31.12.05

Romã -modo de usar

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Da romãzeira gosto da flor,
e mais ainda do fruto,
apreciando particularmente
os pratos enfeitados
com os seus bagozinhos cor de rubi,
de sabor delicioso e refrescante.
Há dezenas de receitas
para experimentar e,
passe a publicidade,
POM wonderful é sem dúvida
um dos meus sítios favoritos
sobre o assunto.
Há cerca de dois anos descobri uma
receita para descascar as romãs
sem a "mess" habitual:
experimentei e resultou mesmo.
Aqui fica a foto legendada:
1 e 2- corta-se a "coroa";
3- secciona-se longitudinalmente;
4- mergulha-se em água;
5- separam-se as secções e
desprendem-se os arilos
(os bagos comestíveis);
6- retiram-se os restos de
tegumento que ficam a boiar;
7-escoa-se a água;
8-e... eis as sementinhas prontas a usar.

E não se esqueçam: manda a tradição
que se comam romãs nesta altura do ano
e nos Reis, para chamar a sorte
e a "bagalhoça"... .

ALIADOS - actualização

30.12.05

Uma folha é uma folha é uma folha


Folha de Ricinus communis fotografada em Junho, no Botânico
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A planta do óleo



Este desenho consta de Zoologia & botânica do Brasil, livro editado em 2000 pela Biblioteca Pública Municipal do Porto que reproduz cerca de uma centena de aguarelas setecentistas do acervo da instituição. Esta e outras obras estão à venda, a preço de saldo, só até ao fim do dia de hoje no Palácio dos Viscondes de Balsemão, à Praça de Carlos Alberto.

O rigor do desenho não deixa dúvidas quanto à planta representada, que bem conhecemos dos nossos jardins e, curiosamente, nem sequer é de origem brasileira, mas sim africana: trata-se do rícino (Ricinus communis), planta da família das euforbiáceas muito disseminada nos trópicos mas que também se adapta ao nosso clima temperado. De reconhecido valor ornamental pela sua folhagem - que pode, conforme a variedade, ir do verde-alface até ao vermelho-tinto -, tem também importância económica pelo óleo que se extrai das suas sementes (óleo de rícino ou óleo de mamona; em inglês castor oil), usado em farmácia, cosmética e na indústria; o seu uso tradicional como purgativo foi abandonado por ser prejudicial à saúde.

29.12.05

Inverno no Parque

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Serralves- Alameda de liquidâmbares em Dezembro
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«All my hurts my garden spade can heal.»
Ralph Waldo Emerson (1803-1882)
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28.12.05

Cacto-caranguejo

A imagem é de um marcador de livro, prenda de utilidade indiscutível, e mostra um Zygocactus truncatus (ou Schlumbergera truncata), cacto de origem brasileira que inicia a floração quando os dias começam a encurtar, atingindo o auge em pleno Outono (o que significa Maio na América do Sul e Dezembro entre nós, diferença que é fonte de designações comuns muito díspares como cacto-de-Natal ou cacto-da-Páscoa). O caule está segmentado em artículos suculentos, achatados, pendentes e com margens dentadas. Nas suas extremidades concentram-se as flores vistosas, amarelas, róseas, vermelhas ou brancas, muito apreciadas por beija-flores.

Sobre esta belíssima flor pronunciou-se Carlos Drummond de Andrade em crónica de Maio de 1962 incluída em Auto-retrato e outras crónicas:

«A flor-de-seda partiu da antipatia do cacto para atingir a elegância de um verso de Mallarmé, e rivaliza com a orquídea. Cedeu apenas à habilidade dos jardineiros, desdobrando-se em matizes que há vinte anos não eram conhecidos. Contam que o alemão Oto Woll, trabalhando no Jardim Botânico, operou essas mágicas. Mas eu penso nas donas-de-casa de uma cidade do interior, aí por volta de 1915, a cultivarem ritualmente os seus vasos de flor-de-seda, e esperando maio para que eles revelassem os seus segredos. Sem polinização artificial, por obra do acaso, ou da intuitiva ciência das mulheres, o certo é que muita vez surgiram maravilhosas tonalidades que para minha cunhada Ita eram mais uma prova da existência de Deus, pois à alma devota e jardineira não é necessário um prodígio como testemunho, basta uma flor.»

[Dedicado à Verónica que nos trouxe esta imagem da Escócia]

27.12.05

Não comerei da alface a verde pétala

Não comerei da alface a verde pétala
Nem da cenoura as hóstias desbotadas
Deixarei as pastagens às manadas
E a quem mais aprouver fazer dieta.

Cajus hei de chupar, mangas-espadas
Talvez pouco elegantes para um poeta
Mas pêras e maçãs, deixo-as ao esteta
Que acredita no cromo das saladas.

Não nasci ruminante como os bois
Nem como os coelhos, roedor; nasci
Omnívoro; dêem-me feijão com arroz

E um bife, e um queijo forte, e parati
E eu morrerei, feliz, do coração
De ter vivido sem comer em vão.

Vinicius de Moraes, Poesia completa e prosa (3ª ed. 1998)

Dedicado a todos os desenfastiados da quadra.

26.12.05

Um ano já lá canta! Do meu jardim está de parabéns, viva!























banco de jardim-Quinta da Aveleda- Dezembro 2005

O Pinheiro, o Pai Natal, a Estrela...

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Rua de Miragaia- Porto
Há fotografias que se podem falhar por uma questão de segundos... A do lado esquerdo é um desses casos. Vinha eu de autocarro em direcção à Foz, e à luz que se arredava da Baixa, quando passei por este pinheirinho com as suas bolas multicolores reluzindo ao sol. Apeei-me na paragem seguinte - privilégio de quem está em férias...-mas por mais que me apressasse só cheguei a tempo de surpreender o Pai Natal e a Estrela fora da sombra.

Esta árvore de Natal fez-me recordar a da minha infância, em casa dos meus avós: um pequeno pinheiro que traziam de uma das bouça das redondezas para o canto da sala e que no primeiro dias de férias enfeitávamos com bolas frágeis de todas as cores, fios brilhantes, algodão a imitar neve e uma estrela no cimo. Por tradição, durava sempre até aos Reis.
Mas afinal por que razão fazemos nós a Árvore de Natal?

(E por falar em árvore de Natal, conhecem esta?)

25.12.05

a noite de natal

«(...) Então Joana foi ter com os primos. Daí a uns minutos apareceram as pessoas grandes e foram todos para a mesa. Tinha começado a festa do Natal.
Havia no ar um cheiro de canela e de pinheiro. Em cima da mesa tudo brilhava: as velas, as facas, os copos, as bolas de vidro, as pinhas doiradas. E as pessoas riam e diziam umas as outras: "Bom Natal". Os copos tilintavam com um barulho de alegria e de festa. E vendo tudo isto Joana pensava:
-Com certeza que a Gertrudes se enganou. 0 Natal é uma festa para toda a gente. Amanhã o Manuel vai-me contar tudo. Com certeza que ele também tem presentes.
E consolada com esta esperança Joana voltou a ficar quase tão alegre como antes.
0 jantar do Natal era igual ao de todos os anos. Primeiro veio a canja, depois o bacalhau assado, depois os perus, depois os pudins de ovos, depois as rabanadas, depois os ananazes. No fim do jantar levantaram-se todos, abriu-se de par em par a porta e entraram na sala.
As luzes eléctricas estavam apagadas. Só ardiam as velas do pinheiro.
Joana tinha nove anos e já tinha visto nove vezes a árvore do Natal. Mas era sempre como se fosse a primeira vez. Da árvore nascia um brilhar maravilhoso que pousava sobre todas as coisas. Era como se o brilho de uma estrela se tivesse aproximado da Terra. Era o Natal. E por isso uma árvore se cobria de luzes e os seus ramos se carregavam de extraordinários frutos em memória da alegria que, numa noite muito antiga, se tinha espalhado sobre a Terra.
E no presépio as figuras de barro, o Menino, a Virgem, São José, a vaca e o burro, pareciam continuar uma doce conversa que jamais tinha sido interrompida. Era uma conversa que se via e não se ouvia.
Joana olhava, olhava, olhava. As vezes lembrava-se do seu amigo Manuel. Um dos primos puxou-a por um braço.
- Joana, ali estão os teus presentes.
Joana abriu um por um os embrulhos e as caixas: a boneca, a bola, os livros cheios de desenhos a cores, a caixa de tintas. À sua volta todos riam e conversavam. Todos mostravam uns aos outros os presentes que tinham tido, falando ao mesmo tempo.
E Joana pensava:
-Talvez o Manuel tenha tido um automóvel.
E a festa do Natal continuava. As pessoas grandes sentaram-se nas cadeiras e nos sofás a conversar e as crianças sentaram-se no chão a brincar. Até que alguem disse:
- São onze horas e meia. São quase horas da missa. E são horas de as crianças se irem deitar.
Então as pessoas começaram a sair.
0 pai e a mãe de Joana tambem saíram
- Boa noite, minha querida. Bom Natal - disseram eles. E a porta fechou-se.
Daí a um instante saíram as criadas. (...)»

in A Noite de Natal, de Sophia de Mello Breyner Andresen

A 1ª edição desta obra, em 1959, foi ilustrada por Maria Keil; em 1989 é publicada pela Figueirinhas com ilustrações de Júlio Resende.)

(relacionado: Árvore de Natal )

24.12.05

Último poema

É Natal, nunca estive tão só.
Nem sequer neva como nos versos
do Pessoa ou nos bosques
da Nova Inglaterra.
Deixo os olhos correr
entre o fulgor dos cravos
e os dióspiros ardendo na sombra.
Quem assim tem o verão
dentro de casa
não devia queixar-se de estar só,
não devia.


Eugénio de Andrade, Rente ao Dizer (1992)

23.12.05

ALIADOS - actualização

Araucaria cunninghamii


Foto: pva 0511 - Araucaria cunninghamii no Jardim Botânico da Universidade de Lisboa

Visto de Coimbra, e em particular do seu jardim botânico, o resto do mundo (e até o resto do país) deve parecer um local peculiar. Pois não é que, tirando o de Coimbra, todos os jardins botânicos do planeta franqueiam, gratuitamente ou não, os seus portões aos visitantes, levando a irresponsabilidade ao ponto de os deixarem sozinhos a deambular entre árvores, arbustos e flores? Estar em minoria, mesmo numa minoria de um contra todos, não significa estar destituído de razão; e o Tempo, esse grande desestabilizador, pode vir a inverter a relação de forças. Talvez no futuro todos os jardins, parques urbanos e reservas naturais sejam cercados por gradeamentos e de acesso proibido a estranhos - sejam, na verdade, condomínios fechados, como é há muito (avant la lettre) o Jardim Botânico de Coimbra.

Enquanto assim não for, vamos passeando por esse Portugal exterior a Coimbra onde os jardins botânicos estão abertos ao público. E um dos mais simpáticos, com entrada por apenas 1,5 euros (e, autêntica pechincha, passe anual a 7,5 euros), é justamente o da Universidade de Lisboa, à Rua da Escola Politécnica. À entrada, entre os veneráveis edifícios do Museu de História Natural, um duplo alinhamento de Washingtonia robusta prenuncia a colecção das palmeiras, uma das mais valiosas do jardim. Mas deixemo-la para mais tarde, e vamos falar da árvore da foto, o mais bonito exemplar que alguma vez vimos de Araucaria cunninghamii. A folhagem desta árvore, concentrada em tufos na ponta dos ramos, é semelhante à da Araucaria heterophylla, muito comum no nosso país; mas, em contraste com esta, de arranjo esmeradamente regular, a Araucaria cunninghamii exibe acentuada assimetria, com os ramos terminais a erguerem-se em profusa desordem. Tem a beleza descuidada que quem dispensa artifícios de enfeite.

A Araucaria cunninghamii - que, no estado natural, pode atingir os 60 metros de altura - é, como a Araucaria bidwillii, originária da costa leste australiana. (A Araucaria heterophylla, por seu turno, não é propriamente australiana, mas sim endémica da ilha de Norfolk.)

22.12.05

Impressões de um passeio


Foto: pva 0411 - Vidago

Árvores, arbusos, ervas, tudo já se ressente da estação. Por toda a floresta, alastram-se grandes manchas amarelentas, ou avermelhadas, a indicarem as folhas secas, a indicarem as folhas mortas, que já começam a cair, despindo os troncos, juncando o chão. É uma supressão de vida que se anuncia, embora parcial e embora temporária. A natureza, após muita labuta, vai descansar, vai dormir por algumas semanas, para despertar depois e recomeçar a mesma faina.

Wenceslau de Moraes
(texto de 1919 incluído em A dança das borboletas, ed. Independente, 2004)

21.12.05

No pico do Inverno

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;-)lá ... parece estar a "dizer" este gomo de figueira, ao sol de uma tarde fria de Dezembro. Este e os outros que por todo o lado rebentam mais ou menos prazenteiros nos ramos despidos das árvores; alguns, como os das magnólias*, prometem mesmo "um escândalo de proporções jornalísticas para o Especial Floração 2006" como escreve E. no blog: terra habitada.
Começou o Inverno? É isso que nos ensinam desde crianças: 21-22 de Dezembro, solstício de Dezembro, início da estação fria. Mas desde que descobri que no calendário tradicional chinês(Jieqi), nesta altura do ano estamos não no início, mas no pico do Inverno (dongzhi) ... "converti-me". E não é só por a Primavera nesse calendário começar mais cedo: é que faz mesmo muito mais sentido. De qualquer modo a partir de agora os dias começam a crescer ;-)

* Cá no Porto as magnólias iniciam timidamente a floração por esta altura. Em Janeiro, Fevereiro já estarão todas prontas para a grande manifestação !

20.12.05

Tom de Natal

Tradicionalmente o Pai Natal é gentil, benevolente, generoso, alegre e bem-nutrido, de barba longa imaculada onde se aninham as crianças. Pouco fala: só se lhe conhecem as risadinhas cândidas (ho-ho-ho) de satisfação pelo dever cumprido. Os óculos redondinhos alimentam a lenda dos muitos dias e noites passados em trabalho minucioso a preparar prendas. Veste-se de vermelho, como bispos e papas, com um barrete de pijama rematado por um pompom branco a fazer as vezes da mitra. Poderes mágicos explicam as suas proezas: apesar de barrigudo, desce pelas chaminés sem dificuldade; idoso que nunca morre, eternamente imune aos achaques da idade, precisa apenas de cerca de uma hora numa só noite para distribuir ofertas a todas as crianças, usando para isso oito renas voadoras; no resto do ano, vive feliz rodeado de gelo e de ursos.

É claro que as representações do Pai Natal têm acompanhado os tempos. Em meados do século XX, as imagens davam-no no Pólo Norte, local puro, levando vida de artesão dedicado ao fabrico manual dos brinquedos. Hoje em dia, muitas cartas que lhe são endereçadas vão para os países nórdicos, locais com elevada qualidade de vida e por isso merecedores da sua preferência. Ganhou família e numerosos gnomos que, embora não o vendo como patrão, o ajudam a fabricar brinquedos cada vez mais sofisticados tecnologicamente. As renas já têm nome e juntou-se-lhes uma nona, de narizinho vermelho constipado.

Algumas plantas associam-se à festa florindo agora e justamente de vermelho. Como este Leptospermum scoparium da Quinta de Sto. Inácio: a variedade que encontrámos em flor no Verão dá pétalas cor-de-rosa; a da foto, ciente da falta de cor no Inverno, e da quadra, não poupou na tinta vermelha.


Foto: pva 0512

19.12.05

Jardins da Avenida Júlio Graça- Vila do Conde

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Fotos: 16-12-2005
Não é comum este tipo de avenida com tanta espaço ajardinado destinado às pessoas.
Destes jardins nada sei e o pouco que encontrei na net apenas os referem por neles se realizarem feiras (de artesanato e de gastronomia). Na sexta-feira passada estavam especialmente aprazíveis e salvaram o meu dia!
Vila do Conde tão perto (de Beiriz onde trabalho) e eu mal a conheço!

Adenda:
A ajuda solicitada a um vileiro (a quem evidentemente muito agradeço ;-) resultou plenamente: podem ver-se aqui duas fotografias antigas do jardim cuja «construção se deu por volta de 1870, numa altura de expansão da Vila em direcção ao mar, motivado pela crescente procura das nossas praias. Na sua original concepção, constava uma grande área ajardinada com arvoredo, e ao centro um lago com uma ilha e ponte de acesso. Hoje em dia, já não existem.»

18.12.05

Instituto de Medicina Legal

Uma carrinha funerária aguarda
junto ao portão. Lá dentro o

ajudante cose à pressa com
uma agulha grossa a parede

do abdómen. O condutor
olha extasiado - suspensas

dos muros do Instituto - as
flores da paixão.


Jorge Sousa Braga, Porto de Abrigo (Assírio & Alvim, 2005)


Foto: pva - flor-da-paixão (Passiflora caerulea) no IML, Porto

17.12.05

Do berçário


Foto: pva 0512 - rebento de Brachychiton populneus

Depois de largar a sua carga de sementes, a casca seca do fruto do braquiquito (ou kurrajong) pode, como já aqui se ilustrou, servir de canoa para uns gnomos brincalhões com gorro de bolota. Quanto às sementes, é só cobri-las com uns centímetros de substrato humedecido e esperar para ver o que sai: no berçário aqui de casa germinou o rebento da foto, que condiz com o que o respectivo manual ensina sobre a planta. Agora tão tenra e minúscula, que fazer dela quando crescer?

16.12.05

A Amiga da China

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Tangerina que tanges
O Sol do meio-dia
És cara de menina
Com pintas de alegria
.
Teus gomos perfumados
Tua pele tão fina
Tangerina tão doce
Que vieste da China
.
Quando ia para - escola
Teu perfume nas mãos
Teu perfume no bibe
Nos cadernos. No pão.
.
Tu eras tão bonita!
Eu era tão menina!
Que saudades eu tenho
Minha amiga da China
.
Matilde Rosa de Araújo in As Fadas Verdes, Civilização (1994)

15.12.05

Abélia das flores doces*


Foto: pva 0510 - Abelia chinensis

Atentemos nos seguintes detalhes do arbusto da foto:

. as folhas pequeninas opostas;
. as sépalas que adornam de modo vistoso a base de cada flor;
. as flores tubulares, alvas, de 5 pétalas;
. a semelhança destas com as flores da Weigela, outra Caprifoliaceae;
. a delicadeza e harmonia do conjunto, como numa pintura chinesa.

A Abelia chinensis é de origem chinesa e o nome do género homenageia o botânico inglês Clarke Abel (1780-1826), que viajou até à China em 1816-17 com Lord Amhurst e cuja colecção de plantas sobreviveu ao naufrágio do navio Alceste e ao seu posterior incêndio por piratas.

A floração abundante das abélias, apontamento colorido na paisagem do Outono, é um brinde para todos os abelhudos.

* Título adaptado de Amélia dos olhos doces, poema de Joaquim Pessoa musicado por Carlos Mendes

14.12.05

Um livro e um lugar

Além das árvores, também nos sustentam as palavras de quem as vive. Os lugares fazem-se não só daquilo que os sentidos captam, mas também das memórias que neles se entretecem e se cristalizam em palavras. Memórias partilhadas ou pessoais, palavras públicas ou privadas, prosa ou verso, livro ou recorte de jornal: tudo isso reveste as árvores com uma persistência que nenhum Outono pode quebrar.

A Assírio & Alvim acaba de publicar Porto de Abrigo, colecção de poemas de Jorge Sousa Braga que vem enriquecer os jardins, as árvores e os muros da cidade com novas palavras que ficarão a pertencer-lhes para sempre. Como estas:

JARDIM DA CORDOARIA

Não sei se ainda há plátanos no Jardim
da Cordoaria nem se as couves traçadas

juncam ainda as margens do lago.
O que sei é que um plátano cresceu

dentro de mim e a comichão
que sinto são as raízes e as folhas

que se querem libertar.




Fotos: pva - plátanos da Cordoaria em Abril e Dezembro de 2005

(Não sei que é feito das couves, mas os plátanos ainda lá estão, rijos e para durar. Contudo, a perspectiva da mais famosa alameda do Porto foi estupidamente adulterada por quem teve a ideia de nela fixar, bem a meio, duas tabelas de basquete. É de bradar aos céus: não havia, no jardim ou nas proximidades, outro lugar para pôr semelhantes trambolhos?)

13.12.05

Fonte e Ginkgo das Virtudes

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Vista do Passeio das Virtudes: Fonte das Virtudes e Ginkgo em Dezembro

(Dedicatória: para quem tão gentilmente depois me ofereceu flores, esta fotografia das meninas dos nossos olhos.
Nota: o canhão em primeiro plano é de propósito... )
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Panorama do Passeio das Virtudes

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«Passeio e Paredão das Virtudes: Em 1787, o juiz da Alfândega e Inspector da Marinha do Douro, Rodrigo António de Abreu e Lima mandou erguer o Paredão que, pouco tempo depois ruiu; contudo, Francisco de Almada e Mendonça (filho de João de Almada e Melo), Corredor e provedor da Comarca do Porto, ordenou a sua reconstrução, tendo-se procedido a obras de vulto entre 1797 e 1799. Passando aí a existir um passeio público, receberia uma grade a todo o comprimento que assenta num parapeito de pedra, permitindo assim a fruição da vista panorâmica sobre o rio e a cidade. Daí se avistam a Alfândega, a Igreja de S. Pedro de Miragaia, o Palácio das Sereias, o Hospital de Santo António e a Fonte das Virtudes ou do Rio Frio.» in Cidade do Porto-Património Mundial> Circuitos culturais> Circuito Miragaia (No Site do Turismo da Câmara Municipal do Porto)

E o Jardim das Virtudes com a maior Ginkgo biloba de Portugal acrescentamos nós à lista do que de notável se pode avistar deste paredão.
No sábado passado fui lá vê-la ;-) No Jardim, só mais um par de namorados.
À saída, no passeio, cruzei-me com uma simpática família de forasteiros que, de mapa turístico na mão, devia andar a calcorrear os "circuitos culturais"e tinha acabado de passar pelo portão com mau aspecto e sem nenhuma indicação que dá acesso a este magnífico jardim.
Claro (ai, esta mania de meter conversa...) que lhes perguntei se não tinham ido ver o jardim e a Ginkgo biloba (classificada de interesse público há menos de um ano). Jardim, que jardim? Inquiriram eles, espantados. Lá lhes indiquei a entrada manhosa que qualquer transeunte menos afoito e curioso evitará.
Bem sei que nós portugueses somos "famosos" pela nossa incapacidade notória de sinalizarmos devidamente os sítios, atalhos, caminhos e até auto-estradas. Mas também não custa nada voltar a alertar para este caso.

Outra panorâmica: Fonte e Ginkgo das Virtudes
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12.12.05

Na rota das japoneiras


Foto: pva 0512 - Camellia japonica no Prado do Repouso, Porto

Os cemitérios portugueses são, em regra, quase despidos de vegetação, e por isso talvez surpreenda saber que algumas das maiores japoneiras do Porto (e do país) estão no Prado do Repouso e em Agramonte; mas, inaugurados que foram estes cemitérios públicos do Porto em meados do século das camélias (o do Prado do Repouso em 1839, o de Agramonte em 1855), mais seria de espantar a sua ausência do que a sua afinal normalíssima presença; o que enche o olho é o tamanho que elas lograram atingir em século e meio. Dos dois cemitérios, é o do Prado do Repouso que tem as japoneiras de maior porte (como a da foto, que até nem é das maiores); em compensação, o de Agramonte tem-nas em maior número, formando extensas alamedas.

11.12.05

Rainha ao Sol

Folhas que brincam



«Next we come to the Hump, which is the part of the Broad Walk where all the big races are run; and even though you had no intention of running you do run when you come to the Hump, it is such a fascinating, slide-down kind of place. Often you stop when you have run about half-way down it, and then you are lost; but there is another little wooden house near here, called the Lost House, and so you tell the man that you are lost and then he finds you. It is glorious fun racing down the Hump, but you can't do it on windy days because then you are not there, but the fallen leaves do it instead of you. There is almost nothing that has such a keen sense of fun as a fallen leaf.»

J.M. Barrie, Peter Pan in Kensington Gardens (1906)
Ilustração original de Arthur Rackham retirada da edição de 2004 da
Folio Society

10.12.05

ALIADOS - actualização

Japoneira e plátano na Rota do Românico do Vale do Sousa

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Japoneira em flor no adro da Igreja de S. Salvador de Paço de Sousa - Dezembro 2003

Há dois anos fui a Paço de Sousa com o objectivo de conhecer os carvalhos alvarinhos monumentais, considerados de interesse público, da Casa da Companhia, uma casa solarenga situada nas imediações do antigo mosteiro beneditino de Paço de Sousa. As fotografias que fiz dos carvalhos (o maior dos quais perdeu entretanto uma das suas mais imponentes pernadas) ficarão para uma outra ocasião, até porque o que mais chamava a atenção nessa tarde fosca de Dezembro, era a belíssima japoneira em flor ali logo à entrada do cemitério.
Destacava-se também entre outras árvores um imponente plátano com o tronco enclausurado numa espécie de quiosque que vende "comes e bebes".


As japoneiras em flor e outras árvores magníficas destas paragens são mais uma boa razão para se fazer a Rota do Românico do Vale do Sousa.
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9.12.05

O problema da flor


Foto: pva 0512 - Camellia sasanqua no Parque da Cidade do Porto

A luz que vem das estrelas,
Diz - pertence-lhes a elas?
O aroma que vem da flor,
É seu? Dize, meu amor.

Problemas vastos, meu bem,
Cada cousa em si contém.
Pensando claro se vê
Que é pouco o que a mente lê
Em cada cousa da vida,
Pois que cada cousa, enfim,
É o ponto de partida
Da estrada que não tem fim.

Perante este sonho eterno
Falar em Deus, céu, inferno...

Ah! dá nojo ver o mundo
Pensar tão pouco profundo.


Fernando Pessoa
(poema inédito de 1908 publicado no último JL)

8.12.05

"Strawberry fields"

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The Strawberry Fields Memorial, Central Park, NY, 2000, by Rick Dikeman
( Foto da Wikipedia GNU Free Documentation License)
Ver outra foto, actual
«Shaded by a grove of stately American elms, the black-and-white mosaic set in the pathway near its west entrance is a reproduction of a mosaic from Pompeii; it was fashioned by Italian craftsmen and was a gift from Naples, Italy. Its single word IMAGINE, the title of a popular Lennon song, is the only specific tribute to the musician within the beautifully maintained yet naturalistic, free-flowing park landscape.»
Srawbwerry Fields in Central Park
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7.12.05

Fonte de saúde



Fotos: pva 05

Com a configuração e tamanho semelhantes aos do damasco mas com pecíolo muito longo, casca acastanhada e pilosa, e polpa esverdeada, saborosa e perfumada, pontilhada por numerosas sementes escuras que parecem irradiar de um centro branco, o quivi conquistou o paladar português nas duas últimas décadas do século passado. Por essa altura, ainda o país teria ilusões sobre a sua vocação agrícola, iniciaram-se plantações promissoras de Actinidia deliciosa no país, mas hoje é raro encontrar nas frutarias quivi português. O mercado é dominado pelo quivi italiano, apesar do seu cultivo fora da região de origem - a Ásia Oriental - se ter iniciado, no começo do século XX, na Nova Zelândia (a partir de 3 exemplares desta espécie dióica), interessado depois a Inglaterra e a França e só nos anos 70 a Itália, hoje o maior produtor.

Esta planta é um arbusto trepador vigoroso, que pode atingir os 10 m de altura e formar coberturas densas como a da foto em cima numa das pérgolas do jardim da Viscondessa de Lobão, no Porto. Tem folhas alternadas, cordiformes e ásperas; os frutos amadurecem no início do Outono e são uma mina de vitamina C, que é resguardada do calor e da luz pela casca robusta e escura e a clorofila da polpa. Acompanham-na quantidades generosas de cálcio, ferro, fósforo, potássio, fibra, antioxidantes e uma proteinase, a actinidina (por isso não é conveniente usá-lo em sobremesas com derivados de leite, embora seja frequente ver nas montras das confeitarias fatias de quivi a decorar bolos revestidos com natas). A família Actinidiaceae conta com mais de 40 espécies, algumas ornamentais como a A. kolomikta cujas folhas se pintalgam de cor-de-rosa prateado antes de cairem e cujas flores se assemelham às da Camellia sinensis.

Numa estratégia comercial bem sucedida, a designação chinesa comum do fruto entrou em desuso sendo substituída pelo termo kiwi, o nome maori de um pássaro de penugem castanha, pequenino, ovóide como uma baga e com um grande bico, que é emblema da Nova Zelândia. Actinidia deriva do grego actinídion, com origem em aktís, raio luminoso.

6.12.05

"Little people"

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Conhecem as bonequinhas amorosas feitas pela Vera?
A sua marca é a MÃO LIVRE «Artesanato elaborado com frutos, sementes e galhas de árvores e fibras naturais, tingidas artesanalmente com plantas.». Estas bonequinhas embarcaram em frutos secos de braquiquito (Brachychiton sp.) . Mas também as há que voam em cápsulas de jacarandá e outras que adoram encarapuçar lápis e canetas...

Podem ser admiradas e adquiridas na «Loja de Artesãos» do Espaço Musas -Espaço de iniciativas multiculturais e alternativas entre o dia 10 e 15 de Dezembro.

5.12.05

Alerta amarelo



É também no cumprimento de um serviço público como este que reside a razão de ser do nosso blogue: a Ginkgo do Jardim das Virtudes (Porto), que é de longe a maior e mais bonita da sua espécie no país (e, quem sabe, na Europa), e por isso, além de ter sido declarada de interesse público, é detentora do título honorífico Rainha das Virtudes - bom, como eu dizia, a Ginkgo estava ontem, tal como há um ano, esplendorosamente amarela. A visitar com urgência, pois o espectáculo termina já esta semana.

4.12.05

araucárias



araucárias são palavras erguidas
taças de palavras contra o céu de inverno
árvores que reinam sua solidão
sobre as vozes da floresta
.
silvia chueire
.

3.12.05

Condução perigosa


Foto: pva 0509 - buganvílias na Rua de São Pedro, Angra do Heroísmo

«Durante muito tempo não teve carta. Contam que, quando a tentou tirar, numa aula de condução, entrou por uma rua de sentido proibido. O instrutor advertiu-o com severidade: não viu o sinal? Gonçalo, sorridente, respondeu: o que eu vi foi uma buganvília magnífica.»

Helena Roseta sobre Gonçalo Ribeiro Telles em A Utopia e os pés na Terra (Instituto Português de Museus, 2003)

2.12.05

O "abandono" do Jardim de São Lázaro

Em declarações recentes à RTP a propósito do projecto dos Aliados, o jornalista e historiador portuense Germano Silva, além de ter denunciado muito justamente que os jardins do Marquês e do Campo 24 de Agosto, maltratados pela Metro do Porto, ainda não foram restituídos à população, alertou para o estado do abandono do Jardim de São Lázaro, jardim romântico por excelência da cidade. Ora tal abandono, que é real, precisa de ser mais bem explicado. Os culpados dele não são os jardineiros da Câmara, pois os canteiros andam limpos e bem tratados, e as flores sazonais são substituídas com regularidade; é pois taxativo que, na acepção terrorista do termo, o jardim NÃO precisa de ser requalificado. O abandono é social: tirando os reformados para o seu jogo de sueca, os vagabundos, as prostitutas e algum turista desprevenido, pouca gente põe os pés no jardim. Há quem evite atravessá-lo mesmo para encurtar caminho.

Afinal o que se passa? Por que não vemos, nos dias de sol, famílias com as suas crianças a brincar no jardim, que é um espaço seguro, protegido como está por um gradeamento a toda a volta, e aprazível, com muitos bancos e muitas árvores de sombra? Há dois ou três anos construiu-se avantajado condomínio na esquina da Rua Duque de Loulé com a Avenida Rodrigues de Freitas, a dois passos do jardim. Quantos dos novos moradores o frequentam hoje? Quantos alguma vez lá entraram? (Quem ainda não o fez, que aceite o convite das camélias em flor para visitar o jardim quanto antes.)


Foto: pva 0411 - camélia no Jardim de São Lázaro

Não há tecido urbano, seja ele jardim, rua ou praça, que resista ao abandono; e somos nós, circulando de automóvel entre uma garagem e outra, evitando a sociabilidade do espaço público como quem foge ao contágio, que fazemos alastrar esse cancro.

O Porto precisa não só de mais mas também de melhores moradores: de gente que não se limite a ter o seu apartamento no Porto e a estacionar o seu carro numa garagem que por acaso é no Porto; de gente que ande a pé pelas ruas e que viva e faça viver os jardins da cidade.

1.12.05

Chuva Oblíqua

I
Atravessa esta paisagem o meu sonho de um porto infinito
E a cor dar flores é transparente de as velas de grandes navios
Que largam do cais arrastando nas águas por sombra
Os vultos ao sol daquelas árvores antigas...

E o porto que sonho é sombrio e pálido
E esta paisagem é cheia de sol deste lado...
Mas no meu espírito o sol deste dia é porto sombrio
E os navios que saem do porto são estas árvores ao sol...

Liberto em duplo, abandonei-me da paisagem abaixo...
O vulto do cais é a estrada nítida e calma
Que se levanta e se ergue como um muro,
E os navios passam por dentro dos troncos das árvores
Com uma horizontalidade vertical,
E deixam cair amarras na água pelas folhas uma a uma dentro....

Não sei quem me sonho...
Súbito toda a água do mar é transparente
E vejo no fundo, como uma estampa enorme que lá estivesse desdobrada,
Esta paisagem toda, renque de árvore, estrada a arder em aquele porto,
E a sombra duma nau mais antiga que o porto que passa
Entre o meu sonho do porto e o meu ver esta paisagem
E chega ao pé de mim, e entra por mim dentro,
E passa para o outro lado da minha alma...
(...)
Fernando Pessoa

Nos 70 anos da sua morte e numa altura em que a sua obra volta a cair no domínio público