta se aquietasse. Mas a espera foi compensadora.

O epíteto equisetiforme, segundo explicam os dicionários, alude à semelhança superficial da erva-do-sangue (mais um daqueles nomes enigmáticos) com algumas plantas do género Equisetum - plantas primitivas conhecidas entre nós como cavalinhas ou rabos-de-cavalo.

7.11.09

Turismo no Douro


São Salvador do Mundo (em primeiro plano, azinheiras e zelhas)

A National Geographical Society (NGS) seleccionou 133 destinos turísticos pedindo a especialistas em preservação de património, história, arqueologia, geografia, ecologia, culturas indígenas, etc., que avaliassem o que torna alguns lugares esteticamente únicos, essenciais à cultura da Humanidade e preciosos para o viajante. O júri classificou-os usando seis critérios: qualidade ambiental e ecológica; autenticidade social e cultural; estado dos edifícios históricos e dos sítios arqueológicos; valor estético; qualidade da gestão turística; perspectivas de futuro. O vale do Douro teve 76 pontos (num máximo de 85), empatado com três outros destinos e atrás de catorze. Numa apreciação que nos soa justa, a NGS ressalva: «This wine region in northern Portugal charms some with its "historic and natural attractions" and disappoints others with its "suburbanization". Most agree about the region's intact cultural authenticity.» No relatório dos jurados pode ler-se: «Iconic region for Portuguese wine production. There still are opportunities for development and promotion in the areas of rural tourism, usage of old railways, hiking and biking trails, wine and gastronomy promotion, and domestic tourism. One of the world's great undiscovered landscapes. Relatively little tourism and almost no mass-market tourism. Rich in historic and natural attractions that retain an appeal and authenticity. Biggest environmental problem is the chemical runoff from the vineyards. This may not be visible to the naked eye, but it is of great concern because the Douro River is slowly dying. A destination well suited to boat and 'pedestrian' tourism

Saberão que este vale não é refúgio seguro para o património natural que elogiam? Terão contabilizado as perdas na paisagem esculpida na rocha, na vegetação, na fauna e na agricultura, inexoráveis com a construção insana de mais barragens? E que vários afluentes do Douro, que hoje correm maneirinhos e selvagens, se afogarão pasmados e mansos num lago artificial? Que depois desta razia que se prenuncia nos restará apenas a memória de uma alegria que nos tiraram?


São Salvador do Mundo - São João da Pesqueira

6.11.09

Erva-das-pulgas


Polygonum persicaria L.

O epíteto persicaria na designação científica desta planta refere-se à semelhança das suas folhas com a do pessegueiro, que leva o nome completo de Prunus persica. Acontece que o termo Persicaria, engrandecido com maiúscula inicial, foi promovido a nome de um género que, captando numerosos dissidentes, ameaça esvaziar o género Polygonum. Claro que a ex-Polygonum persicaria se juntou aos trânsfugas - quem sabe se não os terá liderado - mas, em vez de ser rebaptizada como Persicaria persicaria, rejeitou a glória e contentou-se com um apagado Persicaria maculosa.

Dependendo de se aceitar ou não a cisão dos géneros, existem, segundo a Wikipedia, de 65 a 300 espécies de Polygonum. Optando pelo número menor, cerca de 150 dessas espécies perfazem hoje o género Persicaria. São plantas perenes, originárias das regiões temperadas do hemisfério norte, com tendência para se tornarem invasoras noutras paragens. Por exemplo, a europeia Polygonum persicaria foi objecto de denúncias por mau comportamento tanto nos Estados Unidos como no sul do Brasil. Talvez o curioso nome português desta planta (erva-das-pulgas) descreva o estado de nervosismo de quem a encontra infestando campos de lavoura. De resto, a planta - que atinge 50 a 90 cm de altura, tem folhas brilhantes e lisas, e prefere solos húmidos mas não encharcados, ricos em matéria orgânica - até tem a boa fama de ser usada em medicina caseira.

5.11.09

É de subir pelas paredes



Anredera cordifolia (Ten.) Steenis

Enquanto enreda os talos carnudos e rubros nas plantas vizinhas com mão de gato, jurando nunca cair na tentação, esta liana sul-americana sobe depressa na vida até atingir os 7m. Se mora em recanto onde o vento não é cortante, o que detesta, cria tubérculos (comestíveis e, diz-se, com propriedades antivirais) que lhe facilitam a retórica e a dispersão até em água que passarinho não bebe. Apreciada como planta ornamental para muros e sebes, e beneficiando das acções que têm vindo a ampliar os ambientes ruderais que lhe convêm, tornou-se uma praga em alguns habitats, como as ilhas dos Açores e das Canárias, onde consta do top 25 das plantas vasculares exóticas invasoras mais preocupantes. Na Madeira e Porto Santo a sua presença é igualmente nociva, como atesta a designação vernácula parra-da-Madeira.

Sempre com o coração na boca, pois tem um em cada folha, esta herbácea vivaz rizomatosa perfuma-se no Verão e Outono com o aroma de amêndoa que impregna as suas flores agrupadas em racimos de cerca de 20cm de comprimento. Tal fragância é pura e simplesmente um capricho, pois as flores são funcionalmente masculinas e não há, em geral, produção de sementes viáveis. A reprodução é assexuada, assegurada por centenas de cormos por ano, os tais propágulos aéreos ou subterrâneos que se disseminam por hidrocoria.

O género Anredera tem uma dezena de espécies trepadeiras. Esta já se chamou Boussingaultia cordifolia Ten., em homenagem singela ao químico francês Jean-Baptiste Joseph Boussingault (1802-1887), célebre pelas descobertas sobre a absorção de azoto pelas plantas.

[Lugares-comuns e frases feitas extraídos de O pai dos burros, de Humberto Werneck, livro vindo a lume em 2009 pela Arquipélago Editorial, Porto Alegre]

4.11.09

Suspiro de saudade



Scabiosa turolensis Pau

Pelo seu tamanho diminuto e pelas vicissitudes que tem padecido, esta planta bem pode fornecer o material didáctico para uma aula de história natural dirigida ao público infantil: a extinção explicada às crianças. Restrita à Península Ibérica e a Marrocos, as suas únicas populações portuguesas conhecidas encontram-se no Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros. Prados rupículas calcários é como é descrito no jargão científico (ficheiro pdf) o tipo de habitat favorável à planta. Quer isto dizer, no linguajar comum, um local com muita pedra calcária entremeada com vegetação rasteira, tal como é o vulgar encontrar nessas serras do centro do país. Mas a Scabiosa turolensis nada tem de abundante mesmo onde as condições de vida se adequam à sua índole; e, a agravar o problema, a casa que seria a sua tem sido devassada com parques eólicos. O único exemplar que avistámos, com flores quase murchas, morava a escassas dezenas de metros de uma das amplas vias de terra batida que foram cortadas a direito para facilitar o acesso às gigantescas ventoinhas. Se, nos próximos anos, regressarmos ao local, o mais provável é que a planta já lá não viva. Terá sido só mais uma vítima daquilo a que nós, adultos, para tornarmos suportável a culpa que carregamos, chamamos o factor antrópico. (Fim da lição.)

O género Scabiosa, com cerca de 80 espécies, distribui-se da Europa à parte mais ocidental da Ásia, e faz ainda breves incursões a África. São herbáceas vivazes: a parte subterrânea da planta mantém-se viva, enquanto que a parte aérea se vai renovando de ano para ano, desaparecendo por completo no Inverno. Em Portugal, da Ria de Aveiro para sul, é muito frequente a Scabiosa atropurpurea, planta empertigada que pode ultrapassar um metro de altura; a S. turolensis, por seu turno, é rasteira, com hastes florais por vezes prostradas que se ficam pelos 20 a 30 cm de comprimento. À semelhança do que sucede com as asteráceas, aquilo a que chamaríamos flor é na verdade um capítulo composto por muito florículos; no caso da Scabiosa, essas pequenas flores têm cinco pétalas e são ainda mais diminutas no centro da inflorescência.

Scabiosa provém de scabies, palavra latina que significa sarna. Diz-nos Stearn que o facto de a planta ter folhas rugosas, como se tivessem sido atacadas pela doença, terá sugerido a ideia de que ela poderia ser usada no seu tratamento - tanto em bichos como em pessoas, suponho. É o mesmo princípio que inspirou esta amostra de sabedoria tradicional que a prática da vacinação veio consagrar: mordedura de cão trata-se com pêlo do mesmo cão.

3.11.09

Neve-de-montanha


Euphorbia marginata Pursh

As noites cada vez mais longas até ao solstício de Inverno são o sinal para a Euphorbia pulcherrima começar a florir. As brácteas rubras, folhas que mudaram de cor e tornam mais vistoso o centro das diminutas flores amarelas, garantem-lhe o uso anual como estrela-de-Natal; e nessa qualidade não tardará a acenar-nos das vitrines das floristas. A planta da badana de hoje usa a mesma receita de sedução, embora prefira o branco para destacar as flores - e foi através desse detalhe que a identificámos.

A floração da neve-de-montanha, herbácea anual norte-americana que exige pleno sol e torrão de saibro bem drenado, estende-se do fim do Verão até meio do Outono. Nas umbelas terminais de flores notam-se sobretudo as brácteas variegadas (que se mantêm coloridas por vários meses) com margens, bandas e veios brancos. As componentes florais que intervêm na polinização - uma flor feminina nua com três estiletes cercada por várias flores masculinas, cada uma reduzida a um só estame - reúnem-se no centro de uma taça branca de brácteas-a-fingir-de-pétalas, com um anel interno de outras brácteas verdes; o conjunto é um ciátio, inflorescência típica das eufórbias.

Há mais de 6000 espécies na família Euphorbiaceae, que, recém-sujeita a revisão taxonómica, abriga agora apenas as plantas cuja seiva é um leite (magro mas corrosivo). Em quase todas a polinização é garantida por insectos atraídos pelas gotas brilhantes de néctar e os frutos explodem para disseminar as sementes. A ingestão de algumas partes destas plantas pode causar sério desconforto; cozinhar mandioca (Manihot esculenta Crantz.) para um bobó de camarão é por isso tarefa de mãe. Desde a descoberta do processo de vulcanização até ao início do século XX, a seringueira (Hevea brasiliensis (Willd ex A. Juss.) Mull. Arg), da Amazónia, foi fonte natural de borracha e o membro da família com maior importância económica.

2.11.09

Passageiros clandestinos



Xanthium strumarium L. / Xanthium spinosum L.

Passa-se com estas plantas fenómeno semelhante ao que ocorre com a figueira-do-inferno: por terem qualidades indesejáveis, e por aparecerem onde não são chamadas, a sua pátria de origem mantém-se incerta. Embora, desta vez, a coisa seja um pouco mais sofisticada, envolvendo até uma incerteza quanto à real identidade da planta. A primeira das que estão no escaparate aí em cima foi fotografada perto da Pateira de Fermentelos, onde é quase tão abundante na periferia dos campos de cultivo como o jacinto-de-água nas bordas da lagoa. Acreditando tratar-se da Xanthium strumarium, esquadrinhámos-lhe a biografia: originária de lugar incerto na América do Norte, ter-se-á espalhado por quase todo o mundo, assolando pastagens, bermas de estrada e terrenos baldios. Mas se não se tratar dessa espécie, e sim, como assevera a Flora Digital de Portugal, da Xanthium orientale? Nesse caso, e segundo a mesma fonte, terá sido do Egipto que ela nos chegou. Dada a semelhança entre as duas espécies, e na ausência de bibliografia adequada e de fotos concludentes, confessamo-nos incapazes de decidir de qual delas se trata. Contudo, tal distinção não parece ser assim tão importante, pois várias autoridades botânicas consideram que a X. orientale é na verdade uma subespécie (X. strumarium subsp. italicum) ou uma variedade (Xanthium strumarium var. glabratum) da X. strumarium. Assim, a única dúvida realmente irresolúvel é esta: de onde veio esta planta?

Seja qual for a resposta, esta herbácea anual, a que em Portugal chamamos bardana, atinge alturas de 60cm a 1m e exibe floração tardia, entre Agosto e Novembro. Os capítulos florais, aglomerados ao longo das hastes, são de dois tipos: os masculinos são esféricos e avermelhados, e aparecem no topo; os femininos, logo abaixo destes, são mais numerosos, e têm formato elipsoidal e cor esverdeada. Esse mesmo formato é herdado pelos frutos, que são densamente cobertos por espinhos recurvados, autênticos ganchos que se agarram ao pêlo dos animais. À boleia desses colaboradores involuntários, a planta pode disseminar-se a ponto de tornar-se sério motivo de preocupação, não tanto pela competição que estabelece com outras plantas, mas por ser mortalmente venenosa para o gado.

A X. spinosum, a segunda bardana de hoje, fotografada entre os carris da desactivada linha do Tua, não oferece dúvidas na identificação: os espinhos tripartidos são inconfundíveis, e aliás motivaram um dos nomes (pica-três) pelos quais ela é conhecida no nosso país. Podemos, assim, afiançar que a planta veio da América do Sul. Apesar das diferenças morfológicas, a sua atitude na vida (ciclo de vida anual, presença cosmopolita, uso dos animais para transportar os frutos, preferência por terrenos baldios) é quase idêntica à da sua congénere. No entanto, a X. spinosum é muito menos frequente do que a X. strumarium; e, mesmo que seja venenosa, a sua armadura de espinhos pontiagudos é suficiente para dissuadir o mais esfomeado dos bichos.