31.7.07

Dieta a duas cores


Mórea

Esta é uma herbácea rizomatosa sul-africana que já se chamou Moraea bicolor Steud. (abreviatura de Ernest Gottlieb von Steudel, 1783-1856) em homenagem ao botânico inglês Robert More (1703-1780) mas que, em obediência à regra que manda adoptar o nome mais antigo, é agora Dietes bicolor Sweet ex G. Don (de Robert Sweet, 1783-1835, e George Don, 1764-1814). Nome tão antigo que, como não se encontra dicionário que saiba justificá-lo, pode apenas supor-se nele (erradamente) uma relação com dietas alimentares.

As folhas são espadas altas que se agrupam em leque e a flor é formada por seis tépalas, três das quais tigradas, e três petalóides ao centro. É conhecida em inglês como Spanish iris.

30.7.07

Cortina rasgada



A Avenida AEP, outrora Via Marechal Carmona, permitia, não há muitos anos, que nela circulassem peões e bicicletas: era então possível ir a pé, em pouco mais de meia-hora, da Rotunda da Boavista à Senhora da Hora, em Matosinhos. E o caminho, apesar de cruzar uma zona industrial, nem era desagradável de todo: a sombra dos plátanos era generosa, e a via para peões e ciclistas estava bem resguardada do restante tráfego. Mas aos poucos tudo foi mudando: a avenida passou a ser parte de um IC, mais tarde renomeado A28, construíram-se acessos e nós de auto-estrada, abriram-se passagens desniveladas, eliminaram-se passeios. Hoje, a ex-avenida é apenas uma peça adicional da cada vez mais apertada muralha rodoviária que cerca a cidade e nos obriga a usar o automóvel até em pequenas deslocações. Com a promoção à categoria de auto-estrada, surge em 2005 a inevitável ideia do alargamento: de momento, em Portugal, auto-estrada que se preze tem no mínimo três faixas em cada sentido; contudo, esse é apenas um estádio intermédio, altamente provisório, na cadeia evolutiva que nos levará às quatro, cinco ou sabe-se lá quantas mais faixas.

Na altura, eu e os meus colegas da Campo Aberto escrevemos a várias entidades (Estradas de Portugal, Instituto do Ambiente, Vereadores do Ambiente e do Urbanismo da Câmara do Porto), manifestando preocupação pelo destino dos mais de 100 plátanos adultos da ex-avenida, e pedindo informações adicionais sobre o projecto. Como é hábito em Portugal, não nos chegou qualquer resposta, mas também não voltámos a ouvir falar do projecto. Notícia recente no JN assegura-nos que ele não foi abandonado - o que só mostra como por cá as más ideias resistem facilmente às mudanças de governo. Quanto aos plátanos, uma fonte (não de água, mas falante) da empresa Estradas de Portugal terá dito o seguinte: «Apesar de ser feito um esforço no sentido de preservar a cortina arbórea existente ao longo de parte do IC1, será necessário afectar algumas dessas árvores para permitir a articulação da rede viária de cariz mais local.»

Não há que enganar: os rasgões na cortina hão-de ser grandes e sem remendo possível. Mas, como de nada serve enviar nova carta, limito-me a reproduzir textualmente, sem omitir nomes, aquela que a Campo Aberto enviou em Março de 2005 à Estradas de Portugal, E.P.E. (as outras três cartas tinham teor semelhante). Não vejo razão para lhe mudar sequer uma vírgula, e pode ser que desta vez alguém a leia.



......................................................Exm.º Senhor
......................................................Presidente do Conselho de Administração
......................................................EP - Estradas de Portugal, E.P.E.
......................................................Praça da Portagem
......................................................2809-013 ALMADA

.......Porto, 3 de Março de 2005

.......Assunto: alargamento da Avenida AEP (Porto)

.......Exm.º Sr. Engº António Carlos Laranjo da Silva,

.......Foi noticiado no jornal O Primeiro de Janeiro de 18 de Fevereiro de 2005 que está em estudo um possível alargamento da Avenida AEP, abrangendo o lanço da IC1 entre o Nó de Francos (concelho do Porto) e a Ponte de Leça (concelho de Matosinhos). O projecto, segundo a notícia, encontra-se em discussão entre a EP – Estradas de Portugal e as autarquias do Porto e Matosinhos para «acerto de pormenores», prevendo-se o seu envio ao Instituto do Ambiente, para análise do impacto das alterações propostas, até ao Verão do corrente ano. O Sr. Secretário de Estado das Obras Públicas, Eng. Jorge Costa, em declarações ao mesmo jornal, afirmou acreditar que a obra seja lançada e adjudicada no início de 2006.
.......A associação Campo Aberto vem manifestar a sua extrema preocupação pelas possíveis consequências desta empreitada no troço da Avenida AEP incluído no concelho do Porto. Esta estrutura viária, que corresponde à antiga Via Marechal Carmona e divide ao meio a zona industrial de Ramalde, foi construída na década de 1950 segundo o Plano Regulador da Cidade do Porto da autoria de Antão de Almeida Garrett. Acompanhando de ambos os lados a zona industrial, existe uma arborização contínua e homogénea, formada por mais de uma centena de plátanos de grande porte com cerca de cinquenta anos de idade. Até há poucos anos essa arborização estendia-se por toda a antiga Via Marechal Carmona, mas o desnivelamento do seu troço final levou ao arranque das árvores entre o viaduto de Antunes Guimarães e a rotunda AEP. Pelo seu número, pelo porte saudável que exibem, pelo seu valor paisagístico e ambiental, os plátanos sobreviventes constituem um património natural a preservar a todo o custo. Embora a notícia suscite dúvidas, pois fala de um alargamento para três faixas em cada sentido quando de facto tais faixas já existem (embora uma delas seja para transportes públicos), queremos deixar bem claro que consideramos o alargamento dessa via, e consequente abate de ainda mais árvores, como um atentado lesa-património que nenhum estudo de mobilidade viária pode justificar.
.......Há um outro aspecto do projecto divulgado que nos deixa perplexos: a construção de dois novos viadutos sobre esse troço da Avenida AEP, que ficaria com nada menos que três viadutos numa extensão de poucas centenas de metros. É pouco crível que as necessidades de deslocação entre as duas metades da zona industrial, que não registou expansão visível nas últimas décadas, justifiquem uma tal profusão de viadutos, construções pesadas que degradam inevitavelmente a paisagem urbana; e, em qualquer caso, é bom lembrar que o actual viaduto já serve o mesmíssmo propósito de conectar os dois pólos industriais.
.......Em conclusão, e considerando que o seu impacto negativo é inteiramente desproporcionado dos possíveis ganhos em fluidez de tráfego (que são sempre provisórios, pois maiores facilidades de circulação atraem sempre mais automóveis), somos enfaticamente contra a anunciada intervenção no troço portuense da Avenida AEP, tanto no que toca ao seu possível alargamento como à construção dos viadutos – os quais, se o alargamento não o fizer, também obrigariam ao sacrifício de numerosos plátanos, e ao consequente rompimento da continuidade paisagística desses dois alinhamentos arbóreos, notáveis apesar da amputação que sofreram no troço final da Via.
.......Vimos solicitar a V. Ex.ª que, com a brevidade possível, nos sejam facultadas informações detalhadas sobre o projecto.

.......Com os melhores cumprimentos,
.......Paulo Ventura Araújo



Fotos de Manuela D. L. Ramos (Março 2005)

28.7.07

Ter olhos e não ver

Estas árvores -tílias em Ramalde e plátanos no Passeio Alegre - são árvores condenadas. O seu destino foi traçado por pessoas que, apesar de terem olhos não vêem; são incompetentes; aparentemente desconhecem e não cumprem o Regulamento Municipal dos Espaços Verdes (RMEV)- disponível para consulta na página web da CMP (doc) ; gastam o nosso tempo, a nossa paciência e o nosso dinheiro.



O que seria de esperar de qualquer pessoa com um mínimo de bom senso era que não plantasse árvores de grande porte e copa larga em passeios estreitos, a pouca distância de paredes ou outros obstáculos, neste caso dois obeliscos classificados de interesse público (oriundos da Quinta da Prelada)

Fruto de um mau planeamento, estas são árvores condenadas, para seu mal e nosso profundo incómodo, a serem maltratadas, mutiladas, indecentemente podadas. Não, nem todas as histórias têm fim, esta "is a never ending one" .

27.7.07

Aviso

blogue em remodelação...

Na paragem do 502


Bordos-prateados (Acer saccharinum) - rua Sá da Bandeira - Porto

As carreiras dos STCP eram, antes da última reorganização da rede, numeradas com dois algarismos. Agora são-no com três. Porquê? Será que a quantidade de linhas aumentou tanto - atingindo agora a ordem das centenas - que dois algarismos já não bastam? Quem assim conjecture pode ter umas luzes de aritmética, mas não é nada cosmopolita. O novo sistema de numeração, descrito como intuitivo por quem o inventou, teve como modelo inspirador o mesmo que é usado nos melhores hotéis das grandes capitais do mundo (e também nos piores das pequenas capitais): o primeiro ou primeiros algarismos indicam o número do andar, e os restantes o número do quarto nesse andar; para entendermos o sistema STCP, só temos de substituir «andar» por «concelho», e «quarto nesse andar» por «autocarro que serve esse concelho». Do mesmo modo que da existência do quarto 903 não podemos deduzir que no hotel haja novecentos quartos, também da existência do autocarro 903 não se segue que os STCP tenham novecentas linhas diferentes. De facto, têm até menos linhas do que na época em que dois algarismos davam conta do recado.

Seja ele intuitivo ou não, o que é certo é que pessoas como eu, educadas desde pequenas no sistema antigo, têm dificuldades em assimilar o novo. É pior que o (felizmente) enguiçado acordo ortográfico luso-brasileiro: obriga-nos não só a mudar a ortografia, mas o próprio alfabeto; há uma parte da cidade que deixamos de saber ler. Devagarinho, lá vamos aprendendo a decifrar uma ou outra palavra, mas nunca recuperamos a antiga fluidez de leitura. Um dos autocarros novos que já aprendi é o 502, que parte da rua do Bolhão, faz na rua Sá da Bandeira a sua primeira paragem, e segue até Matosinhos. (Corolário: todos os autocarros na casa dos 500 vão para Matosinhos; agora só preciso de localizar mais algum deles para tirar proveito dessa minha arguta observação.)

O recado que tenho a dar é simples: a paragem do 502 na rua Sá da Bandeira é do melhor que há no seu género; fico até com pena quando o autocarro não se atrasa. É às árvores da rua que devo este milagre que me converte a espera, coisa em geral desagradável e enervante, em período de aprazível contemplação. Estes áceres (Acer saccharinum, ou bordos-prateados) que sombreiam o troço superior da rua são uma excelente herança (no meio de outras muito más) da Porto 2001. São esbeltos e têm crescido de forma notável, dando à rua um carácter aconchegante que ela nunca teve antes. Desfrutemo-los agora, enquanto não vier a poda estragá-los.

P.S. O Carlos Romão mostrou há dias estas mesmas árvores (em foto muito melhor do que as minhas) na Cidade Surpreendente.

26.7.07

Os carneirinhos


...
.........Todos querem ser pastores,
.........quando encontram, de manhã,
.........os carneirinhos,
.........enroladinhos
.........como carretéis de lã.
...
.................Cecília Meireles, Ou isto ou aquilo (1964)


Cordeirinhos-da-praia (Otanthus maritimus)

25.7.07

Eucaliptos gigantes


clicar para aumentar
Os eucaliptos gigantes de Portugal, Ernesto Goes, Lisboa, Portucel, 1979, pp. 103.

Ontem, num alfarrabista da cidade, encontrei este livro que apenas possuía em versão fotocopiada. O autor, engenheiro silvicultor de profissão, é considerado um pioneiro na campanha de preservação de árvores monumentais do nosso país, e os seus livros têm sido preciosos para a descoberta destes "monumentos vivos".
.
Na fotografia do lado direito vê-se o Eucalyptus obliqua gigante (ver placa identificativa só para gigantes também) do Jardim Botânico de Coimbra fotografado no Verão de 2006. Esta árvore, segundo Goes, media 40 m. de altura em 1979 e em 1985, 43.

24.7.07

Dia dos enganos

Foi um dia estranho, mais que os outros dias. Começou quando vi há tempos, num jornal, o presidente da Junta de Freguesia de São Jacinto queixando-se de que nem a Câmara de Aveiro nem a região de turismo da Rota da Luz faziam o bastante para atrair visitantes à localidade. Dei a mão à palmatória: realmente, apesar de conhecer Aveiro bastante bem, nunca tinha ido a São Jacinto - onde, além da base militar, da omnipresente ria, das praias e das dunas, há um atractivo de peso, que é a reserva natural.

Os domingos fazem-se também para adquirir as peças em falta no nosso conhecimento geográfico do país: eis-nos pois de abalada em resposta ao apelo do senhor presidente de junta. Não pela costumeira ponte de Arrábida, encerrada ao trânsito para deixar passar seis mil ciclistas em passeata solidária. Ora aqui está - numa ponte que, dispondo embora de passeios, nenhum peão pode atravessar sem risco de vida - uma desforra em grande do transporte ecológico. Insinua-se-me porém uma pergunta: os seis mil ciclistas terão mesmo ido de bicicleta ou a pé até ao local de partida?

E foi essa a primeira estranheza do dia: a saída para a A1 pela ponte de Freixo. Outras se seguiram: em Aveiro, ao almoço, não havia caldeirada porque a ria tem dado poucas enguias; ficámo-nos pelo (excelente) ensopado de... enguias de viveiro. De novo na estrada, procurámos indicações para São Jacinto; não vimos nenhuma, mas pareceu-nos avisado rumar às praias. Chegados à Barra, que é uma língua de areia eriçada de prédios por todo o lado, inquirimos do caminho para São Jacinto. Disseram-nos que pela ria era perto, cerca de 2 km, mas por estrada eram mais de 40 e teríamos que dar a volta por Estarreja. O melhor era apanharmos o barco no Forte da Barra. E como se vai daqui para o Forte da Barra? Enfiámos por um labirinto de gafanhas, perdemo-nos não poucas vezes, perguntámos aqui e ali, mas lá encontrámos o forte e, ao lado dele, o barco já quase a soltar as amarras. (Tem um encanto libertário, nesta época do GPS, andarmos assim à deriva e só chegarmos ao destino à força de muito perguntar.)


São Jacinto - Aveiro

A Barra e São Jacinto são as extremidades das duas penínsulas arenosas e longilíneas que fazem a fronteira entre a ria de Aveiro e o mar: a do sul começa abaixo de Ílhavo; a do norte, muito mais comprida, só em Ovar se cola à terra firme. Como qualquer mapa de estradas nos teria ensinado, era justamente por Ovar que devíamos ter ido. Só a Barra está ligada à sede do concelho por uma ponte; São Jacinto, para quem vive em Aveiro, é como uma ilha, mas o isolamento poupou-a à voragem imobiliária que sufocou a península vizinha. As casas são baixas e as ruas são calmas; há pouco trânsito, e o que há circula sem pressas; há muita vida de café e muita conversa entre vizinhos.

Bom, e a reserva natural? Não chegámos a visitá-la, e as pessoas que interrogámos pareciam desconhecer a sua existência. Fomos até à praia - meia hora a pé por uma estrada em linha recta, ladeada por vivendas e pinhais - e encontrámos dunas parcialmente protegidas, mas também um estradão de terra que, rasgando-as, permitiria sem dificuldade o cruzamento de dois camiões TIR. A reserva - soubemos depois pelos folhetos que recolhemos num posto de informação da freguesia - começava mais a norte. Chegar lá a pé teria consumido boa parte do que restava da tarde, e havia ainda que apanhar o barco de volta. Já se vê que a tarefa inconclusa nos obriga, com muito gosto, a regressar a São Jacinto.

A vegetação das dunas era, com uma ou duas novidades, a mesma que já encontráramos na Aguda. Mas uma das novidades recordou-me, nesse dia de enganos, um meu outro engano recente: há dias sugeri, em comentário no Vulgar de Lineu, que uma das magníficas fotos (#422) que o José Bandeira lá publicou seria de uma Linaria; afinal era de uma planta da mesma família (bocas-de-lobo, Anthirrinum majus) que eu nunca tinha visto. Agora já vi, e estou contente.


Antirrhinum majus

23.7.07

Gatice


Isotoma axillaris

À entrada do Jardim Botânico do Porto, em frente à casa Andresen, está uma mini-rotunda muito florida onde, desde a reabertura do jardim, se exibem vários pés de Isotoma axillaris. A floração durará até Outubro e, se as plantas não forem removidas, esse recanto ficará talvez a ser a sua casa. É que a Isotoma axillaris multiplica-se com facilidade por semente, e é vulgar encontrarem-se rebentos junto da planta mãe: vinda com malas e bagagens da Austrália, ela faz de qualquer jardim onde se sinta bem o seu habitat natural.

As flores são perfumadas e têm um tubo muito longo, com um narizinho junto às pétalas; as folhas são estreitas, penugentas e dentadas. Estas plantas precisam de muito sol e terra bem drenada, gostando mesmo, como nós, de morar entre pedras. O seu manuseio requer cuidado porque se suspeita que a seiva provoque irritações de pele.

20.7.07




















mais informações:


Dedaleiras



Digitalis purpurea / Digitalis lutea

Que tristeza tão inútil essas mãos
que nem sequer são flores
que se dêem:
abertas são apenas abandono,
fechadas são pálpebras imensas
carregadas de sono.

Eugénio de Andrade, As mãos (in Os amantes sem dinheiro, 1950)

19.7.07

É fogo que arde e bem se vê


Eucalipto-de-flor-vermelha - Liceu Rodrigues de Freitas - Porto

Eucalyptus ficifolia ou Corymbia ficifolia: qual destes nomes científicos devemos usar? Em 1995, os cientistas Hill e Johnson, baseando-se em estudos genéticos, decidiram que um certo grupo de eucaliptos com características semelhantes tinha condições para declarar a independência; nascia assim, de uma cisão do género Eucalyptus, o género Corymbia. Só que a história não termina aí, pois um outro cientista, Ian Brooker, publicou em 2000 um artigo em que defendia a opinião oposta: o género Eucalyptus não tinha nada que ser dividido; pelo contrário, até devia ser alargado para abarcar ainda o género Angophora. O resultado desta divergência taxonómica é que hoje é tão correcto usar Eucalyptus ficifolia como Corymbia ficifolia: a escolha fica ao gosto de cada um. De facto, a edição mais recente, de 2003, de uma obra de referência sobre flora australiana, Australian Native Plants, de John W. Wrigley e Murray Fagg, apesar de mencionar a controvérsia, opta, em todos os casos, pelo nome Eucalyptus em detrimento de Corymbia.

Leia neste artigo de Jim Barrow (que não toma partido por nenhum dos lados da contenda) uma discussão mais pormenorizada do assunto.

18.7.07

«A árvore, essa desconhecida*

,
Uma árvore é também um prodígio de arquitectura…
Imagine o caderno de encargos da árvore. Trata-se de construir uma torre de cerca de 60 metros de altura, com 2 metros de diâmetro, tendo no seu cimo uma vasta estrutura de cerca de 20 hectares, e fundações que não excedam 3 metros, num solo móvel e húmido de um país tropical batido pelas chuvas. O material de construção tem que ser banal, leve, capaz de boiar sobre a água e de um preço verdadeiramente atraente, qualquer coisa como 500 euros por metro cúbico no máximo.

Propus este caderno de encargos a um conhecido arquitecto :"-Uma torre assim não existe e nunca existirá ." respondeu-me ele . Moral: apesar das nossas proezas tecnológicas, somos completamente incapazes de construir uma árvore grande , aliás, uma pequena também não. (…)

A superfície de uma árvore, de qualquer árvore, a área com que interage com o ambiente, é imensa…
Um animal como nós, o
Homo sapiens, tem apenas cerca de 2 metros quadrados de superfície em contacto com o mundo exterior. A árvore, pelo contário, é um organismo vivo todo em superfície. Como se encontra imóvel, alimentando-se de luz solar, de gás e de água do solo, nutrientes disponíveis apenas em pequenas quantidades, necessita para o efeito de colectores gigantes. A superfície total de uma ávore de dimensões médias, raízes, tronco, ramos e folhas desdobradas, é no seu conjunto de cerca de 200 hectares, ou seja do tamanho do principado de Mónaco. Isto significa que de cada vez que um lenhador abate uma árvore diminui a área do nosso planeta em 200 hectares (…) »

*Extrato da entrevista > (in Le Monde 2 de 21.01.2006) a Francis Hallé responsável pelas missões científicas dos chamados «radeaux des cimes» no dossel > das florestas tropicais, autor, entre outras obras, de Eloge de la plante : Pour une nouvelle biologie e Plaidoyer pour l’arbre (in my wish list ;-)

17.7.07

Tristânia


Lophostemon confertus - Jardim Botânico do Porto

Em 1982 o género australiano Tristania foi revisto e dividido em três, Tristania, Lophostemon e Tristaniopsis. O exemplar das fotos tem uma placa com a menção Tristania conferta mas é de facto da espécie Lophostemon confertus. Estes géneros (cuja designação inicial homenageia o naturalista francês Jules de Tristan (1776-1861)) são, a par do Eucalyptus, dos mais valiosos para a economia australiana associada à exploração de madeiras. O tronco dos espécimes de Lophostemon confertus cresce a prumo, podendo atingir 40m de altura e 3m de diâmetro; com a copa densa, formam árvores de porte muito elegante.

O ritidoma é rugoso e acinzentado na base, mas liso e rosado no topo, como o dos eucaliptos, sendo a madeira cor-de-rosa. Por ser tão bonita é popular em decoração; foi mesmo usada nos soalhos do Teatro de Ópera de Sydney. A folhagem agrupa-se em conjuntos acamados (confertus) no extremo dos ramos, parecendo espiralar. As flores têm numerosos estames, como é usual nas mirtáceas, mas aqui distribuem-se em cinco vistosos penachos (lophos).

Uma nota para os nossos zelosos «jardineiros»: vários livros sobre flora australiana, como Forest trees of Australia de D. J. Boland et. al. (CSIRO Publishing, 1999), consideram esta espécie apropriada para formar zonas de sombra e sobretudo para ornamentar parques e ruas: é que resiste bem a podas violentas e repetidas. Talvez por isso o nome tristânia lhe assente tão bem.

16.7.07

Granja e Macondo




Quem do sul viaja de comboio para o Porto depara, pouco depois de Espinho, e marginando a ferrovia pelo lado do mar, com uma sucessão de velhas casas sombreadas por plátanos. Mais altas ou mais baixas, geminadas umas com outras ou isoladas nos seus jardins, todas acusam o desgaste da idade; muitas delas, ao abandono, têm já a sentença de demolição lavrada em cartaz. É a Granja, local dilecto de veraneio da burguesia portuense, descrito por Ramalho Ortigão em As praias de Portugal (1876); é a praia mítica, já tocada de nostalgia e decadência, de Sophia de Mello Breyner Andresen. As férias de Verão, que duravam meses, eram uma vida à parte, muito mais desligada da cidade do que as actuais férias de pacote em paraísos tropicais: era outra a casa, outros os ritmos, outras as diversões. Havia na Granja, funcionando apenas no Verão, um clube recreativo com chá das cinco para as senhoras e, abrindo à noite, salas de jogo e de convívio e um grande salão de baile com orquestra privativa. O edifício do clube, rectangular e térreo, está reduzido à ruína que a segunda foto documenta. Custa hoje concebê-lo como cenário que foi do conto Praia, que decorre por alturas da 2.ª guerra e foi incluído por Sophia nos seus Contos exemplares (1962):

«Era uma espécie de clube de Verão, um grande casarão quadrado, pintado de amarelo e com grades verdes na varanda que dava para a avenida onde os plátanos maravilhosos povoavam a noite. Cheirava a maresia e a fruta. Longas músicas pareciam suspensas das árvores e das estrelas. E entre as casas brancas, na noite escura e azul, passava o rolar do mar.»

Não foram só as mudanças sociais e dos hábitos de veraneio que arruinaram a Granja. Há ondas de vulgaridade que, alastrando de Francelos e Miramar, vêm substituindo as venerandas mansões por vivendas sem carácter ou, pior ainda, por prédios de apartamentos com muitos andares; contudo, talvez a suburbanização seja preferível ao abandono. Mas outras ondas há de uma crueldade mais requintada: aquelas literais, vindas do mar, que levam consigo toda a areia da praia.

Desde a Primavera de 2002, quando se concluiu a construção do quebra-mar da Aguda, a praia da Granja tem vindo a ser chupada até ao osso. Todos os anos, antes da época balnear, a Câmara de Gaia manda lá um vaivém de camiões despejar areia para que o mar não avance até ao paredão. Os poucos banhistas estendem-se no areal postiço que todos os dias estreita um pouco mais. Em meados de Setembro, quando se levantarem as últimas toalhas, serão também arrastadas as últimas areias.

13.7.07

Silene-dos-portos

Not until the Earth once more lies empty and desolate will the name of Linnaeus be forgotten.
Gunnar Broberg
Linnaeus Museum, Uppsala



Silene portensis - Parque das Dunas da Aguda

A maioria das entradas neste blogue são sobre espécies exóticas, herança de modas novecentistas, como as plantas australianas, ou resultado da predominância em climas temperados de flora originária de certas regiões, como a chinesa. Por isso quando soubemos que o nome vulgar desta herbácea é silene-do-Porto pensámos que tinhamos finalmente à mão uma planta realmente nossa.

O engano durou pouco. A designação científica desta espécie é Silene portensis L. e o L. indica que foi nomeada por Linnaeus. Uma consulta ao seu herbário mostra que ele hesitou entre Silene bicolor (em alusão, possivelmente, à diferença de coloração entre as faces superior inferior da flor) e Silene portensis, epíteto que assinala o facto desta planta preferir solos arenosos junto ao mar, onde partilha protagonismo com muitas outras espécies deste género.

Este ano comemoram-se os 300 anos do nascimento de Carl Linnaeus (1707-1778), botânico sueco que decidiu colocar ordem na fauna e na flora atribuindo com coerência nomes a plantas e animais. Um provérbio sueco afirma que «um filho querido tem muitos nomes»; Linnaeus mudou o seu para von Linné em 1757, mas foi também, entre os seus admiradores, príncipe dos botânicos, o segundo Adão, o Plínio do Norte ou simplesmente L.

12.7.07

O deserto aqui tão perto



Pereskia grandifolia - Jardim Botânico do Porto

É um deserto povoado e até denso, feito de amostras dos muitos desertos que há no mundo, este em miniatura do Jardim Botânico do Porto. Lá ninguém se perde ou morre à sede: é um deserto só oásis, colorido de flores e variado nas formas, que reúne, em canteiros onde o revestimento de seixos substitui a tradicional areia, plantas suculentas ou xerófilas de todos os continentes. A planta nas fotos é um cacto arbóreo, com cerca de três metros de altura, originário das regiões áridas do nordeste brasileiro. As suas flores valeram-lhe no país de origem o nome de cacto-rosa. Se não há rosa sem espinho, este cacto, eriçadamente espinhoso como nunca roseira alguma sonhou ser, ainda mais reforça a validade do provérbio.

Com as precauções que a sua acutilância recomenda, esta é uma ocasião a não perder para apreciar de perto as flores de uma árvore nada comum nos nossos jardins (pelo menos no norte do país). Também por isso, no domingo, lá estaremos no Botânico.

P.S. Por se ter esgotado a lotação prevista, encerraram já as inscrições para o almoço biológico.

11.7.07

Smiley

.
Kniphofia uvaria (em Touguinhó/Beiriz)
.
Eu até já lhe podia chamar outros nomes (e são tantos e interessantes os que tem: foguetes; tritoma; faux aloès , tison de satan, tritome, tissonnier; torch lily, red hot poker, etc..) mas "smiley" é a alcunha com que este em particular ficará. Pois sempre que o avisto ao longe, e por ele depois passo, no caminho que diariamente faço para a escola, provoca-me um largo sorriso, de tão insólito que me aparece entre o muro e o campo de milho, a crescer a olhos vistos.

10.7.07

Uma flor que já tardava



Por ser uma Theaceae, foi uma surpresa verificar que as flores de Cleyera fortunei, ao contrário das da camélia, não nascem no Inverno. Esta é a primeira floração do exemplar do Parque de São Roque a que assistimos: confirmámos que os botões parecem grãos de arroz, e que as flores são perfumadas e muito atraentes para as abelhas (e para curiosos como nós).

9.7.07

Faia-de-cobre


Fagus sylvatica var. purpurea

Há quatro anos, uma hecatombe varreu as faias do Jardim Botânico do Porto: a primeira delas caiu quebrada pelo vento; feitas as análises, soube-se que um fungo mortífero lhe havia atacado as raízes; atingidas pela mesma enfermidade, as outras faias acabaram por ser cortadas. Só uma das faias adultas estava saudável, e só essa foi poupada: é a que vemos nas fotos com a folhagem cor-de-cobre a refulgir ao sol. Agora, no jardim renovado, há um caminho que parece ter sido rasgado com o propósito de a admirarmos, abrindo-se para uma clareira onde ela, com desculpável vaidade, se mostra de corpo inteiro.

Com um convite destes, haverá quem recuse visitar o Jardim Botânico? E, já agora, faça-o no próximo domingo na companhia da Campo Aberto.

6.7.07

Xaile espanhol


Heterocentron elegans

Embora já raras, há ainda na cidade algumas ruas a que os anos e as requalificações não apagaram o estilo original. Exemplo agradável é o de alguns troços da Rua do Campo Alegre: ali as casas são espaçosas, mas sem ostentação, e as cercas têm grades que permitem espreitar os jardins, apreciar o colorido dos canteiros e adivinhar pelo aroma uma figueira ou uma magnólia nas traseiras. Nas que têm sebes ou muros baixos alguns arbustos lançam pernadas que espevitam a curiosidade de quem passa. O da foto, de ramagem espessa, mostrou também um par de flores e por isso está hoje no palco.

À primeira vista pareceu-nos uma quaresmeira pelas flores de tom magenta com estames como pestanas grandes, e pelas folhas penugentas. Mas no género Tibouchina as folhas são cordiformes, de margens lisas, muito mais sedosas e com três nervuras arqueadas desde o topo; e as flores têm em geral 5 pétalas. Contudo a família Melastomataceae abriga mais de duzentos géneros, bastava procurar bem...

Porque as flores têm um centro assimétrico com dois tipos de anteras (porção terminal do estame onde é produzido o pólen), cremos que se trata de um exemplar de Heterocentron elegans. Sendo assim, teve origem no México ou na América Central e manter-se-á em flor até ao fim do Verão.

5.7.07

Narciso à beira-mar



Narciso-das-areias (Pancratium maritimum) - Parque das Dunas da Aguda

É doce morrer no mar,
Nas ondas verdes do mar.

...................Dorival Caymmi

Aqui na orla da praia, mudo e contente do mar,
Sem nada já que me atraia, nem nada que desejar,
Farei um sonho, terei meu dia, fecharei a vida,
E nunca terei agonia, pois dormirei de seguida.

........................................................Fernando Pessoa

Este narciso, que completa todo o seu curto ciclo de vida à beira-mar, nunca perde, nas flores que são o seu rosto, a brancura sem mácula das heroínas dos romances vitorianos, que viviam fechadas em casa e não punham pé na praia sem a protecção do guarda-sol e de várias camadas de saias. Murcham-lhe as flores e tomba-lhe a haste, mas nunca um vermelhão ou inopinado bronze lhe desmancham a alvura da tez. Tem assomos de amarelo nos estames, mas são como toques de um pó-de-arroz matizado, que mais realçam, pelo delicado contraste, a palidez do conjunto. Conclusão? Os acasos da evolução condenaram o nosso narciso a uma forma de vida que violenta a sua índole. É com horror que vê chegar hordas de banhistas para torrarem ao sol. O que lhe vale, no Parque das Dunas da Aguda, é a cerca que delimita claramente a sua área exclusiva.

4.7.07

Andar na cidade como quem anda no campo

.
«Ao entardecer, debruçado pela janela,
E sabendo de soslaio que há campos em frente,
Leio até me arderem os olhos
O livro de Cesário Verde.
Que pena que tenho dele! Ela era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.
mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas cousas,
É o de quem olha para árvores,
E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando
E anda a reparar nas flores que há pelos campos...
Por isso ele tinha aquela grande tristeza
Que ele nunca disse bem que tinha,
Mas andava na cidade como quem anda no campo
E triste como esmagar flores em livros
E pôr plantas em jarros...
»

Poema III de "O Guardador de Rebanhos" de Alberto Caeiro >
Transcrito daqui
> (O Farol das Letras)

3.7.07

Erva-da-fortuna



Tradescantia zebrina (flor lilás), T. fluminensis (flor branca) e T. virginiana (flor azul)

As tradescâncias estão agora em flor. Têm três pétalas roxas, azuis ou vermelhas (brancas ou rosa em cultivares) e estames penugentos. Cada flor dura um dia, mas novas flores armazenadas nas brácteas abrem sequencialmente. Não fosse o azar destas plantas terem cotovelos nos ramos que se enraizam facilmente, de se multiplicarem através de meros caules e de formarem tapetes contínuos - sendo por tudo isto a T. fluminensis uma das piores invasoras no nosso país -, poderíamos afirmar sem peso na consciência que estas são das flores mais bonitas que se exibem agora pelos jardins.

A folhagem é carnuda e, apesar de virem de zonas tropicais e temperadas da América, a maioria destas herbáceas prefere terrenos húmidos e em meia-sombra, perdendo o viço se sujeitas a seca ou a geada. John Tradescant (~1570-1638) foi um dos primeiros naturalistas ingleses, viajante e sábio colector de plantas, mais tarde jardineiro do rei Charles I. Das suas viagens guardou sementes, bolbos e curiosidades de história natural e etnografia que vieram a constituir o espólio do primeiro museu público inglês, o Musaeum Tradescantianum.


T. virginiana - Kew Gardens