30.6.08

Acabar na praia


Iberis procumbens - São Jacinto


Crucianella maritima - Aguda / São Jacinto


Medicago marina - Aguda / Granja


Euphorbia paralias / Silene littorea - São Jacinto

Foi com os metrosíderos em flor que a Manuela Ramos inaugurou o Dias com Árvores em 30 de Junho de 2004: são árvores que vieram dos antípodas e vivem felizes à beira-mar. E é à beira-mar que regressamos para encerrar a nossa actividade neste blogue, por ser lá que melhor se entende que cada fim é o começo de outra coisa.

Maria Carvalho
Paulo Araújo

29.6.08

Classificado

«Um dia desta semana, farto de vendavais, naufrágios, boatos, mentiras, polêmicas, farto de ver como se descompõem os homens, acionistas e diretores, importadores e industriais, farto de mim, de ti, de todos, de um tumulto sem vida, de um silêncio sem quietação, peguei de uma página de anúncios, e disse comigo:
...- Eia, passemos em revista as procuras e ofertas, caixeiros desempregados, pianos, magnésias, sabonetes, oficiais de barbeiro, casas para alugar, amas-de-leite, cobradores, coqueluche, hipotecas, professores, tosses crônicas...
...E o meu espírito, estendendo e juntando as mãos e os braços, como fazem os nadadores, que caem do alto, mergulhou por uma coluna abaixo. Quando voltou à tona trazia entre os dedos esta pérola:
...
«Uma viúva interessante, distinta, de boa família e independente de meios, deseja encontrar por esposo um homem de meia-idade, sério, instruído, e também com meios de vida, que esteja como ela cansado de viver só; resposta por carta ao escritório desta folha, com as iniciais M.R., anunciando, a fim de ser procurada essa carta.»


Nymphaea sp.

...Gentil viúva, eu não sou o homem que procuras, mas desejava ver-te, ou, quando menos, possuir o teu retrato, porque tu não és qualquer pessoa, tu vales alguma coisa mais que o comum das mulheres. (...) A cláusula de ser o esposo outro aborrecido, farto de solidão, mostra que tu não queres enganar, nem sacrificar ninguém. Ficam desde já excluídos os sonhadores, os que amem o mistério e procurem justamente esta ocasião de comprar um bilhete na loteria da vida. Que não pedes um diálogo de amor, é claro, desde que impões a cláusula da meia-idade, zona em que as paixões arrefecem, onde as flores vão perdendo a cor purpúrea e o viço eterno. Não há de ser um náufrago, à espera de uma tábua de salvação, pois que exiges que também possua. E há que ser instruído, para encher com coisas do espírito as longas noites do coração (...).
...Viúva minha, o que tu queres realmente, não é um marido, é um remédio contra o enjôo. (...) Não te contentas com o remédio de Sêneca, que era justamente a solidão, "a vida retirada, em que a alma acha todo o seu sossego". Tu já provaste esse preparado; não te fez nada. Tentas outro; mas queres menos um companheiro que uma companhia.»


Machado de Assis, Vae soli: "Gentil viúva...", 1892

28.6.08

Subsidio-dependência


Orobanche hederae

Foi por ela frequentar o cemitério londrino de Highgate, onde é estimada pela raridade, que tivemos notícia desta planta, a que podemos chamar erva-toira-das-heras. Quando lá fomos ainda não sabíamos disso, e por isso não a procurámos nos lugares certos, que são os muros calcários forrados de hera. Desprovida de clorofila e incapaz de fotossíntese, é das raízes da hera que a Orobanche hederae extrai todo o seu sustento. No sul da Europa ela não é assim tão rara, e bem que podíamos tê-la notado há mais tempo: a da foto ergue as suas hastes floridas, já murchas e tingidas de castanho-ferrugem, junto à Casa do Roseiral, nos jardins do Palácio de Cristal, no Porto. Quando a planta está ainda viçosa, as flores são de um branco leitoso e o caule apresenta um bonito tom dourado.

Esta planta é uma parasita, como são todas as suas 150 congéneres - mas só por tacanhez a podemos taxar de inútil. A hera, incapaz de se enfeitar a si própria, alimenta a erva-toira em troco da beleza que esta lhe acrescenta: é uma renda toda paga em flores.

Mas há as mentalidades práticas que, puxando da máquina de calcular, tudo reduzem a números. Viver à custa de outrem, sem produzir riqueza mensurável, é cair no pecado da subsidio-dependência, que tanto prejudica o PIB nacional. Subsídios a fundo perdido, artistas sem público, plantas sem clorofila: como podemos assim ter esperança de vencer a crise?

P.S. O valkirio mostrou há tempos uma Orobanche sanguinea, que parasita as leguminosas do género Lotus.

27.6.08

Love-in-a-mist


Nigella damascena

Esta herbácea anual é originária do sul da Europa, norte de África e sudoeste da Ásia mas o epíteto específico aponta apenas para Damasco, na Síria. Temos encontrado esta flor bizarra em campos de milho ou zonas de terra seca e rochosa. Comecemos por observá-la em detalhe e, se o tempo sobrar, do que duvidamos, olharemos para o resto da planta.

As flores são solitárias e terminais, com cerca de 4cm de diâmetro, envolvidas por um rufo de brácteas que lembra uma cabeleira verde (os cheveux-de-Vénus de que fala a botânica em francês). Este ninho verde é raro na espécie N. arvensis (europeia) e ausente na N. sativa (asiática). O azul da flor está pintado numa vintena de sépalas; as pétalas são as estruturas minúsculas mais escuras ao centro em cuja base estão os nectários (tem razão, caro leitor, não se vêem, mas é que são só para as abelhas). O conjunto é encimado por um tufo de estames e carpelos, torcidos de modo a parecerem ansiosos por procriar.

O fruto, que se vê na foto da esquerda, é uma cápsula insuflada com numerosas sementes escuras - nigella deriva justamente do latim niger. As da espécie N. sativa têm aroma de morango (tem razão, caro leitor, a identificação desta fragrância não é unânime) e são usadas como condimento de pães, bolos ou legumes. O cominho-preto, às vezes confundido com gergelim tostado, é o enfeite usual do ladeiro pão naan da deliciosa culinária indiana; e o óleo das sementes é um poderoso bactericida.

Resta lembrar que as brácteas são folhas ligeiramente modificadas; daqui se crê, mesmo sem ver, que as folhas são multífidas e com formato de agulhas. Falta esclarecer que «rufo» é aquela gola de vincos engomados, à Camões, moda no séc. XVI.

Por hoje é tudo, podem sair.

26.6.08

Jardim da Gulbenkian

Novo álbum

Pelargónios no Jardim de S. Lázaro


Pelargonium sp.

«S. Lázaro nasceu muito pálido. Rescendia a ovelha molhada. Quando lhe davam uns açoites, lançava torrõezinhos de açucar pela boca. Captava os menores ruídos. Uma vez confessou a sua mãe que podia contar na madrugada, pelas suas pulsações, todos os corações que havia na aldeia.

Depois de ressuscitar inventou o ataúde, o círio, as luzes de magnésio e as estações de caminhos-de-ferro. Quando morreu estava duro e laminado como um pão de prata. A sua alma ia atrás, desvirgada já pelo outro mundo, cheia de aborrecimento, com um junco na mão.»


Federico García Lorca, Poemas em prosa (trad. José Bento)

25.6.08

Carqueja-mansa


Cakile maritima

Os franceses, os mesmos que ensinaram o mundo a comer caracóis (embora ainda haja quem resista a experimentá-los), já provaram as folhas carnudas desta planta, e não se deram mal com a experiência. Fazem-nos saber que elas são picantes. Combinadas com os mesmos caracóis que costumam aninhar-se nas plantas dunares, talvez dêem um prato delicioso; fica a sugestão para proveito dos mais arrojados.

Não que o feito gaulês tenha sido dos mais temerários: afinal, a Cakile pertence à família da couve, do rabanete e do agrião, tudo plantas inofensivas que desde sempre tiveram lugar cativo na dieta humana. Mesmo que algumas plantas da família não sejam agradáveis ao paladar, venenosas não são, e até é provável que sejam nutritivas. Por isso tem alguma utilidade saber distinguir as crucíferas: se o leitor clicar na etiqueta Cruciferae ao fundo do texto, pode reconhecer, nos vários exemplos mostrados, a semelhança das flores, sempre com quatro pétalas dispostas em cruz e os estames agrupados ao centro em volta do estigma.

A Cakile maritima floresce de Junho a Setembro, apresenta flores brancas ou rosadas, e é espontânea nas dunas de toda a Europa, do Mediterrâneo ao Atlântico. Atravessou ainda o oceano para se instalar na América do Norte, onde a sua presença tanto a leste como a oeste é uma ameaça para a sua prima americana, Cakile edentula, que comunga com ela a preferência por habitats costeiros.

24.6.08

Feriado republicano

Estamos no ano 1911, com uma República ainda bebé e o país governado por uma equipa provisória que, nos primeiros dias de poder, decreta quais os feriados para todo o território nacional (1 e 31 de Janeiro, 5 de Outubro, 1 e 25 de Dezembro) e, desaparecidos os entraves da monarquia paternal e centralizadora, estabelece que cabe a cada município escolher um dia extra como feriado no respectivo concelho. Na reunião de 19 de Janeiro, a recém-empossada Comissão Administrativa do Município do Porto entende dar seguimento a esta deliberação. O vereador (da viação, ruas e jardins) Henrique Pereira d'Oliveira propõe que o feriado seja o de S. João pela tradição de festa no Porto nessa data. O colega de soberania Pereira Osório alega «ser-lhe indifferente o dia a escolher, mas parece-lhe que o espírito do decreto respectivo foi outro. Elle é mais talvez para se commemorar o nascimento de alguma individualidade que tenha prestado grandes serviços à cidade. N'essas condições, parece-lhe conveniente que o assumpto fique para ser resolvido em outra sessão.» O presidente Xavier Esteves opina que se «devia solemnisar sim, mas a Natureza» e que, por isso, «o dia 25 de junho, que marca o apogeu do Estio, acha-o bem.» Mas é Sousa Junior que faz história neste evento, sugerindo um processo de decisão que se tem revelado devastador para tratados: o referendo popular. «O assumpto é complicado, se bem que pareça simples. A commissão administrativa não deve votar sobre o caso sem consultar a maioria da cidade.»

No sábado 21 de Janeiro, pondo a ideia em prática, o Jornal de Notícias, por anúncio de primeira página, inicia uma consulta sobre qual o dia que o povo prefere para feriado municipal. Os portuenses escrevem milhares de postais ao periódico, dividindo-se entre o 1º de Maio e o 24 de Junho; mas a 2 de Fevereiro, na contagem final, o dia de S. João venceu a disputa.


Buddleja globosa

A tradição de guarnecer esta noite com sardinhas, manjerico (Ocimum minimum) e alho silvestre (Allium porrum) é muito anterior aos alvores da República, e sobre ela nunca houve plebiscito. Tivesse ele ocorrido, e a Buddleja globosa, do Chile e Argentina, ter-se-ia batido com valentia por um lugar no folclore: não só tem inflorescência semelhante à do alho, de que as moleirinhas poderiam fugir com igual porfia e diversão, como as bolinhas são iluminadas - o que, convenhamos, fica bonito à noite - e as flores rescendem a mel. Ora, mesmo entre aqueles para quem a zebra é impossível porque só conhecem o burro, há narizes - e muitos são sábios no inclinar-se até uma flor.

23.6.08

Festa rija


Festa em pedra - Festival de Jardins de Ponte de Lima

A natureza no jardim


Festival de Jardins - Ponte de Lima

Sou avesso àquela arte que, em prolixos textos de apoio, «questiona», «faz reflectir» ou «põe em causa»: não só porque tais lucubrações teóricas, em geral infestadas de chavões e redigidas em mau português (ou seja em que língua for), parecem servir para disfarçar insuficiências artísticas, como também porque, no estado de irrisão que a arte atingiu, já não restam ortodoxias para combater. Se não há paradigmas artísticos, como pode alguém, na sua arte, «questionar» ou «pôr em causa» o que quer que seja? Mas, por outro lado, a arte pode abrir-se ao mundo, e dirigir o seu questionamento já não a si própria mas à sociedade em geral; torna-se então arte comprometida, e tem por missão «fazer-nos reflectir». É sabido, porém, como o peso da mensagem a transmitir pode obliterar a componente artística, e como o activismo político ou social tantas vezes tem servido para suprir défices de talento.

Vem isto a propósito do Festival de Jardins em Ponte de Lima: a 4.ª edição abriu em 30 de Maio e vai até final de Setembro. Tal como na 3.ª edição, os concorrentes tiveram de respeitar um tema, que desta vez foi «Energias no Jardim». Em quase metade dos casos, a «mensagem» é de tal modo ostensiva e panfletária que esmaga qualquer ideia de jardim. A arte dos jardins, como todas as outras, não se faz só de boas intenções, e não basta encenar em ponto grande simples cartazes ou slogans. Os piores exemplos do género são os jardins Orange Power (que consiste em milhares de laranjas de plástico dentro de uma cerca de madeira) e 3,9 x 10^24 Joule (onde apenas se vê esse número escrito em algarismos gigantes). Mas há excepções: jardins que valem por si próprios, e que podem ser apreciados independentemente da mensagem que lhes quiseram incorporar. Os que mais me agradaram foram os dois das fotos: em cima Bathe in Energy Flow, de Tokiko Furuuchi, e em baixo The Orange Fuel Grove, de Flavia Goldsworthy. No segundo há um túnel intermitente e contorcionista, formado por cordas esticadas sobre uma armação de ferro, rodeando um pomar de laranjeiras com o solo revestido pelas plantas silvestres da região. Essas mesmas plantas bordejam, em jeito de prado, o tanque recortado por passadiços de madeira que constitui o centro do primeiro jardim. Talvez por coincidência, ambas as criações nos dizem que há tanta beleza no que é espontâneo como no mais rebuscado dos jardins - verdade essa que, em Ponte de Lima, podemos comprovar facilmente passeando pelas margens do rio.

Conclusões? Não tenho dúvidas em recomendar a visita ao festival, embora não gostasse de tudo quanto lá vi. Mas julgo que a subordinação dos projectos a um tema único se tem revelado mais um espartilho e uma armadilha do que uma fonte de inspiração.


Festival de Jardins - Ponte de Lima

22.6.08

A noite mais curta


Hydrangea serrata «Blue Bird»

«Quando o estio entra entristeço. Parece que a luminosidade, ainda que acre, das horas estivais devera acarinhar quem não sabe quem é. Mas não, a mim não me acarinha. (...)

Tenho principlmente sono. Não um sono que traz latente, como todos os sonos, ainda os mórbidos, o privilégio físico do sossego. Não um sono que, porque vai esquecer a vida, e porventura trazer sonhos, traz na bandeja com que nos vem até à alma as oferendas plácidas de uma grande abdicação. Não: este é um sono que não consegue dormir, que pesa nas pálpebras sem as fechar, que junta num gesto que se sente ser de estupidez e repulsa as comissuras sentidas dos beiços descrentes. (...)

Só quando vem a noite de algum modo sinto, não uma alegria, mas um repouso que, por outros repousos serem contentes, se sente contente por analogia dos sentidos. Então o sono passa, a confusão do lusco-fusco mental que esse sono dera esbate-se, esclarece-se, quase se ilumina. Vem, um momento, a esperança de outras coisas. Mas essa esperança é breve. O que sobrevém é um tédio sem sono nem esperança, o mau despertar de quem não chegou a dormir. E da janela do meu quarto fito, pobre alma cansada de corpo, muitas estrelas; muitas estrelas, nada, o nada, mas muitas estrelas...»


Fernando Pessoa, Livro do Desassossego (Assírio & Alvim, 2001)

21.6.08

Jardins japoneses

Foi anunciado em Lisboa, no final de 2004, que iria abrir ao público em Belém no Verão seguinte um jardim japonês composto por 461 cerejeiras; tratava-se de uma iniciativa da Associação de Amizade Portugal-Japão, apoiada pela Câmara Municipal, para celebrar o 461.º aniversário das relações luso-nipónicas. Em Setembro de 2006, porém, o Jornal de Notícias noticiava que a inauguração não tinha ainda data marcada, apesar de as obras da primeira fase estarem concluídas. É que as cerejeiras revelavam dificuldades em vingar, e a afluência de visitantes ao local poderia prejudicá-las. Além disso, como seria exagerado enfiar 461 cerejeiras num terreno de apenas 6000 m^2 (o que daria 13 m^2 de espaço vital para cada árvore), acabaram por ser plantadas só 170. Não sei se alguma vez houve inauguração, mas de 2006 para cá as coisas foram de mal a pior: como contou António Barreto há duas semanas no Público (pode ler a crónica na Sombra Verde), praticamente todas as árvores morreram. Isso mesmo tinha sido denunciado, em Dezembro de 2007, pelo blogue Cidadania LX, que falava ainda do relvado seco e do sistema de rega inoperante. Um único consolo é possível tirar de tamanho fiasco: por não terem chegado a ser plantadas, houve 291 cerejeiras que não morreram.

O erro mais clamoroso do projecto terá sido o local escolhido para as cerejeiras. Em 2001, no Porto, deu-se um caso semelhante: apesar dos avisos em contrário, plantaram-se oliveiras à beira-mar na requalificada rotunda do Castelo do Queijo, e secaram todas em poucos meses. Cada vez mais - em Lisboa, no Porto e no país - os nossos jardins são planeados por quem nada entende de plantas e de jardinagem; o resultado é o desperdício de dinheiro e o desmazelo no espaço público.

Além do projectista ignorante, há outra figura que explica, desta vez pela ausência, o nosso reiterado insucesso: é o jardineiro. Sem ele, não há Câmara Municipal que consiga manter decentemente os jardins ou espaços verdes inaugurados com pompa e circunstância. Nos países onde essa profissão é acarinhada, os jardins, em vez de degenerarem em caricaturas de si próprios, crescem em beleza e maturidade. Gosto de imaginar que esta estátua no Holland Park, em Londres, à qual só falta um carrinho de mão, é uma homenagem aos jardineiros que lá trabalham ou trabalharam, e a quem se deve a beleza serena de lugares como o Jardim de Quioto.



O Jardim de Quioto existe desde 1991. É um simples lago com cascata rodeado por um caminho e por meia-dúzia de árvores: tulipeiro, bétula, pinheiros, áceres arbóreos e arbustivos. Há rochas, maciços de azáleas, uma sebe mista, quatro ou cinco bancos bem espaçados. Cada elemento deste pequeno espaço - seja ele vegetal ou inerte - parece estar no lugar exacto. Mas o jardim que hoje vemos não foi assim criado, completo e imutável, no dia em que se cortou a fita: é um trabalho diário de amor e paciência, feito por quem sabe do seu ofício.




Jardim de Quioto - Holland Park - Londres

20.6.08

A talho de foice



Cordyline stricta

O género Cordyline reúne cerca de vinte espécies de árvores ou arbustos de regiões tropicais, sendo a maioria natural do sudeste da Ásia, ilhas do Pacífico, Nova Zelândia e Austrália onde são conhecidas como cabbage trees: a copa lembra uma couve galega, e a imponente C. australis, que chega a atingir os 20m de altura, é fantasia que regala qualquer bacalhau-com-todos. A C. spectabilis é brasileira e a única do seu género na América tropical.

O arbusto da foto (C. stricta ou narrow-leaved palm-lily) é australiano (de New South Wales e Queensland) e pode crescer até 3m. As folhas são espadas estreitas, embora arqueadas como foices, sem nervura central nem pecíolo, e dispõem-se nos ramos em dupla hélice. As flores perfumadas, de pétalas cerosas unidas na base, nascem em panículas longas de onde sobressaem os estames com anteras versáteis: as estruturas amarelas de pólen estão presas aos estames apenas no centro e por isso baloiçam sedutoramente com o vento.

Segundo uma lenda maori, uma floração abundante das cordilines anuncia um bom Verão.

19.6.08

Orquídeas da Serra dos Candeeiros (3)


Anacamptis pyramidalis

«The essential idea of Distributism is the idea of Directness. It concerns direct ownership, direct expression, direct creation and control. We do not say we are in favour of entirely abolishing indirect action. We do say that the modern world is entirely abolishing direct action. We do not say there ought to be no such thing as a cactus or an orchid grown in Kew Gardens, at the public expense for the public instruction. We do say that there will soon be no such thing as a cabbage really grown by private enterprise for private use (...) if we continue in our present direction; which might rather be called an indirection, seeing that it is in the direction of everything that is not direct.

It is assumed to be an intrinsic improvement that a man should grow a cabbage, cart a cabbage, sell a cabbage, and then take an omnibus to another town to buy another cabbage, instead of eating the cabbage he has grown. But we say that if everything depends on exchange, everything will depend on the rulers of exchange; and if everything depends on carting, we are putting the cart before the horse and the horse above man. It is only by the permanent potentiality of growing and eating the cabbages, that we may hope that the feeding of the people, by the people, for the people, shall not perish from the earth.

The cabbage is whirled away on a great wheel from the man who has grown it, and returns to him after having gone the whole round of the official process of taxation, public expenditure, and public trade. Some think that the cabbage looks a little forlorn, and even slightly soiled or damaged, when it comes back out of that far-reaching machinery. (...) That sort of thing is inevitable but instructive: the instant a thing moves from home, out of the direct influence of its maker, it accumulates a dust or accretion of slightly alien things; and by the time it reaches its remote destination, it is not the thing that was sent forth.


It is so with the voice; it is so with the vote; it is so with the return in mere money for effort or expenditure; it is so in a comparatively trivial matter like the writing of a book, as compared with the printing or binding of a book. This is not, of course, a reason for not binding books or completing ordinary processes of civilization. (...) It is a reason for preserving deliberately a normal life that shall be more narrow and more genuine; in which we can argue with the men we have really met and enjoy the things we have really made.»

G. K. Chesterton, On Direct Action (1928)

18.6.08

Silene de boa raça


Silene littorea

Entretidos a esquadrinhar cada metro quadrado de terreno em busca de raridades, corremos o risco de não dar o devido valor àquelas plantas que se nos afiguram abundantes. Sucede por vezes que a fartura é local e a planta tem uma distribuição global restrita; inversamente, uma planta que nos pareça rara localmente pode ser espontânea em regiões muito mais vastas. As silenes fornecem disso um bom exemplo: a Silene nicaeensis, escassamente presente no litoral português, distribui-se pela costa mediterrânica europeia de Portugal até à Grécia; a Silene littorea, por seu turno, embora salpique de magenta grandes extensões das nossas dunas, só se encontra na costa oeste da Península Ibérica. Em suma: é uma planta portuguesa, e só em muito menor grau espanhola; a sua alma não é ibérica, mas lusitana. Teríamos celebrado com ela o 10 de Junho se não andássemos tão distraídos.



Estas imagens foram colhidas nas dunas adjacentes à praia de São Jacinto - não na Reserva Natural, onde, muito avisadamente, é proibido caminhar nas dunas. Apesar da menor protecção de que beneficiam, e de haver mesmo, em certos pontos, sinais de veículos todo-o-terreno, as dunas de São Jacinto estão bem conservadas e possuem uma vegetação riquíssima. Quem quiser visitá-las deve fazê-lo em pequenos grupos (não mais que três ou quatro pessoas), evitando pisar as plantas. Na foto em baixo, além da Silene littorea, vêem-se cordeirinhos-da-praia à direita, luzernas-das-areias (Medicago marina) à esquerda, morganheiras-da-praia ao centro, e estorno (Ammophila arenaria) na crista das dunas.


São Jacinto - Aveiro

17.6.08

Campainhas-amarelas

«On Monday, Wednesday, Friday and Sunday, asserting her marital right to the fourth day out of seven, my mother visits him. She brings him grapes and the newspaper from the day before (...). She talks to him of their past time together, of their children and their shared memories.

On Tuesday, Thursday and Saturday, Elsie
[the mistress] visits my father. She brings him flowers and home-made fudge (...). She talks to him about the future, about how he is going to be better, and the life they will then have together.»

Julian Barnes, The lemon table (2004)



Narcissus bulbocodium subsp. obesus

Este é um narciso de distribuição limitada à Península Ibérica e Marrocos. No Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros (PNSAC) existe uma população numerosa que floresce de Janeiro a Março, com algumas flores para os visitantes atrasados de Maio. Está ameaçada pela exploração de inertes e por isso consta do livro «Plantas a proteger no PNSAC», de António Flor, publicado em 2005 pelo Instituto da Conservação da Natureza.

Herbácea vivaz e bulbosa, aprecia pastagens secas de solo rico em calcário, ou pouco ácido, acima dos 200m. Tem folhas estreitas, cilíndricas e compridas, erectas no caso do Narcissus bulbocodium, contorcidas na subespécie obesus que não se opõe a um chão mais alagado. As flores têm corola afunilada, um saiote em balão (como indica a designação hoop petticoat daffodil) com seis tépalas estreitas e pontiagudas a formar uma coroa de bracinhos na base. (O N. cantabricus, seu parente próximo do sudoeste da Península Ibérica, tem flores de igual formato mas brancas.) A polinizacão é assegurada sobretudo por abelhas e o fruto é uma cápsula com sementes redondas e pretas. Há cultivares de jardim com diferentes gradações de amarelo, como o amarelo-limão da variedade citrinus ou o amarelo-dourado das golden bells - realçando quão longínquos vão os tempos simplórios em que as cores se descreviam com uma só palavra.

Os horticultores agrupam as centenas de espécies, híbridos e cultivares do género Narcissus em treze secções de acordo com as características da flor e origem da planta, sendo doze reservadas a variedades de jardim e a décima-terceira para as espécies silvestres como a das fotos - que lhe oferecem, caro leitor atento, duas flores iguais e o prazer de identificar várias outras plantinhas minúsculas de que já aqui falámos.

16.6.08

Carvalho-cerquinho



Quercus faginea subsp. broteroi

Para quem vive no litoral norte do país, um dos atractivos da Serra dos Candeeiros é a presença do cerquinho, um carvalho que por cá é impossível de encontrar mesmo em jardins botânicos. Na colecção Árvores e Florestas de Portugal, distribuída em 2007 com o jornal Público, chamam-lhe carvalho-português (apesar de ele aparecer também em Espanha e no norte de África) e ocupam com ele boa parte do volume 2, dedicado aos nossos carvalhais. Ficamos a saber que a sua área de distribuição no nosso país, se bem que por um motivo ou outro tenha vindo a diminuir gradualmente ao longos dos séculos, sofreu entre 1972 e 1995 uma brusca redução de 50%. De então para cá não se conhecem dados, mas os piro-verões e outros factores naturais ou humanos deixam poucos motivos para optimismo. As florestas de carvalho-português não deverão, em Portugal, ultrapassar os mil hectares de área total - oitocentas vezes menos do que as matas de eucalipto (Eucalyptus globulus).

É no litoral centro, e sobretudo nos distritos de Leiria e de Coimbra, que se encontram as maiores populações nacionais de carvalho-cerquinho. O livro refere ainda a ocorrência de um importantíssimo núcleo da espécie na mata do Solitário, na Serra da Arrábida. Vemo-lo, na Serra dos Candeeiros, marginando estradas e junto a casas e campos de cultivo. No circuito que fizemos, em redor da aldeia do Arrimal, forma pequenas matas até meia-encosta, desaparecendo por completo nas partes mais altas, onde prevalece a vegetação rasteira de alecrim, tomilho e roselha, e sobrevivem a custo, no terreno descarnado e ventoso, algumas heróicas oliveiras. O bonito carvalho-cerquinho da foto (ou será um par deles?), ensombrando uma casa rústica com vista para um olival, foi o nosso prémio por nos termos enganado no percurso. De olhos escrutinando as plantinhas que despontavam rentes ao chão, por certo nos passou despercebido algum desvio, ainda que tivéssemos acertado no rumo geral de regresso à estrada (sempre a descer).

O carvalho-cerquinho, árvore de porte médio, estabelece um compromisso entre o possante carvalho-alvarinho (Quercus robur), de folha caduca, predominante no norte do país, e os grandes carvalhos de folha perene (sobreiro e azinheira) característicos dos montados do sul. Embora as suas folhas sequem no Outono, só as deixa cair no ano seguinte, quando se cobre de folhagem nova; por isso se diz marcescente. Essa mesma estratégia para proteger do frio os gomos das folhas que irão rebentar na Primavera é adoptada pelo carvalho-negral (Q. pyrenaica).

15.6.08

(Pub)

Natal 2008

Finalmente foi reeditado aquele livro que você quis em 2007 oferecer aos seus familiares e amigos mais chegados, mas não pôde por não o ter encontrado à venda nem na internet, nem numa livraria perto de si. Lembre-se só dos presentes que foi obrigado a dar no Natal passado: não queira passar em 2008 por embaraço semelhante. Seja precavido: antes que o livro se esgote novamente, adquira (pela internet ou numa livraria perto de si) todos os exemplares de que vai precisar. Não haverá quarta oportunidade.

14.6.08

Thunbergia-da-Malásia


Thunbergia laurifolia

«Desceu do cavalo apressado com mais pressa do que o cavalo e antes de o seu pé tocar no chão já as suas mãos tocavam no chão, rebolou, pois, como fazem os ginastas, e quando tinha a cabeça virada para a terra arrancou uma flor que no momento em que a sua cabeça estava já virada para o céu foi oferecida a uma mulher que o esperava há três horas. Para um homem tão rápido a agir, só uma mulher muito paciente.

Entenderam-se. Foram felizes para sempre. Mas o para sempre do cavalheiro (...) era rapidíssimo. Quase nada. Muito.»

Gonçalo M. Tavares, Biblioteca (2006)

13.6.08

Madressilva-entrelaçada


Lonicera etrusca

....Deve haver um lugar onde um braço
....e outro braço sejam mais que dois braços,
....um ardor de folhas mordidas pela chuva,
....a manhã perto nem que seja de rastos.

Eugénio de Andrade, O peso da sombra (1982)
(1923 - 13 de Junho de 2005)

Da Austrália, com paixão


Passiflora aurantia var. aurantia

Quem sabe se não terá sido por falta de material didáctico de qualidade que a evangelização dos povos indígenas australianos nunca foi longe. É que nenhuma das três ou quatro espécies de Passiflora que lá existem ilustra a paixão de Cristo com o rigor e a abundância de pormenores das suas congéneres sul-americanas. A flor da foto é bem capaz de ter tudo, mas, além dos dois apóstolos excluídos por mau comportamento, há outros cinco que ela não mostra, vá-se lá saber porquê: as pétalas interiores ficam ocultadas pelas exteriores, que se recusam a abrir mais o cálice. E também a coroa de espinhos, enterrada no aconchego da corola, se esconde da nossa vista.

Outras peculiaridades desta passiflora-dos-antípodas são a durabilidade das flores - três ou quatro dias, quando o normal é um dia só - e o facto de elas começarem por ser de um amarelo pálido, passando gradualmente a cor-de-laranja (= aurantia). Os frutos, esféricos ou elipsoidais, têm cerca de 5 cm e ganham uma tonalidade lilás ao amadurecerem; ainda que comestíveis, são, ao que dizem, pouco saborosos.

A P. aurantia é nativa do nordeste da Austrália, das ilhas Fiji, da Malásia e da Nova Guiné. Apesar da sua origem tropical e sub-tropical, suporta um clima mais frio desde que esteja a salvo das geadas. A planta da foto, cultivada nos Kew Gardens, vegetava feliz na pequena estufa não aquecida adjacente ao jardim do recolhimento (secluded garden).

12.6.08

Círio-do-rei


Verbascum virgatum

O género Verbascum, com cerca de 360 espécies das quais umas 90 são europeias, é dos difíceis de destrinçar porque muitas espécies hibridam naturalmente. Conseguimos identificar este pé através da haste alta, que se destaca da roseta de folhas longas e glabras, com flores solitárias de 2-4 cm de diâmetro, pedúnculo muito curto, corolas amarelas de centro sarapintado de violeta e estames revestidos com penugem roxa. Dá-se bem em lugares soalheiros, de solo alcalino, pobre e bem drenado; se consegue vaga num torrão fértil, cresce mais e floresce abundantemente. Ele como nós.

Nas bermas de auto-estrada ainda não carecas temos avistado outra espécie, Verbascum thapsus (vela-de-Nossa-Senhora, que em inglês se designa Aaron's rod), com flores parecidas mas de centro e estames quase brancos. É famosa pelo uso medicinal - no tratamento da asma, por exemplo -, pela tinta amarela que se extrai das flores e pelo pavios feitos das folhas. Como nada é perfeito, produz sementes venenosas.

11.6.08

Roselha-maior


Cistus albidus

Não as contámos, e aliás a distinção entre elas exige alguma paciência, mas talvez tenhamos encontrado na Serra dos Candeeiros umas cinco ou seis espécies de Cistus, todas em plena floração. Duas das espécies tinham flores rosadas: eram elas a roselha (Cistus crispus) e a roselha-maior (Cistus albidus). A segunda, além de ter flores maiores e de um tom mais suave, ainda se diferencia da primeira pelo porte mais avantajado e pelas folhas penugentas e esbranquiçadas (que justificam o epíteto albidus).

A roselha-maior é uma planta mediterrânica, espontânea de Portugal até à Itália e também em Marrocos e na Argélia. A sua distribuição no nosso país é descontínua, concentrando-se na Estremadura, no interior alentejano e no Algarve. Preferindo ela solos calcários, não é supresa encontrá-la na Serra dos Candeeiros; é de supor, aliás, que a serra albergue uma das maiores populações da espécie em território nacional. Em vários pontos da encosta, sobretudo em antigos olivais, ela forra por completo o solo; noutros locais, como mostra a foto abaixo, disputa a primazia com o alecrim. Mas cada planta tem a sua época de glória, e o alecrim, despojado do seu azul, terá de aguardar a próxima temporada: quem desta vez monopolizou a nossa admiração foi a roselha-maior.

Ainda que pouco se vejam em jardins portugueses (apesar da sua origem mediterrânica, é de facto mais fácil encontrá-los em jardins londrinos), os Cistus têm granjeado crescente popularidade em horticultura. E, sendo embora inúmeras as variedades ornamentais, a roselha-maior, que cresce livremente nos nossos montes, tem beleza de sobra para ombrear com as melhores.


Serra dos Candeeiros

10.6.08

Orquídeas da Serra dos Candeeiros (2)

Depois da recolha de informações na acolhedora Ecoteca de Porto de Mós, rumámos à Serra dos Candeeiros em busca de orquídeas terrestres, uma que fosse das prometidas 27 espécies que apreciam o calcário e os olhos-de-água rasos. Por ser a primeira visita, escolhemos o percurso da Senhora da Luz, contando com a iluminação mais apropriada ao nosso amadorismo.

A serra, sem a intervenção humana - pastoreio, olivais, extracção de pedra -, seria um paraíso povoado por carvalhos, sobreiros, azinheiras, azevinhos e medronheiros. Contudo, o que ali se desenvolveu é também uma forma de éden - o que mostra que mesmo os pecados graves podem ser perdoados -, com encostas soalheiras que contêm cerca de um quinto da flora do nosso território continental. De longe, os montes parecem agrestes de tão despidos, mas são de facto terra vermelha forrada de herbáceas que aproveitam todas as nesgas de solo e cada fenda da rocha. No sopé surpreendemo-nos com as centáureas roxas e os morriões azuis, tão longe da praia onde deveriam estar estendidos ao sol; no cume receberam-nos narcisos, nigelas, gerânios, ervilhacas, mantos de roselhas e sargaços a perder de vista e um cheirinho-a-serra feito de alecrim e tomilho.

Caminheiros de cidade, abandonámos os trilhos em bicos de pés e, de repente, avistámos várias hastes com flores enroscadas de brácteas venadas a escuro, capuchinho, garganta com pintas amarelas a fingir de pólen e uma curta língua triangular cor-de-ferrugem. Trata-se do serapião-de-flores-pequenas (Serapias parviflora), espécie perfumada de orquídea do sul da Europa.


Serapias parviflora

Pouco depois deparámo-nos com outra semelhante, mas de flores maiores - mais maduras, deduziu a nossa ignorância. Na verdade, é também um serapião (Serapias cordigera), espécie protegida no oeste europeu que se distingue da anterior pela língua comprida, da cor do vinho. O perfil egípcio da inflorescência, o recomendado para melhor se ouvirem os sussurros dos deuses, dá o nome ao género: Serapis foi um deus greco-egípcio, mistura de Osiris e do boi Apis, mas mais alma que carne. O epíteto cordigera indica o mesmo que cordiforme - ambos nomes recentes, posteriores à descoberta surpreendente de que alguns de nós têm coração.

P.S. Segundo António Flor, autor do livro Plantas a proteger no Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros, a orquídea em baixo não é uma S. cordigera, mas sim uma S. strictiflora ou S. lingua. António Flor teve ainda a amabilidade de nos enviar uma excelente foto de uma Serapias cordigera, que pode ser vista aqui.


Serapias strictiflora

9.6.08

Burnham Beeches



Fagus sylvatica

Burnham Beeches é uma reserva natural de 220 hectares situada 30 quilómetros a oeste de Londres, no condado de Buckinghamshire. Chega-se lá tomando na estação de Paddington um comboio para o subúrbio residencial de Slough, e daí apanhando o autocarro n.º 74; meia hora depois, a meio de uma longa recta, apeamos-nos em frente de uma public house com o acolhedor nome de Forester's Arms. A estrada é estreita, rodeada pelas usuais casas de dois pisos com jardim e paliçada de madeira, figurino que se repete no curto labirinto de ruas até à entrada da reserva.

Beech é o nome inglês para a Fagus sylvatica, que nós conhecemos como faia; e é justamente um bosque de faias que ocupa a maior parte da reserva. Mas há outros habitats que dão a Burnham Beeches uma diversidade surpreendente: há uma zona húmida, quase um sapal, que culmina num lago com nenúfares e juncos; há ainda uma área seca, de vegetação esparsa, dominada pelo tojo e pelo zimbro, que é importante refúgio de répteis; e há, finalmente, zonas de pastagem para vacas e cavalos, a quem cabe impedir que, em certas partes sensíveis, a vegetação se adense muito.

Burnham Beeches não é criação espontânea da natureza, mas sim um mosaico de paisagens moldadas pela acção humana. Nos terrenos desde há muito usados como pastagens desenvolveu-se um ecossistema peculiar, que só a continuidade desse uso permite manter. E as faias que dão fama à reserva não cresceram livremente: durante séculos serviram para produzir madeira; todos os seus ramos acima de uma certa altura eram periodicamente cortados. As árvores assim tratadas são conhecidas como pollards. A prática parece ter caído em desuso, mas não deve ser confundida com as nossas podas radicais: tratava-se de uma prática de silvicultura e não de (má) gestão de árvores ornamentais, como por cá sucede. E as árvores assim conduzidas eram sujeitas a esse tratamento desde jovens: como muito bem sabiam os seus cultores, a operação era potencialmente mortífera se aplicada a árvores adultas com desenvolvimento normal.

Se tiver aguentado as primeiras tareias, uma árvore tratada como pollard acaba por ter uma vida mais longa do que as suas irmãs não deformadas. Em Burnham Beeches há faias com 400 ou 500 anos, embora a esperança de vida dessa árvore não costume ir além dos 200. Tais veteranas devem ser contempladas com o respeito devido à idade, mas prefiro-lhes as árvores mais jovens que, na mata, dançando sobre o tapete vermelho das folhas do último Outono, compõem um autêntico bailado de troncos esbeltos e lisos contra o verde brilhante da folhagem.

8.6.08

Endecha


Trifolium stellatum

«O nosso lirismo devia ser coutado. O país devia consagrar-lhe um parque de reserva, onde fosse proibido dizimar as espécies que ainda restam, deixando-as viver num paradisíaco devaneio, à lei da inspiração. E nenhum sítio mais indicado para isso do que esta província portuguesa, feita de dunas e calcário. (...) Uma vez que o melhor da força criadora nacional está concentrado nesse pequeno reduto de que as serras de Aire, Candeeiros e Montejunto são ameias, nada mais sensato do que tentar reverdecê-la aí. Granjeada de novo naquelas colinas suaves e calmas, talvez brotasse com o alento por que todos suspiram. Não é às lousas do xisto ou à aspereza das urgueiras que se hão-de pedir filigranas góticas e versos bucólicos. Nos sítios onde a natureza não quer, nem as calhandras cantam. O talento é preciso, mas é preciso também que o meio o ajude. Que sustente o artista e lhe dê pedra capaz, barro moldável, madeira propícia, e lhe não tolha as mãos de frio, se ele escreve ou pinta. O faro, de resto, nunca enganou a fauna dos que em Portugal vivem condenados à inglória penitência da beleza. Porque sabem que é ali o clima ideal do seu trabalho, eles próprios consideraram sempre a Estremadura como chão dos seus pés.»

Miguel Torga, Portugal (1950)

7.6.08

Orquídeas da Serra dos Candeeiros (1)


Ophrys scolopax

«Uma abelha, dessas que dizem ser italianas, entrou pela janela, obstinou-se em escolher-me, pousa-me no ombro, descansa de seus trabalhos. Lisonjeado com aquela preferência, comecei a amá-la devagar, retendo a respiração, com receio de que não tardasse a dar pelo seu engano, que cedo viesse a descobrir que não era eu a haste de onde se avistam as dunas. Mas o seu olhar tranquilizava, era calma ondulação de trigo. Agora só uma interrogação perturbava a minha alegria - comigo, como é que faria o seu mel?»

Eugénio de Andrade, Memória doutro rio (1978)

6.6.08

Cornichão


Lotus corniculatus subsp. carpetanus [= Lotus glareosus]

Lotus era como os antigos gregos chamavam a diversas plantas leguminosas, incluindo aquelas que constituem hoje o género com o mesmo nome. Contudo, por razões que custa perceber, esse nome foi, em várias línguas europeias (portuguesa, francesa e inglesa, pelo menos), usurpado pelas plantas aquáticas dos géneros Nelumbo e Nymphaea (os vulgares nenúfares). Podendo chamar-se ninfas, que falta fazia a essas plantas um nome que por razões históricas e científicas era pertença de outrem? Que a cobiça não é um exclusivo humano é o que parece ensinar-nos esta história.

A planta de hoje é espontânea em Portugal e Espanha, e foi fotografada há poucas semanas no Parque de Avioso, na Maia. Esse é um espaço que vale bem a pena visitar nos meses de Abril e Maio, quando as urzes, as giestas, os sargaços e o tojo recriam, a uma escala miniatural e com o apoio cromático de umas quantas herbáceas, as cores primaveris das nossas montanhas.

Há uma planta semelhante a esta, L. corniculatus subsp. corniculatus (ou, dependendo do autor, simplesmente L. corniculatus), que se encontra disseminada por toda a Europa e também é conhecida por cá como cornichão. As flores de ambas as espécies (ou subespécies) são de um tom amarelo torrado e estão marcadas por estrias vermelhas. Mas a L. corniculatus subsp. carpetatus - que, dado o seu âmbito geográfico, podemos baptizar de cornichão-ibérico - tem um hábito mais prostrado e, ao contrário da sua irmã, é revestida por uma densa penugem prateada.

5.6.08

Plantas-de-estimação


Bartsia trixago

Segundo o Stearn's dictionary of plant names for gardeners, a palavra Orobanche contém o termo grego anche, estrangular. Dela deriva o nome de família das plantas das fotos, numa leitura sinistra da natureza que detalhamos em seguida. Os sábios concluiram que bajular é coisa que estas orobancáceas fazem desde pequeninas. Bastar-lhes-ia, claro, apropriarem-se furtivamente da seiva alheia, mas esse seria um trabalho que as entediaria até à ponta das folhas. Afinal move-as um mal secreto feito de dois dentes de gula, uma colher cheia de cobiça e um raminho de inveja. E, marotas, depositam no topo de cada folha uma manchinha verde para disfarçar a sua índole de parasitas.

Esta ousadia de linguagem é usual em quem humaniza o mundo, mesmo o não-animal. O terreno onde encontrámos estas plantas estava forrado com dezenas de pés delas. Ora esta quantidade não pode ser ignorada: num reino só de reis, ou só de ladrões, é-se obrigado a tirar com uma mão o que se entrega com a outra. Neste contexto um roubo é só meia verdade - ou meia-mentira - e, naturalmente, uma planta meio-honesta exige ser elevada a semi-parasita. Alguns devotos decretam que há escândalo nesta nossa interpretação por configurar uma união de facto dentro do mesmo género. Ignoram como embriaga a conquista de qualquer ser arredio, que, como um gato, devagar se torna dócil até ao afago.

De qualquer modo, fonte fidedigna assegura que as espécies do género Orobanche, parasitas que nem têm clorofila, escolhem com frequência nichos onde passe despercebida a opção de viver ao colo dos vizinhos. Por exemplo, a famosa Orobanche hederae elegeu, para sua proveitosa companhia, a hera (Hedera helix) do cemitério de Highgate onde, lemos algures, a biodiversidade é um dos motivos de atracção.


Parentucellia viscosa

4.6.08

Fidalguinha-de-Bragança


Centaurea paniculata

Das quase quinhentas espécies do género Centaurea, cerca de vinte são espontâneas em Portugal. Depois de termos mostrado uma que vive à beira-mar, é de bom tom darmos lugar a outra que vem do país profundo, essa porção ignorada do território nacional que começa a 60 ou 70 quilómetros da costa e se arrasta inutilmente até Espanha. Trata-se de uma filha de Bragança - que, supomos, obteve licença materna para viajar e encontrámos na berma da estrada às portas de Amarante.

Em rigor, talvez esta Centaurea paniculata não tenha vindo exactamente de Bragança. O mapa de distribuição da espécie na Flora Digital de Portugal indica que, em Portugal, ela se concentra em Trás-os-Montes, espalhando-se ainda por algumas franjas adjacentes. Alguma razão, porém, haverá para o nome fidalguinha-de-Bragança que lhe é atribuído. Talvez seja nessa região que a planta é mais acarinhada.

As centáureas têm fama como ornamentais e como produtoras de néctar melífero. A nossa fidalguinha não é das mais prendadas do seu género, e não nos consta que seja cultivada em jardins. Com o seu aspecto desgrenhado e floração pouco vistosa, facilmente se deixa confundir com um cardo, apesar de não ter espinhos. Mas, como gostamos de cardos, tal semelhança de modo nenhum a desmerece a nossos olhos.

3.6.08

Tabaco-jasmineiro



Nicotiana alata

Portugal no século XIX vivia, como descreveu Eça de Queiroz, «curvado sobre a carteira da escola, bem aplicado, com a ponta da língua de fora, fazendo a sua civilização, como um laborioso tema, que ele vai vertendo dum largo traslado aberto de fronte – que é a França. Quem dependurou ali o traslado para que Portugal copiasse, com finos e grossos? Talvez os homens de 1820; talvez os românticos da Regeneração.» Três séculos antes, contudo, era Paris que recebia daqui o figurino, a euforia e os caminhos do prazer. Jean Nicot (1530-1600) foi a meio do século XVI embaixador de França em Lisboa e, em 1560, enviou tabaco (Nicotiana tabacum) do Brasil para Paris, com informação sobre o seu vasto uso medicinal. Daí até ao vício foi o tempo dum suspiro.

A Nicotiana alata é uma planta anual sul-americana, de floração efémera, usada em jardim por ter flores muito perfumadas. E, tal como o tabaco, o tomate, a batata, o pepino ou o pimento, contém nicotina, sobretudo nas folhas que, nalguns países do Médio Oriente, chegam a ser misturadas com as da N. tabacum. Intriga-nos que, deparando-nos com esta planta e ainda sem lhe saber o nome, não tivéssemos desejado enrolar, secar e fumar voluptuosamente um par de folhas. Entendemos que, havendo lume, um cenário de ócio pode ter estimulado a descoberta do cigarro. Mas qual deles terá levado alguém a fumar? Faltava-lhe uma peça de um puzzle a meio de uma tarde chuvosa de domingo? Procurava coragem para um encontro, ou serenava pouco antes de uma batalha? Tinha acabado de saborear um prato de caracoletas em receita não tradicional?

Não sabemos. Certo é que nesse dia a planta não estava em flor, ou hoje fumaríamos pétalas e seríamos apenas viciados em beringelas.

2.6.08

Necroturismo (2.ª parte)


Laburnum anagyroides

Sete anos mais novo do que Kensal Green, Highgate foi a segunda necrópole londrina que visitei em princípios de Maio. Estendendo-se por uma colina a leste de Hampstead Heath e confinando a norte com o Parque de Waterlow, é bissectado por Swains Lane, uma alameda íngreme onde desembocam perpendicularmente três ou quatro ruas residenciais de acesso reservado. Nem nessas ruas, nem mais acima, em Highgate Village, parece morar gente pobre. Mas em 1975, quando a companhia (privada) que geria o cemitério decidiu encerrar a metade oeste, a venda de sepulturas já não era lucrativa. Talvez por a cremação se ter já então vulgarizado, nem tão rica vizinhança de potenciais clientes salvou o negócio. Desde 1981, Highgate está a cargo de uma associação de amigos que recuperou o cemitério, organiza visitas guiadas à parte oeste, e mantém a parte leste em funcionamento normal.

Diz quem viu, e há muitos testemunhos na internet a confirmá-lo, que, das duas partes que compõem o cemitério, Highgate West é aquela que mais vale a pena visitar, por ser a mais monumental e misteriosa. Highgate East é uma extensão que só foi inaugurada em 1854, 15 anos depois do cemitério original, e é de presumir que não tenha sido planeada com requinte comparável. Acontece que já visitei Highgate East três vezes - e, por não querer esperar pelas visitas guiadas, nunca entrei em Highgate West. Com a ligeireza que só a ignorância permite, atrevo-me a dizer, contudo, que quem prefira a companhia das árvores à dos monumentos em pedra pouco perde em trocar o oeste pelo leste.


Karl Marx

Na verdade, mesmo entre os que prezam mais o granito esculpido do que a vida vegetal há quem se fique pelo leste, por ser lá o túmulo de um barbudo que moldou a história do século XX já depois de morto - e que, ainda hoje, perante uma audiência de defuntos onde é escassa ou nula a representação proletária, não se cansa de exortar os trabalhadores de todo o mundo a unirem-se.


Fraxinus excelsior

A ruína de muitas das esculturas e mausoléus não foi o único resultado da falta de manutenção de Highgate durante a segunda metade de novecentos: ela permitiu também o desenvolvimento de um autêntico bosque natural onde a discreta presença das pedras tumulares mal chega a recordar-nos que estamos num cemitério. Os freixos que se perfilam nas costas de Karl Marx formam uma mata espontânea tão cerrada como os nossos eucaliptais, com a diferença de abrigarem, a seus pés, uma grande diversidade de plantas herbáceas.


Anthriscus sylvestris

Por altura da minha visita, os caminhos eram marginados pelo branco de uma umbelífera (Anthriscus sylvestris) a que nós chamamos erva-cicutária ou cicuta-dos-bosques (embora ela não seja venenosa nem deva ser confundida com a verdadeira cicuta, Conium maculatum), mas a que os ingleses preferem chamar cow parsley. Combatendo a hegemonia branca da salsa-das-vacas, via-se o azul dos miosótis e dos omnipresentes bluebells. Outra árvore que em Highgate tirou partido da falta de vigilância para se multiplicar livremente foi o Acer pseudoplatanus. Encontram-se ainda cerejeiras (Prunus sp.), carvalhos e, nas partes mais compostas, bonitas árvores ornamentais como laburnos, cedros e tílias. A riqueza e importância deste habitat semi-natural levaram-no a ser declarado, em 1988, pelas autoridades londrinas, como sítio de importância metropolitana para a conservação da natureza.