22/10/2007

Urze-minhota



Daboecia cantabrica

A Daboecia cantabrica, parente próxima da Erica, é uma pequena planta arbustiva europeia, própria de matas com solo ácido em climas temperados. É espontânea numa faixa que vai do oeste de França ao norte de Espanha e noroeste de Portugal, e surge também na Irlanda - mas não, curiosamente, na Grã-Bretanha. O Portugal Botânico de A a Z chama-lhe urze-irlandesa, o que, apesar de correcto, ignora que a planta por cá se encontra no estado natural. Dada a sua área de distribuição no nosso país, o nome que lhe atribuímos em título parece-nos mais justo.

O género Daboecia alberga duas únicas espécies: a outra é a endémica açoriana D. azorica, confinada às ilhas de São Miguel, São Jorge, Pico e Faial, onde é conhecida como queiró - um dos nomes que, no Continente, se dá à Calluna vulgaris. Em ambas as espécies de Daboecia, as pétalas unidas das flores formam inconfundíveis cilindros insuflados; além disso, essas flores (ou, para semos exactos, as suas corolas) são caducas, ao passo que na Erica elas permanecem no arbusto mesmo depois de secas.

O nome génerico Daboecia vem de São Dabeoc, monge irlandês que viveu entre os séculos V e VI. É por isso bem apropriado que tenhamos encontrado a Daboecia cantabrica na cerca do Mosteiro de Tibães, onde, abrigada por carvalhos e pinheiros e na companhia de outras urzes já desbotadas, se manterá em flor até à chegada do Inverno.

19/10/2007

Música para colibris


Epilobium canum

Contemplá-la deveria bastar-nos. Vencido o receio de corromper a beleza, poderíamos até tocar-lhe as pétalas, sentir-lhe de perto o perfume, e recuar saciados. Mas não. Como D. José em Todos os nomes, de Saramago, só depois de identificada, com «o nome completo, sem lhe faltar um apelido ou uma partícula», aceitámos reconhecer esta flor como nossa.

Seguiram-se por isso noites de leitura sem a paz do costume. A tarefa adivinhava-se árdua porque os traços mais relevantes da planta nos pareciam discordantes. A cor escarlate brilhante pouco usual, a indentação das pétalas em dois lóbulos (que só conhecíamos em flores pequeninas e roxas), o formato em trombeta com estames proeminentes (características comuns a inúmeros géneros) e a folhagem minúscula deixaram-nos à deriva uns dias.

Num derradeiro esforço, reparámos noutra pista: os estames esticados, com as anteras de pólen dilatadas, e o estilete um pouco mais longo com uma bolinha penugenta como estigma. Já tínhamos visto este arranjo, como uma bailarina em pontas, nas fuchsias. Deste detalhe ao nome comum, California fuchsia, foi um pulinho - seguido de outro de contentamento por termos nomeado finalmente esta planta.

Depois de mais de um século a chamar-se Zauschneria californica, a comunidade científica colocou-a recentemente no género Epilobium, com o epíteto específico canum que, desconfiamos, alude às cãs do fruto. Foi recebida por cerca de 170 espécies da Nova Zelândia, América do Norte e Europa, entre elas a rasteirinha Epilobium roseum que desenha nesta altura manchas violeta nos nossos prados.

18/10/2007

Devagar se vai

Quinta-feira, 4 de Outubro, Centro Cultural e de Congressos de Angra. A bilheteira deveria abrir às oito da tarde, mas só cinco minutos depois é que chega o funcionário. Entra no cubículo, confere o conteúdo da pasta, ordena metodicamente os papéis; escoados alguns minutos, atende por fim o primeiro cliente, começando por lhe estender uma planta do auditório. Há alguma hesitação e troca amena de impressões sobre as vantagens ou desvantagens dos lugares com mesa sobre os lugares de bancada. Decidida a compra, é preciso assinalar na planta - a laranja ou a verde, segundo uma regra que só o funcionário domina - os lugares vendidos, e escrever nos bilhetes, a esferográfica, os respectivos números. São 8h15 quando chega a vez do segundo cliente; a bicha tem uma vintena de pessoas; o concerto está marcado para as 9h30. Não se ouviu sequer uma palavra de impaciência: o ambiente é de conversa entre amigos no fim de tarde morno da ilha; e o concerto, como todos sabem, não começaria antes das dez.

Sábado, 6 de Outubro, Praça Velha. Confirmo que é daqui que partem, de hora a hora, as camionetas para a Praia. São 10 da manhã, deve estar a chegar uma, mas o meu informador não aguarda transporte: está ali por ser o lugar certo para pôr o falatório em dia. Fico a saber tudo sobre a visita do Presidente da República só de ouvir as conversas. Vejo passar autocarros militares e outro com meninas de uniforme, mas a camioneta de que estou à espera tarda em aparecer. Quando vem, não nos deixa entrar. Acaba por se ir embora, para ser substituída, dez minutos depois, por outro veículo com outro motorista. Enquanto esperamos, um funcionário da EVT (Empresa de Viação Terceirense) fica a fazer-nos companhia com ar de plácida ociosidade. Um patusco oferece-se para lhe trazer uma cadeira ou mesmo um sofá. Ouvem-se risos. Ninguém resmunga com a demora.

Moral das histórias. Ter pressa é uma doença tipicamente continental que os ilhéus só conhecem de ouvir falar. Ao fim de poucas horas nas ilhas, mesmo os doentes mais graves entram em remissão, e a cura fica completa ao segundo dia. (Inversamente, o regresso ao Continente faz ressurgir num ápice todos os sintomas da doença.) É por isso um contra-senso que esteja a ser alargada a única via rápida da Terceira, que liga, pelo interior da ilha, a cidade de Angra ao aeroporto das Lajes e à Praia da Vitória. Uma auto-estrada é a negação grosseira da pachorrenta índole insular; ninguém aqui precisa dela. De quem terá sido a ideia de tão absurda empreitada?


Cichorium intybus

Onde se fala de flores. As flores que costumavam enfeitar as bermas da estrada, no percurso do aeroporto para Angra, foram varridas com as terraplenagens. Sobraram, aqui e ali, algumas beladonas e, mais raras, umas pequenas flores azuis que então não pude identificar (o taxista estranharia se lhe pedisse que parasse para as observar), mas que reencontrei na Praia e no interior da ilha. Trata-se da chicória, planta muito usada como substituto barato ou aditivo para o café e que, no final do século XIX, antes de as ilhas se especializarem na produção de gado leiteiro, chegou a ser cultivada comercialmente nos Açores. Como não tem cafeína, a bebida que com ela se prepara terá pelo menos a virtude de não ser excitante, o que combina na perfeição com o modo de vida insular.

17/10/2007

"Árvores a mais, árvores a menos"

Sem grande tempo para blogar (ultimamente), aqui deixo o destaque da PNED (Porto e Noroeste em Debate, lista mantida pela Campo Aberto), hoje selecionado pelo José Carlos Marques
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«Destaque: Árvores a mais, árvores a menos.
Não é no Noroeste, é em Cascais, mas é sempre animador ver que há cidadãos que decidem não aceitar passivamente a destruição de árvores centenárias: Cascais: moradores do Monte Estoril contra destruição de área verde. Também em Guimarães - Retirada de árvores gera discussão - há inconformismo perante mais uma retirada de árvores de uma praça a pretexto de "grandiosidade" e de "história".
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Que a praça nunca teve árvores até há 100 anos! Argumento despropositado pois que a árvore em meio urbano ganhou importância fulcral com o avanço da industrialização e a maior distância com ela criada entre meio urbano e meio rural mais próximo da natureza.
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Estamos perante uma "escola" que vê na árvore uma sombra ao edificado incómoda e inútil. As autarquias, perante o prestígio da "escola", multiplicam as encomendas. Mas as resistências de muitos cidadãos multiplicam-se e a "escola" começa a deixar de ter a aura que a nimbava... Está na hora de compreender que os tempos mudaram e que fazer riscos no ateliê é uma coisa, a realidade viva do meio urbano outra coisa por vezes muito diferente da prancheta vazia onde se expande livremente o "génio"...
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Já com isto só podemos estar de acordo: conferir prioridade ao peão e às bicicletas e reduzir a presença automóvel. Prova de que nem tudo é branco e preto... JCM »

16/10/2007

Lugares do Outono



......Outono, labirinto de silvas,
......de sílabas, digo: pupila lenta,
......rio de inumeráveis águas
......e de amieiros onde canta
......a derradeira luz das cigarras,
......de vidro ainda, e leve, e branca.

Eugénio de Andrade, O Outro Nome da Terra (1988)

15/10/2007

Terra Alerta- Vídeo

Cuidadores de Árvores: em defesa do património arbóreo

Muito boa a reportagem da SIC sobre o encontro de Arboristas promovido pela Sociedade Portuguesa de Arboricultura, no dia 9 de Outubro, na Mata Nacional do Buçaco, com o objectivo de divulgar a Arboricultura Moderna e a utilização de escalada em árvores, tal como foi anunciado no blogue da SPArboricultura

«Muitas vezes maltratadas e esquecidas, as árvores são um elemento fundamental para a qualidade de vida nas cidades. Em defesa de um planeamento do território que promova e preserve este património natural, há quem dedique a vida a tratar de árvores como lhe mostramos agora no Terra Alerta ( ver... ) »

Os ossos à mostra



Numa ilha pequena como a Terceira, o mar ocupa-nos todos os sentidos: se por momentos lhe fugimos da vista, é para logo o reencontrar. Mas, em vez de lhe fugir, tive vontade de chegar junto dele e de lhe pôr a mão. O que é muito fácil de fazer mesmo sem sair de Angra, onde há um pequeno areal cinzento num canto da baía, mas não era esse mar confinado que eu queria tocar. Pus-me a caminho na estrada para São Mateus da Calheta, mas logo notei que o mar, afinal tão próximo, tinha sido privatizado: entre ele e a estrada, vedando-nos o acesso, interpunham-se continuamente casas e terrenos privados. Até que, alguns quilómetros adiante, entre uma pastagem e uma quinta abandonada, abria-se uma vereda ligando a um lanço de escadas que descia pela falésia. Antes de descer, fotografei uma árvore - Melaleuca linariifolia, em primeiro plano na foto em cima -, o que me dá o indispensável pretexto para falar de mar e pedras num blogue sobre plantas: é que, ao contrário do que esperava, a vegetação à beira-mar poucas novidades tinha em relação à que conhecia de outras longitudes. Foi pois à matéria inerte das rochas, com a irrequieta colaboração do azul da água e do branco da espuma, que coube dar personalidade a este lugar. Tarefa cumprida com brilho: é uma ilha frágil, descarnada até ao osso, um osso negro como carvão, esta que se deixa despir pelas ondas.

13/10/2007

"Encant arte"

«No tempo em que todas as árvores tinham um nome...
Espíritos Guardiões, Gnomos e Duendes da Floresta
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As lendas dos duendes e gnomos das florestas montanhosas são tão antigas como a história das culturas que nos precederam.

Dos Celtas ficaram as mais belas fantasias destes pequenos habitantes que guardam os segredos da Natureza e a protegem do infortúnio.
Das encostas e vales do Gerês sonham com o vento, voam com as águias e reúnem nos pequenos e idílicos prados, dos planaltos de encantar.
O corte da goiva deixa sonhos do vento que por lá passou e olhares de sol poente...
A madeira vive para além da morte...
O Universo é infinito...
Cada trabalho é único em homenagem à Natureza.»

Jorge Rodrigues
("Encant arte" >jorgebluesky arroba hotmail.com )
Leia aqui uma entrevista ao escultor e aprecie algumas das suas outras obras.


Em Serralves, durante o IV Campeonato de Escalada de Árvores, iniciativa da SPA-Sociedade Portuguesa de Arboricultura (ver)

12/10/2007

À la carte

At that moment an extremely superior brand of French head waiter manifested himself beside our table, announced his presence with a discrete cough, and led off with, "Madame, messieurs. Tonight Jean-Pierre recommends, for the main course, la poésie de la poitrine du canard aux céleris et épinards crus."

"Poésie..." Hilda sounded delighted and kindly explained, "That's poetry, Rumpole. Tastes a good deal better than that old Wordsworth of yours, I shouldn't be surprised."

John Mortimer, Rumpole (The Folio Society, 1994)



Tendo em conta que a gastronomia japonesa é a mais preocupada com a estética, em cujas receitas se encontram pássaros diáfanos feitos de nabo, lagos de arroz onde se reflectem luas de soja, pagodes de gengibre ou peixes filosoficamente crús, é natural encontrar na longa tradição oleira do Japão pratos que sirvam natureza. No da foto, de porcelana Nabeshima do período Edo (1690-1730), exploram-se vários tons de azul-cobalto para se representar com minúcia um pé de hortênsia, encimado por uma mancha mais escura que sugere uma atmosfera nublada, chuvosa mas serena, açoriana. Há mais prodígios como este na exposição Obras-primas da Cerâmica Japonesa, no Museu Soares dos Reis até 2 de Dezembro.


A propósito, não foram só as criptomérias que emigraram da Ásia para a ilha Terceira, ali se instalaram e têm agora porte e beleza exaltados por todos, apesar dos malefícios ambientais da sua presença. As lindas hortênsias (Hydrangea macrophylla), hoje imagem de marca dos Açores, encontraram nas ilhas o torrão de salinidade variada que lhes permite florir abundantemente, com cores que noutros lugares não se vêem. E por isso transformaram-se num pesadelo: segundo o livro Flora of the Azores, de Hanno Schafer (Margraf Publishers, 2005), já escaparam das bermas de estrada onde foram plantadas e, num esforço conjunto com a conteira (Hedychium gardnerianum), estão a colocar em risco o remanescente da vegetação rasteira endémica das ilhas.

11/10/2007

Lagoa das Patas

Sexta-feira, 5 de Outubro. Na falta de peixe grelhado, almoçava eu, no centro de Angra, um muito continental bacalhau à Zé do Pipo, deixando-me embalar distraidamente pelo som nervoso do telejornal, quando percebi que a notícia tinha a ver connosco, moradores ou visitantes da ilha. Tempestade ameaça os Açores: ondas alterosas, ventos desatados e chuva torrencial atingem o grupo central do arquipélago. Você nem imagina o perigo que corre. Fique aí assustado, que nós voltamos logo após a publicidade. Concedo que os termos exactos não foram esses, mas a ideia foi. O mínimo que se esperaria ver depois do intervalo era um directo com um intrépido repórter sacudido pelo vento e fustigado pela chuva, rodeado por bravos mirones acenando para a câmara. Nada disso veio: enquanto permaneci no restaurante, o assunto tempestade nos Açores não regressou ao telejornal.

Tinha reservado a tarde para uma excursão ao interior da ilha. Deveria desistir dela? O dia não parecia feio, mas sabe-se como o tempo nas ilhas é instável. Por outro lado, das três ameaças que a Natureza nos reservava, eu estaria, no interior, mais a salvo de pelo menos uma delas: a das ondas alterosas. Que viessem pois a chuva e o vento, e eis-me de abalada para a Lagoa das Patas, que fica a uma altitude de 600 metros na metade ocidental da ilha, a cerca de 15 quilómetros de Angra. Como não queria caminhar duas vezes essa distância, tomei um táxi até lá. O regresso, quase sempre a descer, foi feito a pé. E muito agradável teria sido ele, não fosse a chuva: uma chuva intermitente, a mesma de todos os dias na parte alta da ilha, e não a chuva da tempestade que afinal não chegou.




A Lagoa das Patas, com o seu manto de nenúfares, compõe um cenário de sossego idílico, a que não faltam os bancos a convidar ao repouso; o verde-escuro da cortina cerrada de criptomérias (Cryptomeria japonica) é quebrado por algumas árvores ornamentais: plátanos, salgueiros, choupos brancos. Há ainda um recinto infantil e um parque de merendas onde sobressai uma curiosa construção em forma octogonal, só colunas e telhado. O leito de uma ribeira inexplicavelmente seca serpenteia pelo parque antes de atravessar a estrada por onde vim e por onde hei-de regressar. São ainda as criptomérias que se erguem como um muro verde de cada lado da estrada.

Por muitos benefícios que a plantação intensiva desta conífera asiática tenha trazido à economia e à paisagem açorianas, é óbvio que algo está errado com o Parque Florestal da Lagoa das Patas. Tirando as árvores em redor do lago e alguns poucos amieiros ao longo da ribeira, a diversidade é nula: só há criptomérias. O substracto arbustivo é inexistente; a vegetação rasteira está reduzida a musgos e fetos; não há qualquer vestígio da flora autóctone.

Como explica o livro Açores e Madeira - a floresta das ilhas (vol. 6 da colecção Árvores e Florestas de Portugal, do Público / LPN), ainda sobrevivem na ilha Terceira algumas manchas de floresta autóctone. Não me queixo de serem quase inacessíveis, pois terá sido graças a isso que foram poupadas. Mas era bom que em lugares como a Lagoa das Patas, que já não são de produção florestal, se reintroduzisse gradualmente a floresta própria das ilhas.


Cryptomeria japonica

10/10/2007

Convergir

Activa desde 2002, a Plataforma Convergir é constituída por associações cívicas de ambiente, urbanismo e ordenamento do território na Região Norte/Noroeste de Portugal, e tem como objectivo criar sinergias entre as diferentes associações.

O II Encontro -Convergir decorrerá de 19 a 21 de Outubro com eventos no Porto, Maia e Esposende
Programa (clique para aumentar)
SÁBADO, 20 é o dia forte do encontro, com uma sessão, de manhã, de diálogo com os vereadores de ambiente da Área Metropolitana do Porto, coordenada pelo FAPAS, e duas sessões da parte da tarde, a primeira sobre a Agenda 21 no Norte/Noroeste, coordenada pelo Eng. Nuno Quental, e a segunda sobre cooperação interassociativa, com a presença de associações de ambiente galegas e da Federación Ecoloxista Galega bem como de plataformas interassociativas portuguesas, coordenada por José Carlos Marques, vice-presidente da associação Campo Aberto.
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Realizar-se-á, no sábado, um almoço biológico de confraternização dos participantes no encontro, na Quinta da Gruta, Maia.
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DOMINGO, 21 de Outubro, haverá uma visita guiada ao Parque Natural do Litoral Norte, seguida da sessão de encerramento em Esposende (no auditório municipal às 12:00)

Veja o programa completo e inscreva-se através do site
Plataforma Convergir
ou através do telemóvel 931 620 252, das 9:00 às 17:00, ao sábado das 9:00 às 13:00.

09/10/2007

Morango-de-jardim


Geum chiloense

A folhagem lirada disposta em roseta lembra uma roda de amigos; do centro, como num brinde, eleva-se uma flor requintada; e noutros tempos, em que a qualidade se fazia ouvir primeiro, as raízes eram usadas para dar sabor à cerveja da celebração. Falamos da espécie neo-zelandesa Geum urbanum, planta vivaz de floração longa, conhecida em inglês por herb bennet (versão distante de benedict), termo que nos levou a erva-benta.

A planta da foto é irmã dessa, mas de outro continente: trata-se da Geum chiloense, do Chile, com cultivares muito ornamentais de flor dupla amarela ou alaranjada. Vegeta num jardim de instituição respeitável que talvez condenasse a mistura da inocente natureza com a folia. O parentesco com o morango (Fragaria vesca) é reconhecível na nervura em pena das folhas; os frutos, com uma crina de picos para que se disseminem, é que não vão bem com chantilly.

08/10/2007

Caça ao dragoeiro


Dracaena draco

A acreditar na mitologia cristã, talvez a ilha açoriana mais apropriada para a caça ao dragão seja a de São Jorge; mas, como nunca lá fui, fiquei-me pela caça ao dragoeiro na ilha Terceira, aonde regressei para uma visita de três dias. Com as araucárias e os metrosíderos, os dragoeiros são as árvores mais estimadas pelos açorianos e as mais características dos jardins do arquipélago. Dois dos dragoeiros coligidos neste safari (os das fotos à direita) são já de porte respeitável, embora ainda estejam longe das proporções monumentais dos da Madeira ou dos jardins botânicos de Lisboa. Da esquerda para a direita e de cima para baixo, eis a localização dos exemplares fotografados:

  1. Jardim particular na estrada de Angra para São Mateus da Calheta.
  2. Pátio interior do Palácio dos Capitães Generais, em Angra. Por causa da visita do Presidente da República, o jardim do palácio, o meu local favorito da cidade, esteve inacessível durante toda a minha estadia. Mas as portas do palácio estavam abertas e fui entrando; a funcionária que encontrei explicou-me que eu não o deveria ter feito, mas autorizou-me simpaticamente a fotografar este dragoeiro, que fica a ser o mais valioso troféu desta caçada.
  3. O edifício onde se empoleira o dragoeiro foi inaugurado em 2004: acompanha a curva da baía de Angra e é uma combinação de centro comercial, jardim, miradouro e passadiço de ligação com a parte alta da cidade.
  4. Jardim particular na Praia da Vitória, terra natal de Vitorino Nemésio. A copa da árvore alonga-se sobre a rua que passa uns metros abaixo, mas ninguém parece levar a mal esta invasão do espaço público aéreo.

07/10/2007

É por ti


Verbena bonariensis


---É por ti que se enfeita e se consome,
---Desgrenhada e florida, a Primavera
---É por ti que a noite chama e espera

---És tu quem anuncia o poente nas estradas.
---E o vento torcendo as árvores desfolhadas
---Canta e grita que tu vais chegar.


Sophia de Mello Breyner Andresen, Dia do mar (1974)

05/10/2007

Phygelius capensis



Esta noite
até os atacadores dos sapatos
floriram


Jorge de Sousa Braga, Balas de Pólen (2001)

04/10/2007

Sociedade Portuguesa de Arboricultura

Divulgação das próximas actividades promovidas pela SPA já nos próximos dias 12 e 13 de Outubro. Para mais informações consulte o site promocional

Ler no JN: "Trepadores em competição nas árvores de Serralves"

Romaria em Setembro


Valinhas - 9 de Setembro de 2007

O segundo domingo de Setembro é o dia de todas as romarias, mas não foi por isso que voltámos a Valinhas no preciso dia em que o carvalhal estava coalhado de gente em festa. Voltámos como quem cumpre um voto, e por distracção calhou ser no dia da romaria a Nossa Senhora de Valinhas. Mas preferíamos ter reencontrado o sossego da nossa primeira visita, mais propício à contemplação destes nobres carvalhos. Como local de romaria muito antigo, este carvalhal adquire uma importância singular na vivência dos povos das redondezas, e uma tal ligação deve ser vista com carinho e apreço. Mas as agressões a que o bosque está sujeito em dias de romaria ofendem a dignidade das árvores e abastardam a festa. Para não ter que carregar as lancheiras, cada um estaciona o carro no exacto local onde vai estender a toalha, e temos assim o carvalhal convertido em híbrido caótico de parque de estacionamento com recinto de merendas. Além de feio de se ver, este comportamento degrada seriamente um património natural único: as árvores não são eternas, e não há hipótese de o carvalhal se renovar naturalmente com invasões tão desregradas como esta.

Afastámo-nos desta triste cena logo que pudemos. Não vimos a procissão e só ao longe, ou de passagem já no regresso, ouvimos a banda a tocar à mistura com o estrondo dos foguetes. Buscámos refúgio junto às quedas de Fervença, onde, como seria de esperar no fim do Verão, o rio Leça estava menos caudaloso do que quando o vimos no início da Primavera. Como o risco de afogamento era nulo, acompanhámos o curso descendente do rio por algumas centenas de metros. Era ele um fio de água escorrendo entre blocos de granito talhados quase a pique e escoltado por freixos e amieiros, esses amigos dos lugares húmidos que aqui, entre as rochas, encontraram solo bastante para medrar. Um declive mais ameaçador ditou o termo do nosso alpinismo à paisana, e daí em diante contentámo-nos em esquadrinhar a vegetação rasteira. Uma das plantas que nos captou a atenção foi a Calluna vulgaris, que encontrámos em flor: parente próxima da urze (Erica sp.), as suas flores não têm os estames compridos, protuberantes, que são característicos do género Erica. Mas é natural que detalhes como esse, difíceis de detectar a olho nu, escapem ao observador comum, e assim a C. vulgaris partilha com a Erica muitos nomes vernáculos, como torga, urze e queiroga (ou quiroga); contudo, há outros nomes que são exclusivos seus: mongoriça, queiró, leiva e carrasca (este último nos Açores). Eis pois uma planta plebeia, sem eira nem beira, que tem quase tantos apelidos como um fidalgo de velha estirpe.


Calluna vulgaris

03/10/2007

Poema de Outono

«A folha de árvore
que rola.
A névoa fria
que se evola.

O veio de água
fino e verde.
A cantilena
Que se perde.

O cão vadio
que nos olha
e nos entende...

A isto o menino,
sério, atende
ao ir prà escola.
»

Saul Dias, "Menino" in Palavras de Cristal, sel. Fernando Camacho, Plátano, 1983

(detalhe de painel feito por alunas do 8º ano nos seus tempos livres na Biblioteca da Escola)

02/10/2007

Laranja amarga com espinhos


Poncirus trifoliata - Parque Aquilino Ribeiro - Viseu

Apesar de não dar frutos comestíveis, este arbusto caducifólio da família dos citrinos, originário da China e da Coreia, tem qualidades estimáveis: as flores, rebentando antes das folhas, vestem-no de branco no início da Primavera; os espinhos e a ramificação densa fazem-no apropriado para sebes; e os frutos perfumados, cor-de-limão, têm, em tamanho reduzido, a forma e a textura aveludada das bolas de ténis. É fácil de reconhecer não só pelos frutos e espinhos, mas também pelas folhas compostas trifoliadas, com uma bainha envolvendo o pecíolo.

O Portugal Botânico de A a Z atribui a esta espécie o nome comum de limoeiro-trifoliado, mas parece-nos que ela não é nada comum em Portugal: só conhecemos este exemplar em Viseu, quase oculto sob a copa de uma magnólia-de-Soulange; e, como nunca o visitámos na altura certa, não lhe fotografámos as flores. Tem a reputação de ser muito rústico, e portanto adequado ao clima do norte e centro do país.

01/10/2007

Dia Mundial da Música


Calystegia soldanella, grafonola-da-praia

A imagem associa-se hoje à histórica marca discográfica His Master's Voice: um cachorro pintado por Francis Barraud a ouvir atentamente a voz do dono através do que alguns consideram ser uma trompa ou um megafone, mas, conjecturamos nós, é de facto a flor desta Convolvulaceae. Entende-se agora a origem dos ruídos que acompanhavam as audições dos discos de vinil: as espirais que guiavam a agulha tinham ondas de mar, sons de búzios e alguma areia. Para assinalar a efeméride do título, eis a solução há tanto esperada deste mistério.

29/09/2007

Para breve (mais) sizentismo em Guimarães?

Alerta via A Baixa do Porto


Condenados? Jardim da Alameda S. Dâmaso (11. 2006) e Largo do Toural (09.2006).

«Notícia JN: Revolução no Largo do Toural com a assinatura de Siza
Meus caros,
Será que não se aprende nada nessa nossa abençoada terra?

O que mais me estranha é como a coisa é feita.
1. Escolhe-se o arquitecto - assim, alguém o faz;
2. Encomenda-se o projecto - assim, como ele quer (?);
3. Põe-se o dito a debate público - assim, como um facto consumado.

Ora não sería melhor ter o debate à cabeça? Talvez se chegasse à conclusão que o que está, está bem. Ou que necessitava só de conservação. Ou de uns sanitários públicos por baixo do coreto e a revitalização do antigo café-esplanada. Mas assim não. Vai tudo abaixo, começando com as árvores que pouca falta fazem e os canteiros que só atrapalham e dão trabalho, em nome de uma modernidade importada e descaracterizante.

Que parolos: É que o rei vai nu!
Como já aqui disse, no Porto, olhai para os Jardins da Montevideu e Cordoaria, e as praças do Infante, Poveiros, Leões e D. João I, a Avenida dos Aliados, a Rotunda do Castelo do Queijo, o espaço em frente à Cadeia da Relação e do Piolho....

Alexandre Borges Gomes, Bruxelas » in A Baixa do Porto

  • Sobre a obra anterior de Siza Vieira nesta cidade, o Parque da Mumadona, ler a opinião de Francisco Teixeira transcrita aqui.

28/09/2007

Quinta do Cravel

Os dicionários de português, renitentes em abonar novidades ou pouco atentos à evolução da língua, ainda definem quinta como «propriedade rústica, cercada ou não de árvores, com terra de semeadura e, geralmente, casa de habitação», ou então como «casa de campo». Estas acepções do termo são, pelo menos em português de Portugal, evidentes arcaísmos, e como tal deveriam ser ressalvadas; esperemos que as próximas edições dos dicionários correntes (usei o da Porto Editora) façam a correcção que se impõe. Como se sentirá um estrangeiro que, após laboriosa consulta do dicionário, decida visitar a Quinta da Seara, em Gaia, e, em vez de ondulantes campos de trigo e uma ou outra vaca ruminando em verde pasto, encontre isto? Achará no mínimo que fizeram pouco dele. Senhores lexicólogos: a língua não é estática e, hoje em dia, como se vê pelo exemplo citado (e dezenas de outros poderiam ser invocados só em Gaia), quinta significa «empreendimento imobiliário, geralmente de grandes dimensões, que veio ocupar terrenos antes cultivados ou arborizados». O Google não tem qualquer dúvida sobre o assunto: encontrou-me 886 páginas, todas elas portuguesas, onde aparece a expressão «empreendimento quinta».

Algumas destas defuntas quintas, ou talvez mesmo a maioria delas, não eram quintas de lavoura: eram quintas de recreio onde ricos privilegiados cultivavam jardins ao gosto ostentatório da época. A sua imolação à voracidade imobiliária tem um sabor de vingança - mas uma vingança tardia e equivocada. Na revolução francesa cortavam as cabeças dos nobres; na nossa revolução plebeia, mais pacífica e diferida no tempo, cortamos árvores e cimentamos quintas. Não havendo já tal casta de privilegiados, desforramo-nos na beleza que foi privilégio deles.



Apesar das aparências - pois existe realmente um emprendimento imobiliário com esse nome -, a Quinta do Cravel, em Gaia, é uma excepção à regra destruidora, já que a construção se concentra nas franjas da propriedade e a sua rica mata foi quase toda preservada. Os terrenos da quinta, com mais de 10 hectares arborizados, estendem-se desde a fábrica Coats & Clark, à EN 222, até às instalações da RTP, no Monte da Virgem. A intenção do promotor é reservar o usufruto da mata aos moradores do empreendimento, mas parece-me demasiado optimista esperar que eles paguem sem protesto a manutenção regular dos 10 hectares de arvoredo. (Conheço prédios no centro do Porto onde os condóminos se recusam a pagar até as despesas do jardim.) Por que não fazer uma parceria com a Câmara de Gaia, com a contrapartida de uma abertura (controlada) da mata ao público? Afinal não abundam no concelho espaços verdes desta dimensão (públicos só existem dois: o Parque Biológico de Gaia e o Parque da Lavandeira).

Há uma parte da Quinta do Cravel que foi aberta ao público sem restrições e onde funciona agora um restaurante de cozinha italiana. Partindo da rotunda de Santo Ovídio, o acesso faz-se pela estrada do Monte da Virgem: pouco antes da RTP, uma tabuleta à esquerda indica a Quinta do Cravel; uma vez na rua do empreendimento, um cartaz aponta o restaurante, ao qual se chega descendo por um caminho de terra batida. Mesmo que não se almoce, vale bem a pena a visita; e os mais atrevidos, como nós, não deixarão de atravessar o discreto portão que, nas traseiras do restaurante, dá acesso à parte reservada da quinta.

Que árvores se encontram nos jardins e mata que vão trepando encosta acima? Muitos eucaliptos, a permanente ameaça das acácias (desbastadas há pouco tempo, voltam a despontar em grande número), mas também pinheiros-bravos, carvalhos-alvarinhos, sobreiros, medronheiros, bétulas, sanguinhos-de-água (Frangula alnus), grandes japoneiras, árvores de fruto, cedros, ciprestes, e uma avenida de árvores ornamentais com faias, magnólias e carvalhos-americanos. Uma riqueza e diversidade arbóreas incomparavelmente maiores, por exemplo, do que as da Quinta de Marques Gomes ou do Parque da Lavandeira. Oxalá esteja em boas mãos.

27/09/2007

Notícias da Pavonia


Pavonia spinifex

Está em flor desde a Primavera e, embora não tão ornamental quanto a P.x gledhillii, atrai borboletas e chilreios, e até os colibris da América tropical de onde é originária. Os estames unidos lembram os dos hibiscos e localizam esta planta facilmente entre as malváceas. O fruto é farpado, e os espinhos prendem-no ao pêlo de animais que assim o disseminam involuntariamente. O exemplar da foto está no terraço do lago dos nenúfares do Jardim Botânico do Porto; há ali sapos, talvez encantados, mas a planta aposta mais na colaboração de uma família de gatos que por lá se passeia.

26/09/2007

A ler

«Como é que se descreve uma árvore?
Como é que se explica uma paixão?...
Como é que se explica uma beleza que comove?! »
.
Imperdível a leitura da descoberta da Azinheira Grande pelo Pedro (do Sombra Verde) & amigos:
1- Apaixonei-me por uma árvore!
2- O caminho da redenção
3- 37.7367 N ..7.8215 W
4- Obrigado...

25/09/2007

Cipreste-de-Monterey


Cupressus macrocarpa - Parque Florestal de Amarante

As árvores não têm que respeitar as linhas divisórias dos estados, mas as 50 parcelas que compõem os EUA são suficientemente vastas para albergarem numerosos endemismos, como esta árvore com que fechamos o nosso ciclo de ciprestes: trata-se do cipreste-da-Califórnia (também conhecido como cipreste-de-Monterey), que não ocorre espontaneamente em nenhum outro estado americano. Este cipreste, que se distingue pelos seus ramos ascendentes, quase verticais nas árvores jovens, e pelo tronco encordoado, apresenta-se ora com hábito colunar (é o caso de alguns exemplares no Parque de Serralves), ora com copa ampla e arredondada, como a árvore na foto. Cresce rapidamente e não costuma ultrapassar os 30 metros de altura, mas o tronco é por vezes de grande envergadura. Os aveirenses recordam decerto o grande cipreste-de-Monterey, com quase 7 metros de perímetro do tronco, que existia no jardim do Parque D. Pedro, à face da avenida Artur Ravara: classificado de interesse público em 1939, danificado por um ciclone em 1942, sobreviveu até há meia-dúzia de anos com a copa muito reduzida; mas dele hoje só resta a base do tronco, testemunho assaz elucidativo do colosso que ele foi. Tive a sorte de o ter conhecido ainda vivo, mas não a previdência de o fotografar.

O cipreste-da-Califórnia, conterrâneo dos Beach Boys, dá-se muito bem à beira-mar. Há tempos, alguém teve o atrevimento de eleger as 10 mais magníficas árvores do mundo: a lista não terá sido compilada por votação democrática, mas a escolha, apesar da hegemonia norte-americana, revela algum esforço de equilíbrio. Em décimo lugar ficou justamente um Cupressus macrocarpa, notável não pelo tamanho mas pelo lugar onde lhe calhou viver: isolado num rochedo batido pelos ventos e marés do Pacífico.

P.S. Ver aqui fotos antes-e-depois do cipreste-de-Monterey do Parque D. Pedro, em Aveiro. Obrigado, Pedro!

24/09/2007

Colchicum autumnale




Há mais indícios de que o Verão está por um fio para além da brisa fria nocturna. A espécie Colchicum autumnale, que na Primavera é um tufo de folhas basais (e venenosas por conterem o alcalóide colquicina) a aconchegarem um fruto ovóide, reduz-se agora a enormes flores que lembram os Crocus, sem nada mais que a vista. A designação dama-nua é ousada mas a que melhor se lhe ajusta.

A família Colchicaceae, anteriormente parte da Liliaceae, abriga cerca de quinze géneros de plantas com rizoma ou tubérculo da África do Sul, sudoeste da Europa, Ásia e Austrália. A mediterrânica C. autumnale L. tem uma irmã portuguesa, a C. lusitanum Brot. que difere apenas no tom violeta-rosa mais homogéneo da flor. A prima mais bonita é a asiática/africana Gloriosa superba.

23/09/2007

Fim do Verão


Emil Nolde (1867-1956)
Museu Amadeo de Souza Cardoso, 2006

Sei de uma pedra onde me sentar
à sombra de setembro
e vou falar dos girassóis,
essa flor quase de areia
que ombro a ombro com o sol
faz do peso da sua solidão
o ardor
e a glória dos grandes dias de verão.


Eugénio de Andrade
O peso da sombra (1982)