23/11/2009

Que árvores são aquelas que fazem sombra no chão?


Tilia x vulgaris Hayne (tília-europeia) - Waterlow Park, Highgate, Londres

Não eram árvores, nem sei por que me lembrei delas, talvez fosse da hora. Ou da sombra, que tristes são as árvores sem sombra. Também não costumo

(não frequento áfricas, brasis, orientes)

pedir a ninguém que me diga que árvores são aquelas, bem as conheço e elas a mim. Mas não eram árvores, vamos a ver se agora conto direito. Cavalos que dão sombra colavam-se às paredes em cartazes ali aos semáforos do Campo Alegre, por certo anunciavam algum circo tão longe ainda do Natal. Achei estranha a sombra e os cavalos no mar, os cavalos-marinhos

(Hippocampus sp.)

se dão sombra ninguém a vê, os outros cavalos

(Equus ferus caballus)

não andam pelo mar a menos que voem e sejam por isso pégasos de outra estirpe, e o circo é nocturno, quando tudo é sombra ou tudo é luz artificial. Este circo que não verei

(agora também já se foi embora)

com cavalos de sombra fez-me lembrar outros circos em descampados que já não existem, e o cheiro a carne podre que sobrava de alimentar animais enjaulados. Circos que também não vi, que não sei se ainda montam a tenda em baldios de outros subúrbios, lembro-me é de ter visto uma ou duas vezes o Cardinali no Coliseu do Porto, sempre era melhor

(ou nós assim supúnhamos)

do que o circo da nossa aldeia que nem aldeia era. Havia os trapezistas e os palhaços esbofeteando-se e os leões tristes, mas do que me lembro melhor é do homem de peito de aço, um gigante careca de bigodes à Fu Manchu, que sem cambalear aparava as balas do canhão mas

(isto já sou eu a tecer romance de cordel)

todo se esboroava sob o olhar doce de Kátia, a ginasta voadora.

Tudo isto recordei ou imaginei por causa do muro do Campo Alegre que funciona como cartaz de espectáculos, diariamente renovado com camada em cima de camada de papéis pintados formato A não sei quantos. Fico a saber dos teatros e dos concertos, acompanho a carreira do Tony e do Micael quando fazem sair discos novos, e também a dos Irmãos Verdades

(com os Verdades me esganas, mas é trocadilho fácil e na verdade nunca os ouvi)

e de quem mais quiser cantar em público, tenha ou não garganta ou talento para isso. Nunca vou ver nem ouvir nada, não compro os discos, mas fica-me o ruído visual como depósito de ninharias que depois escorrem dos dedos para o teclado. Imagens postiças, em terceira mão, de vidas improváveis, como se fossem sombras ligeiras de cavalos alados sobre o mar.

21/11/2009

Outono, ano sexto


Quinta de Santo Inácio

It is admitted, one may hope, that common things are never commonplace. (...) It is best perhaps to take in illustration some daily custom we have all heard despised as vulgar and trite. Take, for the sake of argument, the custom of talking about the weather. Stevenson calls it "the very nadir and scoff of good conversationalists". Now there are very deep reasons for talking about the weather, reasons that are delicate as well as deep; they lie in layer upon layer of stratified sagacity. First of all it is a gesture of primeval worship. The sky must be invoked; and to begin everything with the weather is a sort of pagan way of begining everything with prayer. (...) Then it is an expression of that elementary idea in politeness - equality. For the very word politeness is only the Greek for citizenship. (...) All good manners must obviously begin with the sharing of something in a simple style. Two men should share an umbrella; if they have not got an umbrella, they should at least share the rain, with all its rich potentialities of wit and philosophy. (...) This is the second element in the weather; its recognition of human equality in that we all have our hats under the dark blue spangled umbrella of the universe. Arising out of this is the third wholesome strain in the custom; I mean that it begins with the body and with our inevitable bodily brotherhood. All true friendliness begins with fire and food and drink and the recognition of rain or frost. (...) Each human soul has in a sense to enact for itself the gigantic humility of the Incarnation. Every man must descend into the flesh to meet mankind.

G.K. Chesterton, What's wrong with the world (1910)

20/11/2009

EN 222


Populus nigra L. (choupo) - EN 222 entre a Régua e o Pinhão

Antes da invenção das auto-estradas, as estradas moldavam-se ao território em vez de o devassarem. Enrolavam-se amorosamente nas serras, abraçando-as a cada curva. As árvores, dispostas em galeria ao longo das bermas, ofereciam mistério e aconchego; e algumas delas, como os castanheiros no Outono, davam de prenda os frutos a quem passasse. Descendo para os vales, punham-se as estradas a acompanhar os meandros dos rios. Se por capricho os quisessem cruzar, faziam-no quase rasando as águas.

Hoje há túneis, viadutos e pontes altíssimas. Perfura-se aqui, nivela-se acolá, assentam-se nos vales grossos pilares como patas de uma centopeia apocalíptica. O território deixou de ser a paisagem em que nos reconhecemos para se transformar em obstáculo a ultrapassar e, se necessário, a remover. Passamos e não vemos nada. E ainda bem que não vemos, pois o tapete de asfalto (seis faixas, separador central, áreas de serviço, portagens, nós de acesso) não deixou nada de reconhecível. Claro que agora é mais fácil de chegar, mas aonde? Os lugares por onde rompem as moderníssimas estradas já não são o que eram.

A EN 222, que parte da avenida da República, em Gaia, e, duzentos quilómetros adiante, termina o seu percurso, tortuoso como o do rio que quis emular, no concelho de Vila Nova de Foz Côa, é uma dessas estradas antigas que se acrescentam à paisagem em vez de a destruírem. É verdade que o seu troço gaiense foi adulterado por sucessivos alargamentos e está visualmente poluído pela proliferação dos subúrbios e dos edifícios fabris; mas, deixando para trás Avintes, Sandim e Castelo de Paiva, vai-se revelando a vocação desta estrada a sul do Douro: o que ela quer é ver-se reflectida no rio. Ultrapassados Cinfães e o maravilhoso vale do Bestança, já o Douro se começa a ver ao fundo de encostas cobertas com vinhas ou, depois de Resende, com pomares de cerejeiras. Contudo, é só nos 23 quilómetros entre a Régua e o Pinhão, onde rio e estrada parecem gémeos, que ela cumpre a sua sina: foram 130 km para aqui chegar, e são mais 50, já longe do Douro, até ao Côa, mas é ao Douro que a estrada pertence, como se os dois nunca deixassem de correr lado a lado.

Este choupo outonal, tendo por companhia freixos, lódãos e uma ou outra oliveira assilvestrada, mora perto da foz do rio Távora. O Tedo e o Torto, outros dois pequenos rios com letra inicial T, também por aqui desaguam na margem esquerda do Douro. Do outro lado do rio, com a linha férrea fazendo contraponto à estrada, sucedem-se montes onde os socalcos das vinhas desenham as curvas de nível com rigor cartográfico. São poucos e invariavelmente brancos, de um branco encardido pelo tempo, os edifícios que se avistam: apeadeiros, armazéns, solares debruçados no rio. É uma paisagem líquida de silêncio, fechada pelos montes e pela bruma, como não há outra em Portugal.

[Texto dedicado ao inspector Jaime Ramos, que conhece bem esta estrada.]

19/11/2009

Eucalipto serrano



Eucalyptus dalrympleana Maiden

Os eucaliptos, mais de 500 espécies, são maioritariamente australianos, sendo alguns, poucos, da Indonésia, Malásia, Filipinas e Nova Guiné. São aromáticos, elegantes e úteis. Adaptáveis a quase todos os solos, recrudescem com a desgraça de um incêndio. E é reconhecido, por alguns com mágoa e por outros com a satisfação do lucro, que na nossa paisagem eles têm vindo a substituir o que foi a floresta portuguesa: são árvores sedentas, vigorosas, que dominam terrenos onde quase nada mais vegeta. Esta má reputação obriga-nos a refrear o entusiasmo, mas o eucalipto das fotos, do arboreto dos Kew Gardens, merece-nos uns minutos de atenção.

Quase todos os eucalipos requerem climas temperados, mas há espécies de montanha como esta que vive na Tasmania e nos Alpes australianos, em Victoria e New South Wales, entre os 600 e os 1700m de altitude. Ali predominam os dias húmidos e frios, com geadas e queda de neve frequentes. Apesar disso, é um dos eucaliptos mais altos - pode chegar, em condições favoráveis, aos 60m de altura e aos 2m de PAP (perímetro à altura do peito). O tronco é colunar, de casca suave, cinzenta na base, amarelada mais acima, com laivos verde-azeitona ou róseos. A madeira é rosada e firme mas pouco duradoura, sem as qualidades aclamadas da do E. marginata.

Como é usual nos eucaliptos, as folhas jovens são distintas das adultas: as primeiras são opostas, redondas, sésseis e de cor verde pálida; as segundas são alternadas, lanceoladas, de margens levemente onduladas e de um tom de verde coriáceo. Os botões das flores nascem com um capuchinho pontiagudo, feito de pétalas e sépalas unidas, que cai quando os estames se desenvolvem. As flores, de Outono, reduzem-se a numerosos estames brancos e nascem agrupadas em conjuntos de 3 a 7, formando umbelas (há poucas excepções, entre os eucaliptos, a este tipo de inflorescência; um contra-exemplo, de flores solitárias, é o E. macrocarpa). Os frutos lenhosos são ovóides, parecendo sininhos.

Richard Dalrymple Hay (1861-1943) foi um zeloso administrador das florestas de New South Wales.

18/11/2009

Campainhas-de-Outono


Leucojum autumnale L.

Esta é outra das flores com que se enfeita o nosso chão de Outubro. A cila-de-Outubro e as campainhas-de-Outono partilham não só o gosto por essa estação do ano, atestado pelos epítetos específicos, como uma preferência por lugares pedregosos (embora a cila, mais versátil, também se dê bem nos prados). Distribuindo-se ambas por boa parte do território nacional, é comum encontrá-las lado a lado, por exemplo na Serra dos Candeeiros ou, em Trás-os-Montes, junto à linha do Tua, nos pedaços de solo que aqui e ali se agarram às escarpas.

São onze as espécies de plantas bolbosas, todas do sul da Europa ou do norte de África, que compõem o género Leucojum; mas uma delas, a L. aestivum, ausente de Portugal, ocupa uma área mais ampla, que vai até ao Irão e ao sudoeste asiático. Nove dessas espécies, incluindo a L. autumnale, terão sido transferidas em 2004 para o género Acis; mas a mudança, sendo tão recente, não aparece ainda na maioria das obras de referência.

A L. autumnale é quase um exclusivo ibérico, ainda que ocorra também na Sardenha e na Sicília. As flores pendentes, com cerca de 1 cm de comprimento, fazem lembrar taças de champanhe invertidas; dispondo-se às duas ou três em cada haste, têm seis pétalas pontiagudas, tingidas de rosa ou vermelho na base. Os polinizadores são os poucos insectos (abelhas, sobretudo) que não largaram o serviço apesar do adiantado da época. Só depois de fazerem brotar as hastes floridas é que os bolbos aceitam que uma planta a sério também precisa de folhas; e estas, quando finalmente surgem, revelam-se semelhantes à relva.

17/11/2009

Cem anos de perdão

Lembram-se da anacardiácea do Horto das Virtudes, aquela a que José Marques Loureiro (jardineiro e horticultor do século XIX que muito admiramos) dedica uma crónica e identifica como sendo uma Pistacia atlantica? Temos andado desassossegados com esta árvore. Por duas razões:

1) A bibliografia que conhecemos é unânime em afirmar que a Pistacia atlantica é uma espécie de folhagem caduca. Contudo, esta árvore das Virtudes só perde folhas, e poucas, com a ventania forte. E ainda que, longe do lugar de origem, uma planta possa ostentar fomes desconhecidas, não é de esperar que mude tão radicalmente de hábitos que se transforme em perenifólia.

2) A Pistacia atlantica é uma espécie dióica, e já vos demos conta da nossa estranheza ao verificar que o exemplar das Virtudes frutifica anualmente. Pode ser que, desafogada de afazeres, esta árvore se entretenha a criar frutos estéreis, mas é mais plausível que este seja outro traço a comprometer a identificação proposta por Marques Loureiro.

Por isso, a nossa visita ontem ao Jardim Botânico Tropical em Lisboa foi especialmente oportuna. É que há lá vários exemplares de uma outra anacardiácea, a Schinus terebinthifolius (pimenteira-do-Brasil, ou aroeira-vermelha), cuja folhagem, inflorescências e frutos têm nítida parecença com os da Pistacia atlantica mas que é de folha perene. Além disso, embora seja espécie dióica, há registo abundante de espécimes monóicos ou com flores hermafroditas (uma vantagem na competição com outras espécies que a torna, em alguns habitats, uma invasora preocupante).

Em resumo: na nossa opinião revista e melhorada, a árvore do Jardim das Virtudes é um exemplar de Schinus terebinthifolius, e cremos que este engano com mais de cem anos finalmente se desfez.

16/11/2009

O chão de Outubro


Scilla autumnalis L.

Um livro que tratasse das nossas flores silvestres, organizando-as por época de floração, poderia abrir com uma Scilla e fechar com outra. No primeiro capítulo, destacando-se entre as flores temporãs que despontam logo em Fevereiro, apareceriam a Scilla monophyllos e a Scilla italica; seguir-se-ia, em Maio-Junho, mas só na metade sul do país, a vistosa Scilla peruviana; e, para encerrar o livro em tons de rosa, teríamos a outunal Scilla autumnalis, a que a Flora Digital de Portugal chama, com requinte poético, cila-de-Outubro.

(A natureza, irreprimível como é, deixa sempre algumas pontas soltas nestes arranjos demasiado simétricos. O Inverno não significa um estado letárgico generalizado da vegetação, e haverá quem aponte, com justiça, que há flores - há sempre flores - antes da primeira e depois da última cila. Mas, para fenómenos que se repetem ciclicamente, o antes e o depois são simples convenções que nos ajudam a organizar a vida, e que podemos torcer a nosso jeito.)

Embora o desfasamento temporal seja, por si só, suficiente para não confundir a S. autumnalis com as suas congéneres, não é mau registar algumas das suas peculiaridades: a haste florida mede até 20 cm e surge antes das folhas; as flores não têm brácteas; e as folhas, em tufos de quatro a oito, são lineares e retorcidas, com as margens por vezes dobradas para formar sulcos.

A cila-de-Outubro - que aliás começa a florir logo em Agosto - distribui-se por grande parte da Europa, da Península Ibérica ao Mediterrâneo e da Grã-Bretanha à Rússia.

14/11/2009

Tocam sinos a rebate


Campanula rapunculus L.

.....Moi si j'étais le Bon Dieu, je crois que j'aurais des remords.

.....Patrick Bruel

13/11/2009

Veneno na sopa


Solanum nigrum L.

São contraditórios os relatos sobre a toxicidade da erva-moira (Solanum nigrum), herbácea anual de origem euro-asiática que se espalhou por todos os continentes. Jorge Paiva, num informativo artigo sobre solanáceas incluído no n.º 29 (Setembro de 2009) da revista Parques e Vida Selvagem, acusa-a de matar ovelhas e de pôr vacas em estado comatoso. Sabemos que a figueira-do-inferno é bem capaz dessas e de piores proezas se ingerida inadvertidamente pelo gado; mas não nos parece que a erva-moira se lhe compare em malignidade. É certo que a planta é algo venenosa, sendo os seus frutos imaturos de especial perigosidade, mas seria preciso ingeri-la em fartas doses para correr risco de vida.

E quererá alguém, como tira-teimas, incluir a planta na sua dieta regular? A verdade é que já há quem o faça sem ser motivado por pulsões suicidas. Tanto na Índia como na Etiópia as folhas e os frutos maduros são comidos depois de cozinhados, e as crianças chegam mesmo a comer o fruto directamente da planta. As folhas são cozidas em água salgada, tal como se faz com os legumes para a sopa; e consta que, no sabor e textura, elas se assemelham a espinafres.

Para falar com franqueza, não tencionamos provar tal sopa - e desde já declinamos qualquer responsabilidade se, sugestionado pelo que escrevemos, alguém decidir experimentar a erva-moira como ingrediente culinário, com resultados desastrosos. Regressamos à objectividade botânica para enunciar algumas características da planta: alturas até 60 ou 80 cm, flores brancas de 7 a 10 mm, estreladas, pendentes, em grupos de 5 a 10; frutos lembrando tomatinhos (até 8 mm de diâmetro) que começam por ser verdes, ficando pretos quando amadurecem. É aliás a cor das bagas que mais facilmente distingue o Solanum nigrum de um seu congénere também espontâneo em Portugal: o S. villosum Mill., mais peludo e de flores igualmente brancas, mas com frutos amarelos ou cor-de-laranja depois de maduros.

12/11/2009

Peregrinação ao arco-íris


Rubia peregrina L.

Ofereceram-nos há dias um tapete persa. Tem um friso geométrico largo na moldura, traços escadeados nos cantos a acentuar a simetria do rectângulo, no centro um bordado arrebicado onde um olhar leigo julga distinguir flores, e a típica franjinha longa a rematar só um dos lados. É um desenho a três cores onde dominam o preto e o famoso vermelho-da-Turquia, obtido a partir de um corante extraído das raízes da Rubia tinctorum L, herbácea da região mediterrânica naturalizada por cultivo no centro e oeste da Europa.

A paleta de vermelhos disponível desde a Antiguidade é muito variada, mas nem todas as substâncias corantes, de origem vegetal ou animal, são igualmente resistentes à lavagem ou estáveis sob efeito da luz. Lembremos, por exemplo, o quadro de J.M.W. Turner, The Fighting Téméraire (National Gallery de Londres), em que uma fragata de guerra envelhece pacificamente sob um sol igualmente moribundo, pintado com iodeto de mercúrio cujo brilho e impressão melancólica hoje só podemos imaginar. O pigmento da ruiva-dos-tintureiros (madder em inglês) é duradouro, embora uma excessiva exposição à luz o converta em castanho. Mas tem a vantagem de apresentar variantes de tonalidade do vermelho e de, quando adicionado a mordentes, criar outras cores e matizes (azuis, violeta, púrpura ou o laranja-abóbora). Contudo, os processos de fabrico desta cor e de tingimento são ainda hoje morosos, o que agrava significativamente o preço dos tapetes.

Da família Rubiaceae, com mais de dez mil espécies tropicais, há uma Rubia espontânea em Portugal, a peregrina (wild madder), menos célebre do que a R. tinctorum L. mas mais fácil de encontrar a esgueirar-se entre os nossos rochedos. É uma planta ramosa, prostrada ou escandente, lenhosa na base, com talos de secção quadrada e folhas perenes de margens espinhosas agrupadas em volutas de 4 a 6 elementos. No Verão, produz flores bege com uns 5 mm de diâmetro (as da R. tinctorum são amarelas) e pétalas pontiagudas; no Outono só há as bagas, que ficam pretas quando maduras (castanhas as da R. tinctorum).

(O nosso tapete persa é pequenino, é para o rato do computador.)

11/11/2009

Pinheiro de casca rendilhada


Pinus bungeana Zucc. ex Endl.

Já se sabe que o hábito faz embotar a vista. Onde não é um eucaliptal, a floresta portuguesa é um pinhal; às vezes é as duas coisas misturadas. E pinheiros e eucaliptos não têm qualquer respeito pelo Outono, daí advindo o défice cromático de que padecemos nesta temporada. (Aviso aos impacientes: eu sei que há outras árvores e outras cores, até as vejo da minha janela, mas são claramente minoritárias.) Nessas condições de superabundância tantas vezes nociva, como aprender a gostar de pinheiros? Como ver um pinheiro na sua inteireza de árvore, ignorando que é um entre centenas de milhões? Uma possibilidade é começar por distinguir as diferentes espécies: além do esbelto pinheiro-bravo (Pinus pinaster Aiton) e do amplo pinheiro-manso (Pinus pinea L.), tão banais no nosso país, existem mais de 110 espécies de Pinus no hemisfério norte, distinguindo-se pelo tamanho, pela textura do tronco, e pelo comprimento e disposição das agulhas.

Apesar de acanhado, o Jardim Botânico do Porto ainda guarda algumas surpresas, mesmo para quem julga conhecê-lo bem. O Pinus bungeana, pequeno pinheiro de origem chinesa e uma raridade em colecções botânicas nacionais, foi um dos tesouros que só se nos revelaram depois de os caminhos do jardim terem sido redesenhados em 2007. É uma árvore de crescimento lento, em que o tronco, descascando-se em pequenos rolos, adquire um padrão marmoreado semelhante ao dos plátanos, com tons de creme, rosa e verde-acinzentado. Com um tronco tão peculiar, as agulhas são secundárias para a identificação, mas mencione-se, ainda assim, que elas são rígidas, têm 5 a 10 cm de comprimento, e vêm dispostas em grupos de três.

10/11/2009

Trepadeira-da-Rússia




Fallopia baldschuanica (Regel) Holub

Quando a vimos, acabava-se o Verão no Jardim Botânico de Coimbra, ela cobria todo o muro alto que ladeia o terraço das bauínias (interdito mas que se vai franqueando) e mostrava duas novidades: 1) As flores minúsculas, de 6-8mm de diâmetro, nascem agrupadas em inflorescências ramificadas. Creio que nunca aqui falámos deste tipo de espigas, mas já as vimos em exemplares do género Rumex. 2) A espaços regulares, o caule está coberto por uma bainha membranácea de onde emergem as inflorescências (diz-se ócrea, vê-se numa das fotos) e que justifica o nome francês para esta planta, renouée.

Trepadeira vigorosa, pensámos, excelente para revestir postes de iluminação, adornar caramanchões ou emoldurar pórticos; menos apropriada num jardim botânico, mas, enfim, louvemos a biodiversidade, até porque uma tal cortina, feita de ramagem tingida de rosa e flores brancas perfumadas, era digna de aplauso. Compulsada depois alguma bibliografia, descobrimos que esta planta vivaz cresce muito depressa, podendo atingir numa estação uns 5m de altura (em inglês é por isso conhecida como mile-a-minute, e entre nós por bracilonga) e chegando aos 12m; que usa uns anzóis nos caules e folhas para trepar muros nus e alcançar zonas luminosas; e que se multiplica facilmente por fragmentos da ramagem. Foi então que nos lembrámos de uma prima dela, certamente boa conselheira, que consta da lista das 100 piores invasoras no mundo, a Fallopia japonica (Thunb.). Vendo bem, nem é preciso derrubar-se o muro do Jardim Botânico para que uma planta do leste, para mais de folhagem caduca, aceda a território proibido.

Apesar de originária da Ásia central (sul da Rússia, Sibéria, Afeganistão, Paquistão e Turquestão), é frequente na Península pois, resistente ao frio, não desdenha de um lugarzinho soalheiro e coloniza com eficiência margens de bosques, pauis, bermas de estrada, baldios e, em geral, habitats húmidos do hemisfério norte. Por cá até tem companhia local, pois, das 9 espécies do género Fallopia, uma é ibérica, a Fallopia convolvulus (L.) Á. Löve.

Já se vai embora? Espere, ainda temos para lhe passar algumas informações de bolso, o bolso fundo e meio esburacado onde se enfia a chamada cultura geral. As flores são hermafroditas (com estames e carpelos, estando a componente não usada presente mas sendo estéril), com 5 pétalas, as 3 exteriores maiores e tendo cada uma uma asa no dorso - as mesmas que se notam nos frutos alados, angulosos e de secção triangular (3ª foto). A designação Fallopia é dedicada ao médico italiano Gabriele Fallopio (1523-1562), o que deu nome às trompas. Baldschuanica deriva de Baldschuan, região no sul do Turquistão, a norte da fronteira com o Afeganistão, onde primeiro foi descrita esta espécie.

Agora sim, adeusinho.

09/11/2009

Erva-do-sangue



Polygonum equisetiforme Sm.

Fiel ao género que primeiro a acolheu, esta planta não se juntou à debandada que aqui relatámos há dias: nasceu Polygonum, e Polygonum há-de ficar; não quer ser confundida com uma Persicaria, e por isso não solicitou nova identidade aos botânicos que dão despacho a tais assuntos.

Espontânea na Península Ibérica, nalguns outros países da bacia mediterrânica (Bulgária, Creta, Grécia, Turquia) e ainda nas ilhas açorianas, a P. equisetiforme tem uma distribuição esparsa, preferindo terrenos cultivados ou ruderais. O exemplar em cima foi fotografado na Murtosa, na berma da estrada que margina a Ria de Aveiro. É uma bonita planta formada por compridos ramos filiformes cravejados de minúsculas flores brancas. O fotógrafo ficou com as articulações doridas, tanto tempo se manteve agachado à espera de que o vento lhe concedesse uma pausa e a planta se aquietasse. Mas a espera foi compensadora.

O epíteto equisetiforme, segundo explicam os dicionários, alude à semelhança superficial da erva-do-sangue (mais um daqueles nomes enigmáticos) com algumas plantas do género Equisetum - plantas primitivas conhecidas entre nós como cavalinhas ou rabos-de-cavalo.

07/11/2009

Turismo no Douro


São Salvador do Mundo (em primeiro plano, azinheiras e zelhas)

A National Geographical Society (NGS) seleccionou 133 destinos turísticos pedindo a especialistas em preservação de património, história, arqueologia, geografia, ecologia, culturas indígenas, etc., que avaliassem o que torna alguns lugares esteticamente únicos, essenciais à cultura da Humanidade e preciosos para o viajante. O júri classificou-os usando seis critérios: qualidade ambiental e ecológica; autenticidade social e cultural; estado dos edifícios históricos e dos sítios arqueológicos; valor estético; qualidade da gestão turística; perspectivas de futuro. O vale do Douro teve 76 pontos (num máximo de 85), empatado com três outros destinos e atrás de catorze. Numa apreciação que nos soa justa, a NGS ressalva: «This wine region in northern Portugal charms some with its "historic and natural attractions" and disappoints others with its "suburbanization". Most agree about the region's intact cultural authenticity.» No relatório dos jurados pode ler-se: «Iconic region for Portuguese wine production. There still are opportunities for development and promotion in the areas of rural tourism, usage of old railways, hiking and biking trails, wine and gastronomy promotion, and domestic tourism. One of the world's great undiscovered landscapes. Relatively little tourism and almost no mass-market tourism. Rich in historic and natural attractions that retain an appeal and authenticity. Biggest environmental problem is the chemical runoff from the vineyards. This may not be visible to the naked eye, but it is of great concern because the Douro River is slowly dying. A destination well suited to boat and 'pedestrian' tourism.»

Saberão que este vale não é refúgio seguro para o património natural que elogiam? Terão contabilizado as perdas na paisagem esculpida na rocha, na vegetação, na fauna e na agricultura, inexoráveis com a construção insana de mais barragens? E que vários afluentes do Douro, que hoje correm maneirinhos e selvagens, se afogarão pasmados e mansos num lago artificial? Que depois desta razia que se prenuncia nos restará apenas a memória de uma alegria que nos tiraram?


São Salvador do Mundo - São João da Pesqueira

06/11/2009

Erva-das-pulgas


Polygonum persicaria L.

O epíteto persicaria na designação científica desta planta refere-se à semelhança das suas folhas com a do pessegueiro, que leva o nome completo de Prunus persica. Acontece que o termo Persicaria, engrandecido com maiúscula inicial, foi promovido a nome de um género que, captando numerosos dissidentes, ameaça esvaziar o género Polygonum. Claro que a ex-Polygonum persicaria se juntou aos trânsfugas - quem sabe se não os terá liderado - mas, em vez de ser rebaptizada como Persicaria persicaria, rejeitou a glória e contentou-se com um apagado Persicaria maculosa.

Dependendo de se aceitar ou não a cisão dos géneros, existem, segundo a Wikipedia, de 65 a 300 espécies de Polygonum. Optando pelo número menor, cerca de 150 dessas espécies perfazem hoje o género Persicaria. São plantas perenes, originárias das regiões temperadas do hemisfério norte, com tendência para se tornarem invasoras noutras paragens. Por exemplo, a europeia Polygonum persicaria foi objecto de denúncias por mau comportamento tanto nos Estados Unidos como no sul do Brasil. Talvez o curioso nome português desta planta (erva-das-pulgas) descreva o estado de nervosismo de quem a encontra infestando campos de lavoura. De resto, a planta - que atinge 50 a 90 cm de altura, tem folhas brilhantes e lisas, e prefere solos húmidos mas não encharcados, ricos em matéria orgânica - até tem a boa fama de ser usada em medicina caseira.

05/11/2009

É de subir pelas paredes



Anredera cordifolia (Ten.) Steenis

Enquanto enreda os talos carnudos e rubros nas plantas vizinhas com mão de gato, jurando nunca cair na tentação, esta liana sul-americana sobe depressa na vida até atingir os 7m. Se mora em recanto onde o vento não é cortante, o que detesta, cria tubérculos (comestíveis e, diz-se, com propriedades antivirais) que lhe facilitam a retórica e a dispersão até em água que passarinho não bebe. Apreciada como planta ornamental para muros e sebes, e beneficiando das acções que têm vindo a ampliar os ambientes ruderais que lhe convêm, tornou-se uma praga em alguns habitats, como as ilhas dos Açores e das Canárias, onde consta do top 25 das plantas vasculares exóticas invasoras mais preocupantes. Na Madeira e Porto Santo a sua presença é igualmente nociva, como atesta a designação vernácula parra-da-Madeira.

Sempre com o coração na boca, pois tem um em cada folha, esta herbácea vivaz rizomatosa perfuma-se no Verão e Outono com o aroma de amêndoa que impregna as suas flores agrupadas em racimos de cerca de 20cm de comprimento. Tal fragância é pura e simplesmente um capricho, pois as flores são funcionalmente masculinas e não há, em geral, produção de sementes viáveis. A reprodução é assexuada, assegurada por centenas de cormos por ano, os tais propágulos aéreos ou subterrâneos que se disseminam por hidrocoria.

O género Anredera tem uma dezena de espécies trepadeiras. Esta já se chamou Boussingaultia cordifolia Ten., em homenagem singela ao químico francês Jean-Baptiste Joseph Boussingault (1802-1887), célebre pelas descobertas sobre a absorção de azoto pelas plantas.

[Lugares-comuns e frases feitas extraídos de O pai dos burros, de Humberto Werneck, livro vindo a lume em 2009 pela Arquipélago Editorial, Porto Alegre]

04/11/2009

Suspiro de saudade



Scabiosa turolensis Pau

Pelo seu tamanho diminuto e pelas vicissitudes que tem padecido, esta planta bem pode fornecer o material didáctico para uma aula de história natural dirigida ao público infantil: a extinção explicada às crianças. Restrita à Península Ibérica e a Marrocos, as suas únicas populações portuguesas conhecidas encontram-se no Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros. Prados rupículas calcários é como é descrito no jargão científico (ficheiro pdf) o tipo de habitat favorável à planta. Quer isto dizer, no linguajar comum, um local com muita pedra calcária entremeada com vegetação rasteira, tal como é o vulgar encontrar nessas serras do centro do país. Mas a Scabiosa turolensis nada tem de abundante mesmo onde as condições de vida se adequam à sua índole; e, a agravar o problema, a casa que seria a sua tem sido devassada com parques eólicos. O único exemplar que avistámos, com flores quase murchas, morava a escassas dezenas de metros de uma das amplas vias de terra batida que foram cortadas a direito para facilitar o acesso às gigantescas ventoinhas. Se, nos próximos anos, regressarmos ao local, o mais provável é que a planta já lá não viva. Terá sido só mais uma vítima daquilo a que nós, adultos, para tornarmos suportável a culpa que carregamos, chamamos o factor antrópico. (Fim da lição.)

O género Scabiosa, com cerca de 80 espécies, distribui-se da Europa à parte mais ocidental da Ásia, e faz ainda breves incursões a África. São herbáceas vivazes: a parte subterrânea da planta mantém-se viva, enquanto que a parte aérea se vai renovando de ano para ano, desaparecendo por completo no Inverno. Em Portugal, da Ria de Aveiro para sul, é muito frequente a Scabiosa atropurpurea, planta empertigada que pode ultrapassar um metro de altura; a S. turolensis, por seu turno, é rasteira, com hastes florais por vezes prostradas que se ficam pelos 20 a 30 cm de comprimento. À semelhança do que sucede com as asteráceas, aquilo a que chamaríamos flor é na verdade um capítulo composto por muito florículos; no caso da Scabiosa, essas pequenas flores têm cinco pétalas e são ainda mais diminutas no centro da inflorescência.

Scabiosa provém de scabies, palavra latina que significa sarna. Diz-nos Stearn que o facto de a planta ter folhas rugosas, como se tivessem sido atacadas pela doença, terá sugerido a ideia de que ela poderia ser usada no seu tratamento - tanto em bichos como em pessoas, suponho. É o mesmo princípio que inspirou esta amostra de sabedoria tradicional que a prática da vacinação veio consagrar: mordedura de cão trata-se com pêlo do mesmo cão.

03/11/2009

Neve-de-montanha


Euphorbia marginata Pursh

As noites cada vez mais longas até ao solstício de Inverno são o sinal para a Euphorbia pulcherrima começar a florir. As brácteas rubras, folhas que mudaram de cor e tornam mais vistoso o centro das diminutas flores amarelas, garantem-lhe o uso anual como estrela-de-Natal; e nessa qualidade não tardará a acenar-nos das vitrines das floristas. A planta da badana de hoje usa a mesma receita de sedução, embora prefira o branco para destacar as flores - e foi através desse detalhe que a identificámos.

A floração da neve-de-montanha, herbácea anual norte-americana que exige pleno sol e torrão de saibro bem drenado, estende-se do fim do Verão até meio do Outono. Nas umbelas terminais de flores notam-se sobretudo as brácteas variegadas (que se mantêm coloridas por vários meses) com margens, bandas e veios brancos. As componentes florais que intervêm na polinização - uma flor feminina nua com três estiletes cercada por várias flores masculinas, cada uma reduzida a um só estame - reúnem-se no centro de uma taça branca de brácteas-a-fingir-de-pétalas, com um anel interno de outras brácteas verdes; o conjunto é um ciátio, inflorescência típica das eufórbias.

Há mais de 6000 espécies na família Euphorbiaceae, que, recém-sujeita a revisão taxonómica, abriga agora apenas as plantas cuja seiva é um leite (magro mas corrosivo). Em quase todas a polinização é garantida por insectos atraídos pelas gotas brilhantes de néctar e os frutos explodem para disseminar as sementes. A ingestão de algumas partes destas plantas pode causar sério desconforto; cozinhar mandioca (Manihot esculenta Crantz.) para um bobó de camarão é por isso tarefa de mãe. Desde a descoberta do processo de vulcanização até ao início do século XX, a seringueira (Hevea brasiliensis (Willd ex A. Juss.) Mull. Arg), da Amazónia, foi fonte natural de borracha e o membro da família com maior importância económica.

02/11/2009

Passageiros clandestinos



Xanthium strumarium L. / Xanthium spinosum L.

Passa-se com estas plantas fenómeno semelhante ao que ocorre com a figueira-do-inferno: por terem qualidades indesejáveis, e por aparecerem onde não são chamadas, a sua pátria de origem mantém-se incerta. Embora, desta vez, a coisa seja um pouco mais sofisticada, envolvendo até uma incerteza quanto à real identidade da planta. A primeira das que estão no escaparate aí em cima foi fotografada perto da Pateira de Fermentelos, onde é quase tão abundante na periferia dos campos de cultivo como o jacinto-de-água nas bordas da lagoa. Acreditando tratar-se da Xanthium strumarium, esquadrinhámos-lhe a biografia: originária de lugar incerto na América do Norte, ter-se-á espalhado por quase todo o mundo, assolando pastagens, bermas de estrada e terrenos baldios. Mas se não se tratar dessa espécie, e sim, como assevera a Flora Digital de Portugal, da Xanthium orientale? Nesse caso, e segundo a mesma fonte, terá sido do Egipto que ela nos chegou. Dada a semelhança entre as duas espécies, e na ausência de bibliografia adequada e de fotos concludentes, confessamo-nos incapazes de decidir de qual delas se trata. Contudo, tal distinção não parece ser assim tão importante, pois várias autoridades botânicas consideram que a X. orientale é na verdade uma subespécie (X. strumarium subsp. italicum) ou uma variedade (Xanthium strumarium var. glabratum) da X. strumarium. Assim, a única dúvida realmente irresolúvel é esta: de onde veio esta planta?

Seja qual for a resposta, esta herbácea anual, a que em Portugal chamamos bardana, atinge alturas de 60cm a 1m e exibe floração tardia, entre Agosto e Novembro. Os capítulos florais, aglomerados ao longo das hastes, são de dois tipos: os masculinos são esféricos e avermelhados, e aparecem no topo; os femininos, logo abaixo destes, são mais numerosos, e têm formato elipsoidal e cor esverdeada. Esse mesmo formato é herdado pelos frutos, que são densamente cobertos por espinhos recurvados, autênticos ganchos que se agarram ao pêlo dos animais. À boleia desses colaboradores involuntários, a planta pode disseminar-se a ponto de tornar-se sério motivo de preocupação, não tanto pela competição que estabelece com outras plantas, mas por ser mortalmente venenosa para o gado.

A X. spinosum, a segunda bardana de hoje, fotografada entre os carris da desactivada linha do Tua, não oferece dúvidas na identificação: os espinhos tripartidos são inconfundíveis, e aliás motivaram um dos nomes (pica-três) pelos quais ela é conhecida no nosso país. Podemos, assim, afiançar que a planta veio da América do Sul. Apesar das diferenças morfológicas, a sua atitude na vida (ciclo de vida anual, presença cosmopolita, uso dos animais para transportar os frutos, preferência por terrenos baldios) é quase idêntica à da sua congénere. No entanto, a X. spinosum é muito menos frequente do que a X. strumarium; e, mesmo que seja venenosa, a sua armadura de espinhos pontiagudos é suficiente para dissuadir o mais esfomeado dos bichos.

01/11/2009

Santa Pistácia


Schinus terebinthifolius Raddi [e não Pistacia atlantica Desf.]

Ha quatro annos que recebemos d'um nosso amigo vinte e tantas sementes acompanhadas do nome de Pimenteira da India. Semeamol-as e nasceram bem. As plantas foram-se desenvolvendo e passaram todo o inverno ao ar livre, sem que as geadas as prejudicassem. Plantamos um exemplar no jardim [das Virtudes], e em outubro media cerca de 1m,50 d'altura. Pouco depois florescia, e viamos que a semente, enviada pelo nosso amigo como o nome de Pimenteira da India, não era outra senão a Pistacea atlantica.

José Marques Loureiro, Jornal de Horticultura Prática, 1881 (213-214)

Esta nota de José Marques Loureiro, jardineiro do Horto das Virtudes, não foi infelizmente ilustrada por uma foto, mas esta é das poucas plantas da cidade de cuja infância conhecemos alguns detalhes. A árvore continua de boa saúde, a florir e a encher-se de frutos entre Novembro e Março, embora cada vez mais sozinha no seu socalco - longe vão os tempos em que era vizinha de centenas de camélias e visitada por reis e admiradores. Com 122 anos, esta jovem pistácia poderia aspirar, em lugares bíblicos onde até as pedras arremessadas são sagradas, a mais um ou dois séculos de história. Num jardim dito das virtudes, favorecido por verões longos e secos, pode abalançar-se à eternidade.

A Pistacia atlantica é uma árvore com ritidoma castanho rugoso, folhagem perene, folhas compostas com o eixo central alado e três a nove folíolos. É originária do Sudeste da Europa e do Norte de África, e o epíteto específico foi atribuído pelo botânico francês René Desfontaines (1750-1831) depois de uma expedição em 1785 às Montanhas do Atlas, no Norte de África.

Sendo planta dióica, estranha-se a profusão de frutos que fotografámos, pois não conhecemos nenhuma outra P. atlantica perto desta; o mais provável é que sejam bagas estéreis.

Errata. Leia aqui uma importante correcção a este texto.

31/10/2009

O que não se escreve

Façam rufar tambores e entoem aleluias: o Eduardo está de volta. Morto e enterrado o agrafo, com direito a lápide e tudo, é o ágrafo, seu irmão gémeo, que ocupa agora o mesmo endereço. Depois digam que um acento não faz toda a diferença.

Árvores despassaradas

O texto que deveria aparecer aqui hoje teve a sua publicação adiada para amanhã. A gerência pede desculpa - mas recomenda, à laia de compensação, que o leitor espreite este texto ontem publicado no blogue da associação Árvores de Portugal.

30/10/2009

A vida horizontal



Quercus robur L. - Epping Forest

E se as árvores, em vez de morrerem de pé, vivessem deitadas? Mesmo que as raízes da árvore não sejam alicerces suficientemente firmes para resistirem a uma tempestade, cair pode não ser o fim, mas apenas uma mudança de postura: a vida continua, ainda que na horizontal.

Na memória do povo britânico, a data de 16 de Outubro de 1987 tem uma ressonância de tragédia. Nesse dia, uma das maiores tempestades da história atingiu o leste e o sudeste de Inglaterra. No mar houve poucos barcos naufragados, e os estragos em terra não foram, na sua maioria, nem em casas, nem em estruturas construídas. Notável foi o número de árvores tombadas, superior a dez milhões. As chuvas que antes tinham caído haviam ensopado os solos, o que diminuíra a estabilidade das árvores; e elas, além do mais, estavam pesadas da folhagem, apesar de já chegado o Outono.

Houve de imediato uma mobilização geral, com generosos donativos para «limpar» as florestas e plantar novas árvores em substituição das que se tinham «perdido». Mas, no entender de Oliver Rackham, autor de Trees & Woodlands in the British Landscape (Phoenix Press, 2.ª ed. 1990), esse impulso voluntarista causou estragos muito mais sérios do que a tempestade em si. Porque, na verdade, e pelo menos na sua grande maioria, as árvores tombadas não estavam perdidas. Se o tronco não se tivesse quebrado, e se as raízes se mantivessem, em parte, agarradas à terra, a árvore continuava viva, embora numa posição em que não estamos habituados a vê-la. O carvalho aí em cima é uma boa amostra dessa vida horizontal: dá folhas, dá bolotas, é abrigo e sustento para outras vidas, exactamente como se estivesse de pé. Caso a árvore, em vez de cair inteira, tivesse quebrado pela cintura, do cepo alimentado pelas raízes surgiriam novos ramos que iriam, ao fim de alguns anos, refazer a copa. As florestas «arrasadas» pela tempestade estavam, afinal, tão vivas como antes, e só precisavam de tempo, e não de dinheiro, para se recomporem.

Havendo dinheiro, porém, era preciso gastá-lo. Vieram motosserras e escavadoras para remover os troncos caídos e arrancar os torrões das raízes; plantaram-se centenas de milhares de novas árvores. Se num jardim ou num parque urbano formal se aceita a pulsão de ter tudo arrumadinho, já numa floresta uma tal intervenção é danosa e esbanjadora. As árvores de viveiro têm hipóteses quase nulas de sobreviverem em ambiente natural (em Portugal muita gente com responsabilidades sabe disso, o que não impede essas mistificadoras campanhas de um milhão de árvores para aqui ou para ali); e as poucas que conseguem vingar acabam por adulterar e falsificar a composição natural da floresta, a menos que tenham sido criadas a partir de sementes obtidas no local.

E mesmo a árvore tombada que se despediu da vida, como a que vemos aí em baixo, cumpre uma função importante na ecologia de um bosque, fornecendo alimento a escaravelhos e outros insectos, abrigando pássaros e esquilos nas cavidades do tronco apodrecido. A árvore caída pode estar morta, mas ainda é parte da cadeia viva a que chamamos natureza.


Hampstead Heath

29/10/2009

Dance the orange*



Pistacia lentiscus L.

Alguns dos instrumentos musicais mais célebres foram fabricados em Cremona, terra de Monteverdi nas margens do rio Pó, mas o segredo dos Amati, de Guarneri ou de Stradivari perdeu-se a meio do século XVIII. Poucos dados sobram para contar a história dos preciosos Stradivarius para além de uns poucos violinos cor de laranja, de pele tigrada, com nome próprio como se fossem gente e dotados de um som que nenhum outro imita. Reconhece-se hoje que a madeira escolhida por este luthier era excepcionalmente uniforme, com anéis de Inverno e Verão de largura quase idêntica; que a arquitectura era inovadora, sobretudo a curvatura da caixa e do arco, a largura da ponte, o enrolamento da voluta, as medidas precisas das componentes mais finas em madeira; e que a fórmula bem guardada do verniz, protegendo e isolando devidamente o instrumento, foi essencial à fama. Uma vez que nenhum proprietário-coleccionador permite que, a bem da ciência, se destrua objecto de tão grande estima, resta aos obcecados com o mistério especular sobre a origem do verniz. Ainda que Antonio Stardivari, como se crê, não se restringisse a uma receita, adaptando-se antes às necessidades de cada instrumento, entre os possíveis fornecedores dos ingredientes secretos (além do dragoeiro, Dracaena draco, e da ruiva, Rubia tinctorum) conta-se o lentisco, planta lenhosa de cuja seiva se produz o mástique, uma resina cor de limão de aroma adocicado que também se utiliza em odontologia.

Arbusto perene de terras pedregosas ou bosques em Marrocos, Ilhas Canárias e Sul da Europa até à Grécia, o lentisco tem folhas pinadas com cerca de 10cm de comprimento, dotadas de pecíolo alado e desprovidas de folíolo terminal - duas características que o diferenciam do terebinto. Como todas as pistácias, o lentisco é dióico; não temos ainda fotos de flores femininas, mas, entre Março e Maio, o lentisco enfeita-se de panículas de cerca de 3cm com flores de anteras rubras (masculinas, as da foto à esquerda), ou de outras maiores (6cm), mas menos densas, com flores femininas castanho-esverdeadas. Nestes pés, seguem-se bagas vermelhas de uns 6mm que escurecem ao amadurecer e são comestíveis (mas não as provámos). Tal como no terebinto, é comum a presença de bugalhos, que nesta espécie nascem na face superior dos folíolos.

*Rainer Maria Rilke

P.S. A Gi, sempre atenta, avisou-nos hoje (04.12.09) que há novidades: «Maria, parece que Antonio Stradivari terá usado carmim de cochinilha no verniz que punha nos seus violinos: ver aqui.»

28/10/2009

Zelha à beira Tua


Acer monspessulanum L. (zelha)

Já não há muitas destas árvores em Portugal. Na Serra dos Candeeiros, ao fundo do grande anfiteatro natural que é a Fórnea, há duas zelhas no leito pedregoso da ribeira, um curso de água sazonal que seca por completo nos meses de Verão. Enraizadas nos interstícios da pedra, cercadas por figueiras e por vegetação arbustiva, não há ângulo que lhes favoreça o retrato. E bem mereciam louvor e exposição pública, por serem quase as últimas da sua espécie em toda a serra. Na impossibilidade de lhes fazer justiça, rumamos ao nordeste do país e à bacia do Douro, que é onde resistem as populações mais abundantes da espécie (há menção, também, da sua presença no Sabugal, na Serra do Açor e na Serra da Arrábida).

O vale do Tua, como se sabe, não é refúgio muito seguro. Se a barragem for construída à cota máxima, também em Abreiro as margens do rio serão inundadas, e esta meia dúzia de zelhas abaixo e acima da linha férrea será submergida tal como o resto da vegetação ribeirinha. Se não se fizer a barragem, ou se o enchimento se ficar pela cota mais baixa, há ainda assim, caso se opte por reconstruir ou modernizar a ferrovia, razões para temer o futuro destas árvores, que quase se roçavam na automotora quando ela por aqui passava.

E assim nos vamos entretendo, pois não há só que contabilizar perdas quando se destrói o património natural. Além de favorecerem as empresas predatórias que fazem da destruição o seu negócio, são estas micro-extinções que vão engrossar os diversos livros vermelhos de espécies ameaçadas, obras de considerável mérito já com tradição em Portugal.

O Acer monspessulanum (zelha, ácer-de-Montpellier ou bordo-de-Montpellier) e o Acer pseudoplatanus (padreiro ou plátano-bastardo) são as duas únicas espécies do seu género espontâneas em Portugal; o segundo, de ocorrência muito frequente no norte do país, é também muito usado em jardins e arruamentos. O A. monspessulanum é de menor porte (até 10 metros de altura) e de crescimento lento, e a sua madeira, dura e compacta, é empregue em carpintaria de luxo e no fabrico de instrumentos musicais - como as gaitas-de-foles de Miranda do Douro. Prefere climas secos e solos calcários, embora, como atesta a sua presença no vale do Tua, tolere outro tipo de solos. A sua área de distribuição natural abrange não só a Península Ibérica, onde é mais comum no norte, mas ainda toda a região mediterrânica.

27/10/2009

Salgueirinha

Have you not a moist eye, a dry hand, a yellow cheek, a white beard, a decreasing leg, an increasing belly? Is not your voice broken, your wind short, your chin double, your wit single, and every part about you blasted with antiquity?
....Shakespeare, Henry IV (Parte 2)


Lysimachia vulgaris L.

O amarelo é cor de simbologia ambígua. Tanto serve a primazia da vida, tingindo as espigas do milho maduro, a gema de ovo e o pólen, como veste a mansidão do Outono, a decadência e a morte. É a cor do ouro e do poder, seja ele diabólico enxofrado ou angélico com um bizarro halo pálido; e também da irritabilidade associada a uma bílis imperfeita. Unido ao preto, não raro indicia perigo; precaução é afinal o que este alegre pigmento aconselha.


Argiope bruennichii (não clique que aumenta; note a teia em ziguezague)

As fontes de amarelo que se usam em pintura variam com o lugar e os meios. Pode vir do âmbar - uma resina fóssil que o contacto da água transforma em gotas de amarelo - e de plantas como o dispendioso açafrão (Crocus sativus), a tóxica Garcinia hanburyi ou a deliciosa mangueira (Mangifera indica). Algumas são venenosas, o que muitos pintores (crê-se que também Van Gogh) descobriram tarde de mais, mas terão por isso protegido muitas pinturas famosas do ataque de insectos.

Também esta lisimáquia, com floração no Verão, fornece corante amarelo, embora sejam mais aclamadas as suas qualidades medicinais, nomeadamente o efeito cicatrizante e febrífugo. É planta vivaz da Europa e Ásia, de folhagem caduca, que se multiplica facilmente por divisão das raízes. Habita ambientes ripícolas, apreciando a humidade que ajuda os rizomas a fixarem-se em solo novo.

O género Lysimachia contém cerca de 150 espécies de herbáceas no hemisfério norte (11 europeias - ou 10, uma vez que a L. minoricensis Rodr. é dada como extinta -, cerca de 130 chinesas, algumas descobertas recentemente, e 9 na América do Norte) e mais umas 30 espalhadas por África, Austrália e América do Sul. As folhas de L. nummularia L. e a L. quadrifolia L. foram em tempos usadas como substituto do chá.