15/04/2011

The onion

Narcissus bulbocodium L.
Nature's roundest tummy,
its greatest success story,
the onion drapes itself in its
own aureoles of glory.
We hold veins, nerves, fat,
secretions' secret sections.
Not for us such idiotic
onionoid perfections.

Wislawa Szymborska, View with a grain of sand (trad. S. Baranczak & C. Cavanagh, 1995)

14/04/2011

Lá em cima está o Solidago

Solidago virgaurea L.
Há plantas que levam tempo a ser notadas, mas depois de os olhos se abrirem para elas nunca mais deixamos de as ver. Uma delas é a vara-de-ouro (Solidago virgaurea), que deve o relativo anonimato à semelhança das suas flores com as de diversas outras plantas compostas, entre elas a muito comum énula-peganhosa (Dittrichia viscosa ou Inula viscosa) e várias espécies do género Senecio. A genuína vara-de-ouro, que cresce até um metro de altura e floresce de Junho a Setembro, é uma planta mais elegante, com folhas lanceoladas que diminuem de tamanho à medida que ascendem no caule, e inflorescências de um amarelo intenso dispostas em espiga. Em Portugal ela não se faz desencontrada, mas parece preferir os ares da montanha à mansidão das planícies. Na serra do Gerês, por exemplo, é preciso subir um pedaço — e na altura do ano em mais que custa fazê-lo — para depararmos com um bom número destas plantas.

E porque há-de o esbaforido pseudo-alpinista aventurar-se por esses descaminhos, com risco de queda e lesão, só para encontrar uma planta? Bom, não é só por uma planta, há muitos mais motivos botânicos de interesse, já para não falar da paisagem. E, em caso de acidente, lá está a vara-de-ouro, qual varinha mágica, pronta para nos restaurar a saúde. A sua reputação terapêutica, que já vem do tempo dos árabes, é das mais solidamente estabelecidas do reino vegetal: as suas folhas aplicam-se externamente para curar feridas, e internamente, sob a forma de infusões, para lubrificar a bexiga e dissolver cálculos nos rins.

O herbanário amador aproveitará pois o passeio para fazer basta colheita de varas, que depois organizará em frasquinhos devidamente etiquetados. Na prateleira lá de casa à espera dos achaques, ficarão eles com o ar desafiante de forcado que aguarde a investida do touro. Nós, porém, porque preferimos as plantas vivas na natureza, abdicamos de montar farmácia caseira e nem sequer um rebento arrancamos.

13/04/2011

Bico luzidio

Geranium lucidum L.
Nomes vulgares: shining cranesbill, géranium luisant
Ecologia e distribuição: aparece em terrenos ruderais, taludes, bermas de caminhos e bosques; ocorre na Macaronésia, no norte de África e no continente euro-asiático desde a Península Ibérica até ao noroeste da Índia
Distribuição em Portugal: presente na Madeira e em quase todo o território continental (segundo a Flora Ibérica — ainda em rascunho — está ausente do Minho e do Ribatejo)
Época de floração: Março a Julho
Data e local das fotos: Abril de 2007, Parque Biológico de Gaia
Informação adicional: distingue-se de outros gerânios pela sua flor mais pequena, dotada de um cálice caracteristicamente insuflado, e pelo verde brilhante das suas folhas

12/04/2011

Açafrão à chuva

Crocus carpetanus Boiss. & Reut.
Carpetania designou em tempos uma região vasta no centro de Espanha onde se destacavam a cidade de Toledo e a comunidade de La Mancha com os moinhos que D. Quixote combateu, e onde hoje pontua Madrid. Ali se situa a metade leste da cordilheira central da Península Ibérica e vivem as populações desta planta que deram nome à espécie.

Encontrámo-la nas serras do Açor e Gerês, em populações isoladas e diminutas. É uma herbácea bolbosa e um endemismo ibérico que só ocorre em prados húmidos e sítios pedregosos das montanhas do norte e centro de Portugal e de Espanha, sempre acima dos mil metros de altitude e, pela nossa experiência, devidamente fustigados pela combinação frio-vento-chuva. Para se resguardar, a estrutura reprodutiva feminina é subterrânea e o fruto desenvolve-se enterrado, emergindo só quando já crescido.

Distingue-se do C. sativus e do C. serotinus por florir no Inverno – embora nos picos de montanha tenha por vezes de esperar pelo degelo de Verão para hastear as suas flores solitárias no topo de um longo tubo –, por mostrar a folhagem durante a floração, e pelo estilete que, neste Crocus, é menos dividido.

As folhas, duas a quatro, todas basais, têm cerca de 2 cm de largura e secção semi-circular, e exibem o característico veio central prateado, além de cerca de 13 sulcos na face inferior.

11/04/2011

Junípero, genebra, gin

Juniperus communis subsp. alpina Suter


Talvez seja deformação profissional esta mania de mostrar o que é comum só depois de termos esgotado o que é invulgar. Ou então vaidade de coleccionador que se alimenta da inveja dos outros. Já admirámos o zimbro-galego no vale do Tua, já visitámos a sabina-da-praia nas matas do litoral, já voámos até aos Açores para vermos o cedro-do-mato aconchegado na sua nuvem. São três Juniperus mais ou menos incomuns que frequentam lugares especializados. Só agora chega a vez do Juniperus communis — ou, traduzido em vernáculo, do zimbro-comum.

Podemos alegar como atenuante que, em território português, o Juniperus communis é a menos comum das quatro espécies. Apesar da sua amplíssima distribuição nas regiões frias e temperadas do hemisfério norte, em Portugal ele só se encontra, e em populações escassas, nos lugares mais altos das serras da Estrela e do Gerês. De folhagem perene mais ou menos aciculada, é um arbusto que em geral não ultrapassa os 60 cm de altura mas ocasionalmente pode atingir os 2 metros.

O porte do Juniperus communis é aliás motivo de alguma controvérsia. Entre as suas inúmeras subespécies, há duas — subsp. alpina e subsp. hemisphaerica — que estão assinaladas em Portugal. Distinguem-se elas sobretudo pelo tamanho: os indivíduos rasteirinhos integrariam a subsp. alpina e os outros, mais encorpados, a subsp. hemisphaerica. Se usarmos esse critério então o arbusto das fotos em cima pertence sem dúvida à segunda das subespécies. Contudo, os especialistas assinalam também uma diferença na folhagem: a da subsp. alpina teria as folhas pontiagudas e encurvadas para diante. A essa luz, a folhagem que fotografámos é claramente da subsp. alpina. Os dois critérios encaixam pois o mesmo indivíduo em duas subespécies distintas. A maneira de desfazer a confusão é (como fez João Honrado na sua tese Flora e Vegetação do Parque Nacional da Peneda-Gerês) decidir que no Gerês ocorre uma só subespécie, a alpina, de morfologia altamente variável.

As coníferas dão em geral frutos lenhosos, mas os juníperos têm a particularidade de produzir "bagas" carnudas. As do Juniperus communis têm usos tradicionais em culinária, seja para temperar carnes ou mesmo para adicionar um travo peculiar a certas bebidas alcoólicas. De facto, elas são um ingrediente indispensável na preparação do gin, termo que aliás derivará de genièvre, designação francesa para junípero.

08/04/2011

A terceira margem do rio

Rio Homem (visto da ponte S. Miguel, Mata da Albergaria, Gerês)
Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente – minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa.

Era a sério. Encomendou a canoa especial, de pau de vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o remador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhida forte e arqueada em rijo, própria para dever durar na água por uns 20 ou 30 anos. Nossa mãe jurou muito contra a idéia. Seria que, ele, que nessas artes não vadiava, se ia propor agora para pescarias e caçadas? Nosso pai nada não dizia. Nossa casa, no tempo, ainda era mais próxima do rio, obra de nem quarto de légua: o rio por aí se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Largo, de não se poder ver a forma da outra beira. E esquecer não posso, do dia em que a canoa ficou pronta.

Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu um adeus para a gente. Nem falou outras palavras, não pegou matula e trouxa, não fez a alguma recomendação. Nossa mãe, a gente achou que ela ia esbravejar, mas persistiu somente alva de pálida, mascou o beiço e bramou: – "Cê vai, ocê fique, você nunca volte!" Nosso pai suspendeu a resposta. Espiou manso para mim, me acenando de vir também, por uns passos. Temi a ira de nossa mãe, mas obedeci, de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, chega que um propósito perguntei: – "Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?" Ele só retomou a olhar em mim, e me botou a bênção, com gesto me mandando para trás. Fiz que vim, mas ainda virei, na grota do mato, para saber. Nosso pai entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo – a sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa.

Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais. A estranheza dessa verdade deu para estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia.

João Guimarães Rosa, Primeiras estórias (Nova Fronteira, 1988)

07/04/2011

Palha para Brotero

Galium broterianum Boiss. & Reuter
Bedstraw, que se pode traduzir por palha para colchões, é como chamam os ingleses às herbáceas do género Galium. Nós não chamamos nada — ou então usamos uns nomes desvairados que não deixam adivinhar o parentesco entre as várias espécies. Segundo a Flora Digital de Portugal, quatro espécies são conhecidas como soldas: há assim a solda-branca (duas espécies), a solda-dos-charcos e a solda-de-Paris. As restantes espécies, apesar de semelhantes no aspecto, não são soldas, mas sim raspa-línguas, erva-confeiteira ou erva-coalheira. Ao Galium broterianum, que não tem registado qualquer nome vernáculo, decidimos nós chamar palha-de-Brotero. E, para ganharmos maior abrangência e não sermos acusados de desrespeitar a memória de tão ilustre botânico, estendemos o baptismo às restantes espécies, que doravante trataremos por palhas.

Temos muitas palhas na Península: a Flora Ibérica lista mais de 50 espécies, número que é bastamente reforçado se lhe adicionarmos as subespécies. A maioria dos Galium são ervas perenes, mas também as há anuais, como o muito comum Galium aparine. Distinguem-se pelas flores de quatro pétalas, em geral brancas (com uma importante excepção), dispostas em panículas terminais de densidade variável, e pelas folhas agrupadas em verticilos (ou saiotes) distribuídos ao longo do caule a intervalos regulares.

O Galium broterianum, que raramente atinge os 70 cm de altura, vive em bosques sombrios e outros lugares húmidos, e floresce de Junho a Setembro. O que o singulariza entre a multidão dos seus congéneres é o facto de as suas folhas aparecerem invariavelmente em quartetos (na generalidade das outras espécies há cinco ou mais folhas por nó) e terem três veios longitundinais bem marcados (a regra é haver um só veio central). Uma única outra espécie reunindo estas duas características ocorre em Portugal: o Galium rotundifolium. O G. rotundifolium e o G. broterianum têm porém aparência bem diversa, com o primeiro a produzir inflorescências muito mais esparsas que as do segundo (veja as fotos nesta página).

06/04/2011

Suaves bicadas

Geranium molle L.
Nomes vulgares: bico-de-pomba-menor, dovesfoot cranesbill
Ecologia e distribuição: aparece em terrenos baldios ou cultivados, e também em prados anuais, bermas de caminhos, bosques e margens de ribeiras; originária da Europa, oeste da Ásia e norte de África, tem hoje uma distribuição cosmopolita
Distribuição em Portugal: presente em todo o território nacional (continente e ilhas)
Época de floração: Fevereiro a Julho
Data e local das fotos: Fevereiro de 2008, Vizela

05/04/2011

A cor das estrelas

Gagea soleirolii F. W. Schultz [= Gagea nevadensis Boiss.]


Na visita à bacia do Mondego, avistámos ao longe, nas margens do rio Seia, umas penhas de granito cobertas por flores amarelas. Mais narcisos, sorrimos, ena tantos. Mas o tom de amarelo parecia esverdeado, não o matiz dourado das trombetas. Entretanto, decorria uma caçada aos javalis (a última da temporada) e, embora fosse improvável que os atiradores nos confundissem com um, tínhamos sido avisados pela GNR para nos mantermos longe dos montes, onde o ricochete de alguma bala era risco não desprezável. Mas que fazer? Era imperativo fotografar aquelas plantas baixinhas que são quase só flor. Com a audácia que é sina dos impetuosos e dos incautos, subimos até elas.

Como vêem, é uma herbácea sem défice de formosura, mas não é um narciso. É uma liliácea que começa a florir no Inverno, e o verde que nos atraiu é o colorido que domina no exterior das seis tépalas. Aprendemos depois que ela aprecia pastos pedregosos e clareiras em floresta de montanha; que as hastes não sobem além dos 6 cm (por isso, sem as umbelas de flores, passa despercebida e houve mesmo quem a tivesse designado Gagea pygmaea); que as flores hermafroditas não têm nectários e a dispersão das sementes (em forma de pêra; as das espécies de zonas desérticas são achatadas para se espalharem facilmente com o vento) está a cargo das formigas; que é perene (embora viva parte do ano reduzida a uma cebolinha a que, em italiano, chamam carinhosamente cipollaccio di Soleirol); e que é natural de Portugal, Espanha, França e Sardenha.

A Nova Flora de Portugal conta quatro espécies de Gagea no nosso território, das cerca de quarenta que há na Europa e na Ásia. A G. soleirolii ocorre nas terras altas e frias do Minho, Trás-os-Montes e Beiras. O folhedo nas fotos parece basto, mas não é: neste género, cada planta tem uma ou duas folhas basais filiformes que nascem directamente do bolbo, e umas poucas caulinares, alternas e caneladas; mas no nó do cacho de (em geral, não mais de três) flores, há duas brácteas semelhantes a folhas pequenas que preenchem o ramalhete.

Sir Thomas Gage (1781-1820), barão inglês, foi botânico estudioso de líquenes, sobre quem se escreveu: "In the most abstruse parts of the vegetable world, he has laboured hard by the lamp, as well as by the sun." O epíteto específico homenageia outro colector empenhado, Joseph-Francois Soleirol (1791-1863), naturalista amador que se especializou na flora da Córsega.

O nosso voto é que a ervinha se passe a chamar estrela-de-Inverno, sem indicação da cor da flor por nos soar redundante. A escolha inglesa, yellow star-of-Bethlehem, precisa de incluir esse detalhe para a distinguir da outra star-of-Bethlehem, que é branca. O nome coloquial que talvez tenha vindo à mente do leitor, gaja, é que não serve, pois o povo sabe que esta palavra indica «pessoa incerta cujo nome não se lembra ou não se quer mencionar». Não há registo de qualquer designação vernácula para este primor.

04/04/2011

O tempo e o feto

Anogramma leptophylla (L.) Link
A procissão dos meses, marcada pelas mudanças na vestimenta das árvores, é coisa que se pode seguir até de uma janela num escritório com ar condicionado. Mas quem se der ao trabalho de descer à rua e ensaiar umas caminhadas pode, se estiver atento, detectar sinais mais subtis. Basta eleger um muro de granito que seja poupado a limpezas regulares e observar assiduamente a vegetação que a ele se acolhe. As plantas vão e voltam, florescem e frutificam, amarelecem com a estiagem para reverdecerem com a chuva. E nem os fetos, que pouco fazem para dar nas vistas, ficam indiferentes ao correr das estações.

Para o feto-do-tempo (nome adaptado do espanhol Helecho del tiempo), um dos oito fetos que compõem o género Anogramma, contar os meses que se escoam é de primordial importância. Ao contrário da generalidade dos seus semelhantes, este feto é uma planta anual e o seu tempo de vida esgota-se num semestre ou pouco mais. Em Dezembro ou Janeiro (ou, em lugares mais frios do que no Porto, uns meses mais tarde) despontam as primeiras frondes: são minúsculas (3 a 7 cm de comprimento), têm as pínulas arredondadas e profundamente sulcadas. Formando grandes concentrações em muros sombrios e lugares húmidos, conseguem fazer-se notar pela quantidade. Numa segunda etapa surgem frondes diferentes, mais compridas, que se distinguem claramente das anteriores por serem erectas e bipinadas (os dois tipos de fronde podem ser observados na foto da esquerda). Toda essa folhagem tem uma textura frágil, que faz lembrar a salsa — parsley fern é aliás como lhe chamam americanos e ingleses, e o epíteto leptophylla significa precisamente folhas finas. As frondes tardias, ao contrário das suas antecessoras, são férteis: se lhes espreitarmos o verso com a ajuda de uma lupa ou de uma objectiva macro, vemos que elas estão salpicadas de esferas microscópicas com cores que vão do laranja ao vermelho e ao negro. Dessas esferas, que são na verdade esporângios, sairão os esporos que se irão encarregar de perpetuar a espécie.

Com a falta de humidade no Verão é chegada a altura de o feto-do-tempo se despedir da vida. Outros inquilinos ficarão a ocupar o muro que escolhemos acompanhar por uma temprada.

02/04/2011

Orquídeas à solta

Sábado, dia 9 de Abril, às 15h00
— auditório do Jardim Botânico do Porto —
(rua do Campo Alegre, 1191)

Ophrys fusca Link / Serapias lingua L. / Orchis italica Poiret
A convite da Campo Aberto, vamos falar de orquídeas — não das que se vendem nas floristas, mas sim das que vivem em espaços naturais de norte a sul do país. Será uma palestra ilustrada com muitas fotos, para a qual estão convidados todos os leitores fiéis ou ocasionais deste blogue.

Além de ouvir a palestra e de passear no Jardim Botânico, o leitor poderá participar em várias outras actividades que a Campo Aberto, em jeito de celebração pascal, preparou para essa tarde de sábado. Mais informações aqui.

01/04/2011

Adam Lonitzer (1528-1586), botânico alemão

Lonicera periclymenum L. [periclymenum = madressilva]


Para conheceres as melhores mentiras de um país
ou de um homem
terás que te sentar longamente ao pé dele.
Ninguém mente aos gritos, de longe.

Gonçalo M. Tavares, Uma Viagem à Índia (Caminho, 2010)

31/03/2011

Remédio caseiro

Prunella grandiflora (L.) Scholler
Embora não o possamos afirmar, é bem provável que esta Prunella grandiflora partilhe das virtudes medicinais da sua congénere P. vulgaris — a qual, sendo uma planta bem mais vulgar por toda a Europa, revelou tamanha versatilidade terapêutica que os ingleses lhe chamam heal-all ou selfheal. Tal como hoje há quem tome uma aspirina ao menor sinal de indisposição, também em tempos de antanho a P. vulgaris (em português consolda-menor ou erva-férrea) era consumida assiduamente em preparados e infusões. Enfim, uma panaceia que se obtinha sem a ajuda de intermediários, a custo zero e directamente da terra-mãe.

Afastados da natureza, deixámos de acreditar em remédios que não se vendam em farmácias. E pode de facto acontecer que a Prunella grandiflora (por que não chamar-lhe consolda-maior?) não seja um poço de virtudes. Por não querermos colocar a saúde de ninguém em risco, não recomendamos a colheita da planta para auto-medicação. Aliás, a generalidade das plantas que tem figurado no blogue existe não para ser colhida, mas apenas observada.

A consolda-maior, que em Portugal só aparece nas Beiras, no Minho e em Trás-os-Montes, é uma planta vivaz, esparsamente peluda, com um caule erecto de até 60 cm de altura. Floresce de Maio a Agosto em habitats variados mas com algum grau de humidade, como sejam prados ou bosques. A comprovar essa adaptação a ambientes diversos, encontrámo-la no Gerês, numa mata perto da Portela de Leonte, e também em Vagos, num local soalheiro não muito longe da costa.

30/03/2011

Gerânio de folha recortada

Geranium dissectum L.
Nomes vulgares: bico-de-pomba, coentrinho, cut-leaved cranesbill
Ecologia e distribuição: terrenos cultivados e ruderais em toda a Europa, e também no norte de África, sudoeste da Ásia, Ásia central e Macaronésia
Distribuição em Portugal: presente em todo o território nacional (continente e ilhas)
Época de floração: Fevereiro a Maio
Data e local das fotos: Fevereiro de 2008, Vizela

29/03/2011

Nas nuvens

Narcissus asturiensis (Jord.) Pugsley
[= Narcissus minor subsp. asturiensis (Jord.) Barra & G. López]


It was odd of Wordsworth to hazard the phrase "lonely as a cloud". If only our British clouds were lonelier. The Telegraph (2001)

As nuvens são catalogadas, como as plantas, em famílias, géneros e espécies, seguindo-se a proposta de Luke Howard (1772-1864), um meteorologista amador inglês que também se interessou por botânica e inspirou poetas e pintores. Para ele, as nuvens seriam o rosto da atmosfera que, como o nosso, denunciaria rubores, amuos e culpas; aos meteorologistas caberia ler e interpretar esses sinais para prever as mudanças no tempo. São elas estruturas pouco estáveis, de existência transitória de que apenas detectamos a forma e a altitude, feitas de poeira e gotinhas de água ou gelo miraculosamente suspensas no ar arrefecido. A nomenclatura adoptada por Howard fez jus à sua relevância para o nosso clima, e por isso foi tão bem aceite: escolheu designações latinas como cirrus, cumulus, stratus e nimbus — distinguindo assim as nuvens transparentes como véus das carregadas de chuva. Depois de etiquetar as de atributos híbridos, o mundo indefinido e impalpável que preenche o céu estava nomeado.

Na serra do Açor há picos frios de afloramentos quartzíticos onde as nuvens baixas se espetam, mantendo ali uma bruma que não deixa adivinhar a presença, a dez metros de distância, da base gigantesca de uma eólica. A nossa última visita, em dia de garoa, decorreu toda dentro de uma nuvem. No centro dela, em ponto-de-orvalho, o vapor de água colou-se-nos à roupa sem chover. Vencida a encosta que não se via, mas se sentia subir, chegámos à base de um pedregulho a uns 1200 m de altitude, e lá estava a população de narcisos de flores solitárias a vergar as hastes, numa vénia ao naturalista exausto.

Com flores entre Fevereiro e Abril, este narciso com tépalas em franja de uns 2 cm de comprimento aprecia clareiras de matos de montanha e fendas de rocha do noroeste da Península, a altitudes superiores a 900 metros. As populações galegas e portuguesas parecem apresentar flores com tubos mais curtos e, pelo contrário, pedicelos mais longos, ocorrendo combinações destas características na região intermédia até às Astúrias.

Trata-se de um endemismo ibérico de distribuição restrita. Na Galiza, foi descrito em 1909 por Baltasar Merino (que o chamou Narcissus lagoi em homenagem a Manuel Lago, arcebispo de Lugo que o encontrou nas margens do rio Minho; a designação aceite desde 1984 é N. minor subesp. asturiensis) e consta do Catálogo Galego de Especies Ameazadas. Em Portugal, estava citado para as serras do Gerês (onde poderá estar extinto), Rebordãos e Estrela, além do material de herbário referente à serra do Alvão. As populações da serra do Açor (em Fajão e Piódão, onde as vimos), descobertas em 1998 por Paulo C. Silveira et al. (A flora da Serra do Açor, Guineana, 2007), são as localizadas mais a sul na Península Ibérica — e o registo da sua existência na Beira Litoral e na Beira Baixa deverá ser acrescentado à Flora Ibérica.

28/03/2011

Veludo reencontrado

Cosentinia vellea (Aiton) Tod. [= Cheilanthes vellea (Aiton) F. Mueller]


João de Araújo Correia (1889-1985), o maior escritor duriense de sempre, deu o título Rio Morto a um livro de contos que publicou em 1973, explicando no prefácio que morto era como tinha ficado o Douro depois da construção das barragens. No lugar do caudal livre e impetuoso, sujeito ao capricho das estações, ficara uma sucessão pachorrenta e imutável de lagos atacados de obesidade. Araújo Correia não o diz, mas além da paisagem adulterada outros estragos de monta se poderiam enumerar, como o desaparecimento dos peixes migratórios e a destruição da vegetação de leito de cheia. De então para cá a flora duriense sofreu ainda os ataques dos agroquímicos e foi, em muitos lugares, sumariamente erradicada para a plantação de novas vinhas.

O que existia no Douro foi exaustivamente documentado nos anos quarenta do século passado, e repousa hoje nos herbários nacionais. Entre 1941 e 1943, por encomenda do Instituto do Vinho do Porto ao Instituto Superior de Agronomia (Lisboa), decorreu um Estudo fito-geográfico da região duriense, coordenado pelos botânicos João de Carvalho e Vasconcellos (1897-1972) e Francisco de Ascenção Mendonça (1889-1982). Mais ou menos pela mesma época, Arnaldo Rozeira (1912-1984), do Instituto Botânico da Faculdade de Ciências do Porto, levou a cabo um estudo independente que culminou na sua tese de doutoramento (de 1944) sobre a flora de Trás-os-Montes e Alto Douro.

Ao invés de Arnaldo Rozeira, que fez o seu próprio trabalho de campo, é pouco provável que João Vasconcellos e Francisco Mendonça tenham passado grandes temporadas no Douro a recolher espécimes para herborizar. Tal tarefa foi delegada numa equipa de recém-licenciados pelo ISA de que se destacava o jovem engenheiro agrónomo José Gomes Pedro (1915-2010). É graças a ele que temos hoje notícia de plantas que, em grande parte, já desapareceram dos locais onde ele as encontrou.

Enquanto não for construída uma auto-estrada que sobrevoe as encostas e ignore soberanamente as curvas e contracurvas do rio, o acesso ao Douro não será tão cómodo como às praias do litoral. Ainda assim, as estradas acidentadas e estreitas que hoje existem não têm comparação com as que existiam nos anos 40. Os nossos heróis botânicos usavam não o automóvel, mas sim burros ou cavalos, únicos meios de transporte capazes de vencer a aspereza dos caminhos. E as campanhas, que duravam meses, montavam quartel general nas aldeias da região.

O feto-de-veludo, ou Cosentinia vellea, foi uma das preciosidades que Gomes Pedro registou no Douro em 1941-42. É um feto de ambientes muito secos e ensolarados, com frondes até 30 cm, presente em Portugal numa dezena de lugares. O seu habitat são as fendas de rochas xistosas ou calcáreas viradas para sul. Na região do Douro, onde está restrito a uma faixa pouco acima do leito do rio, Gomes Pedro encontrou-o para os lados de Barca d'Alva e também no vale do Tedo, afluente da margem esquerda do Douro entre a Régua e o Pinhão. A população de Barca d'Alva, mais abundante, deve ainda hoje existir, mas não é crível que a do vale do Tedo tenha sobrevivido às convulsões da paisagem. De facto, e ao contrário do que sucede com Barca d'Alva, não nos consta que tenha havido no Tedo observações posteriores à de Gomes Pedro.

Barca d'Alva é demasiado longe para ir e vir do Porto no mesmo dia, e queríamos à viva força observar este feto. Se ele fora avistado no vale do Tedo, então também deveria frequentar a margem direita do Douro logo ali em frente. Nos sombrios taludes da margem esquerda seria perda de tempo procurá-lo.

As fotos são a prova de que o feto-de-veludo existe no Douro, junto à linha férrea, uma dezena de quilómetros a oeste da estação de Pinhão. Cremos que desde 1941 ninguém lhe punha a vista em cima, e esse é o nosso modo de celebrar a vida de José Gomes Pedro, botânico exemplar que morreu em 27 de Dezembro de 2010.

Bibliografia
1. António Luís Crespi, Sónia Bernardos, Adriano Sampaio e Castro — Flora da região demarcada do Douro — João Azevedo Editor, Mirandela, 2006
2. João do Amaral Franco, Maria da Luz Rocha Afonso — Distribuição das Pteridófitas e Gimnospérmicas em Portugal — Servico Nacional de Parques, Reservas e Conservação da Natureza, Lisboa, 1982

25/03/2011

Manso planalto

Pinheiros-mansos (Pinus pinea) em Oliveira do Conde (Carregal do Sal)
9 de Dezembro de 1950 — Nem sei caçar aqui. As lebres correm para o infinito, as perdizes voam para o azimute, e cada passo que dou não acrescenta nem adianta. É tal a minha sensação de impotência diante desta imensidade, que chego a ter a impressão de que cada chaparro foi um homem que desesperou de atingir qualquer fim, e parou.

Miguel Torga, Diário (D. Quixote, 2010)

24/03/2011

À atenção dos coelhos

Lotus pedunculatus Cav.


Os eucaliptais do vale da ribeira de Tabãos, em Alfena (Valongo), bem se esforçam por chupar todos os veios de água que correm à superfície. No pico do Verão, logo antes do grande incêndio, a secura estava instalada e o ribeiro era uma imóvel sucessão de poças de água. Depois ficou tudo negro e uns dias de chuva forte criaram lamaçais cor-de-cinza. Vieram uns veículos todo-o-terreno de uns aventurosos sedentários que, confundindo Alfena com o Quénia, atravessaram riachos e esmagaram a vegetação que tentava regenerar-se. Do que lá vimos no ano passado, em visitas assíduas a um prado húmido cercado por eucaliptos, muito pouco há-de regressar este ano para confirmar o ciclo das estações. A natureza só se repete quando não é deliberadamente destruída.

Para a desilusão não ser completa, há que moderar as expectativas. Este Lotus pedunculatus, que gosta de água mas é pouco exigente quanto ao habitat, é um dos resistentes que não vão abandonar o vale de Tabãos. É verdade que podemos vê-lo em inúmeros outros lugares de norte a sul do país, tanto em terrenos ácidos como básicos, mas não é por ser produto fabricado em série que ele deixa de merecer a atenção dos botânicos. Por exemplo, é de todo o interesse saber distingui-lo do Lotus corniculatus — que, embora tenha flores e folhas semelhantes, é em geral mais rasteiro e ocupa lugares mais secos. O Lotus pedunculatus pode chegar a um metro de altura, e as inflorescências, surgidas entre Março e Outubro, são dotadas de um pedúnculo comprido que faz lembrar um pescoço de girafa e é a razão de ser do epíteto pedunculatus. Misteriosa é a designação vernácula de erva-coelheira: será que câmaras de vídeo-vigilância ocultas no arvoredo captaram os coelhos a devorar esta planta, preferindo-a às demais? Ou será ela o alimento recomendado para coelhos criados em cativeiro? O nome inglês greater bird's-foot trefoil é muito mais transparente: como ilustra a foto em cima, as vagens parecem formar pés de pássaro com um número variável e por vezes excessivo de dedos.

23/03/2011

Arroz na calçada

Sedum anglicum Huds.


Nome vulgar: English stonecrop
Ecologia e distribuição: rochas, muros e terrenos arenosos, em altitudes de 0 a 2700 metros, na Europa ocidental
Distribuição em Portugal: Beiras, Douro Litoral, Minho e Trás-os-Montes
Época de floração: Junho a Agosto (mas no litoral pode começar muito mais cedo)
Data e local das fotos: Março de 2011, rua da Restauração, Porto

22/03/2011

Narciso do Mondego

Narcissus scaberulus Henriq.


Damos nomes às coisas para encarcerá-las no tempo. Assim fazemos com os recém-nascidos. Assim os escritores dão títulos a seus livros: para que não se percam numa série infindável. Para que não desapareçam de nossos olhos. Para que nunca se repitam. Essa é a soberba humana — sempre repetida. Luiz Antonio de Assis Brasil, Ensaios íntimos e imperfeitos (L&PM Editores, 2008)

Pelas fotos, estas flores quase não se distinguem das que mostramos hoje, mas, ao vivo, foi fácil verificar que as últimas são mais pequenas. Além disso, a comparação entre as folhas erectas dos exemplares que vimos, na serra dos Candeeiros, do N. calcicola

– espécie descoberta por Francisco A. Mendonça em 1926 e por ele descrita no ano seguinte no Comptes Rendus Hebdomadaires des Séances et Mémoires de la Société de Biologie (Paris) –

e as prostradas, mais estreitas e de margens ásperas (escabras) do N. scaberulus

– baptizado, em 1888, no Boletim da Sociedade Broteriana, por Júlio Henriques (1838-1928), botânico que foi director do Jardim Botânico da Universidade de Coimbra e fundador da Sociedade Broteriana –

ainda mais justificam a diferenciação taxonómica entre eles, apoiada aliás pela separação geográfica e pela caracterização do solo dos respectivos habitats. Na Nova Flora de Portugal (1994), de J. Amaral Franco e M. Luz da Rocha Afonso, estes dois narcisos da secção Jonquillae são apresentados como espécies distintas. Na Flora Ibérica, a proposta segue o conselho de A. Fernandes (em 1926, no Boletim da Sociedade Broteriana) e distingue duas subespécies: N. scaberulus subsp. calcicola, que ocorre nas serras calcárias do centro e sul de Portugal, e também em Espanha; e N. scaberulus subsp. scaberulus, endemismo português, que vive em solos graníticos na zona central da bacia do Mondego, um pequeno paraíso que, sem a ajuda da Luísa e do Joaquim, não teríamos descoberto.

O leitor certamente reparou que as tépalas do N. cyclamineus se recurvam para trás. Note agora que, no N. scaberulus subsp. scaberulus, elas formam um colar isabelino, quase perpendicular à taça. Para a semana, à mesma hora, poderá ver o penteado que falta, um narciso com as tépalas em franja sobre a corola.