09/06/2011

Azul intermitente

Veronica serpyllifolia L.
No ano passado descobri esta verónica camuflada entre a relva do Parque das Virtudes, no Porto. Quando quis lá voltar na Primavera para a fotografar em melhores condições encontrei o portão fechado. O vigilante, com indisfarçável regozijo por fazer valer a sua pequena autoridade, não me deixou entrar. Explicou que o parque estava fechado porque tinha caído uma palmeira: de facto, a falta da Washingtonia filifera era tão notória como um sorriso com um dente a menos. A palmeira caída já havia sido retirada, e era estranho que a sua ausência fosse perigosa a ponto de obrigar ao encerramento do espaço, mas com vigilantes que cumprem ordens não adianta discutir. Além do mais, confiou-me ele cheio de misteriosa importância, o Parque estaria à espera de «projecto». Encolhi os ombros, pois já é hábito o Parque das Virtudes encerrar com razão ou sem ela durante meses ou anos. Quase ninguém lá vai, por isso o impedimento não é muito notado. Talvez entretanto já tenha reaberto, e deste «projecto», como de todos os outros «projectos» anteriores, só tenha sobrado uma vaga intenção sem data marcada.

Julgava pois que a verónica, morando do lado de lá dos portões trancados, me tinha fugido de vez. Mas não a haveria também noutros relvados mais acessíveis? Uma breve inspecção aos jardins das proximidades, desde o Palácio de Cristal à Praça da Galiza e aos palacetes do Campo Alegre, deu-me como resposta um enfático sim. A verónica-de-folhas-de-tomilho está firmemente estabelecida nos relvados dos jardins portuenses. Tem é uma vida intermitente, como todas plantas que colonizam relvados. De três em três semanas, lá vem a brigada dos cortadores de relva (seria descabido chamar-lhes jardineiros) apará-las à escovinha; nesse curto intervalo, as plantas têm que levantar o pescoço, florir e frutificar. Quem conseguir apanhá-las pouco antes de mais uma carecada, pode detectar as verónicas pelo contraste do verde da relva com as manchas azuis formadas pelas minúsculas flores (que têm cerca de 7 mm de diâmetro).

A Veronica serpyllifolia é uma planta vivaz, nativa de Portugal e de grande parte do hemisfério norte (Europa, Ásia e América). Além de frequentar relvados, também se encontra em certos ambientes naturais de montanha, como sejam bosques e margens de regatos.

08/06/2011

Viola da Estrela

Viola langeana Valentine


Nome vulgar: violeta de Gredos (em castelhano; em português não há nenhum nome registado)
Ecologia e distribuição: endemismo peninsular, ocorre em urzais e terrenos pedregosos, em altitudes dos 600 aos 1900 metros, na metade oeste do Sistema Central ibérico
Distribuição em Portugal: Serras da Estrela e da Malcata (Franco, Nova Flora de Portugal, 1971)
Época de floração: Março a Agosto
Data e local das fotos: Maio de 2011, perto da Lagoa Comprida — Serra da Estrela
Informações adicionais: apesar da sua pequenês (as flores têm de 1 a 1,5 cm de diâmetro), a planta (que é, sem favor, a mais bonita do seu género em Portugal) é fácil de encontrar na Serra da Estrela, por exemplo ao longo da estrada de Seia para as Penhas da Saúde
Adenda: correcção sobre a distribuição desta planta em Portugal; o Plano de Ordenamento da Reserva Natural da Serra da Malcata destaca-a como espécie rara e propõe a sua inclusão no Livro Vermelho da Flora de Portugal Continental

07/06/2011

Graal


Pinguicula vulgaris L.


O lugar não é inacessível, mas para chegarmos perto dos taludes a gotejar é preciso saltitar pelas rochas musgosas e arredondadas espalhadas pelo rio, e nem sempre a perna as alcança ou as pedras fazem a devida ponte. O resultado é um caminhar vacilante que raramente evita que saiamos dali encharcados. Mas o esforço justifica-se: recenseada desde 1884, mora ali a única população conhecida de Pinguicula vulgaris em Portugal.

A parede parecia feita de água e flores roxas que, de longe, diríamos serem só violetas, mas, perto delas, talvez porque partilhem os mesmos polinizadores, havia inúmeros pés de P. lusitanica e as rosetas basais de cor verde-limão, com cinco a oito folhas de beiras involutas, que procurávamos há um ano. Depois de verificarmos que se têm alimentado bem, a julgar pelas sobras no prato, estivemos largos minutos a conhecer as flores. São solitárias, campanuladas, de esporão assovelado, fauce branca e corola com lóbulos desiguais ondulados. A última foto mostra o fruto, uma cápsula ovóide que, lemos depois, contém uma centena de sementes diminutas e castanhas — a quimera dos coleccionadores. Durante o Inverno, a planta repousa: de cada pé, restará uma gema sem raízes, e não um subconjunto de folhas como acontece com a P. lusitanica.

Ocorre em quase toda a Europa, América do Norte, Ásia e norte de África, em turfeiras ácidas, charnecas húmidas e rochas ressumbrantes. Na Península Ibérica só se encontra a norte, e há registo de nomes vernáculos para ela em castelhano (atrapamoscas), catalão (viola d'aigua), galego (grasilla) e basco (ametz-bedarra). Por cá, cremos que ainda não lhe atribuíram nenhum; quer o leitor fazer uma proposta?

06/06/2011

Dobram cá como lá

Hyacinthoides non-scripta (L.) Chouard ex Rothm.
(fotografado no planalto de Castro Laboreiro)
A Nova Flora de Portugal, de João do Amaral Franco (1921-2009), foi publicada em três volumes (o último deles dividido em três fascículos e em co-autoria com Maria da Luz Rocha Afonso) ao longo de mais de 30 anos: o primeiro volume da obra apareceu em 1971; o terceiro fascículo do terceiro volume só viu o prelo em 2003, seis anos antes da morte do autor. É sina de tais obras de longo curso acusarem já alguma obsolescência no momento em que são completadas. Compilar a flora de um país ou de um continente é tarefa intrinsecamente interminável e, em condições ideais, deverá estar sob permanente revisão; adequa-se melhor aos formatos digitais modernos do que à imutabilidade do livro impresso.

A monumental obra de Franco foi, durante mais de vinte anos, a principal referência dos botânicos portugueses, fossem eles profissionais ou amadores. Vai deixando de o ser à medida que o projecto da Flora Ibérica, uma obra de muito maior envergadura, se aproxima da conclusão. Mas a Flora Ibérica é uma empreitada colectiva, que agrega os maiores especialistas, espanhóis e portugueses, em cada família botânica — entre eles o próprio João do Amaral Franco, que escreveu sobre coníferas e fagáceas.

Uma das omissões mais misteriosas da Nova Flora de Portugal ocorre no 1.º fascículo do volume III: na opinião de Franco e da sua co-autora Rocha Afonso, os tão britânicos bluebells (de seu nome científico Hyacinthoides non-scripta) não fazem parte da flora portuguesa. Sucede que a espécie, longe de ser no nosso país uma raridade vegetando em lugares recônditos e inacessíveis, é até frequente em prados e carvalhais em todo o planalto de Castro Laboreiro. Nos campos abandonados da aldeia de Pontes chega a formar os tapetes azuis que julgaríamos exclusivos de outras latitudes. E o património florístico do único Parque Nacional português há muitos anos que vem sendo exaustivamente estudado pelos nossos naturalistas.

Como se justifica tamanho lapso dos autores da Nova Flora de Portugal? A explicação mais plausível é que se tenham baseado exclusivamente em material de herbário, usando chaves interpretativas que não estabelecem uma separação clara entre o Hyacinthoides non-scripta e o Hyacinthoides hispanica. De facto, a distinção mais segura entre as duas espécies, e que não deixa qualquer dúvida a quem observa as plantas na natureza, faz-se pela forma das flores: as do H. hispanica têm a corola aberta, enquanto que as do H. non-scripta a têm tubular; e só no segundo é que as pétalas se recurvam distintamente sobre si próprias.

Não nos fica bem negar cidadania portuguesa a planta tão bonita. É por isso importante bradar aos quatro ventos que os sinos azuis tanto dobram em Portugal como na ilha de Sua Majestade.

03/06/2011

De-lírio

Iris lusitanica Ker Gawl. [= Iris xiphium var. lusitanica (Ker Gawl.) Franco]


A serra da Boa Viagem, afamada pelos fósseis, parece ser, pelo nome, uma mão gigante que cumprimenta o viajante sem o convidar a deter-se. Sábia medida pois há ali redutos de flora – diversa porque em diferentes altitudes e exposta a doses distintas de maresia – que não dispensam protecção. A mata, de pinheiros, lentiscos, medronheiros, madressilvas, tojo e urze, tem áreas estragadas por acácias, mas as encostas de calcários e grés, recheadas de orquídeas em Abril e pintadas de amarelo em Maio, compensam largamente esta nódoa. Em dia de céu sem neblina, do miradouro da Bandeira, à cota mais alta da serra, avistam-se salinas, uma praia extensa de areia branquinha e, afiançam alguns, as Berlengas. Se não alongarmos tanto a vista, veremos agora, a nossos pés, centenas de exemplares deste lírio amarelo.

Não sabemos que idade têm as cores, mas é certo que, com o tempo, ganharam dezenas de matizes que os dinossauros da serra não conheceram. Em Março, o amarelo que pintava estas encostas era dourado, de Narcissus bulbocodium. Há cerca de um mês, foi a vez do amarelo-bico-de-melro do célebre Senecio doronicum. No fim de semana passado, encontrámos o amarelo-maduro deste lírio. Pela rama, parece uma versão noutro tom dos maios-roxos, mas notam-se algumas pequenas diferenças entre os dois: neste, as tépalas externas são mais arredondadas e têm uma nervação fina acastanhada; as folhas são igualmente estreitas mas mais compridas; as hastes aparentam ser mais baixas e uma vez por outra têm duas flores em vez de uma só. Serão estas razões suficientes para uma distinção taxonómica?

Em qualquer caso, o lírio-amarelo-dos-montes é um endemismo da Península Ibérica, que ocorre apenas no centro de Portugal e na Extremadura espanhola. Prefere solos ricos em argila e calcário de locais pedregosos, abertos e soalheiros. Tem interesse económico como planta ornamental, por isso é urgente que a sua colheita seja vigiada por leis que transponham para Portugal as directivas europeias que, acautelando os habitats naturais, regulamentam a sua exploração. Quem sabe, o novo ministro do Ambiente terá tempo para dar atenção a este assunto.

02/06/2011

Pirâmides e trombetas

Ajuga pyramidalis L.


É algo misterioso que os britânicos tenham decidido chamar bugle (= trombeta) às plantas do género Ajuga. O mais provável é que se trate de uma dessas evoluções fonéticas em que as palavras, misturando-se umas com as outras, ganham conotações imprevistas. Em português também não escapámos à contaminação, pois búgula é um dos nomes comuns registados para a Ajuga reptans (os outros, segundo a Flora Digital de Portugal, são ajuga, consolda-média, língua-de-boi, erva-de-São-Lourenço e erva-carocha).

À Ajuga pyramidalis, pretexto para o postal de hoje, não concedeu o nosso povo a graça de um nome de baptismo. Recorremos então ao inglês bugle e fazemos soar festivas trombetas por a termos encontrado no planalto de Castro Laboreiro. Trata-se de uma planta que, segundo os manuais, se distribui por toda a metade norte do país, em prados e bosques de altitude, mas de facto é muito menos comum do que a A. reptans.

Pese embora a óbvia semelhança, as duas espécies são fáceis de distinguir, pois a A. pyramidalis, muito mais hirsuta do que a sua congénere, tem folhas peludas, enquanto que a A. reptans tem folhas glabras. Além do mais, as flores da A. pyramidalis, ao contrário do que sucede com as da A. reptans, ficam quase escondidas pelas brácteas proeminentes. E, se o aspecto geral das flores é o mesmo nas duas espécies, na A. pyramidalis as estrias brancas formam um contaste muito mais vincado com o fundo azul.

Acrescentam os manuais que a A. pyramidalis floresce de Março a Julho — o que, tendo-a nós visto nos finais de Abril, está de acordo com a nossa experiência.

01/06/2011

Segundo andamento

Viola lactea Sm.


Nome vulgar: pale dog violet
Ecologia e distribuição: urzais em sólido ácido e pobre, desde o nível do mar até aos 1600 m de altitude; ocorre na Grã-Bretanha, Irlanda, França e Península Ibérica
Distribuição em Portugal: do Minho e Trás-os-Montes até ao Algarve
Época de floração: Abril a Junho
Data e local das fotos: Abril de 2011, EN 202-3, entre a Ameijoeira e Varziela
Informações adicionais: a forma lanceolada das folhas e a cor pálida das flores (a que faz alusão o epíteto lactea), além do habitat distinto, permitem diferenciar esta espécie da V. riviniana e da V. palustris

31/05/2011

Lírio de espadas

Iris xiphium L.


Aprendi com as primaveras / a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira. Cecília Meireles, Desenho (Mar Absoluto e Outros Poemas, 1945)

Tem chovido, é certo, às vezes com a violência de um castigo, e ouvem-se discursos que nos indignam, mas há a feira a sugerir leituras e as herbáceas que irrompem do verde carregadas de flores. Tudo para uma glória efémera, por fidelidade à semente, mas é agradável confirmar que a terra não se esqueceu de que Maio é o mês dos lírios.

Este foi avistado perto de Alcanena num mato baixo que ardeu recentemente. Valeu-lhe ser planta vivaz que se salvaguarda num bolbo robusto e arrojados bolbilhos. Além de um punhado de folhas glaucas, finas e caneladas, tem uma haste elegante de uns 60 cm de altura (muito mais alta que a do Gynandriris sisyrinchium), mais longa que as folhas, no topo da qual se arvora uma flor solitária. Com uns 10 cm de diâmetro, cada flor tem segmentos internos azuis e uma mancha amarela quase até ao bordo das tépalas externas (o Maio-pequeno tem outra, mas branca). O porte da haste floral, que a primeira foto regista, justifica o epíteto xiphium, nome que deriva do grego xiphos, espada (ou, melhor, florete).

É uma espécie rupícula, de montanha, que já terá sido frequente em prados, lugares sombrios arenosos, sítios pedregosos e pousios na Península Ibérica – de onde, dizem, esta espécie é originária — e noutros países do sudoeste da Europa. Em Portugal ocorre em quase todo o centro e sul. É conhecida entre os horticultores como Spanish Iris, talvez para se distinguir dos inúmeros híbridos de jardim que se vendem como Dutch Iris — negócio que, denuncie-se, levou ao corte insensato de flores e à colheita desregrada de sementes.

Aguardamos o veredicto da Flora Ibérica sobre a família Iridaceae para sabermos se prevalece a opinião de Amaral Franco et al. segundo a qual este lírio (que, na Nova Flora de Portugal, se designa Iris xiphium var. xiphium) admite uma variedade de flores totalmente amarelas (o Iris xiphium var. lusitanica (Ker-Gawler) Franco) ou se, como defendem outros botânicos, a versão amarela constitui uma espécie autónoma, endemismo ibérico raro, o Iris lusitanica Ker Gawl. O leitor poderá deixar aqui o seu parecer na sexta-feira, quando mostrarmos a planta.

30/05/2011

Do Gerês para Crestuma

Saxifraga lepismigena Planellas
Que a botânica não é uma ciência exacta impõe-se como uma evidência a quem se interesse por plantas. Os taxonomistas não parecem prezar nem a coerência nem o senso comum. Nada lhes parece dar mais gozo do que afirmar que duas plantas aparentemente iguais pertencem a espécies diferentes — a não ser a afirmação oposta de que duas plantas obviamente diferentes são na verdade a mesma coisa. Não são poucos os especialistas que passam de uma posição à outra sem perderem a compostura.

A Saxifraga lepismigena fornece um bom exemplo desta compulsão em distinguir o que não se distingue. A planta é uma sósia perfeita da Saxifraga clusii, tão perfeita que a Flora Iberica gasta praticamente as mesmas palavras para descrever uma e outra espécie. Um único detalhe as diferencia: a S. lepismigena, ao contrário da sua irmã gémea, opta por vezes pela reprodução vegetativa, substituindo algumas flores por bolbilhos. No entanto, a variação análoga e muito mais notória que ocorre no Allium vineale é, no mais recente consenso dos especialistas, destituída de relevância taxonómica.

Que um pormenor insignificante tenha levado à emancipação da Saxifraga lepismigena acaba por ser bom, pois com isso ganhámos um endemismo para o noroeste peninsular (a S. clusii atravessa os Pirenéus e é também francesa). É uma planta que disputa com a também nortenha Saxifraga spathularis o título de mais bela do seu género na região. Uma é hirsuta, outra é glabra, ambas têm uma roseta de folhas basais e hastes de uns 30 cm com as flores dispostas em panícula. A S. lepismigena dá flores mais pequenas (8 mm de diâmetro) e de um design mais requintado, mas a S. spathularis ganha em motivos decorativos, com cinco pintas por pétala contra duas da sua adversária.

A S. lepismigena, que em Portugal se restringe ao Minho, Trás-os-Montes, Douro Litoral e Beira Litoral, vive em locais ensombrados e com humidade permanente. Tem uma preferência por lugares de altitude (acima dos 500 m), e é relativamente frequente no Gerês (menos, porém, que a S. spathularis). Contudo, as plantas que fotografámos vivem em Crestuma, no Parque Botânico do Castelo, a uma altitude que deverá rondar os trinta metros. E ninguém as levou para lá: trata-se claramente de uma população espontânea. É lamentável que as plantas não leiam a Flora Ibérica.

27/05/2011

O segredo do trevo



Os homens e as suas indústrias poluem os rios,
o mar, o ar que já escurece por cima das cidades
e a terra, as montanhas, a grande floresta.
Dos quatro elementos antigos – não sei se já reparou –,
o homem só é incapaz de poluir o fogo.
O fogo terá um mistério, certamente.

Gonçalo M. Tavares, Uma Viagem à Índia (Caminho, 2010)

26/05/2011

Bons ares de outras terras

Verbena bonariensis L.
Há em Alfena, perdido entre eucaliptais, um milagroso prado húmido que merecia ser declarado micro-reserva botânica. Contam-se em mais de uma dezena as espécies que, sendo escassas ou mesmo desconhecidas na região do Porto, tiverem artes de lá se instalar: Isoetes, Potamegeton polygonifolius, Baldellia alpestris, Gentiana pneumonanthe, Radiola linoides, Cirsium filipendulum, Hypericum elodes, Anagallis tenella, Scutellaria minor, etc. O incêndio que varreu o local no Verão passado levou ao alargamento do caminho junto ao prado, e não tardou que os veículos todo-o-terreno ameaçassem reduzir toda a diversidade vegetal a uma sopa lamacenta. Felizmente, a Câmara de Valongo, em resposta aos alertas, espetou umas estacas no chão para desviar os monstros motorizados. E talvez este ano, ao contrário do que o pessimismo nos segredava, regressem as plantas que fizeram a nossa alegria.

Uma das plantas que conquistou um timeshare no prado foi esta verbena altaneira com todo o ar de ser alienígena. Na verdade, a grande maioria das cerca de 250 espécies do género Verbena nasceu nas Américas — do Norte, Central ou do Sul — e a V. bonariensis, originária do Brasil e da Argentina, não é excepção. O epíteto específico refere-se aliás à cidade de Buenos Aires. É uma planta erecta e vistosa, de floração estival, capaz de atingir um metro e vinte de altura, com haste de secção quadrangular e folhas rugosas dispostas aos pares. Por via da sua utilização em jardinagem, naturalizou-se em muitos países de clima tropical ou temperado, a ponto de por vezes se tornar invasora indesejável.

Em Portugal, único país europeu onde ela fugiu dos jardins para a natureza, a Verbena bonariensis, por ser pouco comum, não parece constituir problema de maior. Contudo, talvez nos Açores o caso mude de figura: encontrámo-la em número apreciável na ilha Terceira, por exemplo em redor do paul da Praia da Vitória.

25/05/2011

Violas ao desgarrado

Viola kitaibeliana Schult.


Nome vulgar: dwarf pansy
Ecologia e distribuição: matagais, terrenos incultos e cultivados, bermas de estrada; ocorre na Europa, da Península Ibérica à Turquia e à Ucrânia, no norte de África e nas Canárias
Distribuição em Portugal: quase todo o território continental
Época de floração: Fevereiro a Junho
Data e local das fotos: Abril de 2008, vale do Tua
Informações adicionais: o epíteto específico homenageia Pál Kitaibel (1757-1817), botânico e químico húngaro

24/05/2011

V-de-pétala

Stellaria alsine Grimm
Só nos meses de floração, em geral na Primavera e início do Verão, as ervas do género Stellaria se destacam em bosques, charnecas e estuários. Apesar de quase cosmopolita, esta estrela ribeirinha não foi fácil de encontrar pois só cresce em sítios húmidos e sombrios (já se chamou Stellaria uliginosa) e as sépalas medem menos de 3 milímetros de comprimento.

É uma herbácea perene de rizoma ramificado, caules delgadinhos, quadrangulares e rastejantes, com folhas lanceoladas, sésseis e vincadas ao centro. As inflorescências de poucas flores são axilares ou terminais, e as cinco pétalas brancas, menores que as sépalas verdes, são fendidas quase até à base, cosendo-se cada metade à da pétala adjacente, o que justifica a designação bog stitchwort. Não sabemos que vantagem tem esta configuração em que as pétalas fingem estar de braço dado com a pétala vizinha, mas o efeito é bonito e repete-se na S. debilis, a única espécie do género na Patagónia.

As sépalas lembram empregados de mesa ágeis que seguram a bandeja com várias xícaras enquanto rodopiam pela sala: desunidas, suportam o tabuleiro de pétalas e afunilam na base, formato incomum em outras morugens. No centro da flor, há em geral dez estames e três estiletes de cerca de um milímetro. O fruto é uma cápsula verde com sementes vermelhas e tantas aberturas quantos os estiletes.

A origem do epíteto alsine é obscura, embora o dicionário Houaiss assegure que deriva do grego alsos, lugar com árvores.

23/05/2011

Carvalhinha rosada

Teucrium chamaedrys L.
A natureza não foi avara connosco quando se fizeram as partilhas do género Teucrium. Das trezentas espécies registadas em todo o mundo, a parte de leão coube à região mediterrânica; umas sessenta espécies escolheram viver na Península Ibérica, e dessas há quinze que são espontâneas em Portugal. A pequenez do nosso território não faria augurar tamanha benesse, e quinze é um número jeitoso. Mais do que isso e as espécies atropelam-se umas às outras, sem delimitações claras tanto morfológicas como geográficas. Está perfeitamente ao nosso alcance conhecer quinze espécies e tratá-las pelo nome próprio; sessenta é já um exagero e uma dor de cabeça. Coitados dos espanhóis.

Comecemos por fazer a revisão da matéria dada. O primeiro Teucrium que enfeitou estas páginas foi o mato-branco (T. fruticans). Trata-se de um arbusto ornamental muito popular nos separadores das auto-estradas, e que também é espontâneo no centro e sul do país. Depois, a urgência em escoar as fotos do arquivo levou-nos a juntar neste postal duas plantas de ecologia bem diversa: o T. scorodonia frequenta os bosques caducifólios do norte do país, enquanto que o T. polium prefere as encostas calcárias e soalheiras do centro-oeste.

Com o Teucrium chamaedrys regressamos ao calcário e à Serra dos Candeeiros, e também às plantas com potencial para uso em jardins. A nosso ver, pela folhagem brilhante e penugenta, e pelas flores rosadas a constrastar com o tom escuro dos cálices, este é o mais bonito dos quatro. Tão vistoso é que até o povo parece ter reparado nele: carvalhinha ou erva-carvalha são os nomes vernáculos pelos quais é conhecido, por certo motivados (como aliás o epíteto chamaedrys) pela semelhança das suas folhas com as dos carvalhos.

Semelhança que não se estende aos outros aspectos da planta, a começar pela envergadura. A carvalhinha é uma planta rasteira, com tufos de hastes que não ultrapassam os 30 cm de comprimento. As flores, que começam a aparecer por esta altura e se devem aguentar pelo menos até Julho, medem cerca de 1,5 cm.

O Teucrium chamaedrys ocorre em quase toda a Europa, e ainda no suoeste da Ásia e no norte de África. Em Portugal parece confinado às Beiras e à Estremadura.

20/05/2011

Lamparina-de-cuco

Silene laeta (Aiton) Godr.


Silenus foi aio, ou tutor, de Baco e uma divindade alegre ligada à floresta. As representações que dele a arte nos tem deixado enaltecem-lhe a jovialidade, o carácter satírico e o humor mordaz. Simboliza, na música (neste quadro, é a figura à esquerda), a sabedoria do que é espontâneo, criado de improviso, em contraste com o que é planeado e se elabora meticulosamente. Mas estes poderes concedidos pelo vinho têm um custo e, em todas as imagens, Silenus surge, rodeado de gente embebida de igual folia, como um herói burlesco, sem elegância, cambaleante e barrigudo. E é este detalhe físico que o cálice das silenes evoca.

Pelo contrário, a S. laeta, com flores quase sempre solitárias, de pétalas com cerca de 7 mm e cor delida, prefere a água. Habita solos turfosos, terrenos alagadiços, margens de lagoas de água doce e marismas, florescendo entre Maio e Julho. Talvez por isso o cálice seja menos pançudo — tanto que a julgámos um cravo e já esteve no género Lychnis — e a planta dure pouco, não mais que um ano.

É uma planta glabra e cespitosa, com folhas lanceoladas que terminam numa ponta curta e aguçada. Nativa da região mediterrânica e do sudoeste da zona eurosiberiana, ocorre na metade oeste da Península Ibérica e, por cá, de norte a sul perto do litoral.

19/05/2011

Cilada taxonómica

Scilla ramburei Boiss.
O erro de um especialista pode levar ao registo de uma nova espécie que é de facto indistinguível de outra já anteriormente baptizada. O erro de um amador, por contraste, só confirma a inépcia do sapateiro que quer subir acima da chinela. Amador e especialista têm portanto que adoptar comportamentos distintos: o primeiro só arrisca uma opinião depois de muito ponderar; o segundo esbanja opiniões e faz currículo com elas.

É por causa desta profusão de opiniões desencontradas que alguns géneros botânicos se transformam num campo minado para quem gosta de certezas. Que as cilas (género Scilla) são uma verdadeira cilada para o naturalista amador sabíamos nós há muito tempo. Até hoje conseguimos evitá-la, mas estas fotos esperaram já um ano para sair do baú. Ou erramos, ou não falamos mais de cilas. Erremos, pois.

A cila-de-uma-folha é de tal modo comum em bosques e matagais no início da Primavera que por vezes nem lhe prestamos atenção. Com esse alheamento perdemos a oportunidade de detectar variações interessantes. Algumas cilas também primaveris mas com o escapo floral mais espigado têm não uma, mas cinco ou seis folhas. São sem dúvida de uma espécie diferente, mas que espécie será essa? Talvez Scilla ramburei — pelo menos assim julgamos das plantas aí em cima, fotografadas nas margens do rio Ferreira, em Valongo.

Acontece que, no norte de Portugal e na Galiza, foram registadas pelo menos seis espécies de Scilla com caracteres morfológicos semelhantes: S. ramburei, S. verna, S. beirana, S. odorata, S. merinoi e S. paui. A delimitação entre as diversas espécies é controversa, e já houve quem apontasse que alguns destes nomes são na verdade sinónimos. Tanto quanto pudemos entender, S. beirana e S. ramburei designam a mesma espécie, que inclui plantas geralmente mais encorpadas do que a S. verna e a S. odorata. Mas mesmo esse traço distintivo não é seguro, pois uma mesma planta crescendo em solos ricos e húmidos desenvolve-se melhor do que em lugares áridos.

A Scilla é pois um género a carecer de urgente clarificação, tarefa que talvez a Flora Ibérica venha a cumprir. Mas as incertezas taxonómicas não nos devem impedir de admirar tais plantas.

Adenda 1. Sobre a taxonomia e morfologia do género Scilla e de outros géneros aparentados (Hyacinthoides e Ornithogalum), leia-se o extenso e educativo comentário que o Prof. Rubim Almeida, da Faculdade de Ciências do Porto, teve a amabilidade de deixar neste outro post.

Adenda 2. As fotos que originalmente acompanhavam este texto correspondiam a outra espécie que não a Scilla ramburei, e por isso foram substituídas.