05/05/2007

Dez mil folhas


Myriophyllum aquaticum

Esta é uma herbácea da família Haloragaceae cuja identificação é difícil mas especialmente importante. É que as espécies Myriophyllum aquaticum (da América do Sul, conhecida como pinheirinha-de-água), e a europeia Myriophyllum verticillatum (que tratamos por erva-pinheirinha) são quase idênticas, mas a primeira é invasora preocupante dos nossos cursos de água enquanto a outra é, diz-se, inofensiva.

Ambas apresentam a característica disposição das folhas em verticilos (níveis em redor de um eixo, formando belos penachos); multiplicam-se facilmente por meios vegetativos, bastando que os ramos se fragmentem e voltem a encontrar solo que lhes agrade, o que é muitas vezes beneficiado pelos meios mecânicos usados para as remover dos lagos; e têm rizomas muito resistentes, que podem viajar longas distâncias agarrados ao casco de embarcações. Contudo a M. verticillatum está mais frequentemente submersa, aparecendo à tona quase só na época da floração, permitindo a entrada da luz e uma oxigenação mais eficiente do meio aquático, e portanto coexiste com maior diversidade de vegetação.

O exemplar da foto enche um pequeno tanque do Palácio de Cristal e tem muitos pezinhos fora de água à espera de sapatinho.

04/05/2007

Senhoras árvores

Pinheiro Manso - Benagouro

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Pinheiro manso (Pinus pinea) em Benagouro freguesia de Vilarinho da Samardã.
Fica sobranceiro à estrada que liga Vila Real a Chaves e não passa despercebido à saída da curva mesmo ao pé do café Pinheiro. Visitámo-lo numa tarde quente de Setembro de 2003 -no mesmo dia em que também fomos conhecer o de Loivos. Com a provecta idade de 300 anos (de acordo com a documentação da DGF) foi classificado de interesse público em Janeiro de 2001.

"...and my heart has been struck with the hearts of the planes!"

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The Trees Are Down
"...and he cried with a loud voice: Hurt not the earth, neither the sea, nor the trees"-Revelation

They are cutting down the great plane-trees at the end of
the gardens.
For days there has been the grate of the saw, the swish of
the branches as they fall,
The crash of the trunks, the rustle of trodden leaves,
With the 'Whoops' and the 'Whoa', the loud common talk,
the loud common laughs of the men, above it all.

(...)
It is not for a moment the Spring is unmade to-day;
These were great trees, it was in them from root to stem:
When the men with the 'Whoops' and the 'Whoas' have carted
the whole of the whispering loveliness away
Half the Spring, for me, will have gone with them.

It is going now, and my heart has been struck with the
hearts of the planes;
Half my life it has beat with these, in the sun, in the rains,
In the March wind, the May breeze,
In the great gales that came over to them across the roofs from the great seas.
There was only a quiet rain when they were dying;
They must have heard the sparrows flying,
And the small creeping creatures in the earth where they were lying -
But I, all day, I heard an angel crying:
'Hurt not the trees.'

© by Charlotte Mew
(post dedicado a todos os que sentem uma profunda dor com o abate dos plátanos do Campo Pequeno em Lisboa)

03/05/2007

Paz toponímica



O quarteirão da Paz é no Porto o centro de frágil resistência toponímica ao belicismo celebrado noutras partes da cidade; é o necessário mas insuficiente contrapeso à avenida dos Combatentes da Grande Guerra, às ruas dos Heróis, do Heroísmo e dos Mártires, às praças da Batalha e do Exército Libertador, às ruas, praças e avenidas do Marechal, do General, do Coronel, do Major, do Capitão, do Tenente e até do Sargento. A Paz toponímica sobe com dificuldade por uma rua íngreme, junta-se com a Saudade num pequeno largo em forma de quadrilátero irregular, e desfalece numa travessa tortuosa onde ninguém passa. A Misericórdia, representada por um lar da Santa Casa a um canto do largo, ergue contra a Paz um muro de indiferença.

No centro do largo da Paz, cercado pelo estacionamento e pelo trânsito ininterrupto, há um triângulo com relva, flores e árvores. Exactamente três árvores: um cipreste (Cupressus sempervirens), uma magnólia-de-Soulange e um castanheiro-da-Índia. O cipreste é sisudamente igual a si próprio em todas as estações do ano, e nunca se deixa tentar por indumentária nova; a magnólia já teve há dois meses a sua temporada de vaidade; agora é a vez de o castanheiro-da-Índia mostrar quanto vale: ainda mal fez abrir as folhas novas, e eis que já ostenta as pirâmides de flores brancas.

No Porto, os melhores locais para admirar a floração destas árvores são o Parque de Serralves e a rua de Guerra Junqueiro; em ambos se podem ver lado a lado as duas espécies de castanheiros-da-Índia comuns em Portugal: o Aesculus hippocastanum, de flores brancas, e o híbrido Aesculus x carnea, de flores cor-de-rosa. Tal como sucede com as magnólias, são os castanheiros-da-Índia brancos que primeiro florescem. Apresse-se por isso o leitor se ainda quiser ver-lhes as flores.

02/05/2007

Dias sem árvores- Lisboa

Abate de 97 plátanos no Campo Pequeno
Eles comem tudo, eles comem tudo, eles comem tudo e não deixam nada!
(via Blogue de Cheiros)

Em chama



Calliandra e Brunfelsia em flor - Rua S. João de Brito (Porto)
Ao pé do Romeu e Julieta, um arbusto em chama vermelha.

No Verão de há dois anos perguntaram-me se conhecia as "acácias vermelhas" bastante comuns nas ruas e jardins de algumas cidades de Moçambique. Não sabia que árvores ou arbustos pudessem ser e presumi tratar-se desta bela ornamental de vistosos estames vermelhos que está agora em flor: uma Fabácea pertencente à subfamília Mimosaceae (ou Mimosoideae) do género Calliandra (do grego kalli = belo e andros = masculino, referindo-se aos estames coloridos; tal e qual como os Callistemon), mais concretamente, e salvo erro, uma Calliandra tweediei, originária da América do Sul. No Uruguai, por exemplo, chamam-lhe Plumerillo rojo ; na vizinha Espanha tem o belo nome de Arbusto de la llama .

Mas a Ver veio esclarecer que muito provavelmente as "acácias rubras" de Moçambique são Delonix regia, espécie também conhecida por flor-do-paraíso, pau-rosa e flamboyant (fonte). Pertence como a Calliandra à família das Fabáceas (ou Leguminosae) mas a outra subfamília: Caesalpinioideae

A cochonilha que não é praga


Tamariz no Largo de Cadouços, Foz do Douro - Abril de 2007

Trabutina mannipara é o nome científico do insecto que produz uma melada que foi chamada maná (Êxodo 16:1-35). «Javé disse a Moisés "farei chover para vós pão do Céu" (…) De manhã havia uma camada de orvalho ao redor do acampamento. (…) Quando a camada de orvalho se evaporou, na superfície do deserto apareceram pequenos flocos, como cristais de gelo. Moisés disse: "Isto é o pão que Javé vos dá para comerdes. Cada um apanhe quanto lhe baste para comer".»

Trabutina mannipara tem a seguinte classificação: pertence ao reino animalia, phylum artropoda, classe insecta, ordem hemiptera, superfamília coccoidea, família pseudococcidae, género trabutina. O nome vulgar para todos os insectos desta superfamília é cochonilha.

As cochonilhas são pequenos insectos que geralmente têm algum tipo de protecção para o corpo. Os jovens imaturos são móveis; as fêmeas adultas não têm asas e são quase totalmente imóveis. Os adultos machos têm um par de asas, mas são delicados e a sua vida é curta. Para se alimentarem, as cochonilhas inserem os estiletes na planta de modo a obterem, por absorção, o alimento de que necessitam. Excretam então a melada, uma substância rica em açucares, aminoácidos, amidas, proteínas e vitaminas. A melada está na origem de diversos tipos de relações tróficas, podendo envolver formigas colhedoras de melada e insectos fitófagos, predadores ou parasitóides que complementam a sua dieta com melada. Pode também servir, como no caso da melada produzida por T. mannipara, para complemento da alimentação humana. Sobre a melada é frequente desenvolver-se um complexo de fungos de cor escura, a fumagina, causa de depreciação de plantas ou frutos. Por causa da fumagina as cochonilhas são consideradas inimigas das culturas, obrigando à monitorização e à aplicação de meios de protecção. As cochonilhas são pragas das culturas agrícolas e das plantas ornamentais.

Tamarix mannifera é a planta que vegeta na Península do Sinai e é hospedeira de Trabutina mannipara. O género Tamarix (tamariz em português) engloba 75 espécies espalhadas pela Europa ocidental e mediterrânica e Ásia oriental. É um arbusto com ramos finos e longos de cor castanha; as folhas, muito pequenas, são escamiformes imbricadas, medem alguns milímetros, e são muito parecidas com as do cipreste, mas moles e caducas. As flores são brancas ou rosa e estão agrupadas em espigas cilíndricas. O tamariz é muito usado como planta ornamental pela sua graciosidade e diversidade cromática ao longo do ano (rosa, depois verde e mais tarde castanha). É também usada para fixação de dunas no litoral.

No arbusto Tamarix mannifera vive a cochonilha Trabutina mannipara, produtora de melada que, uma vez solidificada pelo frio da noite no deserto, pode ser recolhida e servir de alimento. Uma cochonilha que não é praga!


Texto e foto de Ana Aguiar (Eng. Agrícola)
Maio de 2007

01/05/2007

Para dar sorte

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Convallaria majalis

Enquanto entre nós se enfeitam portas e janelas com maias para afastar "aquele cujo nome não se deve pronunciar" (mas que a minha vizinha chama à boca cheia "carrapato"), em França o "porte-bonheur" é o "muguet". Segundo parece, este hábito, agora extremamente popular de se oferecer raminhos de Convallaria majalis no primeiro de Maio para dar sorte, poderá ter-se tornado moda na corte do rei francês Carlos X . Não é excluída também a possibilidade de, tal como outros costumes florais do mês de Maio, radicar em tradições ancestrais associadas à Beltane (Bealtaine ou Beltaine conforme os idiomas > ) festa que marcava o início do Verão na tradição céltica (fonte).

A sua ligação à festa do trabalho é relativamente recente. Com efeito quando se fizeram os primeiros desfiles em França, os manifestantes ostentavam na lapela um triângulo vermelho que simbolizava aquilo que então reinvidicavam, ou seja a divisão do dia em três períodos iguais de "travail, sommeil et loisirs". Mais tarde, o triângulo é substituído por uma rosa brava vermelha (Rosa canina ), uma "églantine" , que alguns anos depois, por volta de 1907, terá dado lugar ao "muguet", símbolo da Primavera na região de Paris.

Apesar de alguns sítios on line mencionarem que esta pequena (ex-)liliácea é originária do Japão, Mrs Grieve no seu Modern Herbal informa-nos tratar-se de uma nativa das ilhas que entra na farmacopeia britânica e dá-nos a conhecer algumas das lendas e tradições associadas a esta planta conhecida em língua inglesa por "May Lily, Convallaria, Our Lady's Tears, Convall-lily, Lily Constancy, Ladder-to-Heaven, Jacob's Ladder, Male Lily", para além de, claro, Lily-of-the-Valley.
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A ler também Muguets for May Day , com o toque muito especial da Julie Ardery, no Human Flower Project

"Maias" nas portas e nas janelas

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uma tradição que se mantém. Fotos hoje, no Porto, freguesia de Ramalde.

A ler: As maias por Rui Reininho, no JN.

Arroz-dos-muros


Sedum arenarium

Este arroz é o complemento natural à sopa-de-pedra: coloniza escarpas nuas de zonas temperadas, sobrevivendo das partículas que resultam da erosão das rochas. Suporta admiravelmente grandes diferenças de temperatura e a reduzida humidade destes ambientes à custa de um metabolismo típico das crassuláceas que lhes permite estarem «acordadas» apenas de noite. Em afloramentos rochosos não pisoteados por másculos alpinistas, nem sujeitos a movimentações excessivas do solo, estendem-se grandes lençóis destas flores brancas a coroar caules vermelhos revestidos por folhas carnudas. E se se for paciente, sem se demorar em ajustes de profundidade de campo e velocidade, podem fotografar-se belas borboletas que as visitam em busca do farto néctar que produzem.

30/04/2007

Parque de Avioso


Sobreiro e (à direita) giesta (Cytisus striatus), urze (Erica sp.), arroz-dos-muros (Sedum brevifolium)

Foi em Agosto de 2005 que a Câmara da Maia promoveu, antes mesmo da inauguração oficial, uma série de visitas guiadas ao novo Parque de Avioso, um espaço de 30 hectares a norte do concelho, já na fronteira com a Trofa. Apesar de os trabalhos de arranjo paisagístico não estarem então totalmente concluídos (ainda não o estão dois anos depois), o que pudemos ver era promissor: caminhos cheios de curvas e desníveis criando perspectivas variadas; pequenas matas de sobreiros e carvalhos; um vale fresco, convidativo ao descanso, sulcado por um riacho; um recreio para crianças no abrigo do arvoredo. Tudo planeado e executado pela própria Câmara, que optou muito sensatamente por não recorrer aos arquitectos da moda.

A Câmara aproveitou as árvores existentes (carvalhos e sobreiros, com uma envolvente de pinheiros e eucaliptos), plantou muitos novos carvalhos (Quercus robur), e procedeu a uma sementeira de bolotas que se saldou por um previsível fiasco. Além do terreno inóspito em que foram semeadas e da seca que então afligia o país, as plantas que porventura germinassem ainda teriam que sobreviver ao pisoteio dos utentes do parque. Houve ingenuidade nessa apressada tentativa de criar um carvalhal, pois a natureza não se regenera de um dia para o outro, e muito menos o faz num espaço de lazer que se quer muito frequentado. É um caso em que a natureza precisa de ser ajudada: há que plantar árvores de porte já razoável (faltam ainda muitas árvores no Parque de Avioso), abrindo covas amplas que se encham com boa terra vegetal. E não se plantem só carvalhos: os azevinhos, medronheiros, cerejeiras, castanheiros, azereiros, teixos e tantas outras árvores e arbustos da nossa flora nunca lá hão-de aparecer espontaneamente.

Enquanto não chegam as árvores, é a vegetação espontânea dos nossos montes que vai dando uma cor primaveril ao Parque de Avioso: urze, giesta, tojo, sargaço e um sem-número de minúsculas herbáceas. Tudo isto vai secar ou desbotar no Verão, e à falta de cor há-de juntar-se a falta de sombra numa grande porção do parque. E não ajuda a compor o conjunto que o «edifício de acolhimento», onde deveriam funcionar uns comes-e-bebes e uma esplanada, esteja ainda desocupado.

28/04/2007

The Scarlet Pimpernel

Este é o título de uma novela de aventuras, que decorrem no cenário da Revolução Francesa, escrita em 1905 pela Baronesa Emmuska Orczy. O enredo, que os críticos literários consideram de qualidade inferior, sem rigor histórico e socialmente condenável, foi contudo um sucesso no seu tempo, adaptado posteriormente ao cinema e televisão. O herói é uma figura esquiva, solitária, gaiata para afastar as atenções de si e assim, secretamente, com coragem e ousadia, salvar aristocratas franceses da guilhotina.


Anagallis arvensis

Scarlet pimpernel é também o nome carinhoso que os ingleses dão à flor da Anagallis arvensis, cujo tamanho não ultrapassa o de uma unha do dedo mindinho. Planta anual, rara de encontrar apesar de apreciar dunas e campos de cultivo em repouso, precisa de sol para não definhar: as folhas esforçam-se para ter sempre a face superior voltada para o sol e, mal o céu se ensombra ou há ameaça de chuva, as flores fecham-se e escondem-se entre a ramagem. É famosa pelo seu uso em cosmética; e, diz-se, um bom remédio contra a melancolia.

27/04/2007

Explicação da flor



Cornus florida - Parque Florestal de Amarante, Abril de 2007

A beleza em Portugal é uma raridade, e por isso voltamos sempre aos locais onde a encontramos. É a terceira vez que esta árvore em Amarante, que nem sequer logrou ter nome em português, aparece no nosso blogue: ora vista de longe como uma mancha rosa na paisagem; ora de perto para melhor lhe admirarmos a floração. Hoje vêmo-la de mais perto ainda, e aproveitamos a ocasião para lhe desvendarmos as flores. Essas grandes pétalas rosadas são na verdade brácteas - ou seja, folhas modificadas que se mascaram de pétalas. E a flor que vemos à esquerda não é propriamente uma flor, mas sim um arranjo floral: no seu centro, em vez de estames, o que há é um ramalhete de minúsculas flores.

Essas inflorescências que parecem flores são uma das características do género Cornus, se bem que nalgumas espécies as brácteas vistosas estejam ausentes. São cerca de seis dezenas as espécies de arbustos ou pequenas árvores, originárias da Ásia, Europa e América do Norte, que integram o género Cornus, muito cultivado em países onde a jardinagem é levada a sério mas quase inexistente nos jardins portugueses. Os frutos são bagas carnudas, em regra vermelhos, muito apreciados pelos pássaros. A Cornus florida é nativa da costa leste dos EUA, e atinge uma altura máxima de 10 metros. Na sua forma mais comum apresenta «flores» brancas, e não cor-de-rosa como as deste exemplar.

26/04/2007

A ler - Ainda a Avenida dos Aliados

No Quinta do Sargaçal

Ulmeiro - Amarante



Ulmus glabra 'Pendula' no Parque Florestal de Amarante -fotos: Abril de 2005
A manchinha cor-de-rosa na fotografia da direita corresponde à copa de um Cornus florida aqui já retratado Este ulmeiro "chorão" fica à sua frente, à direita.

25/04/2007

3 x 10 + 3


Libertia grandiflora

«Sem enraizamento e sem memória, os povos, como os homens, são apenas náufragos.»

Manuel António Pina
(JN, 24 de Abril de 2007)

24/04/2007

O tojo de Boímo


Ulex europaeus - Parque Biológico de Gaia

Pelo caminho fora já o tojo se mostrava bonito, mas a partir dos Arcos tornou-se esplendoroso. Toda a serra estava em flor. E o amarelo do tojo deita luz. Deve ser porque a flor sendo labiada se fecha sobre si mesma, e guarda lá a luz. De certeza é um pedacinho de sol que lá se esconde e o tojo ilumina a própria atmosfera que o rodeia. A planta em si tesinha, orgulhosa, com os seus ramos elegantes e fortes, anuncia a Primavera antes de tempo, qual arauto alegre e vaidoso. As flores de Verão foram-se há muito, mas quando já nos esquecemos delas, outras vieram para nos alegrar! Primeiro os crisântemos, com seu cheiro seco e as pétalas em “cabeleira”; e, quando a nossa lembrança os deitou fora, (...) chega o tojo de picos muito ruins depois de secos, mas bem menos agressivos quando verdes. E o verde da planta é tão forte de seiva e cor! Aqui só dois ou três pés, além uma leirita meia cheia, mais adiante um campo grande pejado daquele amarelo de sol. Alguns gostam de socalcos e então é vê-los em escadinhas, umas mais esvaídas, outras tontas de cor! Uns espreitam medrosos, outros escondem-se atrás das giestas, porque para elas ainda não chegou a hora. Vê-los de perto é ter a noção da força do agreste vestido de cor pujante e lisinha para amparar o Sol radioso da flor. A bem dizer a Primavera já diz alguns segredos a certas plantas amigas. Os salgueiros são talvez os primeiros a ter rebentos, a couve galega empertigada deita a sua flor branca, fresca e bonita, cheia de alegria, os chorões até já tem folhinhas, e tudo nos lembra o milagre que acabou de acontecer há tão pouco tempo: o milagre das magnólias. Aqui e além ainda se vêem restos das suas flores, e elas deixam-nos as suas pétalas côncavas descansando pelo chão fora para se fazerem lembradas. Como se fosse possível esquecê-las! É neste ninho de alegria e promessas que o tojo mostra a sua flor.

Ai tojo “meu” de Boímo, por que és tão bonito e viçoso? Visita-nos todos os anos. Mas por que te «calas» tão depressa e não ficas connosco até vir a chuva de Inverno?


Março de 2006
Maria de Lourdes Álvares Ribeiro [kiki-ribeiro(at)sapo.pt]

23/04/2007

Da horta



Apesar de estes duas espécies de Phlomis surgirem lado a lado no jardim de Serralves, e de serem ambas de origem mediterrânica, elas não costumam encontrar-se na natureza. A P. fruticosa, de flores amarelas, é mais oriental e distribui-se desde a Sardenha até à Anatólia; a P. purpurea, do Mediterrâneo oeste, fica-se por Portugal, Espanha, Marrocos e Argélia. As folhas aveludadas e as flores agrupadas em coroa na axila das folhas mais altas dão a estas plantas um ar exótico muito atraente. Pertencem à família Lamiaceae, o que se nota no formato das flores, em particular no capuchinho da corola. É notória a semelhança com o género sul-africano Leonotis; as duas plantas partilham a preferência por solo pobre, seco ou bem-drenado, e muito sol. No Inverno são apenas um montinho de folhas usadas a proteger as raízes enquanto esperam por nova rodada de calor.

No livro The Jade Garden - New & notable plants from Asia, de Peter Wharton, Brent Hine e Douglas Justice (da University of British Columbia Botanical Garden & Centre for Plant Research, 2005), os autores testemunham a boa adaptação desta planta a climas extremos, desde que viva em canteiros de pouca rega.

21/04/2007

Marmelo, marmeleiro, marmelada



Cydonia oblonga - Palácio de Cristal, Porto

Se tudo correr bem, as flores destas árvores vão transformar-se em frutos - e é só para combater o desperdício que a seu tempo iremos apanhar marmelos a este recanto tão pouco visitado dos jardins do Palácio. A natureza é generosa mesmo com os sem terra da cidade.

O marmeleiro, originário do Médio Oriente mas há muitos séculos aclimatado na Península Ibérica, mantém com a nossa língua uma relação ambígua. Deu origem a uma palavra portuguesa que veio a ser adoptada por outras línguas, mas depois desinteressou-se dela; ou, mais exactamente, a árvore não quis mais conversa com as versões para exportação da palavra. A nossa marmelada (necessariamente de marmelo) deu marmalade em inglês (que é a compota de laranja amarga) e marmelade em francês (nome de qualquer compota com a consistência do puré, mas não da genuína marmelada - pois ao mais parecido com ela que por lá têm chamam os franceses cotignac d'Orléans). Prova acabada de que os estrangeiros não têm jeitinho nenhum para línguas.