17/08/2009

Lírio viperino


Arisaema ringens (Thunb.) Schott

Quando em Maio último visitámos esta estufa alpina, logo o lírio-viperino (cobra lily em inglês) nos prendeu o olhar. De facto não se trata de um lírio, nem a planta é hipnótica como se crê serem as cobras; mas é venenosa, e o capuz listrado que encobre a inflorescência, de pescoço erecto e cabeça recurvada, é o retrato chapado de uma víbora emergindo do cesto ao som da flauta do seu domador.

De entre as plantas da família Araceae, a mais conhecida e usada em jardins e arranjos florais é a sul-africana Zandestechia aethiopica, a que em Portugal chamamos jarro mas que leva no Brasil o nome muito mais sugestivo de copo-de-leite. Essa planta exemplifica bem a arquitectura geral da família: cada inflorescência é constituída por uma haste carnuda (o espadiz) onde estão embutidas as minúsculas flores; rodeia o espadiz (e às vezes oculta-o) uma folha modificada chamada espata (que na foto em cima é o capuz, e no jarro é o tal copo de leite).

Há cerca de 150 espécies de Arisaema, distribuídas pela Ásia, África Oriental e América do Norte. A Arisaema ringens provém das florestas do Extremo Oriente: Japão, Coreia, China e Formosa. É uma planta tuberosa perene, tolerante ao frio, que floresce cedo na Primavera mas passa por um período de dormência no Verão e no Outono.

15/08/2009

Orquídea cruciforme


Epidendrum secundum Jacq.

Segunda conversa com Santa Cecília [a padroeira dos músicos].

Nas igrejas, ao menos aqui em Angola, é comum as pessoas dirigirem-se em voz alta às imagens de Cristo, da Virgem Maria, de qualquer santo, rogando, implorando ou mesmo censurando-Os. Ninguém acha isso estranho. As imagens estão lá, afinal de contas, como uma espécie de telefone público para o além. Um telefone público só com bocal, sem auricular. As pessoas podem interrogar as imagens, mas não têm direito a escutar as respostas. Quem se dirige a Deus é devoto; quem afirma ouvir a voz de Deus é maluco. Eu não sou nem devota nem maluca. Falo contigo para fingir que não estou a falar comigo.

José Eduardo Agualusa, Barroco Tropical (Dom Quixote, 2009)

14/08/2009

Segredos do ofício



Alpine House - Kew Gardens

Os nossos leitores talvez se espantem com o desfile aparentemente infindável de novas plantas aqui no blogue. Onde é que eles a encontram? Que dificuldades e perigos enfrentam para chegar aos lugares recônditos onde vicejam estas raridades? É natural e legítima a curiosidade dos leitores. Se hoje não a satisfazemos por completo, pelo menos levantamos a ponta do véu, como diziam na rádio os locutores de antanho.

Nas nossas expedições ao norte da Europa, lugar de brumas e de mares revoltos onde se radicaram estranhos povos, acontece-nos aportar à ilha da Grã-Bretanha. Nessa nação persiste até hoje uma bizarra forma de governo chamada monarquia, na qual a rainha não detém qualquer poder. Tanto a família real como os seus súbditos se dedicam apaixonadamente, nos seus tempos livres (que, no primeiro caso, correspondem aos sete dias da semana), a hobbies incompreensíveis, como o cricket e a jardinagem. Se o cricket nem é bom tentar entender, já a jardinagem - certo que por métodos arcanos só ao alcance de iniciados - produz resultados dos mais aprazíveis à vista, de que é exemplo esta assembleia de flores sob curiosa estrutura envidraçada em forma de parábola. Fica ela em local que sempre visitamos quando as nossas errâncias nos conduzem a este reino: referimo-nos aos Kew Gardens, onde alguns fanáticos transformaram o hobby da jardinagem numa ocupação profissional a tempo inteiro.

Como bem inferem os leitores do relato supra, a descoberta da rota para tais paragens não foi proeza de somenos (e estamos claramente a usar de um eufemismo); nada mais justo que a recompensa seja proporcional ao feito. Só nesta casinha de vidro (a menor e mais recente das estufas de Kew, inaugurada em 2006) são às dezenas, e sempre diferentes, as plantas que se deixam entrevistar para o Dias com Árvores. Três delas subiram ao palco nas últimas semanas (clique na etiqueta Kew Gardens mais abaixo para lhes recordar o sorriso), e muitas mais aguardam impacientes que chegue a sua vez.

O ofício de explorador não é fácil. São estes gratificantes momentos de descoberta que lhe dão sentido e grandeza.

13/08/2009

Guarda-sol japonês


Sciadopitys verticillata (Thunb.) Siebold & Zucc.

A família Sciadopityaceae tem um único género, Sciadopitys, e uma única espécie, S. verticillata que, para se evitar a solidão, já esteve incluída na família Taxodiaceae. Arengas várias indicaram contudo que era prudente o isolamento taxionómico. Sciadopitys deriva dos termos gregos skiados, umbela, e pitys, pinheiro. Um nome assim usa-se na lapela como uma flor.

No início, em dias em que via passar muitos dinossauros mas estes ainda não eram famosos, esta árvore dedicou-se ao ócio de refinar as folhas. Estas são na verdade duplas mas completamente fundidas, com uma estria em cada face. Não entendemos a razão deste reforço, nem o aparente desperdício tão invulgar na natureza, mas o resultado é formoso: as agulhas espalmadas têm cerca de 12 cm de comprimento, cor verde-azeitona na face superior, mais amarelada na inferior, e agrupam-se em rosetas como as varas de um guarda-chuva (verticilos). No topo da copa os ramos são ascendentes, com os pequenos pálios terminais acentuando este efeito.

Como vegetal antigo, nunca negociou a sua sobrevivência com os insectos - que não existiam quando ela se estreou nas montanhas do centro do Japão -, nem descurou a sua autonomia. É uma árvore monóica: produz, no mesmo pé, cones masculinos e femininos, ambos primaveris; os primeiros nascem em cachos, os femininos são solitários, amadurecendo em dois anos e ganhando então uma cor acastanhada. A polinização está entregue ao vento.

Não é por ser espécie com origem tão remota que não tem uso. A madeira é resistente e flexível, e, como os pinheiros, exsude uma «resina» que serve como ingrediente de vernizes. E, claro, há o valor ornamental que os hortos sabem transformar em alto preço mas que os responsáveis pela arborização pública parecem ignorar.

12/08/2009

Fraga da Pena



Antirrhinum meonanthum Hoffmanns. & Link

A cerca de quilómetro e meio da Mata da Margaraça, num desvio da estrada entre Benfeita e Pardieiros, fica a Fraga da Pena, que é a outra grande atracção da Paisagem Protegida da Serra do Açor. A avaliar pelos muitos carros estacionados à entrada do caminho, e comparando com o sossego que se vive na mata, a larga maioria dos visitantes prefere a Fraga da Pena. É que, além do cenário ser sem dúvida mais impressionante, na Fraga da Pena é possível piquenicar (e os baldes a transbordar de lixo provam que muito gente o faz), coisa que, na Mata da Margaraça, só há condições para fazer (e só é permitido) junto ao centro de atendimento.

Para quem gosta de botanizar, a mata é incomparavelmente mais rica do que a fraga, que funciona sobretudo como aperitivo. O que há na fraga é uma sucessão de quedas de água, algumas vertiginosas, que formam pequenos lagos conectados entre si pelo sulco de um ribeiro talhado no xisto. Há um moinho de água (foto em cima) e, nas ravinas por onde a água se precipita, engalanadas com líquenes e fetos, uns poucos arbustos e árvores agarram-se, em equilíbro improvável, a algum torrão musgoso de onde extraem o sustento. O acidentado percurso da água é todo ele sombreado por um arvoredo denso: carvalhos, adernos, azereiros, folhados, loureiros.

Agarrada também à pedra, fora do alcance da mão mas não da objectiva (e ainda assim com algum risco para o fotógrafo, que teve de se debruçar numa balaustrada não muito firme), uma planta clamava por atenção. Era uma parente próxima das vulgares bocas-de-lobo (Antirrhinum majus ou Antirrhinum graniticum) mas com a cor errada, pois as flores, em vez de rosadas, eram amarelas, levemente estriadas de vermelho. Os manuais consultados indicaram tratar-se de um Antirrhinum meonanthum, uma planta exclusivamente ibérica (como são a maioria das suas congéneres) que em Portugal parece ser uma raridade. Tê-la encontrado foi uma recompensa adicional por termos subido à Fraga da Pena.

P.S. Repare-se que não concluímos o texto dizendo que valeu a pena subir à fraga. Não é que isso não seja verdade, mas neste blogue rejeitamos os trocadilhos fáceis e gastos.

11/08/2009

Lobélia-brava


Lobelia urens L.

Desde que me conhecera, Anna [Mahler] queria promover um encontro meu com seu jovem professor, Fritz Wotruba. (...) Quando entrei no ateliê e Anna disse meu nome, ele estava de costas para mim e não se levantou. Não retirou os dedos da argila, continuou a moldá-la. Ainda de joelhos, voltou a cabeça em minha direção e disse, numa voz profunda, encorpada: "O senhor também se ajoelha diante de seu trabalho?"

Elias Canetti, O jogo dos olhos (1985; trad. Sergio Tellaroli)

O ritual inicia-se com um aceno de cabeça e um esgar sorridente que confirma o interesse em fotografar. Segue-se uma dança em torno da planta para avaliar o miolo e as sombras. Depois de escolhida a objectiva, há que estabelecer a distância útil entre o olho que espreita e a forma que se exibe. É nesse momento que ele se ajoelha se a herbácea tem, como esta, uns 20 cm de altura e corolas de 1 cm de diâmetro - e eu espero vê-la requebrar os quadris com elegância e compor um trejeito de modelo em sessão fotográfica. Clic, e a flor, ávida por cumprir a estação, só morrerá nas explicações dos compêndios de botânica.

Porém, esta espécie de Lobelia, uma entre as duas europeias, apesar de pouco exigente quanto a nutrientes, está em perigo de extinção. Na Grã-Bretanha decorre há cerca de uma década um programa de recuperação que procura evitar perturbações demasiado agressivas no solo associadas à gestão de terrenos florestais onde esta planta se instalou.

Nas lobélias as componentes masculinas da flor desenvolvem-se antes das femininas para evitar a auto-polinização: o estilete não está receptivo quando o pólen da mesma flor já amadureceu. De facto, engenhosamente, cada antera (parte masculina, com o pólen) forma um tubo no fundo do qual nasce o estilete que empurra o pólen para o exterior até este se esgotar (levado por abelhas, ou colibris nas espécies americanas, para outros pés de flor); só então os estigmas (topo feminino do estilete) se abrem. Como consequência, a flor parece em postura invertida, rodada de 180 graus.

A designação lobélia-brava alude ao carácter silvestre mas também ao efeito tormentoso, que a palavra urens resume, que deixa nas entranhas de quem a consome: as folhas contêm um sumo acre, e a planta é tóxica, se ingerida em grandes quantidades, com efeitos semelhantes aos da nicotina. Apesar disso, em espanhol concedem-lhe um nome mais simpático, cardenala, talvez porque os lóbulos superiores lembrem os chapéus dos cardeais ou as poupas de certos pássaros (da família Upupidae, claro).

10/08/2009

Pinheiro-manso de São Mamede de Infesta


Pinus pinea L. - São Mamede de Infesta - Matosinhos

O nome desta freguesia - que afinal é cidade e tudo - do concelho de Matosinhos pode sugerir uma farra permanente a ouvidos mais distraídos: como o duplo de não costuma pronunciar-se, São Mamede em Festa foi como ele sempre me soou. Afinal, por que não haveriam os santos de divertir-se? Na verdade, o desfile de casas e prédios desirmanados ao longo do eixo central da povoação - uma via que começa no Porto com o nome de rua do Amial e se chama depois, sucessivamente, rua de Silva Brinco e rua de Godinho Faria - dá-nos fraco motivo para festejos. A rua é estreita, com muito trânsito e muito estacionamento, e os passeios são exíguos e sem sombra de árvore.

Um pouco antes de chegarmos ao edifício da Junta de Freguesia, a rua atravessa um viaduto sobre uma linha férrea: trata-se do ramal Leixões-Campanhã, que, depois de ter servido durante muitos anos só para mercadorias, será usado a partir de Setembro para transporte de passageiros. E, logo a seguir à Junta, no exacto local onde a rua muda de nome pela segunda vez, mora, num jardim particular, um pinheiro-manso de encher o olho. Dono de uma copa imensa, deverá ter, por comparação com o prédio a que está encostado, uns 20 a 25 metros de altura. Não chega para redimir a rua, pois isso é tarefa impossível para uma árvore só, mas permite-nos sonhar com outras ruas e outros horizontes. Quantas mais árvores como esta haveria por aqui nos tempos recuados em que, em vez de prédios, existiam casas com jardins? O que acontecerá ao pinheiro no dia em que a casa onde mora soçobrar, como sucedeu às suas vizinhas, ao camartelo do progresso?

09/08/2009

Horseshoe Vitex



Vitex negundo L.

Este arbusto mora num canteiro de cimento do Jardim Botânico do Porto, onde partilha a exígua assoalhada com mais duas árvores. O local, anexo às estufas, serve de arrecadação de ferramentas e de vasos com mudas; presume-se, pelo desarrumo, que esteja fora do roteiro normal dos visitantes, embora não tenha sido vedado. A planta não está identificada, mas um jardineiro assegurou-nos que lhe sabia o nome - embora, de momento, ele lhe fugisse. Acontece. Receamos, contudo, que não tenha sido apenas o nome a apagar-se da memória de quem cuida do jardim. Reconhecendo embora que os outros seres podem ter uma vida independente do nosso desvelo, estaremos igualmente prontos a aceitar o esquecimento?

Há algumas diferenças, embora pequenas, entre este Vitex e o agnus-castus. As margens das folhas são vincadamente serradas e os folíolos centrais têm pecíolo. As flores são menores, de um azul pálido, e o racimo não se parece tanto com uma espiga. A floração começa na Primavera e estende-se até ao fim do Verão.

Esta espécie de Vitex é originária de África e do este asiátio. A folhagem é caduca, como a do agnus-castus, e resistente ao ar salgado da beira-mar. O epíteto negundo deriva, segundo William T. Stearn, do sânscrito nirgundi, e justifica-se na designação Acer negundo pela semelhança das folhas dessa árvore (muito comum na arborização pública) com as deste Vitex.

Reparou, estimado leitor, que na pétala maior de cada flor está desenhada uma ferradura?

08/08/2009

Árvore da castidade



Vitex agnus-castus L.

Um novidadeiro não trilha a rotina despreocupada do carteiro para quem a indiferença e alguma ignorância são obrigatórias. Conta o passado como deveria ter sido, cada notícia a um passo do engano, erguendo, no esbatido antigo, o novo luzidio. Arrisquemos, contudo.

Visitámos há dias o Jardim Botânico de Coimbra e, surpresa, este ano as condições na estufa menor foram melhoradas e as sementes de Victoria amazonica (do Amazonas, onde a vimos a revestir completamente muitos hectares de rio enquanto servia de pouso a pássaros coloridos) germinaram. O lago está agora quase coberto com meia dúzia de folhas que rodeiam três - não, não exagero - botões de flor, um já desabotoado e exibindo uma water-lily gordinha, branca quando a vimos, seria rosa no dia seguinte, e último, da breve passagem desta flor acima da água. Não lhe conto mais, caro leitor, sugiro que vá lá ver estas maravilhas. Não, espere: na verdade as estufas não se podem visitar. Só se se juntar a mais cinco interessados e aceitar integrar uma visita guiada. Assim é que foi.

Num dos terraços de acesso interdito, mas desta vez franqueado, está uma pequena árvore que há muito esperávamos ver em flor. Trata-se de um Vitex agnus-castus, espécie comum na região que se estende do Mediterrâneo até à Ásia central, outrora popular em jardins pela copa elegante, as folhas palmadas pontiagudas com aroma a resina e, sobretudo, pela floração tardia, que começa no Verão e se estende até ao fim do Outono. As flores perfumadas de cor lilás, agrupadas em espigas terminais, têm 5 sépalas unidas a formar um cálice e 5 pétalas, sendo uma mais longa. O fruto é uma baga vermelha, que dizem ser bom substituto da pimenta, por isso este género esteve na família Verbenaceae. Os ramos são flexíveis e usados em cestaria; conta-se que uma preparação chinesa com as folhas, frutos e raízes é usada contra os resfriados; e que na Indonésia as folhas são fumadas para debelar as enxaquecas.

O género Vitex contém cerca de 20 espécies de árvores e arbustos, muitas de África, a maioria de origem tropical. Amanhã visitaremos outra, de que há um espécime no Jardim Botânico do Porto, cujas flores minúsculas nascem marcadas como era, em tempos bárbaros mas idos, o gado com ferro em brasa.

07/08/2009

Mata da Margaraça



Mata da Margaraça: carvalho-alvarinho, ribeira, moinho de água e arvoredo (loureiro, loureiro-cerejo, ulmeiro, vidoeiro); cerejeira com frutos

Nesta região do centro do país, adulterada pela plantação intensiva de eucaliptos e pinheiros, regularmente varrida por incêndios, a existência da Mata da Margaraça é pouco menos que milagrosa: um bosque autóctone quase intocado, estendendo-se por mais de 60 hectares, onde predominam castanheiros e carvalhos (Quercus robur), mas onde também se encontram ulmeiros, vidoeiros (Betula alba), folhados (Viburnum tinus), medronheiros, azereiros (Prunus lusitanica), cerejeiras, azevinhos, loureiros, aveleiras e salgueiros (Salix atrocinerea). Por toda a mata se vêem rebentos de futuras árvores, mostrando como ela se vem renovando espontaneamente. É um ecossistema em perfeito equilíbrio, com inúmeras nascentes irrompendo do xisto para formar refrescantes cursos de água que nem no Verão chegam a secar.

Como se vai para a Mata da Margaraça? O mais simples é procurar Côja num mapa de estradas e, uma vez lá, seguir as placas indicativas; a primeira delas aparece logo depois de atravessarmos a velha ponte sobre o rio Alva. Antes de chegarmos à mata, passamos ainda pelas aldeias de Benfeita e Pardieiros, e cruzamos o caminho de acesso à Fraga da Pena. Na Margaraça há um centro para atendimento de visitantes - que, durante o Verão, abre também aos fins-de-semana - e, na parte mais baixa da mata, um percurso assinalado com setas que termina, junto à ribeira, num enigmático beco sem saída. Muito pouco se ganha, porém, em obedecer às setas: afinal, a mata não é tão grande que alguém corra o risco de se perder; e há muita coisa boa (como as cerejas, minúsculas mas deliciosas) fora do percurso indicado. A parte da mata acima da estrada, embora com árvores em geral mais jovens e talvez por isso com menos encanto, guarda, a nível herbáceo e arbustivo, o que de mais interessante lá se pode ver. Terá sido para pôr essa riqueza botânica a salvo de visitantes incautos ou mal intencionados que o Instituto de Conservação da Natureza, que gere este espaço, não marcou qualquer percurso na metade superior da mata? Tanta cautela confunde-se com egoísmo e recusa em partilhar o que é belo; e é afinal contraproducente, pois acaba por desiludir e afastar aqueles que mais proveito tirariam de uma visita à mata.

06/08/2009

kaki-no-ki


Diospyros kaki Thunb. / Diospyros lotus L.

«The word man is, in like manner, a sign to denote the general notion of what all men have in common, and it would be very difficult to tell, or to make the enumeration of, all that this notion contains. Would you say that he is a living two-legged being? A cock would, likewise, be included in this description. Would you say, in the words of Plato's definition, that he is a two-legged animal without feathers? You have only to strip the cock of his feathers in order to obtain the Platonic man.

I do not know whether those who say that man is an animal endowed with reason express themselves more accurately: for, how often do we take for men certain beings of whose rationality we have no assurance. On viewing an army, I have not the least doubt that every soldier is a man, though I have not the smallest proof that they are all endowed with reason.»


Leonhard Euler, Letters to a German princess, Thoemmes Press (1997)

05/08/2009

É o vento que as leva


Cortaderia selloana (Schult. & Schult. f.) Asch. & Graebn. [Reserva de São Jacinto]

As gramíneas são as plantas mais evoluídas que se conhecem. Tão evoluídas que parecem ter-se preparado - usando, à distância de 60 milhões de anos, de uma capacidade divinatória sem paralelo - para um holocausto nuclear que não deixe vivo qualquer animal à face da Terra. Não dependem de ninguém para a polinização e para a disseminação das sementes: o vento faz de graça ambos os serviços. E, porque não precisam de atrair os bons ofícios de nenhum ser vivo, reduzem as flores à sua forma mais despojada, despindo-as de qualquer enfeite.

A relva que pisamos - e tantas vezes amaldiçoamos pelo consumo exagerado de água e pela fraca valia ambiental - é uma gramínea; e também provém das gramíneas boa parte da comida que nos sustenta: arroz, trigo, milho, aveia, cana-do-açucar, etc. Os bambus são gramíneas que podem ser empregues para fabricar mobiliário leve. E, finalmente, há as gramíneas que seriam ornamentais se fosse possível usá-las com comedimento, mas que aproveitaram a ingenuidade humana e a cumplicidade do vento para se transformarem em pragas. É o caso emblemático da erva-das-pampas (Cortaderia selloana), originária da Argentina e do sul do Brasil, que foi introduzida por cá como planta de jardim e se tornou das piores infestantes do litoral português, quase tão grave como as acácias e os chorões (Carpobrotus edulis).

É comum encontrarem-se terrenos abandonados (lotes para construção ou antigos campos agrícolas) completamente forrados por esta «erva» vigorosa e emplumada. Mas, ao contrário de outras plantas daninhas, a erva-das-pampas não é menina para se arrancar com as mãos nuas: não só as folhas são cortantes (daí o nome Cortaderia), como a touceira por elas formada ultrapassa os dois metros de altura; além disso, é uma planta rizomatosa, com raízes fundas e bem firmadas. O único modo prático de limpar uma infestação é recorrer a maquinaria pesada.

Em Portugal faz-se muito pouco para combater as invasões vegetais; mesmo em áreas protegidas (como a Reserva de São Jacinto) as plantas daninhas proliferam sem serem incomodadas. Talvez seja uma luta perdida, mas a impressão que dá é que nem chegou a haver luta.

04/08/2009

The prologue of the tree


Castanheiros na Mata da Margaraça (Serra do Açor, Arganil)

Mr. Walter Windrush, the eminent and eccentric painter and poet, lived in London and had a curious tree in his back-garden. This alone would not have provoked the preposterous events narrated here. Many persons, without the excuse of being poets, have planted peculiar vegetables in their back-gardens. The two curious facts about this curiosity were, first that he thought it quite remarkable enough to bring crowds from the ends of the earth to look at it; and, second, that if or when the crowds did come to look at it, he would not let them look.

To begin with, he had not planted it at all. Oddly enough, it looked very much as if he had tried to plant it and failed; or possibly tried to pull it up again, and failed again. Cold classical critics said they could understand the pulling up better than the putting in. For it was a grotesque object; a nondescript thing looking stunted or pollarded in the manner recalling Burnham Beeches,
but not easily classifiable as vegetation. It was so squat in the trunk that the boughs seemed to spring out of the roots and the roots out of the boughs. The roots also rose clear of the ground, so that light showed through them as through branches, the earth being washed away by a natural spring just behind. But the girth of the whole was very large; and the thing looked rather like a polyp or cuttle-fish radiating in all directions. Sometimes it looked as if some huge hand out of heaven, like the giant in Jack and the Beanstalk, had tried to haul the tree out of the earth by the hair of its head.

G.K.Chesterton, Four faultless felons (Dover, 1989)

03/08/2009

Por terras do Alva

Em Agosto de 2008, estando este blogue em gozo de sabática, estreava nas salas nacionais um dos melhores filmes do ano. Pensando bem, por que não ser enfático? Afinal, não temos qualquer razão para acautelar a nossa inexistente reputação cinéfila. Recomecemos então. Em Agosto de 2008, estando nós em ano sabático, estreava nas salas nacionais o melhor filme português de sempre - que se afirmou igualmente, por larga margem, como o melhor filme do ano. Realizado por Miguel Gomes, Aquele Querido Mês de Agosto - assim se chamava o filme - tinha por assunto o mês das férias de Verão no interior de Portugal: o mês dos que regressam à sua terra para reencenar uma vida que ficou suspensa durante onze meses; dos emigrantes que falam francês com os filhos mas entre si trocam palavrões; dos bailes com música foleira; dos que nunca partiram; das procissões, dos namoricos, dos incêndios.

O filme passa-se naquele que é quase o centro geográfico de Portugal, e que as populações locais conhecem por Beira Serra ou Pinhal Interior: Vila Nova de Poiares, Góis, Arganil, Côja e mais umas quantas vilas e aldeias até Oliveira do Hospital. É uma paisagem sem a imponência da Serra da Estrela, que só começa um pouco mais a leste. Os eucaliptos e os pinheiros, pasto de colossais incêndios, acabaram com a floresta autóctone; as povoações foram desfiguradas por casas e prédios desatinados. É isto que a fita também mostra, acompanhado pela banda sonora de um pimba impenitente. Como é que com ingredientes destes se pode fazer um filme tão comovente?

O verdadeiro caso amoroso do filme, além do namorico inconsequente (que termina, como manda a tradição, a 31 de Agosto), é por uma velha amante que, maltratada por muitos, desgastada pelos anos e confundida por novas modas, perdeu todos os encantos que tinha. Como se não percebesse as mudanças na amada - ou, percebendo-as, como se elas não lhe parecessem assim tão graves -, quem a ama continua a frequentá-la com o carinho de sempre. O par que os dois apaixonados formam nada tem de ridículo: é grandioso e trágico. Sem disfarces nem efeitos de retórica, é este amor mal resolvido dos portugueses pelo seu devastado território que está no âmago do filme.


Ponte sobre o rio Alva, em Côja

Não é o Alva o único rio que aparece em Aquele Querido Mês de Agosto: o Ceira, também afluente do Mondego, é cenário para uma gigantesca concentração de motards, em Góis. Mas o Alva é o rio mais importante da região, ao ponto de ela dever chamar-se terras do Alva. É o agrupamento musical Estrelas do Alva que anima os bailes na segunda parte do filme; há por lá povoações com nomes como São Pedro de Alva, Barril de Alva e Vila Cova de Alva; e a ponte sobre o Alva, em Côja (foto acima), é uma das protagonistas centrais do filme.


Amieiro junto à ribeira da Mata, em Benfeita

A ribeira da Mata nasce na Mata da Margaraça e desagua na margem esquerda do Alva, muito perto da ponte de Côja. (O local da confluência é assinalado pelos arcos que, na primeira foto, se podem distinguir por trás das escadas.) Aqui vemo-la a atravessar Benfeita, uma aldeia de 100 habitantes onde foi construída uma praia fluvial, com um açude que transformou um troço da ribeira em piscina. Mais a jusante, um vigoroso amieiro (Alnus glutinosa) regala-se nas águas que o açude vai libertando.


Relva Velha vista da Mata da Margaraça

A Mata da Margaraça é a jóia da coroa da Paisagem Protegida da Serra do Açor. É também o local onde, no final de Aquele Querido Mês de Agosto, encontramos a equipa de produção envolvida numa discussão sobre os sons espúrios que, segundo o realizador, se ouviriam no filme (na opinião do técnico, pelo contrário, esses sons seriam perfeitamente legítimos e apropriados). Enquanto a disputa se desenrola, a câmara vai deambulando pelo arvoredo e um microfone de braço comprido vai captando sons. Ouvem-se pássaros e, se as árvores não falam, pelo menos ostentam placas que lhes revelam os nomes. Dê ou não um filme, a Mata da Margaraça tem muito que contar, e a ela voltaremos de olhos e ouvidos bem abertos.

01/08/2009

Cruza-menta


Mentha spicata L. / Mentha aquatica L.

Custa a crer que duas espécies distintas se entendam sobre perdas e ganhos e decidam voluntariamente cruzar-se para criar algo novo. O género Mentha é, contudo, um exemplo de sucesso neste âmbito, havendo uma tal profusão de formas intermédias nas folhas e inflorescências que a identificação é por vezes polémica.

A união que aqui destacamos deu-se entre a hortelã-mourisca (watermint ou Mentha aquatica L.) - de inflorescências globulares com uns 2cm de diâmetro, flores de cor lilás ou branco com longos estames, folhas aromáticas, ovais, com pecíolo, pubescentes nas duas faces e de margens dentadas - e a hortelã-verde (spearmint, Mentha spicata L.), que exibe inflorescências em cauda de gato* com cerca de 6cm de comprimento, flores rosa ou lilás também com estames proeminentes, e folhas lanceoladas com odor de menta adocicado, glabras, serradas e sem pés. Geraram a hortelã-das-damas (peppermint, a Mentha x piperita L.) que, obviamente, ostenta inflorescências que são... caudas compostas por volutas de flores lilás-púrpura muito perfumadas e com estames curtos (curtos?... mm...). A folhagem repete o padrão misto, sendo as folhas ovais-acuminadas, apenas levemente penugentas e quase sésseis.

Este relato é de testemunhas credíveis, nós nunca vimos este híbrido, embora se anuncie frequente, como os progenitores, em torrões húmidos. Contudo já o provámos: dele se extrai o óleo de aroma familiar a menta usado em chás, licores, cremes dentífricos, pastilhas para a tosse e outros produtos igualmente femininos como o bombom de menta, presença assídua entre os dois ou três pires que servem de pedestal à chávena de café nos estabelecimentos requintados.

* Quis escrever, mais correctamente, «flores em espiga», mas hoje é o aniversário do Pip, o meu gatinho. Os crentes em astrologia dizem que, por isso, ele «é Leão», mas não se nota nada, tem pelagem de tigre.

31/07/2009

Traços de família


Convolvulus althaeoides L.

Com possível excepção de Jesus Cristo, ninguém escolhe a família em que nasce. Devemos, pois, lutar contra o preconceito, e julgar cada indivíduo pelas suas qualidades intrínsecas. Essa regra de conduta vale tanto para o mal como para o bem: o filho do ladrão só é criminoso se tiver cometido um crime, e o filho da nobreza só é excepcional se os seus feitos assim o comprovarem.

Está bem, está bem, mas é ou não verdade que quem sai aos seus não degenera e que filho de peixe sabe nadar? (Este povo é incorrigível, sempre de lugar-comum engatilhado para abortar qualquer embrião de pensamento.) Ou, adaptando o chavão ao reino vegetal, é ou não verdade que filha de invasora sabe invadir?

Saber, lá isso sabe, mas a verdade é que não invade muito, pois a Convolvulus althaeoides (ou corriola-rosada), ainda que espalhadiça como quase todas as convolvulácias, tem uma distribuição esparsa em território nacional. (Globalmente, é nativa da Península Ibérica e dos países da bacia mediterrânica.) Com vistosas flores cor-de-rosa de 4cm de diâmetro produzidas de Abril a Agosto, e folhas recortadas fazendo lembrar as da malva, a sua beleza valeu-lhe ser cultivada nos jardins do norte da Europa. Mas não sem cautelas: para evitar a propagação descontrolada, recomenda-se que seja plantada em vasos ou noutros recipientes enterrados no solo.

Encontrámos esta planta no final de Maio, à margem de uma das estradas que serpenteiam pela Serra dos Candeeiros. A experiência ensinara-nos que as plantas da serra (e de outros lugares semelhantes) se dividem em duas classes disjuntas: as que vegetam junto às estradas, e as que enfeitam os percursos pedestres recomendados para visitantes. Por isso, sabendo que não a reencontraríamos, não hesitámos em parar o carro. Às vezes dá pena que nas auto-estradas não dê para fazer o mesmo. Será para evitar atitudes como esta de algum botânico amador tresloucado que nas auto-estradas portuguesas se rapa à escovinha a vegetação dos taludes?

30/07/2009

Fidalguinha azul


Centaurea cyanus L.

É humano querer o que nos é preciso, e é humano desejar o que não nos é preciso, mas é para nós desejável. O que é doença é desejar com igual intensidade o que é preciso e o que é desejável, e sofrer por não ser perfeito como se se sofresse por não ter pão. O mal romântico é este: é querer a lua como se houvesse maneira de a obter.

Uma flor azul é, desde Novalis (1772-1801) e a obra Henry Von Ofterdingen, símbolo literário do romantismo, premonição de amor e desejo, ou um vislumbre do que parece inalcançável. Recentemente, com a ajuda desta centáurea, a ciência abeirou-se da quimera.

A coloração das flores é obtida através de uma grande variedade de pigmentos feitos de moléculas que reflectem a luz de modo distinto. O azul é conferido por antocianinas, glicosídios solúveis em água e responsáveis por cerca de 30% do tecido das pétalas dessa cor, através de estratégias complexas de variação dos níveis de acidez e oxidação dentro das células. Biólogos e químicos rodearam-se de flores de Centaurea cyanus (e de Commelina communis, Ipomoea acuminata, Salvia patens e Hydrangea macrophylla) e decifraram o código das cores. A tecnologia e a manipulação genética fizeram o resto, e nasceu a primeira rosa azul.

Ficou, então, neste mundo de almas, a ruína visível, a desgraça patente, sem a treva que a cobrisse do seu carinho falso. As almas viram-se tais quais eram.

Fernando Pessoa, Livro do Desassossego

29/07/2009

Gigantes da Beira



É o rio Côa que se vislumbra entre as ramagens deste cedro. Mais acima, na mesma ladeira, ficam o Museu e o Auditório municipais da cidade do Sabugal. Foi lá que decorreu, a 25 de Junho, a primeira parte do seminário Árvores monumentais - importância e conservação, de que o Pedro Santos publicou há dias na Sombra Verde uma reportagem em três partes (confira aqui, aqui e aqui).

A mascote não oficial do encontro foi a sequóia-gigante centenária que arrebita a sua elegante flecha no jardim contíguo ao auditório. Trata-se de uma árvore admirável, e foi graças às diligências do Pedro que esse carácter de excepção lhe foi reconhecido em Agosto de 2008, quando a Autoridade Florestal Nacional a declarou árvore de interesse público. É a segunda árvore do concelho do Sabugal que ostenta esse galardão; antes dela, em 2004, tinha sido classificado um dos veneráveis castanheiros que visitámos no passeio de 26 de Junho.


Sequoiadendron giganteum (Lindl) J. Buchholz

Já antes explicámos ao leitor as razões para nos sentirmos pequeninos face a estas sequóias, que são, no seu habitat natural (Sierra Nevada, na Califórnia), as mais volumosas árvores do mundo, e também das mais longevas. Em lugar de nos repetirmos, convidamo-lo a recapitular aqui a matéria dada. A sequóia do Sabugal, ainda longe de atingir o porte das suas irmãs mais velhas, vale como promessa. E é à conta dessa promessa (que a seu tempo cumprirá, se a tratarem bem) que vai tendo o ego bem afagado, como presença já habitual na blogosfera lusa.


Sequoiadendron giganteum - Parque do Hospital da Guarda

Há uma segunda espécie de sequóia (Sequoia sempervirens), também nativa da Califórnia, que, por se ter adaptado melhor ao nosso clima, se encontra em parques e jardins um pouco por todo o país. A Sequoiadendron giganteum, porém, originária de uma zona de montanha (entre os 1500 e os 2000 metros de altitude), prefere climas mais secos e frios. Em Portugal, as condições ideiais para o seu desenvolvimento parecem concentrar-se na Beira Interior, num triângulo com vértices na Guarda, no Trancoso e no Sabugal. Na cerca do Hospital da Guarda, antigo sanatório, há um conjunto de mais de cinquenta sequóias-gigantes plantadas na primeira década do século XX, num parque inaugurado pelo rei D. Carlos em 1907; a mais alta supera actualmente os 47 metros de altura. O parque será uma miniatura quase infantil das famosas florestas de sequóias na Califórnia; mas, por muito pequenas e poucas que sejam essas árvores na Guarda quando medidas por tão exigente bitola, são senhoras bem capazes de nos suscitar respeito e admiração.