18/06/2010

Erva de pintar taludes

Oenothera biennis L.

Oenothera glazioviana Micheli in Mart.
aqui explicámos como as auto-estradas podem ser profícuo campo de estudo para quem se interesse por botânica, mas a lição ficaria incompleta se não mostrássemos uma das plantas mais frequentes nas bermas e taludes das modernas grandes vias. O que acontece é que o esforço ultra-higienista de limpar tal vegetação tem apenas como resultado substituir umas plantas por outras. As plantas indígenas ecologicamente mais interessantes cedem lugar às plantas ruderais, mais capazes de sobreviver aos sobressaltos das limpezas periódicas. Muitas delas foram introduzidas como ornamentais e, tendo-se naturalizado no nosso território, chegam mesmo a comportar-se como invasoras, prejudicando seriamente a vegetação nativa.

Por esta altura é vulgar observarem-se grandes extensões de talude pintadas de amarelo. Não o amarelo vivo dos malmequeres rasteiros, mas o amarelo mais pálido de umas grandes flores que parecem lenços amarrotados pendurados em cabides. Quem fornece tal entretenimento visual são plantas norte-americanas do género Oenothera. Foram muito estimadas na jardinagem europeia antes de resolverem encarregar-se elas mesmas da sua propagação. Aliás, à mesma família Onagraceae pertencem os apreciadíssimos e também americanos brincos-de-princesa.

As flores de Oenothera têm o hábito de só abrir pelo fim da tarde, e daí esse ar desgrenhado, quase pesaroso, que costumam apresentar. O nome que se lhes dá em inglês é evening primrose, traduzido aproximadamente por prímula-da-tarde. As duas espécies que exibimos atingem porte muito respeitável — cerca de metro e meio de altura — e estão amplamente disseminadas em Portugal. A Oenothera glazioviana é talvez a mais comum das duas, e distingue-se pelas flores maiores (8 cm de diâmetro contra 5) e, sobretudo, pelos cálices vermelhos (os da Oenothera biennis são verdes).

Outro pormenor em que se diferenciam é a origem. A O. biennis é nativa da metade leste dos EUA, enquanto que a O. glazioviana não o é de parte nenhuma: terá surgido por hibridação nalgum jardim ou viveiro europeu, e supõe-se que tenha sido introduzida no comércio hortícola em meados do século XIX. Por ironia do destino, foi igualmente comercializada na América do Norte; e, qual descendente de emigrantes que por um impulso atávico se instala na pátria dos seus antepassados, acabou também lá por se naturalizar.

17/06/2010

Orquídea baunilhada

Orchis coriophora subsp. fragrans (Pollini) Sudre [= Orchis fragrans Pollini]
A baunilha é um aromatizante produzido a partir dos frutos de orquídeas tropicais perfumadas do género Vanilla. A Europa tê-la-á conhecido no século XVI, trazida pela mão espanhola que também transportou o chocolate da América Central. Como é frequente nesta família de plantas, a relação com as abelhas polinizadoras e o tipo de solo é tão estreita e exclusiva que raramente elas se adaptam a outros habitats. Por isso o cultivo em grande escala fora do México da baunilha (e do chocolate) teve de esperar por métodos eficientes de polinização manual em flores que duram um dia, ou menos. Contudo, na ausência do fungo adequado, as sementes não germinam; nestas condições, a propagação da planta faz-se vegetativamente.

As vagens são escuras quando maduras (estado que consome cerca de dez meses para se atingir) e rescendem um aroma doce e intenso. Depois de sujeitas a um processo laborioso de secagem e conservação, podem ser usadas em culinária, dando às iguarias uma cor acastanhada. É um ingrediente caro — de preço próximo do do açafrão —, e por isso quase todos os sorvetes, bolachas ou iogurtes ditos de baunilha recorrem a substitutos sintéticos.

Sem clima e solo apropriados para criar a orquídea-baunilha, apreciamos genuinamente a das fotos, espontânea em Portugal, apesar de ela ser pequenina (10-20 cm) e discreta: é pouco abundante, exige espaços soalheiros com pouca vegetação, mas agradece os mimos com um esporão cheio de néctar e perfume de baunilha. Características que levaram alguns botânicos a considerá-la como mais primitiva do que outras espécies de Orchis — afinal gentileza e afabilidade são virtudes de outros tempos. Mas não, a análise genética atribui-lhe mesmo algum avanço evolutivo dentro do género.

16/06/2010

Jacinto das uvas

Muscari neglectum Guss. ex Ten.
Eis uma planta que gosta de atrair visitantes para depois lhes barrar a entrada. É como daquelas casas de diversão nocturna onde há néons multicoloridos à porta mas se insiste numa triagem rigorosa dos frequentadores. Aqui são as flores no topo da espiga, brilhantes de um azul eléctrico, a servirem de engodo aos insectos — os quais, se não forem da medida certa, são duplamente ludibriados. Em primeiro lugar, porque essas flores tão atraentes são estéreis; em segundo, porque as verdadeiras flores — escuras, quase lutuosas — têm aberturas tão estreitas que só dão passagem aos bichos de menor calibre. Assim, em vez de serem o traje ou o apelido a franquear o acesso, é só o tamanho que é tido em conta, o que talvez seja mais democrático. Estivesse bem visível o anúncio proibida a entrada a maiores de 2 mm, e as abelhas já não gastariam o seu precioso tempo com flores tão peneirentas. Não nos querem, é? Pois que passem muito bem. Não falta por aí quem nos dê valor. E lá voam elas para longe, zumbindo de despeito.

O acesso condicionado e a presença de flores só de enfeite são imagem de marca do género Muscari, de que já antes mostrámos dois exemplos. Das trinta espécies que o constituem, espalhadas pela região mediterrânica e pelo sudoeste asiático, apenas duas (M. neglectum e M. comosum) são espontâneas em Portugal. O jacinto-das-uvas (a um olhar míope as flores do M. neglectum parecem um cacho de uvas) é mais comum no centro-oeste do país, entre Leiria e Lisboa, mas ocorre também na bacia do Douro, na costa vicentina e no Algarve. Cada planta tem até seis folhas lineares sulcadas, quase cilíndricas, dispostas em tufo, e uma única haste floral de 10 a 30 cm de altura. As flores surgem com mais abundância logo em Março, e esporadicamente até ao fim de Maio.

15/06/2010

Dia com árvore

Amelanchier ovalis Medik.


Acusados de negligenciar as árvores, dedicando dias e noites ao grande mundo das plantas pequeninas, trazemos hoje uma planta lenhosa para entremear os nossos devaneios. Vimos de corda ao pescoço porque só agora a descobrimos e ela — que é nativa de matos pouco densos à beira de água ou ladeiras rochosas de montanhas no centro e sul da Europa, região mediterrânica e norte de África — tem-se vindo a tornar rara na Península Ibérica, constando da lista madrilena de espécies da flora silvestre ameaçada, com o estatuto de vulnerável.

De longe, os curtos ramalhetes corimbiformes de flores lembram outra rosácea, a sorveira (Sorbus sp.). As flores, cujos botões levam um ano a desabrochar, têm um cálice de cinco sépalas de permeio com cinco pétalas estreitas, longas e espaçadas entre si; ao centro, nota-se uma dezena de estames. É arbusto de folha caduca, alterna, simples e oval, de margens finamente dentadas, cor-de-rosa e de face inferior pubescente quando jovem, púrpura no Outono. Os frutos são carnudos e de sabor doce (crê-se que o nome do género deriva de mel), negros e perfumados quando maduros (no fim do Verão), coroados pelo ex-cálice da flor; usam-se em compotas e bolos ou (na falta de gente que lhes dê uso) são simplesmente comidos pelos pássaros.

A planta tem reputação medicinal e a madeira é apreciada como combustível. Em inglês chamam-lhe snowy mespilus, em espanhol tratam-na por guillomo, em euskera por arangurbea; por cá não há registo de nome vernacular (no Portugal Botânico de A a Z atamancaram-lhe o postiço nome de amelanqueiro) e quando a encontrámos no Gerês não havia pastores por perto para nos elucidarem.

14/06/2010

Couve fora da panela

Crambe hispanica L.
Quando encontrarmos o primeiro restaurante que anuncie sopa de couve-bastarda na ementa, para alívio dos que já se fartaram da couve-lombarda, então acreditaremos que certos nomes de plantas, ditos populares, têm realmente origem popular. Até lá, continuaremos a achar que eles são produto da imaginação de botânicos bem intencionados, que gostariam de acreditar que o nosso povo trata as plantas com familiaridade, quando na verdade as ignora. E esse povo versado em morfologia vegetal que existe na imaginação dos cientistas é de tal modo capaz de apreciar as subtis relações entre espécies que até inventou o polissilábico nome de Betónica-da-Alemanha (subespécie-de-Portugal) para uma planta da família das labiadas.

Falávamos porém de couves. Apesar do intróito culinário, e do facto de o nome genérico Crambe ser termo grego para couve, ignoramos se a C. hispanica (a tal couve-bastarda) se pode ou não comer. Já uma sua congénere, a C. maritima (seakale em inglês), ausente da Península Ibérica mas comum nas zonas costeiras do norte da Europa, é ingrediente usual em saladas. Mas, ainda que integrem a mesma família botânica, essas plantas nada têm a ver com as honestíssimas couves, pertencentes ao género Brassica, que consumimos no dia-a-dia.

Única espécie do seu género presente em Portugal, a C. hispanica é uma planta anual com uma distribuição descontínua no nosso país: ocorre no Algarve, na Estremadura, nas Beiras e no Alto Douro. Consta que há marcada diferença entre as populações nortenhas e as meridionais: as primeiras são geralmente glabras, e as segundas, mais típicas das regiões litorais, estão cobertas de pêlo. Há mesmo quem defenda que a variante depilada constitui uma subespécie — Crambe hispanica subsp. glabrata —, mas essa autonomização não foi validada pela equipa da Flora Ibérica.

A couve-bastarda, que pode atingir 1,2 m de altura, apresenta uma ramificação esparsa, com ramos longos e delgados. As flores são brancas e pequeninas, com cerca de 7 mm de diâmetro, mas o que a planta tem de mais distintivo é o fruto esférico, de 4 ou 5 mm, assente num cilindro estreito rematado por um anel.

12/06/2010

O insecto vê-se ao espelho

Ophrys vernixia Brot.
Há duas formas desta orquídea que quase se confundem, a O. speculum Link (ou O. ciliata Bivona-Bernardi) e a da foto. Apreciam ambas solos calcários — mas a O. speculum abunda no sul da Europa e região mediterrânica, enquanto que a O. vernixia é ibérica e rara, restringindo-se ao centro de Portugal, Algarve e Andaluzia. Para fortalecer a nossa perplexidade, têm uma época de floração conjunta (Março a Maio). Mas não são gémeas, há diferenças bastantes para não errarmos a identificação. Para que as colija, compare a nossa foto com a da O. speculum que surripiámos ao Insectos a florir.

A mais significativa é a cor da penugem no labelo (azulado e envernizado, com um bordo laranja glabro, para imitar o dorso de abelha) e a das pétalas (as orelhinhas, junto aos dois pseudo-olhos) que na O. vernixia são mais claras do que na O. speculum. Além disso, na O. vernixia o labelo tem uma curvatura mais acentuada e divide-se em dois lóbulos laterais (como dois bracinhos) que são mais compridos, estreitos mas não achatados, torcidos a meio e abertos. O que não se consegue ver nas fotos, mesmo pondo-as lado a lado, é que a O. vernixia é um pouco mais alta e esguia.

As duas hibridam ocasionalmente, e há exemplares que não seguem exactamente o figurino da sua espécie; por isso a realidade nem sempre se conforma a este arrazoado. Mas em tais casos, leitor atento, não deixe de registar o evento porque é pouco frequente.

11/06/2010

Três cores em convulsão

Convolvulus tricolor L.
Esta planta já veio ataviada para fazer do jardim a sua casa de eleição. Uma tão caprichosa combinação de cores em planta não tropical costuma ser o resultado de hibridações e apuramentos sucessivos praticados por pacientes viveiristas. Mas a corriola-das-três-cores, planta mediterrânica que ocorre de Portugal até à Grécia e ainda no norte de África, já é assim vistosa de sua própria natureza. E, se ao azul-branco-amarelo das flores adicionarmos o verde das folhas e o avermelhado das hastes, são cinco as cores de que ela se veste: quase um arco-íris a rasar o chão.

Aqui vão os dados biográficos que as fotos não revelam: a Convolvulus tricolor é perene mas de vida curta; tem um hábito rastejante e não costuma ultrapassar os 60 cm de altura; cada flor (com cerca de 4 cm de diâmetro) dura um dia só, mas a floração é abundante e prolonga-se de Março a Junho; a sua distribuição em Portugal parece cingir-se a sebes, vinhas e pomares do centro e do sul.

Foi num olival a caminho da Fórnea, na Serra dos Candeeiros, que a encontrámos. Trata-se de uma exploração tradicional: as árvores vivem com a água que cai do céu e as plantas herbáceas não são inimigas a exterminar. Coisa muito diferente são os olivais de regadio para produção intensiva que se têm vindo a multiplicar no Alentejo, e que são talvez, como aqui se pode ler, a ameaça mais séria à rica biodiversidade da região.

10/06/2010

Rodou três vezes

Convolvulus fernandesii P. Silva & Teles

.....Endemismo lusitano, exclusivo da Serra da Arrábida.


Arribas do Cabo Espichel

09/06/2010

Não é para pastar

Asphodelus lusitanicus Cout.
Um dos enigmas da flora nacional é a profusão de abróteas (género Asphodelus) em terrenos mais ou menos montanhosos onde há muito gado a pastar. Tirando estas herbáceas altaneiras (podem exceder o metro e meio de altura), fica tudo aparado à escovinha pela mastigação incansável de cabras, ovelhas e vacas. Claro que o enigma não é de grande calibre, nem exige penetração de espírito para ser desvendado. A opinião unânime da confraria herbívora é que as abróteas não são prato que se apresente. Como quase toda a concorrência é comestível, ficam elas sozinhas em campo e podem espalhar-se à vontade. Fazem-no de uma ponta à outra do nosso território, desde a serras do norte às planícies do Alentejo. E, adaptando-se bem a solos depauperados, conseguem mesmo, como sucede em Valongo, dar uma pincelada de cor às orlas dos eucaliptais.

O Asphodelus lusitanicus, que é o mais comum do seu género no noroeste do país, apresenta-se frequentemente ramificado: a haste central termina com uma inflorescência em forma de espiga, mas pode haver duas ou três inflorescências laterais mais curtas (visíveis na foto da direita). Outro traço distintivo é que a membrana acastanhada (ou bráctea) na base de cada flor é quase tão longa como o pedúnculo (no A. aestivus ela é bastante mais curta, e no A. fistolosus é igualmente diminuta).

O Asphodelus lusitanicus é um endemismo ibérico, presente sobretudo na metade norte de Portugal e na Galiza.

08/06/2010

Brava tulipa

Tulipa sylvestris subsp. australis (Link) Pamp.
Num dos contos de A derrocada da Baliverna, de Dino Buzzati (tradução de Margarida Periquito para a Cavalo de Ferro em 2008), há três satélites — um que parece um lápis prateado, outro em forma de ovo cor de laranja e um pintado com riscas amarelas e pretas — enviados para o espaço entre 1955 e 1958 e que, em vez de funcionarem como previsto, levaram as suas tripulações para um lugar onde ficaram penduradas a girar em silêncio. No lançamento, milhares de pessoas esperançadas ergueram o nariz para a atmosfera; agora só alguns poucos espreitam, pela surdina, os três pontinhos no céu, quando a luz e a hora o permitem.

[Nas cidades iluminadas, mesmo quando não é época natalícia, isso não é possível. Mas na serra da Arrábida, área cársica que é um paraíso para muitas plantas, pode até ver-se à noite a Via Láctea.]

Rói em todos a indignação pelo que aconteceu; e deste modo protestam «pela descoberta que lhes mudou a vida». Depois de uma largada perfeita, de uma trajectória impecável e de uma viagem tranquila, os satélites selaram-se inertes, com uma última comunicação enigmática: «Que música estranha... Raios, mas nós aqui viemos parar ao...!»

[Onde? Fosse a um terreno inculto e pedregoso ou a uma mata de montanha, poderiam avistar esta tulipa silvestre resistindo às estiagens e florindo de Março a Junho. As flores são em geral solitárias, sem estilete e com estames penugentos na base. As pétalas amarelas nascem por vezes com listas verdes ou vermelhas por fora. Distingue-se da espécie T. sylvestris L. por ter só duas folhas — lineares e na base de uma haste glabra —, ostentar flores menores e, em geral, não ir além dos 30 cm de altura.]

Não demorou a descobrir-se o significado das mensagens espantadas. «De maneira que hoje ninguém duvida — excepto alguns poucos casmurros irredutíveis que gostariam que o orgulho humano não cedesse — ninguém duvida já de que os três projécteis tenham sido atingidos pelo som a que a nossa pobre alma não resiste.» Os tripulantes foram parar ao céu.

Seguiram-se dias de desorientação, ira e polémica. «Que vulgaridade — disseram os cientistas, insurgindo-se contra a absurda hipótese —, já não estamos na Idade Média! Que vergonha!, disseram os teólogos, ofendidos com a ideia temerária de o reino dos Céus se encontrar assim próximo, aqui suspenso por cima de nós, de tal modo que, levantando a cabeça, quase chocamos com ele.» O planeta parece ter minguado com a casa dos anjos nos subúrbios. E, cheios de razão, ficámos ofendidos: o paraíso é afinal a nossa última fronteira, que nos barra o caminho e nos aprisiona.

[Na Europa mediterrânica, Portugal, Suíça e Bulgária partihamos a cela com esta flor. Que pesado castigo.]

07/06/2010

A cidade com serras

Geum urbanum L.
A acreditar pelo nome que o pai da taxonomia moderna atribuiu à erva-benta (Geum urbanum), as cidades do tempo de Lineu (1707–1778) deveriam ser radicalmente diferentes daquelas em que vivemos hoje. Mesmo as famosas capitais seriam um misto de cidade e de campo, com tantas árvores que as ruas se confundiriam com trilhos na floresta. Eça de Queirós (1845-1900), se tivesse nascido século e meio antes, não se sentiria compelido a romancear o inexistente contraste entre a cidade e as serras; e tanto lhe faria viver os seus últimos anos em Paris como em Tormes.

A menos, claro, que Lineu se tenha enganado (acontece a todos, excepto a um conhecido ex-primeiro ministro português), e o nome em que apoiámos tão fantasiosa dedução seja simplesmente absurdo. Geum urbanum: o epíteto não tem outra interpretação possível, urbanum significa relativo às cidades. Sucede que a erva-benta (herb bennet ou wood avens em inglês, benoîte commune em francês) viceja em lugares frescos como sebes ou bosques densos, e não propriamente em artérias urbanas ou em jardins residenciais. Talvez avance a medo até às portas da cidade, abrigada em algum arvoredo que sobrou de tempos de antanho. Mas em Portugal, onde a planta é bem menos comum do que no resto da Europa, isso parece-nos improvável. E, tendo-la nós apenas encontrado na Mata da Margaraça, esse enclave nortenho no centro do país, não será arriscado concluir que ela prefere o regime atlântico ao mediterrânico.

Aqui vai o retrato dela em duas penadas. É uma planta perene, penugenta, com uns 60 cm de altura, folhas basais pinadas semelhantes à de outras congéneres suas, e folhas superiores simples com três lobos. As flores, que surgem de Maio a Julho na extremidade de hastes esguias, têm de 1 a 2 cm de diâmetro, e exibem cinco pétalas bem separadas. Os frutos, semelhantes a ouriços, servem-se dos espinhos curvados em gancho para apanharem boleia de coelhos, javalis e outros peludos habitantes da floresta, que assim contribuem involutariamente para disseminar a planta.

05/06/2010

Orquídea da Provença

Orchis provincialis Balbis

My dear Theo,

As regards black in nature, we are of course in complete agreement, as I understand it. Absolute black doesn’t in fact occur. Like white, however, it’s present in almost every colour and forms the endless variety of greys — distinct in tone and strength. So that in nature one in fact sees nothing but these tones or strengths.

The three fundamental colours are red, yellow, blue, "composite" orange, green, purple. From these are obtained the endless variations of grey by adding black and some white — red-grey, yellow-grey, blue-grey, green-grey, orange-grey, violet-grey. It’s impossible to say how many different green-greys there are for example — the variation is infinite. (...) The colourist is he who on seeing a colour in nature is able to analyze it coolly and say, for example, that green-grey is yellow with black and almost no blue, &c. In short, knowing how to make up the greys of nature on the palette.

To make notes out of doors, however, or make a small scratch, a highly developed feeling for the outline is absolutely essential, as it is for working it up later. This doesn’t come of its own accord, but firstly through observation, and then above all through persistent hard work and seeking. (...) But you’ll see when you come to the studio that besides seeking the outline I certainly also have a feeling, like anyone else, for the strengths. And that I also have nothing against making watercolours — but they’re founded on drawing first, and then from the drawing springs not only the watercolour but all kinds of other shoots that will develop in due course in me as in anyone else working with love.

I’ve attacked that old giant of a pollard willow, and I believe it has turned out the best of the watercolours. A sombre landscape — that dead tree beside a stagnant pond covered in duckweed, in the distance a Rijnspoor depot where railway lines cross, smoke-blackened buildings — also green meadows, a cinder road and a sky in which the clouds are racing, grey with an occasional gleaming white edge, and a depth of blue where the clouds tear apart for a moment. In short, I wanted to make it like how I imagine the signalman with his smock and red flag must see and feel it when he thinks: how gloomy it is today.


Ever yours,
Vincent

Carta a Theo van Gogh (31/VII/1882)

04/06/2010

Azul na língua

Anchusa italica Retz. [= Anchusa azurea Mill.]
Algumas boragináceas parecem ter uma afinidade misteriosa com a língua, essa parte da anatomia animal que faz de polícia à entrada do tubo digestivo. Temos a língua-de-cão (Cynoglossum), a erva-das-cinco-línguas (Pentaglottis), a língua-de-cobra ou viperina (Echium) e, para completar o ramalhete linguístico, a língua-de-vaca, nome que calhou em sorte à Anchusa italica. É de supor que tal designação se deva ao formato das folhas, mas quem não goste dela tem muitas outras à escolha: buglossa, borragem-bastarda, erva-do-fígado, erva-sangue e orcaneta.

Em comum com outras plantas da mesma família (como a borragem), a Anchusa italica é um planta muito hirsuta, com o caule, as folhas e até os cálices das flores cobertos por pêlos eriçados. É uma planta perene, hirta e ramificada, que atinge um metro de altura e floresce de Maio a Agosto. As suas flores, com cerca de 2 cm de diâmetro, são de um azul intenso, com uma peculiar «almofadinha» branca no centro.

Pouco exigente no que toca às condições do solo, vegeta em campos de cultivo, prados e bermas de caminhos. Em Portugal, encontramo-la sobretudo no centro e no sul, mas a sua área de distribuição natural inclui praticamente toda a Europa, estendendo-se ainda ao Médio Oriente e ao extremo norte do continente africano. Como se tão vasto território lhe fosse insuficiente, instalou-se também nos EUA e no Japão, mas não parece ser considerada das invasoras mais problemáticas.

03/06/2010

Dar abrigo a quem tem frio

Serapias cordigera L.
As orquídeas são magníficas e complexas, mas o que as levou às formas que temos vindo a apreciar não foi, como já contámos, a intenção de nos agradar. O testemunho desta flor serve hoje para mitigar a ideia de que, em geral, as orquídeas obtêm serviços dos insectos à custa de sedução e engodo, explorando-lhes as fraquezas. Este satirião-de-flores-grandes, tal como a erva-borboleta, é um poço de virtudes. Como lança as primeiras folhas do ano no fim do Inverno e prepara a floração até Abril, sabe quão desagradáveis podem ser as noites frias ou com chuva forte no Mediterrâneo, Portugal e Galiza. Por isso oferece aos polinizadores uma pousada aconchegante formada por vários capuchinhos de tépalas, pilosos e perfumados; e nos aposentos, para um sono mais regalado, até deixa néctar ao dispor dos hóspedes. Além disso, num gesto cerimonioso de boas-vindas, estende uma passadeira púrpura e fofa à entrada (que a alguns lembra apenas uma língua marota).

Este vistoso labelo cor-de-ferrugem permitiu-nos detectar meia dúzia de pés à beira de uma estrada à saída de Côja, nas cercanias da serra do Açor. É um torrão que lamentavelmente não é inglês, e em pouco tempo estará coberto por casas ou estações de serviço.

The orchid squad — Regular patrols to protect rare wild flower

Officers have introduced patrols around the lady’s slipper flower, whose Latin name is Cypripedium calceolus. (...) Critics have questioned the use of police time to guard a plant and some Lancashire residents complain that priorities are skewed. Christopher Brandon, 32, said: “It sounds as if this plant is getting better protection than the Queen. Anyone would think a life was at stake, rather than just a pretty flower.” The law is clear. It is an offence to uproot any plant, bulb or flower on the European protected species list. Wild flowers belong to the owner of the land on which they grow and taking them could be classified as theft. Such is the importance attached to the lady’s slipper that it has been given a log number on the police computer, allowing a speedy response should anyone try to do more than admire it.


Já explicámos de onde deriva o termo genérico serapias; o epíteto cordigera indica o mesmo que cordiforme — ambos nomes recentes, posteriores à descoberta surpreendente de que alguns de nós têm coração.

02/06/2010

Um mês na estrada

Asphodelus fistulosus L.
O esforço de rapar a vegetação das bermas de todas as estradas, desde as novíssimas auto-estradas às velhas estradas nacionais ou mesmo municipais, esbarra com a enormidade da empreitada. Não é apenas falta de mão de obra para formar equipas que actuem em todo o território nacional. É que é preciso repetir a tarefa inúmeras vezes nos mesmos troços de estrada. Quando, a muito custo, com máquinas roçadoras e bidões de herbicida, se avançou até ao quilómetro cem da A-não-sei-quantos, já ao quilómetro zero as ervinhas despontam novamente. É inevitável concluir que nunca as brigadas antiverde irão conseguir erradicar as plantas que vegetam junto às estradas. Pelo menos não todas as plantas, já que as mais sensíveis há muito que desapareceram. Sobram, livres da concorrência, aquelas que se dão bem com tais perturbações cíclicas.

Uma delas é a abrótea-fina (Asphodelus fistulosus), que, entre Março e Abril, se dá a ver nas auto-estradas do centro e sul do país. Como não é esse o nosso território, só este ano é que a vimos, quando descemos a sul de Leiria na A1. Mas tranquilize-se o leitor: embora se justificasse, não parámos na auto-estrada para lhe tirar o retrato, pois ela também teve a gentileza de se mostrar na EN 361, perto de Alcanena. É uma planta de aspecto delicado, com uma haste florida de uns 40 cm de altura e um denso tufo basal de folhas cilíndricas e estreitas. Os entendidos em terminologia médica associarão o epíteto fistulosus às fístulas — as quais, segundo o dicionário da Porto Editora, são «orifícios ou canais anormais, congénitos ou acidentais, que ligam dois órgãos entre si ou um órgão ao exterior». De facto, o caule desta abrótea é oco, e terá servido, às crianças de outros tempos, para improvisar flautas rudimentares.

Se falamos da abrótea-fina, é obviamente porque outras abróteas mais corpulentas existem em território nacional. A seu tempo elas aqui subirão ao palco. Para concluir, diga-se que a Asphodelus fistulosus é nativa do sul da Europa e do sudoeste asiático, numa faixa que vai de Portugal à Turquia.

Adenda. Pode espreitar aqui mais algumas fotos da A. fistulosus.

01/06/2010

Trovisco do Gerês

Thymelaea broteriana P. Cout.


Como sabemos por Hansel e Gretel (da fábula dos Irmãos Grimm), as migalhas de pão não servem pois podem ser comidas pelos pássaros. O novelo de fio de Ariadne tem préstimo em percurso curtos, mas não nos sinuosos que consomem mais de três horas. Felizmente, numa terra onde o granito se vai esboroando, quebrado pela neve e pelo sol, há outra solução para os caminhantes pávidos: as mariolas, regionalismo que nomeia empilhamentos de pedras, em geral com formato piramidal, que nos guiam pelas serras de muitos corredores todos iguais. De vez em quando, juntamos mais um calhau ao monte para o estabilizar — não vá o conjunto desfazer-se numa derrocada — ou para o tornar mais visível.

E há mais quem goste deste solo seco e fragmentado como cascalho. O arbusto das fotos, que não ultrapassa os 50 cm de altura (e em geral se fica por bem menos) mas tem ramagem densa, é um endemismo no norte do país (Serras do Gerês e Alpedrinha) e do noroeste espanhol. Figura na lista de espécies de interesse da Comunidade Europeia, sob protecção estrita através da Directiva Comunitária de Habitats. Chamaram-nos a atenção as flores pequeninas, que nascem em Abril e Maio, e lembram as do género Daphne. São tubos sem pétalas — contendo oito estames aderentes à superfície interior e um estilete não central — cujo topo é lobado. As folhas são sésseis e sem estípulas, semelhantes às da urze, com as margens de tal modo reviradas que quase ocultam a face superior coberta por uma penugem branca.

Há autores que a designam Thymelaea coridifolia (Lam.) Endl. subsp. broteriana (P. Cout.) Malag. Esta denominação teve origem na espécie T. coridifolia (epíteto atribuído por Lamark e que apela à semelhança das folhas com as do género Coris); nela Ramón de Penafort Malagarriga enxertou como subspécie (broteriana) o nosso trovisco — que, anteriormente, António Xavier Pereira Coutinho considerara como espécie autónoma, categoria que hoje lhe é geralmente reconhecida entre as cerca de 17 espécies europeias de Thymelaea. Se os nomes dos recém-nascidos tivessem origem nas características da cria, e não em vínculos aos progenitores ou, mais frequentemente, na moda, poderíamos assistir a idêntica evolução nos antropónimos para designações cada vez mais fiéis aos seus usuários.

31/05/2010

A vida simples

Queen Charlotte's Cottage — Kew Gardens
Esta cottage com o tradicional revestimento de colmo foi construída entre 1754 e 1771 para entretenimento da realeza. A rainha consorte Charlotte (1744-1818, de seu nome completo Charlotte de Mecklenburg-Strelitz, casada com Jorge III de Inglaterra) tê-la-ia usado para piqueniques e para fugir à pompa opressiva da corte. Depois da morte do casal reinante, a cottage não mais foi usada pelos seus descendentes; e, em 1898, por doação da rainha Vitória, a casa e o carvalhal circundante foram integrados nos Kew Gardens. Foi um modo feliz de celebrar uma rainha que, pelo seu patrocínio dos estudos botânicos, encorajou o desenvolvimento dos próprios Kew Gardens, e que tem o seu nome ligado a uma popular planta ornamental sul-africana, a Strelitzia reginae.

Hoje em dia a cottage está aberta a qualquer visitante, e até tem à entrada um porteiro envergando rigoroso traje setecentista. Mas, por muito interessante que ela seja por dentro, é o seu enquadramento num bosque frondoso que a transforma num lugar raro. São quinze hectares de um carvalhal maduro, com uma idade calculada de trezentos anos. Prova dessa antiguidade são os bluebells que, entre Abril e Maio, fazem brilhar o chão de azul. Já antes aqui falámos deles, e é escusado reiterar o que então dissemos. Ficam aqui a pontuar a passagem do tempo com um regresso que é sempre uma renovação.

(E deixam também um aviso a quem não tem o cuidado de ver onde se senta.)


Hyacinthoides non-scripta (L.) Chouard ex Rothm.

29/05/2010

Três cores ao atropelo

Tropaeolum tricolor Sweet

.....Embora ele se inclinasse bem sobre a beira,
.....A água estava demasiado em baixo para ser vista.

....."O tempo, percebemos", observou alguém
.....Na sua cabeça, "é apenas o ritmo

.....A que o passado se deteriora." E, assim,
.....Deixou escapar devagar por entre os seus dedos

.....Uma ou duas recordações especiais que calhava
.....Ter ali consigo, ficando depois a ouvir

.....Atentamente o seu eco enfraquecido.

.....Neil Curry (O Poço, trad. Francisco J. Craveiro de Carvalho)

28/05/2010

Cenoura de flores douradas

Thapsia villosa L.


Os ingleses não gostam de alardes de erudição, preferindo a popularização ao rigor científico. É por isso que, nos guias de flores silvestres, as famílias botânicas são designadas pelo seu membro mais conhecido. Falam-nos eles, por exemplo, da família da menta e da família da cenoura. A cenoura provém de uma planta umbelífera, Daucus carota, que é espontânea em Portugal e em boa parte da Europa. Na falta de nomes vernáculos apropriados ou sugestivos, parece-nos boa ideia chamar cenouras às umbelíferas. O único inconveniente é a sugestão implícita de que todas elas são comestíveis. Algumas, como a salsa e a própria cenoura, até se comem, mas outras muito semelhantes, como a cicuta (Conium maculatum), são mortalmente venenosas.

Por entre a profusão de cenouras de floração branca, que passam relativamente despercebidas mesmo quando são muito abundantes, as cenouras amarelas oferecem um regalo para a vista. A Thapsia villosa, com os seus quase dois metros de altura e as suas girândolas de flores douradas, estava em meados de Março no início da floração, mas já enfeitava garbosamente as falésias do Cabo Espichel. Dizem os manuais, repetindo-se acriticamente uns aos outros, que a floração da espécie decorre de Abril a Junho. Ainda bem que na Arrábida ela resolveu ignorar o calendário oficial.

Assinale-se que há outras plantas, como o funcho (Foeniculum vulgare) e a férula (Ferula communis) que amiúde se confundem com a Thapsia. A distinção entre essas três espécies, todas de porte avantajado, faz-se mais facilmente pelas folhas basais: com aspecto de penugem as do funcho (foto), filiformes e formando uma teia confusa as das férula (foto).

27/05/2010

Abelha sem noivo

Ophrys apifera Huds.
Se tiver tempo, comece o caro leitor por reparar na bráctea verde atrás de cada flor e nas três sépalas largas cor-de-rosa (podem ser mais claras, ou lilás) com um veio central esverdeado. Atente agora no corpinho que elas envolvem: o labelo globular aveludado, embelezado por um corpete (há os que ali só distinguem a letra H) e um apêndice amarelo na ponta (em geral escondido, virado para baixo da flor, mas já o vimos espetado, parecia um triângulo amarelo); o estigma com uma banda alaranjada, moldado em taça, e dois lóbulos penugentos que parecem asas. Para completar a imitação, note os pseudo-olhos que, com as duas pétalas-antena acastanhadas e minúsculas, lhe conferem um honesto porte (fera) de abelha (api).

Esguia (cerca de 20 cm de altura, mas já a vimos mais alta), é relativamente fácil de encontrar (em particular por coelhos malandros que lhe trincam as folhas e as hastes) em prados soalheiros da Europa, região mediterrânica e Médio Oriente. Prefere solo alcalino, bem drenado e pobre em nutrientes, que mantenha apenas uma vegetação escassa, mas, em anos recentes, tem colonizado áreas relvadas, torrões arados e bosques sombreados (Rúben, era esta a orquídea que viu no seu bosque). As folhas aparecem em Setembro-Novembro, a floração decorre de Maio a Junho e cada exemplar dura, em média, uns seis anos. A organização Plantlife, empenhada na conservação de fungos e plantas silvestres raras no Reino Unido, escolheu-a para emblema-flor do condado de Bedfordshire.

O formato desta flor sugere que ela evoluiu no sentido de atrair zangões como polinizadores. Mas, talvez entediada com tais artimanhas, a planta decidiu abandonar esta estratégia de sedução, e hoje quase todas os exemplares se auto-polinizam. A autogamia permite-lhes produzir, sem depender de segundos ou terceiros, quantidades copiosas de sementes (6 a 10 mil por cada cápsula), sem dúvida a razão da sua distribuição ampla. Como se vê na última foto, mal a flor abre, as polinias amarelas cheias de pólen, seguras por caudículos delgados e invulgarmente longos, são libertadas pelas anteras e baloiçam suspensas sobre a cavidade estigmática viscosa à espera que uma brisa as sopre para dentro dela. A propagação vegetativa, observada em plantas cultivadas, parece ser um mecanismo de último recurso.

26/05/2010

Alfazema da Arrábida

Lavandula multifida L.
Há plantas portuguesas que nunca ninguém sentiu necessidade de nomear e que nunca andaram nas bocas do povo. Podem até ser plantas bastante comuns, mas, se não tiverem utilidade imediata, a nossa gente, tradicionalmente pouco dada ao mundo vegetal, não toma conhecimento delas. Em contrapartida, as plantas «úteis» recebem tantos nomes como os fidalgos da mais antiga estirpe. Rosmaninho, alfazema e lavanda são outras tantas designações populares para as plantas do género Lavandula. Porém, em contraste com outras plantas da mesma família, como o tomilho e o orégão, as alfazemas não estão ao serviço do nosso paladar, mas sim do nosso olfacto. Há poucas coisas melhores do que o perfume com que elas nos impregnam os dedos quando as acariciamos. E essa olorosa qualidade, além de lhes ter conquistado um destaque nos nossos jardins a que pouquíssimas plantas nativas têm direito, é há muito aproveitada pelos fabricantes de sabonetes e pela indústria de perfumaria.

Haverá umas 25 espécies de Lavandula, concentradas sobretudo na região Mediterrânica, mas estendendo-se também até às ilhas Canárias, ao sudoeste asiático e à Índia. São arbustos perenifólios de até metro e meio de altura, com flores agrupadas em penachos, típicos de habitats soalheiros, secos ou pedregosos. No nordeste de Portugal a espécie mais comum é a Lavandula pedunculata, que aqui já mostrámos nas escarpas do ameaçado vale do Tua. Descendo para sul encontramos a alfazema-da-Arrábida: por ter sido lá que primeiro a avistámos, é esse o nome que gostaríamos de dar à Lavandula multifida, muito embora ela ocorra também no Baixo Alentejo e, indo além de Portugal, em Espanha, em Itália e no norte de África.

O epíteto multifida refere-se ao que a planta tem de mais distintivo: as folhas duplamente pinadas, que contrastam com as folhas simples das suas congéneres mais comuns. Outra característica diferenciadora é que a corola da flor tem a pétala superior muito desenvolvida, formando uma espécie de poupa.

Ensinam os manuais que a Lavandula multifida floresce de Fevereiro a Junho. Se ainda não a viu, de que está à espera o leitor sulista para ir à procura dela?