23/02/2011

Verónica dos bosques

Veronica montana L.
Nomes vulgares: wood speedwell
Distribuição global: da Europa ocidental até à Sibéria, e ainda o norte de África; em bosques húmidos e sombrios, sobre solos ricos
Distribuição em Portugal: Minho e Beiras (muito rara)
Época de floração: Março a Julho
Data e local das fotos: Abril de 2009, Mata da Margaraça (único local da espécie na Serra do Açor)

22/02/2011

Amoricos

Agrimonia eupatoria L.
As designações desta planta são um rol de mal-entendidos. Chamam-lhe amor-pequeno sendo ela bem maior do que um amor-perfeito; ou agrimónia, que deriva, diz-se que por engano, do grego argemon (catarata), apropriando-se do mérito de outras plantas na cura deste mal dos olhos. Contudo, segundo a Flora Ibérica, esta herbácea também tem uso medicinal por as suas folhas e flores serem ricas em taninos e óleos com acção desinfectante. Para gente saudável, produz tinta amarela. Segundo William T. Stearn, o vocábulo eupatoria celebra Mithridates VI Eupator (132-63 a.C.), rei de Pontus (hoje na Turquia) e inimigo temido de Roma. De memória prodigiosa, que Jorge Luis Borges evocou em Funes el memorioso, esta figura lendária inspirou A. Dumas, A. E. Housman, D. L. Sayers, Mozart e Scarlatti.

Erva perene e rizomatosa, esta rosácea tem folhas compostas (imparipinadas) com folíolos de tamanhos diversos e margens serradas. Detecta-se facilmente entre Maio e Outubro porque algumas espigas florais abeiram-se dos dois metros de altura. É quase cosmopolita, preferindo soutos, orlas de bosque e pastos húmidos. As flores, hermafroditas e sem perfume, de uns 8 mm de diâmetro, têm cinco pétalas amarelas a rodear numerosos estames, e igual número de sépalas verdes que mais tarde se curvarão para formar o fruto. É ele um ouriço (os ingleses chamam-lhe bur) em forma de pião, contendo uma a duas sementes, dotado de uma crina de cerdas para facilitar a dispersão.

Género com cerca de quinze espécies, três europeias, conta na Península Ibérica com duas, a A. procera (alta) e A. eupatoria — que, nos locais onde coabitam, dão por vezes origem a híbridos em geral estéreis.

21/02/2011

Arruda da pedra partida

Asplenium ruta-muraria L.


Foi motivo de regozijo darmos de caras com este feto entre as fissuras das rochas onde foi esculpido o portentoso anfiteatro da Fórnea. Em Portugal, a arruda-dos-muros (Asplenium ruta-muraria) pouco se vê, e o maciço calcário do centro-oeste é talvez a zona do país que concentra maior número de populações; mas mesmo por lá nunca ela chega a ser vulgar. O seu pequeno tamanho e a especificidade do seu habitat fazem da busca uma prazenteira caça ao tesouro: sem ser trivial observá-la, é quase certo que a paciência há-de por fim ser gratificada. Bem mais difícil — embora mais compensador, visto que dá direito a prémio e tudo — parece ser encontrar a língua-cervina nalgum município do Grande Porto.

Noutros países europeus, um botânico amador que fizesse idêntica descoberta talvez se limitasse a encolher os ombros. A raridade não é uma medida universal, e o que é escasso num país pode ser abundante nos países vizinhos. Distribuindo-se por grande parte do hemisfério norte — Eurásia desde a Península Ibérica até à China, metade oeste da América do Norte, Marrocos —, a arruda-dos-muros é comum na Europa (mais no norte do que no sul) mas tida como vulnerável ou ameaçada nos EUA. Como indicam os seus nomes, ela não se limita a colonizar fendas de rochas calcárias, mas também aparece em muros, sobretudo os que levaram uma camada de argamassa.

As frondes da arruda-dos-muros são glabras, de cor verde-baça, atingem não mais que 15 cm de comprimento, e aparecem dispostas em tufos densos e emaranhados. Têm um formato peculiar, com três a cinco pares de pinas que se dividem, por sua vez, em duas a cinco pínulas de recorte romboidal. Com algum esforço de abstracção, concede-se que elas têm alguma semelhança com a folhagem da arruda-comum (Gruta graveolens), o que talvez explique as designações, tanto a científica como a vernácula, deste feto fissurícola.

(Fissurícola é uma daquelas palavras bonitas, não dicionarizadas, que os botânicos gostam de usar. Não é preciso ser-se muito perspicaz para lhe adivinhar o sentido. E, para dar bom uso ao vocábulo, assinalamos que na primeira foto aparece também o Ceterach officinarum, um feto não menos fissurícola do que o Asplenium ruta-muraria.)

11/02/2011

O Minho tem o romanesco da árvore e o romance da família

Rio Arado, Gerês
O Minho lucra muito, visto assim de passagem, na imperial de uma diligência, lá muito no galarim do tejadilho, onde as moscas não se álem a ferretoar-nos a testa e a sevandijar-nos os beiços convulsos de lirismo.

Viu V. Ex.ª perfeitamente o Minho por fora: as verduras ondulando nas pradarias, os jorros de água espumando na espalda dos outeiros, os fragoedos às cavaleiras dos milharais, a amendoeira a florejar ao lado do pinheiral bravio, as ruínas do paço senhorial com os seus tapetes de ortigas e guadalmecins de musgo ao pé da chaminé escarlate e verde do negreiro a golfar rolos turbinosos de fumo indicativo de panelas grandes e galinhas gordas, lardeadas de chouriços. Simultaneamente, ouviu V. Ex.ª o som da buzina pastoril ressonando a sua longa toada nas gargantas da serra; viu os espantadiços rebanhos alcandorados nos espinhaços dos montes, e os rafeiros à ourela das estradas com os focinhos nas patas dianteiras, orelhas fitas e olhar arrogante. Reparou decerto na pachorra estóica do boi cevado, que parece estar contemplando em si mesmo a metempsicose em futuro cidadão de Londres mediante o processo do bife. Tudo isto, que é a forma objectiva do Minho romântico, viu V. Ex.ª. (...)

Mas o que D. António da Costa não teve tempo de ver e apalpar foi o miolo, a medula, as entranhas românticas do Minho; quero dizer – os costumes, o viver que por aqui palpita no povoado destes arvoredos onde assobia o melro e a filomela trila. (...)

É neste meio que eu me abalanço a esgaratujar novelas.

Camilo Castelo Branco, O Comendador (Novelas do Minho, 1875)

10/02/2011

Antes que chegue a Primavera

Erica erigena R. Ross


As urzes fazem parte daquela matéria vegetal indiferenciada mas perigosamente inflamável a que alguns chamam biomassa. Ao se amalgamar toda a riqueza do mundo vegetal num único substantivo de conotação claramente desdenhosa ocasionam-se atitudes como a daquele responsável militar que mandou cortar muitos hectares de pinhal em São Jacinto. Alegou ele que a operação mais não foi que uma limpeza rotineira da biomassa em excesso. De facto, a biomassa não tardará a recuperar, mas, em vez de ser composta por pinheiros, salgueiros e camarinhas, sê-lo-á exclusivamente por acácias. Para o general em guerra contra a natureza não fará qualquer diferença.

Os montes hoje em dia forrados a tojo e urze tiveram, noutras eras, uma cobertura arbórea que a ocupação humana reduziu a quase nada. Esses matos representam a primeira etapa do processo de regeneração natural; se cessarem a pastorícia com as suas queimadas periódicas, se regredirem todas as actividades humanas que intervêm activamente na paisagem, então as árvores regressarão pouco a pouco aos montes de onde foram expulsas. Como isso não acontecerá tão cedo, a vegetação pioneira acaba por assumir carácter permanente. No entanto, é já possível em certas zonas do interior do país testemunhar essa sucessão ecológica com o avanço progressivo dos bosques de carvalho-negral. Talvez seja consolador saber que, quando nós desaparecermos, desaparecerão também as urzes dos montes.

Só que há urzes e urzes. Pelo porte avantajado (até 2 metros de altura) e pela coloração rosada das flores, a Erica erigena até se poderia confundir com a Erica australis. Acontece que as duas dificilmente se encontram lado a lado em ambiente natural: a E. australis coloniza encostas secas de norte a sul do país; a E. erigena, por contraste, carece de humidade quase permanente no solo, e em Portugal, onde se encontra só no litoral centro e numa pequena faixa entre o Alentejo e o Algarve, está restrita a margens de lagos e de cursos de água a baixa altitude. As plantas que fotografámos, e que vivem junto à lagoa da Vela, em Quiaios, são bem exemplificativas dessa preferência.

O habitat é pois um indicador importante quando se trata de identificar urzes. Convém, no entanto, realçar alguns detalhes morfológicos. As folhas da Erica erigena, que se agrupam em verticilos de quatro, têm as margens dobradas de tal modo que só deixam entrever uma estreita faixa da face inferior. E as flores, com cerca de 7 mm de comprimento, são também especiais: o cálice é formado por quatro sépalas rosadas, pontiagudas, e as anteras são escuras, emergindo timidamente do tubo da corola. Talvez seja proveitoso ao leitor comparar estas flores com as de outras urzes já aqui antes mostradas.

Refira-se, a concluir, que a Erica erigena, espontânea na Península Ibérica, França e Irlanda (erigena significa "irlandesa"), é quase sósia da Erica carnea, uma urze alpina e centro-europeia que não ocorre em Portugal nem em Espanha, mas que é por vezes vendida em centros de jardinagem. As duas urzes têm boas qualidades ornamentais e partilham a virtude de florir no Inverno.

09/02/2011

Azul da Pérsia

Veronica persica Poir.
Nome vulgar: verónica-da-Pérsia
Distribuição global: possivelmente nativa do Cáucaso e do sudoeste asiático, encontra-se hoje espalhada pelo mundo; prefere terrenos húmidos e nitrificados, e é habitual em jardins e hortas
Distribuição em Portugal: presente em todo o território nacional (continente e ilhas)
Época de floração: quase todo o ano
Data e local da foto: Parque Biológico de Gaia, Abril de 2007

08/02/2011

Erva-das-nuvens


Sanicula europaea L.
Sanicula azorica Guthn. ex Seub.
The Greeks were right when they made Apollo the god both of imagination and of sanity; for he was both the patron of poetry and the patron of healing. G.K. Chesterton (Orthodoxy, 1908)

Insanos, quase não fotografámos esta herbácea ao vê-la tão pequenina e com inflorescências que nos pareceram de asterácea: capítulos de uma dezena de flores masculinas na periferia e uma ou duas flores hermafroditas ao centro. De facto, trata-se de umbelas: as flores exteriores, com cinco pétalas brancas de cerca de 3 mm de comprimento, são pediceladas e formam um "guarda-chuva" aberto. E afinal esta planta é parente da cenoura (Daucus carota L.), da salsa (Petroselinum sativum L. Mill.) e da cicuta (Conium maculatum L.), e útil como as duas primeiras: a infusão das folhas, com aroma a coentro, é ainda hoje recomendada como antiséptico e expectorante.

A sanícula é uma planta perene, rizomatosa, que requer prados húmidos e sombrios em bosques de montanha, mas não é caprichosa quanto ao substrato. Da Península Ibérica, prefere o norte — e na serra do Açor, onde a encontrámos, só ocorre na Mata da Margaraça (a julgar pelo livro A flora da Serra do Açor, de Paulo Cardoso da Silveira). As folhas, quase todas em ramalhete basal e com pecíolos curvados que nem sachos, são palmadas com cinco a sete lóbulos. A floração decorre entre Abril e Julho e os frutos são cerdosos (vêm-se dois numa das fotos).

O género Sanicula abriga duas espécies europeias, a S. europaea (da Europa, Ásia Menor e norte de África) e a S. azorica, um endemismo açoriano conhecido como erva-do-capitão, de habitats permanentemente encharcados (a chamada zona das nuvens), presente em poucos locais e quase sempre em populações pequenas. Diferem pouco na fotografia, mas de facto a açoriana é muito mais alta e tem folhas maiores com dentes aguçados nas margens.

Sanicula é um diminutivo do latim sanu, que alia o são ao sisudo.

07/02/2011

Afinidades vegetais

Dryopteris affinis (Lowe) Fraser-Jenkins


Ninguém se lembraria de desvalorizar os carvalhais alegando que carvalhos há muitos; do mesmo modo, a abundância não retira lustre ao grande feto que protagoniza o episódio de hoje. O Dryopteris affinis, que dá pelo nome vernáculo de fentilha, vive justamente em bosques caducifólios, em locais frescos ou próximos de linhas de água, e notabiliza-se pelas suas frondes arqueadas, de cerca de 1 metro de comprimento, dispostas em forma de volante — não o volante dum automóvel, mas o projéctil usado no badminton. A sua presença em carvalhais e soutos na metade norte do país é indispensável para compor a atmosfera solene e misteriosa desses lugares. Um bosque não é uma plantação de árvores emergindo como postes de um chão nu; há que preencher os intervalos entre os troncos, e entre as copas e o solo, para criar um habitat tridimensional que proporcione refúgio e sustento a animais e plantas. As fentilhas fazem parte desse equilíbrio, ocupando o patamar intermédio entre as copas elevadas e as vidas rastejantes.

As hastes da fentilha (às quais deveríamos mais correctamente chamar ráquis) estão recobertas por escamas castanho-douradas que dão às frondes embrionárias uma aparência de bengala de ricaço. Esse revestimento permite diferenciá-la de uma espécie semelhante, mas menos comum, o feto-macho (Dryopteris filix-mas), que além do mais tem o ápice das pínulas mais arredondado e um menor número de indúsias (membranas que protegem os esporângios) em cada pínula.

Vendo bem, identificar a Dryopteris affinis é tarefa ao alcance de qualquer amador atento. Insatisfeitos com essa democratização da botânica, os profissionais resolveram complicar o assunto a ponto de fazerem dele coutada de especialistas. Assim, a Flora Ibérica assinala nada menos que três subespécies de Dryopteris affinis; e, dentro de uma delas, distingue ainda duas variedades. Alguém muito mais habilitado do que nós escreveu que essas subespécies e variedades «são de difícil distinção, tanto ao nível morfológico, ecológico como corológico». Manda pois a prudência que sigamos o exemplo desse autor, e não nos ponhamos com minúcias taxonómicas despropositadas. Registemos, ainda assim, que em Portugal (e, em particular, na serra do Gerês) estão assinaladas as subespécies affinis e borreri.

05/02/2011

Curso de Botânica 2011



A sexta edição do Curso de Botânica — Morfologia e Identificação é uma iniciativa da Sociedade Portuguesa de Botânica e terá lugar de 25 a 30 de Abril em Barrancos, no Parque de Natureza de Noudar. As inscrições já estão abertas e decorrem até 1 de Abril. O curso é eminentemente prático, inclui várias saídas de campo, e visa proporcionar aos formandos os conhecimentos básicos de morfologia vegetal para identificar a nossa flora espontânea. Eis os objectivos do curso:

  • Fornecer conhecimentos científicos práticos que permitam a identificação de plantas à lupa e no campo.
  • Adquirir as bases teóricas para a compreensão das estruturas morfológicas das plantas.
  • Desenvolver a prática na observação de material vegetal com recurso a instrumentos de observação.
  • Desenvolver a prática na utilização de chaves de identificação, uso de Floras e nomenclatura botânica.
Para mais informações, consulte esta página da Sociedade Portuguesa de Botânica.

04/02/2011

Fórnea

Serra dos Candeeiros
Como encontrar na floresta, quando se está perdido, a verdadeira casa? Eis o difícil. Encontrar casa na casa é para pessoas que se orientam bem, que têm bússola, que reconhecem o caminho já feito e o rosto das pessoas que se sabe que, em princípio, não são lobos que de noite gostem do seu pescocinho tenro.

Voltar a casa é fácil, basta não te enganares no caminho. Não voltar a casa é que é difícil: é necessário que não queiras reconhecer, outra vez, o caminho.

Gonçalo M. Tavares, Matteo perdeu o emprego (Porto Ed., 2010)

03/02/2011

Troca de estações

Euphorbia hyberna L.


É consolador verificar como certos equívocos ficam gravados em latim para a posteridade. Sabendo que Lineu e outros grandes cometeram não poucos lapsos, a nossa própria inépcia parece-nos não só inevitável como respeitosa e apropriada. Se os maiores tantas vezes falharam, seria de uma presunção intolerável arrogarmo-nos de infalíveis.

O epíteto hyberna que Lineu colou a esta eufórbia diz-nos que ela é de floração invernal. É sabido, porém, que a planta floresce de Abril a Junho, com um possível prolongamento até Julho (mês em que as fotos foram tiradas). Lineu publicou o seu Species Plantarum em meados do século XVIII; de então para cá, com a subida geral das temperaturas, é improvável que o calendário fenológico tenha sido retardado. Não há pois volta a dar-lhe: Lineu enganou-se ou foi enganado. Mesmo que ele (ao contrário de alguns dos seus sucessores) estivesse aberto a críticas e disposto a corrigir-se, as regras da taxonomia impunham (e ainda impõem) que o primeiro nome publicado de uma dada espécie tenha prioridade sobre todos os outros. A eufórbia-de-Inverno-que-floresce-na-Primavera ficou para sempre amarrada ao nome que Lineu lhe entendeu dar.

A Euphorbia hyberna é uma planta vivaz, com caules de uns 60 a 70 cm de altura, robustos, erectos e sem ramificações, e folhas sésseis de 7 a 10 cm de comprimento, glabras na face superior e algo penugentas no verso. Como todas as eufórbias, cada uma das suas inflorescências é composta por uma única flor feminina rodeada por numerosas flores masculinas reduzidas a estames; o conjunto, que se chama ciátio, fica alojado num cálice formado por duas ou mais brácteas. De cada ciátio podem emergir vários raios sustentando novos ciátios, num arranjo de bifurcações sucessivas a que os botânicos chamam pseudo-umbela (ver aqui e aqui). O que há de estranho nas plantas fotografadas é que essas bifurcações estejam ausentes, contentando-se cada uma delas em produzir um só ciátio. Sem ser um fenómeno inédito, o mais comum é que a Euphorbia hyberna exiba pseudo-umbelas semelhantes às das suas congéneres.

A Euphorbia hyberna, que prefere lugares húmidos ou sombrios acima dos 900 m de altitude, encontra-se distribuída por meia dúzia de países europeus: Irlanda, Grã-Bretanha, França (incluindo a Córsega), Espanha, Portugal e Itália (incluindo a Sardenha). Em Portugal aparece em Trás-os-Montes (serras do Gerês e da Nogueira) e na Beira Baixa (serra da Estrela). As populações geresianas são escassas e surgem nos confins orientais da serra, em vales de montanha sombreados por vidoeiros ou carvalhos-negrais.

02/02/2011

Verónica-de-folhas-longas

Veronica longifolia L.
Nomes vulgares: long-leaved speedwell, langblättriger ehrenpreis
Distribuição global: Europa, desde a Alemanha até à Rússia, em margens de rios e em prados alagadiços
Distribuição em Portugal: cultivada em alguns (raros) jardins
Época de floração (no seu habitat natural): Junho a Agosto
Data e local das fotos: Parque do Arnado, Ponte de Lima, Novembro de 2007

01/02/2011

Vidas breves & pequenas

Hornungia petraea (L.) Rchb.
Pensando bem, vale mais morrer já, morre-se agora muito tarde.
Vergílio Ferreira, Nítido Nulo (Portugália Ed., 1971)

De vida efémera, que se resume a uns dois meses, esta planta anual baixinha alheia-se da ruína que atinge as outras e poupa-se a reflexões filosóficas sobre o mundo transitório. Com esta sua existência fugaz, de que ficam apenas quatro sementes por cada flor, não tem havido tempo para lhe atribuírem um nome vernáculo em português. Em espanhol, conhecem-na por mastuerzo de peñas. São como penas as folhas coriáceas e indentadas, as basais arrosetadas com cerca de dois centímetros de comprimento, sésseis e raras as caulinares.

As flores agrupam-se em racimos no topo de hastes que não sobem além dos 15 cm. São arranjos de quatro pétalas brancas de um milímetro de diâmetro e quatro nectários minúsculos, envolvidos por quatro sépalas púrpura. Na foto da esquerda, pode ver-se um fruto castanho a nascer no centro de uma flor: trata-se de uma silíqua, isto é, de uma cápsula com duas câmaras separadas por um septo (como numa noz), cada uma com duas sementes.

Aprecia solos calcários em habitats soalheiros, e também — como indica o epíteto específico — muros e rochas (as tais peñas). Hornungia é um género pequeno, de três espécies. A H. petraea, a única que ocorre na Península (e que conta com duas subespécies; em Portugal só aparece a subsp. petraea, restrita à Beira Litoral e à Estremadura), é nativa da Europa, Ásia e Norte de África. A designação evoca o botânico e entomólogo alemão Ernst Gottfried Hornung (1795-1862).

31/01/2011

Fentanha tamanha

Polystichum setiferum (Forssk.) Woynar

Depois de andarmos entretidos com os fetos que vivem nas árvores ou nos muros, é altura de nos virarmos para aqueles mais convencionais que têm as raízes enterradas no solo. Alguns deles atingem dimensões de respeito, e são tão frequentes nos nossos bosques que acabam por se perder no anonimato. É um exercício de humildade prestar atenção ao que é grande e vulgar, em vez de valorizar somente aquelas minúsculas raridades que exigem olho de caçador. Sem quererem parecer tropicais, os nossos maiores fetos não destoariam se transplantadas para uma dessas florestas míticas que há nos trópicos. Aliás, as florestas nativas dos Açores e da Madeira, densas e húmidas como são, acolhem muitos destes fetos, entre eles o Polystichum setiferum (ou fentanha) de que falamos hoje.

Viver no chão à sombra das árvores é levar uma existência tranquila, que não exige estratégias especiais de sobrevivência. Pelo contrário, viver nos rochedos batidos pelo ar salgado da beira-mar, como faz o Asplenium marinum, não se consegue sem custos. Assim, o feto-marinho tem frondes curtas e coriáceas, quase carnudas, e a fentanha tem frondes grandes e maleáveis. A sua aparência próspera dá testemunho do solo fresco, rico em húmus, próprio dos bosques caducifólios onde lhe calhou morar.

As folhas (ou frondes) da fentanha, cada uma delas com cerca de um metro de comprimento, costumam agrupar-se em coroa. São frondes bipinadas: os segmentos que as compõem, distribuídos simetricamente ao longo da ráquis, estão por sua vez divididos em segmentos mais pequenos, chamados pínulas. Há fetos simplesmente pinados (como o feto-marinho e o feto-pente), outros tripinados (como a cabrinha), e outros ainda de frondes inteiras (como a língua-cervina — POR FAVOR NÃO SE ESQUEÇA DO CONCURSO). A fentanha pode confundir-se com outros fetos não menos comuns, e para uma identificação segura convém inspeccionar-lhe as pínulas — que são dotadas de um curto pecíolo e têm um formato assimétrico peculiar, com o recorte das margens rematado por espinhos.

29/01/2011

AOSP — Associação de Orquídeas Silvestres — Portugal



As orquídeas são decerto das plantas mais fascinantes e variadas do planeta, mas muita gente julga erradamente que elas são um exclusivo dos países tropicais, e que em países como o nosso, com uma natureza menos luxuriante, elas só podem ser admiradas em cultivo. De facto, em Portugal há cerca de 70 espécies de orquídeas silvestres, distribuídas de norte a sul do território e também nos Açores e na Madeira. Algumas delas são raras e estão em risco de desaparecer; pelo menos duas já estarão extintas.

A recém-fundada AOSP — Associação de Orquídeas Silvestres — Portugal quer contribuir decisivamente para o conhecimento e salvaguarda deste nosso valioso património natural. Quem goste de orquídeas ou se preocupe com a conservação da natureza não deve deixar de juntar-se a este esforço inscrevendo-se como sócio. Informe-se melhor lendo os estatutos da AOSP ou escrevendo para o endereço aospficalhoana(at)gmail.com. A ficha de inscrição pode ser obtida aqui.

ADENDA

  1. Veja aqui quem são os membros fundadores da AOSP. José Monteiro tem vários livros publicados sobre orquídeas silvestres portuguesas e é o responsável por este utilíssimo portal. Luísa Borges e Joaquim Pessoa são os principais autores do blogue Insectos a Florir e têm proferido várias palestras de divulgação sobre orquídeas. Ivo Rodrigues é o autor do blogue Orquídeas além-Tejo. Todos os membros fundadores da associação são profundos conhecedores das nossas orquídeas silvestres e dos seus habitats.
  2. Para pagar a sua quota por transferência bancária deve fazê-lo para o NIB 003508330000687113030. Em caso de transferência online, envie o comprovativo para aospficalhoana(at)gmail.com

28/01/2011

Saramago rosa

Raphanus raphanistrum L.


Os pescadores eméritos da terra gabavam-se de ter os seus próprios métodos, as suas estratégias, as suas artes mágicas, que geralmente duravam uma temporada para logo darem lugar a outros métodos, a outras estratégias, a outras mágicas artes sempre mais eficazes que as anteriores. Nunca cheguei a beneficiar de nenhuma delas. A última de que me lembro foi um famoso pó-de-roseira (a dúvida que então tinha, e até hoje, era saber que parte da roseira seria a que os entendidos pulverizavam: quero acreditar que fosse a flor), graças ao qual, previamente lançado à água como uma espécie de engodo poético, os peixes caíam, perdoe-se a incorrecta comparação, como tordos. O pobre de mim jamais pôde tocar com os seus indignos dedos aquele ouro em pó. E essa terá sido, certamente, a causa do desaire que sofri perante o maior (ainda que para todo o sempre invisível) barbo da história piscícola do Tejo. Contarei com palavras simples o lamentável acontecimento. Tinha eu ido com os meus petrechos a pescar na foz do Almonda, chamávamos-lhe a «boca do rio», onde por uma estreita língua de areia se passava nessa época ao Tejo, e ali estava, já o dia fazia as suas despedidas, sem que a bóia de cortiça tivesse dado sinal de qualquer movimento subaquático, quando, de repente, sem ter passado antes por aquele tremor excitante que denuncia os tenteios do peixe mordiscando o isco, mergulhou de uma só vez nas profundas, quase me arrancando a cana das mãos. Puxei, fui puxado, mas a luta não durou muito. A linha estaria mal atada ou apodrecida, com um esticão violento o peixe levou tudo atrás, anzol, bóia e chumbada. Imagine-se agora o meu desespero. Ali, à beira do fundão onde o malvado devia estar escondido, a olhar a água novamente tranquila, com a cana inútil e ridícula nas mãos, e sem saber o que fazer. Foi então que me ocorreu a ideia mais absurda da minha vida: correr a casa, armar outra vez a cana de pesca e regressar para ajustar contas definitivas com o monstro. Ora, a casa dos meus avós ficava a mais de um quilómetro do lugar onde me encontrava, e era preciso ser pateta de todo (ou ingénuo, simplesmente) para ter a disparatada esperança de que o barbo iria ficar ali à espera, entretendo-se a digerir não só o isco mas também o anzol e o chumbo, e já agora a bóia, enquanto a nova pitança não chegava. Pois apesar disso, contra razão e bom senso, disparei a correr pela margem do rio fora, atravessei olivais e restolhos para atalhar caminho, irrompi esbaforido pela casa dentro, contei à minha avó o sucedido enquanto ia preparando a cana, e ela perguntou-me se eu achava que o peixe ainda lá estava, mas eu não a ouvi, não a queria ouvir, não a podia ouvir. Voltei ao sítio, já o Sol se pusera, lancei o anzol e esperei. Não creio que exista no mundo um silêncio mais profundo que o silêncio da água. Senti-o naquela hora e nunca mais o esqueci.

José Saramago, As Pequenas Memórias (Caminho, 2006)

27/01/2011

Girassol de Agosto

Helianthus tuberosus Lodd.
Os girassóis (género Helianthus) são malmequeres com a mania das grandezas. Ou então são como aquelas esculturas de homens ou mulheres notáveis em que a grandeza moral ou cívica do homenageado é simbolizada pelo gigantismo do monumento. Os girassóis seriam então peças escultóricas em matéria vegetal, feitas para serem vistas ao longe, destinadas a homenagear todas as margaridas e malmequeres à face da Terra.

Sucede que malmequer e margarida são designações imprecisas que abarcam um sem-número de plantas diferentes. O que há de comum nelas é o tipo de inflorescência, ainda assim sujeito a variações subtis; tudo o resto (formato e disposição das folhas, tamanho, hábito, etc.) é matéria de livre arbítrio. Assim, e tirando as flores, os girassóis só são verdadeiramente parecidos consigo próprios, o que não permite tomá-los como representações de outrem.

Mesmo os desatentos terão já percebido que, no sobe e desce das modas alimentares, o óleo de girassol tem sofrido grandes recuos de popularidade. Culpa talvez do azeite, que tem estado em alta nos últimos anos. Não se pode dizer que seja uma evolução ruim. O azeite é coisa nossa, e as oliveiras são parte essencial da paisagem portuguesa. Os campos de girassóis, mesmo que dêem postais bonitos, são um exotismo postiço.

Nesta altura o leitor prepara-se para nos alertar que o que se vê nas fotos não se parece muito com os girassóis tradicionais. O disco central da inflorescência encolheu consideravelmente e não promete dar grande fartura de sementes. De facto, o girassol-do-óleo é o Helianthus annuus — que, como sugere o epíteto, é uma planta anual —, enquanto que o girassol acima retratado é o Helianthus tuberosus, planta vivaz conhecida equivocamente como alcachofra-de-Jerusalém ou girassol-do-Brasil. Ambas as espécies são originárias da América do Norte, e aliás o género Helianthus é exclusivo do continente americano.

Naturalizado em várias regiões de Portugal, e em particular no vale do Douro, o Helianthus tuberosus floresce a partir de Agosto e pode ultrapassar os 3 metros de altura. É amplamente cultivado na Europa pelo seu tubérculo, que se pode consumir em saladas ou como substituto da batata, e que na Alemanha é usado para produção de licor.

26/01/2011

Verónica vai a banhos

Veronica anagallis-aquatica L.
Nomes vulgares: morrião-da-água, verónica-brava, water speedwell
Distribuição global: presente em todos os continentes, excepto na Antárctida, em margens de cursos de água e lugares encharcados em geral
Distribuição em Portugal: quase todo o território continental
Época de floração: Março a Novembro
Data e local das fotos: Valadares, Vila Nova de Gaia, Agosto de 2010

25/01/2011

Mar ausente

Urginea maritima (L.) Baker


Springtime, Summer and Fall: days to behold a world / Antecedent to our knowing, where flowers think / Theirs concretely in scent-colors/ (...) / Winter, though, has the right tense for a look indoors / At ourselves and with First Names to sit face to face, / Time for reading of thoughts, time for trying out / Of new meters and new recipes, proper time / To reflect on events noted in warmer months.
W.H. Auden, In Due Season

O jacinto-do-mar, como muitas orquídeas silvestres, tem um calendário peculiar em que parece desacompanhar-nos. Beliscado pelo Outono, começa a florir no fim do Verão, quando os polinizadores já rareiam. Por isso adoptou uma boa estratégia: fabrica hastes florais altas (50-150 cm), bem visíveis porque nuas de folhas, com as inflorescências no topo e as flores, estreladas, melíferas e perfumadas, dispostas em anéis que amadurecem da base para o cimo. Vivendo perto do mar (mas também longe dele), resiste bem à estiagem, tolera os salpicos do rebentar das ondas, e deixa que o vento lhe dissemine graciosamente as sementes acomodadas em cápsulas piriformes de cor ocre-laranja.

A folhagem, verde-esmeralda, coriácea e glabra, é a parte que a planta expõe no Inverno. Em lugares de solo bem drenado e calcário, as rosetas de folhas lanceoladas, ligeiramente onduladas, por vezes carenadas na ponta, são agora tão numerosas que nem lamentamos quando vemos um bicho de orelhas grandes e cauda pequena (deve ser esse) a trincá-las à pressa. Naturalmente, o esforço para confundir as estações, como aquele em que esta planta vivaz se empenha, tem de ter algum respaldo. A cebola-albarrã depende de um nabinho, que pode chegar aos cinco quilos, e das raízes carnudas e tuberosas que a alimentam nos meses em que não tem folhas – e onde o tal coelho não toca, pois talvez pressinta que ali há o princípio activo, usado comercialmente, de alguns raticidas.

Já pertenceu ao género Scilla: era a Scilla maritima L., a que floria depois da Scilla autumnalis L. e antes da Scilla monophyllos Link. A semelhança na morfologia das flores e folhas justificava plenamente este parentesco, mas a ciência não se contenta com aparências. Está hoje entregue ao género Urginea, essencialmente africano, com algumas (poucas) espécies na região mediterrânica e na Ásia Menor, cuja designação evoca uma tribo da Argélia, os Beni Urgin, da região onde a planta foi identificada.