21/04/2008

As árvores não sabem nadar


Choupos - Abreiro, rio Tua

aqui falámos da barragem com que o governo e a EDP querem destruir irreversivelmente o vale e a linha do Tua. Os estragos do empreendimento, contudo, não se ficarão por aí. A grande bolha de água estagnada alastrará ainda a afluentes do Tua como o rio Tinhela; na margem esquerda do Tinhela, perto da junção dos dois rios, situam-se as Caldas de Carlão, que foram modernizadas há poucos anos e serão, também elas, inundadas pelas águas da barragem. Do rio Tinhela, e da galeria de freixos que o acompanha [ver abaixo], ficarão apenas a memória e algumas fotos: as árvores, apesar de não serem inertes como são os desenhos gravados na pedra, morrerão por não saberem nadar.

«As gravuras não sabem nadar» foi o slogan criado em Vila Nova de Foz Côa, nos idos de 1995, pelos opositores à construção da barragem que iria submergir o valioso núcleo de arte rupestre então recém-descoberto no vale do Côa. A palavra de ordem propagou-se pelo país como incêndio em mato ressequido: marcou uma fronteira clara entre dois campos, e foi bandeira de António Guterres na campanha eleitoral de 95. Empossado como primeiro-ministro em Outubro, anunciou de imediato que a barragem não se faria. As gravuras estavam salvas do afogamento.

Agora que o slogan entrou na adolescência, o pequeno mundo português está menos permeável ao idealismo. Embora se anunciem para os próximos anos afogamentos ainda mais graves, pela magnitude dos prejuízos patrimoniais e ambientais, do que o das gravuras do Côa, de pouco adianta reciclar a frase e tentar insuflar-lhe nova vida mediática. O beco sem saída a que chegámos pode traduzir-se numa pergunta: em quem devemos votar para termos um governo que não construa as barragens do Tua e do Sabor? Ou, numa formulação mais geral: dos dois partidos que nos têm governado, qual deles defende que já temos quanto basta de betão e de asfalto, e que é urgente pormos termo à depredação do território?

A adopção de chavões ambientalistas pelo discurso político é um verniz que estala logo ao primeiro embate, deixando a descoberto as velhas ideias desenvolvimentistas da nossa perdição. Mas, mesmo que as escolhas políticas actuais pareçam ser entre uma coisa e a sua igual, o alheamento não é uma atitude sensata, e da desistência não podemos esperar qualquer mudança. Pode ser que o clamor daqueles que não se sentem representados no nosso mainstream político obrigue algum dia os partidos a renovarem-se e a diferenciarem-se.

É por isso - e também por acreditarmos que uma barragem na foz do Tua é um erro monstruoso - que apoiamos a petição lançada pelo Movimento Cívico pela Linha do Tua. Não falta muito para as assinaturas atingirem as 4000, garantindo-se assim que a petição é discutida no plenário da Assembleia da República.



Freixos - rio Tinhela

19/04/2008

Pequenos vícios

«"Dá-me a tua mão". A mão (explica-me Daniel) era o prolongamento da intimidade, a memória dum corpo retido em cinco dedos esguios e trémulos. Mas a dele, pela prontidão com que respondia à de Cecília, era o nó sensível com que a rapariga podia medir o cansaço, a indiferença, a idade, em suma, do amor, tal como o perfeito marceneiro, medindo de facto um nó de madeira, premindo-o e afagando-o, sabe avaliar os anos duma árvore e a sua resistência.»

José Cardoso Pires, Lavagante (2008)


Vicia hirsuta

Os dotes de trepadeira da Vicia hirsuta superam a fadiga de ser tão pequenina. A foto da esquerda mostra-a decidida a içar alto a bandeira, de gavinhas enliçadas a tudo o que lhe está ao alcance da mão.

As flores em cachos são como cabeças de alfinete (~4 mm), de tom branco com sombras roxas, mas semelhantes às que vimos nas espécies V. angustifolia e V. sativa. Apesar de ser uma ervilhaca em miniatura, a folhagem é densa e pode criar um tapete espesso. A designação comum cizirão, do latim cicer, eris, grão-de-bico, é sugerida pelo formato das sementes.

Temíamos chegar a este ponto. Prevemos mesmo o risco de, abandonados pelas árvores em descanso de Inverno, baixarmos os olhos e nos encantarmos com as plantas miúdas, de curta e ávida vida. Por este caminho não tardaremos a ser dançarinos-de-prado, calcorreando os campos sempre em bicos-de-pés para poupar o veludo das ervas tenras. E um dia repararemos nos saiotes dos musgos, iniciando outro capítulo de descoberta, cedendo a mais um vício da curiosidade. Ou talvez cruzemos uma estreita porta da floresta sem retorno.

18/04/2008

Mirtilo-americano


Vaccinium corymbosum

Nas nossas visitas ao Jardim Botânico não costumamos levar cesta para ir apanhando fruta, mas talvez devêssemos fazê-lo. Cientes de que nem tudo se come, tomaríamos as devidas cautelas para evitar intoxicações. Não seríamos culpados de avidez gulosa, e nenhum pássaro passaria fome por nossa causa. Mas a passarada não come tudo, e dói ver apodrecer no chão coisas com que nos poderíamos deliciar. Falamos por exemplo dos frutos deste arbusto, chamados blueberries nos EUA, onde são, no seu género, dos mais consumidos e apreciados. A espécie mais disseminada na Europa e na Ásia é a Vaccinium myrtillus, dando-se entre nós o nome de mirtilo tanto ao arbusto como ao fruto. No norte da Europa essa espécie é de tal modo abundante que colher mirtilos é passatempo vulgar; mas, pela mesma razão, não é compensador cultivá-la. O clima português, menos frio, não é tão propício ao seu desenvolvimento, e só na Serra do Gerês ela sobrevive na forma espontânea; e aí, por motivos óbvios, a colheita dos frutos está proibida. Por contraste, a produção comercial de mirtilos no nosso país, iniciada há poucos anos, parece ser bom negócio, embora o seu consumo não se tenha ainda generalizado.

Os arbustos do género Vaccinium são estimados tanto pelos frutos como pelas qualidades ornamentais. Entre as mais de 400 espécies, a maioria delas das zonas mais frias do hemisfério norte, contam-se arbustos grandes e pequenos, uns de folhagem caduca e outros perenifólios. Os mais populares em cultivo são de origem norte-americana, mas uma espécie endémica em território português, a caducifólia açoriana V. cylindraceum, tem ganho adeptos pelo mundo fora. Na Madeira é endémica a espécie V. padifolium, de folhas persistentes, conhecida na sua ilha natal como uveira ou uva-da-serra, nomes que servem igualmente à sua prima açoriana.

17/04/2008

Mesuras


Silene nutans subesp. nutans (nutans = inclinada, obsequiosa, reverente)

«Quem viveu tempo bastante para comparar costumes velhos com costumes novos concluirá que foi mais simples ontem do que hoje a maneira de tratar pó levantado. Os prenomes, isto é, os títulos que precedem nomes próprios ou apelidos (...) eram adminículos simples como rosas bravas. Hoje, dobram-se e redobram-se com sete camadas de pétalas multicores. Antes de cada nome, devem figurar todos os arreios, franjas e campainhas que berrem à vista e ao ouvido. (...)

Eram mais simples os tempos de ontem. O título de doutor não compreendia, como agora, três espécies: Doutor por extenso, Dr. abreviado e dr. minúsculo, reduzido a duas cíbalas de pulga indecentes. Havia um, que era o Dr. - fosse ou não fosse de borla.

Ninguém sabe distinguir, na pronúncia, as três espécies. Há quem proponha, para remediar, uma vénia para o dr. pequenino, duas para o Dr. mediano e três para o Doutor de via larga - único verdadeiro.

Respeitem-se os prenomes, que a sociedade não pode viver sem eles. São, como dizia o Abade de Baçal, o chocalho que distingue o indivíduo. Mas, não se respeite mais o chocalho que a pessoa - como sucede a cada passo.

João de Araújo Correia, Ecos do País (Imprensa do Douro, 1967)

16/04/2008

Edital


Aesculus hippocastanum

Avisam-se todos os interessados (e quem, lendo este blogue, poderá não estar interessado?) de que os castanheiros-da-Índia estão em flor. Antes disso, é claro, as mesmas árvores deram folhas novas, fenómeno que, embora nos alegrasse o coração, não assinalámos na altura própria. Como as folhas, ao contrário das flores, não desaparecem tão cedo, as duas coisas podem agora ser vistas em simultâneo, embora a tenra languidez das folhas acabadas de nascer (foto da esquerda, tirada na Quinta da Aveleda) já se tenha desvanecido. A árvore à direita, fotografada há poucos dias, mora no jardim da Casa Burmester, à rua do Campo Alegre, no Porto.

15/04/2008

Pimpinela



Sanguisorba minor

A maioria dos dicionários portugueses, quando questionados sobre a palavra pimpinela, respondem, piscando nervosamente, que se trata de:

1. herbácea da família Rosaceae, espontânea e frequente em Portugal, com uso medicinal;
2. plantas da família Apiaceae a que pertence o anis.

Anis?

anis - planta herbácea, da família Umbeliferae, também denominada erva-doce, que tem aplicações em farmácia, culinária e na preparação de algumas bebidas alcoólicas.

Mas este anis não pode ser o ilustre e caro [Illicium verum, da família Illiciaceae], pois não? E por que chamam à pimpinela - nome lindo - anis, e a qual das três famílias (Apiaceae, Umbelliferae, Rosaceae) afinal pertence? Sigamos para mais esclarecimentos em dicionários brasileiros. O Aurélio, enxuto como lhe convém, não hesita:

pimpinela - do latim pimpinella, alteração de pepinella, do latim pepo, «melão»; anis.
sanguissorba - ?
anis - erva da família das umbelíferas, Pimpinella anisum, originária do Egipto, a qual fornece a essência de anis usada na fabricação de licores e xaropes; erva-doce, pimpinela.

Bem, a pular assim entre as duas palavras, não vamos a lado nenhum! Consultemos os verbetes do Houaiss, que regista:

pimpinela - designação comum às plantas do gênero Pimpinella, da famíla das umbelíferas; deriva do latim pipinella, «planta medicinal»;
pimpinela - de pepinella, pepino, pepo, «melão», aludindo ao uso em salada, como o pepino, das folhas da sanguissorba.

Ah, pepinella e pipinella! E a sanguissorba era onde queríamos chegar:

sanguissorba - do latim sanguis, sangue, e sorbare que conduziu a absorver, indicando o uso desta planta para ajudar a conter hemorragias; designação comum da Sanguisorba minor: coentrela.

Conclusão: O anis-estrelado [Illicium verum, Illiaceae] pouco tem a dizer à planta acima designada por "anis ou erva-doce" [Pimpinella anisum, Umbelliferae], de flores brancas ou rosadas e folhagem parecida com a da salsa; dela também se faz um licor popular, com cheiro e sabor que lembram os do anis-estrelado porque contém anetol, substância responsável pelo aroma em ambas.

E a pimpinela [Sanguisorba minor, Rosaceae], de flores com sépalas verdes, estames longos e avermelhados com anteras amarelas, e sem pétalas, afinal não é uma Pimpinella.

Vêem como é preciso uma ensaboadela nos dicionários e na língua? O acordo ortográfico vai tratar disso, não se preocupem: as manchinhas, como os cês, pês, o trema e outros acentos incómodos, que, como repararam, foram o maior entrave ao nosso conhecimento da pimpinela, serão prontamente lavadas. Joeirar é a meta. A nós resta a tarefa menor de reaprender.

14/04/2008

Kousa nunca vista


Cornus kousa

Conforme prometido na semana passada, aqui vão, na falta de fotos que a mostrem no seu rubro vestido outonal, as imagens possíveis desta outra Cornus no Parque Florestal de Amarante. Várias diferenças há entre a Cornus florida e a Cornus kousa. A que não salta à vista é serem originárias de continentes diversos: a primeira, como indica o epíteto específico, da costa leste dos EUA; a segunda da China e do Japão, sendo aliás kousa o seu nome japonês. As duas são de folhagem caduca, mas - como já vimos - a C. florida, mais pressurosa em exibir-se, faz brotar as flores antes das folhas. Em ambas as espécies as verdadeiras flores são verdes e discretas, formando pequenos bouquets rodeados por quatro brácteas semelhantes a pétalas; mas as brácteas da C. kousa são lanceoladas (foto em cima), ao passo que as da C. florida têm reentrâncias nas pontas, como se alguém as tivesse mordido (foto aqui). Finalmente, as folhas da C. kousa têm margens serradas e as da C. florida têm margens lisas. Tanto uma como outra espécie deram origem a numerosos cultivares ornamentais, quase todos eles inéditos em jardins portugueses. De facto, o Parque Florestal de Amarante é o único local do país onde alguma vez vimos exemplares de qualquer destas duas espécies de Cornus.

13/04/2008

Sobre o verde do trevo


Trifolium arvense

«De alguns corpos se diz que são transbordantes, quando se deitam é raro não deixarem sinais: pequenas manchas de sol recente ou delicadas sementes de alegria. Da substância vertida sobre o verde do trevo se diz também que é eloquente (eu diria irradiante), não sei se pelo cheio ao oiro da palha humedecida, se pelo brilho de seda acariciada. O que sei é que fascina as formigas e põe em cólera as éguas que nenhum vento emprenhou.»

Eugénio de Andrade, Memória de outro rio (1978)

12/04/2008

O princípio da aliança*

«Como uma esperança negra, qualquer coisa de mais antecipador pairou: a mesma chuva pareceu intimidar-se, um negrume surdo calou-se sobre o ambiente. E súbito, como um grito, um formidável dia estilhaçou-se. Uma luz de inferno frio visitara o conteúdo de tudo, e enchera os cérebros e os recantos. Tudo pasmou. Um peso caiu de tudo porque o golpe passara. A chuva triste era alegre com o seu ruído bruto e humilde. Sem querer, o coração sentia-se e pensar era um estonteamento. Uma vaga religião formava-se no escritório. Ninguém estava quem era, e o patrão Vasques apareceu à porta do gabinete para pensar em dizer qualquer coisa. O Moreira sorriu, tendo ainda nos arredores da cara o amarelo do medo súbito. E o seu sorriso dizia que sem dúvida o trovão seguinte deveria ser já mais longe. Uma carroça rápida estorvou alto os ruídos da rua. Involuntariamente o telefone tiritou. O patrão Vasques, em vez de retroceder para o escritório, avançou para o aparelho da sala grande. Houve um repouso e um silêncio e a chuva caía como um pesadelo. O patrão Vasques esqueceu-se do telefone, que não tocara mais. O moço mexeu-se, ao fundo da casa, como uma coisa incómoda.

Uma grande alegria, cheia de repouso e de livração, desconcertou-nos a todos. Trabalhámos meio tontos, agradáveis, sociáveis com uma profusão natural. O moço, sem que ninguém lho dissesse, abriu amplas as janelas. Um cheiro a qualquer coisa fresca entrou, com o ar de água, pela grande sala adentro. A chuva, já leve, caía humilde. Os sons da rua, que continuavam os mesmos, eram diferentes. Ouvia-se o som dos carroceiros, e eram realmente gente. Nitidamente, na rua ao lado, as campainhas dos eléctricos tinham também uma socialidade connosco. Uma gargalhada de criança deserta fez de canário na atmosfera limpa. A chuva leve decresceu.

Eram seis horas. Fechava-se o escritório. O patrão Vasques disse, do guarda-vento entreaberto, «Podem sair», e disse-o como uma benção comercial. Levantei-me logo, fechei o livro e guardei-o. Pus a caneta visivelmente sobre a depressão do tinteiro, e, avançando para o Moreira, disse-lhe um «até amanhã» cheio de esperança, e apertei-lhe a mão como depois de um grande favor.»

Fernando Pessoa, Livro do desassossego (Assírio & Alvim, 2001)

*Letras em Lisboa - Portugal, Brasil, África
Casa Fernando Pessoa / Teatro Municipal de São Luiz
(só até amanhã)


Na foto: Daucus carota (cenoura-brava)

11/04/2008

Arbusto-pérola



Exochorda x macrantha - Parque Florestal de Amarante

A tendência geral da moda Primavera/Verão nos jardins da cidade tem-se centrado mais no corte do que na decoração, acentuando o minimalismo e reforçando a melancolia dos tempos brumosos, toldados por chuva e vento, com que Abril se iniciou. Pelo contrário, os estilistas que cuidam das nossas prateleiras têm apostado numa colecção onde sobressaem padrões florais, estampados e acessórios de algum exotismo, vestindo silhuetas de assinalável exuberância e frescura. E a nossa noiva é um arbusto de ritidoma alaranjado e folhagem caduca, agora enfeitado de flores grandes com delicadas tiaras de estames. Agrupadas em cachos vistosos, criam uma máscara branca, pura e vaporosa, que lhe cobre a recente nudez. E as flores não desabotoadas são pérolas que dão um toque requintado ao traje.

A Exochorda x macrantha "The Bride" é uma selecção de um híbrido de dois estilos, a E. racemosa e a E. korolkowii, de ramagem verde-azulada e arqueada, pétalas estreitas na base e separadas, o que distingue esta rosácea dos exemplares do género Prunus abundantes em outras vitrines. Com estas propostas mantemos o investimento no mercado asiático, da China à Coreia, ambiente natural deste género que se apresenta em quatro versões.

Sussurram-me, enquanto me puxam vigorosamente pela manga, que a noiva costuma encerrar o desfile - e o nosso ainda vai no adro -, que os críticos da casa pequena notarão a pressa no casamento, apontando com os olhos no céu, enquanto a cabeça escreve a condenação, o óbvio pecadilho da mocinha. Ora, esse mesmo céu perdoar-lhe-á no Outono, garantindo-lhe numerosa prole com formato de estrela, objectámos nós.

10/04/2008

Camarinha em flor


Corema album

O aviso desta vez vem tarde, pois as fotos, tiradas na Reserva de São Jacinto, são de meados de Março, altura em que a floração das camarinhas já ia adiantada. Como essa fase é de curta duração, já deve ter sido por completo ultrapassada. As fotos são um pretexto para revelar que a camarinheira é dióica: há plantas que só dão flores masculinas, e outras que se encarregam das flores femininas. Só as plantas femininas produzem aquelas refrescantes bagas brancas que são os frutos. As inflorescências masculinas e femininas são semelhantes, surgindo ambas na extremidade dos galhos, mas observando-as de perto podemos distingui-las sem grande dificuldade. Na foto da direita, por exemplo, os estames encimados por anteras comprovam que se trata de uma planta masculina; como na planta da esquerda essas estruturas estão ausentes, concluímos que ela é feminina. Agora que estão apresentadas uma à outra, podem já combinar casamento, embora não tenham que jurar fidelidade mútua.

Apesar de ser comum em boa parte do litoral português, a camarinha tem uma distribuição global restrita, estando confinada à costa atlântica ocidental da Península Ibérica e às ilhas açorianas de São Miguel, Graciosa, São Jorge, Pico e Faial. Concluíu-se, porém, que a camarinha açoriana não é exactamente igual à do Continente, tendo por isso sido arrumada numa subespécie autónoma: Corema album subesp. azorica.

09/04/2008

Junco-dos-prados

"Menina Custódia, preencha lá essa folha com o número de pirilampos que calcula que existem." E a menina Custódia, com os olhos baixos de castidade, responde: "Senhor presidente, eu não costumo sair à noite, mas, pelo que tenho ouvido zumbir por aí, punha uns 79." "Ponha 99", responde o presidente, "pode ser que ainda tenhamos algum subsídio."

Eduardo Prado Coelho, Público, 11 Setembro de 2003




Luzula campestris (L.) DC.

Em 2003 o Parque Biológico de Gaia solicitou às câmaras municipais que «percorressem matas, pradarias, margens de rios e ribeiros, orlas de campos agrícolas e jardins e assinalassem as suas observações numa folha apropriada.» Objectivo: registar a presença e distribuição de pirilampos em território português. Nesse ano o país indignava-se com o recente escândalo ligado à Casa Pia e, em Setembro, fazia contas à calamitosa onda de incêndios. Mas nem tudo foram más notícias: temos um número muito razoável de pirilampos distribuídos de uma forma harmoniosa. Ao menos isso, suspirámos, mesmo que, por este processo, não se evitasse que algum pirilampo fosse contado duas ou mais vezes.

Há outros seres luzentes que, como os vaga-lumes, se põem em sincronia sem ajuda de maestro. Para cortejar o vento, seu polinizador, a Luzula campestris está em flor. É ver agora este pequenino junco cosmopolita nos prados húmidos porque a meio do Verão desaparecerá, para só ressurgir na Primavera de 2009.

A palavra luzula deriva da italiana lucciola, vaga-lume. E as fotos da inflorescência, que tem entre 4 e 12 flores, justificam a escolha desta designação. As seis pétalas castanhas lembram as asas de um insecto; os seis estames, em posição oposta a cada pétala, são amarelos como lâmpadas fluorescentes; e o estilete contém três estigmas cintilantes, como um mini-relâmpago emitido por cada flor. Mais tarde, as cápsulas sedosas dos frutos atrairão as formigas, que farão o favor de dispersar as sementes em troca deste espectáculo de fogo-de-artifício e de algum alimento.

08/04/2008

É uma olaia? É uma cerejeira?

Nem uma coisa nem outra, é claro. As vivas manchas cor-de-rosa que enfeitam por estes dias o Parque Florestal de Amarante são de duas Cornus florida. Uma delas já tinha sido aqui festejada em anos anteriores; posteriormente, a mesma árvore forneceu o material pedagógico para explicarmos que nas Cornus, tal como nas buganvílias, o colorido vistoso é das brácteas e não exactamente das flores. Este ano notámos que a árvore não está sozinha: outro exemplar da mesma espécie (na foto) vive em lugar mais discreto, fora do circuito dos visitantes, num declive entre campos de cultivo. Tivemos que a ver de perto para tirar a teima sobre que árvore seria ela. Era a cara chapada de uma olaia, um bocadinho atrasada na floração, é certo - só que não era olaia, e com isso perdi uma aposta. Mas como olaias há muitas e as Cornus são raras, no fim de contas também ganhei.


Cornus florida

Embora as «flores» se mantenham na árvore por algum tempo, a cor viva vai-se gradualmente esbatendo à medida que a árvore faz brotar as folhas novas. Daqui a duas ou três semanas, o rosa terá desmaiado para branco, ainda mais atenuado pelo verde da folhagem. Também em Amarante, perto destas duas, vegeta uma pequena e bonita árvore da espécie C. kousa, a qual, por nunca fazer o espalhafato das suas congéneres, nunca aqui trouxemos: as suas flores, rodeadas por brácteas brancas, surgem ao mesmo tempo que as folhas. A terceira espécie de Cornus cultivada em Portugal, presente no Jardim Botânico do Porto e em alguns jardins privados, é a C. capitata, que é igualmente pouco dada a exibicionismos primaveris e se distingue das outras duas por ser de folhagem perene.

07/04/2008

À pesca do sábado perdido




É sabido que não existem dias felizes, mas tão só a memória nostálgica de dias que nunca foram ou a esperança ingénua de outros que nunca serão, como diria Fernando Pessoa se tivesse escrito sobre o assunto. (Coisa que na verdade ele fez insistentemente, mas seria trabalhoso desenterrar agora uma citação à propos, e sendo para o que é a pastiche serve muito bem.) Toda a poesia lírica nasceu do carácter ilusório e fugidio da felicidade. Os poetas lamentavam o que supunham ter perdido, mas era a falta de introspecção que os iludia: na realidade, choravam o que nunca haviam tido. Todas as qualidades raras dos grandes momentos que recordavam provinham das cores mágicas com que a memória, essa sentimentalona, os tingia.

O lirismo não era só alimentado pelos males-de-amor; também nele concorriam os lembrados prazeres do bucolismo. O peixe que se pescou e de que nunca mais se viu igual era tão legítimo motivo poético como a alma gentil que se partiu. Nem a alma era assim tão gentil nem o peixe tão formidável, mas quem iria desdizer o lacrimoso poeta?

Nunca pesquei, quer à linha, quer de qualquer outro modo, mas julgo que quem arma a sua cana num sábado soalheiro persegue, mais do que o peixe, uma tarde de tranquilidade ininterrupta igualzinha àquela que nunca viveu. E a margem esquerda do Tâmega, dois ou três quilómetros abaixo de Amarante, parece o cenário ideal para essa mítica tarde, com águas fartas e limpas rodeadas de árvores e de sossego. Mas logo adiante do pescador estaciona uma família piquenicante que, insatisfeita com o pipilar dos pássaros, o cri-cri dos grilos e o cantar das águas, resolve acrescentar música à natureza e põe aos berros no auto-rádio o CD do Tony Carreira. Um pelotão de BTT's com mais de uma centena de vigorosos pedalantes levanta grossa nuvem de pó acompanhada de muita conversa e gargalhada. Passam os ciclistas, mas voltam pouco depois, que o caminho não tem saída. Duas motas ruidosas aceleram em despique. Um fotógrafo intrometido (eu) aponta a máquina quando o pescador enrola a linha: não vem nada, como é óbvio, pois desde o monstro de Loch Ness que os fenómenos sub-aquáticos se esquivam à objectiva.

Encolho os ombros e passo adiante, deixando o pescador com os destroços do seu sábado. Recolho imagens de águas fartas e limpas rodeadas de árvores e de sossego, para falsa memória futura.



Rio Tâmega: salgueiros-pretos (Salix atrocinerea) e amieiros (Alnus glutinosa)

05/04/2008

No flowers for Karajan


Aquilegia vulgaris

.......Herbert von Karajan (1908-1989)

Tisana 310



«É Primavera. No jardim do palácio pairam nuvens de sementes aladas. Enchem o ar, batem-nos no rosto, infiltram-se em casa. São belas, quase brancas, estas aéreas naves persistentes. Rolam pelo chão em pequenos novelos ocos e levíssimos. Caindo no lago em massa são mantos de espuma que o vento arruma. Olho calada toda esta vida prometida que se afoga.»

Ana Hatherly

04/04/2008

Azul nítido


Omphalodes nitida

Enquanto as herbáceas mais altas, e mais tardias, não se impõem, é tempo de explorar as cores com que as de menor estatura matizam agora os campos. O azul mais apelativo é da responsabilidade das boragináceas que apreciam a humidade que resta do Inverno e o sol menos agressivo do início da Primavera. Façamos portanto como os antigos colectores de plantas, peritos a quem não escapava a forma de uma nervura ou o tamanho de um estame e cuja missão era recolher um exemplar para conservação, informações sobre o terreno, a vizinhança ou a abundância de tais espécimes, e classificá-los; depois, e porque a memória nem sempre é de confiança, guardavam todos estes dados em cadernos de capa dura, onde espalmavam os exemplares colhidos e os rodeavam de texto científico para que o futuro soubesse tanto como eles.

Com a filosofia desses naturalistas, comecemos por escolher um azul - etapa árdua sendo todos tão atraentes e sobretudo tão semelhantes ao do miosótis. Hesitantes, podemos optar por um azul de tamanho médio, como o de uma Omphalodes nitida. E reparar desde logo que é uma ervinha com cerca de 30cm de altura e folhas em tom verde-claro acetinado (nitidum), com alguma penugem, sendo as basais maiores e mais redondas. As flores têm cerca de um centímetro de diâmetro, agrupam-se no topo dos caules, e as cinco pétalas, assinaladas por traços descoloridos, unem-se num tubinho cuja entrada é controlada por cinco abas minúsculas em forma de V. No fim do Verão poderemos confirmar que as sementes nascem em invólucros com uma asa e uma reentrância que lembra um umbigo (omphalós).

Se o constranger, como a nós, arrancar um exemplar da terra, pode desenhar cuidadosamente cada detalhe, pintando com minúcia as gradações de cor e textura. Recordará o prazer da infância em prencher um herbário sem o risco do conteúdo descolar ou se degradar com a idade.

03/04/2008

Jardim natural



Quem foi o talentoso jardineiro que combinou as cores neste canteiro verdejante à beira-Tâmega? Um rumor contínuo deixa adivinhar o rio próximo para lá da cortina de choupos; mas, ao compor este mixed-border, o mesmo jardineiro preocupou-se em escolher plantas rasteiras, que não nos roubassem a vista tonificante das águas. Sobre um fundo verde de matizes e volumes variados, temos em primeiro plano o lilás do Lamium maculatum, a que se seguem o azul brilhante dos olhos-de-gato (Pentaglottis sempervirens) e, para rematar, o amarelo doce da erva-andorinha (Chelidonium majus). Embora mais discretas, outras plantas há tão indispensáveis ao conjunto como o sal à comida: gerânios, silenes, estelárias (Stellaria media), quaresmas (Saxifraga granulata), fumárias, ...

Os mais pragmáticos sustentarão que não houve aqui mão de nenhum jardineiro; outros, inclinados ao Céu ou à Terra, dirão que foram Deus ou a Mãe Natureza que, por artes mais ou menos divinas, aqui criaram o perfeito jardim silvestre. Mas todos estaremos de acordo nisto: estes jardins espontâneos, formados por plantas que ninguém semeou, são uma dádiva preciosa e frágil que ainda não aprendemos a merecer.

02/04/2008

Sorriso amarelo


Aetheorhiza bulbosa

Que foi? Nada, cismo... A testa é mesmo para preguear, senão esqueço-me dela, lisa e parada como lençol no estendal em dia sem vento. Hoje terei de falar de uma Asteracea. Difíceis de identificar, credo. Mas eles também já as descobriram, olha se não, e publicam fotos enfeit(iça)adas de nevoeiro. Eu só encontro flores limpas, escovadas, sem insectos nem exsectos. Seria melhor fechar a loja. Uma calêndula, de calendae, uma alusão subtil ao primeiro dia do mês. Como é que não me lembrei disto? Não lhes revelo nada, assim ninguém repara na flor oportuna que eles exibiram ontem. Verdade que eles têm ajuda da natureza, um favorecimento escandaloso, mal apontam a objectiva vem logo um diabinho colorido e dengoso, ainda com pingos de néctar na camisa e a palitar os dentes, sentar-se sorridente de patinha cruzada enquanto a cabecinha lhe descai amorosamente numa pétala. Eu desisto. E os milhões gastos em publicidade enganosa? Claro, não há moscardo que não caia no logro, nem ramo que não se dobre em arco a encher de música o jardim deles. E os aplausos que recebem, hã? Tantas visitas e encómios, dá vontade de lhes rasgar os elogios. Custava partilhar as dezenas de comentários? A nossa é uma caixa de «comentário», sem plural dada a avareza, tenho de me lembrar de olear as dobradiças da tampa, já rangem da falta de uso. Ai, por que não penso em coisa boa? Esta flor, sim, é bonita, pastora de sol, morenaça, parece que vai rodopiar num bailado, a areia pronta para lhe arranhar a pele. Vive num escarcéu de espuma, cascos de navios, sussurros de maré. É uma injustiça nós só termos janelas viradas a poente e eles se poderem regalar com uma varanda para a Floresta Negra. (Ah, a Floresta Negra! Faria um brasileiro qualquer, um amazonense então, se dobrar de rir! Uma florestinha de nada! Negra! Só se for para eles, anêmica isso sim, cada tronco finiiiiinho... a um quilômetro um do outro, transparente a tal da Floresta Negra.*) Hoje não vou explicar nada, nem de onde vem o nome Aetheorhiza bulbosa, ora, bulbosa eles sabem, condrila-de-dioscórides é que nem pensar, seria gargalhada certa, quem acredita que o povo lhe chama filha de Zeus? Deve haver um dicionário com todas as palavras, livro grande, caro, não tenho, mas lá está certamente outro nome comum para esta planta. Vinha a jeito agora um doutoramento em malmequeres. Daria autoridade, passariam a tratar-nos assim na palma da mão, mesmo que a sombra fosse rala. E nós, oh, orgulhosos que nem faróis, com licença, até logo. Está na hora de começar a escrever o post, à meia-noite tem de estar nas bancas. Antes verifico se a tal condrila tem uso medicinal, sempre gera um comentário, ou dois com os obrigados. Talvez seja boa para o mal-de-inveja, dizem que grassa por aí, não sei, só tenho sentido dor de resfriado.

*Zulmira Ribeiro Tavares, Café pequeno (Companhia das Letras, 1995)

01/04/2008

Malva-arbórea


Lavatera arborea

Os géneros Malva e Lavatera nasceram para serem confundidos: a floração, a folhagem, a própria co-existência de espécies espontâneas dos dois géneros nos mesmos habitats - tudo isso dificulta a destrinça. Já seria delicado diferenciar espécies dentro de cada género, mas a existência de dois géneros praticamente iguais faz da tarefa um desafio só para especialistas. Ainda assim, anotemos o que os separa. O género Malva é originário da Europa, norte de África e Ásia temperada, enquanto que a Lavatera tem uma distribuição mais fragmentada, ocorrendo na Europa ocidental, Mediterrâneo, Sibéria, Ásia central, Macaronésia, Califórnia e Austrália. E há um detalhe morfológico que distingue a Lavatera da Malva: só na primeira é que as brácteas que formam o epicálice na base da flor se apresentam fundidas.

Detalhes à parte, o arbusto de hoje é uma espécie nativa fácil de identificar pelo porte e localização: trata-se da Lavatera arborea, que gosta da beira-mar e atinge alturas de 2 a 3 metros; nenhuma outra espécie destes dois géneros tem envergadura que se aproxime dessa. Apesar do tamanho respeitável, a sua vida é curta: não mais do que três anos. O seu nome vulgar (malva-arbórea) perpetua a confusão entre os dois géneros, mas não é só na nossa língua que isso sucede: em inglês chamam-lhe tree-mallow.

Registe-se por último que a Lavatera arborea revelou censurável comportamento invasor em locais tão afastados entre si como as ilhas escocesas e a Austrália. Por cá não parece ser assim tão comum; as malvas arbustivas que se vêem um pouco por todo o lado são mais rasteiras, pertencendo talvez à espécie Malva sylvestris. As duas fotos em cima foram tiradas com um ano de intervalo: o arbusto na Torreira, há duas semanas, e as flores na Granja, no Verão passado.

31/03/2008

Flor-de-alecrim


Rosmarinus officinalis

....Março voltou, esta
....ácida loucura de pássaros
....está outra vez à nossa porta,
....o ar

....de vidro vai direito ao coração.
....Também elas cantam, as montanhas:
....somente nenhum de nós
....as ouve, distraídos

....com o monótono silabar do vento
....ou doutros peregrinos.
....Já sabeis como temos ainda restos
....de pudor,

....e pelo mundo
....uma enorme, enorme indiferença.

Eugénio de Andrade, Branco no branco (1984)

30/03/2008

Festa de Camélias em Celorico de Basto

Durante três dias, com início nesta sexta-feira, dia 4 de Abril, Celorico de Basto celebra a sua V Festa Internacional da Camélia.

O primeiro dia é preenchido com o colóquio A paisagem, os jardins de camélias e o turismo, que tem abertura às 9h30 e se prolonga até às 18h30. Destaca-se a intervenção de Aurora Carapinha, que de manhã, às 10h30, falará sobre O jardim na cultura portuguesa.

É no sábado, às 15h00, que abre ao público a exposição-concurso de camélias. Em paralelo, há uma exposição de fotografias e um mercado de venda de camélias envasadas. A tradicional tertúlia começa às 17h30: inclui a projecção de um filme sobre os jardins de camélias de Celorico de Basto e intervenções de Ilídio de Araújo, Fernando Mangas Catarino e Clara Gil de Seabra, entre outros.

No domingo, dia em que a exposição permanece aberta ao público, há visita guiada aos jardins de camélias do concelho, seguida de um almoço (a 25 euros por pessoa) no Solar do Souto. Tanto o passeio como o almoço exigem inscrição prévia (tel. 255320250 ou 255323100).

O programa completo da festa pode ser consultado aqui.

29/03/2008

Soror Mariana


Stauntonia hexaphylla

A estufa menor do Jardim Botânico do Porto é um recanto a que só os jardineiros têm acesso, apinhado com pequenas plantas envasadas e de onde arbustos mais ousados se esgueiram por rombos ou algerozes para ver o mundo para lá da clausura. Esta trepadeira graciosa e frágil, exemplar feminino de Stauntonia hexaphylla, acenou-nos há dias do seu convento com umas flores brancas tingidas de violeta e um intenso aroma doce. É uma espécie dióica (flores masculinas e femininas em plantas distintas), diferindo as flores essencialmente no centro: as femininas exibem três ovários, as masculinas têm 6 estames unidos numa coluna (para ver cada imagem na nova página, faça enter na barra de endereços). As folhas palmadas, com 3 a 7 folíolos, assemelham-se às da Akebia quinata e foi esse detalhe que nos permitiu identificá-la. Se algum exemplar masculino vier inquietá-la no seu retiro, esta planta do Botânico produzirá frutos ovais com sabor a mel, carnudos, de casca roxa quando maduros e com cerca de 5 cm de comprimento.

O género Stauntonia abriga cerca de 20 espécies de trepadeiras lenhosas de folha perene, nativas da Ásia oriental, maioritariamente da Coreia do Sul, China e Japão. O nome refere-se a Sir George Leonard Staunton (1737-1801), médico e naturalista irlandês. O espanhol Miguel Lardizábal foi mecenas da botânica no século XVIII.

28/03/2008

Pode sentar-se



Desde que foi adquirido pelo Estado português e aberto ao público, o Parque de Serralves sempre foi avaro em bancos, situação que ainda se agravara com as últimas obras de recuperação. Lugar para nos sentarmos, só fazendo despesa no salão de chá ou, ao jeito nórdico - difícil de adoptar por meridionais já entradotes como nós -, abandonando a compostura e espolinhando-nos nos relvados. E mesmo essa solução juvenil não resolvia tudo: onde se sentaria, por exemplo, quem quisesse gozar um fim-de-tarde no roseiral? Sobre a gravilha, com a cabeça recostada nas sebes de buxo?

Por isso as visitas a Serralves eram necessariamente peripatéticas, frustrando a vocação do Parque como lugar de repouso e contemplação. Mas tudo mudou recentemente, pois por fim alguém teve a clarividência de suprir essa clamorosa falha. Não faltam agora bancos em todos os locais de Serralves onde apetece estar: debaixo dos castanheiros-da-Índia, com vista para o prado (foto em cima); no roseiral, sob a pérgula engalanada também ela com roseiras; no bosquete de faias, à sombra de veneráveis camélias... Fica a exortação ao leitor: regresse a Serralves e eleja o seu banco favorito; depois fique sentado sem fazer nada, pois é para isso que existem lugares assim.

27/03/2008

Erva-prata


Paronychia argentea

Characters:
Francisco Pizarro, Commander of the Expedition
Fray Marcos de Nizza, Franciscan Friar

De Nizza. Look hard, you will find Satan here, because here is a country which denies the right to hunger.
Pizarro. You call hunger a right?
De Nizza. Of course. It gives life meaning. Look around you: happiness has no feel for men here, since they are forbidden unhappiness. They hold everything in common. So they have nothing to give one another. They are part of the seasons, no more; as indistinguishable as mules, as predictable as trees. All men are born unequal: this is a divine gift. And want is their birthright. Where you deny this and there is no hope of any new love, where tomorrow is abolished, and no man ever thinks "I can change myself", there you have the rule of Antichrist.
(...)
When I came here first I thought I had found Paradise. Now I know it is Hell. A country which castrastes its people. What are your Inca subjects? A population of eunuchs, living entirely without choice.
Pizarro. And what are your Christians? Unhappy hating men. Look: I am a peasant, I want value for money. If I go marketing for gods, who do I buy? Christ of Europe, with all its deaths and brooding, or Atahuallpa of Peru? His spirit keeps an Empire sweet and still as corn in the field.
De Nizza. And you're content to be a stalk of corn?
Pizarro. Yes, yes! They're no fools, these sun men. They know what cheats you sell on your barrow. Choice. Hunger. Tomorrow. Well, they've looked at your wares and passed on. They live here as part of nature, no hope and no despair.
De Nizza. And no life. Why must you be dishonest? You are not only part of nature, and you know it. There is something in you at war with nature; there is in all of us.

Peter Shaffer, The Royal Hunt of the Sun (Samuel French - London, 1964)

26/03/2008

Cebolinho


Allium schoenoprasum

....«Os sorrisos abertos ficam mal nas fotografias,
....obrigam a verdade a refugiar-se nos olhos.»


José Miguel Silva, Treze (Vista Para um Pátio, Relógio d'Água, 2003)