25/05/2010

Pais & filho

Narcissus bulbocodium L. subsp. bulbocodium

Narcissus triandrus L.

Narcissus bulbocodium X Narcissus triandrus

Não é só para os cientistas que classificar é tarefa gratificante. Aos amadores, no duplo sentido, também parece que, arrumando a casa, se entende melhor o mundo. E, nesse âmbito, o narciso da terceira linha de fotos é um desafio. Os testes de paternidade, a datação de fósseis pelo carbono 14 ou a verificação da autoria de uma obra de arte valem-se de testes rigorosos — essencialmente matemáticos — que, para darem uma resposta segura, precisam de trabalhar informação minuciosa e não apenas indícios. Nós, apreciadores sem meios para julgar, limitámo-nos a um exercício fantasioso de comparação de vestígios, o qual, naturalmente, nos proporcionou a solução que desejávamos.

Encontrámos este narciso incógnito no Gerês, quando a época de floração do N. triandrus (angel's tears, da secção Ganymedes) já estava a terminar e a do N. bulbocodium (hoop-petticoat daffodil, da secção Bulbocodii) no seu início. Nessa intersecção breve não é improvável que uma abelha tenha efectuado a polinização cruzada entre as duas espécies, criando um híbrido silvestre que talvez venha a ser bem sucedido. Como explicaremos, este filhote parece uma média, qual café com leite, dos nossos candidatos a progenitores.

Todas as flores dos narcisos — perfumadas, de tonalidades entre o branco e o amarelo, ocasionalmente verdes, com matizes de laranja — têm uma corola de seis pétalas mais ou menos reflexas, unidas em tubo e formando uma gola da coroa central. No N. bulbocodium (comum no sudoeste da Europa e no norte de África) elas são em geral solitárias, de cor amarelo-dourado, com uma coroa em funil que lembra, na forma e na pose, uma trombeta; as pétalas são curtas, estreitas, pontiagudas e não reflexas; brácteas castanhas, como folhas secas, enfaixam a base da flor até à corola de pétalas; e, em alguns exemplares, de perfil mal se vislumbra o estilete. Pelo contrário, o N. triandrus (da Península Ibérica) produz hastes de 1-6 flores de cor creme que parecem cabecear, com as pétalas largas e notoriamente recurvadas para trás, coroa arredondada como uma campânula e um estilete saliente; as brácteas protectoras cingem apenas o pecíolo que sustenta a flor.

E como é o rebento? Recebeu do N. bulbocodium a postura erecta e um pouco de amarelo — mas não é tão dourado, a coroa não é em funil e as pétalas não são fininhas. Comum ao N. triandrus só a forma da coroa, a corola de pétalas largas e as brácteas curtas: a flor-filha é maior, não é tão clara nem pendente, e as pétalas são quase perpendiculares à taça.

Como são herbáceas perenes, espetámos uma bandeirinha no local, esperando lá encontrar, para o ano, netos ainda mais engraçados.

24/05/2010

Sanduíche de seixos

Sandwich, condado de Kent, Inglaterra


Agora a moda parece ter passado, mas há dois ou três anos os escaparates das livrarias enchiam-se de tratados da pequena história. Objectos ou gestos triviais também tiveram uma origem e registaram uma evolução; a tarefa do mini-historiador de curta mas diligente erudição era a de catar, no turbilhão da história humana, as referências, por muito ocasionais e ligeiras que fossem, ao objecto de que se ocupava. Tivemos assim, ou poderíamos ter tido, a História do beijo, a História do pastel de nata e os Gatos que fizeram história. Imperdoavelmente, parece que ainda ninguém se ocupou da História da sanduíche. Foi também para remediar essa lacuna que visitei o lugar onde tudo terá começado: a vila de Sandwich, que fica na costa sudeste de Inglaterra, no condado de Kent, a hora e meia de comboio de Londres.

Há coisas tão inatas à condição humana que parece descabido procurar saber quem as inventou. Exemplos óbvios são a bofetada, o calçado e, claro está, a sanduíche. A ideia de preparar um alimento com duas fatias de pão e qualquer coisa no meio deve ser tão antiga como o pão. Ainda assim, John Montagu (1718-1792), quarto conde de Sandwich, adepto avant la lettre da fast food, deu provas de tamanha predilecção por essa iguaria que acabou por lhe emprestar o nome. E, hoje em dia, há mesmo quem julgue — gente com fraca noção de como evoluiu a humanidade — que foi ele o inventor da sandes. Faz falta um livro sério e fundamentado que ponha os pontos nos is.

A visita a Sandwich foi a primeira etapa da pesquisa. De facto, uma breve vistoria aos estabelecimentos locais de comes e bebes — não mais que meia-dúzia, entre pubs e salões de chá — revelou que todos eles incluem a especialidade local (a sanduíche) na ementa. Isso é sem dúvida denunciador de uma conexão histórica, ainda que idêntico fenómeno se observe em todas as cidades e vilas inglesas. E mostra como os indígenas, com uma capacidade de encaixe admirável, ainda toleram, decorridos dois séculos e meio, a graçola de alguém pedir uma sanduíche em Sandwich. Talvez ela não seja má para o negócio.

Rio Stour & Sandwich Bay


Ao contrário da sanduíche que me serviu de almoço, a informação recolhida in loco é de digestão demorada. Por isso deixo em suspenso a questão da génese da sanduíche e falo um pouco da vila. Sandwich é atravessada pelo rio Stour, que vemos em cima acompanhado por uma galeria de salgueiros e de choupos-brancos. Foi um porto importante em tempos medievais, mas nos últimos séculos, num movimento inverso ao que se deu no nordeste de Inglaterra, a linha da costa recuou várias centenas de metros. A vila está hoje muito distante da foz do Stour, que executa várias curvas caprichosas antes de se lançar no mar.

Junto à costa, em Sandwich Bay, estendem-se vastos campos de golfe e uma zona residencial de acesso restrito. Quem não for morador só pode passar de automóvel se pagar uma portagem de seis libras. Se se deslocar a pé ou de bicicleta não paga nada, mas também não encontra, junto à praia (que é de seixos e não de areia), qualquer estabelecimento aberto ao público. A rejeição do turismo de qualquer tipo não poderia ser mais óbvia: trata-se de um enclave de privilegiados, e os visitantes não são bem-vindos.

Talvez por isso mesmo, Sandwich Bay guarda, nas margens dos campos de golfe e ao longo da estrada costeira, várias espécies de flora, incluindo orquídeas, que vão rareando no resto da Grã-Bretanha. A primeira semana de Maio não era ainda a altura para observar a maioria dessas preciosidades, mas valeu a pena ver como o mar não se enrolava na areia à margem da estrada deserta.

22/05/2010

Abutres do Rei

Limodorum abortivum (L.) Sw.

Há pessoas que representam numa ordenação assaz estranha as épocas ao longo das quais vai progredindo a formação de uma nação. Imaginam que inicialmente um povo se encontraria reduzido a um estado de animalidade rude e selvagem; que, passado algum tempo, os homens teriam experimentado a falta de uma melhoria no plano moral, tendo portanto de estabelecer a ciência da virtude; que, para introduzir os respectivos ensinamentos, teriam pensado em torná-los sensíveis por intermédio de belos exemplos, e que desta maneira teria sido inventada a Estética; que, daí em diante, com o auxílio das prescrições da Estética, se teriam produzido símbolos dotados de beleza, e que por essa via se teria chegado à origem da arte; e que, por meio da arte, esse povo seria finalmente conduzido ao grau mais elevado da cultura humana. Tais pessoas deviam ficar a saber que, pelo menos com os Gregos e os Romanos, tudo se passou na ordem exactamente inversa. Esses povos começaram com a sua época heróica, que indubitavelmente foi a mais elevada a que alguém poderá alcandorar-se; quando deixaram de dispor de heróis no plano das virtudes humanas e civis, passaram a criá-los em formas poéticas; quando já não conseguiam criá-los sob essas formas espontâneas, inventaram as regras para o fazer; quando se enredaram em tais regras, criaram, por abstracção, a sabedoria universal; e, quando chegaram ao fim, tinham-se tornado maus.

Henrich von Kleist, Sobre o Teatro de Marionetas e Outros Escritos (trad. José Miranda Justo, Antígona, 2009)

21/05/2010

Benigna dos bosques

Geum sylvaticum Pourr.
As orquídeas servem de chamariz, mas acabamos sempre por juntar outras plantas ao nosso cabaz de fotos. Se percorremos os carvalhais de Sicó de pescoço curvado, é porque vasculhamos o solo em busca de orquídeas. Mas depois outras florzinhas clamam por atenção e quase esquecemos aquelas que primeiro nos chamaram. É como ir a um rodízio (coisa que, ressalve-se, não temos o hábito de fazer) e atafulhar a pança com salsichas e rissóis; quando chegam a picanha e outras carnes de primeira, já não sobra apetite para mais.

Comparação um tudo-nada infeliz, por dois motivos: não há plantas de primeira ou de segunda; e o nosso apetite botânico nunca está saciado. Até porque cada plantinha em flor, por muito exuberante que pareça, pode estar a despedir-se: quando, semanas depois, regressamos ao mesmo local, já ela se remeteu ao anonimato. Mais só para o ano. Agora são outras as flores no escaparate.

Também a benigna-dos-bosques (nome acabado de inventar para a Geum sylvatica) encerrou já uma temporada que, pelo menos no centro do país, teve o seu momento alto em Abril. Planta penugenta, com folhas engelhadas em roseta basal e flores de 2 cm de diâmetro, é típica de lugares húmidos e de bosques umbrosos. É uma das três espécies do seu género espontâneas no nosso país; as outras são a G. hispidum e a G. urbanum. E a essas devemos acrescentar aquelas de maior requinte, como a Geum chiloense, que têm poiso nos jardins de onde as flores não foram ainda escorraçadas.

20/05/2010

Orquídea sulfurosa

Dactylorhiza sulphurea (Link) Franco

Há uns anos, numa feira de minerais que se realiza anualmente na Universidade do Porto, comprámos um cristal de enxofre. A pedra é de um amarelo pálido como o desta orquídea, e não tem o odor desagradável característico de alguns compostos de enxofre — tão acre que o inferno se apropriou dele. Por cá, o enxofre também tem utilidade, sobretudo depois que Charles Goodyear (1800-1860) notou que, se a borracha (na altura retirada da Hevea brasiliensis) for cozinhada com enxofre, ela adquire maior durabilidade e resistência, e permanece elástica sob temperaturas mais extremas.

Este elemento químico é abundante em minerais, lavas e fumarolas vulcânicas

[neste momento, um dos leitores lamenta irritado a vulcanização do espaço aéreo]

formando com frequência moléculas em forma de anel. Contudo, é só na literatura — pelo menos em The Brimstone Wedding, de Barbara Vine — que se fala de bodas de enxofre, comemoração dos 13 anos de matrimónio.

[neste momento, ouvem-se vivas de muitos leitores ébrios]

As bodas oficiais, de nomes solenes ou perolados, festejam apenas períodos de casamento múltiplos de cinco. Mas esta orquídea é muito rara, restringindo-se a prados ensombrados, soutos e carvalhais antigos, que também escasseiam; por isso, desrespeitaremos a tradição e se, daqui a um ano, a reencontrarmos, saudá-la-emos com umas bodas de rocio.

19/05/2010

Verónica em duas versões

Veronica chamaedrys L.

Veronica cymbalaria Bodard
As verónicas, que têm nome de santa, estão no centro de uma guerra. Há quem considere que a terra cultivada só deve produzir aquilo que o homem semeia. Flores fora do jardim caem na categoria das ervas daninhas e devem ser erradicadas a todo o custo, quer pelo arranque, quer pelo encharcamento do solo com herbicidas. A terra fértil deve estar ao nosso exclusivo serviço, nem que para isso seja necessário impregná-la de venenos.

Mas as verónicas resistem. Se as expulsam do campo em pousio — onde, ao menor descuido, estendem um vasto tapete azul —, elas encontram refúgio na valeta. Se, em nome de um conceito paranóico de higiene pública, vêm roçar a berma da estrada, já elas fugiram monte acima. Sempre em fuga, sobrevivendo sempre. Está na altura de suspendermos a campanha, por ser inútil e perniciosa, e olharmos com atenção estas florzinhas guerreiras. Coisa que, vem a propósito dizê-lo, devemos fazer em manhã soalheira, pois elas têm o hábito de encerrar o dia de trabalho logo após o almoço.

A Veronica mais comum em terrenos cultivados, pelo menos no noroeste do país, é a V. persica, que foi importada do sudoeste asiático. As duas que partilham hoje a montra, menos fáceis de encontrar, são nativas do território português e de boa parte da Europa, com a V. cymbalaria ficando-se pelo sul do continente e a V. chamaedrys fazendo o pleno da U.E. e dos países adjacentes. São plantas pequeninas: as flores da V. chamaedrys não ultrapassam os 12 mm de diâmetro, as da V. cymbalaria são ainda menores. Como preferem habitats distintos — prados e bosques para a primeira, terrenos pedregosos e fendas de rochas para a segunda —, a probabilidade de alguma vez se encontrarem na natureza é reduzida. Mas é também para promover tais improváveis tête-à-têtes que este blogue existe.

18/05/2010

Goivinho fugitivo

Malcolmia ramosissima (Desf.) Thell.
Pensei que fosse o meu o teu cansaço –
Que seria entre nós um longo abraço
O tédio que, tão esbelta, te curvava...

E fugiste... Que importa? Se deixaste
A lembrança violeta que animaste
Onde a minha saudade a Cor se trava?...


Mário de Sá Carneiro, Indícios de Oiro (1915)


A designação do género Malcolmia homenageia uma família de viveiristas de Kennington e Stockwell (perto de Londres), cujo patriarca, William Malcolm (f. 1820), publicou em 1778 um catálogo afamado de plantas de estufa. Neste género, as flores não têm estilete, o estigma tem dois lóbulos unidos e o fruto é estreito e venado, por vezes constringido entre as sementes, como na espécie ramosissima. Esta planta pequenina, de vida breve nos areais à beira-mar, portugueses e mediterrânicos, tem ramagem farta, recamada, entre Março e Julho, por flores de não mais que 1 cm de diâmetro e atraente cor violeta. É polinizada por borboletas, que vêem um espectro de cores mais rico que o nosso — incluindo o ultravioleta —, reconhecendo matizes e sinais no centro das pétalas onde nós vemos apenas o branco.

A descoberta, a partir do carvão fóssil, do corante sintético violeta transformou, em 1856, o químico William Henry Perkins num industrial rico. Quando propôs aos seus alunos do Royal College of Chemistry (em Londres) a produção de uma alternativa sintética ao quinino (o remédio para a malária, originalmente retirado da casca de árvores sul-americanas do género Cinchona), reparou num resíduo cor de malva que, por ser bonito, sobreviveu à lavagem das retortas. Sendo a última cor do arco-íris — o limite da visão para os nossos olhos —, enriqueceram-na de significados. É uma montra da alma: evoca santidade, pureza, dor, poder, paixão e luxúria. Do mesmo pote nasceram vários azuis, a quimioterapia e algumas das mais poderosas empresas farmacêuticas mundiais.

17/05/2010

Cães & companhia

Lobaria scrobiculata (Scop.) DC. (1.ª foto)
Peltigera membranacea (Ach.) Nyl. (2.ª e 3.ª fotos)


Já antes explicámos que um líquen é uma associação simbiótica de dois organismos, uma alga e um fungo. Mas ficou por exemplificar a extraordinária diversidade desses seres. O líquen-das-renas, que ilustrou essa prosa, quase consegue fazer passar-se por uma planta normal, dotada de caule e com uma ramificação bem definida. Nas fotos acima, que foram obtidas na Mata da Margaraça e mostram duas espécies ocupando habitats semelhantes, temos dois exemplos de líquenes foliformes. Tais líquenes têm a aparência de uma membrana que, à laia de papel de parede mais ou menos descascadiço, vai cobrindo superfícies diversas: troncos de velhas árvores, rochas, muros rústicos.

Joana Marques (que identificou o primeiro líquen, embora a foto não lhe permita ter absoluta certeza) escreve que «a Lobaria scrobiculata é uma epífita de troncos de carvalhos, castanheiros e oliveiras, e, porque bastante sensível, um dos indicadores de estabilidade dos bosques. Pode também colonizar muros nas proximidades de bons carvalhais. A cor azulada é característica quando o talo está húmido, sendo verde água quando seco, e vêem-se umas estruturas chamadas sorálios, de cor cinzenta, que são propágulos vegetativos.»

A Peltigera membranacea, ou líquen-dos-cães (dog lichen em inglês), gosta de rochas húmidas, onde cresce na companhia de uma profusão de musgos. Exibe uma variação cromática acentuada: castanho quando ainda fresco, torna-se de um cinzento azulado ao secar. Os rolos alaranjados que se observam numa das fotos contêm os esporos que se vão encarregar da propagação da espécie. A designação dog lichen vem-lhe dos «dentes» aguçados (ou rizinas) que sobressaem da parte inferior, branca e de textura esponjosa. Pelo mesmo motivo, uma sua congénere chama-se Peltigera canina e já houve quem recomendasse estes líquenes — supõe-se que com eficácia nula — como remédio contra a raiva: depois de secas e pulverizadas, as «folhas» eram misturadas em leite ainda morno da vaca; durante quatro dias consecutivos, os pacientes deveriam tomar em jejum, logo pela manhã, a beberragem resultante, que tinha acentuado sabor a mofo.

Como entretenimento visual, fica o convite para folhearem estas duas páginas com fotos de centenas de espécies de líquenes.

P.S. Agradecemos a Joana Marques as importantes correcções que fez à primeira versão deste texto.

15/05/2010

Farolando à beira-mar

Armeria welwitschii Boiss.
Friedrich Martin Josef Welwitsch (1806-1872), botânico austríaco, estudou a flora portuguesa entre 1839 e 1853, e depois a de Angola, até 1860. Esta arméria, que o celebra, é um endemismo lusitano nativo das rochas e dunas do litoral centro do país. Ela sabe que esta moradia é instável, com o vento sempre a rondar-lhe a porta, demasiado perto do areal onde o mar se lava do sal, obrigando-a a uma dieta repreensível. Por isso soube adaptar-se. Talvez um híbrido de A. pungens e A. berlengensis, sobrevive com uma rega frugal, não é exigente em nutrientes e resiste à acção abrasiva do vento dispondo a folhagem, acaule e estreita, num tufo denso; além disso, lança a haste floral na época mais favorável (Março a Julho), optando por uma inflorescência globular compacta, brácteas protectoras longas, e pétalas que parecem de papel — leveza e textura que lhes garantem durabilidade e um porte favorável à polinização.

Além do mar que vai roendo a costa, é um diabo sul-africano, o suculento chorão-das-praias (Carpobrotus edulis), a mais grave ameaça à erva-divina. De caules que se enraízam nos nodos, o chorão foi em tempos encorajado para fixar dunas; cobra-nos agora um alto preço por esse serviço. Não havendo controle, ocupará as arribas e areias oficiosamente protegidas por pertencerem à Rede Natura, ou sob a alçada da Convenção de Berna, mas de facto perigosamente à mercê das exóticas astutas. Será que a senhora ministra vai à praia no Verão?

14/05/2010

Garça malvada

Erodium malacoides (L.) L'Hér.
Geranium e Erodium são dois géneros que facilmente se confundem, distinguindo-se sobretudo pelo número de estames em cada flor: 10 para o primeiro, 5 para o segundo. Têm o mérito de fornecer, ao longo de quase todo o ano, boa parte das flores silvestres que vemos não só em espaços naturais como nos vazios que o descuido e o abandono vão criando nas cidades. Está bom de ver que esse desmazelo é do nosso agrado: um terreno forrado com gerânios e outros ervas atrevidas é bem mais interessante e vivo do que um relvado. Para completar o contingente da família Geraniaceae em território nacional, há ainda as sardinheiras (género Pelargonium) trazidas da África do Sul para enfeitar as nossas varandas. Graças aos seus frutos alongados, que evocam aves de bico comprido, os nomes vernáculos em inglês destas plantas são heron's bill para o Erodium, crane's bill para o Geranium, e stork's bill para o Pelargonium. São aliás os nomes gregos desses mesmos bichos que fornecem os nomes científicos. Em português, reservamos o bico-de-cegonha para o Erodium, mas seria mais apropriado falar em bico-de-garça.

Ao contrário de outros bicos-de-garça mais comuns, que têm folhas compostas pinadas, o Erodium malacoides exibe folhas simples e cordiformes, de margens grosseiramente serradas. A semelhança das suas folhas com as das malvas é que justificará o epíteto malacoides. Outro carácter distintivo da garça-malvada é a longa e penugenta haste floral, com as flores de cerca de 1,5 cm de diâmetro agrupadas em umbelas de três a oito. Florescendo de Fevereiro a Junho, é uma planta anual ou bienal do sul da Europa e de toda a região mediterrânica, que se dá em bermas de estrada e terrenos baldios.

13/05/2010

Cruzes e credos



.....É contado por Píndaro a este propósito que chegando Alexandre — o Grande — à cidade do filósofo pediu que o levassem até ele pois dele conhecia as ideias e admirava-as. Com a sua imponente comitiva (como lembra Maquiavel: o poder naqueles tempos avaliava-se pela poeira levantada pelos acompanhantes de um homem), Alexandre, o Grande, deparou com Diógenes sentado no chão, exercendo, absorto, a sua preguiça. Depois de uma pausa solene, e saindo do meio dos seus subservientes acompanhantes, Alexandre dirigiu-se a Diógenes e proclamou:
.....— Estás perante o grande Alexandre; o que lhe tens a dizer?
.....Diógenes, o filósofo, olhou para Alexandre, o Grande, e respondeu:
.....— Não se importa de se desviar um pouco. É que me está a tapar o sol.
.....
(...)

.....Descia Mercatore umas pequenas escadas quando deparou com o filósofo, pobremente vestido, sentado no chão, costas contra a parede, a comer lentilhas.
.....Arrogante, mais do que era seu costume, cheio de vaidade pela riqueza que ostentava e pelo estômago farto, Mercatore disse, para Diógenes:
.....— Se tivesses aprendido a bajular o rei, não precisavas de comer lentilhas.
.....E riu-se depois, troçando da pobreza evidenciada por Diógenes. O filósofo, no entanto, olhou-o ainda com maior arrogância e altivez. Já tivera à sua frente Alexandre, o Grande, quem era este, agora? Um simples homem rico?
.....Diógenes respondeu. À letra:
.....— E tu — disse o filósofo — se tivesses aprendido a comer lentilhas, não precisavas de bajular o rei.

.....Gonçalo M. Tavares, Histórias Falsas (Campo das Letras, 2005)

12/05/2010

Leite de galinha

Ornithogalum pyrenaicum L.
Já é a segunda vez em poucos dias que aqui falamos de leite, mas não há perigo de o blogue se dedicar ao nutricionismo. Até porque, vendo bem, pode nem haver leite, mas apenas uma menção a despropósito que não encerra qualquer lição útil. Da primeira vez, apontámos às mães que uma certa ervita poderia estimular a lactação, ou pelo menos em tempos houve quem acreditasse nisso. Agora, puxando da erudição instantânea de quem acaba de consultar um dicionário, informamos que Ornithogalum (vem do grego, ao que parece) significa leite de ave — ou, para não ficarmos por uma ave abstracta, leite de galinha, nome que é dado em português a algumas espécies do género.

Mesmo o leitor com as mais rudimentares noções de zoologia saberá que as aves em geral, e as galinhas em particular, não dão leite nem amamentam as suas crias. Há o ornitorrinco, que não é ave embora pareça, mas os gregos, que desconheciam a sua existência, chamavam leite de ave a algo que fosse incrível. O nome Ornithogalum referir-se-ia assim à beleza improvável de algumas das flores do género. Outros defendem, mais prosaicamente, que o absurdo nome se deve tão só à brancura das flores.

Acontece que o Ornithogalum pyrenaicum não dá flores brancas nem especialmente chamativas, e por isso ilustra mal toda esta conversa. As flores, em espigas altas (até um metro) e desprovidas de folhas, são esverdeadas ou de um amarelo pálido, e surgem de Maio a Julho. É uma planta que ocorre em prados e bosques de boa parte da Europa, do Mediterrâneo a alguns países do Norte. Em Portugal, onde praticamente só não existe no Alto Alentejo, é menos comum do que deveria ser. O exemplar da foto vegetava, solitário, no Parque das Termas, em Vizela, muito perto do poluidíssimo rio com o mesmo nome.

11/05/2010

Seiva emprestada

Parentucellia latifolia (L.) Caruel
A designação semi-parasita suscita dúvidas como as que, na justiça, levam a absolver o corrupto pela imperícia. Sendo certo que não se é parasita por inteiro apenas se a oportunidade faltar, esta herbácea pequenina — não ultrapassa os 30 cm de altura — prefere ser comedida, roubar como quem toma emprestado, contando que, com o tempo, a vizinha se esqueça do que cedeu. É natural do sul da Europa, gosta de relvados e beira-mar e, sendo anual, encolhe os ombros ao que nos amofina. A floração decorre agora, simultânea com a da P. viscosa; as flores púrpura (ou brancas na subspécie albiflora) têm cerca de 1 cm e um cálice tubular claro encimado por dois apêndices amarelos; a inflorescência é um racimo de flores no topo do caule.

Parentucellia homenageia Tommaso Parentucelli (1397-1455), o papa Nicolau V. A história lembra-o como humanista culto, cumprindo a tradição da igreja como mecenas de artistas e solidária com as necessidades básicas da população; congratula-se com a criação da biblioteca do Vaticano e com o seu empenho na recuperação dos jardins da cidade-estado; mas não esquece a bula Dum Diversas que, em nome das cruzadas missionárias, e louvando o arrojo português nos mares, conferiu a D. Afonso V o direito de atacar e converter à força sarracenos e pagãos, e sancionou a escravatura dos infiéis.

10/05/2010

Estrela de Belém

Ornithogalum umbellatum L.
Título muito natalício este e muito fora de época, mas a planta foi assim baptizada. Quando chega o fim do ano já ela está em hibernação há muito, por isso esta é boa altura para lhe prestarmos atenção.

Umas seis das oitenta espécies de Ornithogalum são espontâneas em Portugal. Esta parece não o ser, embora, curiosamente, apareça em Espanha mesmo junto à fronteira nordeste portuguesa. Talvez o Douro internacional seja barreira intransponível, e não haja vento capaz de empurrar as sementes para o lado de cá. Ainda assim é estranho, pois o Ornithogalum umbellatum é conhecido por não respeitar sequer os limites dos continentes, ocorrendo em toda a Europa, e ainda no Médio Oriente e no Norte de África.

Como todas as plantas da sua família, a estrela-de-Belém é uma planta bolbosa. Isso significa que passa boa parte da sua vida enterrada, reduzida a uma «cebolinha», reaparecendo todos os anos como se fosse uma planta nova. Surgem primeiro as folhas — lineares, sulcadas, marcadas longitudinalmente por um veio prateado — que começam a secar, já a Primavera vai adiantada, quando são hasteados os cachos floridos. As flores são brancas, com bandas verdes no verso das pétalas, e os seis estames brancos, encimados por anteras amarelas, apresentam a forma triangular que é característica do género Ornithogalum.

08/05/2010

Distância de segurança

Dulverton — condado de Somerset, Inglaterra
......Houve uma tempestade, desvairou uma fúria de ventos para os lados de Grodemil, arrepiou e levantou as águas da Lagoa Moura, zurziu a floresta e obrigou um pinheiro a largar uma rija penada sobre o telhado da velha-vivenda-de-passar-férias-e-trocar-de-aborrecimentos.
......Nessa ocasião, ainda não se encontrava em vigor a norma legal que obriga os proprietários a eliminar a vegetação cinquenta metros em redor das casas e que vai necessariamente provocar uma absoluta desertificação do país a norte do Guadiana.
......Na verdade, o nosso legislador é abstracto e geral, tão abstracto e geral que se desinteressa do que sejam dez metros, dezassete metros, quanto mais cinquenta metros. Deve ter considerado desprimoroso dar-se ao trabalho de comprar uma fita métrica dessas extensíveis que há no mercado e medir a distância no terreno. (...)

......Esta repugnância comichosa do legislador pelos números não é novidade. Em 1974 considerou que o direito de manifestação podia ser impedido a menos de cem metros de determinados edifícios o que tornaria praticamente impossíveis os protestos colectivos em qualquer município, a começar por Lisboa. (...) Imagino um governante a chegar a casa, a dizer ao mordomo (publicamente apresentado como «um primo da província, coitado, que vive cá em casa»): «Andrade, passe-me aí um uísque velho com soda que tenho de comemorar uma coisa.» E para a mulher, que acorria em roupão: «Imagine, Maria de Santa Clara, que conseguimos regulamentar o direito de manifestação, à semelhança do mundo civilizado. Não me felicita?» E, depois, «Olhe, o que é exactamente um metro?»
......Mas essas épocas alucinadas passaram e não custaria a um ministro arranjar um rolo de fio (para isso é que há contínuos) e desenrolá-lo no jardim da mansão de São Bento, a partir dos degraus, até parar no primeiro muro. Aplicando-lhe depois uma fita métrica, e medindo o fio, segmento a segmento, descobriria, após um olhar cauteloso em volta: «É pá, isto ia tudo raso e nem chegámos ao muro.»

......Mário de Carvalho, A arte de morrer longe (Editorial Caminho, 2010)

07/05/2010

Deste leite não beberei

Polygala vulgaris L.
Para não nos acusarem de só ligarmos às plantas raras, aqui fica, depois de termos apresentado um endemismo ibérico, uma Polygala que ocorre em toda a Europa. Ou, para sermos rigorosos, em quase toda a Europa: a excepção é a Islândia, ilha inóspita onde praticamente só há vulcões. (Há umas semanas toda a gente começou a dissertar sobre a vulcanologia no Atlântico Norte. Nós teríamos feito o mesmo se não nos constrangesse o estreito âmbito temático do blogue.)

A Polygala vulgaris ocupa habitats variados (prados, terrenos incultos, matagais, bosques) de norte a sul do continente português, estando apenas ausente do interior alentejano e algarvio. É uma planta de base lenhosa, geralmente prostrada mas por vezes erecta, que floresce de Março a Julho. As flores, cor-de-rosa ou azuis e dispostas em espiga, são diminutas, de 6 a 8 mm de comprimento, exibem duas sépalas laterais em forma de asa, e têm o lábio inferior da corola rematado por uma franja.

Polygala, palavra de raiz grega, significa muito leite, e essa mesma secreção reaparece nos diversos nomes vernáculos da planta: erva-leiteira em português, milkwort em inglês, laitier ou herbe au lait em francês. Não que a planta em si forneça leite, mas considerava-se na antiguidade que as mães a quem a planta fosse administrada dariam mais e melhor leite.

06/05/2010

O nosso edelweiss

Evax pygmaea subsp. ramosissima (Mariz) R. Fernandes & Nogueira
O edelweiss (Leontopodium alpinum Cass.), famosa alegoria dos Alpes, é uma herbácea vivaz, monóica, de porte erecto (até cerca de 20 cm), nativa das montanhas da Europa Central, onde é espécie protegida e de colheita interdita. As inflorescências são invólucros estrelados com 5 a 10 capítulos de dezenas de florículos (os masculinos tubulares e amarelos, os femininos esverdeados e ligulados), cada um não excedendo os 3 mm de diâmetro. Um livro de flores, digamos, em que a capa é feita de brácteas desiguais cobertas de densa penugem branca.

Foi a parecença com esta estrutura floral que nos atraiu para a planta das fotos, que encontrámos nas areias do Pinhal de Leiria e revimos no litoral de Gaia. É certo que é menos peludinha que a anterior porque mora à beira do mar português ou do Mediterrâneo e aí não precisa de agasalho como nos Alpes. Além disso, a evace-anã é anual e não se eleva além dos 4 cm, optando por lançar raminhos que tecem um tapete compacto (é, por isso, ramosissima). As folhas superiores formam uma roseta, as outras, menores, são caulinares e alternas; e, na época da floração, o conjunto de folhas mal se vê abrigado que fica à sombra da inflorescência.

05/05/2010

Olhos castanhos

Tuberaria guttata (L.) Fourr. [= Xolantha guttata (L.) Rafin.]
Não são só as pupilas castanhas, abertas de espanto, que a singularizam. Também o seu breve ciclo de vida, completado em poucos meses, a destaca no seio de uma família (Cistaceae, que inclui as estevas e os sargaços) quase toda ela formada por arbustos perenes. Mas destaca é força de expressão, pois quem passa desatento pelos muitos lugares onde ela vegeta pode nem reparar na sua existência — efeito conjugado da pequenez da planta e da pose empertigada de quem nunca fixa o olhar nas coisas rasteiras.

Aqui vão, porém, os dados identitários da tuberária-mosqueada. Começa por formar, em Março ou Abril, uma roseta basal que só os entendidos saberão identificar. Depois, e até Julho, coroando uma haste peluda e esguia que se fica pelos 20 ou 30 cm de altura, surgem as numerosas e pequeninas flores amarelas. As manchas castanhas na base das pétalas não exibem sempre a mesma configuração: podem formar anéis como na planta das fotos, ou reduzir-se a pintas de forma e tamanho variáveis. Uma vez produzidos os frutos e disseminadas as sementes, a planta desaparece; uma nova geração retomará o ciclo no ano seguinte.

Além de presente em Portugal, a T. guttata surge na generalidade dos países da bacia mediterrânica e ainda na Bélgica, Holanda, Grã-Bretanha e Irlanda.

04/05/2010

À solta em Coimbra

Epipactis tremolsii subsp. lusitanica (Tyteca) Kreutz


Aqui está uma das orquídeas que, sendo generosa no néctar que serve aos seus polinizadores, lhe junta uns pós de fermento, alcoolizando-o. As abelhas ébrias, embora esfreguem atordoadas a cabeça, não conseguem remover os saquinhos de pólen e, viciadas, não abandonam de imediato a colónia de orquídeas, persistindo nas visitas às flores — o que naturalmente aumenta a taxa de sucesso da polinização.

O género Epipactis é essencialmente euro-asiático, mais frequente em bosques de zonas temperadas porque estas plantas beneficiam da cooperação com fungos parceiros de árvores, mesmo quando já adultas. Há registo de 59 espécies europeias, uma americana (E. gigantea Douglas ex Hooker) e uma africana (E. africana Rendle), com diferenças marcadas conforme o habitat. Estas têm-se acentuado pelo frequente recurso à auto-polinização, que pode acontecer mesmo antes da flor desabotoar. É morfologicamente próximo do género Cephalantera, e crê-se que há dois híbridos entre ambos.

Pudemos fotografar estes pés porque um leitor gentil nos informou da sua presença num bosquete privado em Coimbra. Nas fotos das flores em detalhe distinguem-se as três sépalas e duas pétalas; o chapéu amarelo das anteras com dois sacos de pólen de lado e uma bolinha branca de visco onde a cabecinha do insecto deve roçar antes de receber o pólen; o estigma, que é a gelatina esbranquiçada na frente da flor (numa das fotos está lá uma formiga aprisionada), pegajosa quando receptiva e que muda para a cor castanha quando completada a polinização; e o pecíolo que liga a flor à haste cuja parte mais larga contém o ovário. O néctar está na taça escura.

Segundo Anne e Simon Harrap (em Orchids of Britain & Ireland, A&C Black, 2009), a designação Epipactis remonta a Theophrastus (c. 370-285 a.C.), que a utilizou numa planta (do género Veratrum) que ajuda a coalhar o leite. A semelhança das inflorescências e, sobretudo, das folhas venadas com as destas orquídeas levou o botânico alemão Johann Zinn a adoptar o mesmo nome. O epíteto específico homenageia Federico Tremols i Borrell (1831-1900), farmacêutico e botânico catalão que organizou um vasto herbário da flora catalã e publicou, em 1881, um estudo sobre estirpes americanas de videira resistentes à filoxera que poderiam ajudar no repovoamento dos vinhedos ibéricos dizimados pela doença.

A orquídea das fotos parece-nos ser a Epipactis tremolsii subsp. lusitanica, que já se chamou E. lusitanica. A forma típica da espécie (E. tremolsii sem mais) é muito semelhante a esta e tem em Portugal quase a mesma distribuição — a qual, embora esparsa, vai de Trás-os-Montes ao Algarve. A ex-E. lusitanica, contudo, tem as folhas menos ovadas e menos concentradas na base do caule, e o cacho de flores é menos denso.

Esperamos encontrar, até ao Verão, na mata da Margaraça, a Epipactis fageticola e, quem sabe, ver um dia a Epipactis palustris, que tem das flores mais atraentes do género.

03/05/2010

Dobram os sinos de Hispânia

Hyacinthoides hispanica (Mill.) Rothm.
Os bluebells na Grã-Bretanha vivem ameaçados pela invasão dos bárbaros do sul. Já houve um tempo em que a Civilização morava no sul e os que se empenhavam em derrubá-la vinham do norte, mas desceram as trevas medievais e quando elas se dissiparam tudo tinha mudado. Com excepção das plantas e de quem com elas lida, já ninguém fala latim, nem sequer os padres na missa. O sul é sol e praia, défice no PIB e alegre irresponsabilidade. E quando os de cá se mudam para norte só provocam sarilhos, como se vê pelos sinos hispânicos.

Um pouco de latim ajuda a explicar o caso. Há quatro espécies no género Hyacinthoides: uma delas, H. vicentina, é exclusiva do litoral sudoeste português; duas outras, H. non-scripta e H. hispanica, têm uma distribuição mais ampla. Acontece que na ilha de Sua Majestade só o H. non-scripta é de ocorrência espontânea, e os britânicos gostam tanto dele que a flor é quase um símbolo nacional. Talvez prefiram ignorar, para manter a ilusão de exclusividade afectiva, que os mesmos bluebells são também nativos do continente europeu e até mesmo da Península Ibérica. Por mão humana, os temíveis Spanish bluebells (H. hispanica, de Espanha, Portugal e talvez Norte de África) migraram para a Grã-Bretanha e têm-se misturado com os genuínos e nórdicos bluebells, a ponto de em muitos lugares ser já difícil encontrar populações não miscigenadas.

Este é o resumo da história em traços largos e maniqueísticas, com bons e maus claramente identificados. Há porém um detalhe que perturba a limpidez do relato. O que se vende como Spanish bluebells em hortos britânicos é um híbrido entre as duas espécies. O H. hispanica «puro» praticamente não se encontra na Grã-Bretanha, e é esse híbrido hortícola — quem sabe se produzido originariamente por quem agora se queixa dele — que tem feitos estragos nas populações nativas de H. non-scripta.

Acrescente-se que o jacinto-dos-campos (nome que por cá damos ao H. hispanica) é das flores mais comuns de norte a sul do país, sem que a abundância lhe prejudique a beleza. Faz dobrar os sinos em azul de Março a Junho, anunciando a Primavera e alegrando-nos a caminho do Verão.

01/05/2010

Conversation with Francis Bacon

Olho d'água do rio Nabão — Ansião
— When do you work?

— In the morning, with the light. In the afternoon I go to bars or gambling halls. Sometimes I see friends. In order to work I must be absolutely alone. No one else can be in the house. My instinct cannot work with other people present — and it's worse when they're people you love. It can work only in freedom.

Marguerite Duras, Outside (Beacon Press, 1986)