31/08/2011

Orelhas frias

Cerastium ramosissimum Boiss.


Nomes vulgares: nenhum registado (o nome em inglês para as plantas do género Cerastium é mouse-ear chickweed)
Ecologia e distribuição: solos silícicos mais ou menos arenosos, em altitudes acima dos 500 m; presente no sul da Europa, de Portugal até à Turquia, e também no norte de África
Distribuição em Portugal: Beira Alta, Beira Baixa, Douro Litoral, Minho e Trás-os-Montes
Época de floração: Março a Agosto (dependendo da altitude)
Data e local das fotos: Maio de 2011, estrada de Seia para a Torre, um pouco acima da Lagoa Comprida
Informações adicionais: plantas com hastes de 20 a 25 cm, muito ramificadas; flores pequenas, com cerca de 1 cm de diâmetro

30/08/2011

Têucrio lusitano

Teucrium salviastrum Schreb.


Não sei se também vos acontece: quando lemos «endemismo lusitano», invade-nos uma curiosidade que não se sacia com a mera leitura das Floras. E, se nos damos conta que o período de floração está quase no fim, é um lufa-lufa até viajarmos para algum dos lugares onde a planta já foi observada. Mais ainda se uma tal preciosidade é uma das (apenas) quinze espécies do género Teucrium que são espontâneas em Portugal. Um tal afã levou-nos a uma ladeira muito íngreme, forrada de cascalho solto, em Fajão, na serra do Açor, para vermos este endemismo do centro e norte de Portugal, que ocorre entre os 600 e os 1900 metros de altitude. O fotógrafo destemido, qual cabrito, não hesitou. Mas havia poucos exemplares, e em todos eles já as flores estavam secas.

Avançámos esperançosos para o plano B. Na ficha de uma visita de estudo da Sociedade Portuguesa de Botânica a escarpas e prados do Marão, lemos a promessa de encontrarmos esta planta, cuja floração, em teoria, decorre entre Junho e Agosto. Embora a data limite das inscrições estivesse já vencida, ainda havia vagas (abençoados os portugueses indiferentes a estas iniciativas) e pudemos participar. Depois de subirmos uma encosta, avistámos dois ou três pés com magníficas flores rosadas. Contudo, como têm notado, o Verão este ano anda amuado e, nesse dia e naquela escarpa, esteve especialmente trombudo. Resultado: tocámos nas folhas, reparando como são coriáceas mas acetinadas, com margens crenadas e face inferior esbranquiçada; apreciámos as inflorescências com duas flores em cada nível, viradas para o mesmo lado; e louvámos as belos cálices corcundas (de uns 6 mm) e as corolas bilabiadas, agasalhadas exteriormente pelo que nos pareceu algodão, com o lábio maior pintado de lilás. Mas, para nosso desalento, o frio e o nevoeiro fustigaram-nos o bastante para inviabilizar qualquer foto.

Quando o destino insiste em contrariar-nos, é avisado não guardar por mais tempo o trunfo na manga. Seguimos, portanto, para a serra da Estrela. Ali também a metereologia nem sempre sorri ao visitante, mas é fácil encontrar plantas na berma da estrada, numa corridinha com o carro à vista. Talvez não haja, por esse mundo, montanha tão bem servida de acessos; por vezes nota-se mesmo algum exagero em prol do nosso conforto, quiçá em detrimento de plantas e bichos. Deixemos isso, porque o passeio foi um regalo. As populações de Teucrium salviastrum que se exibiam aos estradeiros formavam tapetes extensos e estavam no auge da floração. Depois, mais acima na montanha, voltámos a vê-lo em fendas de rochas, mas os exemplares eram de menor porte e havia cabras prontas a comê-los.

Brotero, que publicou uma nota sobre esta planta em 1827, poderia ter sido o seu primeiro descritor. O naturalista alemão Johann Christian Daniel von Schreber (1739-1810), que estagiou em Upsala com Lineu, adiantou-se-lhe em 1773, mas não sabemos se a viu e onde.

A origem do nome Teucrium não está estabelecida. As fontes hesitam entre dois gregos famosos: Teukros, rei de Tróia; ou Teucro, filho de Télamon e Hesione, meio-irmão de Ájax, perito no arco e na flecha. Plínio não esclarece, apesar de exemplificar a génese deste nome com o par Achilles-Achillea. Já o latim salviastrum não levanta dúvidas: alude à semelhança (astrum) das folhas e flores desta planta com as de algumas salvias (como a S. officinalis L.).

A Flora Ibérica indica pólio-montano como designação vernácula portuguesa do T. salviastrum; porém, segundo os autores de Portugal Botânico de A a Z, esse é o nome comum do T. polium L.: mais uma vez, um endemismo português parece não ter nome nosso.

29/08/2011

Três semanas na serra


Barragem do Viriato — Penhas da Saúde
Embora não tenhamos guardado o nome do vencedor, este ano procurámos estar informados sobre a Volta a Portugal em Bicicleta. As visitas que planeávamos à Serra da Estrela explicam este interesse um pouco displicente: é que não queríamos de todo apanhar a caravana velocipédica na subida à Torre. Assim, as nossas visitas aconteceram todas antes de 13 de Agosto. Ainda lá não voltámos depois disso porque convém dar tempo para que o tradicional lixo da berma da estrada (garrafas de plástico e restos de merendas) seja recolhido.

Em cerca de meia dúzia de visitas espalhadas por quatro meses, e com a preciosa ajuda de alguns amigos, foi tanto o material acumulado que nos vemos compelidos a reservar não uma nem duas, mas três-semanas-três para um especial Serra da Estrela. Sem intenção de respeitar a ordem cronológica, sucede ainda assim que as fotos deste primeiro fascículo trazem as cores da Primavera — que, no patamar intermédio da serra, atinge o seu auge na primeira quinzena de Maio, com a urze e o tojo a comporem o característico mosaico amarelo e roxo. Lá para baixo já os narcisos se despediram; mais acima, ainda há gelo por derreter.

Phalacrocarpum oppositifolium (Brot.) Willk.


Juntando-se ao mato bicolor e às discretas violetas amarelas, uns vistosos malmequeres brancos completavam a paleta primaveril. Escaldado por episódios anteriores, o fotógrafo, não querendo arriscar uma identificação errada, esteve tentado a ficar-se pela contemplação, mas os malmequeres pareceram-lhe tão especiais que acabou por apontar-lhes a objectiva. Em boa hora o fez: o Phalacrocarpum oppositifolium é um endemismo ibérico que, em Portugal, surge apenas nas montanhas do norte e do centro, em regra não abaixo dos 1000 metros de altitude. E o iberismo não se fica por aqui, já que a única outra espécie do género, Phalacrocarpum hoffmannseggii (que se distingue da anterior por ter folhas menos recortadas), é também um exclusivo peninsular, restrito no nosso país a uns poucos locais em Trás-os-Montes.

Pela folhagem e pela cor das inflorescências (que têm até 5 cm de diâmetro), o Phalacrocarapum oppositifolium poderia confundir-se com a camomila (Matricaria recutita L.) e com outros vulgares malmequeres de flor branca. Uma distinção essencial, porém, como aliás indica o epíteto específico, é ele ter folhas opostas, enquanto que a generalidade das asteráceas as tem alternadas. Além do mais, as brácteas das inflorescências têm um friso acastanhado e penugento que é distintivo (ver quarta foto).

Indica Franco na sua Nova Flora de Portugal que o P. oppositifolium frequenta fendas de rochas e encostas pedregosas. Na realidade, as suas preferências de habitat são mais variadas, pois na Serra da Estrela ele também se encontra, e com alguma abundância, em orlas de bosques.

26/08/2011

Saudades das ilhas

Scabiosa nitens Roem. & Schult.


O suspiro-roxo é um dos cerca de 70 endemismos açorianos (espécies, subespécies ou variedades) e está protegido pela Convenção de Berna e pela Directiva Habitats — não porque seja muito raro (está porém em declínio em algumas ilhas) mas porque a sua ecologia é ainda mal conhecida. Saúda-se tal precaução entre nós, mais habituados a lamentar o prejuízo enquanto corremos afoitos atrás das compensações.

É uma herbácea perene, lenhosa na base, que chega perto dos 50 cm de altura, com flores lilases e folhas glabras e brilhantes (o latim nitens significa precisamente luzidio), dispostas em rosetas semelhantes às da europeia Scabiosa columbaria L. Esta, segundo Hanno Schäfer (Chorology and Diversity of the Azorean Flora, Dissertationes Botanicae, 2003), é um antepassado plausível da planta açoriana. Está presente em todas as ilhas, com excepção da Graciosa — mas, segundo H. Schäfer (Flora of the Azores — A Field Guide, 2.a edição, 2005), poderá estar extinta no Faial —, e cresce em falésias, praias de calhau rolado, matos costeiros, pastagens de baixa altitude e prados húmidos de montanha abaixo da floresta de nuvens.

O leitor fará a fineza de a comparar com estas outras escabiosas do continente.

25/08/2011

Furalha malfurada

Hypericum foliosum Aiton


Uma das plantas endémicas açorianas que melhor resistiu à ocupação humana e ao avanço das espécies exóticas foi este hipericão robusto e avantajado que, pelo porte (pode chegar a 2 m de altura) e pelo aspecto geral, faz lembrar o hipericão-do-Gerês (Hypericum androsaemum). Deve contudo reconhecer-se que o hipericão açoriano (a que os ilhéus chamam furalha, malfurada ou milfurada) é o mais vistoso e bem proporcionado dos dois, não sofrendo de discrepância entre o tamanho das folhas e o das flores.

O H. foliosum leva a sério o preceito darwinista de que para sobreviver é preciso adaptar-se. Além de frequentar assiduamente o pouco que resta da floresta natural das ilhas, também é visto em plantações de criptomérias e em matas de incenso (Pittosporum undulatum), em falésias e encostas, em bermas de estrada, e até, como planta pioneira, em taludes resultantes de derrocadas.

Dada a sua ubiquidade, é algo surpreendente que só o tenhamos visto florido uma única vez, no último dia da estadia na ilha das Flores, em Junho. As visitas anteriores ao arquipélago tinham sido a outra ilha (Terceira) e num mês já tardio (Outubro), mas Junho parecia perfeito, pois os manuais prescrevem, para o H. foliosum, um período de floração de Abril a Junho. Mas a verdade é que nas Flores não é assim: no princípio de Junho está ainda tudo atrasado. Foi só a baixa altitude, no norte da ilha, que vimos uns poucos arbustos com floração incipiente — um feliz encontro só possível por os aviões não terem voado nesse dia.

24/08/2011

Ratos & orelhas

Cerastium azoricum Hochst. [= Cerastium vagans subsp. azoricum (Hochst.) Govaerts]


Nomes vulgares: orelha-de-rato-dos-Açores, Azorean mouse-ear chickweed
Ecologia e distribuição: endemismo açoriano exclusivo das Flores e do Corvo; vive em falésias costeiras, encostas íngremes e húmidas, quedas de água e bordas de pastagens, em altitudes inferiores a 600 m
Época de floração: Junho a Agosto
Data e local das fotos: Junho de 2011, ilha das Flores
Informações adicionais: planta ramificada, com hastes até 40 cm de comprimento e flores de uns 2 cm de diâmetro; apesar de não ser incomum nas Flores, o facto de só existir no grupo ocidental do arquipélago torna-a vulnerável

23/08/2011

A cavalo branco não se olha a cor


Centaurium scilloides (L. fil.) Samp.


Escolhemos visitar a ilha das Flores no início do Verão para podermos ver a versão albina do Centaurium scilloides — uma forma que, sendo rara no continente, é a única que ocorre em todas as ilhas dos Açores. Também aqui esta planta perene prefere habitats húmidos, ravinas e rochas, não é exigente com a qualidade do substrato e é resistente ao sal e à maresia. Apreciando invernos e verões amenos, é mais frequente nas zonas costeiras e na floresta laurissilva entre os 400 e os 700 metros de altitude. As flores, em geral solitárias, medem cerca de 2 cm de diâmetro. Apesar de o período de floração ser longo e de este centauro constar da lista vermelha em França e Inglaterra, crê-se que só não está em regressão no norte de Espanha e nos Açores.

A cor das corolas e as folhas um pouco mais estreitas são as únicas diferenças detectadas entre os espécimes continentais e os insulares. Por isso, a proposta de considerar a variante branca como uma subespécie (C. scilloides subsp. massonii (Sweet) Palhinha) não vingou. E, naturalmente, houve quem questionasse o seu parentesco com as plantas do continente. Esta espécie é endémica da costa atlântica do oeste europeu, entre Portugal (onde se restringe ao norte) e as ilhas britânicas, e só nos Açores não dá flores cor-de-rosa. Ora a componente genética responsável pela cor branca (ou melhor, pela ausência do rosa) é, como em outros géneros, recessiva. E portanto, admitindo que a planta açoriana, cuja presença nas ilhas se crê ser anterior à ocupação humana, tem um antepassado europeu, como chegou ela às ilhas e por que é a versão recessiva, à partida com baixa probabilidade de dominar, a única que ali sobrevive?

Como em muitos capítulos da História, há boas conjecturas mas não ainda uma resposta conclusiva. Fizeram-se aturadas experiências, claro. Revelaram que uma só destas plantas pode produzir num ano mais de 11 mil sementes, um terço das quais mantém a viabilidade e a capacidade de flutuar no mar durante pelo menos quinze dias. Uma vez aportada a uma das ilhas (fosse trazida pelas marés ou por aves marinhas), o vento, o mar e os pássaros certamente ajudaram na colonização das outras, o que justificaria que todas as plantas açorianas sejam de flor branca. E há registos de plantas albinas na Galiza e outras com flores de um rosa esbatido na Cantábria e na Normandia. Mas estes estudos não chegam para decidir se a planta açoriana teve origem no continente — embora sugira que o sentido inverso é menos plausível — nem se a viagem, a ter existido, foi directa. E não explicam por que razão (evolutiva, por adaptação a novos polinizadores, ou outra) só há a versão albina nas ilhas; nem por que não consta da flora da ilha da Madeira.

A abreviatura (L. fil.) Samp. no nome desta espécie indica que foi primeiro descrita (em 1782, como Gentiana scilloides) por Carl von Linnaeus (1741-1783), botânico sueco com o mesmo nome do pai, que participou numa expedição botânica à Europa ocidental entre 1781 e 1783; e que essa designação foi corrigida mais tarde (1913) por Gonçalo Sampaio.

22/08/2011

Semana das Flores


Lagoa Comprida — ilha das Flores
Quem se imagina já de malas aviadas para o paraíso na Terra, materializado em paisagens de sonho numa ilha quase incólume, talvez deva ser avisado de que nem só de beleza vive o homem. Com uma densidade populacional de 28 hab/Km^2, seis vezes inferior à de São Miguel, a ilha de Flores é a mais esparsamente povoada dos Açores. É também, excluindo o Corvo com os seus 400 habitantes, aquela onde mora menos gente: quatro mil pessoas. Como se diz no linguajar moderno, a falta de massa crítica é um problema. Que não haja multiplexes de cinema para preencher o tédio dos fins-de-semana é um inconveniente menor na vida dos ilhéus. Afinal, em todo o arquipélago só em Ponta Delgada, cidade já com pinta de metrópole, é que existe tal entretenimento. Bem mais grave para os florentinos é a falta, não apenas de um hospital, mas de consultas médicas de especialidade. Casos que poderiam ser de rotina são encaminhados, pelo centro de saúde da ilha, para o Hospital da Horta: duas vezes 230 Km de avião, dias inteiros perdidos para uma consulta de poucos minutos. Ou, tratando-se de mulheres grávidas, quatro ou mais semanas longe de casa, no Faial, à espera do dia do parto. Nas Flores, um dos custos paradoxais da insularidade é não se poder nascer na ilha.

O nosso assunto, porém, é outro; e, tanto na paisagem como na vegetação, as Flores são o mais apurado resumo do arquipélago açoriano. É uma ilha compacta, rectangular, com 16 Km de extensão de norte a sul e 12 Km de leste a oeste. Ao longo da costa, desenvolvem-se vertiginosas falésias de duzentos a trezentos metros de altura, cortadas por inúmeras cascatas; subindo para o centro da ilha, encontramos crateras emolduradas por vegetação cerrada, autênticas florestas virgens à escala liliputiana. Das estradas, modestas e com poucas rectas, há umas que atravessam bosques, como a que vai de Santa Cruz às Lajes, e outras, pelo interior da ilha, rodeadas de pastagens que se perdem na ondulação dos montes. Tudo isto envolto no mistério de uma névoa intermitente e regado por uma chuva quase diária.

Na ilha das Flores, menos transformada pela acção humana, é fácil encontrar certas plantas nativas açorianas que, nas demais ilhas, estão reduzidas a pequenos núcleos ou refugiadas em lugares inacessíveis. Um bom exemplo é a Platanthera azorica, que já quase desapareceu do Faial e do Pico e cuja ocorrência hoje em São Miguel é incerta. Outro é a Veronica dabneyi, ressuscitada nas Flores depois de presumivelmente extinta no Faial.

Para melhor sublinhar o mérito florístico das Flores, e para encorajar outros naturalistas, amadores ou profissionais, a visitar a ilha, mostramos esta semana mais algumas das plantas que lá observámos em Junho. Com uma ou outra excepção, trata-se de espécies endémicas açorianas que existem na generalidade das ilhas do arquipélago. Todas elas, por possuirem parentes próximas no continente, ilustram o carácter marcadamente europeu da flora açoriana.

Bellis azorica Hochst. ex Seub.
A margarida-dos-Açores (Bellis azorica) é, vê-se-lhe bem pela cara, prima da vulgar bonina dos nossos relvados (Bellis perenis). Com hastes rastejantes de não mais que 20 cm de comprimento, distingue-se da sua congénere pelas inflorescências mais pequenas, por ser mais hirsuta, e por ter folhas caulinares e não apenas basais.

É improvável, contudo, que o leitor alguma vez se veja na necessidade de recordar estes detalhes para saber se está perante uma espécie ou outra. É que a Bellis azorica, apesar de só não ocorrer em três das ilhas (São Miguel, Santa Maria e Graciosa), é uma das plantas mais raras e ameaçadas da flora endémica açoriana. Pouca gente a encontrará por acaso; ou, encontrando-a, terá dúvidas sobre a sua identidade. Ao contrário da sua prima continental, que encontrou em habitats criados pelo homem (os relvados de jardim) o seu lugar de eleição, a margarida-dos-Açores é pouco ou nada adaptável e não tolera ambientes degradados. Os poucos núcleos remanescentes da planta, que floresce de Junho a Julho, localizam-se em ravinas, crateras e florestas húmidas de louro e cedro. Os exemplares das fotos vivem junto à Lagoa Comprida, sob a protecção de um atarracado cedro-do-mato (Juniperus brevifolia) que, com assinalável belicosidade, dificultou quanto pôde o trabalho do fotógrafo.

30/07/2011

Férias

Azorina vidalii (H.C. Watson) Feer — Santa Cruz das Flores
Regressamos no dia 22 de Agosto

29/07/2011

Vale do Zêzere


One of the many correct-until-next-week versions of the world that I was taught was Berkeley's. He held that the world of "houses, mountains, rivers and in a word all sensible objects" consists entirely of ideas, sensory experiences. What we like to think of as the real world, out there, corporeal, touchable, linear in time, is just private images – early cinema – unreeling in our heads. Such a world view was, by its very logic, irrefutable. Later, I remember rejoicing at Literature's reply to Philosophy: Dr Johnson kicking a stone and crying, "I refute it thus!". You kick a stone, you feel its hardness, its solidity, its reality. Your foot hurts, and that is proof. The theorist is undone by the common sense of which we are so Britishly proud.

The stone that Dr Johnson kicked, we now know, wasn't solid at all. Most solid things consist mainly of empty space. The earth itself is far from solid, if by solid we mean impermeable: there are tiny particles called neutrinos, which can pass right through it, from one side to the other. Neutrinos can pass – were passing – through Dr Johnson's stone without any trouble; even diamonds, our epitome of hardness and impermeability, are in fact crumbly and full of holes. However, since human beings are not neutrinos, and it would be distinctly pointless for us to try passing through a rock, our brain informs us that the rock is solid. For our purposes, in our terms, it is solid. This is not what is true, but rather what it is useful for us to know. Common sense raises utility into factitious but pratical truth.


Julian Barnes, Nothing to be Frightened of (Jonathan Cape, 2008)

28/07/2011

Sanguinho das ilhas

Frangula azorica V. Grubow
O sanguinho-das-ilhas (Frangula azorica) é a versão açoriana do sanguinho-de-água (Frangula alnus), árvore frágil e de pequeno porte que surge esparsamente junto a rios e ribeiras na metade norte do país. Na sua encarnação atlântica, ganha um porte mais robusto (até 10 m de altura) e folhas maiores (10 a 15 cm contra 3 a 7 cm da F. alnus); e, talvez por a chuva no arquipélago ser um fenómeno quotidiano, perde a compulsão de viver junto a cursos de água. Gosta da companhia de loureiros e juníperos na floresta de nuvens, mas também aparece dispersa em ravinas e sebes. De todas as ilhas açorianas, só não está presente em Santa Maria, Graciosa e Corvo. Embora não seja rara, o pastoreio, o abate e a invasão de exóticas têm vindo a depauperar as suas populações, a ponto de ela ter sido listada na Directiva Habitats (Decreto-Lei n.º 140/99). Na Madeira, onde também terá existido, só subsistem dela vestígios fósseis.

Contrariando a opinião do seu predecessor Tournefort (1656-1708), Lineu, no seu Species Plantarum (1753), incluiu estas árvores no género Rhamnus. Foi Phillip Miller, em 1768, que emancipou o género Frangula, caracterizando-o pelas flores hermafroditas de cinco pétalas. Nos arbustos do género Rhamnus, por contraste, as flores têm quatro pétalas e são de dois tipos: masculinas ou femininas. (Veja as fotos acima e também aqui.)

Por muito insignificantes que pareçam - e a verdade é que ninguém planta sanguinhos pelo seu valor ornamental -, as flores são um bilhete de identidade que raramente engana. Antes de os estudos genéticos virarem a taxonomia às avessas, era a morfologia das flores que ditava a fixação dos géneros e das famílias botânicas. Por isso não se entende que uma obra tão conservadora como a Flora Ibérica (que persiste, por exemplo, em reconhecer a circunscrição tradicional da família Scrophulariaceae) queira suprimir o género Frangula, diluindo-o novamente no género Rhamnus. Mas, visto que o tomo correspondente ainda não viu o prelo, talvez a omissão seja um lapso ainda a ser corrigido.

27/07/2011

Titímalo pernalta

Euphorbia characias L.


Nomes vulgares: maleiteira-maior, titímalo-maior, mediterranean spurge
Ecologia e distribuição: ocorre em Portugal e na bacia mediterrânica de Espanha até Itália, e ainda em Marrocos e na Líbia; prefere terrenos calcários em lugares soalheiros e secos
Distribuição em Portugal: Trás-os-Montes, Beiras, Estremadura, Algarve
Época de floração: Março a Maio
Data e local das fotos: Março de 2010, Cabo Espichel (foto 2) e Pousaflores, Ansião (fotos 1 e 3)
Informações adicionais: planta robusta (até 1,5 m de altura), de base lenhosa, formando touceiras com muitas hastes; característica dos prados secos mediterrânicos, é popular como planta de jardim em Inglaterra

26/07/2011

A cavalo nas dunas

Centaurium chloodes (Brot.) Samp.


"If I eat one of these cakes", she thought, "it's sure to make some change in my size"... So she swallowed one... and was delighted to find that she began shrinking directly.
Lewis Carroll, Alice's Adventures in Wonderland (1865)

Este centauro é o mais pequenino que conhecemos. A razão está na fraca dieta, pois resigna-se ao que as areias em dunas ou depressões húmidas do litoral lhe fornecem, o que é quase nada temperado com sal e muito vento. Foi difícil encontrá-lo por ser tão diminuto (as folhas basais medem cerca de 5 mm) e, sobretudo, de floração tão efémera: numa semana, amareleceu o coxim de cor verde-relva (isto é, chloodes) formado pelas folhas sésseis, oblongas, carnudas e brilhantes (e que lhe valeu os madrigais confertum e caespitosa), e desapareceram as flores róseas que, apesar de medirem apenas um centímetro de diâmetro, nos permitiram detectar a planta. Uma vida apressada esta (como a da maioria das espécies do género Centaurium; uma excepção é o C. scilloides, que é uma planta vivaz), mas que basta para disseminar as sementes e garante o disfarce atempado no areal, antes que por ali circulem os veraneantes ou o tempo ameno se esgote.

É um endemismo do sudoeste europeu, que é como quem diz das dunas e falésias da costa atlântica francesa (onde, segundo o Guide de la flore des dunes littorales, coord. Jean Favennec, Office National des Forêts, de 1998, está praticamente extinta e é agora espécie protegida) e do litoral norte e noroeste da Península Ibérica. Todos os registos alertam para uma distribuição restrita e para as populações escassas, e por isso consta da lista de plantas vasculares com maior valor para a conservação. Por cá, ocorre da Beira Litoral ao Minho, mas a sua presença é pontual, palavra fiel ao indicar, por exemplo, os cerca de 12 metros quadrados com uns trinta exemplares desta planta no cordão dunar do Mindelo, um talhão destacado da Paisagem Protegida do Litoral de Vila do Conde. Em Espanha, são oito os registos no sistema Anthos, todos no litoral norte.

Esta planta foi primeiro descrita por Avelar Brotero (Fl. Lusit. 1: 276, 1804), que lhe chamou Gentiana chloodes. A inclusão dela no género Centaurium deve-se a Gonçalo Sampaio (Herb. Port.: 106, 1913). Por esta ligação a gente e terra lusas, em alguma bibliografia é referida como centauro menor português.

25/07/2011

Desuva

Vaccinium cylindraceum Sm.
Os mirtilos, pequenos frutos esféricos e azulados a que os anglo-saxónicos chamam billberries, blueberries ou cranberries, não são coisa que os portugueses consumam regularmente. A situação está em vias de mudar com o cultivo em larga escala do mirtilo em São Pedro do Sul e concelhos vizinhos. O desconhecimento do fruto em Portugal explica-se em parte pela raridade na natureza do arbusto que o produz, o Vaccinium mirtyllus. Fosse ele tão vulgar por cá como nos países do norte da Europa, e ter-nos-íamos habituados desde pequenos a colher mirtilos nos bosques e nos matos, como fazemos com as amoras silvestres. Ainda assim, o arbusto é mais comum do que se pensa: no Gerês é frequente encontrá-lo. Acontece que nessas populações silvestres a produção de frutos é tão escassa, e os poucos frutos que há são tão pequenos, que até um passarinho raparia uma fome negra se dependesse em exclusivo de tal dieta.

Deixemos o continente e rumemos umas centenas de quilómetros a oeste. Nos Açores não há mirtilos: o que há é a uva-do-mato, que é maior e melhor. Como arbusto ornamental, o Vaccinium cylindraceum, que é endémico dos Açores e ocorre em todas as ilhas do arquipélago excepto na Graciosa, suplanta largamente o V. mirtyllus. Pode chegar aos 3 m de altura, enquanto que o seu congénere continental não passa de um arbusto rasteiro. Entre Maio e Julho, as flores tubulares tingidas de vermelho aparecem profusamente em vistosos cachos. Não sabemos é dos usos culinários do fruto. Como ele é considerado comestível, e o arbusto é comum em grande parte do arquipélago, é plausível que seja usado em bolos e compotas. Mas talvez algum leitor açoriano nos possa esclarecer.

Dizem os livros que o Vaccinium cylindraceum, componente habitual da floresta húmida açoriana, ocorre de preferência acima dos 300 metros de altitude. Na ilha das Flores, porém, não parece respeitar esse limite, surgindo também em zonas baixas perto do mar. E é frequente, em taludes mais arborizados, que as flores, ao cair, estendam um tapete vermelho na berma da estrada.

22/07/2011

Não-te-esqueças do mar



Myosotis maritima Hochst. ex Seub.
[Endemismo açoriano, presente em todas as ilhas.]
O regatão Bonifácio assentou perto de mim e me mostrou uma folha de água, uma água dura, fria, lisa, enganchada, que nem a água debaixo da lagoa, presa em outra água e nessa água estava uma cara parecida com a cara de mãe Awa, mas não era ela, era a minha cara, eu ri e a minha cara riu, o regatão tinha feito uma folha de água fria, cara de espíritos, folha de espíritos, não era a minha cara porque era feita de água, lisa por fora, redonda, olhos puxados para as orelhas, nariz aberto, boca de umas taturanas encarnadas, perguntei se era a minha alma presa ali, o regatão fazia a magia da alma, ele prendeu a minha alma naquela folha, devia ser a minha alma, (...), a alma repetia o que eu via, se eu ria, ela ria, se eu mexia no cabelo, ela mexia no cabelo, a alma fingia que era eu, arremedava a minha cara, rodava, fazia ser tudo igual, grande era seu segredo de fazer ao mesmo tempo, de saber tudo o que eu ia fazer, não fazer antes nem depois, igual, e fazia bem, como uma irmã, como a cabeça de uma irmã, duas irmãs, que nem eu tivesse duas cabeças, Tenho eu duas cabeças? perguntei, e o regatão riu de mim, Esta indiazinha!

Ana Miranda, Yuxin: alma (Companhia das Letras, 2009)

21/07/2011

Arroz malandro

Sedum maireanum Sennen


As plantas do género Sedum apreciam reentrâncias de seixos, fazendo-nos saber que, ao contrário do que parece, há sumo no farelo da pedra. Os muros das cidades, quando em ruínas e sem grafitos, são um sucedâneo deste habitat que alguns arrozes-dos-telhados reciclam. Mas não todos. Este endemismo de Marrocos e da Península Ibérica é uma planta anual que precisa do ar enevoado das alvoradas e anoiteceres na montanha, embora também se possa encontrar em prados turfosos a baixa altitude e em areias temporariamente encharcadas. Dado o nosso arreigado hábito de maltratar as zonas húmidas, tornou-se raro por cá, embora haja registo dele em meia dúzia de províncias. A recompensa de uma tarde inteira de procura na serra do Açor foi uma única população pequena à beira de um riacho.

Quando em flor, na Primavera ou Verão, é das crassuláceas mais bonitas: as folhas alternas, lineares, de secção redonda, são amiúde de cor afogueada; e as flores, dispostas em corimbos, têm pétalas apiculadas cor-de-rosa, soldadas na base para formar um tubo curto - um arranjo delicado onde se destacam os dez estames dispostos em estrela e as anteras vermelhas. Como os outros, este Sedum mostra sinais de adaptação a condições extremas. As folhas são suculentas e pequenas (c. 8 mm), para não perder demasiada água por evaporação, os talos são rasteiros (de uns 10 cm), para se abrigar do vento, e os sistemas radiculares parecem exímios a procurar água e nutrientes. Além disso, antes da seca e dos incêndios do Verão, desaparece.

O nome presta homenagem ao botânico francês René Charles Joseph Ernest Maire (1878-1949), professor de botânica na Argélia, explorador da flora do Saara central e autor dos dezasseis volumes da Flore de l'Afrique du Nord (edição póstuma em 1953). Dezasseis? Certamente não descreve apenas o deserto, quase só dunas e siroco, uns poucos oásis e não mais de quinhentas espécies de vegetação de savana semi-árida, uma amostra botânica insignificante face à extensão daquele território. Porém, no canto noroeste de África, perto da ponta sul de Espanha, com um olho no mar Mediterrâneo e outro no oceano Atlântico, há a Cordilheira do Atlas, neve, floresta e uma biodiversidade invejável, e, mais acima, parte da Cordilheira Bética. Segundo as referências, foi em Marrocos, não muito longe de Casablanca, no sistema montanhoso Rif, onde chove a cântaros em boa parte do ano, que este Sedum foi primeiro encontrado por L. Emberger e R. Maire, em 1927. Chamaram-lhe S. villosum var. aristatum (Pl. Rif. Nov. 1: 7). A nomenclatura em vigor, contudo, é devida a Sennen (Étienne Marcelin Granié, 1861-1937; Diagnoses des Nouveautes Parues dans les Exsiccata Plantes D'Espagne et du Maroc 190, 1936) e a Mauricio (Desiderio Arnaiz), que o descreveram, em 1933, no Catálogo de la flora del Rif Oriental.

20/07/2011

Leite, mas pouco

Euphorbia exigua L.
Nomes vulgares: ésula-menor; titímalo-menor
Ecologia e distribuição: ocorre em toda a Europa, no oeste da Ásia, no norte de África e na Macaronésia, em prados de plantas anuais e terrenos algo ruderalizados, a altitudes variáveis (do nível do mar aos 1200 metros)
Distribuição em Portugal: todo o território (continente e ilhas)
Época de floração: Março a Julho
Data e local das fotos: Abril de 2011, serra dos Candeeiros
Informações adicionais: conforme indica o epíteto científico, esta espécie é das mais pequenas do género, e as plantas fotografadas não teriam mais que 5 cm de altura (embora, segundo a Flora Ibérica, elas pudessem atingir os 30 cm)