31.10.07

Dia mundial da abóbora


Mosteiro de Tibães - Outubro de 2007

30.10.07

Bromilde


Bromelia humilis («heart-of-fire»)

É parente do ananás (Ananas comosus), tem hábito rasteiro, folhas fibrosas dispostas em roseta com margens dentadas (perigosas para seres pequeninos e curiosos) e flores azul-arroxeadas tão diminutas que, por solidariedade, na época da floração o centro da planta se tinge de vermelho para avisar calorosamente os polinizadores que está na hora de cumprirem as suas obrigações. É o melhor exemplo que temos de uma flor-em-família.

Do norte da Venezuela, Guiana e Trindade, gosta de solos bem drenados e soalheiros, mas tolera bem o nosso Inverno. Este exemplar mora num declive escarpado da Quinta da Bonjóia.

O nome foi-lhe dado por Lineu em homenagem ao naturalista sueco Olaf Bromel (1639-1705).

29.10.07

Jardim da nossa vergonha

Além da exposição permanente de pintura e escultura portuguesas dos séculos XIX e XX e da colecção de artes decorativas, tudo bons motivos para se visitar o Museu Soares dos Reis, há, na galeria de exposições temporárias, uma atracção de monta até 2 de Dezembro: trata-se da já aqui anunciada mostra de Obras-primas da Cerâmica Japonesa. Outra atracção, originária também do extremo oriente, é uma Camellia sasanqua de excelente porte, que exibe as suas flores, enquanto elas durarem e a esplanada abrir à hora do almoço, no pátio interior do museu; para vê-la nem é preciso pagar bilhete de entrada.

A arte do Japão reflecte uma compreensão minuciosa da natureza: este desenho de folhas outonais de ácer boiando num turbilhão de azul revela detalhes (como a venação das folhas e as margens finamente serradas) que só um observador atento poderia captar, e não tem comparação possível com os motivos botânicos estereotipados da vulgar cerâmica ocidental. São lendários o requinte e a espiritualidade que os japoneses põem na concepção dos seus jardins.

Faço votos de que os responsáveis japoneses por este evento não tenham visitado o jardim nas traseiras do museu, logo acima da galeria de exposições - jardim que, aliás, se encontra fechado ao público há anos. Vendo, no espaço de um dos nossos principais museus, os canteiros secos, invadidos por capim, e as árvores mutiladas ou sufocadas por hera, com que ideia ficariam esses visitantes do valor que em Portugal se dá aos jardins e à natureza? Uma ideia que por certo nos envergonharia, mas que seria inteiramente justa.



Jardim do Museu Soares dos Reis - Porto

27.10.07

Cravo-do-monte


Simethis planifolia

Durante o Verão vimos com frequência esta herbácea europeia em bosques e recantos umbrosos, mas só recentemente a conseguimos identificar. Os nossos leitores terão de desculpar a demora e pacientemente esperar pela floração de 2008 - e desde já se aceitam reservas para o espectáculo.

O que a foto não mostra: a planta adulta tem cerca de 30 cm de altura, as folhas são longas e finas como é usual nas liliáceas (família a que já pertenceu), e as tépalas são roxas na face exterior.

O nome vulgar que o texto Portugal Botânico de A a Z lhe atribui é ouropeso, o que pode querer dizer que vale-em-ouro-o-que-pesa, ou outro lugar-comum igualmente prosaico.

26.10.07

Violet queen


Cleome sp. - Sintra (fotos gentilmente cedidas por Paulo)

«Não sei que coisa estranha e pobre existe na substância íntima dos jardins citadinos que só a posso sentir bem quando me não sinto bem a mim. Um jardim é um resumo da civilização - uma modificação anónima da natureza. As plantas estão ali, mas há ruas - ruas. Crescem árvores, mas há bancos por baixo da sua sombra. No alinhamento virado para os quatro lados da cidade, ali só largo, os bancos são maiores e têm quase sempre gente. (...)

Mas há dias em que esta é a paisagem que me pertence, e em que entro como um figurante numa tragédia cómica. Nesses dias estou errado, mas, pelo menos em certo modo, sou mais feliz. Se me distraio, julgo que tenho realmente casa, lar, aonde volte. Se me esqueço, sou normal, poupado para um fim, escovo um outro fato e leio um jornal todo.»

Fernando Pessoa, Livro do desassossego (Assírio & Alvim, 2001)

25.10.07

Tibães



Na cerca do Mosteiro de Tibães, havia menos água do que esperávamos encontrar. Tem chovido pouco, e as plantas da estação, que brotam só com o solo humedecido, ainda não receberam sinal para despertarem do sono. No escadório sombreado por oliveiras que sobe para a Capelinha de São Bento, e que é pontuado por uma sucessão de tanques ligados por uma conduta de granito, também não se vê gota de água. O Outono aqui é menos visível do que na cidade: carvalhos, castanheiros e áceres só levemente se tingem de amarelo, e são avaros em largar as folhas; só os azevinhos, com os seus cachos de frutos vermelhos, é que se julgam já chegados ao Natal.



Num pátio interior do mosteiro, há uma fonte octogonal encimada por uma taça musgosa de onde cai, por oito bicas, a água que na superfície do tanque desenha outros tantos padrões de círculos concêntricos. A plataforma quadrangular onde se situa a fonte, ajardinada de forma rigorosamente geométrica, fica separada das paredes em volta por passagens a cota mais baixa. Maciços de salvas (Salvia splendens) pintam de vermelho o bordo do quadrado; no seu interior, o branco da lobulária (Lobularia canariensis) contrasta com o cinzento rude da pedra. É um arranjo simplista mas apelativo, que combina com o carácter austero do mosteiro.

P.S. Veja mais fotos e informações sobre o Mosteiro de Tibães no desNorte.

24.10.07

"Arrogância Castigada... mas ainda não os arrogantes"










A ler no PNED:
«Quem acompanhou o combate de diversas associações e cidadãos contra a forma como se destruíram os jardins dos Aliados e a sua calçada portuguesa sabe com que arrogância, autoritarismo, desprezo e até chacota várias "autoridades" e "personalidades" se referiram a essas associações e cidadãos por mais do que uma vez, e como até, muitos meses depois, chegam a invocar o facto de uma juíza ter assinado a petição respectiva para porem em causa a sua imparcialidade...

Pois bem. Segundo o JN de hoje (julgo que a notícia está reduzida online sendo a edição em papel bem mais explícita), um estudo encomendado a uma firma de consultadoria britânica para ver se conseguem "animar" os Aliados, chegou à conclusão brilhante (devem ter lido o blogue que os "contestários" criaram na altura e outros documentos de idêntica proveniência...) de que é necessário criar zonas de sombra na Avenida e recantos de repouso bem como (e já que não existe agora solo teria que ser em floreiras...) canteiros floridos. Mas, claro, sob supervisão do "arquitecto". Talvez, podemos nós imaginar, ele não ache agora "rodriguinhos" as tais floreiras e queira contribuir para "recuperar" os "aliados acabadinhos de recuperar"!

Belo puxão de orelhas à arrogância mas ainda não aos arrogantes, perante os quais, por enquanto, ainda continuam os salamaleques.
Saudações cordiais, JCM »

Aliados fora da rota das compras- no JN

23.10.07

Jardim de memórias



Hydrocleys nymphoides / Sagittaria latifolia

Durante cerca de um ano o Jardim Botânico do Porto esteve a aformosear-se. Quando reabriu encontrámos um espaço mais arrumado, com novos percursos e alguns recantos associados às obras de Sophia de Mello Breyner Andresen e de Ruben A. Estes nichos, onde além das plantas há sugestões de leitura, formam um jardim de ler e propõem uma aventura que complementa com boa dose de fantasia as visitas científicas ou de carácter mais académico.

Um deles é inspirado no livro O rapaz de bronze, em cujas noites as flores conversam, passeiam, dançam e se enleiam em amizades - e, numa especial, de lua cheia, organizam uma festa como as que vêem acontecer entre pessoas. Neste jardim contado havia «um lago redondo sempre cheio de folhas. No centro do lago havia uma ilha muito pequena feita de pedregulhos e onde cresciam fetos. E no centro da ilha estava uma estátua que era um rapaz feito de bronze

No jardim real a decoração é outra. O rapaz de bronze é de facto uma senhora elegante que guia um repuxo airoso, a taça do chafariz não está coberta de fetos e o lago não tem só folhas. Com os pés na água flutuam duas espécies com flores de três pétalas: a papoila-de-água (Hydrocleys nymphoides), sul-americana, de folhas circulares semi-caducas e flores cor-de-limão; e a erva-seta (Sagittaria latifolia), da América tropical, de folha perene, triangular, com dois lóbulos, formato que a taxonomia relaciona com a nona constelação do Zodíaco.

Mas o jardim encantado ainda perdura. E no «lugar de suspiros» de Ruben A o vento insiste em espalhar perfumes e flores, num eterno eco do antigo convite para a festa.

22.10.07

Urze-minhota



Daboecia cantabrica

A Daboecia cantabrica, parente próxima da Erica, é uma pequena planta arbustiva europeia, própria de matas com solo ácido em climas temperados. É espontânea numa faixa que vai do oeste de França ao norte de Espanha e noroeste de Portugal, e surge também na Irlanda - mas não, curiosamente, na Grã-Bretanha. O Portugal Botânico de A a Z chama-lhe urze-irlandesa, o que, apesar de correcto, ignora que a planta por cá se encontra no estado natural. Dada a sua área de distribuição no nosso país, o nome que lhe atribuímos em título parece-nos mais justo.

O género Daboecia alberga duas únicas espécies: a outra é a endémica açoriana D. azorica, confinada às ilhas de São Miguel, São Jorge, Pico e Faial, onde é conhecida como queiró - um dos nomes que, no Continente, se dá à Calluna vulgaris. Em ambas as espécies de Daboecia, as pétalas unidas das flores formam inconfundíveis cilindros insuflados; além disso, essas flores (ou, para semos exactos, as suas corolas) são caducas, ao passo que na Erica elas permanecem no arbusto mesmo depois de secas.

O nome génerico Daboecia vem de São Dabeoc, monge irlandês que viveu entre os séculos V e VI. É por isso bem apropriado que tenhamos encontrado a Daboecia cantabrica na cerca do Mosteiro de Tibães, onde, abrigada por carvalhos e pinheiros e na companhia de outras urzes já desbotadas, se manterá em flor até à chegada do Inverno.

19.10.07

Música para colibris


Epilobium canum

Contemplá-la deveria bastar-nos. Vencido o receio de corromper a beleza, poderíamos até tocar-lhe as pétalas, sentir-lhe de perto o perfume, e recuar saciados. Mas não. Como D. José em Todos os nomes, de Saramago, só depois de identificada, com «o nome completo, sem lhe faltar um apelido ou uma partícula», aceitámos reconhecer esta flor como nossa.

Seguiram-se por isso noites de leitura sem a paz do costume. A tarefa adivinhava-se árdua porque os traços mais relevantes da planta nos pareciam discordantes. A cor escarlate brilhante pouco usual, a indentação das pétalas em dois lóbulos (que só conhecíamos em flores pequeninas e roxas), o formato em trombeta com estames proeminentes (características comuns a inúmeros géneros) e a folhagem minúscula deixaram-nos à deriva uns dias.

Num derradeiro esforço, reparámos noutra pista: os estames esticados, com as anteras de pólen dilatadas, e o estilete um pouco mais longo com uma bolinha penugenta como estigma. Já tínhamos visto este arranjo, como uma bailarina em pontas, nas fuchsias. Deste detalhe ao nome comum, California fuchsia, foi um pulinho - seguido de outro de contentamento por termos nomeado finalmente esta planta.

Depois de mais de um século a chamar-se Zauschneria californica, a comunidade científica colocou-a recentemente no género Epilobium, com o epíteto específico canum que, desconfiamos, alude às cãs do fruto. Foi recebida por cerca de 170 espécies da Nova Zelândia, América do Norte e Europa, entre elas a rasteirinha Epilobium roseum que desenha nesta altura manchas violeta nos nossos prados.

18.10.07

Devagar se vai

Quinta-feira, 4 de Outubro, Centro Cultural e de Congressos de Angra. A bilheteira deveria abrir às oito da tarde, mas só cinco minutos depois é que chega o funcionário. Entra no cubículo, confere o conteúdo da pasta, ordena metodicamente os papéis; escoados alguns minutos, atende por fim o primeiro cliente, começando por lhe estender uma planta do auditório. Há alguma hesitação e troca amena de impressões sobre as vantagens ou desvantagens dos lugares com mesa sobre os lugares de bancada. Decidida a compra, é preciso assinalar na planta - a laranja ou a verde, segundo uma regra que só o funcionário domina - os lugares vendidos, e escrever nos bilhetes, a esferográfica, os respectivos números. São 8h15 quando chega a vez do segundo cliente; a bicha tem uma vintena de pessoas; o concerto está marcado para as 9h30. Não se ouviu sequer uma palavra de impaciência: o ambiente é de conversa entre amigos no fim de tarde morno da ilha; e o concerto, como todos sabem, não começaria antes das dez.

Sábado, 6 de Outubro, Praça Velha. Confirmo que é daqui que partem, de hora a hora, as camionetas para a Praia. São 10 da manhã, deve estar a chegar uma, mas o meu informador não aguarda transporte: está ali por ser o lugar certo para pôr o falatório em dia. Fico a saber tudo sobre a visita do Presidente da República só de ouvir as conversas. Vejo passar autocarros militares e outro com meninas de uniforme, mas a camioneta de que estou à espera tarda em aparecer. Quando vem, não nos deixa entrar. Acaba por se ir embora, para ser substituída, dez minutos depois, por outro veículo com outro motorista. Enquanto esperamos, um funcionário da EVT (Empresa de Viação Terceirense) fica a fazer-nos companhia com ar de plácida ociosidade. Um patusco oferece-se para lhe trazer uma cadeira ou mesmo um sofá. Ouvem-se risos. Ninguém resmunga com a demora.

Moral das histórias. Ter pressa é uma doença tipicamente continental que os ilhéus só conhecem de ouvir falar. Ao fim de poucas horas nas ilhas, mesmo os doentes mais graves entram em remissão, e a cura fica completa ao segundo dia. (Inversamente, o regresso ao Continente faz ressurgir num ápice todos os sintomas da doença.) É por isso um contra-senso que esteja a ser alargada a única via rápida da Terceira, que liga, pelo interior da ilha, a cidade de Angra ao aeroporto das Lajes e à Praia da Vitória. Uma auto-estrada é a negação grosseira da pachorrenta índole insular; ninguém aqui precisa dela. De quem terá sido a ideia de tão absurda empreitada?


Cichorium intybus

Onde se fala de flores. As flores que costumavam enfeitar as bermas da estrada, no percurso do aeroporto para Angra, foram varridas com as terraplenagens. Sobraram, aqui e ali, algumas beladonas e, mais raras, umas pequenas flores azuis que então não pude identificar (o taxista estranharia se lhe pedisse que parasse para as observar), mas que reencontrei na Praia e no interior da ilha. Trata-se da chicória, planta muito usada como substituto barato ou aditivo para o café e que, no final do século XIX, antes de as ilhas se especializarem na produção de gado leiteiro, chegou a ser cultivada comercialmente nos Açores. Como não tem cafeína, a bebida que com ela se prepara terá pelo menos a virtude de não ser excitante, o que combina na perfeição com o modo de vida insular.

17.10.07

"Árvores a mais, árvores a menos"

Sem grande tempo para blogar (ultimamente), aqui deixo o destaque da PNED (Porto e Noroeste em Debate, lista mantida pela Campo Aberto), hoje selecionado pelo José Carlos Marques
.
«Destaque: Árvores a mais, árvores a menos.
Não é no Noroeste, é em Cascais, mas é sempre animador ver que há cidadãos que decidem não aceitar passivamente a destruição de árvores centenárias: Cascais: moradores do Monte Estoril contra destruição de área verde. Também em Guimarães - Retirada de árvores gera discussão - há inconformismo perante mais uma retirada de árvores de uma praça a pretexto de "grandiosidade" e de "história".
.
Que a praça nunca teve árvores até há 100 anos! Argumento despropositado pois que a árvore em meio urbano ganhou importância fulcral com o avanço da industrialização e a maior distância com ela criada entre meio urbano e meio rural mais próximo da natureza.
.
Estamos perante uma "escola" que vê na árvore uma sombra ao edificado incómoda e inútil. As autarquias, perante o prestígio da "escola", multiplicam as encomendas. Mas as resistências de muitos cidadãos multiplicam-se e a "escola" começa a deixar de ter a aura que a nimbava... Está na hora de compreender que os tempos mudaram e que fazer riscos no ateliê é uma coisa, a realidade viva do meio urbano outra coisa por vezes muito diferente da prancheta vazia onde se expande livremente o "génio"...
.
Já com isto só podemos estar de acordo: conferir prioridade ao peão e às bicicletas e reduzir a presença automóvel. Prova de que nem tudo é branco e preto... JCM »

16.10.07

Lugares do Outono



......Outono, labirinto de silvas,
......de sílabas, digo: pupila lenta,
......rio de inumeráveis águas
......e de amieiros onde canta
......a derradeira luz das cigarras,
......de vidro ainda, e leve, e branca.

Eugénio de Andrade, O Outro Nome da Terra (1988)

15.10.07

Terra Alerta- Vídeo

Cuidadores de Árvores: em defesa do património arbóreo

Muito boa a reportagem da SIC sobre o encontro de Arboristas promovido pela Sociedade Portuguesa de Arboricultura, no dia 9 de Outubro, na Mata Nacional do Buçaco, com o objectivo de divulgar a Arboricultura Moderna e a utilização de escalada em árvores, tal como foi anunciado no blogue da SPArboricultura

«Muitas vezes maltratadas e esquecidas, as árvores são um elemento fundamental para a qualidade de vida nas cidades. Em defesa de um planeamento do território que promova e preserve este património natural, há quem dedique a vida a tratar de árvores como lhe mostramos agora no Terra Alerta ( ver... ) »

Os ossos à mostra



Numa ilha pequena como a Terceira, o mar ocupa-nos todos os sentidos: se por momentos lhe fugimos da vista, é para logo o reencontrar. Mas, em vez de lhe fugir, tive vontade de chegar junto dele e de lhe pôr a mão. O que é muito fácil de fazer mesmo sem sair de Angra, onde há um pequeno areal cinzento num canto da baía, mas não era esse mar confinado que eu queria tocar. Pus-me a caminho na estrada para São Mateus da Calheta, mas logo notei que o mar, afinal tão próximo, tinha sido privatizado: entre ele e a estrada, vedando-nos o acesso, interpunham-se continuamente casas e terrenos privados. Até que, alguns quilómetros adiante, entre uma pastagem e uma quinta abandonada, abria-se uma vereda ligando a um lanço de escadas que descia pela falésia. Antes de descer, fotografei uma árvore - Melaleuca linariifolia, em primeiro plano na foto em cima -, o que me dá o indispensável pretexto para falar de mar e pedras num blogue sobre plantas: é que, ao contrário do que esperava, a vegetação à beira-mar poucas novidades tinha em relação à que conhecia de outras longitudes. Foi pois à matéria inerte das rochas, com a irrequieta colaboração do azul da água e do branco da espuma, que coube dar personalidade a este lugar. Tarefa cumprida com brilho: é uma ilha frágil, descarnada até ao osso, um osso negro como carvão, esta que se deixa despir pelas ondas.

13.10.07

"Encant arte"

«No tempo em que todas as árvores tinham um nome...
Espíritos Guardiões, Gnomos e Duendes da Floresta
.
As lendas dos duendes e gnomos das florestas montanhosas são tão antigas como a história das culturas que nos precederam.

Dos Celtas ficaram as mais belas fantasias destes pequenos habitantes que guardam os segredos da Natureza e a protegem do infortúnio.
Das encostas e vales do Gerês sonham com o vento, voam com as águias e reúnem nos pequenos e idílicos prados, dos planaltos de encantar.
O corte da goiva deixa sonhos do vento que por lá passou e olhares de sol poente...
A madeira vive para além da morte...
O Universo é infinito...
Cada trabalho é único em homenagem à Natureza.»

Jorge Rodrigues
("Encant arte" >jorgebluesky arroba hotmail.com )
Leia aqui uma entrevista ao escultor e aprecie algumas das suas outras obras.


Em Serralves, durante o IV Campeonato de Escalada de Árvores, iniciativa da SPA-Sociedade Portuguesa de Arboricultura (ver)

12.10.07

À la carte

At that moment an extremely superior brand of French head waiter manifested himself beside our table, announced his presence with a discrete cough, and led off with, "Madame, messieurs. Tonight Jean-Pierre recommends, for the main course, la poésie de la poitrine du canard aux céleris et épinards crus."

"Poésie..." Hilda sounded delighted and kindly explained, "That's poetry, Rumpole. Tastes a good deal better than that old Wordsworth of yours, I shouldn't be surprised."


John Mortimer, Rumpole (The Folio Society, 1994)



Tendo em conta que a gastronomia japonesa é a mais preocupada com a estética, em cujas receitas se encontram pássaros diáfanos feitos de nabo, lagos de arroz onde se reflectem luas de soja, pagodes de gengibre ou peixes filosoficamente crús, é natural encontrar na longa tradição oleira do Japão pratos que sirvam natureza. No da foto, de porcelana Nabeshima do período Edo (1690-1730), exploram-se vários tons de azul-cobalto para se representar com minúcia um pé de hortênsia, encimado por uma mancha mais escura que sugere uma atmosfera nublada, chuvosa mas serena, açoriana. Há mais prodígios como este na exposição Obras-primas da Cerâmica Japonesa, no Museu Soares dos Reis até 2 de Dezembro.

A propósito, não foram só as criptomérias que emigraram da Ásia para a ilha Terceira, ali se instalaram e têm agora porte e beleza exaltados por todos, apesar dos malefícios ambientais da sua presença. As lindas hortênsias (Hydrangea macrophylla), hoje imagem de marca dos Açores, encontraram nas ilhas o torrão de salinidade variada que lhes permite florir abundantemente, com cores que noutros lugares não se vêem. E por isso transformaram-se num pesadelo: segundo o livro Flora of the Azores, de Hanno Schafer (Margraf Publishers, 2005), já escaparam das bermas de estrada onde foram plantadas e, num esforço conjunto com a conteira (Hedychium gardneranum), estão a colocar em risco o remanescente da vegetação rasteira endémica das ilhas.

11.10.07

Lagoa das Patas

Sexta-feira, 5 de Outubro. Na falta de peixe grelhado, almoçava eu, no centro de Angra, um muito continental bacalhau à Zé do Pipo, deixando-me embalar distraidamente pelo som nervoso do telejornal, quando percebi que a notícia tinha a ver connosco, moradores ou visitantes da ilha. Tempestade ameaça os Açores: ondas alterosas, ventos desatados e chuva torrencial atingem o grupo central do arquipélago. Você nem imagina o perigo que corre. Fique aí assustado, que nós voltamos logo após a publicidade. Concedo que os termos exactos não foram esses, mas a ideia foi. O mínimo que se esperaria ver depois do intervalo era um directo com um intrépido repórter sacudido pelo vento e fustigado pela chuva, rodeado por bravos mirones acenando para a câmara. Nada disso veio: enquanto permaneci no restaurante, o assunto tempestade nos Açores não regressou ao telejornal.

Tinha reservado a tarde para uma excursão ao interior da ilha. Deveria desistir dela? O dia não parecia feio, mas sabe-se como o tempo nas ilhas é instável. Por outro lado, das três ameaças que a Natureza nos reservava, eu estaria, no interior, mais a salvo de pelo menos uma delas: a das ondas alterosas. Que viessem pois a chuva e o vento, e eis-me de abalada para a Lagoa das Patas, que fica a uma altitude de 600 metros na metade ocidental da ilha, a cerca de 15 quilómetros de Angra. Como não queria caminhar duas vezes essa distância, tomei um táxi até lá. O regresso, quase sempre a descer, foi feito a pé. E muito agradável teria sido ele, não fosse a chuva: uma chuva intermitente, a mesma de todos os dias na parte alta da ilha, e não a chuva da tempestade que afinal não chegou.




A Lagoa das Patas, com o seu manto de nenúfares, compõe um cenário de sossego idílico, a que não faltam os bancos a convidar ao repouso; o verde-escuro da cortina cerrada de criptomérias (Cryptomeria japonica) é quebrado por algumas árvores ornamentais: plátanos, salgueiros, choupos brancos. Há ainda um recinto infantil e um parque de merendas onde sobressai uma curiosa construção em forma octogonal, só colunas e telhado. O leito de uma ribeira inexplicavelmente seca serpenteia pelo parque antes de atravessar a estrada por onde vim e por onde hei-de regressar. São ainda as criptomérias que se erguem como um muro verde de cada lado da estrada.

Por muitos benefícios que a plantação intensiva desta conífera asiática tenha trazido à economia e à paisagem açorianas, é óbvio que algo está errado com o Parque Florestal da Lagoa das Patas. Tirando as árvores em redor do lago e alguns poucos amieiros ao longo da ribeira, a diversidade é nula: só há criptomérias. O substracto arbustivo é inexistente; a vegetação rasteira está reduzida a musgos e fetos; não há qualquer vestígio da flora autóctone.

Como explica o livro Açores e Madeira - a floresta das ilhas (vol. 6 da colecção Árvores e Florestas de Portugal, do Público / LPN), ainda sobrevivem na ilha Terceira algumas manchas de floresta autóctone. Não me queixo de serem quase inacessíveis, pois terá sido graças a isso que foram poupadas. Mas era bom que em lugares como a Lagoa das Patas, que já não são de produção florestal, se reintroduzisse gradualmente a floresta própria das ilhas.


Cryptomeria japonica

10.10.07

Convergir

Activa desde 2002, a Plataforma Convergir é constituída por associações cívicas de ambiente, urbanismo e ordenamento do território na Região Norte/Noroeste de Portugal, e tem como objectivo criar sinergias entre as diferentes associações.

O II Encontro -Convergir decorrerá de 19 a 21 de Outubro com eventos no Porto, Maia e Esposende
Programa (clique para aumentar)
SÁBADO, 20 é o dia forte do encontro, com uma sessão, de manhã, de diálogo com os vereadores de ambiente da Área Metropolitana do Porto, coordenada pelo FAPAS, e duas sessões da parte da tarde, a primeira sobre a Agenda 21 no Norte/Noroeste, coordenada pelo Eng. Nuno Quental, e a segunda sobre cooperação interassociativa, com a presença de associações de ambiente galegas e da Federación Ecoloxista Galega bem como de plataformas interassociativas portuguesas, coordenada por José Carlos Marques, vice-presidente da associação Campo Aberto.
.
Realizar-se-á, no sábado, um almoço biológico de confraternização dos participantes no encontro, na Quinta da Gruta, Maia.
.
DOMINGO, 21 de Outubro, haverá uma visita guiada ao Parque Natural do Litoral Norte, seguida da sessão de encerramento em Esposende (no auditório municipal às 12:00)

Veja o programa completo e inscreva-se através do site
Plataforma Convergir
ou através do telemóvel 931 620 252, das 9:00 às 17:00, ao sábado das 9:00 às 13:00.

9.10.07

Morango-de-jardim


Geum chiloense

A folhagem lirada disposta em roseta lembra uma roda de amigos; do centro, como num brinde, eleva-se uma flor requintada; e noutros tempos, em que a qualidade se fazia ouvir primeiro, as raízes eram usadas para dar sabor à cerveja da celebração. Falamos da espécie neo-zelandesa Geum urbanum, planta vivaz de floração longa, conhecida em inglês por herb bennet (versão distante de benedict), termo que nos levou a erva-benta.

A planta da foto é irmã dessa, mas de outro continente: trata-se da Geum chiloense, do Chile, com cultivares muito ornamentais de flor dupla amarela ou alaranjada. Vegeta num jardim de instituição respeitável que talvez condenasse a mistura da inocente natureza com a folia. O parentesco com o morango (Fragaria vesca) é reconhecível na nervura em pena das folhas; os frutos, com uma crina de picos para que se disseminem, é que não vão bem com chantilly.

8.10.07

Caça ao dragoeiro


Dracaena draco

A acreditar na mitologia cristã, talvez a ilha açoriana mais apropriada para a caça ao dragão seja a de São Jorge; mas, como nunca lá fui, fiquei-me pela caça ao dragoeiro na ilha Terceira, aonde regressei para uma visita de três dias. Com as araucárias e os metrosíderos, os dragoeiros são as árvores mais estimadas pelos açorianos e as mais características dos jardins do arquipélago. Dois dos dragoeiros coligidos neste safari (os das fotos à direita) são já de porte respeitável, embora ainda estejam longe das proporções monumentais dos da Madeira ou dos jardins botânicos de Lisboa. Da esquerda para a direita e de cima para baixo, eis a localização dos exemplares fotografados:

  1. Jardim particular na estrada de Angra para São Mateus da Calheta.
  2. Pátio interior do Palácio dos Capitães Generais, em Angra. Por causa da visita do Presidente da República, o jardim do palácio, o meu local favorito da cidade, esteve inacessível durante toda a minha estadia. Mas as portas do palácio estavam abertas e fui entrando; a funcionária que encontrei explicou-me que eu não o deveria ter feito, mas autorizou-me simpaticamente a fotografar este dragoeiro, que fica a ser o mais valioso troféu desta caçada.
  3. O edifício onde se empoleira o dragoeiro foi inaugurado em 2004: acompanha a curva da baía de Angra e é uma combinação de centro comercial, jardim, miradouro e passadiço de ligação com a parte alta da cidade.
  4. Jardim particular na Praia da Vitória, terra natal de Vitorino Nemésio. A copa da árvore alonga-se sobre a rua que passa uns metros abaixo, mas ninguém parece levar a mal esta invasão do espaço público aéreo.

7.10.07

É por ti


Verbena bonariensis


---É por ti que se enfeita e se consome,
---Desgrenhada e florida, a Primavera
---É por ti que a noite chama e espera

---És tu quem anuncia o poente nas estradas.
---E o vento torcendo as árvores desfolhadas
---Canta e grita que tu vais chegar.


Sophia de Mello Breyner Andresen, Dia do mar (1974)

5.10.07

Phygelius capensis



Esta noite
até os atacadores dos sapatos
floriram


Jorge de Sousa Braga, Balas de Pólen (2001)

4.10.07

Sociedade Portuguesa de Arboricultura

Divulgação das próximas actividades promovidas pela SPA já nos próximos dias 12 e 13 de Outubro. Para mais informações consulte o site promocional

Ler no JN: "Trepadores em competição nas árvores de Serralves"

Romaria em Setembro


Valinhas - 9 de Setembro de 2007

O segundo domingo de Setembro é o dia de todas as romarias, mas não foi por isso que voltámos a Valinhas no preciso dia em que o carvalhal estava coalhado de gente em festa. Voltámos como quem cumpre um voto, e por distracção calhou ser no dia da romaria a Nossa Senhora de Valinhas. Mas preferíamos ter reencontrado o sossego da nossa primeira visita, mais propício à contemplação destes nobres carvalhos. Como local de romaria muito antigo, este carvalhal adquire uma importância singular na vivência dos povos das redondezas, e uma tal ligação deve ser vista com carinho e apreço. Mas as agressões a que o bosque está sujeito em dias de romaria ofendem a dignidade das árvores e abastardam a festa. Para não ter que carregar as lancheiras, cada um estaciona o carro no exacto local onde vai estender a toalha, e temos assim o carvalhal convertido em híbrido caótico de parque de estacionamento com recinto de merendas. Além de feio de se ver, este comportamento degrada seriamente um património natural único: as árvores não são eternas, e não há hipótese de o carvalhal se renovar naturalmente com invasões tão desregradas como esta.

Afastámo-nos desta triste cena logo que pudemos. Não vimos a procissão e só ao longe, ou de passagem já no regresso, ouvimos a banda a tocar à mistura com o estrondo dos foguetes. Buscámos refúgio junto às quedas de Fervença, onde, como seria de esperar no fim do Verão, o rio Leça estava menos caudaloso do que quando o vimos no início da Primavera. Como o risco de afogamento era nulo, acompanhámos o curso descendente do rio por algumas centenas de metros. Era ele um fio de água escorrendo entre blocos de granito talhados quase a pique e escoltado por freixos e amieiros, esses amigos dos lugares húmidos que aqui, entre as rochas, encontraram solo bastante para medrar. Um declive mais ameaçador ditou o termo do nosso alpinismo à paisana, e daí em diante contentámo-nos em esquadrinhar a vegetação rasteira. Uma das plantas que nos captou a atenção foi a Calluna vulgaris, que encontrámos em flor: parente próxima da urze (Erica sp.), as suas flores não têm os estames compridos, protuberantes, que são característicos do género Erica. Mas é natural que detalhes como esse, difíceis de detectar a olho nu, escapem ao observador comum, e assim a C. vulgaris partilha com a Erica muitos nomes vernáculos, como torga, urze e queiroga (ou quiroga); contudo, há outros nomes que são exclusivos seus: mongoriça, queiró, leiva e carrasca (este último nos Açores). Eis pois uma planta plebeia, sem eira nem beira, que tem quase tantos apelidos como um fidalgo de velha estirpe.


Calluna vulgaris

3.10.07

Poema de Outono

«A folha de árvore
que rola.
A névoa fria
que se evola.

O veio de água
fino e verde.
A cantilena
Que se perde.

O cão vadio
que nos olha
e nos entende...

A isto o menino,
sério, atende
ao ir prà escola.
»

Saul Dias, "Menino" in Palavras de Cristal, sel. Fernando Camacho, Plátano, 1983

(detalhe de painel feito por alunas do 8º ano nos seus tempos livres na Biblioteca da Escola)

2.10.07

Laranja amarga com espinhos


Poncirus trifoliata - Parque Aquilino Ribeiro - Viseu

Apesar de não dar frutos comestíveis, este arbusto caducifólio da família dos citrinos, originário da China e da Coreia, tem qualidades estimáveis: as flores, rebentando antes das folhas, vestem-no de branco no início da Primavera; os espinhos e a ramificação densa fazem-no apropriado para sebes; e os frutos perfumados, cor-de-limão, têm, em tamanho reduzido, a forma e a textura aveludada das bolas de ténis. É fácil de reconhecer não só pelos frutos e espinhos, mas também pelas folhas compostas trifoliadas, com uma bainha envolvendo o pecíolo.

O Portugal Botânico de A a Z atribui a esta espécie o nome comum de limoeiro-trifoliado, mas parece-nos que ela não é nada comum em Portugal: só conhecemos este exemplar em Viseu, quase oculto sob a copa de uma magnólia-de-Soulange; e, como nunca o visitámos na altura certa, não lhe fotografámos as flores. Tem a reputação de ser muito rústico, e portanto adequado ao clima do norte e centro do país.