Erva de pintar taludes
Já aqui explicámos como as auto-estradas podem ser profícuo campo de estudo para quem se interesse por botânica, mas a lição ficaria incompleta se não mostrássemos uma das plantas mais frequentes nas bermas e taludes das modernas grandes vias. O que acontece é que o esforço ultra-higienista de limpar tal vegetação tem apenas como resultado substituir umas plantas por outras. As plantas indígenas ecologicamente mais interessantes cedem lugar às plantas ruderais, mais capazes de sobreviver aos sobressaltos das limpezas periódicas. Muitas delas foram introduzidas como ornamentais e, tendo-se naturalizado no nosso território, chegam mesmo a comportar-se como invasoras, prejudicando seriamente a vegetação nativa.
Por esta altura é vulgar observarem-se grandes extensões de talude pintadas de amarelo. Não o amarelo vivo dos malmequeres rasteiros, mas o amarelo mais pálido de umas grandes flores que parecem lenços amarrotados pendurados em cabides. Quem fornece tal entretenimento visual são plantas norte-americanas do género Oenothera. Foram muito estimadas na jardinagem europeia antes de resolverem encarregar-se elas mesmas da sua propagação. Aliás, à mesma família Onagraceae pertencem os apreciadíssimos e também americanos brincos-de-princesa.
As flores de Oenothera têm o hábito de só abrir pelo fim da tarde, e daí esse ar desgrenhado, quase pesaroso, que costumam apresentar. O nome que se lhes dá em inglês é evening primrose, traduzido aproximadamente por prímula-da-tarde. As duas espécies que exibimos atingem porte muito respeitável — cerca de metro e meio de altura — e estão amplamente disseminadas em Portugal. A Oenothera glazioviana é talvez a mais comum das duas, e distingue-se pelas flores maiores (8 cm de diâmetro contra 5) e, sobretudo, pelos cálices vermelhos (os da Oenothera biennis são verdes).
Outro pormenor em que se diferenciam é a origem. A O. biennis é nativa da metade leste dos EUA, enquanto que a O. glazioviana não o é de parte nenhuma: terá surgido por hibridação nalgum jardim ou viveiro europeu, e supõe-se que tenha sido introduzida no comércio hortícola em meados do século XIX. Por ironia do destino, foi igualmente comercializada na América do Norte; e, qual descendente de emigrantes que por um impulso atávico se instala na pátria dos seus antepassados, acabou também lá por se naturalizar.




















































