31.5.07

Festival de Jardins em Ponte de Lima

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Festival Internacional de Jardins
em Ponte de Lima -até 30 de Outubro, nos campos de S. Gonçalo, entre as pontes romana e a de Nossa Senhora da Guia, na margem direita do rio Lima (ver fotos do rio - no Centro de Recursos de Ponte de Lima > ) .
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Ponte de Lima no Dias com árvores:
Jardins do Lima -11.8.06
Amieiros nas margens do Lima -24.5.06
As palavras correctas parecem às avessas -14.10.05
"Ah ribeira do Lyma celebrada..." -9.10.05
Ponte de Lima -8.10.05
Festival Internacional de Jardins - Ponte de Lima -3.6.05

30.5.07

Javalis e nuvens em Hampstead


Hampstead: plátanos; castanheiro-da-Índia na paragem do 24

Tudo indicava que se iria repetir o padrão dos dias anteriores: céu carregado de manhã; à tarde um sol fugidio espreitando por entre nuvens ligeiras. Por isso deixei para depois do almoço o passeio obrigatório a Hampstead Heath e durante a manhã andei ao acaso pelas ruas do bairro, desde a comercial Hampstead High Street aos recantos arborizados das zonas residenciais: ruas num sobe-e-desce de carrossel, com muita sombra de plátanos, tílias e castanheiros-da-Índia, e muito colorido de flores nos jardins privados. Talvez por deferência para comigo, as nuvens sustiveram a carga de água enquanto lhes foi possível; quando romperam, acolhi-me a uma livraria em South End Road, comprei um livro, e fui fazer horas com ele para uma cafetaria. Foi então que soube da improvável relação entre nuvens e javalis.

O livro é uma tradução inglesa de La famosa invasione degli orsi in Sicilia, escrito e ilustrado por Dino Buzzati (1906-1972). Quando os ursos dormem à noite na floresta, são atacados de surpresa por um esquadrão de perigosíssimos javalis ao serviço do Grão-Duque da Sicília. Nada pode salvar os ursos a não ser o astrólogo Professor Ambrósio, que gasta na ocasião um dos dois únicos feitiços a que a sua varinha mágica lhe dava direito: «E vejam só, um dos javalis, o maior e o mais adiantado de todos eles, ergueu-se no ar de repente e começou a inchar e a inchar, tornando-se gradualmente num verdadeiro balão; um lindo balão cheio de ar que esvoaçou para o céu. E a esse javali seguiu-se um segundo, depois um terceiro e um quarto. Tão pronto chegavam perto, logo os mortíferos javalis eram misteriosamente enfeitiçados e inchavam como bolas de futebol.»


Hampstead Heath: vista de Parliament Hill; faia-rubra e castanheiro-da-Índia [clique para aumentar]

À tarde, prevenido com um melhor entendimento desse interessante fenómeno atmosférico que são as nuvens (especialmente aquelas que pela forma evocam os animais que foram), e sob um sol intermitentemente radioso, entrei em Hampstead Heath e subi de imediato à Parliament Hill. Terá sido neste banco que Judi Dench, professora a caminho da reforma no filme Notes on a scandal, ensaiava os seus engates? A vista, a mais famosa de Londres, é sem dúvida a mesma, mas o banco pode ter sido qualquer um dos outros. Todos eles estão desocupados nesta tarde de terça-feira; e nem eu, que vim à caça de árvores com máquina a tiracolo, me posso aqui demorar.


Hampstead Heath: carvalhos (Quercus robur) [clique para aumentar]

29.5.07

Escovinha


Centaurea montana - Kew Gardens

Florão é o que se chama a esta inflorescência com uns 7 cm de altura, solitária, com muitas florinhas em capítulo. Na Centaurea montana há flores exteriores, radiais, tubulares, com cinco pétalas azuis; e outras interiores que são mais especializadas e por isso se reduzem a tubos estreitos de cor violeta muito juntos entre si. Não há sépalas mas as brácteas distinguem-se bem pela margem negra franjada.

Esta planta é perene e gosta de frio, de terrenos lavrados, bosques mistos e montanhas. Diz-se que era frequente nos nossos campos de trigo mas, com as técnicas agrícolas modernas, sobretudo o uso generalizado de herbicidas, está a desaparecer desse habitat. O género Centaurea abriga mais de 500 espécies de herbáceas ou subarbustivas maioritariamente da região mediterrânica e Turquia, algumas com fama como ervas medicinais.

28.5.07

"Every breath you take..."

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Se me pedissem para escolher uma árvore, uma apenas, a que mais me importa e a de que mais gosto, não hesitava, claro. É este liquidâmbar que vi crescer e me entra por assim dizer pela casa, agora que subiu e ultrapassou a altura do terceiro andar onde vivo. Gosto dele de todas as maneiras, em todas as estações, em todas as alturas do dia e da noite: com folhas e sem elas, ao sol, à chuva e em dias de ventania. Sim, gosto particularmente dele quando o vento o envolve e o balanceia, fazendo-o ramalhar (YouTube) .

Ultimamente, não me sai da cabeça a canção do Sting e ando a tentar adaptar-lhe a letra. Não é muito original e fica até um pouco ridículo. But who cares? Não foi o poeta que disse que todas as canções de amor são ridículas (ou qualquer coisa do género)?

Every leaf you take
Every move you make
Every branch you break
Every colour you take
I'll be watching you

Every single day
...
Fotos: Quanto cresce uma árvore em vinte anos? Primavera 1986; Outono 2003; Inverno 2004; Primavera 2005

É com este post que, seguindo a sugestão do Jardinando sem parar resolvi participar na 12ª edição do The Festival of the Trees , este mês acolhida pelo arboreality.

26.5.07

Quimera


+Laburnocytisus adamii - Kew Gardens

Em 1825, sete anos depois de Mary Shelley ter escrito Frankenstein, Louis Adam, viveirista parisiense, criou este estranho arbusto que é uma amálgama de duas plantas distintas, ambas leguminosas: a giesta-violeta (Cytisus purpureus) e o laburno (Laburnum anagyroides). Como na altura a fama circulava devagar, não foi ao monstro então recém-criado que se associou esta planta, mas sim à quimera, criatura com três cabeças flamejantes, corpo meio-cabra-meio-leão e cauda de dragão que assombrou a antiga Grécia e parece ter sido avistada pela última vez por Homero, o poeta cego.

Ao enxertar a giesta no laburno, Louis Adam notou que uma ramada perto do ponto de enxertia exibia características intermédias às duas plantas. Usando reprodução por estaca, obteve então um arbusto que na forma se assemelhava ao laburno (ver 4.ª foto aqui), mas com folhas mais pequenas; as suas flores, em cachos pendentes, tanto eram amarelas (iguais às do laburno), como violetas (iguais às da giesta), como ainda violetas tingidas de amarelo.

Esta planta não é um híbrido, pois nela os tecidos dos dois progenitores mantêm-se separados. As células que formam a camada exterior pertencem à giesta, revestindo por completo o miolo formado por células de laburno.

[Informações retiradas da placa explicativa colocada ao lado da planta, nos Kew Gardens.]

25.5.07

A ler

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«A Tília

Junto à fonte, perto do arco,
Encontra-se uma tília.
Sonhei, na sua sombra,
Um sonho doce. (...)»



A ler (e a ouvir) o post dedicado pelo Paulo A ao Jorge Rodrigues e ao Ritornello:
Der Lindenbaum de Shubert cantado por Dietrich Fischer-Dieskau, no Valkirio.

porque já sinto saudades e um vazio que dificilmente será preenchido-
também por isso não vou deixar de assinar esta petição.

Can't - miss - it


Consolida ambigua, Parque de Avioso (Maia)

Enquanto não surgem as flores, a Consolida ambigua (ou Delphinium ambigua), originária da Europa, África e Ásia, é simplesmente uma herbácea com folhas muito recortadas em filamentos longos, que lhe dão o nome francês pied d'alouette (pé de cotovia). Mas por altura da Páscoa as inflorescências erectas (em latim consolida) obrigam a uma nomenclatura mais ajustada:

(a) Quando as flores começam a abotoar, uma sépala em formato de espora dá-lhes a aparência de golfinhos elegantes - e delphinium deriva do grego delphinos, golfinho. A preferência dos mais cépticos nesta interpretação vai para a designação inglesa larkspur e a portuguesa esporas.

(b) Mal as flores abrem, uma pétala é mais notória ao centro e desenha, com matizes de cor, um coelhinho, de orelhas redondinhas e narizito típico. Agora a flor merece outro nome, e os ingleses optam por Easter bunny flower.

Não admira que o epíteto específico seja ambigua, dada a incerteza na escolha do que de facto identifica esta planta. Que gosta de sol e canteiros de terra rica, permeável e irrigada com frequência e, sendo anual, se multiplica apenas por sementes, devendo a semeadura ser feita no Outono para que a floração ocorra na época dos coelhos.

24.5.07

Variações em azul


Syringa vulgaris - Kew Gardens, Maio de 2007

Por cá este ano quase não demos pelos liláses: no jardim da Praça da Galiza, onde eles se costumam exibir entre Abril e Maio, uma poda mal calculada abortou quase toda a floração. E os liláses, como arbustos ornamentais que são, valem pela cor e pela fragrância que agora foram impedidos de dar. A visita aos Kew Gardens serviu para refrescar a memória dos sentidos, com dezenas de liláses em flor de todos os tons possíveis entre o branco, o azul e o violeta, exalando perfumes variadíssimos que as palavras são incapazes de descrever.

23.5.07

Onde está

...Lineu?

Quem o descobre nesta gravura do seu
Hortus Cliffortianus* ?





*Esta obra basilar (de seu título completo Hortus Cliffortianus: plantas exhibens quas in hortis tam vivis quam siccis Hartecampi in Hollandia coluit G. Clifford) onde o autor já utiliza consistentemente o sistema binominal de nomenclatura > é uma espécie de catálogo ilustrado das plantas "vivas e secas" das estufas, jardins e herbário da propriedade que George Clifford > possuía perto de Haarlem, onde Lineu trabalhou entre os anos de 1735 e 1737.
..
Celebração do tricentenário do nascimento de Lineu > Linnaeus 2007

Foto de Manuela D.L.Ramos (exemplar pertencente ao fundo antigo da Biblioteca do Departamento de Botânica da UP )

Manta de neve


Sutera cordata, Parque de Serralves

Depois da intervenção no Parque de Serralves, receámos que a hera invadisse todo o solo não relvado, troncos e muros, como é usual em espaços onde o seu crescimento e distribuição não são controlados. É que esta trepadeira resistente e voraz teve, neste plano de arborização, um incentivo inusitado para planta tão invasora: foram plantados milhares de pés dela, devidamente protegidos das pisadelas do público até que firmassem raízes. Mas afinal nem toda «a Gália foi ocupada pelos romanos...». Recantos ensolarados entre árvores e arbustos são agora sala para a visita de uma plantinha anual, rasteira, de flores brancas tubulares minúsculas, com um centro amarelo atraente.

Sendo sul-africana, a Sutera cordata precisa de sol e torrões bem drenados para florir abundantemente de Abril a Novembro. O nome do género homenageia o botânico suiço Johann Rudolf Suter (1766-1827, autor de Flora Helvetica (1802). Uma outra espécie, a Sutera aquatica, é usada como bálsamo para queimaduras e frieiras.

22.5.07

Boa notícia

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O lançamento do site que disponibiliza on line algumas das colecções do Herbário do Departamento de Botânica > da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra é uma óptima notícia assinalando da melhor maneira o Dia Mundial da Biodiversidade que hoje se comemora.

Fotografias Cycas revoluta > no Jardim (2006.05) e no Museu (2006.11)- clicar para aumentar
Apontadores:
  • Video de apresentação do Coimbra Herbarium
  • "Inauguração da versão virtual do maior Herbário Português, em Coimbra"- no Naturlink
  • "UC lança colecção virtual com mais de 30 mil plantas" in Ciência Hoje
  • «O Herbário de Coimbra (sigla internacional COI) tem uma colecção que ultrapassa os 700.000 exemplares, de longe a maior do país e a segunda da Península Ibérica. O sítio na Internet que amanhã se inaugura foi um projecto financiado pelo POSC (Programa Sociedade do Conhecimento-685/2.2/C/CEN), alojado na FCTUC e em colaboração com a Naturlink (http://www.naturlink.pt/). » in CienciaPT
  • «O herbário do Departamento de Botânica da Faculdade de Ciências da e Tecnologia da Universidade de Coimbra está agora disponível no endereço http://herbario-digital.bot.uc.pt/ A iniciativa pretende assinalar a passagem do Dia Mundial da Biodiversidade. (...) Segundo Fátima Sales, directora do herbário, este mega projecto visa "não só a disponibilização gratuita a nível mundial de informação contida nesta colecção biológica, mas ainda intervir com qualidade e em português, com a diferença que o estatuto de investigação universitária a ele associado lhe permite, na educação científica na área da botânica associada à diversidade".» no Primeiro de Janeiro

Sobreiro centenário classificado- Canhestros

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Este imponente sobreiro (Quercus suber), com a idade provável de cerca de 200 anos, classificado de interesse público em Outubro de 2001, fica localizado no lugar de Canhestros, freguesia e concelho de Silves.
Na altura da visita, em Agosto de 2004, existia um arremedo de placa > ,tombado por terra, evidenciando o despeito que alguém sentia por aquele estatuto, impeditivo do avanço de parte do projecto de construção (creio que o alargamento de um acesso ou algo que o valha como nos informaram então).
Tenho curiosidade em saber se quando foi visitado pelos nossos amigos do Sombra Verde, há cerca de um mês, o sobreiro dito de Canhestros estava identificado como árvore de interesse público. Realmente, é uma pena que o exemplo do Sobreiro de S. Geraldo não seja seguido pelas autarquias. Na minha opinião a lei de 1938 deveria ser actualizada de modo a incluir- entre outras coisas- a obrigatoriedade da sinalização das árvores classificadas.

21.5.07

Sobreiro de S. Geraldo



Fotos de Eduardo Basto

«Não me estou a fazer à publicação no DcA, (...) mas achei que se calhar vos interessaria. A árvore, aparentemente mais acarinhada que o costume, fica em Veiros, que é uma terrinha mais ou menos entre Estarreja e a Murtosa -- até há uma placa na estrada a dizer "árvore monumental" ou algo parecido, já não me lembro bem. Não sei cá PAPs nem coisas nenhumas dessas, mas a árvore tem um aspecto invulgar, bastante curioso, com o tronco curto mas ainda assim muito irregular.»

Claro que nos interessa e muito, Eduardo. É um exemplo do que nós gostaríamos que fosse feito com todas as árvores de interesse público no país: divulgadas e acarinhadas. No Porto, onde nem uma só dessas árvores tem placa, quase ninguém repara nelas ou sabe da sua existência. Estão pois de parabéns a população de Veiros, a sua paróquia (que é proprietária da árvore) e ainda, por promoverem este sobreiro multi-centenário como património local digno de ser visitado, a Junta de Freguesia de Veiros e a Câmara de Estarreja.

20.5.07

Cebola-da-Pérsia



Cansei os braços
a pendurar estrelas no céu.
Destino dos fados lassos.
Tudo termina em cansaços
braços
e estrelas
e eu.


António Gedeão, Balão Esvaziado (in Movimento Perpétuo, 1956)


Allium cristophii

19.5.07

Uma flor tranquila



Hypericum perforatum, jardins do Palácio de Cristal

Este hipericão, da espécie Hypericum perforatum, parece ter sido costurado à pressa: as flores têm pétalas ligeiramente assimétricas, e ainda guardam alinhavos e um debrum a margeá-las para que não desfiem; nas folhas, opostas, sésseis e com veio central proeminente, são nítidos uns quase-furinhos, resultado de uso descuidado de alfinetes.

Uns e outros são de facto glândulas e constituem a característica mais útil na identificação desta planta. Quando pressionadas, libertam um óleo avermelhado que se julga conter o princípio activo usado em outros tempos para curar quase tudo, e que tem hoje presença obrigatória em anti-depressivos naturais.

Espontânea na Europa, esta herbácea é uma praga em solo americano.

18.5.07

A ler

"Um cheiro que se não estranha..."

Título furtado daqui


Laranjeiras em frente ao Museu Monográfico de Conímbriga > - fotos Abril de 2007

«Deitei-me e adormeci.
Debaixo da laranjeira,
Caiu-me uma flor no rosto:
Ai! Jesus, que tão bem cheira!»

17.5.07

Domingo no parque com sorvete



Victoria Park (oeste): cedro-do-atlas e freixo (Fraxinus excelsior)

Há três categorias de veículos motorizados que podem circular num parque londrino: os de emergência, os do serviço de manutenção do próprio parque, e os de venda de sorvetes. Só os últimos são imprescindíveis. Quando ao princípio da tarde a banda sonora da passarada é interrompida para a sesta, é a carrinha dos sorvetes, estridulando um jingle bells circense a cada centena de metros, que enche os ouvidos dos frequentadores do parque. E esse afago auditivo é só o preâmbulo da sua função mais nobre, que é a de nos comprazer o paladar. Uma carrinha cantante, uma sombra de árvore, um banco de jardim, um sorvete de morango e baunilha: eis o clímax de um perfeito domingo à tarde no parque.

[Um parêntesis linguístico-sociológico. O termo sorvete é mais usado no Brasil do que em Portugal: aqui quase toda a gente diz gelado, palavra muito menos expressiva. Em Portugal os sorvetes são coisa do Verão, mas em países como a Inglaterra, onde os meses quentes pouco têm de escaldante, são consumidos o ano inteiro.]

Três razões me levaram ao Victoria Park no meu último domingo em Londres: a pulsão coleccionista de converter em imagens reais todas as manchas verdes no mapa da cidade; o percurso no autocarro 55 entre Oxford Circus e o East End londrino; e o facto de ser no Victoria Park ou na vizinhança que decorrem algumas peripécias de dois livros de Barbara Vine (Asta's Book e The Chimney Sweeper's Boy). Assim como Charles Dickens e Conan Doyle construíram uma Londres oitocentista ficcionada que se tornou mais real do que a Londres dos historiadores, também Ruth Rendell / Barbara Vine nos tem legado, em romances que de policial pouco ou nada têm, um perdurável retrato físico e social da Londres contemporânea.

O Victoria Park ocupa 87 hectares; tal como o Regent's Park (com o qual tem grandes semelhanças), foi inaugurado em 1845 e é dos parques mais antigos de Londres. Os vitorianos consideravam os parques «como instrumentos para a melhoria física e moral, principalmente das classes trabalhadoras» [citação daqui], e o parque foi uma oferta da coroa às gentes pobres do East End. Ladeado por dois canais (o Regent's Canal a oeste e o seu afluente Hertford Union Canal a sul), é atravessado por uma rodovia (Grove road) que o divide em duas partes bem distintas: a metade ocidental é mais frondosa e pitoresca, com sebes de plantas variadas, canteiros floridos, muitas árvores ornamentais em maciços e alamedas, e um lago cheio de meandros com uma ilha arborizada ao centro. É aqui que as mães vêm empurrar os carrinhos de bebé, enquanto os maridos (enfim, nem todos) e os filhos mais graúdos se divertem nos campos de jogos que preenchem boa parte da metade oriental. Mas mesmo aí há um lago enfeitado com muitos lírios amarelos e um jardim inglês à moda antiga (old english garden) protegido por um gradeamento; delimitando o parque a nordeste, alonga-se a mais comprida alameda de plátanos que alguma vez percorri. E foi também na metade oriental que uma benemérita carrinha sorveteira completou a perfeição de uma tarde de domingo.



Victoria Park (leste): lírios amarelos e castanheiro-da-Índia em flor; laburno (Laburnum anagyroides) e campo de jogos

16.5.07

De olho nele...

e ele de olho em mim.

Ver e ouvir no You tube >
Foi durante a minha visita anual ao bonito castanheiro da Índia que fica no largo dos Álamos - num bairro cujas ruas têm nomes de árvores não concordando nenhum deles com os espécimes que nelas se encontram- que passei por este melro.
Todos nós conhecemos o assobio desta ave e o seu canto (considerado por alguns entendidos > como o mais belo da Europa ), mas como chamar a este repetitivo som metálico? E como interpretá-lo? A mim - que não percebo nada de aves- pareceu-me um chamamento, mas talvez esteja enganada (ver "oiseaux.net").

Quedei-me uma boa meia hora a observá-lo (e pude verificar pelas fotos e pelo filme > que também ele esteve de olho em mim): brilhando ao sol, saltitando do telhado para o murete, e deste para o chão, voltava sempre para o interior da japoneira- muitas vezes com alimento no bico- donde continuava o seu estridente... «aflautar, agloterar, amiudar, apitar, arensar, arremedar, arrolar, arrulhar, assobiar, atitar, bufar, cacarejar, caquerejar, carcarear, carcarejar, chalrar, chalrear, chiar, chilrar, chilrear, chirrear, chirriar, clarinar, cocoriar, cocoricar, corruchiar, corujar, corvejar, crocitar, crujar, cuarlar, cucar, cucular, cucuricar, cucuritar, dobrar, engabrichar, estalar, estralhar, estribilhar, falar, fraquejar, gaguear, galhear, galrear, galrejar, ganizar, gargalhar, gargantear, garrir, garzear, gazear, gazilar, gazinar, gazular, gemer, gloterar, glotorar, gorgolejar, gorjear, gracitar, gralhar, gralhear, grasnar, grasnir, grassitar, grazinar, grinfar, gritar, grugrujar, grugrulejar, grugrulhar, grugrurejar, grugulejar, grugulhar, grugurejar, gruir, grulhar, guinchar, modular, palrar, papear, piar, picuinhar, pipiar, pipilar, pissitar, pistar, pupilar, redobrar, regorjear, remedar, restridular, retinir, rir, rouxinolar, rouxinolear, serrar, soar, suspirar, sussurrar, taralhar, taramelar, taramelear, tartarear, tentenar, tinir, trilar, trinar, trinfar, trissar, trucilar, turturejar, turturinar, turturinhar, ulular, vozear, zinzilular» ( fonte: Houaiss)
Que termo usar de entre alguns dos que se encontram nesta longa lista das vozes das aves? Ainda não me decidi, porque, para ser sincera, não sei qual o mais adequado.

15.5.07

Filírea


Phillyrea latifolia

Depois de 17 anos à espera, os sábios preparam-nos agora para recebermos de braços abertos, daqui a 10 anos e só então devidamente aprovado, o acordo ortográfico luso-brasileiro. Tarefa árdua, de que nos cabe ir usando as palavras de que a língua portuguesa se orgulha, não vá dar-se o caso de as esquecermos e já não constarem das partilhas. Como, por exemplo, aderno e lentisco. Designam as duas únicas espécies do género Phillyrea, a P. latifolia e a P. angustifolia, ambas espontâneas em Portugal, Norte-de-África e Turquia.

São arbustos da família Oleaceae, como as oliveiras, os ligustros, os lilases, os freixos, os sinos-de-ouro ou os jasmins. De crescimento lento e flores minúsculas esverdeadas (embora abundantes e vistosas em conjunto), dir-se-iam plantas pouco ornamentais. Contudo têm folha perene com bordo transparente e um biquinho no ápice, os frutos são bolinhas coloridas e, quando idosas, exibem troncos encurvados muito elegantes - de madeira clara e maleável, que é usada, como a de buxo, em esculturas. E, claro, sendo sobreviventes das nossas florestas, suportam corajosamente os ventos, a poluição atmosférica e as secas.

Antes da importação maciça no século XIX de perenifólias do Japão e China, eram os adernos-de-folha-estreita e os adernos-de-folha-larga que se apreciavam em jardins soalheiros. Mas não conhecemos no norte exemplares de grande porte deste género. O da foto está num bosquete de arborização recente do Parque Biológico de Gaia, vizinho de espécimes jovens de P. angustifolia.

Segundo o dicionário Houaiss, o termo phillyrea deriva do grego philúra, tília.