31.1.08

Invasão amarela


Sedum praealtum

Por falta de concorrência, as plantas que florescem no Inverno gozam de maior visibilidade, qualidade mediática hoje em dia muito prezada. E uma das que mais agora se vê - seja nas dunas, nos bosques, nas bermas de estrada ou em qualquer jardim menos cuidado - é o trevo-azedo (Oxalis pes-caprae), que dá justamente flores amarelas. Mas, como aquelas figuras públicas que nos cansam de tanto aparecerem, também a Oxalis, em vez de nos alegrar a vista, acaba por desgostar-nos. Seja como for, é a ela que devemos a hegemonia do amarelo no panorama floral da estação. Embora não saindo da mesma cor, trazemos hoje uma outra planta que, pelo menos por cá, se mantém educadamente confinada aos espaços que lhe foram destinados.

O género Sedum conta com cerca de 280 espécies de herbáceas suculentas no hemisfério norte, incluindo algumas que são espontâneas em Portugal, como o arroz-dos-muros e a erva-pinheira (Sedum sediforme) das dunas. A espécie S. praealtum é mexicana e chega a atingir metro e meio de altura, o que é invulgar para o seu género e explica o epíteto específico, que significa muito alta. Este exemplar foi fotografado há dias no Jardim Botânico do Porto, e os muitos insectos em volta dele davam testemunho do seu apreço por quem os sustenta em época de flores magras.

Há uma peculiaridade que as plantas do género Sedum partilham com a generalidade dos membros da família Crassulaceae: os seus estomas (poros por onde as plantas «respiram», absorvendo dióxido de carbono e libertando oxigénio e vapor de água) só abrem à noite, o que diminui as perdas de água por transpiração e reforça a sua adaptação a ambientes áridos.

29.1.08

Ao fundo das escadas, à direita



Fonte Fria / Fraxinus pennsylvanica

Não é inteiramente exacto que todas as árvores monumentais do Buçaco, sofrendo de incurável timidez, se escondam atrás das companheiras logo que algum fotógrafo ameace puxar da máquina. A Manuela já aqui mostrara o «Cedro de São José», que deixa ver de si o suficiente para dar irrefutável testemunho do seu gigantismo. Mas é mesmo verdade que, tirando aquelas árvores nos jardins do Palace Hotel (como a famosa Araucaria bidwillii), poucas destas gigantes se deixam acomodar num único cliché. Uma excepção é este freixo-da-Pensilvânia que se encontra ao fundo da chamada Fonte Fria, escadaria com muitos lanços bissectada por um fio de água que escorre de patamar em patamar, aqui e ali alargando-se em tanques ornamentais. A água desagua num lago quase circular, morada de um casal de cisnes pretos; o lago, um dos dois existentes no vale dos fetos, tem diâmetro suficiente para que, do outro lado, se possa fotografar o freixo na sua inteireza (3.ª foto).

E essa inteireza é de uma escala esmagadora, como comprovam as minúsculas figuras humanas na 2.ª foto. Esta árvore ultrapassa de longe as medidas recomendadas para a sua espécie: J. L. Farrar, no livro Trees of the Northern United States and Canada (1995), informa que o Fraxinus pennsylvanica é uma árvore de pequeno ou médio porte, atingindo alturas máximas de 25 metros. Como a distinção entre freixos é problemática, podia pôr-se a hipótese de a árvore estar mal identificada; mas custaria a crer que dois reputados especialistas como Jorge Paiva ou Francisco Coimbra estivessem ambos enganados. Devemos pois aceitar que as condições peculiares do Buçaco favoreceram este anormal crescimento. É aliás comum, em matas densas, que a competição pela luz leve as árvores a avantajarem-se em altura.

28.1.08

Urtiga-de-caudas


Urtica dubia, em flor

Esta planta mediterrânica permitiu hoje aproximarmo-nos da «origem da sabedoria», como quem visita a nascente de uma pena-de-água. Seguros de que a incerteza é fonte, e não crise, de conhecimento, e de que os argumentos irrefutáveis têm métodos científicos como pilares, esfregámos vigorosamente as folhas serradas e peludas desta erva, aspirámos-lhe o aroma acre e, minutos depois, sentimos nos dedos a dor que prevíramos. Um desvelar da verdade só suportável com um abanar pitoresco, mas calmante, das mãos, confirmando-se definitivamente que a Urtica dubia é, sem dúvida, uma urtiga.

27.1.08

In memoriam

Hoje, no dia em que se comemora a chegada dos soldados do exército americano ao campo de concentração de Auschwitz em 27 de Janeiro de 1945 e a consequente libertação de milhares de prisioneiros, aqui deixo a sugestão visitarem a árvore de Anne Frank.

«Porquê Anne Frank? Porque é a vítima do holocausto mais próxima dos jovens de hoje e ... de ontem. Porque a sua história e a da sua família e amigos permite-nos falar deste horror com dignidade. (Ela e a sua irmã Margot também passaram por Auschwitz, mas é noutro campo de concentração, em Bergen-Belsen, que morrem em Março de 1945, poucas semanas antes do fim da guerra! )» >

Youth


Magnólias brancas em flor, nas av. Gomes da Costa e Antunes Guimarães, hoje
clicar nas imagens para aumentar

26.1.08

Pepineiro-bravo


Ecballium elaterium

«Era uma vez uma ilha onde se perdia o tempo. Os habitantes começavam todos por chegar de alguma parte. Instalavam-se, casa, horta, pomar. Mas aos poucos iam perdendo os dias da semana, uma quarta-feira, uma sexta-feira, algumas tardes, muitas noites frias. A horta crescia e decrescia mas de parte nenhuma para parte nenhuma e a certa extraordinária altura quando alguém comia por exemplo uma salada de tomate perguntava já o que é isto.»

Ana Hatherly, 463 tisanas (Quimera Editores, 2006)

25.1.08

E mais não coube


Dicksonia antarctica

Para quem goste de fotografar árvores, uma visita à Mata do Buçaco pode ser uma grande frustração. Não faltam motivos para fotografar, pois são muitas as árvores que nos enchem o olho; mas é raro encontrar alguma que se preste a um bom enquadramento. Recuamos para que uma dessas gigantes nos caiba na foto - e logo uma cortina de outras árvores se interpõe no campo de visão e impossibilita o disparo. Mas é uma lição prática de humildade: a experiência visual de uma mata luxuriante não se deixa reduzir à bidimensionalidade estática de uma foto.

Deixando as árvores em paz na sua inacessível altivez, fica ainda muita coisa cá em baixo ao alcance da objectiva; por exemplo o vale dos fetos, que se estende por muitas centenas de metros ligando dois pequenos lagos e acompanhando o curso cantante de um riacho. Com a popularização dos dinossauros, toda a gente viu já imagens virtuais de parques jurássicos onde os fetos arbóreos compõem a vegetação dominante. Por isso não é surpresa que essas plantas sejam das mais primitivas à face da Terra. Contudo, a maioria dos fetos arbóreos actuais, como os dos géneros Dicksonia e Cyathea, são o resultado de uma evolução posterior e, ao contrário do que sucede com a Ginkgo biloba, não têm parentes próximos nos registos fósseis; é como se fossem réplicas modernas de uma tecnologia antiga.

Originário da Austrália e da Tasmânia, este feto arbóreo que se domiciliou no Buçaco prefere locais frescos e húmidos, e é um dos mais rústicos da sua categoria, sendo mesmo cultivado ao ar livre no sul de Inglaterra e na costa oeste da Irlanda.


Phillyrea latifolia

Uma outra oportunidade fotográfica no Buçaco é-nos dada pelos miradouros na parte alta da mata. Seguindo os passos do calvário, mas sem o madeiro ao ombro, subimos até à Cruz Alta, de onde a vista abrange todo o tapete verde que envolve o Palace Hotel e se desenrola até ao Luso: formado pelas copas cerradas das coníferas, é um verde a que o Inverno não tira espessura nem viço. Uma vez lá em cima, porém, não são só as coníferas a chamar-nos a atenção. Há umas pequenas árvores folhosas, também elas perenifólias, que pelo retorcido dos troncos denunciam uma idade provecta: são os maiores exemplares de adernos (Phillyrea latifolia) que alguma vez vimos no nosso país. E, por uma vez, puseram-se a jeito para a foto, debruçando-se sem medo sobre a encosta.

24.1.08

Os irmãos Azara



Azara serrata

Arbusto chileno de folha perene, a Azara serrata tem folhas de margens dentadas e de dois tamanhos: as grandes alternadas, as pequeninas em pares e fixadas nos pecíolos das maiores. As flores amarelas agrupam-se em corimbos, são perfumadas, não têm pétalas, e as 4-5 sépalas rodeiam um tufo de numerosos estames que justificam a designação comum aromo (acácia) que atribuem a esta planta na região andina. A da foto mora no Holland Park, um jardim agasalhado por um bosque e recheado de plantas, flores e bancos confortáveis; enfim, velharias do espaço urbano que certa arquitectura actual jovialmente desdenha.

O nome do género refere-se ao espanhol José Nicolás de Azara (1730-1804), diplomata, coleccionador de antiguidades e mecenas da arte: estranha associação esta, quando não houve, aparentemente, qualquer vínculo deste político à botânica. Na verdade, J. N. de Azara foi o irmão mais velho de Félix de Azara (1742-1821), engenheiro militar e cartógrafo, destacado na América do Sul para vigiar o cumprimento do Tratado de Madrid, actualização de 1750 do de Tordesilhas. Acção difícil, face à ousadia dos portugueses bandeirantes, mas que lhe deu oportunidade, e tempo livre, para estar atento à natureza. O rigor científico nestes estudos e as consequentes obras sobre a fauna do Paraguai e do Rio da Prata granjearam-lhe fama como naturalista; na América do Sul, a posteridade «eternizou-o» como nome de rua, de vila e de pássaro; e, em 1976, foi-lhe dedicada uma montanha na Lua, a Dorsum Azara, que se estende por cerca de 105 quilómetros entre as crateras Lineu e Bessel (homenagem ao matemático alemão Friedrich Wilhelm Bessel), no Mar da Serenidade.

23.1.08

Full bloom


Magnólia em flor- Rua S. João de Brito, ontem.

Ultimamente sem tempo para postar, não posso no entanto deixar de vir aqui anunciar que elas já aí estão.

22.1.08

Espinhenta e expansionista



Hakea sericea

O género Hakea é endémico da Austrália, pertence à família da Banksia e da Grevillea, e inclui cerca de 150 espécies de arbustos ou pequenas árvores. Algumas delas, como esta Hakea laurina que vegetou incógnita durante anos num certo jardim do sul do país, têm flores muito atraentes; mas a H. sericea, que hoje aqui trazemos, não se recomenda pela beleza: é um arbusto de porte desgrenhado e floração discreta, com a agravante de ter folhas dolorosamente aculeadas. A sua vocação mais óbvia é para formar sebes que travem de forma eficaz a passagem de intrusos. Com esse intuito, foi introduzida em vários países, mas não tardou a revelar outra qualidade desagradável, que aliás partilha com muitas das suas compatriotas: é uma invasora temível, que tira partido dos fogos florestais para germinar ainda em maior escala. Está declarada como peste na África do Sul; em Portugal, o Decreto-Lei 565/99 incluiu-a na lista de espécies invasoras. Se a lei fosse para levar a sério, seria inconcebível vermos a H. sericea cultivada em jardins públicos; mas, sendo as coisas como são, encontramo-la tranquilamente no Parque de São Roque, no Porto, na companhia das acácias anatemizadas pelo mesmo decreto. E, o que é ainda mais grave, também já a vimos no Parque Biológico de Gaia e à entrada do centro de acolhimento da reserva das Lagoas, em Ponte de Lima.

P.S. Visite a página do projecto Plantas Invasoras em Portugal para mais informação sobre esta e outras espécies daninhas.

21.1.08

Nerine bowdenii



.....A place in the sun - you want to gain it?
.....It´s hard to get.
.....For when you attain it,
.....the sun has set.


.....Karl Kraus (trad. Max Knight)


Nativa da África do Sul, a Nerine bowdenii tem um calendário invertido. As umbelas com cerca de dez flores-trombeta, de periantos brilhantes com margens onduladas, resistem às geadas do Inverno se não chover demasiado, só sendo agasalhadas por folhas novas no início da Primavera; e no Verão a planta recolhe-se a uma sesta retemperadora. Esta rusticidade e elegância justificaram o Award of Garden Merit que a Royal Horticultural Society lhe atribuiu.

O nome do género refere-se às nereidas, ninfas marinhas da mitologia grega que, sobre golfinhos ou cavalos-marinhos, ajudam os marinheiros durante as tempestades. Athelstan Hall Cornish Bowden (1871-1942) foi inspector inglês na África do Sul e responsável pela chegada desta planta à Europa.

19.1.08

Mackaya bella



..............Haverá para os dias sem memória
............. outro nome que não seja morte?
............. Morte das coisas limpas, leves:
............. manhã rente às colinas,
............. a luz do corpo levada aos lábios,
............. os primeiros lilases do jardim.
............. Haverá outro nome para o lugar
............. onde não há lembrança de ti?


........... Eugénio de Andrade, O Outro Nome da Terra (1989)
........... (19 de Janeiro de 1923 - 2005)

18.1.08

Kenwood House

Os terrenos da Kenwood House prolongam para norte a grande mancha arborizada de Hampstead Heath, embora oficialmente não façam parte dela e tenham até gestão autónoma. A casa está cercada por jardins formais onde pontificam maciços de azáleas e por bosques de grandes e velhas árvores: carvalhos, faias e castanheiros. Entre 1951 e 2006, o lago da propriedade, que aqui ontem mostrámos, acolheu todos os verões, nas tardes de sábado, uma concorrida série de concertos ao ar livre. Curiosamente, a «ponte» que atravessa o lago é puro adereço cénico, sem chão e sem espessura.



É bom, numa noite de Inverno, folhear o álbum de recordações de uma Primavera que, embora passada, há-de ter dentro de poucos meses a inevitável reedição. Cada purgatório tem o seu paraíso prometido, seja ele noutro lugar ou noutro tempo. Para chegar a este, ascendi 10 graus de latitude e recuei até Maio, tempo das azáleas em flor. A esplanada da cafetaria, vista aqui através da ramaria de um plátano, apresentava-se estranhamente vazia, mas o dia estava incerto, sujeito a aguaceiros repentinos. Lembro-me de ter ficado longos minutos de plantão, já com o enquadramento estudado, à espera de uma aberta entre as nuvens para fotografar o colorido das azáleas avivado pelo sol. Na terceira foto, tirada de junto ao lago, as duas grandes árvores que balizam a casa são, da esquerda para a direita, uma tília (Tilia x vulgaris) e um carvalho (Quercus robur).

17.1.08

Bosque encantado


Hampstead Heath - Londres

«Passávamos, jovens ainda, sob as árvores altas e o vago sussurro da floresta. Nas clareiras, subitamente surgidas do acaso do caminho, o luar fazia-as lagos e as margens, emaranhadas de ramos, eram mais noite que a mesma noite. A brisa vaga dos grandes bosques respirava com som entre o arvoredo. Falávamos das coisas impossíveis; e as nossas vozes eram parte da noite, do luar e da floresta. Ouvíamo-las como se fossem de outros.

Sim, não são os êxtases do abstracto, nem as maravilhas do absoluto que podem encantar uma alma que sente: são os lares e as encostas dos montes, as ilhas verdes nos mares azuis, os caminhos através de árvores e as largas horas de repouso nas quintas ancestrais, ainda que as nunca tenhamos. Se não houver terra no céu, mais vale não haver céu.»

Fernando Pessoa, Livro do Desassossego (Assírio & Alvim, 2001)

16.1.08

In Search of Paradise: Great Gardens of the World

Ver índice do livro

« "In Search of Paradise: Great Gardens of the World": Throughout history, gardens have reflected our vision of paradise. In an all-new public exhibition opening September 23, 2006—and coinciding with the unveiling of the Chicago Botanic Garden's newly renovated Education Center—In Search of Paradise: Great Gardens of the World expands visitors' imaginations as they embark on a sensory journey of contemporary gardens from around the globe. (...)»

«Judging by annual attendance figures, public gardens are a major tourist draw.
Both Longwood Gardens near Philadelphia and the New York Botanical Garden in the Bronx report ticket sales of close to 800,000 last year. And the stats for the Royal Botanic Gardens in Kew, England, are even more impressive with close to 1.5 million visitors in 2005.

Winner of the 1993 Award of Excellence for her book, “Gardening Through the Ages,” given by the Garden Writers Association of America, and the 1996 Royal Horticultural Society Victoria Medal of Honour, the highest award given by the RHS to British horticulturalists, Hobhouse has created a 271-page book that traces man’s attempt to realize the ideal garden. She has compiled gorgeous color photographs and narrative about some of the greatest horticultural installations on Earth. (ler mais) »

Apontadores sobre um livro que recebi de prenda pouco depois da meia-noite ;-)

15.1.08

Aeonium arboreum



Aeonium arboreum

Tal como a Crassula ovata, que pertence à mesma família botânica, também esta planta floresce nos meses frios, dando uma viva pincelada amarela no desmaiado canteiro das suculentas do Jardim Botânico do Porto. Não que a Aeonium arboreum, marroquina de origem, aprecie particularmente o frio - mas, desde que tenha abundante exposição solar e vegete em terreno bem drenado, lá vai aguentado este nosso (cada vez mais) ameno Inverno. Em climas mais quentes, como o do seu seu habitat de origem, este arbusto pode superar um metro de altura. É muito ramificado, tem as folhas dispostas em roseta na extremidade dos ramos, e as flores compõem vistosas panículas piramidais. O Portugal Botânico de A a Z atribui-lhe o nome vulgar de saião ou ensaião (segundo a mesma fonte, a Crassula ovata seria o ensaião-branco); mas, a menos que a planta seja comummente cultivada no sul do país, não nos parece que tal nome seja muito usado.

14.1.08

Osmanthus heterophyllus




No caminho para os scones (quando os há) da sala-de-chá de Serralves, junto a uma das entradas laterais, chamam agora a atenção dois arbustos em flor muito perfumados. Pelo porte, devem fazer parte do plano de arborização original do parque. De hábito semelhante ao de um exemplar de Osmanthus fragrans (o jasmineiro-do-imperador, cujas flores são usadas para aromatizar chá) que vimos na Casa de Campo em Celorico de Basto, e de um outro de O. delavayi dos Kew Gardens, há contudo aspectos que nos permitem distingui-los: na folhagem de O. heterophyllus podem coexistir dois formatos, folhas de margens simples e outras espinhosas como as do azevinho; e as flores são brancas e mais vistosas, com dois estames pronunciados como pequeninas pás. Seguem-se-lhes bagas azuis do tamanho de azeitonas.

O género Osmanthus tem cerca de 15 espécies da Ásia (quase todas chinesas) e uma da América do Norte, próximas das do género Phillyrea e da Picconia azorica, planta endémica nos Açores mas em perigo pela desmatação intensa a favor do gado. Há registo de variedades chinesas de O. fragrans com flores amarelas ou cor-de-laranja, e o mito, com origem na dinastia Ming, de outra de flores vermelhas.

Esta planta representa na China o 8º mês do ano, está associada à Lua (cujas sombras desenham, segundo a crença chinesa, um jasmineiro-do-imperador), e portanto ao mérito literário, e é descrita pela palavra gui, nobre.

12.1.08

Fer et bois











De todas as árvores monumentais que se podem encontrar no "Parc-du-Champs de Mars" - o vasto espaço verde onde se ergue a Torre Eiffel - o castanheiro da Índia centenário retratado na fotografia da esquerda foi a que mais facilmente consegui identificar. Ia com a ideia de procurar uma série de árvores listadas (nomeadamente o lódão mais velhinho de Paris) no sítio oficial dedicado a este imenso parque- 24,5 hectares, um dos maiores de Paris- mas perdi-me no tempo rondando vezes sem conta a "gigante de 7 000 toneladas", impressionada pela visão dos pilares da enorme estrutura metálica > crescendo no meio das plantas (ver álbum).
Da próxima vez não me esquecerei de marcar uma visita guiada às referidas árvores (01 40 71 75 60).

11.1.08

Singularidades de uma vila

São muitas as singularidades de Ponte de Lima. A primeira é que a sede do concelho persiste, orgulhosamente, em ser vila, quando quase todas as nossas outras localidades de dimensão semelhante há muito que quiseram proclamar-se cidades. Por isso é a vila mais antiga de Portugal; uns anos mais e será, simplesmente, a vila de Portugal. A segunda singularidade é o espaço público impecavelmente cuidado, o que inclui, além da limpeza e do bom planeamento, uma arborização abundante (sem vestígios de podas camarárias) e a manutenção escrupulosa dos belos jardins.

A cinco quilómetros da vila, acessível por um caminho pedonal ao longo do rio, há uma reserva natural com cerca de 350 hectares, centrada nas lagoas de Bertiandos e de São Pedro d'Arcos e atravessada pelo rio Estorãos, que ali desagua no Lima. Declarada como zona húmida em 1990, foi inscrita em 1995 no Plano Director Municipal de Ponte de Lima como parte da Reserva Ecológica Nacional. E aqui manifesta-se uma terceira singularidade: em vez de pedir sucessivas desanexações à reserva, como costumam fazer, com a pressurosa colaboração do Governo da República, as autarquias preocupadas com o «desenvolvimento», a Câmara de Ponte de Lima ainda reforçou o seu estatuto de protecção, fazendo-a classificar em 2000 como área de paisagem protegida de âmbito regional.

Tanta singularidade tem que dar para o torto, argumentará o autarca desenvolvimentista: como é que terra que não betoniza a torto e a direito os seus valores naturais pode «criar riqueza»? O certo é que cria, pois o concelho tem um ar indiscutivelmente próspero. Sem ter inaugurado nenhuma atracção espampanante como a Bracalândia ou a «árvore» de Natal mais alta da Europa, Ponte de Lima é das terras mais visitadas do Minho (e de Portugal); e é-o pela singela razão de se manter bonita enquanto o resto do país (incluindo o Minho) se vai tornando cada vez mais feio.





Estas imagens documentam um dos possíveis passeios a pé com partida e chegada no centro de acolhimento das Lagoas: o percurso da veiga tem 6 Km de extensão, dos quais cerca de 2/5 são fora da reserva, atravessando povoações, campos de cultivo, vinhas e pomares. Os pontos mais atraentes do percurso são a lagoa de São Pedro - rodeada por esparsos eucaliptos improvavelmente fotogénicos - e, já fora da reserva, a ponte e a azenha do rio Estorãos, onde o antigo moinho (à direita na foto) foi convertido em hospedaria (as árvores em primeiro plano são amieiros). Vimos ainda velhas oliveiras, laranjeiras com muitas laranjas a apodrecer no chão, um curioso monumento com quatro mãos agarrando uma argola - dedicado à boa vizinhança entre quatro freguesias - e, para terminar, a amostra possível da fauna local à porta de sua casa.

10.1.08

Snow-in-Summer


Cerastium fontanum

Parece uma Stellaria, mas não é. As flores também são pequeninas (7-10 milímetros de diâmetro), mas as pétalas, do mesmo tamanho das sépalas, estão fendidas apenas no terço superior. Além disso, têm 10 estames e haste alta. Caraterísticas que não justificariam a segregação desta plantinha do mundo cintilante das estrelas, mas o formato tubular da cápsula que contém as sementes, com abertura no topo debruada com dez dentinhos, impôs outra designação para o género: Cerastium, do grego kerastes, trombeta. O epíteto específico informa que é nas margens das ribeiras que esta planta estende ao sol a sua manta de flores, como faziam as lavadeiras do passado.

9.1.08

Da família Asae


Cauda-de-andorinha (Papilio machaon)

«The other day I was nearly arrested by two excited policemen in a wood in Yorkshire. I was on a holiday, and was engaged in that rich and intrincate mass of pleasures, duties, and discoveries which for the keeping off of the profane we desguise by the exoteric name of Nothing. At the moment in question I was throwing a big Swedish knife at a tree, practising (alas, without success) that useful trick of knife-throwing by which men murder each other in Stevenson's romances.

Suddenly the forest was full of two policemen; there was something about their appearance in and relation to the greenwood that reminded me, I know not how, of some happy Elizabethan comedy. They asked what the knife was, who was I, why I was throwing it, what my address was, trade, religion, opinions on the Japanese war, name of favourite cat, and so on. They also said I was damaging the tree; which was, I am sorry to say, not true, because I could not hit it. The peculiar philosophical importance, however, of the incident was this. After some half-hour's animated conversation, the exhibition of an envelope, an unfinished poem, which was read with great care, and, I trust, with some profit, and one or two other subtle detective strokes, the elder of the two knights became convinced that I really was what I professed to be, that I was a journalist, that I was on the Daily News (this was the real stroke; they were shaken with a terror common to all tyrants), that I lived in a particular place as stated, and that I was stopping with particular people in Yorkshire, who happened to be wealthy and well-known in the neighbourhood.

In fact the leading constable became so genial and complimentary at last that he ended up by representing himself as a reader of my work. And when that was said, everything was settled. They acquitted me and let me pass.

I was certainly accused of something which was either an offence or was not. I was let off because I proved I was a guest at a big house. The inference seems painfully clear; either it is not a proof of infamy to throw a knife about in a lonely wood, or else it is a proof of innocence to know a rich man.»


G. K. Chesterton, Some policemen and a moral (1904)

8.1.08

O artista da sua terra


Amieiro na margem direita do Lima

Houve um tempo em que o caderno de encargos do artista estava definido com clareza: o poeta celebrava em versos de rigorosa métrica as belezas (naturais ou humanas) da sua terra, e o pintor cumpria igual tarefa com óleos e aguarelas. O âmbito geográfico restrito dos motivos de inspiração não tolhia o surgimento de vocações universais: o artista podia ser do mundo inteiro sem deixar de ser da sua aldeia. Mas hoje, com o descrédito da rima e da arte figurativa, e sobretudo com as facilidades de locomoção, só os artistas menores se refugiam na celebridade local e no patrocínio das juntas de freguesia; e mesmo esses têm o mundo inteiro, ou a aparência fugaz dele, à distância de um voo low cost. Já ninguém põe em verso a vida rústica. Alberto Caeiro, o último poeta rural português, cantou o bucolismo abstracto de uma aldeia imaginária, numa época em que já todos os seus confrades tinham desistido da aldeia real.

Lembrei-me disto ao ver a exposição de António Cruz (1907-1983) que está no Museu Soares dos Reis até ao fim de Janeiro. Eis um pintor que, sem ser figurativo, fixou nas suas aguarelas uma cidade brumosa em cujos volumes e contornos esfumados o Porto facilmente se reconhece. António Cruz é sem dúvida um artista portuense; de facto, nunca terá havido artista mais portuense, mas essa condição bairrista só o engrandece. O poeta e diplomata António Feijó (1859-1917) é outro caso de apego às raízes. Nascido em Ponte de Lima, cônsul geral de Portugal em Estocolmo durante mais de duas décadas, acabou por morrer no exílio «polar» da capital nórdica. Só foi poeta da sua terra quando já lá não podia voltar: à «neve cobrindo tudo» e aos «anos inteiros sem primavera» da sua vivência sueca contrapunha a memória do Minho soalheiro, com «verdes colinas» e «águas claras».

Não estou certo de que António Feijó quisesse reconhecer a sua terra natal nesta foto do rio Lima em tarde de má catadura. Não era das névoas de Inverno que ele tinha saudades - dessas estava ele bem servido na Escandinávia -, mas do ar luminoso e transparente dos dias primaveris. António Cruz, por seu lado, gostava era do Inverno, com árvores nuas e vultos incertos despontando do nevoeiro. Não teria sido surpresa encontrá-lo, numa tarde como esta, de cavalete montado à beira-rio.