31.5.07

Festival de Jardins em Ponte de Lima

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Festival Internacional de Jardins
em Ponte de Lima -até 30 de Outubro, nos campos de S. Gonçalo, entre as pontes romana e a de Nossa Senhora da Guia, na margem direita do rio Lima (ver fotos do rio - no Centro de Recursos de Ponte de Lima > ) .
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Ponte de Lima no Dias com árvores:
Jardins do Lima -11.8.06
Amieiros nas margens do Lima -24.5.06
As palavras correctas parecem às avessas -14.10.05
"Ah ribeira do Lyma celebrada..." -9.10.05
Ponte de Lima -8.10.05
Festival Internacional de Jardins - Ponte de Lima -3.6.05

30.5.07

Javalis e nuvens em Hampstead


Hampstead: plátanos; castanheiro-da-Índia na paragem do 24

Tudo indicava que se iria repetir o padrão dos dias anteriores: céu carregado de manhã; à tarde um sol fugidio espreitando por entre nuvens ligeiras. Por isso deixei para depois do almoço o passeio obrigatório a Hampstead Heath e durante a manhã andei ao acaso pelas ruas do bairro, desde a comercial Hampstead High Street aos recantos arborizados das zonas residenciais: ruas num sobe-e-desce de carrossel, com muita sombra de plátanos, tílias e castanheiros-da-Índia, e muito colorido de flores nos jardins privados. Talvez por deferência para comigo, as nuvens sustiveram a carga de água enquanto lhes foi possível; quando romperam, acolhi-me a uma livraria em South End Road, comprei um livro, e fui fazer horas com ele para uma cafetaria. Foi então que soube da improvável relação entre nuvens e javalis.

O livro é uma tradução inglesa de La famosa invasione degli orsi in Sicilia, escrito e ilustrado por Dino Buzzati (1906-1972). Quando os ursos dormem à noite na floresta, são atacados de surpresa por um esquadrão de perigosíssimos javalis ao serviço do Grão-Duque da Sicília. Nada pode salvar os ursos a não ser o astrólogo Professor Ambrósio, que gasta na ocasião um dos dois únicos feitiços a que a sua varinha mágica lhe dava direito: «E vejam só, um dos javalis, o maior e o mais adiantado de todos eles, ergueu-se no ar de repente e começou a inchar e a inchar, tornando-se gradualmente num verdadeiro balão; um lindo balão cheio de ar que esvoaçou para o céu. E a esse javali seguiu-se um segundo, depois um terceiro e um quarto. Tão pronto chegavam perto, logo os mortíferos javalis eram misteriosamente enfeitiçados e inchavam como bolas de futebol.»


Hampstead Heath: vista de Parliament Hill; faia-rubra e castanheiro-da-Índia [clique para aumentar]

À tarde, prevenido com um melhor entendimento desse interessante fenómeno atmosférico que são as nuvens (especialmente aquelas que pela forma evocam os animais que foram), e sob um sol intermitentemente radioso, entrei em Hampstead Heath e subi de imediato à Parliament Hill. Terá sido neste banco que Judi Dench, professora a caminho da reforma no filme Notes on a scandal, ensaiava os seus engates? A vista, a mais famosa de Londres, é sem dúvida a mesma, mas o banco pode ter sido qualquer um dos outros. Todos eles estão desocupados nesta tarde de terça-feira; e nem eu, que vim à caça de árvores com máquina a tiracolo, me posso aqui demorar.


Hampstead Heath: carvalhos (Quercus robur) [clique para aumentar]

29.5.07

Escovinha


Centaurea montana - Kew Gardens

Florão é o que se chama a esta inflorescência com uns 7 cm de altura, solitária, com muitas florinhas em capítulo. Na Centaurea montana há flores exteriores, radiais, tubulares, com cinco pétalas azuis; e outras interiores que são mais especializadas e por isso se reduzem a tubos estreitos de cor violeta muito juntos entre si. Não há sépalas mas as brácteas distinguem-se bem pela margem negra franjada.

Esta planta é perene e gosta de frio, de terrenos lavrados, bosques mistos e montanhas. Diz-se que era frequente nos nossos campos de trigo mas, com as técnicas agrícolas modernas, sobretudo o uso generalizado de herbicidas, está a desaparecer desse habitat. O género Centaurea abriga mais de 500 espécies de herbáceas ou subarbustivas maioritariamente da região mediterrânica e Turquia, algumas com fama como ervas medicinais.

28.5.07

"Every breath you take..."

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Se me pedissem para escolher uma árvore, uma apenas, a que mais me importa e a de que mais gosto, não hesitava, claro. É este liquidâmbar que vi crescer e me entra por assim dizer pela casa, agora que subiu e ultrapassou a altura do terceiro andar onde vivo. Gosto dele de todas as maneiras, em todas as estações, em todas as alturas do dia e da noite: com folhas e sem elas, ao sol, à chuva e em dias de ventania. Sim, gosto particularmente dele quando o vento o envolve e o balanceia, fazendo-o ramalhar (YouTube) .

Ultimamente, não me sai da cabeça a canção do Sting e ando a tentar adaptar-lhe a letra. Não é muito original e fica até um pouco ridículo. But who cares? Não foi o poeta que disse que todas as canções de amor são ridículas (ou qualquer coisa do género)?

Every leaf you take
Every move you make
Every branch you break
Every colour you take
I'll be watching you

Every single day
...
Fotos: Quanto cresce uma árvore em vinte anos? Primavera 1986; Outono 2003; Inverno 2004; Primavera 2005

É com este post que, seguindo a sugestão do Jardinando sem parar resolvi participar na 12ª edição do The Festival of the Trees , este mês acolhida pelo arboreality.

26.5.07

Quimera


+Laburnocytisus adamii - Kew Gardens

Em 1825, sete anos depois de Mary Shelley ter escrito Frankenstein, Louis Adam, viveirista parisiense, criou este estranho arbusto que é uma amálgama de duas plantas distintas, ambas leguminosas: a giesta-violeta (Cytisus purpureus) e o laburno (Laburnum anagyroides). Como na altura a fama circulava devagar, não foi ao monstro então recém-criado que se associou esta planta, mas sim à quimera, criatura com três cabeças flamejantes, corpo meio-cabra-meio-leão e cauda de dragão que assombrou a antiga Grécia e parece ter sido avistada pela última vez por Homero, o poeta cego.

Ao enxertar a giesta no laburno, Louis Adam notou que uma ramada perto do ponto de enxertia exibia características intermédias às duas plantas. Usando reprodução por estaca, obteve então um arbusto que na forma se assemelhava ao laburno (ver 4.ª foto aqui), mas com folhas mais pequenas; as suas flores, em cachos pendentes, tanto eram amarelas (iguais às do laburno), como violetas (iguais às da giesta), como ainda violetas tingidas de amarelo.

Esta planta não é um híbrido, pois nela os tecidos dos dois progenitores mantêm-se separados. As células que formam a camada exterior pertencem à giesta, revestindo por completo o miolo formado por células de laburno.

[Informações retiradas da placa explicativa colocada ao lado da planta, nos Kew Gardens.]

25.5.07

A ler

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«A Tília

Junto à fonte, perto do arco,
Encontra-se uma tília.
Sonhei, na sua sombra,
Um sonho doce. (...)»



A ler (e a ouvir) o post dedicado pelo Paulo A ao Jorge Rodrigues e ao Ritornello:
Der Lindenbaum de Shubert cantado por Dietrich Fischer-Dieskau, no Valkirio.

porque já sinto saudades e um vazio que dificilmente será preenchido-
também por isso não vou deixar de assinar esta petição.

Can't - miss - it


Consolida ambigua, Parque de Avioso (Maia)

Enquanto não surgem as flores, a Consolida ambigua (ou Delphinium ambigua), originária da Europa, África e Ásia, é simplesmente uma herbácea com folhas muito recortadas em filamentos longos, que lhe dão o nome francês pied d'alouette (pé de cotovia). Mas por altura da Páscoa as inflorescências erectas (em latim consolida) obrigam a uma nomenclatura mais ajustada:

(a) Quando as flores começam a abotoar, uma sépala em formato de espora dá-lhes a aparência de golfinhos elegantes - e delphinium deriva do grego delphinos, golfinho. A preferência dos mais cépticos nesta interpretação vai para a designação inglesa larkspur e a portuguesa esporas.

(b) Mal as flores abrem, uma pétala é mais notória ao centro e desenha, com matizes de cor, um coelhinho, de orelhas redondinhas e narizito típico. Agora a flor merece outro nome, e os ingleses optam por Easter bunny flower.

Não admira que o epíteto específico seja ambigua, dada a incerteza na escolha do que de facto identifica esta planta. Que gosta de sol e canteiros de terra rica, permeável e irrigada com frequência e, sendo anual, se multiplica apenas por sementes, devendo a semeadura ser feita no Outono para que a floração ocorra na época dos coelhos.

24.5.07

Variações em azul


Syringa vulgaris - Kew Gardens, Maio de 2007

Por cá este ano quase não demos pelos liláses: no jardim da Praça da Galiza, onde eles se costumam exibir entre Abril e Maio, uma poda mal calculada abortou quase toda a floração. E os liláses, como arbustos ornamentais que são, valem pela cor e pela fragrância que agora foram impedidos de dar. A visita aos Kew Gardens serviu para refrescar a memória dos sentidos, com dezenas de liláses em flor de todos os tons possíveis entre o branco, o azul e o violeta, exalando perfumes variadíssimos que as palavras são incapazes de descrever.

23.5.07

Onde está

...Lineu?

Quem o descobre nesta gravura do seu
Hortus Cliffortianus* ?





*Esta obra basilar (de seu título completo Hortus Cliffortianus: plantas exhibens quas in hortis tam vivis quam siccis Hartecampi in Hollandia coluit G. Clifford) onde o autor já utiliza consistentemente o sistema binominal de nomenclatura > é uma espécie de catálogo ilustrado das plantas "vivas e secas" das estufas, jardins e herbário da propriedade que George Clifford > possuía perto de Haarlem, onde Lineu trabalhou entre os anos de 1735 e 1737.
..
Celebração do tricentenário do nascimento de Lineu > Linnaeus 2007

Foto de Manuela D.L.Ramos (exemplar pertencente ao fundo antigo da Biblioteca do Departamento de Botânica da UP )

Manta de neve


Sutera cordata, Parque de Serralves

Depois da intervenção no Parque de Serralves, receámos que a hera invadisse todo o solo não relvado, troncos e muros, como é usual em espaços onde o seu crescimento e distribuição não são controlados. É que esta trepadeira resistente e voraz teve, neste plano de arborização, um incentivo inusitado para planta tão invasora: foram plantados milhares de pés dela, devidamente protegidos das pisadelas do público até que firmassem raízes. Mas afinal nem toda «a Gália foi ocupada pelos romanos...». Recantos ensolarados entre árvores e arbustos são agora sala para a visita de uma plantinha anual, rasteira, de flores brancas tubulares minúsculas, com um centro amarelo atraente.

Sendo sul-africana, a Sutera cordata precisa de sol e torrões bem drenados para florir abundantemente de Abril a Novembro. O nome do género homenageia o botânico suiço Johann Rudolf Suter (1766-1827, autor de Flora Helvetica (1802). Uma outra espécie, a Sutera aquatica, é usada como bálsamo para queimaduras e frieiras.

22.5.07

Boa notícia

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O lançamento do site que disponibiliza on line algumas das colecções do Herbário do Departamento de Botânica > da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra é uma óptima notícia assinalando da melhor maneira o Dia Mundial da Biodiversidade que hoje se comemora.

Fotografias Cycas revoluta > no Jardim (2006.05) e no Museu (2006.11)- clicar para aumentar
Apontadores:
  • Video de apresentação do Coimbra Herbarium
  • "Inauguração da versão virtual do maior Herbário Português, em Coimbra"- no Naturlink
  • "UC lança colecção virtual com mais de 30 mil plantas" in Ciência Hoje
  • «O Herbário de Coimbra (sigla internacional COI) tem uma colecção que ultrapassa os 700.000 exemplares, de longe a maior do país e a segunda da Península Ibérica. O sítio na Internet que amanhã se inaugura foi um projecto financiado pelo POSC (Programa Sociedade do Conhecimento-685/2.2/C/CEN), alojado na FCTUC e em colaboração com a Naturlink (http://www.naturlink.pt/). » in CienciaPT
  • «O herbário do Departamento de Botânica da Faculdade de Ciências da e Tecnologia da Universidade de Coimbra está agora disponível no endereço http://herbario-digital.bot.uc.pt/ A iniciativa pretende assinalar a passagem do Dia Mundial da Biodiversidade. (...) Segundo Fátima Sales, directora do herbário, este mega projecto visa "não só a disponibilização gratuita a nível mundial de informação contida nesta colecção biológica, mas ainda intervir com qualidade e em português, com a diferença que o estatuto de investigação universitária a ele associado lhe permite, na educação científica na área da botânica associada à diversidade".» no Primeiro de Janeiro

Sobreiro centenário classificado- Canhestros

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Este imponente sobreiro (Quercus suber), com a idade provável de cerca de 200 anos, classificado de interesse público em Outubro de 2001, fica localizado no lugar de Canhestros, freguesia e concelho de Silves.
Na altura da visita, em Agosto de 2004, existia um arremedo de placa > ,tombado por terra, evidenciando o despeito que alguém sentia por aquele estatuto, impeditivo do avanço de parte do projecto de construção (creio que o alargamento de um acesso ou algo que o valha como nos informaram então).
Tenho curiosidade em saber se quando foi visitado pelos nossos amigos do Sombra Verde, há cerca de um mês, o sobreiro dito de Canhestros estava identificado como árvore de interesse público. Realmente, é uma pena que o exemplo do Sobreiro de S. Geraldo não seja seguido pelas autarquias. Na minha opinião a lei de 1938 deveria ser actualizada de modo a incluir- entre outras coisas- a obrigatoriedade da sinalização das árvores classificadas.

21.5.07

Sobreiro de S. Geraldo



Fotos de Eduardo Basto

«Não me estou a fazer à publicação no DcA, (...) mas achei que se calhar vos interessaria. A árvore, aparentemente mais acarinhada que o costume, fica em Veiros, que é uma terrinha mais ou menos entre Estarreja e a Murtosa -- até há uma placa na estrada a dizer "árvore monumental" ou algo parecido, já não me lembro bem. Não sei cá PAPs nem coisas nenhumas dessas, mas a árvore tem um aspecto invulgar, bastante curioso, com o tronco curto mas ainda assim muito irregular.»

Claro que nos interessa e muito, Eduardo. É um exemplo do que nós gostaríamos que fosse feito com todas as árvores de interesse público no país: divulgadas e acarinhadas. No Porto, onde nem uma só dessas árvores tem placa, quase ninguém repara nelas ou sabe da sua existência. Estão pois de parabéns a população de Veiros, a sua paróquia (que é proprietária da árvore) e ainda, por promoverem este sobreiro multi-centenário como património local digno de ser visitado, a Junta de Freguesia de Veiros e a Câmara de Estarreja.

20.5.07

Cebola-da-Pérsia



Cansei os braços
a pendurar estrelas no céu.
Destino dos fados lassos.
Tudo termina em cansaços
braços
e estrelas
e eu.


António Gedeão, Balão Esvaziado (in Movimento Perpétuo, 1956)


Allium cristophii

19.5.07

Uma flor tranquila



Hypericum perforatum, jardins do Palácio de Cristal

Este hipericão, da espécie Hypericum perforatum, parece ter sido costurado à pressa: as flores têm pétalas ligeiramente assimétricas, e ainda guardam alinhavos e um debrum a margeá-las para que não desfiem; nas folhas, opostas, sésseis e com veio central proeminente, são nítidos uns quase-furinhos, resultado de uso descuidado de alfinetes.

Uns e outros são de facto glândulas e constituem a característica mais útil na identificação desta planta. Quando pressionadas, libertam um óleo avermelhado que se julga conter o princípio activo usado em outros tempos para curar quase tudo, e que tem hoje presença obrigatória em anti-depressivos naturais.

Espontânea na Europa, esta herbácea é uma praga em solo americano.

18.5.07

A ler

"Um cheiro que se não estranha..."

Título furtado daqui


Laranjeiras em frente ao Museu Monográfico de Conímbriga > - fotos Abril de 2007

«Deitei-me e adormeci.
Debaixo da laranjeira,
Caiu-me uma flor no rosto:
Ai! Jesus, que tão bem cheira!»

17.5.07

Domingo no parque com sorvete



Victoria Park (oeste): cedro-do-atlas e freixo (Fraxinus excelsior)

Há três categorias de veículos motorizados que podem circular num parque londrino: os de emergência, os do serviço de manutenção do próprio parque, e os de venda de sorvetes. Só os últimos são imprescindíveis. Quando ao princípio da tarde a banda sonora da passarada é interrompida para a sesta, é a carrinha dos sorvetes, estridulando um jingle bells circense a cada centena de metros, que enche os ouvidos dos frequentadores do parque. E esse afago auditivo é só o preâmbulo da sua função mais nobre, que é a de nos comprazer o paladar. Uma carrinha cantante, uma sombra de árvore, um banco de jardim, um sorvete de morango e baunilha: eis o clímax de um perfeito domingo à tarde no parque.

[Um parêntesis linguístico-sociológico. O termo sorvete é mais usado no Brasil do que em Portugal: aqui quase toda a gente diz gelado, palavra muito menos expressiva. Em Portugal os sorvetes são coisa do Verão, mas em países como a Inglaterra, onde os meses quentes pouco têm de escaldante, são consumidos o ano inteiro.]

Três razões me levaram ao Victoria Park no meu último domingo em Londres: a pulsão coleccionista de converter em imagens reais todas as manchas verdes no mapa da cidade; o percurso no autocarro 55 entre Oxford Circus e o East End londrino; e o facto de ser no Victoria Park ou na vizinhança que decorrem algumas peripécias de dois livros de Barbara Vine (Asta's Book e The Chimney Sweeper's Boy). Assim como Charles Dickens e Conan Doyle construíram uma Londres oitocentista ficcionada que se tornou mais real do que a Londres dos historiadores, também Ruth Rendell / Barbara Vine nos tem legado, em romances que de policial pouco ou nada têm, um perdurável retrato físico e social da Londres contemporânea.

O Victoria Park ocupa 87 hectares; tal como o Regent's Park (com o qual tem grandes semelhanças), foi inaugurado em 1845 e é dos parques mais antigos de Londres. Os vitorianos consideravam os parques «como instrumentos para a melhoria física e moral, principalmente das classes trabalhadoras» [citação daqui], e o parque foi uma oferta da coroa às gentes pobres do East End. Ladeado por dois canais (o Regent's Canal a oeste e o seu afluente Hertford Union Canal a sul), é atravessado por uma rodovia (Grove road) que o divide em duas partes bem distintas: a metade ocidental é mais frondosa e pitoresca, com sebes de plantas variadas, canteiros floridos, muitas árvores ornamentais em maciços e alamedas, e um lago cheio de meandros com uma ilha arborizada ao centro. É aqui que as mães vêm empurrar os carrinhos de bebé, enquanto os maridos (enfim, nem todos) e os filhos mais graúdos se divertem nos campos de jogos que preenchem boa parte da metade oriental. Mas mesmo aí há um lago enfeitado com muitos lírios amarelos e um jardim inglês à moda antiga (old english garden) protegido por um gradeamento; delimitando o parque a nordeste, alonga-se a mais comprida alameda de plátanos que alguma vez percorri. E foi também na metade oriental que uma benemérita carrinha sorveteira completou a perfeição de uma tarde de domingo.



Victoria Park (leste): lírios amarelos e castanheiro-da-Índia em flor; laburno (Laburnum anagyroides) e campo de jogos

16.5.07

De olho nele...

e ele de olho em mim.

Ver e ouvir no You tube >
Foi durante a minha visita anual ao bonito castanheiro da Índia que fica no largo dos Álamos - num bairro cujas ruas têm nomes de árvores não concordando nenhum deles com os espécimes que nelas se encontram- que passei por este melro.
Todos nós conhecemos o assobio desta ave e o seu canto (considerado por alguns entendidos > como o mais belo da Europa ), mas como chamar a este repetitivo som metálico? E como interpretá-lo? A mim - que não percebo nada de aves- pareceu-me um chamamento, mas talvez esteja enganada (ver "oiseaux.net").

Quedei-me uma boa meia hora a observá-lo (e pude verificar pelas fotos e pelo filme > que também ele esteve de olho em mim): brilhando ao sol, saltitando do telhado para o murete, e deste para o chão, voltava sempre para o interior da japoneira- muitas vezes com alimento no bico- donde continuava o seu estridente... «aflautar, agloterar, amiudar, apitar, arensar, arremedar, arrolar, arrulhar, assobiar, atitar, bufar, cacarejar, caquerejar, carcarear, carcarejar, chalrar, chalrear, chiar, chilrar, chilrear, chirrear, chirriar, clarinar, cocoriar, cocoricar, corruchiar, corujar, corvejar, crocitar, crujar, cuarlar, cucar, cucular, cucuricar, cucuritar, dobrar, engabrichar, estalar, estralhar, estribilhar, falar, fraquejar, gaguear, galhear, galrear, galrejar, ganizar, gargalhar, gargantear, garrir, garzear, gazear, gazilar, gazinar, gazular, gemer, gloterar, glotorar, gorgolejar, gorjear, gracitar, gralhar, gralhear, grasnar, grasnir, grassitar, grazinar, grinfar, gritar, grugrujar, grugrulejar, grugrulhar, grugrurejar, grugulejar, grugulhar, grugurejar, gruir, grulhar, guinchar, modular, palrar, papear, piar, picuinhar, pipiar, pipilar, pissitar, pistar, pupilar, redobrar, regorjear, remedar, restridular, retinir, rir, rouxinolar, rouxinolear, serrar, soar, suspirar, sussurrar, taralhar, taramelar, taramelear, tartarear, tentenar, tinir, trilar, trinar, trinfar, trissar, trucilar, turturejar, turturinar, turturinhar, ulular, vozear, zinzilular» ( fonte: Houaiss)
Que termo usar de entre alguns dos que se encontram nesta longa lista das vozes das aves? Ainda não me decidi, porque, para ser sincera, não sei qual o mais adequado.

15.5.07

Filírea


Phillyrea latifolia

Depois de 17 anos à espera, os sábios preparam-nos agora para recebermos de braços abertos, daqui a 10 anos e só então devidamente aprovado, o acordo ortográfico luso-brasileiro. Tarefa árdua, de que nos cabe ir usando as palavras de que a língua portuguesa se orgulha, não vá dar-se o caso de as esquecermos e já não constarem das partilhas. Como, por exemplo, aderno e lentisco. Designam as duas únicas espécies do género Phillyrea, a P. latifolia e a P. angustifolia, ambas espontâneas em Portugal, Norte-de-África e Turquia.

São arbustos da família Oleaceae, como as oliveiras, os ligustros, os lilases, os freixos, os sinos-de-ouro ou os jasmins. De crescimento lento e flores minúsculas esverdeadas (embora abundantes e vistosas em conjunto), dir-se-iam plantas pouco ornamentais. Contudo têm folha perene com bordo transparente e um biquinho no ápice, os frutos são bolinhas coloridas e, quando idosas, exibem troncos encurvados muito elegantes - de madeira clara e maleável, que é usada, como a de buxo, em esculturas. E, claro, sendo sobreviventes das nossas florestas, suportam corajosamente os ventos, a poluição atmosférica e as secas.

Antes da importação maciça no século XIX de perenifólias do Japão e China, eram os adernos-de-folha-estreita e os adernos-de-folha-larga que se apreciavam em jardins soalheiros. Mas não conhecemos no norte exemplares de grande porte deste género. O da foto está num bosquete de arborização recente do Parque Biológico de Gaia, vizinho de espécimes jovens de P. angustifolia.

Segundo o dicionário Houaiss, o termo phillyrea deriva do grego philúra, tília.

14.5.07

Caminhos de água



Londres: o Regent's Canal entre Victoria Park (à esquerda em cima) e Islington (à direita em baixo)

Embora a Inglaterra não seja a Holanda, é possível num barco a motor ir de norte a sul e de este a oeste do país usando uma ampla rede de canais artificiais. Construídos para transporte de mercadorias, foram o caminho-de-ferro já no século XIX e a revolução rodoviária no século seguinte que lhes retiraram toda a função utilitária. Não que tivessem ficado ao abandono: nos canais londrinos vêem-se famílias inteiras a bordo dos barcos estreitos e compridos que preguiçam água abaixo ou água acima; os caminhos marginais (towpaths, usados para puxar os barcos à corda no tempo em que não havia motores) enchem-se de ciclistas, passeantes, trotadores (tradução possível para joggers), pescadores à linha, gente com cães pela trela, vagabundos bebendo cerveja em lata, e um ou outro turista desorientado.

A construção do Regent's Canal, segundo plano do arquitecto e urbanista John Nash, decorreu entre 1812 e 1825. O canal descreve um arco com uma extensão aproximada de 13,7 Km entre Paddington (a oeste de Londres) e as Docklands (a leste), onde desagua no Tamisa; cinge o Regent's Park no seu limite norte, bissectando o Zoo de Londres, e passa depois por Camden Town, pela estação de King's Cross, por Islington e pelo Victoria Park. O caminho para peões é interrompido nos dois ou três pontos onde o canal mergulha em túneis de extensão variável - o mais comprido deles, o túnel de Islington, ultrapassa os 800 metros - e só de barco é possível conhecê-lo de uma ponta à outra. Não que eu tivesse tamanha ambição: contentei-me em palmilhar contra a corrente os 4 km de Victoria Park até Islington. Esse troço atravessa Hackney, uma das regiões mais pobres de Londres, e o cenário dos bairros sociais, torres de habitação e velhos armazéns não é dos mais agradáveis de se ver. Mas há sempre manchas de arvoredo, alguma vegetação espontânea, bandos de patos e de gansos, e até uma public house de portas abertas para o canal. O curso das águas é por vezes quebrado por sistemas de comportas: são as eclusas (a que os ingleses chamam locks), elevadores aquáticos para que os barcos vençam os desníveis no leito do canal.

Os dois extremos do meu percurso, no Victoria Park e em Islington, compensam largamente o que de menos bonito encontrei no caminho. O canal acompanha em linha recta todo o extremo oeste do Victoria Park, que lhe retribui a gentileza resguardando-o sob uma alameda quase ininterrupta de tílias e plátanos. Em Islington, entre os arcos de uma ponte e do túnel, o canal alarga-se em mais um porto de abrigo para barcos: há árvores de ambos os lados e os jardins particulares estendem floridas ramadas sobre o muro. O silêncio e o sossego são inacreditáveis; mas dois lanços de escada devolvem-nos abruptamente ao tumulto da cidade.

12.5.07

Nos jornais- "Jardim Botânico renovado abre hoje"

Roseiral- Maio de 2006 (ver álbum)
«O Jardim Botânico do Porto reabre, hoje, depois de uma intervenção de dez meses. Novas plantações, o roseiral remodelado, equipamentos restaurados, caminhos renovados e sinalizados são algumas das melhorias que os visitantes poderão constatar. (...)» ler no Jornal de Notícias >

Botânico reabre hoje
«(...) Em reportagem publicada em Março > em O Primeiro de Janeiro, a coordenadora do projecto de recuperação do jardim, Teresa Andresen, sublinhou que se tratava de uma “obra pesada, que não brilha, mas é fundamental para o jardim funcionar”. O actual Jardim Botânico do Porto teve como principal impulsionador Américo Pires de Lima. » ler n'
O Primeiro de Janeiro >

Ler : O Jardim convida.
...................................
Actualização -13.05.07: Nova vida para o Jardim Botânico no PJ ; Enormes árvores, rãs e nenúfares para observar no Jardim Botânico no DN

Jardim Botânico do Porto no Dias com árvores

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Foto Julho 2002 (ver álbum)

11.5.07

"Ai flores, ai flores do verde pino"


Foto: inflorescência de Pinus pinaster -Parque da Cidade

-Ai flores, ai flores do verde pino,
se sabedes novas do meu amigo?
Ai Deus, e u é?

Ai flores, ai flores do verde ramo,
se sabedes novas do meu amado?
Ai Deus, e u é?

Se sabedes novas do meu amigo,
aquel que mentiu do que pos comigo?
Ai Deus, e u é?

Se sabedes novas do meu amado,
aquel que mentiu do que mi há jurado?
Ai Deus, e u é?

-Vós me perguntades polo voss' amigo,
e eu bem vos digo que é sã e vivo.
- Ai Deus, e u é?

-Vós me perguntades polo voss' amado,
e eu bem vos digo que é viv' e são.
-Ai Deus, e u é?

-E eu bem vos digo que é sã e vivo,
e seerá vosc’ ant' o prazo saido.
-Ai Deus, e u é?

-E eu bem vos digo que é viv' e são,
E será vosc'ant' o prazo passado.
-Ai Deus , e u é!
D. DINIS > (1261- 1325)

(Ontem não pude ir buscar o meu exemplar do Volume 4 -PINHAIS E EUCALIPTAIS da coleccção Árvores e Florestas em Portugal, já que para mim também tem sido impossível adquirir estes livros no quiosque habitual; tenho curiosidade em saber se esta poesia de D. Dinis é lá citada, pois no primeiro volume, no capítulo dedicado ao Pinhal de Leiria, transcrevem-se excertos de poesias referindo este célebre "cantar de amigo", mas não o próprio poema...)

Lábios da terra



Lamium maculatum / Lamium galeobdolon

Sento-me à porta de casa e penso. o céu onde começa? é imediatamente acima do chão? estamos sempre no céu então?

Ana Hatherly, in 63 Tisanas (1973)

10.5.07

Cerejeira-preta



Prunus serotina nas margens do Tâmega

Além dos plátanos, choupos, freixos, salgueiros, amieiros e de uma ameaçadora população de mimosas, as margens do Tâmega em Amarante acolhem algumas árvores exóticas invulgares, plantadas talvez pelos serviços do Parque Florestal: encontramos lá um Taxodium distichum com um pé mergulhado na água; uma Maclura pomifera; e uma Prunus serotina, espécie de cerejeira tão incomum entre nós que nem é mencionada no livro Portugal Botânico de A a Z. Originária do oeste do Canadá e dos EUA, onde é conhecida como black cherry (cerejeira-preta em tradução literal), é uma árvore de porte respeitável se comparada com a maioria das suas congéneres, atingindo alturas de 30 m. Tal como as europeias P. lauroceraus e P. lusitanica, as flores da P. serotina aparecem em cachos, que no seu caso são pendentes; mas, dessas três espécies, só a Prunus serotina é de folhagem caduca. A sua floração não é vistosa, pois só surge depois das folhas, ao invés do que sucede com as espécies do género Prunus mais ornamentais. Os seus frutos são comestíveis mas adstringentes, e a sua madeira, forte e de um bonito tom vermelho-acastanhado, é muito valorizada em marcenaria.

9.5.07

Lilás-da-Califórnia


Ceanothus thyrsiflorus var. repens

O Ceanothus thyrsiflorus é da família Rhamnaceae e nativo da América do Norte. Tem inflorescências piramidais (daí o epíteto thyrsiflorus) que lembram as do lilás, mas as flores são mais elaboradas: 5 sépalas pontiagudas, que se unem num disco, e 5 pétalas orelhudas, como capuchinhos que se estreitam na base. É arbusto de crescimento rápido, e rasteirinho, por isso apropriado como tapete em canteiros ensolarados - ou para jardins que têm dificuldade em sair do papel.

As espécies Ceanothus que dão flores brancas têm em geral ramos espinhosos (e keanothus é o termo grego correspondente). A mais famosa é a prima C. americanus, conhecida como New Jersey tea, cujas folhas substituíram as de chá chinês durante a guerra da independência americana (1775–1783), na sequência da Boston Tea Party - um protesto de colonizadores e índios americanos contra a Grã-Bretanha em Dezembro de 1773, durante o qual se afundaram cerca de 45 toneladas de chá chinês que, durante as semanas seguintes, revestiu as areias do porto de Boston.

8.5.07

Petição

LISBOA TEM QUE SER RESSARCIDA PELO ABATE DAS ÁRVORES NO CAMPO PEQUENO! «Face ao escandaloso abate levado a cabo pela CML/Espaços Verdes de cerca de 200 plátanos e jacarandás no Jardim do Campo Pequeno, árvores na sua maioria de grande porte, e em nosso entender, em bom estado fitossanitário (dado o levantamento fotográfico das árvores abatidas e dos cotos); vimos pelo presente dar VOZ AO NOSSO PROTESTO, EXIGIR que sejam apuradas RESPONSABILIDADES e que Lisboa e quem nela vive, trabalha e visita SEJAM RESSARCIDOS POR ESTE ABATE.»

imagem do blogue CIDADANIA LX

"la tala"

Pelos vistos continuou o abate das árvores no Campo Pequeno! Da previsão de nenhuma árvore (em 2005) o número passou para 54 depois 97 e actualmente parece que foram 200 os plátanos e jacarandás cortados.
Realmente, somos muito passivos e os nossos protestos, as nossas vozes raramente deixam de ser virtuais.
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A propósito, vejam só a manifestação (video no youtube- no ano passado) contra a "tala" das arvores do "Paseo del Prado" assunto que volta a estar na berra. A baronesa Thyssen, no protesto convocado pela Plataforma SOS Passeo del Prado que anteontem de novo saíu à rua, a certa altura, quando entrevistada para a comunicação social, fala mesmo (video), sem o nomear, do caso Avenida dos Aliados-Praça da Liberdade afirmando que o arquitecto "destruíu essa Praça maravilhosa e fez uma coisa moderna", coisa que lá não será permitida.
Mas nós deixámos, assim como permitimos que as árvores do Campo Pequeno fossem abatidas...
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Entretanto recebemos a notícia do lançamento de uma petição com o objectivo de se apurar a responsabilidade pelo abate das árvores.

Mais vale tarde do que nunca...

Os nossos agradecimentos aos Ecos da Falésia, um toque e BLOG DA SABEDORIA pelos awards!

7.5.07

Reabertura do Jardim Botânico do Porto

É já neste sábado, 12 de Maio, às 17h30m. A hora parece tardia, mas agora espera-se mais pela noite, e portanto não faltará luz à festa. Já tivemos oportunidade de espreitar o jardim renovado e podemos adiantar que a obra envolveu um redesenho completo dos caminhos no arboreto e na parte confinante com a VCI. O jardim parece maior, e tem perspectivas e recantos completamente novos; apesar de ainda faltarem algumas plantações, está muito mais bonito do que era antes.

Robinias em flor

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Ao lado das gledítsias (Gleditsia triacanthos)- que nesta altura do ano também estão cheias de pequenas flores esverdeadas- uma robínia (Robinia pseudoacacia) com os seus vistosos cachos de perfumadas flores brancas. Pertencem ambas à família das Fabaceae > mas a subfamílias diferentes. Fotos Abril /Maio (Ramalde)

Robinia pseudoacacia no Dias com árvores:

Mais informação: > Wikipedia (FR) ; > The-Tree (UK); > Universidade de Purdue (US); fotos Duke University (US)

5.5.07

Dez mil folhas


Myriophyllum aquaticum

Esta é uma herbácea da família Haloragaceae cuja identificação é difícil mas especialmente importante. É que as espécies Myriophyllum aquaticum (da América do Sul, conhecida como pinheirinha-de-água), e a europeia Myriophyllum verticillatum (que tratamos por erva-pinheirinha) são quase idênticas, mas a primeira é invasora preocupante dos nossos cursos de água enquanto a outra é, diz-se, inofensiva.

Ambas apresentam a característica disposição das folhas em verticilos (níveis em redor de um eixo, formando belos penachos); multiplicam-se facilmente por meios vegetativos, bastando que os ramos se fragmentem e voltem a encontrar solo que lhes agrade, o que é muitas vezes beneficiado pelos meios mecânicos usados para as remover dos lagos; e têm rizomas muito resistentes, que podem viajar longas distâncias agarrados ao casco de embarcações. Contudo a M. verticillatum está mais frequentemente submersa, aparecendo à tona quase só na época da floração, permitindo a entrada da luz e uma oxigenação mais eficiente do meio aquático, e portanto coexiste com maior diversidade de vegetação.

O exemplar da foto enche um pequeno tanque do Palácio de Cristal e tem muitos pezinhos fora de água à espera de sapatinho.

4.5.07

Senhoras árvores

Pinheiro Manso - Benagouro

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Pinheiro manso (Pinus pinea) em Benagouro freguesia de Vilarinho da Samardã.
Fica sobranceiro à estrada que liga Vila Real a Chaves e não passa despercebido à saída da curva mesmo ao pé do café Pinheiro. Visitámo-lo numa tarde quente de Setembro de 2003 -no mesmo dia em que também fomos conhecer o de Loivos. Com a provecta idade de 300 anos (de acordo com a documentação da DGF) foi classificado de interesse público em Janeiro de 2001.

"...and my heart has been struck with the hearts of the planes!"

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The Trees Are Down
"...and he cried with a loud voice: Hurt not the earth, neither the sea, nor the trees"-Revelation

They are cutting down the great plane-trees at the end of
the gardens.
For days there has been the grate of the saw, the swish of
the branches as they fall,
The crash of the trunks, the rustle of trodden leaves,
With the 'Whoops' and the 'Whoa', the loud common talk,
the loud common laughs of the men, above it all.

(...)
It is not for a moment the Spring is unmade to-day;
These were great trees, it was in them from root to stem:
When the men with the 'Whoops' and the 'Whoas' have carted
the whole of the whispering loveliness away
Half the Spring, for me, will have gone with them.

It is going now, and my heart has been struck with the
hearts of the planes;
Half my life it has beat with these, in the sun, in the rains,
In the March wind, the May breeze,
In the great gales that came over to them across the roofs from the great seas.
There was only a quiet rain when they were dying;
They must have heard the sparrows flying,
And the small creeping creatures in the earth where they were lying -
But I, all day, I heard an angel crying:
'Hurt not the trees.'

© by Charlotte Mew
(post dedicado a todos os que sentem uma profunda dor com o abate dos plátanos do Campo Pequeno em Lisboa)

3.5.07

Paz toponímica



O quarteirão da Paz é no Porto o centro de frágil resistência toponímica ao belicismo celebrado noutras partes da cidade; é o necessário mas insuficiente contrapeso à avenida dos Combatentes da Grande Guerra, às ruas dos Heróis, do Heroísmo e dos Mártires, às praças da Batalha e do Exército Libertador, às ruas, praças e avenidas do Marechal, do General, do Coronel, do Major, do Capitão, do Tenente e até do Sargento. A Paz toponímica sobe com dificuldade por uma rua íngreme, junta-se com a Saudade num pequeno largo em forma de quadrilátero irregular, e desfalece numa travessa tortuosa onde ninguém passa. A Misericórdia, representada por um lar da Santa Casa a um canto do largo, ergue contra a Paz um muro de indiferença.

No centro do largo da Paz, cercado pelo estacionamento e pelo trânsito ininterrupto, há um triângulo com relva, flores e árvores. Exactamente três árvores: um cipreste (Cupressus sempervirens), uma magnólia-de-Soulange e um castanheiro-da-Índia. O cipreste é sisudamente igual a si próprio em todas as estações do ano, e nunca se deixa tentar por indumentária nova; a magnólia já teve há dois meses a sua temporada de vaidade; agora é a vez de o castanheiro-da-Índia mostrar quanto vale: ainda mal fez abrir as folhas novas, e eis que já ostenta as pirâmides de flores brancas.

No Porto, os melhores locais para admirar a floração destas árvores são o Parque de Serralves e a rua de Guerra Junqueiro; em ambos se podem ver lado a lado as duas espécies de castanheiros-da-Índia comuns em Portugal: o Aesculus hippocastanum, de flores brancas, e o híbrido Aesculus x carnea, de flores cor-de-rosa. Tal como sucede com as magnólias, são os castanheiros-da-Índia brancos que primeiro florescem. Apresse-se por isso o leitor se ainda quiser ver-lhes as flores.

2.5.07

Dias sem árvores- Lisboa

Abate de 97 plátanos no Campo Pequeno
Eles comem tudo, eles comem tudo, eles comem tudo e não deixam nada!
(via Blogue de Cheiros)

Em chama



Calliandra e Brunfelsia em flor - Rua S. João de Brito (Porto)
Ao pé do Romeu e Julieta, um arbusto em chama vermelha.

No Verão de há dois anos perguntaram-me se conhecia as "acácias vermelhas" bastante comuns nas ruas e jardins de algumas cidades de Moçambique. Não sabia que árvores ou arbustos pudessem ser e presumi tratar-se desta bela ornamental de vistosos estames vermelhos que está agora em flor: uma Fabácea pertencente à subfamília Mimosaceae (ou Mimosoideae) do género Calliandra (do grego kalli = belo e andros = masculino, referindo-se aos estames coloridos; tal e qual como os Callistemon), mais concretamente, e salvo erro, uma Calliandra tweediei, originária da América do Sul. No Uruguai, por exemplo, chamam-lhe Plumerillo rojo ; na vizinha Espanha tem o belo nome de Arbusto de la llama .

Mas a Ver veio esclarecer que muito provavelmente as "acácias rubras" de Moçambique são Delonix regia, espécie também conhecida por flor-do-paraíso, pau-rosa e flamboyant (fonte). Pertence como a Calliandra à família das Fabáceas (ou Leguminosae) mas a outra subfamília: Caesalpinioideae

A cochonilha que não é praga


Tamariz no Largo de Cadouços, Foz do Douro - Abril de 2007

Trabutina mannipara é o nome científico do insecto que produz uma melada que foi chamada maná (Êxodo 16:1-35). «Javé disse a Moisés "farei chover para vós pão do Céu" (…) De manhã havia uma camada de orvalho ao redor do acampamento. (…) Quando a camada de orvalho se evaporou, na superfície do deserto apareceram pequenos flocos, como cristais de gelo. Moisés disse: "Isto é o pão que Javé vos dá para comerdes. Cada um apanhe quanto lhe baste para comer".»

Trabutina mannipara tem a seguinte classificação: pertence ao reino animalia, phylum artropoda, classe insecta, ordem hemiptera, superfamília coccoidea, família pseudococcidae, género trabutina. O nome vulgar para todos os insectos desta superfamília é cochonilha.

As cochonilhas são pequenos insectos que geralmente têm algum tipo de protecção para o corpo. Os jovens imaturos são móveis; as fêmeas adultas não têm asas e são quase totalmente imóveis. Os adultos machos têm um par de asas, mas são delicados e a sua vida é curta. Para se alimentarem, as cochonilhas inserem os estiletes na planta de modo a obterem, por absorção, o alimento de que necessitam. Excretam então a melada, uma substância rica em açucares, aminoácidos, amidas, proteínas e vitaminas. A melada está na origem de diversos tipos de relações tróficas, podendo envolver formigas colhedoras de melada e insectos fitófagos, predadores ou parasitóides que complementam a sua dieta com melada. Pode também servir, como no caso da melada produzida por T. mannipara, para complemento da alimentação humana. Sobre a melada é frequente desenvolver-se um complexo de fungos de cor escura, a fumagina, causa de depreciação de plantas ou frutos. Por causa da fumagina as cochonilhas são consideradas inimigas das culturas, obrigando à monitorização e à aplicação de meios de protecção. As cochonilhas são pragas das culturas agrícolas e das plantas ornamentais.

Tamarix mannifera é a planta que vegeta na Península do Sinai e é hospedeira de Trabutina mannipara. O género Tamarix (tamariz em português) engloba 75 espécies espalhadas pela Europa ocidental e mediterrânica e Ásia oriental. É um arbusto com ramos finos e longos de cor castanha; as folhas, muito pequenas, são escamiformes imbricadas, medem alguns milímetros, e são muito parecidas com as do cipreste, mas moles e caducas. As flores são brancas ou rosa e estão agrupadas em espigas cilíndricas. O tamariz é muito usado como planta ornamental pela sua graciosidade e diversidade cromática ao longo do ano (rosa, depois verde e mais tarde castanha). É também usada para fixação de dunas no litoral.

No arbusto Tamarix mannifera vive a cochonilha Trabutina mannipara, produtora de melada que, uma vez solidificada pelo frio da noite no deserto, pode ser recolhida e servir de alimento. Uma cochonilha que não é praga!


Texto e foto de Ana Aguiar (Eng. Agrícola)
Maio de 2007

1.5.07

Para dar sorte

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Convallaria majalis

Enquanto entre nós se enfeitam portas e janelas com maias para afastar "aquele cujo nome não se deve pronunciar" (mas que a minha vizinha chama à boca cheia "carrapato"), em França o "porte-bonheur" é o "muguet". Segundo parece, este hábito, agora extremamente popular de se oferecer raminhos de Convallaria majalis no primeiro de Maio para dar sorte, poderá ter-se tornado moda na corte do rei francês Carlos X . Não é excluída também a possibilidade de, tal como outros costumes florais do mês de Maio, radicar em tradições ancestrais associadas à Beltane (Bealtaine ou Beltaine conforme os idiomas > ) festa que marcava o início do Verão na tradição céltica (fonte).

A sua ligação à festa do trabalho é relativamente recente. Com efeito quando se fizeram os primeiros desfiles em França, os manifestantes ostentavam na lapela um triângulo vermelho que simbolizava aquilo que então reinvidicavam, ou seja a divisão do dia em três períodos iguais de "travail, sommeil et loisirs". Mais tarde, o triângulo é substituído por uma rosa brava vermelha (Rosa canina ), uma "églantine" , que alguns anos depois, por volta de 1907, terá dado lugar ao "muguet", símbolo da Primavera na região de Paris.

Apesar de alguns sítios on line mencionarem que esta pequena (ex-)liliácea é originária do Japão, Mrs Grieve no seu Modern Herbal informa-nos tratar-se de uma nativa das ilhas que entra na farmacopeia britânica e dá-nos a conhecer algumas das lendas e tradições associadas a esta planta conhecida em língua inglesa por "May Lily, Convallaria, Our Lady's Tears, Convall-lily, Lily Constancy, Ladder-to-Heaven, Jacob's Ladder, Male Lily", para além de, claro, Lily-of-the-Valley.
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A ler também Muguets for May Day , com o toque muito especial da Julie Ardery, no Human Flower Project

"Maias" nas portas e nas janelas

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uma tradição que se mantém. Fotos hoje, no Porto, freguesia de Ramalde.

A ler: As maias por Rui Reininho, no JN.

Arroz-dos-muros


Sedum brevifolium

Este arroz é o complemento natural à sopa-de-pedra: coloniza escarpas nuas de zonas temperadas, sobrevivendo das partículas que resultam da erosão das rochas. Suporta admiravelmente grandes diferenças de temperatura e a reduzida humidade destes ambientes à custa de um metabolismo típico das crassuláceas que lhes permite estarem «acordadas» apenas de noite. Em afloramentos rochosos não pisoteados por másculos alpinistas, nem sujeitos a movimentações excessivas do solo, estendem-se grandes lençóis destas flores brancas a coroar caules vermelhos revestidos por folhas carnudas. E se se for paciente, sem se demorar em ajustes de profundidade de campo e velocidade, podem fotografar-se belas borboletas que as visitam em busca do farto néctar que produzem.